Acg 10 Fidelidade Pt



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  1. 2. orientações e diretrizes


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2.1. FIDELIDADE VOCACIONAL
P. Francesco CEREDA

Conselheiro geral para a formação

O Reitor-Mor, no final de janeiro, promulgou para toda a Congregação um triênio de preparação e um ano de celebração para o bicentenário do nascimento de Dom Bosco. Abre-se para todos nós um "tempo de graça", no qual nos é dado aprofundar o carisma de Dom Bosco em alguns dos seus aspectos fundamentais: a história, a pedagogia, a espiritualidade e a missão com e para os jovens. É-nos dada, principalmente, a possibilidade de reconhecer com gratidão o dom da vocação consagrada salesiana, à qual Deus nos chamou e que acolhemos com alegria. Trata-se, pois, de um tempo favorável de redescoberta e reavivamento do dom e do compromisso de fidelidade à vocação.

As Inspetorias refletiram nos anos passados sobre a fragilidade vocacional1 dos candidatos e dos formandos, buscando a sua raiz, as suas expressões, as suas causas, e individualizando as prioridades de intervenção em vista da superação delas. A fragilidade é um traço que caracteriza as jovens gerações de hoje e que continua a persistir também em nossa formação inicial, principalmente nas Inspetorias que não resolveram as fragilidades das equipes de formadores, dos itinerários formativos, da metodologia formativa. Perdemos nestes anos uma média anual ao redor de 110 noviços e 220 professos temporários, dos 530 noviços, em média, que iniciam; a fragilidade vocacional é uma causa dessas saídas, embora não seja a única; é preciso, então, continuar a tê-la presente.

Chegou o momento, agora, de iniciar nas Inspetorias um processo que mire reforçar a fidelidade vocacional dos irmãos em formação permanente, mas também dos que estão na formação inicial. Deve-se notar que, na verdade, o período da profissão temporária já exige fidelidade; não se trata de uma experiência provisória. A fórmula da profissão temporária evidencia que se trata de uma opção subjetivamente definitiva; nela, quem professa diz que "tendo embora a intenção" de oferecer-se a Deus "por toda a vida", faz voto de "viver obediente, pobre e casto" por um tempo determinado, "segundo as disposições da Igreja".2 Isso deve ser levado sobremaneira em consideração na formação inicial. Deve-se observar, ainda, que a fidelidade vocacional evoca a possibilidade da infidelidade em suas várias formas e que a falta de fidelidade não coincide com as saídas; mas é útil recordar também que, favorecendo processos de fidelidade, será possível superar em certa medida as infidelidades, ou faltas de disciplina religiosa, e o fenômeno dos abandonos.3


1. Experiência da fidelidade vocacional
1.1. Releitura da própria história vocacional
A fidelidade vocacional é, antes de tudo, um dom de Deus, como o é a vocação. Estamos cientes de que, desde o início, a nossa história vocacional tem a iniciativa de Deus. Ele, por amor, chamou-nos à existência, fez-nos crescer numa família, colocou-nos a viver numa determinada cultura. No batismo, fez-nos seus filhos. Ao longo da caminhada da vida, através de encontros e de situações, acompanhou-nos no amadurecimento na fé, no amor a Jesus, na acolhida da sua Palavra e dos Sacramentos, na entrega de nós a Maria, no sentir-nos parte da Igreja, na entrega de nós mesmos aos outros.

Chegou o dia em que nos sentimos atraídos para seguir Jesus mais de perto. O chamado não chegou improvisamente; foi o resultado de um projeto de amor pensado por Deus antes do nosso nascimento e colocado em ação através de suas intervenções e de nossas respostas. Com os olhos da fé, relendo o passado, percebemos que fomos objeto da predileção de Deus. Ele elegeu-nos antes que nós o escolhêssemos; confiou em nós; seduziu-nos;4 guiou-nos. Ficamos enamorados de Jesus; sentimo-nos felizes de continuar a sua presença e ação no mundo.5 Deus dilatou o nosso coração, dando-nos a graça se nos sentirmos amados por Jesus e de amá-lo de todo o coração; ajudou-nos a nos identificarmos com os seus sentimentos e o seu estilo de vida; tornou-nos disponíveis para o serviço aos jovens, como Dom Bosco. Assim, com a profissão religiosa na Congregação, oferecemos a Deus e aos jovens não só o coração, os bens e a autonomia, mas nós mesmos por inteiro.

