A santissima trinosofia



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SEÇÃO VIII

Abandonei a galeria por urna porta baixa e estreita e entrei num aposento circular. Seus lambris eram de madeira de freixo e de sândalo. Ao fundo do aposento, sobre um pedestal composto de tronco de videira, repousava um punhado de sal branco e brilhante. Acima havia um quadro representando um leão branco coroado e um cacho de uvas. Os dois estavam pousados sobre urna mesma bandeja que a fumaça de um braseiro aceso elevava aos ares. À minha direita e à minha esquerda abriam-se duas portas; urna dava para urna planície árida. Um vento quente e seco reinava ali o tempo todo. A outra abria-se para um lago em cuja extremidade percebia­se urna fachada de mármore negro.

Aproximei-me do altar e peguei em minhas mãos o sal branco e brilhante que os sábios chamam Marahresha.




Esfreguei com ele o meu corpo inteiro... impregnei-me com ele e, depois de ler os hieróglifos que acompanhavam o quadro, preparei-me para deixar a sala. Minha primeira intenção era sair pela porta que dava para a planície, mas por ela escapava um vapor ardente; preferi o caminho oposto. Eu tinha a liberdade de escolher, com a condição, no entanto, de não abandonar o que havia escolhido... Decidi atravessar o lago. Suas águas eram sombrias e dormentes. Percebi bem a urna certa distância uma ponte chamada bâs (talvez, coragem),





mas preferi atravessar o lago e não tornar o longo caminho que seria obrigado a seguir para chegar à ponte, seguindo as sinuosidades de urna margem semeada de pedras. Entrei na água, que era espessa corno cimento e percebi que era inútil nadar, pois de todos os lados, meus pés reencontravam o solo. Andei no lago durante treze dias. Enfim cheguei ao outro lado.



    1. SEÇÃO IX

A terra era de uma cor escura como a água pela qual viajei. Um declive imperceptível me conduziu ao pé do edifício que vira de longe. Sua forma era um quadrado longo (retângulo). Sobre a fachada estavam gravados alguns caracteres semelhantes aos usados pelos patriarcas dos antigos persas. O edifício inteiro era construído em basalto negro fosco. As portas eram de madeira de cipreste e se abriram para me deixar passar.

Um vento quente e úmido se elevou de repente e me empurrou rapidamente até o meio da sala e, ao mesmo tempo, fechou as portas atrás de mim... Encontrei-me na escuridão. Pouco a pouco meus olhos se acostumaram à pouca luminosidade reinante neste recinto e pude distinguir os objetos que me rodeavam. O teto, as paredes, o assoalho da sala eram negros como ébano. Dois quadros pintados sobre a parede chamaram minha atenção. Um representava um cavalo igual ao que os poetas nos contam que causou a ruína de Tróia. De seus flancos entreabertos saía um cadáver humano. A outra pintura oferecia a imagem de um homem morto há muito tempo. Os vis insetos da putrefação se agitavam sobre seu rosto e devoravam a substância que os fez nascer. Um dos braços descarnados da figura morta já deixava perceber os ossos. Junto ao cadáver, um homem vestido de vermelho se esforçava para levantá-lo. Uma estrela brilhava sobre sua fronte, botas negras cobriam suas pernas. Três lâminas negras cobertas com caracteres de prata estavam pousadas acima deles, entre e acima dos quadros. Eu os li e me ocupei em percorrer a sala onde devia passar nove dias.
Num canto mais escuro se encontrava um punhado de terra negra, gordurosa e saturada de partículas animais. Quis apanhá­-la, uma voz retumbante como o som de uma trombeta me proibiu.

"Há oitenta e sete anos que esta terra foi depositada nesta sala", disse-me ela, "quando outros treze anos tiverem passado, tu e os outros filhos de Deus podereis usá-la". A voz se calou mas os últimos sons vibraram ainda longo tempo neste templo do silêncio e da morte.

Após ficar ali o tempo prescrito, saí pela porta oposta àquela que entrei. Revi a luz, mas ela não estava bastante viva ao redor da sala negra, para fatigar meus olhos acostumados à escuridão.

