Abertura do curso "AÇores à descoberta das raízes"



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ABERTURA DO CURSO "AÇORES À DESCOBERTA DAS RAÍZES"
Angra do Heroísmo, 21 de Setembro de 1998

Intervenção do presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César
É com o maior gosto que, nesta Sessão de Abertura do curso "Açores: à Descoberta das Raízes", dou as boas-vindas a todos os participantes, e renovo, em nome do Governo Regional, o nosso empenhamento no cumprimento da obrigação moral e cívica que nos cabe de prosseguir nas acções que visam aproximar os açorianos uns dos outros, dentro como fora dos Açores.
É esse, aliás, um dos objectivos deste curso, que experimenta a sua segunda edição, e em que agentes culturais vêm contactar directamente cinco das nove ilhas dos Açores, em áreas tão vastas como o património, a linguagem e a cultura popular, a iniciação teatral, os museus, o folclore, o ambiente, a investigação marinha, o culto ao Divino Espírito Santo ou a vida das nossas instituições políticas autonómicas.
Foi, exactamente, a Autonomia Político-Administrativa da nossa Região, que nos permitiu e permite registar e exaltar a nossa Cultura própria, e consolidar, através de uma atitude específica, a comunicação e a união dos açorianos espalhados pelo Mundo. É uma tarefa que a todos responsabiliza, mas na qual o Governo tem especiais obrigações.
É isso que procuramos fazer a todo o instante, num esforço proficientemente conduzido pela Direcção Regional das Comunidades.
Diariamente respondemos a novos desafios, numa articulação estreita com mais de duas mil organizações nos países em que tradicionalmente a nossa emigração se radicou e mesmo em outros que vamos descobrindo à medida que alargamos a nossa área de intervenção.
Exemplo disso é a presença de um investigador do Uruguai entre vós, que este ano decidiu conhecer a terra dos seus antepassados oriundos da Terceira e de S.Jorge e rumou a estas ilhas, por conta própria, para melhor desenvolver o seu trabalho de pesquisa. Está agora aqui, pela segunda vez, numa manifestação inequívoca da prioridade que assumiu na sua vida relativamente à Região onde os seus tetravós nasceram. Seja bem vindo!
Este é um grande testemunho da certeza de que percorremos um caminho correcto e seguro, cujo alcance não se esgota nem será visível nos tempos mais próximos, mas que já está a levar o nome da Região Autónoma dos Açores a mundos antes inimagináveis.
A ocasião é, assim, propícia a que vos apresentemos a nossa acção e os nossos objectivos no sentido de vos facultar uma mais completa informação sobre o que somos e o que pretendemos.
A transformação do Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas em Direcção Regional das Comunidades não constituiu uma mera alteração orgânica ou metodológica do Governo Regional.
Foi, desde logo, uma aposta do VII Governo Regional dos Açores na área das Comunidades. Representa, a importância que esta área nos merece, num permanente aprofundamento dos elos que nos ligam e do conhecimento que urge actualizar.
Ninguém ama o que não conhece. Este lema foi o incentivo que nos impulsionou a estabelecer uma nova comunicação com as Comunidades, que tem como objectivo primordial dar a conhecer e procurar o conhecimento, numa troca dinâmica de informações.
Nesta nova atitude, surgiu um revigorado fluxo de contactos, que dia a dia se procura alargar e intensificar, potenciando novos amplexos políticos, económicos, sociais, científicos, tecnológicos, partindo da afectividade que sempre estará presente entre os açorianos radicados no estrangeiro e a sua terra natal, mas visando objectivos mais amplos que os desafios deste final de século impõem e consubstanciam.
A cultura é o grande motor da nossa actividade. Sem desprezar a herança das genuínas tradições açorianas, mas privilegiando igualmente o conhecimento dos novos valores emergentes no campo artístico, conciliamos cultura popular e erudita, promovendo o intercâmbio saudável entre a Região e as Comunidades na perspectiva da divulgação.
Esta divulgação ocorre em vias diferentes, todas elas complementares. Através dos livros que apresentam os Açores, da ficção e dos poetas que reinventam estórias e estados de alma, cultivando o gosto e despertando emoções. Através dos trajes típicos, que estimulam a manutenção das nossas raízes folclóricas. Através de conferencistas que percorrem diferentes facetas do saber. Através da linguagem musical veiculada por grupos tradicionais e modernos. Através das artes plásticas de cá e de lá. Através das festividades tão queridas do nosso povo. Através de apoios diversos a diferentes iniciativas que visam a preservação da identidade cultural açoriana em terras distantes.
Foram contempladas com apoios diversos mais de vinte associações sediadas no Canadá, cerca de trinta no Brasil, mais de quarenta nos Estados Unidos da América e mais de trinta grupos e organizações dos Açores que se deslocaram a diferentes comunidades.
As diferenças numéricas não reflectem qualquer discriminação da nossa parte. Decorrem apenas das actividades comunitárias que nos são presentes.
Em síntese, e só neste ano de 1998, concedemos apoios a cerca de cento e trinta movimentos culturais das comunidades, sem contar com os investimentos à partida individuais, mas sempre numa perspectiva colectiva que representam os cursos, os seminários, os encontros e as visitas de estudo.
No ano passado, rondámos os oitenta. Este salto quantitativo corresponde também - e a tendência será sempre essa - a uma progressão qualitativa. As nossas exigências aumentam na proporção dos pedidos das comunidades. Já não é possível facultar respostas positivas a quantos se nos dirigem. Há que seleccionar os melhores projectos. Este é também um desafio que as Comunidades terão que vencer. Ultrapassar-se a si próprias na sua organização, no seu planeamento, no envolvimento dos açorianos, que representam o primeiro motor da sua sociedade.
Sem procurar protagonismos fáceis, trabalhamos arduamente, como é nossa obrigação, para manter viva a chama da açorianidade, integrado no contexto português. Sempre na busca incessante de fazer melhor, de responder más rápida e fundamentadamente, de encontrar novas soluções e equacionar diferentes perspectivas.
A língua portuguesa ocupa lugar privilegiado na nossa acção. À sua história e pedagogia é dedicado o Seminário "Portugal Atlântico e Açorianidade", cujos destinatários são professores de português no ensino básico dos Estados Unidos da América e Canadá. Para escolas e universidades da diáspora foram enviados este ano mais de mil e quinhentos livros, oitocentos discos e cassetes e outro material didáctico.

