A tragédia Tropical de Raul Seixas



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Autor: Jeferson Santana Brandão
A Tragédia Tropical de Raul Seixas
Resumo
Duas estações diferentes em lugares, épocas e contextos diferentes foram ponto de partida de duas cabeças pensantes que parecem, de alguma maneira dialogar uma com a outra. De Röcken, na Alemanha, partiu o que viria a ser o filósofo/musico, questionador da moral e dos valores dominantes no século XIX, Friedrich Nietzsche. Do nosso Brasil, de Salvador, o musico/filósofo Raul Seixas surgiu com suas idéias atacando os rumos culturais brasileiros no final dos anos 60 do século XX.

Nietzsche, assim como Raul no contexto da musica brasileira, não se reconhecia como parte integrante da “linha evolutiva” da cultura alemã. Nietzsche apontava com sua filosofia, para a importância sublime da arte musical, enquanto Raul Seixas com sua musica, incitava o ouvinte a percorrer os caminhos da filosofia.

Seguindo a concepção trágica de Heráclito de Efeso (Grego do século V a.C.), onde de uma incessante guerra de opostos faz surgir o movimento, o devir, Raul Seixas é aqui entendido como um músico trágico. A partir daí, podemos traçar uma paralelo entre a obra do compositor brasileiro, e a tragédia de Nietzsche na obra “Assim Falou Zaratustra”. O paralelo, no entanto, reconhece as diferenças entre os personagens, sendo que no Raul Seixas, por sua musicalidade, uso de misturas rítmicas, sobretudo o Rock com Baião, e seus recursos “populares” na hora de falar de filosofia e sociedade, nos colocam diante do que chamamos de “Tragédia Tropical”.

Raul Seixas, tragicamente, faz de sua obra um constante renovar-se, permitindo o desenvolvimento de um conjunto de mudanças até mesmo no interior de um único disco. Assim, com sua auto-identificação com uma “Metamorfose Ambulante”, o músico se aproxima do pensamento trágico de Heráclito. Este pensador também exerceu enorme influência na filosofia de Nietzsche.

A sombra da “História das Idéias”, colocamos lado a lado, dialogando os percursos trágicos de dois personagens que apesar de separados 100 anos na linha do tempo, e das distâncias geográficas e culturais, tem muitas idéias em comum.

São os textos de “Assim Falou Zaratustra”, e as músicas de Raul Seixas, que nos proporcionam esse diálogo. Inter-textos produzidos pelo grupo vinculado à Rádio UEL FM “Coletivo Poesia dos 50” (do qual faço parte), com músicas de Raul Seixas, e idéias da filosofia trágica, também promovem o diálogo proposto e apresentado neste trabalho.

Assim, encontramos, além do devir, o riso, a possibilidade infinita de caminhos, desvinculada dos conceitos “bem” e “mal” trazendo assim o “sim” que é dado a vida, trazendo a afirmação jubilosa da dor e do prazer. Aí estão lançadas as vias para se chegar a “Tragédia Tropical de Raul Seixas”.


Palavras chave
Raul Seixas, Zaratustra, Nietzsche, Tragédia, História das Idéias, Música, Filosofia, Rock, Brasil, Devir
A Tragédia Tropical de Raul Seixas

“A Lua se Oferece ao Dia... Bom Dia Sol”


Para melhor compreensão dos caminhos tomados aqui, farei uso do modelo proposto por Franklin Baummer em sua “história das idéias”. Ao voltar-se para o estudo das questões perenes e das questões oportunas do homem, esta opção metodológica vai de encontro a proposta deste trabalho:
[...]. As questões perenes correspondem, por conseguinte, às perguntas mais profundas que o homem pode fazer acerca de si próprio e do seu universo. São perenes porque o homem não pode deixar de fazer, e são fundamentais para a sua orientação cósmica. Como pode o homem não se interrogar continuamente sobre Deus, a Natureza, o Homem, a Sociedade, a História? (BAUMER, 1990, p. 27).
Ora, foram tais questões perenes que permearam o trabalho musical de Raul Seixas, bem como as buscas e dilemas do Zaratustra de Nietzsche. São as idéias que configuram o elemento gerenciador do devir na sociedade e sua história. Outro ponto de auxilio deste olhar metodológico em nosso projeto é o caráter interdisciplinar da história das idéias, que de acordo com Baumer em “pensamento europeu moderno”, vai além do espaço privado onde a história da filosofia se fecha, aglutinando o caráter público do movimento das idéias.
Assim em ultima análise, a história das idéias é um ramo contemplativo. Pode ocupar a fronteira entre a história e a filosofia, partilhando os objetivos de ambas, fornecendo “valores” do passado para o presente, e fazendo luz sobre as causas históricas. [...]. (BAUMER, 1990, p. 25).
É esta fronteira entre a história e a filosofia, onde se configura a história das idéias, que deu todas as bases ao estudo das fontes produzidas por um pensador que se pautava também nas regiões de fronteira para criar, é ali, entre o indivíduo e a sociedade, que encontramos o pensamento de Raul Seixas se metamorfoseando e rompendo a barreira psicológica que separa os opostos, fazendo destes a essência de um único elemento.

