Ação e pluralidade: desenvolvendo o conceito de ação a partir da vida ativa



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Ação e pluralidade: desenvolvendo o conceito de ação a partir da vida ativa.

Samuel de Oliveira Botelho1, Maria Cristina Muller2, e-mail: mcrismuller@hotmail.com


Universidade Estadual de Londrina
Ciências Humana/Filosofia
Palavras-chave: Hannah Arendt; Condição Humana; Atividades Humanas;
RESUMO
A construção do texto pretende desenvolver o conceito de ação no pensamento de Hannah Arendt. A compreensão desse conceito se dará pela pesquisa teórica, apoiada em revisão bibliográfica de obras da filósofa, em especial A condição humana, e de seus comentadores. Para tanto, o trabalho será desenvolvido abordando-se a discussão sobre a vida ativa: trabalho, obra e ação. Antes de se adentrar na discussão sobre a ação, será discutido a separação entre domínio público e privado, ante a relevância dessa separação que determinará a discussão entre trabalho, obra e ação. Para assim, adentrar-se no conceito de ação, expondo-se a importância dessa atividade para a humanidade, cuja condição e legitimidade está na pluralidade, assim como a natalidade terá o significado do novo para a ação. Hannah Arendt define cada atividade em seu respectivo domínio, assim como em sua condição mais geral, para não cair em problemas de uma atividade se sobrepor a outra.

INTRODUÇÃO E OBJETIVOS


Este artigo abordará o conceito de ação tratado por Hannah Arendt no livro A Condição Humana, cujo intuito é a sua compreensão desse conceito ante a sua importância para o pensamento arendtiano, pois se configura como uma das atividades humana. Para tanto, a definição será feita a partir da exposição das condições humanas da pluralidade e da natalidade, pois a condição da pluralidade dá a possibilidade da ação, possibilidade que se trata do se expressar em um local onde todos são iguais. Já a condição da natalidade se trata do novo, novas pessoas que iniciaram suas ações no mundo e está relacionada com a pluralidade. Ainda, há a necessidade de se definir o domínio público e sua importância para a ação, domínio este como local de aparecimento, onde os homens expressam seu discurso como opinião. Será também tratado sobre o trabalho, a obra e suas condições, assim como sobre o domínio privado como lugar destas duas atividades, para, então, definir o papel da ação para os homens e como ela se relaciona com a vida.

Arendt define as condições da existência humana em vida, natalidade e mortalidade, mundanidade, pluralidade e o planeta Terra e essas condições se relacionam com as atividades humanas. Assim, a atividade do trabalho se relaciona mais estritamente com a vida, a atividade da obra com a mundanidade e a atividade da ação com a pluralidade e natalidade.



Procedimentos Metodológicos

Consiste em uma abordagem teórico-conceitual dos escritos de Arendt, para que assim se possa identificar o sentido atribuído pela autora à ação. Os materiais utilizados para o relatório formam os livros A Condição Humana e A Dignidade da Política, além dos textos de comentadores.



Resultados e Discussão


O termo público se relaciona com dois fenômenos que são ligados, mas não são idênticos (ARENDT, 2016, p. 61). O primeiro fenômeno refere-se a “tudo o que aparece em público e pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível” (2016, p. 61), o público deve ser o lugar onde o que “é considerado relevante, digno de ser visto ou ouvido, de sorte que o irrelevante se torna automaticamente um assunto privado” (ARENDT, 2016, p. 63). O segundo fenômeno “significa o próprio mundo, na medida em que é comum a todos nós e diferente do lugar que privadamente possuímos nele ” (ARENDT, 2016, p. 64). Este mundo não tem a ver com o mundo como condição geral da vida orgânica (ARENDT, 2016, p. 64), mas sim com “[...] o artefato humano, com o que é fabricado pelas mãos humanas, assim como com os negócios realizados entre os que habitam o mundo feito pelo homem. ” (ARENDT, 2016, p. 64). Será este mundo público que possibilitará o relacionamento dos homens em um mundo comum, que diga respeito a esses homens, como um “espaço-entre [in-between], o mundo ao mesmo tempo separa e relaciona os homens entre si” (ARENDT, 2016, p. 64). Os assuntos que são discursados dependem de um senso de realidade que é dado na aparência (ARENDT, 2016, p. 63), e por ser o domínio público o espaço da aparência, o discurso público é iluminado por este domínio, onde os assuntos mais íntimos não podem ser iluminados pelo domínio público.

