Abordagem transdisciplinar de textos cartesianos



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Abordagem transdisciplinar de textos cartesianos
I - Descartes: O mundo ou Tratado da Luz
1. Resumo biogáfico

Descartes foi um dos pensadores que mais iluminaram os caminhos da filosofia ocidental. Tendo em vista que suas idéias transcenderam a dimensão tempo, percorrendo por cerca de três séculos e meio os campos pluridimensionados do intelecto humano do Ocidente, parece mais próprio afirmar que seus textos continuam sendo marcos de luz que facilitam o caminhar dos pensadores, quer estejam comprometidos com os sistemas de pensar acadêmicos, quer sejam peregrinos movidos e alimentados por interesses que lhes são peculiares.

René Descartes, também conhecido por Cartesius, nasceu em 31 de março de 1596, em La Haye, atualmente designada La Haye-Descartes, a sudoeste da província de Touraine, cuja capital é Tours. Essa pequena cidade fronteiriça da província da Bretagne é atualmente encontrável nos mapas sob a designação de Descartes.

Seu pai foi conselheiro no parlamento de Rennes, província da Bretagne.. Esclareça-se: os conselheiros dos parlamentos daquela época eram titulares de um múnus público pelo qual exerciam funções jurisdicionais, equiparáveis, hoje, às atribuições de juízes e advogados. Pai e mãe pertenciam à mesma classe social que, pelo exercício de funções públicas de natureza civil, ligadas à administração pública, era considerada a noblesse em robe, em oposição à noblesse em epée, referida à nobreza com funções militares. Essa classe era, na hierarquia social, considerada de nível mais baixo que a nobreza militar, mas acima da burguesia onde estavam situados comerciantes e produtores rurais.

Descartes foi o quarto filho do casal. Sua mãe deixou-o órfão depois de um ano. Provavelmente foi criado por sua avó, Pelas funções públicas do pai, em Rennes, só conviviam durante seis meses por ano, durante o recesso da corte local. Era cuidado por uma babá-enfermeira, a quem dedicou amizade e respeito e pagou pensão enquanto viveu, ou seja, até primeiro de fevereiro de 1650., quando morreu ¨na fé de sua enfermeira. Viveu fruindo saúde delicada, e socialmente comportava-se de forma reservada, pois não lhe agradavam as reuniões sociais. O recato e a dedicação às letras causaram descontentamento ao pai, pois este esperava do filho se tornasse um grande jurista e não um simples escritor. Veja-se como podemos nos equivocar, como pais, em relação às opções e ao futuro de nossos filhos!

O Real Colégio, dirigido por jesuítas, foi inaugurado na pequena cidade de La Fleche, ao norte de Tours, tendo por patrocinador maior o Rei Henrique IV. E, nessa oportunidade, com apenas oito anos, a educação do menino foi confiada aos padres, em regime de internato. Já na maturidade, Descartes referia-se a essa escola como uma das mais célebres da Europa. Contudo, nessa expressão, não a citava entre as melhores.

Há duas fontes de informações quanto ao aproveitamento do aluno duranrte esse período:.uma, originada de seus professores que o julgavam inteligente, esforçado, e bem comportado, introspectivo e inclinado a não se tornar competitivo, com marcada inclinação e habilidade para as matemáticas. Outra, pelos juízos que Descartes fazia de si próprio, declara seu desapontamento em relação à leitura de textos inconclusivos cujas leituras lhe foram exigidas. Afirma que a partir dessas leituras só lhe restaram dúvidas e desconfianças. Nas abordagens inaugurais que faz dos vários campos de conhecimento, rejeita a validade do autoritarismo clássico pelo qual eram assumidos e divulgados textos tidos por indispensáveis à boa formação intelectual. Das informações científicas recebidas, somente parece ter encontrado conforto nos estudos da matemática, onde sentiu-se consolado pela coerência e compatibilidade da linguagem, próprias desse campo de abstrações racionais.