Percebi com surpresa que, para chegar aos outros edifícios, era preciso atravessar um lago maior que o primeiro. Andei na água durante dezoito dias. Lembrei-me que na primeira travessia as águas do lago se tornavam mais negras e mais espessas à medida que eu avançava. Neste, ao contrário, quanto mais me aproximava da margem, mais as águas clareavam. Minha roupa, que dentro do palácio ficara negra como as muralhas, pareceu­me então de uma cor cinzenta. Pouco a pouco recuperou suas cores. No entanto, não estava inteiramente azul, mas aproximava­se de um belo verde.

D

epois de dezoito dias, subi à margem por uma escadaria de mármore branco. A sala negra é chamada T'sahn (bacia?),

o



primeiro lago, Tsahn Rosh (bacia da cabeça),

o segundo, Tsahn Aharith (bacia da extremidade posterior).






SEÇÃO X

A alguma distância da margem, um palácio suntuoso elevava aos ares suas colunas de alabastro. Suas

diferentes partes eram unidas por pórticos cor de fogo. Todo o edifício era de uma arquitetura graciosa e aérea. Aproximei-me das portas. Sobre o frontispício estava representada uma borboleta. As portas estavam abertas... entrei. O palácio inteiro era somente uma sala... Três fileiras de colunas a cercavam. Cada fileira era composta de vinte e sete colunas de alabastro. No centro do edifício estava uma figura de homem. Ele saía de um túmulo, sua mão apoiada sobre uma lança batia na pedra que antes o aprisionara. Um tecido verde cingia seus rins, o ouro brilhava na orla de sua vestimenta, sobre seu peito havia uma tabuleta quadrada na qual distingui algumas letras. Acima da figura estava suspensa uma coroa de ouro e a figura parecia elevar-se nos ares para a apanhar. Acima da coroa havia uma lápide de pedra amarela na qual estavam gravados alguns emblemas. Decifrei-os com o auxílio da inscrição que percebi sobre o túmulo e pela que vi sobre o peito do homem.

Fiquei nesta sala chamada Balsân (bálsamo) (?)





o tempo necessário para contemplar-lhe todos os detalhes e saí logo com a intenção de chegar, atravessando uma vasta planície, a uma torre que percebi a uma distância bastante grande.



SEÇÃO XI
Mal eu havia deixado os degraus do palácio, quando percebi voltejar diante de mim um pássaro semelhante à Aspirna,




mas este tinha duas asas de borboleta além das suas. Uma voz saindo de uma nuvem me ordenou capturá-lo e o afixar. Lancei-me atrás dele, ele não voava, mas se servia de suas asas para correr com a maior rapidez. Eu o persegui, ele fugia à minha frente e me fez percorrer várias vezes a planície em toda sua extensão. Segui-o sem me afastar. Enfim, depois de nove dias de corrida, obriguei-o a entrar na torre que eu havia visto de longe ao sair do Tsahn.




Os muros deste edifício eram de ferro. Trinta e seis pilares do mesmo metal os sustentavam e o interior era da mesma matéria, incrustado de aço brilhante. Os fundamentos da torre eram construídos de tal maneira que sua altura tinha o dobro sob a terra. Mal o pássaro entrou nesse recinto e um frio glacial pareceu se apoderar dele. Ele fez vãos esforços para mover suas asas entorpecidas. Agitou-se ainda, ensaiou fugir, mas tão fracamente que eu o alcancei com maior facilidade.
Peguei-o e lhe passei um cravo de aço Marah-nehush (amargura de bronze)




através das asas e afixei-o sobre o assoalho da torre, com a ajuda de um martelo chamado Shitraj (?).




Mal terminei e o pássaro retomou novas forças. Ele não se agitava mais, mas seus olhos tornaram-se brilhantes como topázios.

Eu estava ocupado examinando-o, quando um grupo colocado no centro da sala chamou minha atenção. Representava um belo homem na flor da idade. Ele tinha na mão uma vara envolvida por duas serpentes entrelaçadas e se esforçava para escapar das mãos de outro homem forte e vigoroso, munido de uma cinta e um elmo de ferro sobre o qual flutuava um penacho vermelho. Havia uma espada junto dele, apoiada num escudo coberto de hieróglifos. O homem armado tinha em suas mãos uma forte corrente e enlaçava os pés e o corpo do adolescente que procurava, em vão, fugir de seu terrível adversário. Duas tabuletas vermelhas continham caracteres.

Deixei a torre e, abrindo uma porta que se encontrava entre dois pilares, encontrei-me numa vasta sala.

