A verdadeira história que a própria rádio não tem coragem de contar ampliada e atualizada



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Rádio Cidade
Rio de Janeiro 102,9 mhz

Fase áurea: 1977-1984



A verdadeira história que a própria rádio não tem coragem de contar - ampliada e atualizada

A trajetória de uma rádio pop despretensiosa que se tornou uma "rádio rock" pedante e desastrada

1º de maio de 1977

O rock mundial ferve com a onda punk desafiando a hegemonia do folk rock e o crescimento do heavy metal. Muitos dos artistas de rock hoje consagrados estavam a pleno vapor e muitas feras do rock hoje falecidas estavam vivas e na ativa. E onde estava a hoje autoproclamada "A Rádio Rock" carioca, a Rádio Cidade? Estava divulgando a disco music, o pop dançante da época. Por outro lado, nomes conceituais do rock como Dead Kennedys, Buzzcocks, Jethro Tull, Frank Zappa e Deep Purple ou mesmo os brasileiros Mutantes, O Terço e Made In Brazil, para não citar nomes mais obscuros, não davam sequer as caras, e não adiantaria espernear. Hoje o rock é sucesso de vendas de discos, ingressos e outros apetrechos e a Cidade, oportunista, posa de "eterna rádio rock" e, para disfarçar, oculta seu passado de FM dançante.

Para que ninguém pense que em seus primórdios a Rádio Cidade tocava só "Smoke on the water" e "Anarchy in UK" - aliás ela nem tocava isso - ou, quando se admitia seu passado pop, apenas a Sugarhill Gang e "Como uma onda" do Lulu Santos, colocamos aqui a verdadeira história da emissora.

Afinal, como dizia um dos fundadores da Rádio Cidade, Fernando Mansur, "conte-me tudo, não me esconda nada". Iremos mostrar a história da rádio que seus profissionais recentes insistem em ignorar, não satisfeitos em estragar com o presente da rádio, querem esconder seu passado. Por isso, aqui está a história que a Rádio Cidade de hoje, infelizmente, se recusa a contar.

1. A origem da Rádio Cidade



Era o dia primeiro de maio de 1977. Era feriado, dia do trabalho, data a qual os trabalhadores celebram em folga. Mas aquele dia era de muito trabalho para os técnicos e profissionais que estavam trabalhando na criação de uma nova emissora FM, no prédio do Sistema Jornal do Brasil.

Essa emissora ganhou o nome de Rádio Cidade - nome inspirado na Radio City of America, a célebre RCA dos EUA - , ocupando a frequência de 102,9 mhz do Rio de Janeiro. Seu perfil era pop, um perfil considerado novo para a época e que se baseava no paradão de sucesso norte-americano, nas revistas Billboard e Cash Box.

Já antes da fundação a rádio operava em caráter experimental, sob o nome de Rádio Jornal Fluminense FM. Não se deve confundir essa rádio com aquela que foi conhecida como Fluminense FM - a "Maldita" - , cujo nome jurídico é Rádio Difusora Fluminense FM, existente até hoje, quando a rádio dos 94,9 niteroienses se chama Jovem Rio. A Rádio Jornal Fluminense operava, desde meados de 1976, num edifício na Rua Maestro Felício Toledo, Centro de Niterói, mas quando se tornou Rádio Cidade já tinha seus estúdios situados no prédio do Jornal do Brasil, na Avenida Brasil, entre os bairros cariocas de São Cristóvão e Caju.

Segundo Marcelo Delfino, no "Tributo ao Rádio do Rio de Janeiro", a Rádio Jornal Fluminense teria sido, originalmente, uma concessão ao jornal O Fluminense. Mas, ao ser adquirida a Rádio Jornal pelo Jornal do Brasil, o periódico niteroiense adquiriu outra concessão, que virou Rádio Difusora.

A escolha do nome Rádio Cidade teve origem na natureza do nome Jornal do Brasil. A rádio iria se chamar Rádio Jornal da Cidade, mas o nome foi simplificado para Rádio Cidade. Segundo o diretor-presidente do Jornal do Brasil, Manoel Francisco de Nascimento Brito, o nome sugerido era "Rádio Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro", que, ao ser abreviado, virou Rádio Cidade. As vinhetas, gravadas nos EUA, chamavam atenção por sua linguagem modernamente pop e a mais célebre delas era um coro feminino que cantava "Cidade...Ôôôôôiiii..." ou "Cidade...Cidadeeee!!!!", esta última com um arranjo orquestral que lembrava o Earth Wind & Fire de Maurice White e a Love Unlimited Orchestra de Barry White.

