A vida vista da cela



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Encontro10.07.2018
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A vida vista da cela

Por ser rara, a saída de um "pioio"( nome dado àqueles detentos que, sentenciados a penas superiores a 20 anos, passam a maior parte da vida na cadeia. Ali casam, têm filhos, netos, às vezes bisnetos) acaba despertando o interesse "sociológico" de gente habituada à rotina do sistema carcerário. "Quando o detento passa pelo quinto e último portão, a expressão dele muda completamente; alguns agem como se o mundo ameaçasse engoli-los", descreve Jesus Ross Martins, 38, diretor da Casa de Detenção.

Martins conta que costuma interromper o trabalho para acompanhar essas raras libertações da janela de sua sala, no primeiro andar. "Ele olha para trás, para os lados, para cima, mas não sabe ao certo aonde ir. Se não tiver ninguém esperando por ele, fica ali, estático, por 10, 15 minutos, como se o tempo fosse dar-lhe uma direção."

Para o especialista em criminologia Roberto da Silva, 42, esses homens perdem mesmo o senso de orientação geográfica e, depois de décadas cercados pelos mesmos muros, não têm a mínima noção dos pontos cardeais.

"Na rua, não sabem tomar ônibus para lugar nenhum. Perderam os referenciais: onde antes vivia um velho conhecido, há tempos foi erguido um shopping", conta Silva, que entrevistou 240 detentos entre 30 e 59 anos para escrever a tese "A Eficácia Sociopedagógica da Pena de Privação da Liberdade", defendida em agosto, na USP.

Silva diz que, quando perguntados sobre o que perderam na vida encarcerada, 57 cravaram "noção de tempo". "Perder a noção do tempo", no caso, é como definem o sentimento de se sentirem ultrapassados, desatualizados. O tempo passou, mas ele só viu da janela ou pela TV.



(Roberto de Oliveira. Revista da Folha. Folha de São Paulo. Setembro/ 2001.)



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