Raul finalizou a musica “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor” dizendo que pra entender este jogo de ratos, “transou com Deus e com o lobisomem”, ou seja, experimentou os dois lados da moeda, estereotipados em bem e mal.


[...] Raul não separa o bem do mal, ou seja, não atribui a Deus só o que é bom. O mal também pode vir de Deus. Quanto àquilo que Raul classificou de diabo, seria na verdade o despertar do conhecimento do individuo sobre si mesmo. [...]. (ALVES, 1993, p. 50).

Tal concepção, é amplamente levantada por Nietzsche, inclusive no personagem Zaratustra aqui estudado. É nessa junção de opostos descrita por Raul Seixas que podemos localizar a influência do pensamento de Heráclito acerca do vir-a-ser em seu trabalho. É nesse sentido de busca de influências, cortes e adaptações feitas pelo musico em suas “aventuras” pela “cidade de Thor” que analisaremos a complexa teia de idéias que marca sua obra musical.


[...] mas, e se a realidade for mais rica que os modelos que inventamos para compreendê-la? E se nos enganamos? Ou seja, se, contrariamente à idéia de bipolaridade, a realidade se revelar um caos de pluralidade? Ainda assim a história das idéias que construímos é social. [...].(GIANNATTASIO, 1999, p. 3)
Um outro território da história que auxilia, neste trabalho de aferir a influência de Nietzsche na musica de Raul Seixas, esta circunscrito a “história da leitura” proposta por Roger Chartier. Levar em conta todos os aspectos culturais, que apontam para uma não passividade do leitor diante de um texto, pode ser aplicável a maneira como Raul Seixas publicou uma idéia anterior a ele, sobretudo na aparente aproximação do modelo de vida do Zaratustra em sua própria trajetória artística.

Levantando-se com o sol, o Zaratustra de Nietzsche, nos é apresentado na primeira página falando com o sol nascente:


“Que seria a tua felicidade, ó grande astro, se não tivesses aqueles que iluminas!

São dez anos que sobes à minha caverna; e já se te haveriam tornado enfadonhos a tua luz e este caminho, sem mim, a minha águia e minha serpente.

Mas nós te esperávamos todas as manhãs, tomávamos de ti o teu supérfluo e por ele te abençoávamos.

[...]. é preciso que eu baixe as profundezas, como fazes tu à noite, quando desapareces atrás do mar, levando ainda a luz ao mundo ínfero, ó astro opulento!

Como tu devo ter meu ocaso, segundo dizem os homens para junto dos quais devo descer.

Abençoa-me, pois, olho tranqüilo, que pode, sem inveja, contemplar uma ventura ainda que demasiado grande!

Abençoa a taça que quer transbordar, afim de que sua água escorra dourada, levando por toda parte o reflexo da tua bem-aventurança!

Vê! Esta taça quer voltar a esvaziar-se, quer voltar a ser homem.”