Seus responsáveis diretos foram Carlos Townsend (nenhuma relação com The Who, sequer como fã - lembrando que o guitarrista do Who tem sobrenome Townshend, com "h" entre o "s" e o "e"), o Cacá, Alberto Carlos de Carvalho (o Beto), Clever Pereira, Carlos Lemos (então superintendente do Sistema JB, ele havia sido diretor do Jornal do Brasil nos anos 60, quando o lendário Sérgio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta, integrava a equipe), Romilson Luiz e Eládio Sandoval, entre outros. 

Eles eram profissionais que trabalhavam na Rádio Jornal do Brasil AM que, baseados no modelo de diversas FMs jovens dos EUA - principalmente a emissora WBLS FM, de Los Angeles, e a WABC, de Nova York, além de idéias que Carlos Townsend trouxe de Miami - , utilitárias das paradas de sucesso da Billboard e Cashbox, introduziram no Rio de Janeiro uma FM jovem, animados com o sucesso do segmento pop em São Paulo.

O desenvolvimento de rádios pop era uma atitude de vanguarda se considerarmos o que era o rádio FM da época, dividido ora entre a imitação do rádio AM (que até hoje certas FMs astutas de São Paulo e do resto do país ainda vendem como "novidade"), ora entre um perfil sisudo que tocava música romântica e qualquer som considerado "suave" e "família", perfil este que, reciclado, consiste nas atuais rádios FM de "adulto contemporâneo".

Portanto, era novidade na época criar uma "rádio jovem", com locutores animados e um repertório pop, com um cardápio musical pequeno que era de média de 45 a 60 músicas na chamada grade de programação diária. A Rádio Cidade foi pioneira nesse formato e, ainda que a emissora carioca tenha surgido um ano depois da Jovem Pan 2 FM de São Paulo (surgida em 1976 e já comandada pelo radialista Tutinha, dono da rádio e filho do fundador e proprietário da lendária Rádio Panamericana de São Paulo, hoje Jovem Pan 1, transmitida em AM), cabe à Rádio Cidade ser considerada a ancestral do estilo hoje adotado pela Jovem Pan 2, uma vez que esta durante muito tempo foi dedicada ao perfil brega-romântico. A Jovem Pan 2 só passou a ser, de fato, uma rádio pop como se conhece hoje, a partir de 1983.

O estilo de locução adotado era em tom de conversa, inspirado no estilo do locutor paulista Dárcio Arruda. Com a fala mais ou menos corrida, o discurso era simples, com gírias, piadas, uma conduta bastante animada. Era um discurso que funcionava num formato pop e que era mais calmo e comportado em relação à locução pop de hoje, mais gritada, mais corrida e frenética, adotada pela Transamérica nos anos 80.

Uma amostra da descontração da Rádio Cidade foi quando Eládio Sandoval foi ler uma notícia e, de repente, comentou: "Ih...O papel caiu no chão". Nessa época o estilo de fala na locução hit parade era mais devagar, comparado com o ritmo neurótico de hoje em dia - comum nas FMs dance mas empurrado também para as "rádios rock" nos últimos quinze anos, mesmo sob protestos dos roqueiros autênticos - , e esta dicção pop, descontraída e "relax" atualmente é adotada por algumas FMs popularescas, sobretudo no horário noturno.

Musicalmente, a Rádio Cidade priorizava a dance music, embora abrisse uma cota para o que era mais pop e digerível no rock, e que faça presença nas paradas de sucesso do Brasil e do mundo. Algo como um hit bem massificado do Peter Frampton, ou os grupos tipo Eagles e America, mega-sucessos de então. Não fosse nessas condições, o rock não entrava na Cidade, que nem usava o gênero sequer como carro-chefe da programação. 