O domínio público é onde devemos ter liberdade pública para discursar, o sentido do discurso é a liberdade que é garantida pelo espaço público, a pluralidade que se tem com a liberdade de discurso é importante para a ação, a pluralidade “é, portanto, ao mesmo tempo igualdade e distinção. A ação tanto depende da pluralidade quanto a afirma, pois, ao agir, o indivíduo confirma sua singularidade e aparece a outros indivíduos únicos” (2007, p. 42)3. No mundo privado há uma diferença muito grande com o público, nele se encontra um certo conforto de amor familiar, o indivíduo é privado da publicidade de ser visto, se encontrando muitas vezes ausente de outras pessoas “e privado da possibilidade de realizar algo mais permanente que a própria vida” (ARENDT, 2016, p. 72).

O trabalho é a mais privada de todas as atividades (ARENDT, 2016, p. 137), que segue o processo biológico do corpo, onde “crescimento espontâneo, metabolismo e resultante declínio então ligados às necessidades vitais produzidas e fornecidas ao processo vital pelo trabalho. ” (ARENDT, 2016, p. 9). Arendt afirma que a condição humana do trabalho é a vida (2016, p. 9), assim o trabalho garante a vida quando garante a necessidade de manter-se vivo. Quando é dito que o trabalho é uma atividade privada, quer dizer que no trabalho vemos uma certa “conformidade”4 que liga os trabalhadores uns aos outros, através do ritmo biológico do trabalho, unindo os trabalhadores para o alívio das penas do trabalho, conformidade esta, que não pode discursar em público (ARENDT, 2016, p. 265). A obra também é privada em seu sentido de projeto, onde o artífice se isola e “somente quando o produto está terminado e o mestre e artífice para de operar é que ele pode abandonar seu isolamento” (ARENDT, 2016, p. 201). Com o objeto pronto para o uso o artífice se volta ao domínio público para trocar seus bens, saindo do isolamento do privado (ARENDT, 2016, p. 200). O mundo público do homo faber, difere do mundo das aparências que veremos na ação, ele é um mundo onde se tem uma mediação do objeto que pretende ser trocado (ARENDT, 2016, p. 259).

A atividade da ação é diferente das outras atividades porque é a “única atividade que ocorre entre os homens, sem a mediação das coisas ou da matéria” (ARENDT, 2016, p. 9), a ação “corresponde à condição humana da pluralidade” (ARENDT, 2016, p. 9). A pluralidade é “a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda vida política” (ARENDT, 2016, p. 9). A política deve ser feita em pluralidade, ao mesmo tempo que “somos todos iguais, isto é, humanos, de um modo tal que ninguém jamais é igual a qualquer outro que viveu, vive ou viverá. ” (ARENDT, 2016, p. 10), a humanidade se dá na iniciativa de fazer algo novo através do aparecimento, “trata-se de uma iniciativa da qual nenhum ser humano pode abster-se sem deixar de ser humano. ” (ARENDT, 2016, p. 218). Vemos que para Arendt, assim como para os romanos, estar vivo é agir, a morte se dá quando não estou mais no espaço-entre agindo, como foi dito por Arendt: “as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere) ” (2016, p. 10), para os romanos assim como para Arendt, os dois termos são iguais, a vida em seu sentido não biológica tem igualdade com estar entre os homens. Arendt partilha do mesmo pensamento. Se não houver ação não poderemos considerar sequer um indivíduo como ser humano, como foi dito, a pluralidade é condição da existência humana, a esfera pública proporciona o desenvolvimento da singularidade do indivíduo em um meio plural, se compreendendo através do discurso e da ação (2016, p. 217).