    1. SEÇÃO XII

A sala na qual acabava de entrar era exatamente esférica, assemelhando-se ao interior de uma bola composta de uma matéria dura e diáfana como cristal e recebendo o dia por todos os lados. A parte inferior estava pousada sobre uma grande bandeja cheia de areia vermelha. Um calor doce e igual reinava neste recinto circular. Os sábios chamam esta sala Zelûph (?).






A bandeja de areia que a sustenta tem o nome de Asha hôlith (fogo de areia).




Considerava com espanto esse globo de cristal quando um fenômeno novo excitou minha admiração: do chão da sala se elevou um vapor doce e úmido, açafranado. Ele me envolveu, elevou-me docemente, e no espaço de trinta e seis dias, levou­me até a parte superior do globo. Depois desse tempo, o vapor enfraqueceu, desci pouco a pouco e finalmente, reencontrei-me sobre o chão. Minha roupa mudou de cor. Ela era verde quando entrei na sala, agora era de um vermelho gritante. Por um efeito contrário, a areia sobre a qual repousava o globo, deixou sua cor vermelha e foi se tornando gradualmente negra. Demorei ainda três dias nesta sala, depois do fim da minha ascensão.

Depois desse tempo, saí para entrar numa grande praça envolta em colunas e pórticos dourados. No meio da praça havia um pedestal de bronze. Ele sustentava um grupo que representava a imagem de um homem grande e forte. Sua cabeça majestosa estava coberta por um elmo coroado. Através das malhas de sua armadura de ouro, saía uma vestimenta azul. Ele tinha numa mão um bastão branco coberto de caracteres, e estendia a outra a uma bela mulher. Nenhuma roupa cobria sua companheira, mas um sol brilhava sobre seu peito e sua mão direita segurava três globos unidos por anéis de ouro. Uma coroa de flores vermelhas cingia seus belos cabelos, ela se lançava aos ares e parecia elevar consigo o guerreiro que a acompanhava. Os dois estavam sobre nuvens. Ao redor do grupo, sobre os capitéis de quatro colunas de mármore branco, estavam dispostas quatro estátuas de bronze. Tinham asas e pareciam tocar a trombeta.

Atravessei a praça e, subindo uma escadaria de mármore que se encontrava à minha frente, vi com espanto que entrava na sala dos tronos (a primeira onde estive quando cheguei ao palácio da sabedoria). O altar triangular ainda estava no meio desta sala, mas o pássaro, o altar e o drio estavam unidos e formavam um só corpo. Perto deles estava pousado um sol de ouro. A espada que eu havia trazido da sala do fogo, repousava a alguns passos de lá, sobre o assento de um dos tronos. Peguei a espada e, ferindo o sol, o reduzi a pó. Depois, toquei-o e cada molécula tornou-se um sol de ouro semelhante ao que eu havia destruído. "A obra está perfeita", exclamou no mesmo instante uma voz forte e melodiosa. A esse grito, os filhos da luz se apressaram a vir juntar-se a mim. As portas da imortalidade me foram abertas, a nuvem que cobre os olhos dos mortais se dissipou, EU VI, e os espíritos que comandam os elementos me reconheceram por seu mestre.

FIM


    1. PARTE III




      1. COMENTÁRIOS




      1. Manly P. Hall




CAPÍTULO 4


  1. Os MISTÉRIOS

A iniciação nos Mistérios foi definida pelos antigos filósofos como a suprema aventura da vida e o maior bem que pode ser conferido à alma humana durante sua passagem pela terra. Platão, em Fedro, escreve sobre a suprema importância da aceitação nos Ritos sagrados: "Assim, em conseqüência desta iniciação divina, tornamo-nos espectadores de visões íntegras, simples, inabaláveis e bem­aventuradas numa luz pura, nós mesmos éramos puros, sem mácula e livres desta veste que nos envolve e que chamamos corpo, ao qual estamos agarrados como uma ostra à sua concha."