Assim começou o ocaso de Zaratustra (NIETZSCHE, 1998, pg. 33)

A bela loucura que Zaratustra viu no sol. A luz solitária que procura sua felicidade naqueles que ilumina. Também Zaratustra, quis buscar o lado escuro, para ali derramar sua luz. Raul Seixas também falou com o sol:


(Coração Noturno)

Amanhece, amanhece, amanhece, amanhece o dia

Um leve toque de poesia

Com a certeza que a luz que se derrama

Nos traga um pouco de alegria

A frieza do relógio não compete com a quentura do meu coração

Coração que bate 4 por 4 / Sem lógica, e sem nenhuma razão

Bom dia, sol. Bom dia, dia

Olha a fonte, olha os montes horizonte

Olha a luz que enxovalha e guia

A lua se oferece ao dia

E eu guardo cada pedacinho de mim

Pra mim mesmo / Rindo louco, louco de euforia

Bom dia, sol. Bom dia, dia

Eu e o coração, companheiros de absurdos

No noturno, no soturno

No entanto, entretanto e portanto...

Bom Dia Sol (1983)

A busca inicial na jornada do solitário Zaratustra pelos homens, o riso eufórico de Raul diante do crepúsculo da manhã, minha felicidade em ver, nos dois personagens, um brilho de estrelas que aparentemente deixaram de existir. Todo esse cenário, apresenta-se aqui como um abrir de cortinas. Começo aqui com Raul e Zaratustra a percorrer os caminhos trágicos que os levaram com toda a alegria do seu coração a simplesmente caminhar. Procurando sua própria verdade, ignorando haver “O Caminho”, mas caminhos, que se constroem no percurso:
Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade; não foi somente por uma escada que subi ao alto, de onde meus olhos vagueiam a distância que é minha.

E sempre somente a contragosto perguntei pelos caminhos – isto sempre me repugnava! Preferia interrogar e experimentar os próprios caminhos.

[...]

“Este, agora, - é o meu caminho; - onde está o vosso?”; assim respondia eu aos que me perguntavam “o caminho”. Por que o caminho – não existe! (NIETZSCHE, 1998, pg. 233)


Raul percorreu seus caminhos também livre de perguntas que lhe dissessem a direção. Experimentando e interrogando-se: “E esse caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir, por não ter onde ir...” (Seixas, 1977). No programa “Caminhos” da “Estação Raul” (a qual componho a equipe de produção), foi feito um intertexto com o pensamento de Heráclito, figura importante pro Raul e pro Nietzsche, “pai” do Zaratustra: [áudio 2]
Dizem, que um grupo de pessoas, se aproximou daquela que seria a morada, de um velho sábio de barba e cabelos brancos e longos. Ali estava ele! O dorso, levemente arqueado e aquecendo-se ao pé do forno.

– Senhor! – disse o primeiro – nos informaram que aqui morava um sábio.

– Como é possível? – disse um outro – Que a sabedoria, não esteja acompanhada pelo luxo e pelo fausto?

– Esperávamos – disse o terceiro – encontrar o sábio, debruçado sobre livros, sério, sisudo e pensativo.

– Senhores – respondeu o velho – vocês estão certos do que procuram?
(Caminhos II)

Assim como

Todas as portas são diferentes

Aparentemente

Todos os caminhos são diferentes

Mas vão dar todos no mesmo lugar

Sim / O caminho do fogo é a água

Assim como

O caminho do barco é o porto

O caminho do sangue é o chicote

Assim como

O caminho de reto é o torto

O caminho do risco é o sucesso

Assim como

O caminho do acaso é a sorte

O caminho da dor é o amigo

O caminho da vida é a morte
- Deus é dia e noite, inverno / verão, guerra e paz, abundância e fome, vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Assim como toda casa é uma morada dos deuses, todo caminho é divino.

(Caminhos)

Você me pergunta

Aonde eu quero chegar

Se há tantos caminhos na vida

E pouca esperança no ar

E até a gaivota que voa

Já tem seu caminho no ar

O caminho do fogo é a água

O caminho do barco é o porto

O do sangue é o chicote

O caminho do reto é o torto

O caminho do bruxo é a nuvem

O da nuvem é o espaço

O da luz é o túnel

O caminho da fera é o laço

O caminho da mão é o punhal

O do santo é o deserto

O do carro é o sinal

O do errado é o certo

O caminho do verde é o cinzento

O do amor é o destino

O do cesto é o cento

O caminho do velho é o menino

O da água é a sede

O caminho do frio é o inverno

O do peixe é a rede

O do pio é o inferno

O caminho do risco é o sucesso

O do acaso é a sorte

O da dor é o amigo

O caminho da vida é a morte!