Estávamos cientes de que toda opção exige a renúncia de outras oportunidades. Por outro lado, percebemos a escolha de Jesus e da sua missão tão fascinante que nos sentimos felizes por deixar outras coisas. Assim fez Dom Bosco que, pelas almas, abandonou tudo o mais; assim fez o mercador do evangelho que, depois de encontrar a pérola preciosa, com alegria vendeu tudo, para poder comprá-la.6

A acolhida da vocação à vida consagrada foi motivada pela beleza da entrega; estávamos convencidos de encontrar a felicidade nessa vocação; preferimos dizer 'não' a algumas realidades boas, para dizer 'sim' a outras melhores para nós. E iniciamos, então, um caminho de fidelidade à vocação que Deus nos deu; de fato, a fidelidade fundamenta-se na vocação.

A vocação não é escolhida; ela nos é dada. Nós só podemos reconhecê-la e acolhê-la. Se fôssemos nós a escolhê-la, não se trataria mais de vocação, mas de um projeto que poderíamos sempre mudar. Com a profissão religiosa Deus confirma a aliança estabelecida conosco no batismo.7 Ele consagra-nos para viver totalmente para Ele em comunidades fraternas, na sequela de Cristo obediente, pobre e casto, ao serviço dos jovens;8 e respondemos à sua ação de consagração com a oferta de nós mesmos. Ser fiéis quer dizer renovar a nossa reposta a esta aliança especial ratificada por Deus conosco.9 Como Dom Bosco, repetimos todos os dias: "Prometi a Deus que até meu último alento seria para meus pobres jovens". Às vezes, a nossa resposta pode ser incerta, frágil, infiel, mas nem por isso desaparece a aliança de Deus conosco; Ele não retira a sua aliança. A fidelidade de Deus fundamenta e demanda a nossa fidelidade.
1.2. Possibilidade de uma opção definitiva
A fidelidade vocacional é um compromisso de amor; é uma opção livre que abrange a vida inteira até o fim. O compromisso "para sempre" é uma exigência do amor; de fato, a medida do amor é não ter medida; assim foi o amor de Jesus que "tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim".10 Nos relacionamentos interpessoais o amor é compromisso total e incondicional; um amor parcial e provisório não é autêntico; colocar condições ao amor, por exemplo, um limite de tempo, esvazia o amor do seu significado. O amor exige totalidade e estabilidade. Isso vale ainda mais a respeito do amor a Deus e a Jesus, amor radical, total, para sempre.

Às vezes, poderia surgir em nós uma questão: será possível viver a fidelidade até a morte? Se confiássemos tão somente em nossas forças, seria difícil responder; mas a fidelidade encontra o seu apoio na fidelidade de Deus. Com sua aliança, Deus une-se a nós como companheiro confiável; não se trata, pois, de quanto dure a nossa força, mas de quanto dura a sua força; ela dura para sempre. A história da salvação é o testemunho da fidelidade de Deus. Deus é sempre fiel. Isso nos dá confiança porque sabemos que, apesar da nossa fragilidade, Deus que iniciou em nós a sua obra, haverá de levá-la a termo;11 não permitirá que sejamos provados além das nossas forças;12 a sua graça nos bastará.13 Apesar de nossas infidelidades, Ele permanece fiel porque não pode contradizer-se.14 Os seus dons são irrevogáveis.15 A fidelidade de Deus torna possível a nossa fidelidade.

Outra questão poderia inquietar-nos: como viver fiéis até o fim? Não podemos saber se o nosso compromisso será definitivo; só podemos garantir, com a graça de Deus, a fidelidade cotidiana. Quando dizemos na profissão religiosa "para sempre", não estamos anunciando o que acontecerá, mas o que queremos que aconteça. O Reitor-Mor escreve sobre isso: "A fidelidade tem uma característica típica que a distingue das demais virtudes. Podemos compará-la, no campo das belas artes, com a música em relação à pintura e a escultura: posso contemplar, num só momento, uma bela estátua ou um quadro famoso, mas não posso ouvir, instantaneamente, a Nona Sinfonia de Beethoven ou A Flauta Mágica de Mozart: aqui é indispensável o seu 'desdobramento' no tempo, a sua 'historicidade'... Analogamente, a fidelidade não pode acontecer a não ser como experiência histórica".16 Por isso, é preciso garantir todos os dias a resposta a Deus.