São Paulo também se refere à "experiência interior" pela qual chegamos a SABER. Ele diz: "Falamos da sabedoria entre os perfeitos, não da sabedoria deste mundo nem dos Arcontes (Governantes) deste mundo, mas da sabedoria divina num mistério, num segredo, que nenhum dos Arcontes deste mundo conhece." Uma iniciação é uma ampliação da consciência para apreciar realidades universais. Os cerimoniais místicos dos pagãos e dos primitivos cristãos nada mais eram que símbolos externos de processos internos. Por meio de obscuros ritos e cerimônias alegóricas, os preciosos arcanos (mistérios) da perfeição eram transmitidos de uma era para outra. Os profanos ficavam satisfeitos com a solenidade das formas e rituais externos, mas os Iniciados, aqueles que haviam recebido as chaves, aplicavam a sabedoria que estava trancada dentro das alegorias para aperfeiçoar suas faculdades espirituais internas.

Orígenes, o mais místico dos padres anti-Nicéia, no seu prefácio a São João, admite a natureza dupla de todas as revelações teológicas: "Para os de mentalidade literal (ou exotéricos) ensinamos o Evangelho da maneira histórica, a pregação de Jesus Cristo e Sua crucificação, mas para os entendidos, inflamados pelo amor à Sabedoria Divina (os esotéricos), comunicamos o Logos (a Palavra).

A perfeição não é dada: ela é conquistada. Os homens não se tornam sábios apenas assistindo a dramas sagrados... e sim, entendendo-os. O simbolismo é a linguagem das verdades divinas, uma escrita por meio da qual podem ser insinuadas coisas que, na realidade, não podem ser reveladas. "Pois os símbolos místicos são bem conhecidos para nós que pertencemos à Irmandade." (Plutarco). Pela iniciação é estabelecida a regra das obras. O homem divino e o divino no homem são trazidos à perfeição somente pelas obras. Os iniciados das antigas escolas eram "sábios Mestres Construtores" com visão para ver, coragem para fazer e sabedoria para manter silêncio. "O segredo e o silêncio são observados em todos os Mistérios", escreveu Tertuliano, criador da latinidade eclesiástica.

Durante as cerimônias de iniciação, o neófito recebia a LEI. As grandes verdades pelas quais o universo caminha em direção à inevitável identidade com Deus eram reveladas. Cabia ao iniciado aplicar essa Lei e, por meio desta aplicação, conquistar a imortalidade consciente. Os caminhos do conhecimento se bifurcam quando a prática diverge da teoria. Um homem pode cumprir a Lei e assim, por ação esclarecida, chegar finalmente à perfeição, ou aceitar a palavra da Lei e, ignorando sua essência, permanecer como é... imperfeito e não iluminado. Aquele que recebe o Logos e age de acordo com o seu espírito cresce gradualmente em sabedoria. Os teurgos nazarenos diziam que este "tinha um juramento". Ele se dedicava a libertar a parte interior do domínio de seus sentidos e apetites externos. Aretaeus diz: "Até que a alma seja libertada, ela trabalha dentro do corpo e é obscurecida por vapores e argila." Vapores significam, segundo os arcanos, os apetites e os excessos emocionais que são tão desprovidos de substância como a névoa, e argila significa a insensibilidade da forma corpórea.

Aumentar em sabedoria é aumentar em esclarecimento, pois infere-se que esclarecimento é a iluminação dos recessos internos da razão pela luz do Logos - o sol espiritual. Este desenvolvimento da habilidade de saber por meio da disciplina filosófica é acompanhado por ampliações da compreensão e da apreciação. Essas ampliações são o verdadeiro crescimento da alma que aumenta em direção à inclusividade. Por isso, nos escritos sagrados, esta ampliação da esfera de ação da alma é chamada iniciação. Pela iniciação, a divindade interior se dirige para a sua própria causa, o Bem eterno. As câmaras de iniciação são as "muitas moradas" pelas quais a divindade interior deve passar, como se fossem as sinuosidades tortuosas do labirinto de Creta. Em seu percurso há muitas portas e através de cada uma a divindade é introduzida numa área maior e mais luminosa da função e da ação. Com cada aumento de nossa habilidade de apreciar as magnitudes do plano divino, dizemos que renascemos. O renascimento é a passagem de uma condição velha para um novo estado, de uma velha limitação para uma nova ampliação. Conforme crescemos em conhecimento, nosso universo parece aumentar junto conosco, tomando a medida de nossa nova constituição. A sabedoria liberta.

As academias dos antigos Mistérios convidavam os mais sábios e os melhores da humanidade a abandonar a sombra mortal do mundano e dedicar-se às obras verdadeiramente eternas. A perfeição do Eu é a Grande Obra, o início e o fim da sabedoria: o Eu que atingiu a perfeição é a oferenda perfeita e a consumação da Grande Obra. Aquele que é perfeito é da máxima utilidade para os outros, o bem maior para si mesmo e a oferenda mais aceitável ao Altíssimo.