No domínio da ação, os homens devem sempre lembrar de suas condições mais gerais, como a natalidade, que se relaciona com a ação muito estreitamente, a ação deve prover as condições de aparecimento dos recém-chegados (ARENDT, 2016, p. 217) pois, “o novo começo inerente ao nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, de agir” (ARENDT, 2016, p. 11). Os recém-chegados devem ter o mundo preparado para desenvolver o seu discurso, para Arendt eles são um novo começo, e devem “tomar iniciativa, iniciar” (ARENDT, 2016, p. 219), com este início eles caracterizam seu aparecimento no mundo da política, onde, “Com a criação do homem, veio ao mundo o próprio princípio do começar, e isso, naturalmente, é apenas outra maneira de dizer que o princípio da liberdade foi criado quando o homem foi criado” (2016, p. 220).

A ação deve ser feita sempre em conjunto com outros, quando a ação é feita no isolamento, o agente é “privado da capacidade de agir” (ARENDT, 2016, p. 233). A ação e o discurso precisam ser feitos para outros. Com a necessidade de se mostrar aos outros com a ação e discurso, se encontra no espaço das aparências o local “no qual eu apareço aos outros e os outros a mim; onde os homens existem não meramente como as outras coisas vivas ou inanimadas, mas fazem explicitamente seu aparecimento” (ARENDT, 2016, p. 246). Este espaço se forma com a ação das pessoas e desaparece quando não se existe pessoas agindo, quando a discussão pública se acaba.



Conclusão


O presente texto, buscou tratar sobre a atividade da ação, sua relação com a condição humana, com o domínio público que preserva a ação e o papel de cada atividade dentro da condição humana de modo a ressaltar a importância da ação e discurso que estão intrinsecamente ligados, pois ao mesmo tempo que agimos a ação deve vir acompanhada do discurso que a anuncia. Devemos pensar no viver entre os homens, como uma ação que garante a vida humana e a própria humanidade. A condição da natalidade tem o seu papel importante no texto, principalmente para mostrar um novo começo, a possibilidade de uma nova iniciativa, dentro de um mundo público, onde cada um deve aparecer com seu discurso.

Referências


ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.

______. Arendt, Hannah. Trabalho, Obra e Ação. Caderno de Ética e Filosofia Política 7, 2/2005, p. 175-201.

______. A dignidade da política. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

CORREIA, Adriano. Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

MAGALHÃES, Theresa Calvet de. Ação e pensamento em Hannah Arendt. In: MELLO, Cleyson de Moraes; BRAGA, Luciana Maciel (Coords.). Filosofia do Direito e o Tempo. Estudos em Homenagem ao Professor Nuno M. M. S. Coelho. Juiz de Fora: Editar, 2011. p. 25-30. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2016.

______. Somos do mundo e não apenas no mundo. In: CORREIA, Adriano; NASCIMENTO, Mariângela Nascimento (Orgs.). Hannah Arendt - Entre o Passado e o Futuro. Juiz de Fora: UFJF, 2009. p. 73-88. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2016.

______. Ação, linguagem e poder: uma releitura do capítulo V [Action] da obra The Human Condition. In: CORREIA, Adriano. Hannah Arendt e a condição humana. Salvador-Bahia, Quarteto Editora, 2006. p. 35-74. Disponível em:

1 Bolsista CNPq.

2 Professora Doutora do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina/PR.

3 Sobre o assunto da pluralidade e liberdade, que devem constituir pertence ao espaço do público, mas se encontra na atividade da ação, como esta atividade tem sua atuação na esfera pública como uma atividade de aparecimento os assuntos acabam se cruzando.

4 (2016, p. 265)




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