As intenções da rádio eram bem outras, desenvolver a chamada cultura pop no Rio de Janeiro e, depois, para várias partes do país. Era uma tradução, em linguagem e espírito bem carioca, das FMs de sucesso dos EUA. Ah, e havia espaço para música romântica, muita música romântica, mas que seja curtida por casais de adolescentes e jovens adultos que quisessem namorar diante da paisagem litorânea do Rio de Janeiro. A ala jovem da MPB da época - Roupa Nova, Guilherme Arantes, Zizi Possi, A Cor do Som, Dalto - também teve amplo espaço nos 102,9 mhz cariocas, juntamente com nomes consagrados, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Simone, Djavan e Gal Costa.

Por um erro de interpretação, as pessoas que hoje em dia fossem ler eventuais reportagens sobre a Rádio Cidade no Jornal do Brasil em 1983 ou que fossem informadas, tardiamente, de eventuais inserções em 1982 de intérpretes da coletânea "Hollywood - O Sucesso", que priorizavam o rock de paradão como Journey, Survivor e os ótimos Police, Asia e Peter Frampton, poderiam supor uma inclinação "roqueira" da emissora já nessa época. Mas tal visão é falsa, uma vez que o rock que rolava na Cidade era puramente mainstream, composto ora de nomes questionados pelos roqueiros autênticos (Survivor, Journey) ou por nomes autênticos que alcançaram o topo das paradas de sucesso (Police, The Clash), ou nomes brasileiros cuja massificação chegava ao alcance de demandas popularescas (Rita Lee, Lulu Santos, Blitz).

Em 1977 a música disco, a dance music que vigorava naquela época, tinha na Rádio Cidade uma de suas pioneiras divulgadoras no Brasil, juntamente com a novela "Dancing Days" da Rede Globo de Televisão. Quem hoje tem mais de 30 anos deve lembrar muito bem que a Rádio Cidade tocava bastante o grupo vocal As Frenéticas, no qual integravam várias atrizes e foi empresariado pelo jornalista Nelson Motta, um jovem talento da imprensa dos anos 60 que, nos anos 80, foi letrista de Lulu Santos, lançou Marisa Monte, relançou Daniela Mercury e hoje integra a equipe de apresentadores e comentaristas do programa "Manhattan Connection", do canal pago GNT. As Frenéticas viraram um estrondoso sucesso em 1978, emplacando dois hits nas trilhas de novelas da Rede Globo: "Dancin' Days", naquele ano, e "Feijão Maravilha", já no ano seguinte.

A Cidade tocava desde o que havia de bom na música disco, como os grupos Chic, KC & The Sunshine Band, Whispers, Kool & The Gang, The Jacksons (o Jackson Five na idade adulta, e com um irmão a mais) e Earth Wind & Fire, até mesmo cafonices como La Bionda, Charo, Village People e Boney M.

Um dos programas de maior sucesso da Rádio Cidade foi o hoje esquecido "Cidade Disco Club", programa dedicado à disco music, e seu similar "Cidade Dance Club", apresentados ora por Ivan Romero, ora por Sérgio Luís Drodrovsky. Esses programas eram ancestrais do "Ritmo da Noite" da Jovem Pan 2 e que na mesma Rádio Cidade teria um equivalente mais moderno, o "Festa da Cidade", já no final dos anos 80. Era um programa que mostrava os sucessos e as novidades da disco music no mundo e que dava dicas sobre as boates mais badaladas do Rio de Janeiro, seus DJs e eventos.

Os DJs da Rádio Cidade na época eram despretensiosos, do contrário dos atuais DJs de dance music carioca, que recentemente fizeram quixotismo barato se auto-promovendo às custas da falência de uma rádio alternativa, a Fluminense FM, para desenvolver a rádio Jovem Rio FM (que, anteriormente, já havia usado a franquia da Jovem Pan Sat, tendo existido entre outubro de 1994 e julho de 2000 sob o nome de Jovem Pan Rio), que esteve no ar nos 94,9 mhz do Grande Rio do início de agosto de 2000 até final de julho de 2002, quando tais DJs, sem cerimônia, tiveram que ceder espaço à nova Fluminense FM (que no entanto não conseguiu se firmar no rock, devido às pressões mercantilistas do empresário Alexandre Torres). 