Com o colapso do antigo mundo pagão e a corrupção da Primitiva Igreja Cristã, os Mistérios cessaram como grandes Instituições. Suas doutrinas se perderam, suas artes sacerdotais foram dispersadas e seus templos caíram na ruína. Novas teorias, na maior parte superficiais e insuficientes, substituíram a sabedoria anterior; e a instrução, divorciada de sua parte espiritual, criou os fundamentos de nosso caos atual. Mas os sábios se mantiveram fiéis aos antigos Ritos. Aqueles que receberam os arcanos não podiam esquecer, não conseguiam esquecer. Eles se reuniam em segredo, ensinavam em segredo e adoravam em segredo. O fogo do templo ardia nos corações de seus iniciados. As formas externas desmoronaram, mas o espírito interior, fortalecido pela participação numa verdade eterna, era imortal. Saindo da escuridão de uma civilização degenerada, atravessando o deserto de séculos estéreis e, finalmente, cruzando o Mar Vermelho da Inquisição, os Místicos da sabedoria antiga carregaram triunfalmente a Arca de sua aliança.

A assim chamada Idade Média foi uma era de simbolismo fantástico. Os herméticos inventavam monstros complexos, emprestados dos deuses do Egito; os cabalistas iluminavam o pergaminho com curiosas figuras, selos, pentáculos e marcas grotescas de demônios; os alquimistas preenchiam enormes volumes com fórmulas esquisitas falando das propriedades místicas de sapos e sangue de dragão. No campo sombrio da superstição medieval, também cresceu e floresceu a Rosa Mística, para acabar sufocada pelas ervas daninhas da intolerância. Foram séculos estranhos, nos quais a falsa fé colocou a sabedoria em perigo. No entanto, quem ousa negar que as tradições místicas perduraram e, revestidas pelos mitos e química egípcios, ainda estavam disponíveis para aqueles que tinham olhos para ver a verdade torturada?

No cenário da ignorância dogmática e do pedantismo inútil destaca-se nítida e clara a luminosa personalidade do conde de Saint-Germain. Mestre da sabedoria antiga, sábio nas verdades esquecidas, versado em todas as artes curiosas da antigüidade, mais erudito do que qualquer homem do mundo moderno, o misterioso conde personificou em suas próprias realizações as tradições metafísicas de cinqüenta séculos. Milhares de vezes foram feitas as perguntas: onde é que Saint-Germain obteve seu espantoso conhecimento da lei natural? Como é que ele se perpetuou século após século, desafiando a corrupção natural que leva tanto o príncipe, o sacerdote, quanto o pobre igualmente a um fim comum?

Saint-Germain era o porta-voz e representante da irmandade de filósofos que descenderam, numa linha ininterrupta, desde os hierofantes da Grécia e do Egito. Ele havia recebido o Logos. Com sua sabedoria, confundia os anciãos. A vida deste homem derruba a pretensão escolástica de dois mil anos.



La Tres Sainte TrinosoPhie é supremamente importante por delinear os processos espirituais que, finalmente, resultam na iniciação. É o diário da entrada da alma na idade adulta. Pode bem ser o registro efetivo da admissão do próprio Saint-Germain na irmandade mística da qual ele, finalmente, se tornou o Grande Mestre. Como o propósito do manuscrito era a instrução dos discípulos já familiarizados com a terminologia secreta, o relato inteiro é colocado simbolicamente em fragmentos de ritual e alegoria, derivados das cerimônias da era clássica. Embora a primeira leitura possa servir somente para provocar perplexidade, uma análise profunda e cuidadosa do texto irá esclarecer gradativamente. Cada um irá descobrir na escrita aquilo que já sabe, interpretá-la de acordo com o que é e aplicá-la de acordo com aquilo que deseja. Os símbolos são todas as coisas para todos os homens, no entanto, sob a ampla diversidade de interpretações às quais são suscetíveis, há uma sabedoria simples e inevitável que pode ser compreendida somente pelos verdadeiramente sábios. Opiniões, teorias e crenças acabam se descartando; na raiz . de cada emblema está um fato. O nosso manuscrito é rico nesses fatos velados e somos lembrados pelo autor de que nenhuma parte dele é destituída de significado oculto.