"E você ainda me pergunta:

aonde é que eu quero chegar,

se há tantos caminhos na vida

e pouquíssima esperança no ar!

E até a gaivota que voa

já tem seu caminho no ar!"

O caminho do risco é o sucesso

O acaso é a sorte

O da dor é o amigo

O caminho da vida é a morte!


(Estação Raul nº 17 – 03/02/2011)
Se “até a gaivota que voa, já tem seu caminho no ar”, quem poderia ser tão insensato a ponto de definir caminhos que servem a todos? Talvez o sábio sério, e enciclopédico, procurado pelos que abordaram Heráclito em sua pobre morada. Mas não em Zaratustra. Não no Raul. Muito menos eu, aqui, no roteiro desse ato da tragédia tropical de Raul Seixas. Meu caminho, entre tantos possíveis, não tem a pretensão de “provar” o paralelo entre Raul e Zaratustra, mas apenas percorrer caminhos que se assemelham, mesmo usando percursos, por vezes, bem diferentes. Aqui ambos: o Zaratustra de Nietzsche e a obra musical de Raul Seixas são entendidos como “Tragédias”. Eu como mero roteirista da peça trágica, apenas juntei os dois atores, afim de que os mais atentos, possam comigo perceber as possibilidades de vida e ação destes personagens que caberiam no que Nietzsche chamou de “Espíritos Livres”. Aqui, Raul e Zaratustra, desempenham esse papel. “Atores da vida”. Notáveis exemplos da busca por si próprio. A serviço somente da própria vontade.

Esse caminho divino, onde não há negação de opostos, mas um incessante vir-a-ser, onde tudo se transforma, movido pela guerra dos opostos, conforme a manifestação da idéia de Heráclito, foi cantado por Raul Seixas logo no seu primeiro disco solo “krig-há-bandolo” de 1973. No primeiro programa da “Estação Raul”, colocamos sua própria voz, que se apresenta como professor de filosofia, e ao mesmo tempo um jogador, um “ator da vida”. Na música ele levanta essas idéias associadas ao devir:


Metamorfose Ambulante

Prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião

Formada sobre tudo (2x)

Eu quero dizer

Agora, o oposto do que eu disse antes

Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião

Formada sobre tudo (2x)

Sobre o que é o amor

Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela

Amanhã já se apagou

Se hoje eu te odeio

Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor / Lhe tenho horror

Lhe faço amor / Eu sou um ator

É chato chegar

A um objetivo num instante

Eu quero viver

Nessa metamorfose ambulante

[...]


Eu vou lhe desdizer

Aquilo tudo que eu lhe disse antes

Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião

Formada sobre tudo

Do que ter aquela velha opinião

Formada sobre tudo


(Estação Raul nº1 – 07/10/2010)
Jogando o “grande xadrez” da vida, Raul, conforme apresentei na minha pesquisa anterior, se apresenta como um curinga:
Raul Seixas se auto-intitulou o “moleque maravilhoso”, o “curinga de todo o Baralho”, e talvez isso se justifique por ele mesmo se considerar a “mosca na sopa” das coisas instituídas, ou ao dizer “Acredite que eu não tenho nada a ver, com a linha evolutiva da musica popular brasileira…”(Guita - 1974). O curinga afinal de contas é uma carta diferente de todas as outras no baralho, mas não deixa de ser uma carta deste mesmo baralho com o qual ele não se identifica, ou seja, mesmo negando sua participação na construção da história musical do Brasil, lá está Raul Seixas, gravado na nossa história, mesmo sendo diferente dos outros, mesmo sendo um curinga. (BRANDÃO, 2009, pg.6)
A idéia inicial do Raul de carimbar sua passagem pela vida, deixando seu nome na história, difere das idéias de Zaratustra, mas, a importância da própria obra, que no caso do Raul, é sua música gravada nos discos, é apontada por Zaratustra:
E semelhante à estrela que se apagou é toda a obra da vossa virtude: continua a sua luz caminhando pelo espaço – e quando cessará de fazê-lo?

Assim, a luz da vossa virtude continua caminhando mesmo depois de realizada a obra. Pode a obra estar esquecida ou morta: seu raio de luz ainda vive, percorrendo o espaço.

