A vida Mítica através do Amor



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Encontro19.07.2018
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A Vida Mítica e a Individuação através do Amor Trovador

O texto a seguir baseia-se em pesquisa na modalidade revisão bibliográfica sobre os temas amor, vida mítica e ocidente, relacionados ao processo de individuação de Carl Gustav Jung.


A criação de mitos e a primeira experiência da vida miticamente vivida remetem-nos a uma transformação humana tão poderosa que pode muito bem ser considerada o início da humanidade, ou da construção do próprio homem como Deus, já que começa a obter ferramentas simbólicas que integram seu funcionamento com o numinoso, ou o Grande Mistério. Este começo de processo que poderia ser descrito como uma individuação coletiva deu-se a partir do enorme problema de perceber-se mortal e, a partir daí, da busca em resolvê-lo.

Desde então, ficou claro que, sendo este o mistério dos mistérios, sendo o ser existente incapacitado de conhecer além da própria existência, ou da própria cadeia de eventos que o criou, a única forma de apaziguar tal posição seria a aceitação de que qualquer compreensão do que realmente se trata a existência teria que ser experimentada. Somente através da reprodução da dinâmica do cosmos e através da participação voluntária, reconhecendo seu papel como parte de um grande todo, poderia o homem reencontrar uma nova forma de incluir-se de volta à criação. E incluir-se de volta era, seguramente, dar um novo sentido, transcendental, além do controle humano e, portanto, entregar-se à vida completamente, deixando as questões insolúveis para o Criador. Então, com os primeiros rituais de enterro, o homem começou sua participation mystique, sua participação divina no planeta, sua vida mítica onde o símbolo do sagrado, sempre à sua volta, sustentava sua condição e o ligava a algo além.

Mas ao longo de nosso desenvolvimento algo muito importante se perdeu. Principalmente em nossa era do raciocínio lógico, do Logos, o mundo se desmistificou, pois passamos a depender da mente científica ocidental para ditar as explicações com as quais podemos viver, reduzindo todo e qualquer sentido fora destas esferas aceitáveis a meros simbolismos primitivos, partes de um passado onde, como não tínhamos a ciência para entender, usávamos como desculpa explicativa. Porém tampouco nosso raciocínio pode dar conta deste algo além, que continua sem resolução, mas agora com um agravante, não o compreendemos e muito menos o aceitamos, participando como antes. Literalmente nos jogamos para fora do Jardim do Éden abrindo uma ferida angustiante da existência e do sentido que, obviamente, não se resolverá com nossa ciência. Somos filhos de algo que sabiamente o oriente não tenta nomear, somos como pequenos peixes dentro de um vasto oceano, tentando estudar a água que nos criou, que está tanto ao redor quanto dentro de nós, e que um dia nos levará. A vivência mítica e a compreensão intuitiva já não nos apóiam naturalmente para o desenvolvimento de uma vida criativamente responsável com os cosmos, e parecemos estar à beira da completa alienação destrutiva. Algumas histórias antigas, como a que segue abaixo, parecem relatar esta cisão.

De acordo com uma certa versão da lenda do rei do Graal, este, num duelo repentino, matou a natureza, simbolizada por um cavaleiro muçulmano e, ao mesmo tempo, foi castrado por ela (Campbell, J. – O poder do mito). Tal cavaleiro morto pelo rei, tinha escrito, na lança usada para a luta, a palavra “graal”, símbolo da vida autêntica vivida a partir da essência inconsciente, da natureza intrínseca do indivíduo em perfeita resposta a seus profundos anseios. Este conto relata com bastante acuidade nossa separação da natureza. Não somos mais dela, do planeta ou do cosmos. Nós os estudamos, os entendemos e agora os controlamos. E como não mais vivemos o mistério inexplicável, nos resta apenas ficar atônitos com cada fortuito da vida, e cada dor que nos culpa, deixando-nos cada vez mais presos ao sofrimento, à projeção e ao controle, pois não há mais reconhecimento do dinamismo divino.

Porém, aplicando a regra da compensação, que parece permear a dinâmica da vida além de nosso controle, vemos surgir, ao mesmo tempo em que nos separamos da vida mítica e nos individualizamos, outro caminho para alcançá-la de novo. Um caminho não pelo coletivo, mas sim através da nova forma que o homem ocidental criou para experimentar o mundo à sua volta - provando de novo a tendência intrínseca de auto-realização e direção à vida, natural da psique - através de si-mesmo. Esta forma ganhou sua principal representação com o amor, e esta nova idéia teve tamanha força que acabou por tornar-se um sistema social, e uma idéia da qual ainda hoje resgatamos forças profundas para vivermos autenticamente nossa própria vida e, consequentemente, realizarmos o processo de individuação.