La Tres Sainte TrinosoPhie é dividida em doze seções. Cada uma é iluminada por um desenho apropriado. As primeiras seções parecem derivar sua inspiração do ritual neo-egípcio chamado Ritual de Mênfis, e as provas do candidato se relacionam diretamente com os quatro elementos - terra, água, fogo e ar. O grande padrão para o documento inteiro é o Zodíaco, com cujos signos se relacionam as doze seções do texto. O Zodíaco é o grande ciclo da alma e a passagem do sol pelos símbolos zodiacais é o original de onde as antigas artes sacerdotais derivaram a autoridade para os seus circumpercursos sagrados. Os antigos aceitavam o primeiro signo do Zodíaco como o início e, o último como o fim de toda a atividade mundana. De forma semelhante Áries tipificava o início da regeneração ou a entrada da alma na luz no equinócio vernal do ciclo filosófico, enquanto Peixes significava a conclusão da peregrinação sagrada e a realização da Magnum Opus (Grande Obra).

Saint-Germain emprega principalmente símbolos alquímicos neste livro da Sabedoria Tríplice. Isto não pressupõe de maneira alguma que, na verdade, ele escreve sobre processos químicos pois, como concordaram a maioria dos alquimistas, a fabricação de ouro material é a parte menos importante de sua ciência. A tabela seguinte será útil para que fiquem claras a intenção de Saint-Germain e evidentes as correlações entre os signos zodiacais e os processos alquímicos:


Áries - calcinação - expulsão da alma animal por meio do calor. (Purificação pelo fogo da aspiração)

Touro - congelamento - a união das partes; a conquista do único ponto ou propósito.

Gêmeos - fixação - a condição de tornar-se firme, a fixação da vontade.

Câncer - dissolução - dissolver ou suspender num estado fluido; universalização da personalidade.

Leão - digestão - amolecer por calor e umidade; aperfeiçoar a mente na sabedoria (calor) e na imaginação (umidade) .

Virgem - destilação - a separação do princípio volátil da substância; a libertação da alma de seu envolvimento no limite corpóreo.

Libra - sublimação - o refinamento dos corpos elementais; o aumento das harmonias vibratórias do corpo.

Escorpião - separação ou putrefação - a morte filosófica; uma decadência artificial pela qual os elementos espirituais e materiais são separados um do outro.

Sagitário - incineração - a queima de detritos; o fogo da alma consome o corpo externo.

Capricórnio - fermentação - a conversão de substância orgânica em novos componentes pela fermentação; a construção do Homem de Ouro.

Aquário - multiplicação - o processo de ampliação; iniciação.

Peixes - projeção - o processo de transmutar substância básica em Ouro; o acabamento da Obra; imortalidade; na tradição oriental, ser Buda.


O arranjo desses símbolos e processos difere em maior ou menor grau entre diversos escritores, mas o princípio é sempre o mesmo - a transmutação do não-Eu em Eu, o tingimento da vida exterior com a graça interior: a projeção da alma sobre o ambiente físico, a sublimação do mal em bem, a multiplicação da beleza, do amor e da verdade até que finalmente o pó da projeção (sabedoria) tinja o mundo inteiro. Os alquimistas nos dizem que uma minúscula partícula do "Leão vermelho" pode transmutar em ouro puríssimo cem mil vezes seu próprio peso. A sabedoria - e somente a sabedoria - pode alcançar isso, pois um sábio pode aperfeiçoar as eras, e uma pequena verdade irá a seu tempo aumentar tanto que o universo não poderá mais contê-la.

Um ritual semelhante ao contido no presente texto é descrito no Popol Vuh, o livro sagrado dos índios Quiche da América Central. O neófito, em sua busca da sabedoria, passa por uma sucessão de doze provas:

Ele atravessa um rio de sangue (Áries) depois um rio de lama (Touro), detecta um subterfúgio (Gêmeos), entra na casa da escuridão (Câncer), depois a casa das lanças (Leão), a casa do frio (Virgem), a casa dos tigres (Libra), a casa do fogo (Escorpião) e a casa dos morcegos (Sagitário) onde ele morre (incineração). O quadro no topo da nona seção do livro de Saint-Germain retrata a morte. O corpo do neófito índio é queimado num cadafalso (Capricórnio), as cinzas são espalhadas no rio (Aquário), as cinzas Se transformam num homem-peixe (Peixes), em cuja forma o iniciado, que concluiu o ciclo, destrói o gênio mau, que foi seu adversário, por meio do ritual iniciático. Os doze príncipes de Xibalba, Guardiões dos Mistérios, são, é claro, os deuses zodiacais.