Os antigos DJs da Cidade não tinham o estrelismo e a arrogância dos pedantes DJs da Jovem Rio, que mesmo tocando dance baba querem ter no Rio de Janeiro o mesmo carisma e o mesmo prestígio que DJs paulistas de drum and bass (ritmo de música eletrônica dos anos 90 para cá) Marky, Patife e Felipe Venâncio possuem na Europa.

Vale até destacar um pedantismo lamentável dos DJs atuais, que rotulam a dance music que tocam como techno, trance, ambient, quando se trata de algo até pior do que muita cafonice dançante que não tinha tais pretensões. A dance music que tais DJs promovem não é mais do que simples música para aeróbica, feita para estimular a "boa forma" da chamada "geração saúde" e a musculatura de lutadores de jiu-jitsu e outras artes marciais. 

Não é à toa que, quando a Jovem Rio estava no ar, desde 1994 sob a franquia da Jovem Pan Sat, era muito comum as gangues de jiu-jitsu aprontarem confusão na noite carioca, a ponto de virarem ocorrências policiais, causarem mortes etc.. A rádio dance dos 94,9 mhz acabou decaindo ao virar um reduto radiofônico dessa demanda minoritária e extremamente burra e agressiva, que na melhor das hipóteses tem como hobby promover poluição sonora nas ruas do Grande Rio, com o som de seus possantes carros importados, no altíssimo volume de seu arrojado equipamento de som, objeto de muita cobiça de assaltantes pés-de-chinelo em busca de uma ascensão na escala do poder do narcotráfico carioca.

A Rádio Cidade se tornou, imediatamente quando surgiu, um grande sucesso. Na primeira semana de existência, se tornou a primeira colocada em audiência. Virou uma "febre" que inspirou uma série de emissoras e provocou o nascimento da rede ancorada pela Rádio Cidade.

Nessa época rede não era uma associação de emissoras para retransmitir, via satélite, a programação da emissora sede. A tecnologia do satélite só seria implantada em rádio uma década depois, mais precisamente 1991. No início dos anos 80, a expressão "rede de rádio" era usada para criar emissoras associadas pelo resto do país, que reproduziam o formato da emissora sede mas tinham programação 100% regional.

A Rádio Cidade criou uma porção de afiliadas no país. São Paulo, Brasília, Vitória, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Florianópolis, Porto Alegre, e uma série de capitais ou regiões de cidades passaram a ter suas similares da Rádio Cidade. Rádios como Transamérica, antes uma FM sisuda, e Jovem Pan 2, passaram nos anos 80 a seguir a mesma fórmula da Rádio Cidade. O grupo Bloch (de Adolpho Bloch), o mesmo da revista Manchete, também decidiu investir numa rede de FMs com o mesmo perfil da Cidade, a Manchete FM. O grupo já tinha a rede Manchete AM.

A Rádio Cidade permaneceu tranqüila, inabalável e íntegra na sua linha pop de 1977 a 1984. Em 1981 a rádio começou a perder um pouco do seu fôlego. O surgimento da 98 FM, em 1978, no lugar da antiga rádio de rock Eldorado FM (Eldo Pop), abalou um pouco a Rádio Cidade, que quase beirou sua programação ao popularesco. Algo como ocorre com a Jovem Rio, que toca nomes como Maurício Manieri, Claudinho & Buchecha e Laura Pausini, que já são regularmente tocados nas FMs popularescas.

Mesmo assim, até algumas breguices eram hilárias, como a idéia do locutor nordestino Jaguarassu da Silva, o Jaguar, de apelidarem o forrozeiro Genival Lacerda de "Mick Jegue" ou de Romilson Luiz criar um personagem chamado Piu-Piu de Marapendi, que chegou a gravar alguns discos e ter como grande sucesso uma paródia da música "Você não soube me amar", da Blitz, que ganhou o título de "Eu hoje vou me dar bem". Em São Paulo, Serginho Leite da Jovem Pan 2 passou a gravar paródias similares, desta vez tendo como alvo o mega sucesso "Thriller", de Michael Jackson.