Que a vossa virtude sejais vós mesmos e não algo estranho, uma epiderme, um envoltório: é esta a verdade do fundo de vossa alma, ó virtuosos! - (NIETZSCHE, 1998, pg. 123)
Essa estrela, que se apaga, como na letra de “metamorfose ambulante”, deixa ainda a sua luz viva. São os brilhos de Raul Seixas e Zaratustra, manifestos em sua obra, que acompanham minha manhã diante do crepúsculo. Essa idéia de perdurar, em sua obra, embora tenha começado em direção a discípulos pra seguir seu exemplo, permaneceu, mas sem a necessidade destes seguidores: “Estou seguindo meu caminho, não peço que me sigam, cada um faz o que pode os homens passam e as músicas ficam...” (SEIXAS, 1987).

O “professor de filosofia” que coloca suas idéias ao alcance de um público que “não gosta muito de ler” através de suas músicas, traz aqui uma bela contradição: “O ser humano “é”. Existe verbo!” Um ponto de vista apressado colocaria o ponto de vista de Raul ao lado da “filosofia da fixidez” de Parmênides. Mas o ser aqui é mutante, é “Metamorfose Ambulante”. “Abrem-se aqui, diante de mim, todas as palavras e o escrínio de palavras do ser: todo o ser quer tornar-se, aqui, palavra, todo o devir quer que eu lhe ensine a falar.” (NIETZSCHE, 1998, pg. 221). É de Heráclito, o lado da discussão pré socrática que inspira os músicos / poetas/ filósofos/ atores, Raul Seixas e Zaratustra. Aqui neste ato musical trágico, os chamarei de atores: “Para que a vida constitua espetáculo bom de ver-se, é preciso que este seja bem representado; para isso, porém, são precisos bons atores.” (AFZ, pg. 176). Raul se apresenta também como “ator da vida”, que nega uma “velha opinião formada sobre tudo”. Desdizendo-se, chegando à própria contradição. Mentindo, como mentem todos os atores.


Mas que foi que um dia te disse Zaratustra? Que os poetas mentem demais? – Mas também Zaratustra é um poeta.

Acreditais, agora, que, nisso, ele falou a verdade? Por que acreditais?

[...]

Mas admitamos que alguém tenha dito, com toda a sinceridade, que os poetas mentem demais: ele tem razão – nós mentimos demais.



Também escasso é o nosso saber, e aprendemos mal; assim, precisamos mentir. NIETZSCHE, 1998, pg. 159)
Onde todo o devir parecia-me divina dança e divina galhardia e o mundo, solto e desenfreado, refluindo para si mesmo – como um eterno fugir de si e voltar a procurar-se de muitos deuses, como o bem-aventurado contradizer-se e reouvir-se e recompor-se de muitos deuses - . NIETZSCHE, 1998, pg. 235)

A mentira do artista, não é movida pelo “nada saber” como em Sócrates, mas pelo seu mal aprendizado. A arte, nasce dentro do “eu”, podendo estar livre da cabeça “mau ensinada”: “Minha Cabeça só pensa aquilo que ela aprendeu, por isso mesmo, eu não confio nela eu sou mais eu...” (Aquela Coisa - 1983).

A virtude da contradição é o ponto de partida de Raul Seixas em sua tragédia tropical. Foi profeta, guru, traidor, maldito, renegado, ídolo, e até niilista por vezes. Mas o riso, sua música, suas idéias, conferiram-lhe a trágica aceitação das coisas do devir, o sagrado dizer sim. Segundo Roberto Machado:
Radicalizando ‘O nascimento da tragédia’, para o qual a finalidade da tragédia, ao exibir os sofrimentos do herói, é produzir alegria, Nietzsche, ao mesmo tempo filósofo do sofrimento e da alegria, no momento em que se sente o primeiro filósofo trágico, pretende mostrar com a trajetória de Zaratustra pensada como uma tragédia, que, apesar de todo sofrimento, a afirmação do eterno retorno torna o herói trágico fundamentalmente alegre [...] (MACHADO, 1999, pg.29)

O “eterno retorno” pra onde caminham as idéias e ações do Zaratustra na ultima parte da tragédia do século XIX, bem como o ponto de vista do Raul acerca do mesmo, presente em seu ultimo disco “Panela do Diabo”, não serão tema deste trabalho, mas é preciso ressaltar a característica alegre do “herói trágico”. Se Roberto Machado vê nosso “primeiro filósofo trágico” uma figura fundamentalmente alegre, posso dizer, que o “primeiro roqueiro trágico” do Brasil, cultivou em toda sua obra o bom humor e o riso, manifestações ultimas da alegria. A filosofia Trágica é a que diz sim à vida em sua plenitude. Aceitação mutua da dor e do prazer. Abaixo a referência ao programa “Sim” da “estação Raul”, que se utilizou de texto retirado do aforismo 256 de “A Gaia Ciência” de Nietzsche.