Ao seguir Saint-Germain aos leitos de lava do Vesúvio, na verdade, "pisamos na soleira de Perséfone". Nós o seguimos em sua busca da alma pela verdade. Agora lemos somente os símbolos e nosso entendimento é apenas parcial, mas, no final, devemos conquistar como ele conquistou e enfrentar o curso universal com a mesma coragem que o impeliu até a mestria. Seus símbolos vêm do Livro da Vida e, embora não vejamos nos incidentes e acontecimentos diários os testes sobre os quais ele escreve, cada um em sua própria esfera de experiências enfrenta os mesmos obstáculos definidos aqui. Perambulamos nas cavernas da incerteza, as formas fantasmagóricas da dúvida nos assaltam, o medo rouba nossa força, o egoísmo, nossa visão, e a ignorância, a nossa coragem. Mas nós todos somos alquimistas no laboratório da vida: cada um está destilando o elixir da experiência. No seu devido tempo, cada um terá alcançado a perfeição deste misterioso fluido alquímico e, com ele, irá tingir seu mundo e a si mesmo. Sobre os metais básicos desta era atual, ele irá borrifar o pó mágico que sua alma descobriu. As eras do Ferro, da Prata, do Cobre e do Chumbo se extinguirão, e a Era de Ouro dos filósofos brilhará.



CAPÍTULO 5
    1. INTERPRETAÇÃO DE FIGURAS E TEXTO



SEÇÃO I




(Figura1, página 1)

A página título do manuscrito, altamente decorada, é uma chave valiosa para a interpretação da obra inteira. De Givry descreve os emblemas assim: "O simbolismo deste autor segue o estilo egípcio segundo a moda da época. Na página título da obra (..,) encontramos (..,) o pássaro de Hermes, uma árvore com frutos de ouro, e um vaso no qual a obra é alcançada, o material primitivo sob a forma de uma bola abraçada por duas asas, e um triângulo luminoso contendo o Nome Divino." Em outro lugar ele acrescenta: "O nome hebraico El está à direita, junto com outro nome divino mais abaixo, escrito em árabe. As letras AB perto do último indicam o alfabeto e representam a Palavra - A Palavra Divina. À esquerda, a inscrição hebraica tirada dos primeiros versos do Livro do Gênese: 'E a terra estava sem forma, e vazia (Tohu-vah-Bohu) e as trevas estavam sobre a face do abismo. E o Espírito de Deus (Ruach Elohim) movia-se sobre a superfície das águas.'"

As letras dentro do triângulo de ouro não formam o nome sagrado ]ehovah mas, quando decodificadas, mostram as palavras cifradas: "Respire após (como) este Um." Que a "respiração da alma" dos cabalistas deva ser inferi da é evidente pela presença das asas atrás do falcão de Rá, no canto esquerdo superior. O segundo quadrado do topo à direita é de especial interesse maçon. Um candidato à iniciação nos Mistérios fica em pé em postura simbólica diante de um altar - com "um pé descalçado e um pé calçado". As letras hebraicas AL (EL) no pequeno círculo são Um dos dez nomes cabalísticos de Deus, significando "Deus, o Criador", e está associado com a Sephira Chesed ou misericórdia. As letras AB são a assinatura mística do escritor que era um "pai" (abba) ou mestre da sabedoria sagrada. As letras são também abreviações de um processo alquímico. O "nome divino" árabe consiste realmente em palavras hebraicas, escritas com caracteres árabes, que significam: "O Senhor, o Altíssimo, purifica." A inscrição hebraica no canto esquerdo inferior, embora seja inquestionavelmente o segundo verso do primeiro capítulo do Gênese, não está escrita como na versão autorizada. Os caracteres foram mudados e o sentido, alterado para que possa ser lido da seguinte maneira: "E a terra será um deserto desolado. Haverá lamentos, e o ódio e a consternação estarão sobre a Face. E o Sopro de El-him, por causa da presença do espírito, destruirá aqueles que se distanciaram de Deus."



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