A tribalizaçÃO, destribalizaçÃo e retribalizaçÃo da sociedade cultural como influência da evoluçÃo dos meios de comunicaçÃO



Baixar 61,29 Kb.
Encontro14.11.2017
Tamanho61,29 Kb.


A influência dos meios de comunicação na

tribalização, destribalização e retribalização da sociedade

Resumo
Este artigo pretende relacionar as etapas da evolução da sociedade, conforme o desenvolvimento dos meios de comunicação. Entende-se que cada época tem suas características específicas influenciadas pelos meios e que, atualmente, a mídia digital é um fator importante na construção do imaginário.
Considerações Iniciais
O final do século XX deixa marcas de uma profunda revolução dos meios de comunicação, as quais vem interferir diretamente nas relações sociais.

A sociedade contemporânea convive com a chamada mídia digital. Conforme Nicholas Negroponte, “no contexto da vida digital, o que a maioria dos executivos dos meios de comunicação pensa e discute é a transmissão melhor e mais eficiente do que já existe” (NEGROPONTE, 1995:23). Ele mesmo afirma que “o mundo digital é intrinsecamente maleável. Ele pode crescer e modificar-se de uma forma mais contínua e orgânica do que os antigos sistemas analógicos” (NEGROPONTE, 1995:47).

As tecnologias digitais, que hoje, na sociedade contemporânea, têm também como referência a virtualidade, segundo Pierre Lévy, “... surgiram, então, como a infra-estrutura do ciberespaço, novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transição, mas também novo mercado da informação e do conhecimento” (LÉVY, 1995:32). De acordo com ele, “em geral não importa qual é o tipo de informação ou de mensagem: se pode ser explicitada ou medida, pode ser traduzida digitalmente” (LÉVY, 1995:50). Haja vista a quantidade de pessoas que participam do Orkut (rede virtual de relacionamentos), e comunidades virtuais em geral, como o IRC1.

Todavia, o que se observa é que o mundo está vivenciando uma nova forma cultural, batizada por alguns pensadores como cibercultura2. E como propõe André Lemos, “é a cultura contemporânea, associada às tecnologias digitais (ciberespaço, simulação, tempo real, processos de virtualização), que cria esta nova relação”. Ele explica que “as novas tecnologias tornam-se vetores de novas formas de agregação social” (LEMOS, 2002:17).

Nota-se, nesta maneira das pessoas se relacionarem, uma vontade de “estar-junto”, de reunirem-se em “tribos” e de viverem o momento, seja este presencial ou virtual, como identifica Michel Maffesoli.

Lemos caracteriza estes chamados “mini-conceitos” de Maffesoli (“estar-junto”, “reunião em tribos”, “presenteísmo”, “vitalismo”), como marcas indiscutíveis da “socialidade” contemporânea, que podem ser aplicáveis para descrever a relação entre as novas tecnologias e a própria contemporaneidade.


“Esses “mini-conceitos”, como gosta de chamar o sociólogo francês, vão pontuar todos os campos da cultura contemporânea, não só a cibercultura como as comunidades virtuais, jogos eletrônicos, imaginário cyberpunk, cibersexo, realidade virtual e ciberespaço, mas todos os acontecimentos do cotidiano, todas as formas de agregação (banal, festiva, esportiva, midiática) que marcam as sociedades contemporâneas. Como mostram diversos sociólogos (clássicos e contemporâneos) é a “atração social”, o sentimento de “estar-junto” o verdadeiro cimento de toda vida em sociedade”3

Invenções tecnológicas e o avanço dos meios de comunicação contribuíram para que as pessoas tivessem vontade de reunirem-se em tribos, logo adiante de se destribalizarem, valorizando a sua individualidade, e hoje em dia, como pode-se observar, parece haver um desejo de retribalização da sociedade. Tudo isso em função do desejo de se comunicar, de “estar-junto”.

Este trabalho vai apresentar, os distintos momentos pelos quais a sociedade passa, relacionado com o progresso dos meios de comunicação. Desta maneira, apresentar-se-á, pensadores como Marshall McLuhan e Pierre Lévy, que vêem na mediação tecnológica uma possibilidade de reaproximação entre os homens.

