A turma de todos os tempos



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A TURMA DE TODOS OS TEMPOS



I – SAUDAÇÃO AOS PRESENTES
Exmo. Professor JOHNSON BARBOSA NOGUEIRA, ilustre diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia; Exmo. Professor CELSO CASTRO, Coordenador de nosso curso de Direito; Exmo. Patrono, cientista penal FERNANDO SANTANA; Exmos. Professores Homenageados, ARI GUIMARÃES, SÉRGIO SCHLANG, e GEISA RODRIGUES; Amigo da Turma, FREDIE DIDIER SOUZA JR.; Srs. Funcionários Homenageados, vigas de sustentação da Faculdade, SEU JOVINO E SENA, SRAS. E SRS. DA PLATÉIA, queridos amigos e afilhados da turma de formandos de 2001.1.
Confesso ser este um dos momentos mais importantes de minha vida. Não só por estar ao lado de uma mesa tão qualificada, sobre cujos componentes eu poderia levar horas falando (algo que não farei, porque não tem nada mais insuportável do que discurso de formatura demorado). Mas eu não me furtarei de tecer breves considerações a respeito de cada um dos senhores:
O nosso diretor, JOHNSON NOGUEIRA, homem de personalidade doce, afável, um verdadeiro gentleman;
O vice-coordenador de curso, WILSON ALVES DE SOUZA, renomado especialista em Direito Processual Civil, paradigma moral de magistrado;
O nosso patrono, professor de minha turma de faculdade, homem de convicções firmes, eterno inconformado com as mazelas da vida e do nosso Estado, e cujas lições de vida e palavras, proferidas em aulas ou conferências, costumam rasgar a injustiça do tecido social com a força de uma adaga afiada, FERNANDO SANTANA;
Os nossos professores homenageados, ah... que seres humanos fantásticos! ARI GUIMARÃES, um verdadeiro exemplo de dedicação e amor ao estudo do Direito Constitucional, mestre de todos nós; SÉRGIO SCHLANG, o maior especialista em Direito do Consumidor no Estado da Bahia, e, o mais importante, um “sujeito super gente boa”. Quem não gosta de ti, caro amigo, é de mal com a vida! Querida GEISA RODRIGUES, exemplo de independência no desempenho de suas funções na Procuradora da República, tão admirada por seus colegas e alunos por seu amor à nossa

Faculdade, que adotou com tanto carinho;


Os nossos funcionários homenageados, SEU JOVINO E SENA.
Existem seres humanos que são absolutamente indispensáveis. Esses dois são exemplos disso.
Sem essas pessoas, sem os Jarbas, as Mércias, as Ramanitas, os Tios Arlindos, e por que não dizer “a nem sempre bem-humorada moça da cantina” o que seria de nossa Faculdade? Ou vocês acham que nós, os professores, é que somos os indispensáveis? Indispensáveis são eles, que, com a humildade necessária (e a paciência no limite), sempre se esforçaram para dirimir os nossos problemas. Aproveito a oportunidade, inclusive, para agradecer-lhes tudo o que têm feito por nossa Casa.
Muito Obrigado.
Ah, e faltou o amigo da turma!
FREDIE DIDIER JR.
Eu o deixei por último propositalmente. Ele sabe o que eu acho dele. Jovem processualista brilhante, herdeiro de uma geração representada pelo Grande Calmon de Passos. Meu colega de turma. Meu amigo. Cá estamos nós, juntos novamente. Passamos por tudo isso. Faculdade, formatura, concursos. Compartilhamos alegrias e tristezas, e hoje, apenas algum tempo depois da nossa colação de grau, ocorrida em 07 de fevereiro de 1998, neste mesmo local, vivemos um dos momentos mais felizes de nossas vidas.
Agora não mais como protagonistas, mas como testemunhas do início de uma trajetória de sucesso, desta, que eu considero a turma de minha vida...
A turma de todos os tempos...
II – O ENCONTRO: 18 Março de 1999
18 de março de 1999. Sete da noite. Neste dia, eu subi a rampa da faculdade nervosamente. Com pressa.