Como vivemos num mundo em contínua transformação, e também nós mudamos, não pode ser senão uma fidelidade dinâmica e criativa. Não se trata de permanecer fiéis, mas de ser fiéis. Fazer a profissão religiosa é "como desenhar uma moldura: ela delimita os limites e distingue o espaço interno do que permanece fora; este espaço deverá ser preenchido pelas decisões futuras, que só serão qualificadas como realizadas e verdadeiras se forem alinhadas a este primeiro início livremente escolhido".17 É preciso enfrentar as novas circunstâncias, pondo em prática as opções coerentes com o compromisso inicial. Nem sempre será fácil; talvez possam existir infidelidades; poderá surgir a dúvida de ter errado o caminho, de não ter compreendido o que se escolhia, de não ter imaginado as dificuldades. Ninguém pode saber como será o futuro e, portanto, antecipar os problemas; não é possível ter o conhecimento completo de uma forma de vida antes de empenhar-se nela; ninguém pode fazer experiência das diversas formas de vida e, depois, escolher a certa. A vida é uma contínua descoberta da opção feita e um esforço renovado de vivê-la em plenitude.


2. Fidelidade "ameaçada"
A fidelidade, atualmente, não é percebida de imediato como um valor; torna-se árduo, então, criar uma mentalidade de fidelidade. A cultura, sobretudo a pós-moderna, aprecia alguns valores como a sinceridade da pessoa e a autenticidade das suas relações, mas não favorece as ligações fortes. De um lado, a fidelidade resulta frágil, mesmo nos modos de pensar e viver a vocação cristã e, em particular, a vocação à vida consagrada. Mesmo se as situações apresentam dificuldades e ameaças, será sempre preciso buscar maneiras de transformá-las em oportunidades e recursos.
2.1. A velocidade da mudança cultural
Em tempos recentes, o desenvolvimento acelerado da tecnologia, o papel central da atividade econômica e o enorme impacto da mídia contribuíram para uma notável mudança cultural na sociedade, não só ocidental, mas devido à globalização, também no restante do mundo. Alguns aspectos da cultura ou das culturas próprias apresentam desafios à fidelidade vocacional ou ameaçam-na. É preciso estar cientes disso, para transformar esses desafios em pontos de partida da ação.

Numa sociedade consumista, a pessoa experimenta a dificuldade de escolher; e, com frequência, ela é induzida a satisfazer o que é imediato e ao alcance das mãos; habitua-se à mentalidade do "usa e descarta". Mesmo as convicções, os valores e as relações são considerados mercadoria a buscar, usar e descartar. Vai sempre mais adiante a cultura do prazer, daquilo que me agrada ou me traz satisfação. Os modelos consumistas de vida difundem-se também nos países pobres. Com essa mentalidade, se uma escolha não agradar ou se tornar difícil, sempre poderá ser mudada. Privilegia-se a satisfação exclusiva das próprias necessidades e dos próprios desejos; perde-se a estima pela fidelidade, pela verdade, pelos afetos estáveis; transcuram-se os compromissos de longa duração. Dessa forma, a pessoa arrisca-se a ser psicologicamente frágil e imatura.

Além disso, respira-se uma difusa mentalidade relativista. Tem-se enorme quantidade de imagens e opiniões. Falta tempo ou capacidade de parar para refletir, arrisca-se a ser informado sobre todas as novidades, mas viver superficialmente. A busca da verdade não fascina, porque esse empenho é cansativo e o resultado incerto. Não se sabe distinguir o que é essencial do que é efêmero. Assim, tudo se torna fluido, a história perde significado e o niilismo está sempre no horizonte. Vivemos numa sociedade "líquida". E vivendo em mudança contínua, tem-se medo de assumir compromissos. Prefere-se viver "pontualmente" e empenhar-se no presente. Não se entende porque se vincular a opções definitivas no início da juventude, quando não se tem qualquer experiência do futuro. Se, por acaso, assumiram-se compromissos anteriormente, justifica-se o abandono das escolhas feitas, dizendo: "hoje, eu vejo as coisas diversamente, e amanhã ainda poderia pensar de modo diferente".

Neste clima, portanto, as decisões dependem muitas vezes mais das próprias opiniões imediatas, emoções e desejos do que das motivações e convicções; deixa-se arrastar pelo entusiasmo fácil e pela espontaneidade. Uma impressão intensa pode provocar, às vezes, mudanças radicais e imprevistas nas opções de vida, sem avaliar suas consequências; o importante é superar a situação de mal-estar em que se encontra ou buscar um bem-estar esperado, embora não garantido. Diminui assim a capacidade de espera, de renúncia e de sacrifício em vista de bens mais duradouros no futuro. Torna-se pesado aceitar a cruz da cotidianidade, a disciplina, a ascética, o autocontrole e, então, rende-se facilmente diante das dificuldades. Surge, então, a questão: como conseguir viver fiéis à vocação consagrada num tempo de mudanças radicais e de transformações velozes?