Em um primeiro momento, o texto relata de que forma a sociedade interage quando chamada de sociedade oral. Em seguida, com a invenção da prensa, de Gutenberg, como a mesma se porta frente aos livros e a mídia impressa. E por fim, com a invenção dos meios eletrônicos e o surgimento da Internet, quais seriam os reflexos culturais que estes meios vêm desenvolvendo e despertando nas pessoas.

Como percebe-se no pensamento de McLuhan, a partir de leituras do estudioso Pedro Gilberto Gomes (GOMES, 1997:70), “a escrita agiu como um fato isolante, arrancando o homem da sua comunidade verbo-oral, destribalziando-o. Hoje, com os meios eletrônicos, o homem volta a tribalizar-se, tomando parte na aldeia global”.

A civilização reunida em tribos, depois destribalizada e agora retribalizando-se

Um estudo sobre as sociedades e seus aspectos culturais e comunicacionais não deve excluir a importância dos meios de comunicação na história da humanidade.

Como aponta McLuhan, a evolução cultural humana pode ser representada por dois fatos: a invenção da imprensa escrita no século XV e a da televisão no século XX.

As etapas pelas quais passa a evolução cultural, de acordo com McLuhan, se caracterizam inicialmente pela tribalização dos povos, depois pela destribalização, e hoje pela retribalização. Estes são os conceitos utilizados no decorrer deste artigo, a fim de tentar esclarecer como a mídia digital, e as chamadas comunidades virtuais voltam a reunir uma sociedade que durante um longo período passa isolada, fruto da descoberta da prensa e que teve seu auge na passagem da modernidade.

De acordo com Michel Maffesoli, é a noção de pós-modernidade que descreve com maior propriedade o momento complexo e paradigmático pelo qual a sociedade passa; o querer "estar-junto", se reunir em tribos e viver o momento. E é exatamente isso o que a mídia digital pode estar possibilitando. Um dos indícios que levam à confirmação desta suspeita são as comunidades virtuais, que fazem com que as pessoas vivam o virtual e tenham vontade de trazer esta virtualidade para a própria realidade.

A tribalização para McLuhan, ou a sociedade oral para Pierre Lévy, remetem a uma época em que a linguagem era incorporada como instrumento fundamental e indispensável para a comunicação e para a sobrevivência social. Nesta sociedade reunida em tribos, por meio da oralidade, eram organizados ritos onde todo o conhecimento adquirido era armazenado na memória e a única maneira de repassá-lo era através destes momentos, passando de geração a geração para que as descobertas pudessem ser levadas adiante.

Conforme constata Gomes, “o patrimônio cultural acumulado era transmitido às outras gerações por meio da comunicação oral. A dificuldade encontrava-se na limitação deste processo, pois a transmissão dependia da memória dos anciãos e de sua habilidade para transmitir às gerações futuras os padrões culturais” (GOMES, 1997:71-72).

Assim registrou-se a primeira fase da comunicação na civilização humana. Conforme José Marques de Melo, “assim sendo, todo o patrimônio cultural alicerçado pelo homem perpetua-se, nessa primeira fase, através da comunicação oral, e transmite-se de uma geração a outra. É evidente que esse patrimônio sofria circunstancialmente alguns decréscimos, na medida em que o seu registro limitava-se à memória dos anciões e o seu desenvolvimento dependia da habilidade que tinham determinadas gerações de transmitir aqueles padrões culturais a outras gerações” (MELO, 1998:227).

Com a invenção de Gutenberg, e a consagração da mídia impressa, as pessoas passaram a adquirir conhecimento individualmente, não necessitando mais que encontros fossem realizados. Esta foi a época da modernidade, a era da individualidade.
“Considerando que os indivíduos estavam agrilhoados à vida da tribo, uma vez a sobrevivência cultural resultava daquelas informações oriundas dos mais velhos, a escrita realmente proporciona um rompimento dos laços tribais, libertando o homem da dependência direta aos ancestrais e pondo à sua disposição um vasto patrimônio de experiências, conservando sob a forma de registros gráficos” (MELO, 1998:227).
De acordo com Marques de Melo, “se a escrita já tinha desencadeado a destruição da vida tribal, a imprensa, como “fase extrema da cultura alfabética”, vai completar essa obra, proporcionando, segundo McLuhan, “instrumentos e oportunidades para o individualismo e a auto-expressão pessoal na sociedade” (MELO, 1998:228).