Nessa época até a Antena Um, hoje uma FM de "adulto contemporâneo" (uma das poucas decentes do gênero, sem pretensões de empurrar baba romântica como se fosse "jazz & blues" como muita FM faz), seguia a linha da Rádio Cidade. Um dos maiores sucessos da Antena Um do Rio de Janeiro era o locutor Paulo Cintura, ninguém menos que o mesmo Paulo Cintura do bordão "saúde é o que interessa, o resto não tem pressa", lema que o comediante já usava na Antena Um, que havia tirado da Cidade Eládio e Romilson (e este com seu Piu-Piu de Marapendi).

A Cidade, nesta fase de 1977 a 1984, semeava uma linguagem jovem, assumidamente pop e sem pretensões vanguardistas a todo custo, e colhia seus frutos como uma das FMs mais fortes do Rio de Janeiro e uma das mais influentes no Brasil.

Para coroar esse fase de sucesso, Fernando Mansur lança, ainda em 1984, o livro No ar, o sucesso da Cidade, hoje fora de catálogo. Trata-se de um registro da experiência de Mansur na rádio e da trajetória da fase áurea da Rádio Cidade.
2. O desvio de percurso da Rádio Cidade

A Rádio Cidade começou a decair em 1985. 

Sua equipe original partiu para outros projetos. Como sempre acontece na vida, dificilmente as pessoas se fixam sempre nas mesmas atividades, e quem é dinâmico vai sempre arriscando novos trabalhos, ainda que abrissem mão de suas tarefas pioneiras. Isso é natural e saudável. Fernando Mansur havia saído da rádio para desenvolver, em 1984, a 105 FM, uma rádio pop que depois virou popularesca e, nos anos 80, se tornou afiliada da Rede Aleluia, da Igreja Universal do Reino de Deus. 

No entanto, o perigo estava por vir. Luiz Antônio Mello, fundador da Fluminense FM e que foi profissional do Jornal do Brasil (eventualmente ele escreve até hoje para o jornal), havia escrito no livro A Onda Maldita - Como Nasceu e Quem Assassinou a Rádio Fluminense FM, que a equipe da Fluminense, naquela época de 1982-1984, já sentia um sério temor de que a Rádio Cidade, com seus muitos kilowatts, despejasse rock sobre o Rio de Janeiro. "Estaríamos ferrados", escreveu Mello em 1992, numa profética citação de uma sensação da época, só concretizada em 1995.

Depois do sucesso do Rock In Rio e da ascensão da rádio alternativa Fluminense FM, a Cidade começou a cobiçar o rock. Contratou locutores da Fluminense (incluindo Monika Venerabile e Milena Ciribelli), o que foi a raiz de uma dupla decadência, que tanto levou a Fluminense FM ao fim e a Rádio Cidade a uma completa perda de identidade atualmente.

A Transamérica também seguiu o mesmo caminho da Cidade e contribuiu também para o fim gradual da Fluminense. Com igual prejuízo para a Transamérica em relação à Cidade.

A tímida adesão da Rádio Cidade ao rock era fruto de um acordo com alguns anunciantes, que eram grifes de moda jovem que também anunciavam na revista Domingo, suplemento do Jornal do Brasil. Interessava a lojas como Company, Blu 4 e Pier (as mais populares em moda jovem carioca), mais as lojas de moda surfista Reggae e Arrebentação (que passaram a anunciar na Rádio Cidade em fins de 1984), que a Rádio Cidade tivesse inserções de rock - porém nada além daquilo que fazia sucesso no Brasil e no exterior - em sua programação, ainda que seu formato declarado continuasse sendo o pop.

A contratação em 1985 de alguns locutores da Fluminense FM, no entanto, foi feita na melhor das intenções, baseada na sincera amizade que o diretor da Fluminense, Luiz Antônio Mello, que foi repórter da Jornal do Brasil AM, tem com os idealizadores da Rádio Cidade. Alguns programas até bons foram ao ar, embora os operadores, não entendendo a linguagem desses programas, faziam os locutores falarem em cima das músicas, atrapalhando a audição integral das mesmas. Quem estava com o gravador ligado freqüentemente ficava com a paciência torrada por ver, por exemplo, aqueles primeiros riffs de determinada música serem abafados por uma locução simultânea, o mesmo ocorrendo, em outros casos, nos refrões finais.