1.2. Fragilidade da identidade da vida consagrada
Há também, além dos aspectos culturais, motivos internos à vida consagrada que a tornam frágil. Isso acontece especialmente quando se enfraquece ou se perde o sentido da própria identidade de pessoa consagrada, chamada a viver como "memória viva do modo de existir e agir de Jesus" entre os jovens.18 Se a vida consagrada não viver de modo profético a mística do primado de Deus, o serviço aos mais pobres, a fraternidade da comunhão, não só perder a própria identidade,como porá em risco a fidelidade do consagrado. O risco aumenta quando se assume o "modelo liberal" de vida consagrada, que pode ir adiante, sobretudo nas culturas secularizadas.19

À vida consagrada, pede-se uma experiência intensa de fé e de vida espiritual, que envolva a existência, dê o primado a Deus, faça experimentar o amor do Senhor Jesus, preencha o coração de paixão apostólica. Quando, contudo, se vive com superficialidade na vida espiritual ou a experiência se torna marginal ou perde a sua força mística, os valores da vida consagrada não são interiorizados a ponto de penetrarem no coração em nível de afetos, sentimentos, convicções e motivações. Acaba-se, então, por viver de modo exterior a oração, a obediência, pobreza e castidade, ou a vida comunitária; não há mais uma vida autêntica, mas apenas uma observância formal; não se vive a radicalidade evangélica. A vocação de vida consagrada perde progressivamente o sentido.

Com o tempo, como consequência, tem-se a perda da paixão apostólica, dilui-se a capacidade de gratuidade e generosidade, sente-se cansaço psicológico e espiritual. O apostolado entre os jovens deixa de ser uma presença animadora e evangelizadora; ele é realizado apenas por obrigação. Alguns irmãos, pela falta de redimensionamento das obras, pelo envelhecimento e pela escassez das vocações, veem-se sobrecarregados de trabalho excessivo e nem sempre satisfatórios; outros desanimam pelo sentimento pessoal de inadequação ou pelos escassos resultados; então, não é difícil entender os motivos de certa frustração apostólica. Não há mais dinamismo, inventiva, criatividade. E, quando o trabalho apostólico perde significado, pergunta-se qual o sentido da própria vocação.

Quando, então, se experimenta a falta de vida fraterna, aflora o individualismo, levando o irmão a afastar-se da comunidade e viver no próprio mundo. Arruína-se, assim, o espírito de família e o sentido de pertença. Os encontros comunitários tornam-se formais. Todos gostariam de um contato humano profundo, mas sentem-se às vezes mais empregados de uma empresa do que consagrados para uma missão. Gradualmente, se não se fica atento, escorrega-se para a mediocridade e o aburguesamento; evita-se a ascese; busca-se uma vida fácil. Perde-se a confiança no carisma. Na falta de um ambiente vital na comunidade, alguns começam a encontrá-lo fora. Sente-se a vida consagrada como um peso, e a fidelidade começa a ser um problema.

Há outros fatores que também acentuam as dificuldades. Em tempos passados, a pessoa consagrada gozava de prestígio, o que facilitava a fidelidade, mesmo quando o indivíduo se sentia fragilizado ou menos seguro na vocação. Hoje, a Igreja mostra-se, às vezes, pouco crível e a imagem da pessoa consagrada goza de menor estima; então, há pouco espaço e escasso reconhecimento pelo seu papel; encontra-se, com frequência, indiferença, desinteresse, apatia. Além disso, nas sociedades secularizadas a religião tende a ser relegada à esfera do privado. Superar esse clima exige coragem e um nível muito elevado de maturidade vocacional em relação a outros tempos, mas infelizmente nem todos o conseguem.
3. Fidelidade "preservada"
A vocação é dom inestimável, mas também "tesouro em vaso de argila";20 por isso, é preciso fazer todo o esforço para "reavivá-la"21 continuamente com a fidelidade. E, por ela estar exposta aos riscos e às ameaças da mentalidade e dos estilos de vida fracos, especialmente à nossa fragilidade radical, a fidelidade é uma realidade a ser vivida cotidianamente. Ela nutre-se de vigilância, prudência e atenção, mas também precisa ser cultivada e sustentada.
3.1. No tempo da formação inicial
A experiência atual ensina-nos a dar importância ao mundo interior da pessoa com os seus afetos, emoções e sentimentos, mas também com as suas atitudes, motivações e convicções. É preciso, por isso, um trabalho de personalização em todo o processo formativo, a começar da formação inicial, que mira "atingir em profundidade a própria pessoa".22 Eis, então, alguns aspectos da experiência de formação inicial, que favorecem a vida de fidelidade.