Era o meu primeiro dia de aula como professor, ainda na qualidade de substituto. Escalaram-me para ensinar Direito das Obrigações, em uma salinha apertada do segundo andar. Eu entrei e fiquei um pouco surpreso. E mais nervoso ainda.

Deparei-me com uma turma numerosa, sufocada entre aquelas quatro paredes, ansiosa para ver o desempenho daquele professor novato, de quem nunca tinham ouvido falar.

Naquele dia eu senti que, de certa forma, seria testado.

Comecei a falar ainda nervoso, embora tentasse disfarçar.

Rezei antes da aula.

Busquei forças em uma imagem de Nosso Senhor, afixada em uma das paredes, não sei se lembram deste pequeno (e importante) detalhe.

E logo naquela noite, vi que aquela não era uma turma comum.

Composta por alunos inquietos e inteligentes, que me acolheram com tamanho carinho. Com a energia boa da mãe que embala o seu próprio filho. E é assim que eu me sinto. Um pouco afilhado de vocês, por haverem me prestado inegável auxilio nos momentos mais difíceis do meu início de carreira.

Por haverem me amparado junto ao coração de vocês.

Por isso, hoje também é a minha formatura.

Afinal, toda formatura marca o fim de um ciclo, de uma etapa de vida, coroando, com o suor da perseverança, a nossa vitória. E em toda esta trajetória de luta, alguns sentimentos nos uniram ainda mais, tornando as nossas vidas ainda mais próximas: o amor, a esperança... e a saudade (que não deixa de ser uma forma mais sublime de amor).


I – O Amor
Falar do amor é muito mais complicado do que simplesmente senti-lo. Por isso, sem pretender defini-lo, afirmo, com convicção, que este sentimento ligou-nos, a todos nós, com o seu invisível manto inquebrantável, durante todos esses anos.

A começar pelo amor à própria faculdade: a centenária e única Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

Não sei o que acontecia comigo quando, na condição de aluno, eu já me arrepiava ao passar por determinadas salas e corredores da nossa Faculdade.

Eu sentia a sua alma, porque a sua história parecia pulsar entre as suas paredes, contagiando-me, transmitindo-me a responsabilidade – imposta também a todos vocês – de continuar escrevendo a história de sucesso dos grandes mestres que passaram por ali:


Orlando Gomes, Nestor Duarte, Nelson Sampaio, Raul Chaves, Estácio de Lima, Sylvio Farias, Calmon de Passos...

Eu poderia citar tantos vultos, embora um deles mereça referência especial.



Josaphat Ramos Marinho.

Advogado, jurista, jornalista, professor emérito, deputado estadual, senador.

Um homem que via além do seu tempo.

Orador brilhante, costumava dominar as suas platéias, com inigualável persuasão; advogado tenaz, aniquilava os seus adversários, sempre no plano intelectual, com a perfeição sutil de um espadachim das idéias, sem alterar o doce timbre de sua voz; parlamentar dedicado, sempre atuou com admirável lisura no exercício de seus mandatos políticos, enaltecendo verdadeiramente

o Estado da Bahia.

E o reconhecimento de sua vida dedicada à Justiça veio, principalmente, no último dia de seu mandato, no Senado da República, quando políticos de inúmeros segmentos, da mais conservadora direita à extrema esquerda, esquecendo as suas rivalidades, subiram ao púlpito para saudar o grande senador da Bahia.

E, saudando o mestre Josaphat, não deixavam de enaltecer a nossa própria Faculdade.

O Brasil sempre respeitou a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.

É a nossa Casa.

E sempre será.


Haveremos de ostentar, caros afilhados, durante todas as nossas vidas, o galardão, a honra, o orgulho, de havermos sido netos da secular Faculdade Livre de Direito da Bahia.

Eu disse Faculdade Livre!

Livre dos jugos dos tiranos, dos grilhões dos ditadores.

Ah, liberdade, ideal tão perseguido pela raça humana, desde os primórdios de sua existência!

Ah, Liberdade, Liberdade!

Quem verdadeiramente ama, quer ver livre.

Quem ama não trucida, não bate, não prende!

E por isso, todos os que verdadeiramente amaram a nossa Escola - falo dos puros de coração e retos de caráter, não dos medíocres ou aproveitadores, que por ventura hajam encontrado assento em uma da suas cadeiras – todos aqueles que doaram parte de sua vida à velha Faculdade de Direito, amando-a sinceramente,

lutaram por sua liberdade!

Contra os sanguinários canhões da ditadura ou até mesmo a invisível asfixia econômica imposta mais recentemente por um presidente que se dizia sociólogo.

E talvez muitos não saibam, mas o próprio Orlando Gomes, maior dos civilistas do Brasil, sofreu as agruras do cárcere, sentiu o açoite dos opressores, por amor à sua cátedra, por respeito à nossa

Escola.


Em 1937, alguns alunos, por inspiração integralista, pediramlhe que desse aula sobre a organização do trabalho na União Soviética.

Aceitou, e deu.


Ao final daquele ano, cinco dias após o golpe getulista, Orlando Gomes seria preso, passando 40 dias na Casa de Detenção, sendo que permaneceu incomunicável nos dois primeiros.

Fora acusado de subversão comunista por força da aula que ministrara.

Interessantes foram os detalhes da sua prisão.

O delegado, antes de inquiri-lo, referiu que a técnica dos comunistas era negar que o fossem. Em seguida, perguntou-lhe: “- O senhor é comunista?”. E Orlando Gomes disse: “não”.

E foi preso.

Anteriormente, seria preso com outros professores e estudantes na Faculdade de Medicina.

Sempre em prol da liberdade de pensamento.

Esse episódio foi noticiado por Jairo Simões, em artigo publicado em homenagem ao mestre.

Logo após eclodir a Revolução Constitucionalista, em 1932, Nelson Carneiro proferia discurso inflamado em uma das sacadas da Faculdade de Medicina no Terreiro.

Em dado momento – e vou repetir aqui literalmente as palavras de Jairo Simões – “os simpatizantes do movimento de rebeldia estudantil entraram na escola, em grande número, quando chegou a polícia e houve troca de tiros. Um popular morreu, professores intervieram, parlamentando com as autoridades, mas terminaram presos todos que se encontravam no recinto da faculdade”.

Isso em 1932.

E, por incrível que possa parecer, a história se repetiu.


Uma violenta batalha urbana marcou com sangue mais uma página da história da Faculdade de Direito da Bahia. Setenta anos depois, no dia 16 de maio de 2002, não mais Orlando Gomes e Nelson Carneiro, mas todos esses alunos, ladeados por dezenas de outros colegas, foram obrigados a reencarnar o mesmo espírito de luta pela liberdade, para impedir que a Cavalaria do Batalhão de Choque da Policia Militar do Estado da Bahia, em uma acintosa subversão aos princípios do Estado Democrático de Direito, invadisse a nossa Escola, com bombas e bordoadas, reescrevendo um passado negro e tirânico da historia do Brasil, que os donos do poder local, cansativas figuras do passado, insistem em reescrever.

E ainda falando desse amor que nos uniu, não posso esquecer de mencionar a nossa amizade.

Não no âmbito formal da relação professor/aluno, mas na dimensão fraterna de pessoas que aprenderam a se respeitar, ao longo destes três anos de convivência.

Amigos de todas as horas. Muitos de vocês fazem parte da minha própria vida.

Por tudo isso, recordo-me do dia 13 de abril deste ano, quando recebi a noticia de que havia sido eleito paraninfo da turma.

Foi o maior presente que eu poderia receber no dia do meu aniversário.

Eu sempre quis ter a oportunidade de confessar a todos o quanto sou grato por tudo o que representaram em minha vida, e, principalmente, passar-lhes uma mensagem de esperança no futuro, advertindo-os dos perigos que os aguardam.
III – A Esperança
E por falar em esperança...

Também a esperança nos uniu.

A esperança de construirmos uma nova Justiça, mais célere, mais efetiva, mais digna, mais independente, enfim, mais preocupada com o cidadão.

Aliás, um dos maiores desafios do novo bacharel é exatamente lutar por um Poder Judiciário mais ético, combatendo a corrupção em todos os níveis.

A corrupção é uma praga, e virou cultura no Brasil.

As pessoas, muitas vezes, acham normal dar um “agrado” ao escrivão ou ao oficial de justiça, para que o processo seja agilizado.

Isso não é normal!

Mil vezes não!

Isso é sujo, e não se justifica nem mesmo pela alegação de baixo salário, que por vezes faz o solicitante.

Muitas pessoas almejam, desesperadamente, uma oportunidade de emprego, e aqueles que a têm, não devem desvirtuar as suas funções.

Aliás, não é esta a forma legítima de se reivindicar mudança.

O cidadão não deve pagar para ter justiça!

E essa engrenagem podre só funciona porque o funcionário pede, o advogado – pressionado pela circunstância - paga, o estagiário – coitado – leva, e o juiz – por vezes – omite-se, fazendo

vista grossa.


Isso tem de mudar.

Temos de sabotar a engrenagem podre do sistema. Devemos aprender a nos indignarmos com determinadas mazelas, que são comodamente encaradas com leviana naturalidade.

Da mesma forma, cumpre-nos lutar denodadamente pela independência dos órgãos jurisdicionais, em face dos demais Poderes, principalmente o Executivo.

Nada há de pior do que o magistrado covarde, que se curva diante dos interesses dos poderosos.

E isso serve também para os advogados e representantes do Ministério Público.

Homens do direito que corrompem os seus próprios ideais são vírus sociais, que devem ser banidos da sociedade civilizada. As nossas instituições estão desacreditadas, infectadas por

parasitas de gravata, e a nossa árdua batalha é o soerguimento dessa estrutura carcomida, desinfetando-a destes canalhas abjetos, desprovidos de idealismo, ideologia, ou simplesmente idéias. Nesse ponto, toda razão assiste a José Ingenieros, autor da espetacular obra “O Homem Medíocre”, quando assevera que “os homens sem ideais são incapazes de resistir às solicitações da fartura material semeadas em seu caminho. Quando cedem às tentações, cevam-se, como feras que conhecem o sabor do sangue humano”. (O Homem Medíocre, pág. 183) J. J. Calmon de Passos, por sua vez, filósofo dos nossos tempos, em seu discurso de paraninfia para minha turma de formandos (1997.2), advertiu que:
o desafio que se coloca para vocês é o de recuperarem, do passado, a capacidade de se indignar, nele buscarem inspiração e estímulo para a rebeldia diante do que pretende se perpetuar e ser definitivo. Mergulhem, fundo, portanto, no acontecido ontem, para detectar onde o rumo foi perdido e o descaminho teve início. Mas desse imergir no passado vocês não podem recolher nenhuma fidelidade com o que foi pensado e com o que foi empreendido”.
E para agravar todo este quadro, a carreira jurídica se tornou o objeto de desejo de grande parte dos jovens brasileiros, seduzidos pela promessa de bons salários e incentivados por um sem-número de faculdades, algumas de reputação duvidosa, que, a cada ano, despejam milhares de profissionais no mercado de trabalho.
Fiquei chocado, ao ver em uma reportagem da TV Globo, um analfabeto lograr êxito em um vestibular de direito de determinada faculdade. Virou uma indústria, “pink floydiana”, semelhante àquela cantada em “The wall”...

Meu Deus, quantos medíocres pululam no universo forense, sempre ávidos por benefícios materiais, sem nenhuma consciência social, ética ou política! “Desprovidos de asas e de penachos”, lembra Ingenieros, “os caracteres medíocres são incapazes de voar até um píncaro, ou de lutar contra um rebanho. Sua vida é uma perpétua cumplicidade com a vida alheia. São hostes mercenárias ao primeiro homem firme que saiba colocá-las sob o seu jugo.



Atravessam o mundo cuidando da sua sombra, ignorando a sua personalidade. Nunca chegam a se individualizar; ignoram o prazer de exclamar “eu sou!”, em face dos demais. Não existem sozinhos. Sua amorfa estrutura os obriga a se apegarem numa raça, num povo, num partido, numa seita, num bando: sempre a fingir que são outros. Escoram todas as rotinas e preconceitos consolidados através de séculos. Medram assim. Seguem o caminho que menores resistências oferece, nadam a favor de toda a corrente, e variam com ela; no seu rolar águas abaixo não há mérito: é simples incapacidade de nadar águas acima.

Crescem porque sabem adaptar-se à hipocrisia social, como as lombrigas às entranhas”.

Esses são os medíocres, cujo exemplo deve sempre ser evitado!

E talvez para tentar decantar, ao menos no plano técnico, esta avalanche de bacharéis, formados à velocidade da luz, os concursos públicos têm se tornado cada vez mais rigorosos, embora não sirvam para aferir a integridade moral do indivíduo, apenas visível aos olhos da sua própria consciência...

Já na primeira hora, deparamo-nos com um difícil exame de Ordem, o primeiro dos obstáculos reservados àqueles que pretendem ingressar na advocacia, ou simplesmente obter a carteira de advogado. Os concursos públicos para as carreiras de juiz e promotor, por sua vez, piores cada ano, traduzem verdadeiro instrumento de tortura que o homem criou.

Terríveis paus-de-arara.

E o que fazer diante de tantos desafios? Desistir sem tentar?

Imaginar-se derrotado apenas por que não logrou êxito no primeiro certame?

Não, meus caros afilhados. Mil vezes não.

Preparados vocês são.

Chegaram a um ponto almejado por milhares de pessoas.

Vocês são brilhantes, lembrem-se disso! Falo com a autoridade de quem foi seu professor.

Basta-lhes, então, se me permitem um conselho – que apliquei

com sucesso em minha vida profissional -, fazerem a sua parte, estudando, mas, principalmente... tendo absoluta, irrestrita e incondicional fé na Força Superior que dirige os nossos caminhos.

Fé em Deus.

Esperança de que uma Força Maior, respeitando o nosso livre arbítrio, ilumina os nossos atos, conduzindo-nos à plena realização.

Por experiência própria posso dizer-lhes que esta fé, quando firme e direcionada para determinado objetivo, culmina por materializar aquilo que plasmamos no plano astral. A fé de que falou o Mestre Jesus, capaz de mudar uma árvore de lugar.


É desta fé que falo.

Daquela canalizada com força, através de mentalizações positivas, porque a vida não perdoa aqueles que desistem e tombam no meio do caminho.

E vocês vão precisar dela!

Ouçam o que vou lhes dizer: se não conseguirem atingir uma meta no tempo planejado, não se desesperem.

Eu já senti isso na pele. Nós, homens, somos por demais imediatistas, queremos as coisas no nosso tempo, quando, em verdade, somente o Pai Celestial sabe a hora certa de nos dar a vitória.

Façam a parte de vocês, estejam preparados para a hora da conquista. O sucesso não chega voando.

Mas nunca imaginem que uma derrota é o fim da guerra. Pelo contrário.

Eu mesmo, se já não houvesse sorvido o cálice amargo da decepção, poderia não estar aqui hoje.

Freqüentemente, um fato ruim em nossa vida repercute positivamente se continuarmos a caminhar para frente. Um antigo canto tribal encerrava, nesse sentido, verdade profunda: “a vitória e a derrota pertencem aos deuses, festejemos, portanto, a luta”.

Nunca desistam antes de haverem esgotado o seu arsenal bélico.

Somente o fraco de caráter, o pusilânime, o medíocre, é derrotado antes de iniciar a batalha.
E nutram sempre a firme convicção de que no final TUDO DARÁ CERTO.

Rogo, apenas, que, ao chegarem no topo, porque todos vocês chegarão lá, não percam as virtudes que cultivaram até hoje. Não percam a sensibilidade social. Não se tornem inumanos.


Como bem lembrou Fredie “ Bacana” Didier Jr., em seu discurso para a turma de 2001.1, o nosso mundo jurídico está cercado de inumanos: “vivemos com eles às nossas voltas, nos átrios, nas salas de audiência, nos corredores do fórum. Fantasiados com ternos, escondidos atrás de um linguajar simpático, não percebemos a inumanidade e deles nos aproximamos. Logo, logo, ela aparece; em pequenos gestos, em certos comentários em que se nota uma necessidade de afirmação de perfeição absoluta, bem como de absoluto desprezo para com quem está ao lado”.
Por isso, para que nunca se tornem inumanos, não esqueçam que o direito nunca é o fim, mas o meio de realização da justiça (ou da injustiça). Não se deixem absorver demais pela tecnocracia judiciária, Pela burocracia forense. Preservem a paz e o equilíbrio interior, valorizando as pequenas coisas da vida. E isso nem sempre é fácil, para nós, ocidentais. Lembremos os Titãs, em “Epitáfio”, lição que eu mesmo tento, obcecadamente, aplicar em minha vida:

Devia ter amado mais, ter chorado mais

Ter visto o sol nascer

Devia ter arriscado mais e até errado mais

Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado as pessoas como elas são

Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar distraído

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos, trabalhado menos

Ter visto o sol se pôr

Devia ter me importado menos com problemas pequenos

Ter morrido de amor

Queria ter aceitado a vida como ela é

A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar distraído

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar
Preguem a letra desta música no escritório ou no gabinete de vocês, tentem seguir a sua mensagem, e isso poderá evitar que se tornem inumanos. E, tão pior quanto à inumanidade, outra praga deve ser exterminada da vida de vocês. Eu não poderia deixar de falar dela.
A que mais causa náuseas.

A pior qualidade que pode ter um bacharel em direito, e que geralmente acompanha o sucesso como uma nódoa desagradável. Aquela, que, ao lado da venalidade, mais atormenta a sociedade, mais prejudica o cidadão, enxovalhando ainda mais o Poder Judiciário: a vaidade. Por que tantos profissionais do direito se consideram deuses?

O juiz que não atende a parte ou maltrata o advogado; o representante do Ministério Público que, achando-se acima do bem e do mal, imagina poder devassar a vida de qualquer pessoa; o advogado bem-sucedido, que pensa poder dominar o mundo com o seu poder financeiro, maltratando empregados e estagiários.
Todos eles não percebem que nós não “somos” juizes, desembargadores, promotores ou advogados.

Nós, simplesmente, na limitada condição de ser humano, “estamos” – melhor usar esta outra variante do verbo ser – exercendo aquelas funções, até que nos aposentemos ou, simplesmente, a morte reclame a nossa alma. E se tudo na vida é finitude, para quê o excesso de soberba, o

pedantismo?

Haverá sempre alguém melhor do que nós, mesmo que a nossa cegueira não permita constatarmos isso. Sim, porque o vaidoso, além de moralmente cego, é um doente. Sendo doente, exerce mal a sua função, e não edifica obras grandiosas, desperdiçando todo o poder que o direito lhe deu, em prol da sociedade.

E além de doente, freqüentemente é um idiota, porque se acha esperto demais para conviver em sociedade. Não enxerga as suas próprias mazelas, torna-se insuportável. Ele pode tudo, é o dono da verdade. É infalível!

E esta acaba sendo precisamente a sua fraqueza: por desprezar o adversário, subestimando-o, acaba sucumbindo. Eu abomino os petulantes!

E para que evitemos este sentimento indesejável, por que não mirarmos o exemplo daquele que foi o Maior de todos?

O Rei dos Reis, que deu a vida por toda a humanidade? Lembremo-nos, portanto, principalmente quando o sucesso ameaçar entorpecer o nosso senso moral, desvirtuando-se em soberba, que “o Senhor não procurou honrarias, não se fez diferente de ninguém em sua maneira de agir. O que O fez diferente dos outros seres não foi a exaltação que não houve, mas a Luz interior que brilhava, independentemente de Sua vontade, e contra a vontade e as disposições dos governantes de então”.

Se fomos feitos à sua imagem e semelhança, devemos espelhar a nossa alma no modelo de vida que nos foi legado por ele. É o mínimo que podemos fazer em retribuição ao dom da vida. E, por vezes, pensando neste magnífico presente divino, eu me lembro das palavras do poeta Gonzaguinha, e me pergunto, afinal, o que seria a vida...

Sim, porque falamos do amor, da amizade, da esperança, mas, sem ela, não estaríamos juntos, hoje, neste ato de louvor e fé, juntamente com todos os nossos amigos e familiares, quecomungam da nossa alegria.

Mas alguém pode dizer: e a tristeza? Você canta a vida e não fala de uma de suas filhas? Eu não poderia esquecê-la. Nós também compartilhamos tristezas. Porque a vida é uma escola, que também ministra lições duras, fazendo com que, algumas vezes, nós a encaremos, face-a-face, perguntando-lhe: “por que isso foi acontecer?” Emilio Moura, poeta dos mais iluminados, certo dia, em tarde de sublime inspiração, escreveu:

Viver não dói.

O que dói é a vida que não se vive.

Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas,

mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos

conhecido uma pessoa tão bacana,

que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez

companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e

passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas,

por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado

do nosso amor e não conhecemos,

por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não

tivemos,

por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter

compartilhado, e não compartilhamos.

Por todos os beijos cancelados, pela eternidade interrompida.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga

pouco,

mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao

cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para

namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,

mas por todos os momentos em que poderíamos estar

confidenciando a ela

nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada

em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia

sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está

sendo confiscado de nós,

impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,

todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a

experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e

vivendo mais.

E por falar na vida, sou daqueles que crêem na sua eternidade. Creio que momentos como os de hoje marcam a nossa existência indelevelmente. E eu não posso esquecer que o sofrimento também nos marcou. Sofrimento que nasceu como revolta. E se transformou em lembrança. Em saudade. Saudade da imagem boa, forte, firme, presente, daquele que somente se distanciou de nós no plano físico, mas se encontra presente em nossos corações, vivendo em um plano muito mais evoluído do que este vale de tormentos e de aflições.

Há pessoas que simplesmente passam por nossa vida, sem maior expressividade. Outras, por sua vez, marcam-nos com o seu exemplo. Embriagam-nos com a sua energia. São verdadeiros anjos, que, em cada gesto, desde uma simples conversa de corredor, a um sentido desabafo, fazem de

cada minuto de sua existência um brinde à eternidade. E realmente estas pessoas são eternas.

Falo de uma dessas almas de luz.

Falo de um aluno.

Falo de um amigo.

Que, certa vez, em uma boate, de madrugada, milhares de pessoas a transitar, pegou no braço de seu professor novato, olhou bem nos seus olhos e lhe disse: “Continue em frente. Você será um grande professor”. E eu agradeci, um pouco envergonhado, e estranhando até aquela atitude daquele aluno, que não se mostrava em sala de aula.

Fiquei feliz.

Falo de ti e para ti, caro amigo Tiago.

Falo para ti, porque tenho a necessária consciência espiritual para ter a mais absoluta certeza de que a nossa essência é indestrutível. Vive sempre. Em planos superiores. Onde a maldade, a brutalidade e a covardia não ascendem.

É aí que, neste momento, junto ao Pai, você sente a nossa energia, o nosso amor, elevados até você.

Falo para ti, não com tristeza.

Mas com saudade.

Esta forma suave de amor, moldada pela certeza de que todos nós nos reencontramos um dia.

Falo até com orgulho.

Orgulho de tê-lo tido como aluno, excelente aluno, ainda que por pouco tempo, até que o destino nos separasse.

Orgulho de ter visto toda esta turma irmanada na dor da sua perda física, unidos como uma só pessoa, orando por ti, e pela misericórdia do Criador. E se hoje, nós celebramos e agradecemos a Deus por estarmos juntos, não poderíamos deixar de externar a você a nossa mais profunda gratidão, pelo seu exemplo de ternura e humildade.

E como creio que a pureza de sua alma reservou-lhe um lugar próximo do Pai Celestial, peço, neste dia tão especial, que interceda junto a ele, para que abençoe a todos nós.

Muito Obrigado.



Pablo Stolze Gagliano


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