Contribuímos para que se realizem visitas de estudo e intercâmbios escolares que, aproximando as Comunidades, motivam os jovens para a riqueza patrimonial e humana das nossas ilhas, criando laços que perdurarão no futuro.


A ponte de comunicação que estabelecemos abrange também os órgãos de comunicação social das Comunidades. A transmissão de noticiários televisivos, programas radiofónicos e recepção de jornais é financiada integralmente por nós, numa cadeia de elos informativos e formativos dirigida a uma audiência de muitos milhares de pessoas, que não dispensam essa ligação aos Açores.
Promovemos encontros para debater problemas, ideias e projectos. em diálogo procuramos soluções, exercendo quando necessário uma acção pedagógica junto das nossas comunidades. Incentivamos a sua criatividade e o aparecimento de novas propostas de trabalho, no total respeito pela liberdade das suas decisões e pelo desenvolvimento das suas actividades.
A verdade é que, em resultado de um aturado trabalho de esclarecimento, ainda não concluído mas já frutuoso, começam a surgir novos planos por parte das organizações, também elas impulsionadas por esta corrente positiva do nosso relacionamento institucional.
Cabe-nos igualmente a tarefa de sensibilizar os movimentos associativos para o espírito de unidade, para a organização, para a transparência da sua acção. Neste campo, uma legislação reguladora de apoios vai disciplinar, clarificar e premiar as organizações que apresentarem os melhores projectos, estabelecendo-se regras estáveis e conhecidas de todos para nós a instrução das candidaturas a esses apoios e para o competente processo de decisão.
Integrar-se no país de acolhimento, e defender a imagem da Região natal não é fácil para ninguém. Amar duas pátrias, participar activamente na vida social, cívica e política do país em que se insere e preservar a cultura dos antepassados, mantendo os laços afectivos, é porventura o desafio mais profundo que se coloca ao cidadão emigrado e aos seus descendentes.
Nós apoiamos campanhas de cidadania, mas promovemos igualmente esse estreitamento cultural, num equilíbrio que cada um terá de saber encontrar em si próprio e na sociedade que o rodeia. Não queremos Comunidades estáticas e amarradas a um passado muito diferente do presente. Pretendemos sim Comunidades em evolução, como os Açores, com os olhos postos no futuro, a construí-lo já, porque perdemos muito tempo a exercitar mágoas e saudades quando afinal cruzamos o Atlântico num instante e estamos juntos outra vez.
Idêntica afirmação cabe também na vida aqui na Região para o emigrante regressado. Nós vamos ao seu encontro em cada uma das ilhas, onde não existe uma presença constante da Direcção Regional das Comunidades. Estamos a apoiar a sua reinserção, mantendo os elos necessários com o país onde residiu, para que não perca os seus direitos. Vamos ao seu encontro esclarecer as suas dúvidas, encaminhar os seus documentos, dizer que estamos também ao seu serviço e que é sempre bem-vindo.
Não se pense, porém que estamos satisfeitos com a obra feita. Pelo contrário. Cada contacto estabelecido gera mais dois, cada resposta dada sugere outras por encontrar, cada iniciativa pressupõe mais reflexões e mais acção.
O trabalho nunca acaba, pelo contrário aumenta gradualmente. O vasto mundo das Comunidades regista ainda zonas escuras, onde aos poucos vamos penetrando, com sensibilidade e persistência.
Apelamos também à vossa sensibilidade e persistência na divulgação do que aqui viestes conhecer e aprender a amar. Este investimento só será reproduzido com a vossa colaboração. Todo o nosso trabalho assenta, aliás, num espírito de cooperação que a partir de agora, é uma responsabilidade partilhada entre todos nós.
Lá, como cá, estamos, ou devemos estar, com o mesmo esforço, confiança e esperança, a construir os Açores melhores do futuro.



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