Primeiramente, desde os primeiros passos da formação, o processo de amadurecimento humano merece uma grande atenção. A escassa estima de si, por exemplo, faz com que a pessoa se sinta pouco compreendida, pouco valorizada e amada pelos outros; quando não recebe afeto e consideração suficientes, ela vive com dificuldade e se fecha; isso explica alguns problemas relacionados à prática da castidade que, depois, incidem na fidelidade. É necessário, pois, que o formando, enquanto vai descobrindo a presença de Deus na própria história, dê atenção àquilo que vive no profundo de si, não silenciando sobre os problemas pessoais, questionamentos, incertezas, e recorrendo à ajuda psicológica e ao acompanhamento espiritual. A formação nas etapas iniciais deve mirar a preparação de pessoas com maturidade psicológica afetiva e capacidade de viver serenamente a castidade, o que reforça a fidelidade.23

Como o amor ocupa um lugar central na vida, a formação à afetividade e à castidade precisa de uma profunda vida espiritual, mirada essencialmente a fazer enamorar-se de Jesus, e com Ele, de Deus, de Maria, de Dom Bosco. Sentindo Jesus Ressuscitado como seu "amigo",24 este "grande amor, vivo e pessoal"25 torna-se para ele o centro unificador da vida do formando. Ele assume gradualmente os sentimentos de Jesus, descobre o sentido e a beleza do dom de si a Deus na vida consagrada salesiana, experimenta um intenso sentido de pertença à Igreja e à Congregação, nutre o afeto por Dom Bosco e o entusiasmo pela missão juvenil. É o amor que vivifica a fidelidade à vocação. Por isso, deve-se favorecer uma grande mudança na práxis formativa e ajudar o formando a assumir a capacidade da oração pessoal, a começar da meditação cotidiana, feita ao menos por meia hora e preferivelmente na forma de "lectio divina", da visita e adoração eucarística e da Confissão, até chegar à união com Deus. Deve-se cultivar também a pessoal entrega confiante a Maria; ela tem uma forte conotação afetiva que sustenta a castidade e a fidelidade.

A formação inicial, que é o processo de identificação com a vocação consagrada salesiana, tem em vista formar discípulos e apóstolos de Jesus, segundo o estilo de Dom Bosco; seu centro é, pois, a vida espiritual e o trabalho apostólico. O amor pelo Senhor converte-se em paixão apostólica, que inspira entusiasmo no formando pela missão juvenil e o leva a amar os jovens com generosa disponibilidade e a estar de boa vontade entre eles, pondo-se inteiramente ao seu serviço. É aquilo que sustenta a sua fidelidade.26 Seguindo os passos do processo de repensamento da pastoral juvenil, é preciso uma formação pastoral, feita de reflexão atualizada e práxis empenhada segundo a caminhada atual da Congregação.

O amor também motiva a formação intelectual. Cheio de paixão apostólica, o formando reconhece a necessidade de preparar-se para o serviço educativo-pastoral. Na formação intelectual, ele encontra uma base sólida para sua vida espiritual, adquire conhecimento e competência para a missão salesiana, forma uma mentalidade coerente com a vocação. Ao mesmo tempo, valoriza os aspectos positivos da modernidade e da pós-modernidade e prepara-se para não desanimar diante das tendências relativistas e niilistas da cultura e da desorientação moral. Por isso, a formação intelectual deve ajudar a mudança de mentalidade e, se quiser incidir nas motivações e convicções do formando, deve assumir também uma conotação afetiva.

Estamos, hoje, mais cientes da importância da formação inicial; por isso, deram-se passos consideráveis para melhorar os conteúdos e as metodologias formativas, reforçar as comunidades formadoras e os centros de estudo e preparar os formadores. Apesar de ser boa, a formação inicial está ciente de que existem contínuas e imprevisíveis mudanças na vida; por isso, ela se sente interpelada a desenvolver no formando a capacidade de viver a vocação com fidelidade criativa, ou seja, assumir a mentalidade de formação permanente. "A formação inicial deve... consolidar-se com a formação permanente, criando no sujeito a disponibilidade para se deixar formar em cada dia da sua vida".27 Para tanto, é preciso que o formando reforce a sua capacidade de autoformação, atento, porém, a não alimentar o individualismo em seus itinerários formativos.