Para o Ano Novo

Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho que viver, pois ainda tenho que pensar. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano, me veio primeiramente ao coração - que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessario nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor Fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!


(Sim)

A dor é uma coisa real

Que a gente está aprendendo a abraçar

E não temer

A velha história do mal

Tão conhecida

Que já nem pode mais nos assustar

O amor é uma coisa real

E a gente nunca deve se esquecer

De festejar / Cada momento pra nós

É pura alegria

É tudo o que a vida tem pra dar

Vem pegar o que é seu

A gente sofre, / A gente luta.

Pois nossa palavra é sim

A gente ama, A gente odeia.

Mas nossa palavra é sim

Viver é coisa irreal / Uns chama de magia

E é tudo tão normal

Mas tá legal / Tem mágica solta no ar

Faz parte do astral

E é isso o que a vida tem pra dar

Vem conquistar o que é seu
(Estação Raul nº12 – 30/12/2010)
A velha história do mal, da qual nem Zaratustra, nem Raul engolem, mas ao contrário riem dela, é incapaz de impedir a visão do que é belo e necessário nas coisas. Assim surge o “Amor fati” expressão necessária ao sujeito trágico, que antes de sentir o horror do devir, em seu movimento devorador incessante, o contempla com amor. É recusa do medo e da covardia “e das tempestades, já não tenho medo, acordo mais cedo...” (Moleque Maravilhoso, 1975). Bem e mal, tornam-se assim categorias frágeis. Criação niilista, produto do pensamento e ação de quem nega a vida.
Abençoador, me tornei, e dizedor de sim; e, para isto, longamente lutei: e fui um lutador a fim de que, algum dia, tivesse as mãos livres para abençoar.

Mas é esta a minha bênção: estar acima de todas as coisas como o seu próprio céu, o seu teto abobadado, e sua redoma azul e a sua eterna certeza; e bem aventurado é quem assim abençoa!

Porque todas as coisas foram batizadas na fonte da eternidade e além do bem e do mal; mas os próprios bem e mal são apenas sombras interpostas e áqüeas tribulações e nuvens passageiras. (Assim Falou Zaratustra (pg. 201)
Nosso Zaratustra dos trópicos também argumentou contra os universalismos que conceituam e dogmatizam “bem” e “mal”. “[...] Pra cada pecado sempre existe um perdão, não tem certo nem errado, todo mundo tem razão, e que o ponto de vista é que é o ponto da questão [...]” (Que Luz é essa, 1977)

Se Nietzsche falava a partir do conceito do “trágico”, pra demonstrar toda a fragilidade dos dogmas, e cicatrizes de uma sociedade altamente institucionalizada, e presa em “velhos preconceitos morais”, Raul, dizia o mesmo com seu “Novo Aeon”. [áudio 5]



(Novo Aeon)

O sol da noite agora está nascendo

Alguma coisa está acontecendo

Não dá no rádio nem está

Nas bancas de jornais

Em cada dia ou qualquer lugar

Um larga a fábrica, outro sai do lar

E até as mulheres, ditas escravas,

Já não querem servir mais

Ao som da flauta / Da mãe serpente

No para-inferno / De Adão na gente

Dança o bebê / Uma dança bem diferente

O vento voa e varre as velhas ruas

Capim silvestre racha as pedras nuas

Encobre asfaltos que guardavam

Histórias terríveis / Já não há mais culpado

nem inocente

Cada pessoa ou coisa é diferente

Já que é assim, baseado em que

Você pune quem não é você?