Lévy também analisa a questão e constata: "nestas culturas, qualquer proposição que não seja periodicamente retomada e repetida em voz alta está condenada a desaparecer. Não existe nenhum modo de armazenar as representações verbais para futura reutilização. A transmissão, a passagem do tempo supõe portanto um incessante movimento de recomeço, de reiteração. Ritos e mitos são retidos, quase intocados, pela roda de gerações" (LÉVY, 1999:83).

Com a invenção da escrita, ocorre um rompimento destes laços tribais, libertando o ser humano da dependência direta aos ancestrais. De acordo com Marques de Melo, "o aparecimento da escrita significava potencialmente a acessibilidade de todos os indivíduos aos bens culturais das comunidades e, conseqüentemente, ameaçava a desarticulação dos sistemas de mundo. Daí o cuidado com que os governantes cercaram a difusão da escrita, tornando-a privilégio de um reduzido número de pessoas, que passariam a constituir castas de letrados". (MARQUES DE MELO, 1976:11).

O livro também tem a sua "parcela de culpa" na destribalização da sociedade. De acordo com Gomes, o livro adquire caráter de meio massivo com a invenção da imprensa no século XV. "A escrita já havia destruído a vida tribal. Agora a imprensa, fase extrema da cultura alfabética, completará a obra. Com o livro, a cultura deixa de ser privilégio das elites e dos poderosos, colocando-se à disposição de uma maior número de pessoas" (GOMES, 1997:72).

Lévy também observou as mudanças que a prensa trouxe para as sociedades. "Com a impressão, o tema do progresso adquiriu uma nova importância. O passado, nós já vimos, reflui rumo a sua antiguidade, aliviando assim o peso presente, diminuindo a carga da memória. Mas sobretudo, como sublinha Elisabeth Eisenstein, o futuro parece prometer mais luz do que o passado. Efetivamente, a impressão transformou de maneira radical o dispositivo de comunicação no grupo dos letrados". (LÉVY, 1999:98).

Atualmente, percebe-se na sociedade contemporânea uma nova forma das pessoas interagirem, por meio da mídia digital, ou seja, da informatização, novamente reunido-a em tribos. Porém, agora demonstrando uma nova forma de reunião, no ciberespaço.

No entanto, em um primeiro momento, conforme Marques de Melo, “o fenômeno da retribalização estaria ligado à constituição de uma aldeia global, em que a televisão seria o veículo básico, institucionalizando uma linguagem universal – a imagem que é a linguagem da evidência”, um estágio antes do que nos propomos a pensar neste artigo, que seria uma nova forma de reunir as pessoas, que vai além da televisão.

A retribalização da qual fala McLuhan, ocorre em meados do século XX, quando a imprensa escrita perde seu monopólio como meio de comunicação de massa, e surgem novos instrumentos capazes de eliminar barreiras geográficas, lingüísticas e culturais, dando abertura para a chamada globalização4.

O que caracteriza o pensamento de McLuhan seriam os meios eletrônicos como o rádio, a televisão, e hoje pressupõe-se a Internet. Para o autor, a retribalização estaria ligada à constituição de uma “aldeia global”. 5

Décadas depois, o pensador Pierre Lévy passa a analisar o fenômeno que McLuhan já imaginava, com o progresso da televisão, porém em menor proporção, uma vez que a rede de computadores era insipiente: a era do computador, da informatização. E ele mesmo questiona:


“Qual seria o tipo de tempo secretado pela informatização? A maneira antiga de inscrever os signos era conveniente para o cidadão ou camponês. O computador e as telecomunicações correspondem ao nomadismo das megalópoles e das redes internacionais. Ao contrário da escrita, a informática não reduplica a inscrição sobre o território; ela serve à mobilização permanente dos homens e das coisas que talvez tenha começado com a revolução industrial" (LÉVY, 1999:114).
Lévy caracteriza a informática como sendo a própria velocidade. Velocidade esta que se levada ao campo da comunicação pode ser observada juntamente com a agilidade e a interatividade que este meio proporciona. "O devir da oralidade parecia ser imóvel, o da informática deixa crer que vai muito depressa, ainda que não queira saber de onde vem e para onde vai. Ele é a velocidade". (LÉVY, 1999:115).