3.2. No tempo da formação permanente
A formação permanente é um grande apoio para a fidelidade vocacional; ela, com efeito, ajuda a enfrentar os desafios vindos da cultura que muda e da pessoa que evolui durante a vida. Ela deve ser mais cuidada na Congregação. Sugerem-se, então, alguns aspectos em nível pessoal, comunitário e inspetorial, que podem favorecer a fidelidade.
Trabalho pessoal
A formação permanente é confiada primeiramente à responsabilidade pessoal.28 É preciso a atitude e o trabalho pessoal de querer crescer na própria vocação. "Toda e qualquer formação... é no fim de contas uma autoformação. Ninguém, de fato, nos pode substituir na liberdade responsável que temos como pessoas individuais".29 Acontece, infelizmente, que especialmente nos primeiros anos da plena inserção apostólica, mas não só, lançando-nos no trabalho, expomo-nos a perigos como a rotina, o ativismo, a falta de motivação. É preciso, então, o esforço pessoal que sabe utilizar todas as oportunidades que encontramos em nossa vida, para manter vivo em nós o desejo de crescer e ser fiéis; a animação comunitária, o clima de oração, a paixão apostólica, o estudo, as relações fraternas são situações a valorizar.

Um dos meios mais eficazes de conservar a fidelidade vocacional é a vida espiritual. O nosso coração é feito para amar e ser amado; abraçando a vida consagrada, entregamos o nosso coração ao Senhor Jesus em resposta ao amor que dele recebemos. A Eucaristia, a Reconciliação, a "lectio divina", a devoção à Virgem Maria, a oração pessoal, a união com Deus são algumas das expressões fundamentais da nossa vida espiritual. A oração é como o óleo com que mantemos acesa a lâmpada do nosso amor pelo Senhor Jesus e alimentamos a alegria pela vocação salesiana; quando, porém, ela fraqueja, a chama do amor diminui e nos vemos mais expostos às "tentações" que ameaçam a fidelidade.

Em conjunto com a vida espiritual e como seu fruto há a paixão apostólica do "da mihi animas, cetera tolle". Trata-se de um zelo pastoral inspirado pelo amor ao Senhor Jesus e pelo carisma de Dom Bosco, que nos faz buscar em tudo a "glória de Deus e a salvação das almas". A paixão apostólica evoca o melhor que há em nós: o amor pelos jovens, a generosidade, a dedicação, a criatividade, a comunhão com os outros agentes pastorais, mas também o espírito de sacrifício, a ascese, a autodisciplina. Ela purifica as nossas motivações, preserva-nos do desânimo nos momentos de dificuldade e enche-nos de alegria e satisfação pela vocação.

A crise vocacional, porém, é sempre possível, apesar disso tudo; ela não chega de improviso, mas desenvolve-se progressivamente; pode referir-se à vida de fé, ao cansaço psicológico, à desilusão apostólica, à perda de motivações. Com frequência, a crise refere-se à afetividade e castidade; começa-se pelas pequenas falhas e gratificações que, no início, parecem lícitas ou inócuas, mas se transformam gradualmente em costumes e comportamentos ambíguos, até evoluir em crise vocacional. Entretanto, mesmo nesses momentos, é sempre possível voltar atrás e retomar uma vida de fidelidade: essas situações não são irreversíveis. É importante reconhecer que somos frágeis e que jamais podemos presumir as nossas forças. E é por isso que devemos praticar a prudência e a vigilância e ter autodisciplina e autocontrole. Neste âmbito, é de muita serventia a sinceridade para conosco mesmos e com o guia espiritual; é necessária a coragem de nos confrontarmos honestamente diante de Deus, reconhecermos em nós sentimentos, comportamentos e atitudes incoerentes. Isso revela a aceitação da responsabilidade pela nossa vida e vocação e a seriedade de querermos viver fiéis ao nosso compromisso.


Atenção comunitária
A comunidade é um grande apoio para a fidelidade, estando próxima aos irmãos em suas situações concretas. A comunidade pode ter fragilidades e limitações, mas também possui elementos de vitalidade que a tornam o lugar privilegiado para enfrentar os desafios da fragilidade vocacional dos formandos e as dificuldades da fidelidade vocacional dos irmãos de todas as idades. Uma realidade viva, dinâmica e vital suscita interesse, fascínio, atração; mas, sobretudo, gera fecundidade, autenticidade, totalidade de resposta. Vida gera vida. Para que a comunidade ajude os irmãos a viverem a fidelidade com criatividade, é preciso, então, potenciar os elementos de vitalidade que já se encontram nela, ou seja, as suas capacidades de dar testemunho profético, atrair vocações, reforçar o sentido de pertença, mobilizar os irmãos para serviços e formas de vida de maior empenho, envolver leigos e jovens, aumentar a própria significatividade na Igreja e no território.

Entre seus elementos vitais, um que contém grandes recursos para a fidelidade é o estilo de vida e de trabalho. A acolhida e a alegria de estar juntos faz com que cada um se sinta amado, apreciado, valorizado. Há uma riqueza de relações a descobrir e receber. O espírito de família cria a mentalidade de busca e discernimento comuns; o clima de fé e de oração reforça as motivações interiores e dispõe a viver com radicalidade evangélica e dedicação apostólica; a boa organização do trabalho em comum e dos projetos comunitários e pastorais favorece o crescimento, melhora a atuação apostólica, evita o estresse e o cansaço. E, caso alguém se visse em dificuldade, o sentido de responsabilidade recíproca dos irmãos torna-os atentos aos primeiros sinais da sua insatisfação; são-lhe de apoio a amizade, o interesse e a compreensão dos irmãos; a vida exemplar deles serve-lhe de estímulo.

Assume, também, um relevo particular o esforço assumido pela comunidade para ajudar os irmãos a aprofundarem a identidade da vida consagrada salesiana. A comunidade favorece a atualização na salesianidade,30 a reflexão sobre as Constituições,31 o estudo da condição juvenil, também mediante a presença dos jovens em seus encontros ou a presença dos irmãos em seus ambientes de vida,32 a aprendizagem de novas abordagens na pastoral juvenil e na catequese, a comunicação do carisma.33 Dessa forma, os irmãos vivem uma profunda experiência de gratidão a Deus pelo dom da vocação; sentem orgulho de serem membros da Congregação e filhos de Dom Bosco; experimentam alegria, entusiasmo e empenho na vocação.

O modo de exercer o serviço da autoridade na comunidade contribui decididamente para tudo isso. O diretor empenha-se em criar um clima de acolhida e respeito por todos os irmãos, fazendo-os sentir-se "em casa";34 mantém contato diário com cada um, agindo sempre como "pai, irmão e amigo".35 É preocupação sua manter todos unidos em fraternidade e corresponsabilidade. Demonstra solicitude por quem sofre, sente-se sozinho, encontra-se à margem, vive em dificuldade. Com o colóquio e o acompanhamento espiritual ajuda os irmãos a viver uma afetividade madura, assumir a responsabilidade da própria formação, encontrar a alegria da relação amigável com o Senhor Jesus, fazer bom uso do tempo e dos meios de comunicação social, projetar a própria vida pessoal e enfrentar as dificuldades da ação apostólica. A sua animação tem em vista garantir um bom nível de vida espiritual e pastoral na comunidade, cuidando da oração e da ascese comunitária,36 da partilha fraterna, do apostolado.


Responsabilidade inspetorial
Embora sendo uma realidade complexa, também a comunidade inspetorial joga uma parte notável no favorecimento da fidelidade dos seus membros, enquanto infunde neles antes de tudo o sentido de pertença. A fraternidade que se experimenta na Inspetoria, particularmente na ocasião das profissões, ordenações e aniversários, a solicitude no caso de doença, a proximidade nos momentos de perdas de familiares, são provas de afeto pelos irmãos e vínculos que ligam à Inspetoria. É importante que as relações entre irmãos e com a autoridade sejam serenas; os irmãos sejam envolvidos nos processos de discernimento em vista das importantes opções inspetoriais; perceba-se na Inspetoria uma mentalidade e uma "cultura" coerente com a identidade da vida consagrada salesiana.

Ao mesmo tempo, a formação permanente é de grande ajuda para o crescimento e a fidelidade dos irmãos. Num mundo que muda rapidamente e no qual as pessoas evoluem com o passar dos anos, "a formação contínua [ajuda] o religioso a integrar o crescimento dinâmico e a fidelidade nas circunstâncias concretas da existência".37 Ela facilita a transformação da "cultura inspetorial", especialmente em relação à identidade da vida consagrada. Serve para isso uma boa animação inspetorial, com a oferta de oportunidades variadas para o crescimento e a renovação espiritual e pastoral dos irmãos. Em particular, é preciso uma atenção especial aos irmãos do tirocínio e do "quinquênio"; de fato, nem sempre é fácil a passagem da vida organizada e acompanhada na comunidade formadora à plena inserção no trabalho educativo e pastoral; isso requer o repensamento das modalidades de inserção e acompanhamento destes irmãos.



Enfim, é relevante o modo como a Inspetoria realiza a missão no território, o que exerce, de fato, um considerável influxo sobre a fidelidade dos irmãos. Importa, por isso, que eles possam dedicar-se aos jovens, especialmente aos mais pobres, empregando os próprios dons e capacidades e tendo a possibilidade de uma presença animadora entre eles. Importa que possam viver e trabalhar juntos em comunidades, numérica e qualitativamente consistentes, de irmãos consagrados entregues plenamente a Deus e sustentados por Ele. Importa que as forças presentes nas comunidades educativo-pastorais sejam adequadas para realizar um trabalho sereno e eficaz que dê testemunho, atraia vocações, envolva colaboradores. A missão joga um papel central na vida dos irmãos e constitui um estímulo para a sua fidelidade vocacional; as Constituições afirmam que "a missão dá a toda a nossa existência o seu tom concreto".38 Portanto, a Inspetoria empenhada no processo de "redesenho de suas presenças", juntamente com a atenção aos processos de ressignificação, redimensionamento e realocação, não pode deixar de ter presentes esses critérios se quiser garantir que os irmãos sejam felizes e fiéis à vocação. A Inspetoria deve mirar não tanto o início ou a continuação das obras, ainda que isso seja importante, mas, sobretudo, garantir a melhor qualidade pastoral da presença salesiana no território, porque, só assim, haverá um futuro para o carisma salesiano.