A idéia deste amor, que não foi absolutamente o primeiro amor a surgir, mas que se diferenciava muito dos anteriores, surgiu com os Trovadores em resposta ao já pouco eficaz sistema eclesiástico que, através do uso do poder e da cega obediência ao sistema, fingia poder oferecer a resolução de tal posição humana angustiante. E a principal diferença deste amor para com os outros, era, claro, que partia do próprio indivíduo, da experiência de pessoa para pessoa, e refletia uma verdade interna que até pouco antes, não se podia ter acesso. Esta história está altamente representada pelo conto de Tristão e Isolda, onde o dever de um casamento arranjado por um sistema para qual só se pode servir é deposto pelo arrebatamento do amor pessoal, e ganha vida a um ponto em que o sacrifício desta mesma torna-se igualmente valioso a fim de permanecer com tal sentimento. A história é a seguinte:

Tristão é encarregado de buscar Isolda para seu prometido noivo. Como Isolda e seu noivo estão prestes a casar sem ter ao menos se visto uma vez, a mãe de Isolda prepara uma porção de amor, para que os dois apaixonem-se no encontro. Tristão e Isolda, pensando ser vinho tal líquido, tomam e apaixonam-se imediatamente. A ama de Isolda, ao perceber tal situação diz a Tristão que este acabou de beber sua morte, ao que este replica, demonstrando a nova força interna da decisão pessoal que permearia esta idéia: “Se por morte você quer dizer esta agonia do amor... é a minha vida. Se por morte você quer dizer minha execução se for descoberto, eu a aceito. Se por morte você quer dizer punição eterna no inferno, eu também a aceito.” – Esta é, então, a afirmação da vida pela dor, e a grande descoberta que a partir do indivíduo e suas experiências próprias, a vida será vivida em sua mais profunda completude. Mais que isso, não podemos deixar de relevar o fato de ter sido a mãe de Isolda quem preparou a poção. Isto é, não só o feminino, mas a representação da mãe-terra, do mundo mítico, do planeta tantas vezes representados com o símbolo da mulher que pare seus filhos, fornece a poção que os levaria a um novo caminho, agora pessoal, de redenção. E não será um caminho fácil, pois como Tristão deixa claro, terá que aceitar todas as provações, o próprio sofrimento de estar vivo, para viver sob um aspecto mítico. Na verdade, só através do sofrimento e da apreensão do mistério da vida como tal, é que se cria a possibilidade de voltar à vida mítica, participando integralmente com toda e qualquer forma dinâmica que está além da compreensão ou controle do racional humano. A participation mystique torna-se, mais uma vez, possível.

O amor Trovador, assim, sinaliza o novo processo pelo qual o homem pode retornar à criação, à vida mítica. A individualidade que antes nos separou, é agora o caminho de volta que, através da experiência da vida individual autêntica de acordo com suas mais profundas vontades de realização, e também através da superação do inevitável sofrimento inerente a qualquer existência em nome deste amor, nos reabre os portões do Éden, fazendo as pazes com o inexplicável do qual todos somos conseqüência.

O arrebatamento do amor Trovador no indivíduo torna-se, então, a razão pessoal forte o suficiente para resistir à vida sem sentido e para colocar em andamento tão grande projeto de realização. Tal realização acaba por transformar-se, a partir da simbolização individual criativa, na experiência religiosa pessoal de cada um, na criação do próprio mito, com seus próprios símbolos numinosos específicos reagindo e tomando força para impulsionar ainda mais o processo de individuação.

Jung certa vez contou que, em uma conversa com o cacique dos índios Pueblo, os quais visitava, lhe foi dito a impressão que este tivera dos homens brancos. Disse que tais homens andavam sempre agitados, em busca de algo, com rostos cheios de rugas, o qual ele considerava ser um sinal de intranqüilidade eterna. Achava que os brancos eram loucos, pois pensavam com a cabeça, coisa que só gente louca faz. Quando Jung o indagou como ele pensava, respondeu-lhe prontamente: “Com o coração, naturalmente.” Jung ainda completou a história dizendo que também os gregos diziam que pensavam assim.



Curiosamente não diferente é a descrição de como o amor Trovador pode ser reconhecido: “Através dos olhos, este alcança o coração, pois os olhos são os guias do coração. Os olhos procuram o que o coração gostaria de possuir. E quando estão em pleno acordo, os três em harmonia, nasce o perfeito amor, que brota do que os olhos tornaram bem-vindo ao coração. Os verdadeiros amantes sabem, o amor é perfeita bondade que nasce sem dúvida do coração e dos olhos”.



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