Ao som da flauta / Da mãe serpente

No para-inferno / De Adão na gente

Dança o bebê / Uma dança bem diferente

Querer o meu / Não é roubar o seu

Pois o que eu quero / É só função de eu

Sociedade alternativa / Sociedade novo aeon

É um sapato em cada pé

É direito de ser ateu / Ou de ter fé

Ter prato entupido de comida

Que você mais gosta

É ser carregado, ou carregar / Gente nas costas

Direito de ter riso e de prazer

E até direito de deixar / Jesus Sofrer

(1975)
Raul, nesse período, vai em busca dos homens, pra com eles, implantar a “sociedade alternativa”, onde não há culpados e inocentes, pois as pessoas, em sua visão, estariam extinguindo de vez o “Velho Aeon”. Também Zaratustra quis falar junto aos homens a respeito das “novas tabuas” ainda pela metade, contemplando ao mesmo tempo no ocaso do sol, a imagem das velhas tábuas partidas:


Pois quero ir, mais uma vez, ter com os homens: entre eles, quero desaparecer e dar-lhes, morrendo, a minha mais rica dádiva!

Aprendi-o do sol opulento no ocaso: derrama no mar o ouro da sua inexaurível riqueza –

- de tal sorte que ainda o mais pobre dos pescadores rema com remos dourados! Contemplei-o, um dia, e não me fartava de chorar ante o espetáculo. - -

Tal como o sol, também Zaratustra quer ver o seu ocaso: agora, está aqui sentado, à espera, rodeado de velhas tabuas partidas e, também, de novas Tábuas – escritas pela metade. (NIETZSCHE, 1998, pg. 237)


Mas ambos precisaram abandonar a procura pelos homens, ainda presos aos cadáveres de deuses há muito tempo mortos. “[...] Segui vossos caminhos! E deixai o povo e os povos seguirem os seus! – caminhos escuros, na verdade, onde nem uma só esperança lança mais um efêmero clarão!” (NIETZSCHE, 1998, pg. 250) Na nova perspectiva, entra em cena o indivíduo. O “eu” passa a ser mais importante que o coletivo.
Referências:
DISCOGRAFIA “OFICIAL” DE RAUL SEIXAS
1968- Raulzito e os Panteras

1971- Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez

1973- Krig-ha, bandolo!

1974- Gita

1975- Novo Aeon

1976- Há Dez Mil Anos Atrás

1977- Raul Rock Seixas

1977- O Dia Em Que a Terra Parou

1978- Mata Virgem

1979- Por Quem os Sinos Dobram

1980- Abre-te Sésamo

1983- Raul Seixas

1984- Metrô Linha 743

1985- Let my sing my Rock’n’roll

1987- UAH-BAP-LU-BAP-LAH-BÉIN-BUM!

1988- A Pedra do Gênesis

1989- A Panela do Diabo

Bibliografia
ALVES, Luciane, Raul Seixas: e o sonho da Sociedade Alternativa, São Paulo, 1999.

BOSCATO, Luiz Alberto de Lima, Vivendo a Sociedade Alternativa: Raul Seixas no panorama da contracultura jovem – São Paulo, (Tese de Doutorado) São Paulo, Usp, 2006.

BAUMER, A. Franklin. O Pensamento Europeu Moderno. Trad. Alberty, Maria Manuela. Lisboa, Edições 70, 1990.

BRANDÃO, Jeferson Santana, Raul Seixas: As Metamorfoses nas Idéias do Curinga da Música Brasileira – Londrina, (Monografia de Especialização), UEL, 2009.

CHARTIER, R. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa:Difel, 1995

GIANNATTASIO, Gabriel, Artigo: Malditos: Capítulos Da História No Campo Da História Das Idéias, acesso disponível no dia 12/06/2009 em: http://www2.uel.br/grupo-pesquisa/nero/arqtxt/NEROGabriel-Malditos.pdf, 1999

JENKINS, Keith. A História Repensada, São Paulo; Contexto, 2001.

MACHADO, Roberto. Zaratustra, tragédia nietzscheana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,

1999.

NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo. Tradução Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.



___________. Assim Falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

___________. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.



SEIXAS, Raul, O Baú do Raul Revirado, (Org. Ap. Silvio Essinger), Rio de Janeiro, Ediouro, 2005.
Todos Os programas “Estação Raul” Citados com áudio disponível no site da Rádio UEL FM:

http://www.uel.br/uelfm/programa.php?id=177&titulo=Coluna+Esta%E7%E3o+Raul



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