Do período de formação básica restou-lhe a fé religiosa anunciada pelo catolicismo romano. Estudou por dez anos com os jesuítas no Real Colégio. Fora confiado aos cuidados especiais de seu parente, o Padre Charlet. O jovem externava suas dívidas com a formação recebida, assim como as dúvidas dela herdadas. O ceticismo o acompanhou ao longo da vida e se, de um lado, formula palavras de gratidão, também as usa como crtíticas em relação à insatisfação intelectual sofrida em muitas oportunidades.

Nos colégios administrados pelos jesuítas, a grade das disciplinas dos primeiro cinco anos era dominantemente dedicada às Humanidades, ou seja, ao latim, ao grego, à história, à língua francesa, à música e às atividades próprias dos que deviam se preparar para serem cavalheiros, incluindo equitação e esgrima.

Embora tivesse aproveitado as leituras dos clássicos, posteriormente considerou-as lamentável perda de tempo. Quando estudante, iniciou suas atividades literárias com um texto sobre a Arte da esgrima. No momento em que lhe foi dado optar, de forrma pessoal e subjetiva, pela formação complementar, depois de concluído em dois anos o curso de direito na Universidade de Poitiers, em 1616, Descartes tomou duas decisões que lhe foram marcantes: na primeira, desistiu do estudo das letras, renunciando às possibilidades de dedicar-se à vida acadêmica e de pura erudição; e, na segunda, preferiu enfocar os estudos de si mesmo, dedicando à aprendizagem na escola do mundo. Empreendeu viagens de estudos para satisfizer a curiosidade e o incansável desejo de conhecer e entender as coisas nos contextos em que elas existem. Viajar e estudar tornaram-se os dois fundamentos dessa nova etapa pós-adolescência.

Em 1618, aos vinte e dois anos, ingressou como oficial voluntário no exército de Maurício de Nassau, príncipe de Orange, na Holanda, que se organizava para enfrentar os esforços bélicos da Espanha enquanto esta tentava reconquistar a rica província dos Países Baixos. Ficou engajado cerca de oito meses e saiu desencantado com a atividade militar, por ele qualificada como de muito ócio e muita orgia.

Nos primeiros movimentos da Guerra dos Trinta Anos serviu sob as ordens do católico Duque da Bavária, que estava em campo contra o Rei Frederico, da Boêmia, vencido em 1620. Nesse tempo, conquistou a amizade da filha de Frederico, a princesa Elizabeth, que se tornou, a partir de 1643, uma de suas mais fiéis correspondentes e amigas. Tornou-se amigo de Isaac Beeckman, professor holandês, físico e matemático, que lhe destinou grande número de informações científicas, atuais dentre as circulantes entre os doutores na época. Essa amizade durou vinte anos, foi contínua, embora tivesse sofrido alguns poucos intervalos. Foi desse período a redação da Geometria, cuja aplicação de fórmulas algébricas às figuras geométricas deu origem à geometria analítica. Tendo Beeckman por interlocutor, reintroduziu-se nos estudos matemáticos e, a partir de 1619, anunciou ser possível formular uma nova ciência capaz de resolver, de maneira genérica, todos os problemas propostos referentes aos campos quantitativos, enquanto contínuos e numéricos. Isso significava anunciarr que a Geometria Analítica teria o condão de solucionar os problemas de lugar, localização e posição relativas entre os seres dimensionados nas relações espaço-tempo-matéria-energia. Essas grandezas primitivas poderiam ser quantificadas e reduzidas a figuras geométricas simbólicas, tendo como referências eixos, planos, superfícies e volumes.

Importa observar que a partir dessas idéias, as figuras, formas e quantidades poderiam ser expressas por fórmulas algébricas correspondentes às dimensões espaciais, planas e volumétricas bem como em referência a períodos e quantidades de matéria e energia.

Seu primeiro biógrafo, Adrian Baillet, afirmou que em 10 de novembro de 1619, Descartes ficou cheio de entusiasmo pois acreditava ter descoberto os fundamentos da Ciência Admirável, e, ao mesmo tempo, sua vocação (filosófica) lhe foi revelada em três sonhos. O centro dessas revelações tornou-o seguro de que poderia firmar-se na crença de que há um ajuste fundamental entre as leis da natureza e as leis matemáticas.

Estamos entre aqueles que acreditam no resultado positivo dessa intuição, emeregida dentre os sonhos de uma noite, pois, tendo popr objeto a procura do enunciado das leis natyurais, não sío Descartes, mas o mundo ocidental entregou-se à procura cioentífica da compatibilização das observações sensíveis com os que expressam os números no abstracionismo matemático. E, então, as matemáticas, tendo como referência, desde Pitágoras e mesmo antes dele, entre os fenícios,sumerianos e povos mais primitivos, as relações entre os números e a realidade. A partir desses sonhos cartesianos, distinguem-se as formas de pensar abstratas e numéricas, propiamente atividades do espírito e da alma, das que são usadas na percepção da realidade sensível e dimensionável, ou seja, do corpo.

As anotações pessoais do filósofo indicam três partes distintas nesses sonhos. A partir dessa experiência descortinou a visão de uma espécie de ciência unitária universal que poderia ligar todo conhecimento humano possível a uma única ciência, total e abrangente. Emerge desse sentido unitário do Conhecimento o significado místico, convergente e conciliador do pensamento eclesiástico católico romano, dominante na época, associado às matemáticas.

De fato, isso não é novo nas aventuras humanas pelos campos do conhecimento. Pitágoras, e antes dele, sumerianos, babilônicos, fenícios, egípcios e outros povos, inclusive outros seres que sugerem uma hierarquização das acuidades e habilidades perceptivas, subordinaram-se a certas capacidades de aproveitamento das relações numéricas, dentro de limites pré-existentes nas relações entre os seres pensantes e a natureza. De fato, esses limites, provavelmente de diversas e diferentes naturezas, identificam os fragmentos dentro do todo, e existem em tiodas as realidades, tanto as empíricas como as racionais, tanto nas relações concretas como nas abstratas.

Georges Ifrah, em Os números (Rio de Janeiro: Globo. pp.19 a 21), exemplifica, didáticamente essa relação empírica entre o observador e a abstração numérica:


Determinadas espécies animais também são dotadas de um tipo de eprcepção direta dos números. Em alguns casos, esta capacidade natural lhes eprmite reconhecer que um conjunto (numericamente reduzido), observado pela segunda vez, sofreu uma modificação depois que um ou vários componentes foram retirados ou acrescentados. Assim, um pintassilgo que aprendeu a escolher seu alimento entre dois pequenos montes de grão geralmente consegue distinguir três de um, três de ois, quatro de três e seis de três. Mas ele confunde quase sempre quatro e cinco, sete e cinco, seis e oito, dez e seis. Numeroas experiências demonstraram que os rouxinóis, as pegas e os corvos eram capazes de distinguir quantidades concretas de um a quatro.

... Distinguimos sem erro, no primeiro golpe de vista, um, dois, três e até quatro elementos. Mas, aí se detém nosso poder de identificação dos números. Porque além de quatro tudo se confunde em nosso espírito e nossa visão global não serve para mais nada.

- Há quinze ou vinte pratos nesta pilha, treze ou catorze carros alinhados na calçada, onze ou doze arbustos nesta moita, dez ou quinze degraus nesta escada, nove, oito ou mesmo seis janelas nesta fachada? É preciso contar para saber. O olho não é um instrumento de medida suficientemente preciso: seu poder de percepção direta dos números ultrapassa muito raramente – para não dizer nunca – o número 4! ...
A partir de 1620, ele afasta-se da vida militar a que se havia dedicado logo após a formação universitária, e começa uma primeira grande viagem,, dirigindo-se à Alemanha do Norte, à Holanda e volta à França (1622). Reencontra-se com sua família, acerta suas finanaças e verifica qwue tem condições econômicas para levar uma vida iondependente e confortável, que lhe foi importante para dar copntinuidade a seus avanços intelectuais. De 1623 a 1625, ele viaja à Itália, presencia o casamento do dodge de Veneza, e, conhece as costas do Mara Adriático. Completa a peregrinação mística a Nossa Senhora de Loretto, onde confirma seus votos de dedicação á atividade filosófica, anunciados no sonho de novembrop de 1619 e, daí, dirige-se a Roma, para o jubileu do papa Urbano VIII.

Entre 1626 a 1628 vai muitas vezes a Paris, onde tornou-se amigo do padre Marin Mersenne, grande matemático, conhecedor de Aritmética, Álgebra e Geometria, e de quem habilitou-se como confidente científico e assíduo correspondente. Mersenne mantinha, também e simultaneamente, correspondência com os maiores cientistas e pensadores da Europa e, historicamente, mostrou-se a pessoa indicada para divulgar e difundir os progressos e as propostas de Descartes. Apresentava-as aos seus demais interlocutores epistolares, recebdno críticas e sujestoões, logo encaminhadas ao amigo. Discussões e debates reservados tornaram-se o passatempo predileto do jovem filósofo.

Um incidente ficou gravado e tem sido frequentemente citado pelos biógrafos, dando conta da força da dialética do convencimento de que se servia Cartesius. Em 1627, portanto aos trinta e um anos, durante reunião social na casa do Núncio Apostólico em Paris, Descartes, durante os questionamentos que se seguiram á conferência de M. de Chandoux, expressou idéias que sugeriam a adoção dos fundamentos filosóficos pelos quais associava a matemática à realidade sensível, anunciando estruturas abstratas sobre as quais seria possível elaborar uma nova ciência. Por óbvio que os termos de sua argumentação em que, por meios matemáticos de prova, confundiu e refutou todos os argumentos de seu oponente, foi divulgado e comentado em sociedade e gerou, em seu favor, maior respeito intelectual. E, nessa oportunidade, o cardeal de Bérulle, fundador do Oratório, presente à reunião, admirado com a exposição cartesiana, fê-lo assumir o compromisso de empregar sua genialidade a uma reforma das ciências que lhe pareceu seria de grande utilidade.
A importância dessa reunião decorre da figura marcante do Cardeal de Bérulle. Em 1611, por ele foi fundao o L´Oratoire de France, (Oratório de França) que seguindo o modelo do Oratório da Itália, fundado em 1564, por Philippe Neri, canonizado como São Felipe, era uma sociedade voltada à pesquisa, ao ensino e à busca do conhecimento. O Oratório francês foi suprimido pela Revolução Francesa, em 1792, ressurgiu em 1880 e, posteriormente, em 1903.
A partir de 1628, Descartes retirou-se para a Holanda onde deixou de lado a escola do mundo e passou a ordenar, com rigor lógico e hierárquico, as informações de que dispunha. A partir daí, escreveu sobre o que aprendera e lhe foi revelado pela metódica e racional sistematização das leituras, informações e revelações. Embora distante fisicamente, manteve correspondência e relacionamento filosófico com velhos e novos conhecidos, recebendo e fazendo críticas aos escritos que lhe chegavam. Da mesma forma, respondia e rebatia as críticas e restrições que lhe eram feitas. No inverno de 1629 e nos anos seguintes, compôs o texto com as Regras para a boa condução da mente, traduzida para o português como as Regras para boa condução do espírito, só publicado pela primeira vez em 1701, cerca de cinqüenta anos depois de sua morte.

De fato, do francês para o português e o inglês atuais há uma variação significativa no uso de três verbetes: mente, em português, vertido para o inglês dá mind e para o francês entendement, esprit, ame.. Embora, atualmente, esses significados no uso atual nesses três idiomas, gerem imprecisão e não correspondam sempre ao mesmo objeto, os trabalhos de Descartes mostram que ele fazia objetiva distinção entre alma (l´âme), que dizia respeito à psyché ligada, ou seja, vinculada ao corpo, numa relação direta do abstrato ao concreto. Para Descartes, o espírito ( l´esprit) é total e exclusivamente abstrato.

Os cinco primeiros anos do recesso de Descartes na Holanda foram empregados na elaboração de um texto sobre metafísica e, sobretudo, nas proposições contidas no Tratado do mundo e da luz, posteriormente renomeado O mundo ou tratado da luz.

Em 1633, concluída a redação de O mundo, Descartes foi advertido pelo Padre Mersenne sobre os riscos a que estaria exposto se esse texto chegasse aos tribunais da Inquisição, citando-lhe o processo e a recente condenação de Galileu( 1564-1642).


Galileo Galilei, em 1510, entre janeiro e março, fez seguidas observações sobre o planeta Júpiter, descobrindo e identificando os movimentos da quatro maiores luas desse planeta, por ele noemadas “estrelas mediceas” em homenagem a seu patrocinador Cosmos II de Médici. A descrição desse feito está em Nuntius sidereus (O mensageiro das estrelas)O astrônomo Simon Marius, contemporâneo de Galileu, deu-lhes os nomes de Io, Europa, Ganimedes e Calisto, pelos quas são conhecidas até hoje..
Nicolas Copérnico (1473-1543) (Livro VI da revolução da orbe celeste); Tycho Brahe (1546-1601), Giordano Bruno (1548-1600)( por aceitação das idéias de Copérnico e adesão ao humanismo panteísta); William Shakespeare ( 1564-1616); Galileo Galilei ( 1564-1642) em Nuntius sideralis; Thomas Hobbes ( 1588-1679) em Leviathan; René Descartes (1596-1650), o rei Luís, XIII, o Justo (1601-1643); Christian Huygens (1629-1695); o Rei-Sol da França, Luís XIV (1638-1715); Nicolas de Malebranche (1638-1715), em A busca da verdade e Entretenimentos sobre a metafísica da religião; Gottfried Leibnitz (1646-1716), em Da arte combinatória, Monadologia, Novos ensaios sobre o entendimento humano, Metafísica; Baruch Spinoza (1632-1677); Samuel Pufendorf (1632-1694), em O direito da natureza e das gentes) John Locke (1632-1704), no Ensaio sobre o entendimento humano; Giambttista Vico (1668-1744) Charles de Montesquieu (1689-1755), em Espírito das leis; David Hume (1711-1776); Emmanuel Kant (1724-1804); Joahnn W Goethe (1749-1832), Friedrich Schiller (1759-1805), Johann Fichte (1762-1814), Friedrich Hegel (1770-1831) e Auguste Comte (1798-1857) em O método positivista. tornam-se leituras indicadass aos que procuram entender a nova ciência anunciada por Descartes.

Descartes conhecia e aceitava parcialmente o entendimento de Copérnico (1473-1543) em relação aos movimentos da Terra e dos Planetas em torno do sol, ou seja, do sistema heliocêntrico. Parexcia concordar mais com Galileo e de Tycho Brahe (1546-1601), que, a partir de suas obsrvações sobre o planeta Marte, enunciou diversas leis referentes aos movimentos dos planetas. De seu amigo Isaac Beeckman ele obteve sigilosamente o texto de Galileo, em que pode observar conceitos, crenças e propostas semelhantes às suas. Embora na Holanda, país protestante, ele não estivesse tão próximo que pudesse ser alcançado pela Inquisição, por precaução guardou O mundo ou Tratado da luz sob sigilo, nem sequer tendo-o enviado a Mersenne. O texto do Mensageiro das estrelas (Nuntius sideralis) de Galileo, deve ter-lhe evidenciado que suas idéias e as de Galileo sobre o mundo e o sistema cósmico eram coincidentes.

Antes de 1637, Descartes declarou que nada mais levaria à publicação. Todavia, retratou-se, e nesse ano, para apresentar um esboço da sua doutrina, publicou três pequenos trabalhos, a saber: Dioptria ( Dioptrique), Meteoros (Metéores) e A Geometria (Géometrie), precedidos do Discours sur la méthode. Assim, tem-se que a primeira de suas publicações foi esse conjunto de textos, que marcaram época e deram o ponto de partida para a grande revolução científica da modernidade.

De 1647 a 1650, os últimos três anos de vida foram marcados por acentuada postura filosófica, essencialmente racional, dedicada a enunciar as balizas que deveriam norteá-lo nos processos de conhecimento. O retiro intelectual que se propôs durou até 1649, quando não conseguiu mais evitar e teve de atender os reiterados e insistentes convites para servir como professor de filosofia da rainha Elizabeth da Suécia.

Nem todos os textos originais de Cartesius foram editados enquanto estava vivo, pois, por suas crenças e elaborações filosóficas, sentiu-se ameaçado pela Inquisição que repudiava algumas delas. Talvez por esse justificado temor O Mundo ou Tratado da luz tenha sido editado, pela primeira vez, só catorze anos depois de sua morte, ou seja, em 1664. O enfraquecimento temporário do radicalismo contido nas decisões do tribunal religioso animou o editor Jacques Le Grãs a assumir os riscos da publicação, do texto indexado. Foi assim impressa a primeira edição, tida como cópia imperfeita do manuscrito, originalmente redigido em francês.

No texto de O Mundo ou Tratado da Luz ficam nítidas três resultados científicos gerados pelo cartesianismo na cultura ocidental: a) para a Óptica, as observações a partir das quais serão enunciadas as leis da reflexão, refração e difração; b) para a Meteorologia, regras que explicam as variações do clima e a formação do arco-íris; e c) para a Geometria Analítica e a Trigonometria, a criação das coordenadas ortogonais e as relações espaciais traduzidas em expressões algébricas. Em homenagme a Cartesius, essas linhas auxiliares do pensamento geométrico foram denominadas por Leibnitz de coordenadas cartesianas. Propiciam figuras e pensamentos referenciados à compreensão do espaço e do tempo e, recorrendo a expressões algébricas em relação aos elementos geométricos, foi aberta a possibilidade de projeção das formas imaginárias, e conseqüente virtualização dos fenômenos invisíveis.

Vivemos as conseqüências positivas dessas três novas abordagens, que por si mesmas, abriram as portas viabilizadas aos processos cognitivos operados no cenário científico-filosófico ocidental, mais especialmente nas metodologias do conhecimento, ou seja, na lógica discursiva, geométrica e algébrica e na epistemologia.. Especificamente, trouxe resultados mais diretos à Filosofia geral, à Geometria Analítica e à Trigonometria.

Em face das nossas observações pessoais, sugerimos a leitura dos textos de Descartes, na sequinte ordem: 1- Regras para a boa condução da mente (espírito)( 1.ª edição em 1701, post mortem); 2 -O discurso sobre o método (1637); 3- A geometria (1637); 4- A dioptria (1637) 5 – Os meteoros (1637); 6- Meditações (1640); 7 – Meditationes de prima philosophia (1641); 8- Princípios de Filosofia (1644); 9- Tratado das paixões (1649); 10- Do Homem e Tratado da formação do feto (1664). 11- Compendium musicae (1618).


2. Marcos que facilitarão esta abordagem

Para tornar mais propícia a compreensão dos textos cartesinos, acredito ser importante reconhecer alguns marcos que, nos caminhos do conhecimento, poderão servir como referenciais. Há como chegar a eles, aproveitando-nos de um quadro em que estão resumidos os tópicos abordados nos Principia Philosophiae, que, como O Mundo ou Tratado da Luz, é obra incluída entre as proibições do Index da Igreja Católica Romana.

Os Princípios da filosofia compõem texto comnplexo, que abrange quatro partes:


  1. princípios do conhecimento humano;

  2. princípios das coisas materiais

  3. o mundo visível

  4. a terra.

Dando início à abordagem direta do pensameno cartesiano, supomos necessários o estudo e a aprendizagem dos princípios do conhecimento humano, uma ez que, após definirmos o objeto a ser alcançado, parece tornar-se menos difícil eleger o método a vamos recorrer.

2.1 - Princípios do conhecimento humano;
Na Primeira parte dos Princípios da filofia, expressando o roteiro enquadrado na transdisciplinaridade, consigo distinguir algumas trilhas que se ajustam ou aproximam da nossa metodologia e, via das quais, talvez consigamos chegar a algum conhecimento.



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