Ficha para reflexão e confronto
1. O irmão, tanto na formação inicial quanto na formação permanente, reflita pessoalmente sobre estas orientações; reveja a própria vida atual, verificando-a do ponto de vista da fidelidade vocacional; insira no seu projeto pessoal de vida o que possa ajudá-lo a viver na fidelidade.
2. A comunidade local proponha momentos de partilha para refletir sobre a própria vitalidade, o modo como vive a vocação consagrada salesiana e a ajuda que dá aos seus membros para viverem na fidelidade.
3. A comunidade formativa interrogue-se sobre o que está fazendo para ajudar os formandos a assumirem uma mentalidade de fidelidade vocacional e de formação permanente.
4. A Inspetoria reflita sobre a sua "cultura", a organização da formação permanente, os meios para reforçar a fidelidade vocacional. E procure a maneira de envolver os irmãos, as comunidades locais e as comunidades formadoras no processo relativo à fidelidade.


1 F. Cereda, Fragilidade vocacional, in ACG 385, Roma 2004.

2 Cf. Const. 24.

3 A Assembleia da União dos Superiores Gerais tratou duas vezes do tema da fidelidade vocacional; vejam-se sobre isso: USG, Fedeltà e abbandoni nella vita consacrata oggi, Litos 2005; e USG, Per una vita consacrata fedele. Sfide antropologiche alla formazione, Litos 2006. Luis Oviedo ofm, apresentou na Assembleia de 2005 os resultados de uma pesquisa, da qual participou uma significativa amostra de Institutos religiosos masculinos. Ele sublinha que o maior número de abandonos de professos perpétuos acontece nesta média de idade: 37,8% dos abandonos na faixa de 31-40 anos e 33,0% na faixa de 41-50 anos; 42,2% dos abandonos acontecem, sobretudo, nos primeiros 10 anos após a profissão perpétua e 31,3% nos 10 anos seguintes. Ele sublinha ainda que 42,0% dos abandonos se devem a problemas afetivos, aos quais se podem ligar outros motivos semelhantes, como a imaturidade para 21,3% e problemas psicológicos para 21,0%.

4 Cf. Jr 20,7.

5 Cf. João Paulo II, Vita consecrata, 22.

6 Cf. Mt 13, 44-46.

7 Cf. Const. 23.

8 Cf. Const. 3.

9 Cf. Const. 195.

10 Jo 13, 1.

11 Cf. Fl 1,6.

12 Cf. 1Cor 10,13.

13 Cf. 2Cor 12,9.

14 Cf. 2Tm 2, 13.

15 Cf. Rm 11, 29.

16 P. Chávez, La fedeltà, fonte di vita piena, in: USG, Per una vita consacrata fedele, o.c., 27.

17 A. Cencini, Mi fido… dunque decido, Milão 2009, 74.

18 João Paulo II, Vita consecrata, 22.

19 Cf. P. Chávez, És tu o meu Deus, fora de ti não tenho bem algum, in ACG 382, Roma 2003.

20 2Cor 4, 7.

21 2Tm 1,6.

22 FSDB 208.

23 F. Cereda, Formação à afetividade e à castidade, in ACG 408, São Paulo, Salesiana 2010.

24 João Paulo II, Pastores dabo vobis, 45, 46.

25 Ibidem, 44.

26 Cf. Const. 195.

27 João Paulo II, Vita consecrata, 69.

28 Cf. Const. 99: "Cada salesiano assume a responsabilidade da própria formação".

29 João Paulo II, Pastores dabo vobis, 69.

30 Cf. CG26, 10.

31 Cf. CG26, 10.

32 Cf. CG26, 15.

33 Cf. CG26, 21.

34 Cf. Const. 16.

35 Const. 15.

36 Cf. CIVCSVA, A vida fraterna em comunidade, 23: "A comunidade sem mística não tem alma, mas sem ascese não tem corpo".

37 CIVCSVA, Potissimum instituioni, 67.

38 Const. 3.





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