O problema da contratação partiu não da equipe da época, mas da cúpula do Sistema JB, divisão de rádio, que sentiu o gosto de ver a Rádio Cidade de alguma forma relacionada ao rock. Era uma espécie de dor-de-cotovelo do Sistema JB de não ter desenvolvido o formato da Rádio Fluminense FM, uma rádio alternativa surgida sob a tutela do Grupo Fluminense de Comunicação, empresa niteroiense responsável pelo jornal O Fluminense, o mais importante jornal do Estado do Rio de Janeiro até a fusão em 1975 deste com a antiga Guanabara, Estado composto pela cidade do Rio de Janeiro depois que esta deixou de ser o Distrito Federal, com a inauguração de Brasília, em 1960.

Se por outro lado houve contratação de profissionais da Rádio Fluminense FM, depois foram contratados profissionais da Rádio Transamérica do Rio de Janeiro, liderados pelo então coordenador Eduardo Andrews. Segundo muitos ouvintes originais da Rádio Cidade, Andrews pode ser considerado o principal algoz da Rádio Cidade, pois implantou, primeiro, a locução neurótica, corrida e gritada, fórmula que iludiu e acostumou mal os jovens. E, segundo, a própria deturpação do perfil rock no rádio, reduzindo o repertório ao hit-parade do gênero e introduzindo um tipo de locução impróprio, por ser completamente dotado de debilidade mental, coisa que os radialistas originais de rock se recusaram sabiamente a fazer, inspirados na fase contracultural do rock, em que a imbecilidade era a regra a não ser seguida. 

Andrews também esboçou a atual trajetória da 89 FM (que falaremos a seguir) depois de Tavinho Ceschi (hoje apresentador de telejornal da TV Bandeirantes), ou seja, introduziu a mentalidade pop comercial diferente da visão criativa das rádios de rock originais. Como todo sujeito que comete erros sérios, Andrews saiu do segmento rock (depois do estrago ser feito) e hoje faz parte do Sistema Globo de Rádio.

A tentativa dessas rádios comerciais em embarcar no rock demonstra um sentimento de insegurança das mesmas naquela época. Com medo de seu perfil assumidamente pop soar datado, e vendo o grande sucesso do Rock Brasil e do festival Rock In Rio I, as emissoras chegavam até a tocar "Jailbreak", música mais acessível da banda australiana de heavy metal AC/DC (curiosamente de uma fase já extinta, com o vocalista Bon Scott, morto em 1980; "Jailbreak" foi lançada postumamente em 1984, quando o grupo já vinha há tempos tendo como cantor Brian Johnson, famoso por seu boné, cantor com o qual a banda veio para o primeiro Rock In Rio), além de tentar alguns "sucessos" da banda mais popular do gênero, o Van Halen, então com David Lee Roth como vocalista. 

A Rádio Cidade havia passado pela experiência de patrocinar o concerto do Van Halen no Rio de Janeiro, em 1983. Bandas como Queen e Kiss haviam feito, respectivamente em 1982 e 1983, estrondoso sucesso nas suas apresentações brasileiras. O Kiss, por exemplo, estava em baixa nos EUA na época, e o sucesso no Brasil, se não foi o motivo principal, foi um fator importante para revitalizar a popularidade do grupo no seu país de origem, o que veio nos anos 90. O Queen, por sua vez, teve como seu sucesso mais marcante a versão ao vivo de "Love of my life", canção cuja versão original é pouco conhecida do grande público. A música, autoria do falecido Freddie Mercury, em sua versão ao vivo tem como destaque uma parte em que a platéia canta parte de uma estrofe.

Entre 1985 e 1988 a Cidade era mais tímida na abordagem do rock. Mas sua pretensão era nascente, só não "levantava a bandeira", gíria que significava "dizer que estava lutando por uma causa", no caso o rock. Falando mais claro, a Cidade ainda não se auto-definia como "rádio rock". Tocava o Rock Nacional e alguns intérpretes do pacote chamado "Música dos anos noventa" da WEA, que lançava grupos do porte de Smiths, Everything But The Girl (que em 1985 fazia a mesma linha melódica dos Smiths), U2, Echo & The Bunnymen, Dream Academy, Propaganda, Jesus & Mary Chain (este praticamente não era tocado pela rádio), Aztec Camera, Nik Kershaw etc..


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