Mídia digital - A Internet e as Comunidades Virtuais
Como forma de descrever este novo modo das pessoas de “estar-junto”, como foi referido anteriormente, faz-se necessário relatar um breve histórico deste advento que torna possível a relação das pessoas no ciberespaço. O estudo do ciberespaço e da cibercultura, que fazem possível a formação de comunidades virtuais, está diretamente ligado à criação da Internet.

Filha de militares, pupila das instituições acadêmicas e centros de pesquisa, a Internet6 nasce ligada ao governo norte-americano no auge da Guerra Fria. Aquela primeira rede, denominada Arpanet (de Advanced Reserarch Projects Agency, ou Agência de Projetos de Pesquisa Avançada), fora criada para que fosse imune aos bombardeios.

Foi então construída a primeira rede, que desde então evoluiu até tomar forma muito próxima a da Internet de hoje, que também tem como função dentro de uma socialidade, deixar as pessoas interconectadas formando assim uma grande comunidade virtual.

Lévy explica que apesar de ser criada para fins políticos e de banco de dados, a rede passou a ser constituída para fins sociais.


“... um verdadeiro movimento social nascido na Califórnia na efervescência da “contracultura”7 apossou-se das novas possibilidades técnicas e inventou o computador pessoal. Desde então, o computador iria escapar progressivamente dos serviços de processamento de dados das grandes empresas e dos programadores profissionais para tornar-se um instrumento de criação (de textos, de imagens, de música), de organização (bancos de dados, planilhas), de simulação (planilhas, ferramentas de apoio à decisão, programas para pesquisa) e de diversão (jogos) nas mãos de uma proporção crescente da população dos países desenvolvidos” (LÉVY, 1999:32).
Manuel Castells complementa:
“Alguns usuários envolvidos nessa interação social eram tecnologicamente sofisticados, como pesquisadores da Arpanet que criaram uma das primeiras listas de correspondência temática (...) quando a web explodiu na década de 1990, milhões de usuários levaram para a Net suas inovações sociais com a ajuda de um conhecimento técnico limitado. No entanto, a contribuição que deram na configuração e na evolução da Internet, inclusive na forma de muitas das suas manifestações comerciais, foi decisiva” (CASTELLS, 2003:47).

De acordo com ele, “os primeiros usuários de redes de computadores criaram comunidades virtuais (...) e essas comunidades foram fontes de valores que moldaram comportamento e organização social” (CASTELLS, 2003:46), o que veio proporcionar que a rede seja identificada como um meio de comunicação que estimula muitos sentidos do homem e proporciona uma interatividade que os meios de comunicação não ofereciam até então, fazendo com que a Internet possibilite a comunicação entre as pessoas.

É através desta possibilidade de comunicação em um ambiente virtual, ou seja, no ciberespaço, que é possível identificar o novo ambiente e a nova maneira que as pessoas estão explorando, utilizando a mídia digital, para se reunir em tribos: as comunidades virtuais.

O conceito comunidades virtuais, popularizado por Howard Rheingold, é caracterizado como “agregados sociais surgidos na Rede, quando os intervenientes de um debate o levam por diante em número e sentimento suficientes para formarem teias de relações pessoais no ciberespaço” (RHEINGOLD, 1993:18). Em sua obra, Rheingold descreve suas próprias experiências vivenciadas no ciberespaço, como participante das comunidades virtuais e comenta:


“O meu testemunho das ações dos indivíduos da comunidade virtual que melhor conheço, de como criaram valores, se entreajudaram em tempos difíceis, resolveram (ou não) dolorosos problemas pessoais em conjunto, constitui um modelo – indubitavelmente falível – dos tipos de alterações sociais que as comunidades virtuais podem induzir na vida real a uma escala modestamente local” (RHEINGOLD, 1993:31).
Rheingold, expõe, esclarecendo que após um convívio intenso no ambiente virtual, as pessoas sentem a necessidade de confraternizar e realizar encontros presenciais.
“Ao longo dos anos, e apesar das distâncias, aqueles que estabeleceram uma relação sincera da conferência Parental começaram a reunir-se pessoalmente. De encontro originalmente organizado no âmbito desta conferência veio a nascer o piquenique anual de Verão da WELL na área da baía de São Francisco. Durante todo o ano tínhamos estado envolvidos em intensas conversas online e, quando veio o Verão, começou a falar-se em fazermos algo em conjunto para descontrair, como fazer um churrasco e levar a miudagem” (RHEINGOLD, 1993:36-37).
Através de relatos pessoais, Rheingold consegue realçar uma forte características destas comunidades: a reunião e união das pessoas em um ambiente virtual, como se estivessem em uma mesa de bar ou na sala de casa, porém, talvez, com uma maior desinibição proporcionada pela virtualidade. “Muitas pessoas não se sentem à vontade em situações de interação verbal espontânea, acontecendo, porém, haver oportunidade de contribuírem significativamente para uma conversa durante a qual têm tempo para pensar antes de intervirem” (RHEINGOLD, 1993:40).

Um exemplo desta reunião em tribos caracterizando uma união, encontrado nos relatos do autor é o momento em que um dos participantes da comunidade virtual expõe a situação familiar em que descobre que seu filho de sete anos tem leucemia.

Rheingold comenta que os integrantes da comunidade que “passavam horas conectados a trocar sarcasmos e comiserando-se de pequenos altos e baixos da vida, irromperam a escrever mensagens de apoio ao colega”.
“Indivíduos que nunca tinham contribuído para a conferência começaram a fazer-se ouvir, como é o caso de um enfermeiro e de um casal de médicos que ajudaram o Phil e o resto do pessoal a interpretar os relatos diários sobre contagens sanguíneas e outros diagnósticos, tudo isto para além do contributo de duas pessoas com conhecimento de causa, elas próprias vítimas da doença” (REHINDOLG, 1993:40).
Em fim, pode-se verificar que este contato, que acontece por meio de um aparato tecnológico origina-se de um interesse comum, momentâneo ou permanente do internauta8.


Considerações Finais

Hoje, no início do século XXI, percebe-se que, esta nova maneira de reunião se dá com intensidade no espaço virtual. Diferente da fase da oralidade, quando as pessoas necessariamente tinham que se encontrar em determinado espaço e organizar ritos, hoje, um mar de conhecimento e de interação está à disposição das pessoas em tempo integral, ou seja, quebrando a barreira tempo e espaço.

A mídia digital, através do espaço virtual, então, propõe uma nova maneira das pessoas se reunirem em tribos. É o que pode-se verificar nas comunidades virtuais onde as pessoas tem a opção de criar vínculos ou não. Elas podem querer aprofundar algum tipo de relacionamento, amigável, amoroso, social, ou não. A partir deste encontro virtual que elas vão decidir se encontrar no mundo real, ou não.

Conforme Pierre Lévy, a mídia digital, traz à tona uma nova maneira das pessoas conviverem, mas alerta: “compreender o lugar fundamental das tecnologias da comunicação e da inteligência na história cultural nos leva a olhar de uma nova maneira a razão, a verdade, e a história, ameaçadas de perder sua preeminência na civilização da televisão e do computador" (LÉVY, 1995:87).

Retomando o pensamento do professor Marques de Melo, em um primeiro momento, “o fenômeno da retribalização estaria ligado à constituição de uma aldeia global, de que a televisão seria o veículo básico, institucionalizando uma linguagem universal – a imagem que é a linguagem da evidência”. No entanto, neste artigo, nos propomos a pensar a nova forma de tribalização, que vai além da televisão, considerando que o pensamento de McLuhan era referência para os anos 60.

Hoje, no início do século XXI a sociedade se depara com uma nova forma das pessoas interagirem, concretizando na vida social os “mini-conceitos” já referidos anteriormente de Maffesoli. O ciberespaço, o mundo virtual, são indícios de que as pessoas estão se propondo a reunirem-se em um novo ambiente a através dele, e criar vínculos que podem ser observados, saindo então da virtualidade e voltando para a realidade. Pode-se identificar, até mesmo através de alguns dos relatos de Howard Rheingold, que é isto que as comunidades virtuais estão nos proporcionando, uma reunião virtual, que pode ser tão bom e confortante em certos momentos, como uma reunião presencial, mas que mesmo tornando possível uma tribalização virtual, a maioria das pessoas busca o encontro presencial para fortalecer estes laços criados no ciberespaço.


Referências bibliográficas
CASTELLS, MANUEL. A Galáxia da Internet. Oxfors University Press, 2003. 304 p.
GOMES, Pedro Gilberto. Tópicos de teoria da comunicação. São Leopoldo: Unisinos, 1997. 126 p.
LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. 263p.

____ . Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. 260 p.


LEMOS, André. Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002, 328 p.
MAFFESOLI, Michel., A Contemplação do Mundo., Porto Alegre: Artes e Ofícios,1995.168 p.

MARQUES DE MELO, José. Subdesenvolvimento, urbanização e comunicação. Petrópolis: Vozes, 1977. 89 p.



____ . Teoria da Comunicação: Paradigmas Latino-Americanos. Petrópolis: Vozes, 1998.412 p.
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1969. 407 p.
MORIN, Edgar. As Duas Globalizações. Porto Alegre: Edipucrs, 2002. 88 p.
NEGROPONTE, Nicholas. A Vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 231 p.
RHEINGOLD, Horward. A Comunidade virtual. Lisboa: Gradiva, 1996. 367 p.

1 Internet Relay Chat (IRC), criado em agosto de 1988, é um programa considerado rápido e permite o acesso de milhares de pessoas nas salas ao mesmo tempo. É caracterizado como um lugar no ciberespaço de reunião virtual onde as pessoas de todo o mundo podem se encontrar em conversas.


2 De acordo com Pierre Lévy, cibercultura especifica o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o ciberespaço. Espaço este, considerado pelo autor como um novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informação que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo (LÉVY, 1995:17).


3 Artigo de André Lemos Ciber-socialidade, Tecnologia e vida social na cultura contemporânea.

4 Pode-se pensar que a globalização é um dos fenômenos que contribuiu para uma reunião dos povos, e influenciou os meios de comunicação a uma expansão mundial, literalmente quebrando barreiras. Para Morin, “a primeira modernização no princípio do século XVI é a globalização dos micróbios” (MORIN, 2002:39). Ela, juntamente com a Internet, e aí também se incluem apropriadamente as comunidades virtuais, tem o poder de quebrar a barreira tempo e espaço, uma vez que pessoas em diferentes partes do mundo, podem comunicar-se a qualquer hora do dia.

5 McLuhan afirma que “Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global, abolindo tempo e espaço (...). Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana, tal como já se fez com nossos sentidos e nossos nervos através dos diversos veículos” (MCLUHAN, 1969:19).

6 O nome internet vem de internet working (ligação entre redes). Embora seja geralmente pensada como sendo uma rede, a internet na verdade é o conjunto de todas as redes e gateways que usam protocolos TCP/IP usados para transporte de informação. A Web é apenas um dos serviços da Internet, e as duas palavras significam a mesma coisa (Lévy, 1999, p.255).

7 André Lemos, faz uma analogia entre a contracultura e a cibercultura, e comenta: “se a contracultura dos anos 70 foi baseada numa tecnologia do folclore (orientalismo, misticismo, idéias anti-tecnológicas, natureza) a cibercultura seria uma cultura baseada numa espécie de folclore da tecnologia (realidade virtual, ciberespaço, pós-humanismo)” (LEMOS, 2002:257).

8 Pessoas que com freqüência participam de comunidades virtuais, ou simplesmente navegam na Internet.






©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal