A santissima trinosofia



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CAPITULO 3



  1. TRADUÇÃO DO MANUSCRITO




SEÇÃO i
Dentro da prisão, dentro dos cárceres da Inquisição, que teu amigo traça estas linhas que devem servir à tua instrução. Sonhando com as vantagens inestimáveis que deve te conferir este escrito de amizade, eu sinto mais doces os horrores de uma prisão tão longa quanto pouco merecida... Tenho prazer em pensar que, cercado de guardas, impedido por ferros, um escravo ainda pode elevar seu amigo acima dos poderosos, dos monarcas que governam este lugar de exílio.

Vais penetrar, meu caro Philochale, no santuário das ciências sublimes. Minha mão vai levantar para ti o véu impenetrável que oculta aos olhos do vulgo o tabernáculo, o santuário onde o Eterno deposita os segredos da natureza, segredos que Ele reserva para alguns privilegiados, para os Eleitos que sua onipotência cria para Ver, para elevar ao seu lado na imensidão de sua Glória, e despejar sobre a espécie humana um dos raios que brilham ao redor do seu trono de ouro.

Possa ser o exemplo de teu amigo uma lição salutar e eu bendirei os longos anos de provas que os perversos me fizeram sofrer.

Dois obstáculos igualmente perigosos se apresentarão sempre diante de teus passos. Um ultrajaria os direitos sagrados de cada indivíduo: é o Abuso do poder que Deus te confiou. Outro causaria tua ruína: é a Indiscrição... Ambos nasceram da mesma mãe, ambos devem sua existência ao Orgulho. A fraqueza humana os alimenta. Eles são cegos, sua mãe os conduz. Com sua ajuda, estes dois monstros vão levar seu alento impuro até os corações dos Eleitos do Altíssimo. Infeliz daquele que abusar das dádivas do céu para servir suas paixões. A mão toda poderosa que submete os Elementos o destruirá como a um frágil graveto.

Uma eternidade de tormentos mal poderá expiar o seu crime.

Os espíritos infernais rirão com desdém das lágrimas do ser cuja voz ameaçadora os fez freqüentem ente tremer no fundo dos seus abismos de fogo.

Não é por ti, Philochale, que esboço esta cena assustadora - o amigo da humanidade jamais será seu perseguidor...., mas a Indiscrição, meu filho, essa necessidade imperiosa de inspirar espanto e admiração, eis o precipício que eu receio por ti. Deus deixa aos homens a tarefa de punir o ministro imprudente que permite ao olho profano penetrar no santuário misterioso.

Ó Philochale, que minhas desventuras estejam sempre presentes em teu espírito. E eu também conheci a bondade. Coberto de bênçãos dos céus, cercado de um poder tal que o entendimento humano não pode conceber, comandando os gênios que dirigem o mundo, feliz pela bondade que eu fazia nascer,

desfrutei, no seio de uma família adorada, a felicidade que o Eterno' presenteia aos seus filhos queridos. Um instante destruiu tudo, eu falei, e tudo se desfez como uma nuvem.

Ó, meu filho, não sigas os meus rastros... Que um vão desejo de brilhar aos olhos do mundo não cause também tua ruína. Pensa em mim, é dentro de um cárcere, com o corpo marcado pelas torturas, que teu amigo te escreve.

Philochale, reflete que a mão que traça estas letras leva a marca dos ferros que a oprimem... Deus me puniu. Mas, o que fiz eu aos homens cruéis que me perseguem? Que direito têm eles de interrogar o ministro do Eterno? Eles me perguntam quais são as provas de minha missão. Meus testemunhos são os meus prodígios. Meus defensores: minhas virtudes, uma vida intacta, um coração puro. Que digo eu, tenho ainda o direito de me queixar? Eu falei. O Altíssimo me deixou sem força e sem poder, à mercê dos furores do avaro fanatismo. O braço que outrora podia conter um exército, hoje mal pode levantar as correntes que o oprimem.

Eu me perdi. Devo render graças à Eterna Justiça... o Deus vingador perdoou seu filho arrependido. Um espírito Aéreo atravessou as paredes que me separam do mundo resplandecente de luz. Ele se apresentou diante de mim, fixou o término do meu cativeiro. Dentro de dois anos, meus infortúnios findarão. Meus carrascos, ao entrar em meu cárcere, o acharão vazio. E logo, purificado pelos quatro elementos, puro como o gênio do fogo, eu recuperarei o lugar glorioso para onde a bondade divina me elevou. Mas, o quanto este final ainda está longínquo!

Quão longos parecem dois anos para aquele que os passa em sofrimentos, em humilhações! Não contentes de me fazerem sofrer os suplícios mais horríveis, meus perseguidores empregaram para me atormentar os meios mais sórdidos, mais odiosos ainda. Eles chamaram a infâmia sobre minha cabeça. Eles fizeram de meu nome um objeto de escárnio. Os filhos dos homens recuam com pavor quando o acaso os faz aproximarem­se das paredes da minha prisão. Eles crêem que um vapor mortal escape pela abertura estreita, que deixa passar, como um lamento, um raio de luz em minha cela. Ó Philochale! É o golpe mais cruel que eles podiam desferir em mim...

Ignoro ainda se poderei enviar-te esta obra... Julgo as dificuldades que enfrentarei para fazê-la sair deste lugar de tormentos, e o que devo vencer para terminá-la. Privado de todo auxílio, compus eu mesmo os elementos que me são necessários. O fogo de minha lâmpada, algumas moedas e um pouco de substâncias químicas, escondidas aos olhares perscrutadores de meus carrascos, produziram cores que ornam este fruto dos lazeres de um prisioneiro.

. Aproveita as lições de teu infortunado amigo, elas são tão claras, que existe o perigo de que este escrito caia em outras mãos que não as suas... Lembra-te somente que tudo deve te servir. Uma linha mal explicada, uma letra esquecida, te impediriam de levantar o véu que a mão do Criador pousou sobre a Esfinge.

Adeus, Philochale. Não me lamentes. A Clemência do Eterno iguala sua justiça. À primeira assembléia misteriosa reverás teu amigo. Eu te saúdo em Deus. Em breve darei o beijo da paz em meu irmão.



SEÇÃO II
Era noite, a lua coberta pelas nuvens sombrias não lançava mais que um clarão incerto sobre os blocos de lava que envolviam a Solfatara1. A cabeça coberta com um véu de linho, tendo em minhas mãos o ramo de ouro, avancei sem medo para o lugar onde recebia ordem de passar a noite. Errando sobre uma areia quente, senti-a, a cada instante, ceder sob meus passos. As nuvens acumulavam-se sobre minha cabeça. O relâmpago rasgava o vazio e dava uma cor de sangue às chamas do vulcão...

Enfim eu chego, encontro um altar de ferro, aí deposito o ramo misterioso... pronuncio as palavras temíveis... No mesmo instante, a terra treme sob meus pés, o trovão eclode... os bramidos do Vesúvio respondem aos seus golpes redobrados. Seus fogos se juntam aos fogos do raio... Os coros dos gênios se elevam nos ares e fazem repetir em ecos os louvores do Criador... O ramo consagrado que eu coloquei sobre o altar triangular se inflama imediatamente e, logo, uma espessa fumaça me envolve. Eu cesso de ver. Mergulhado em trevas, acredito descer a um abismo. Ignoro quanto tempo estive nessa situação mas, abrindo os olhos, procurei em vão pelos objetos que há pouco tempo estiveram ao meu redor. O altar, o Vesúvio, o campo de Nápoles ficaram longe de meus olhos, eu estava em um vasto subterrâneo, só, isolado do mundo inteiro... Perto de mim estava uma veste longa, branca. Seu tecido fino pareceu-me composto de fios de linho. Sobre uma pedra de granito estava uma lâmpada de cobre; embaixo, uma mesa negra, gravada com caracteres gregos, me indicava a rota que eu devia seguir.


1 Solfatara: cratera de vulcão em estágio senil, que expele gás sulfídrico ou vapores de enxôfre.

Peguei a lâmpada e, depois de vestir a roupa, entrei numa passagem estreita, cujas paredes eram revesti das de mármore negro... Tinha três milhas de extensão. Meus passos ressoavam de maneira espantosa sob as abóbadas silenciosas. Enfim encontrei uma porta; ela conduzia a degraus, eu os desci. Depois de andar muito tempo, acreditei ver um clarão errante à minha frente e tampei a lâmpada. Fixei os olhos sobre o objeto que eu entrevia; ele se dissipou, se esvaiu, como uma sombra.

Sem censuras pelo passado, sem medo pelo futuro, continuei avançando. O caminho se tornava cada vez mais penoso... sempre confinado nas galerias de pedra negra... eu não ousava prever o término de minha viagem subterrânea. Enfim, depois de uma caminhada imensa, cheguei a um recinto quadrado. Uma porta se abria no meio de cada uma de suas quatro faces; elas eram de cores diferentes e cada uma situada em um dos quatro pontos cardeais. Entrei por aquela do Setentrião: era negra. A que estava à minha frente era vermelha, a porta do Oriente era azul, a que lhe estava oposta era de uma brancura ofuscante. No centro desta sala, havia uma pedra quadrada, uma estrela de cristal brilhava em seu centro. Via-se uma pintura sobre a face setentrional; representava uma mulher nua até a cintura, uma saia preta lhe caía sobre os joelhos, duas fitas de prata ornavam sua vestimenta. Em sua mão havia uma varinha. Ela a pousava sobre a fronte de um homem colocado à sua frente. Uma mesa apoiada num único pé estava entre eles; sobre a mesa estavam uma taça e uma ponta de lança. Uma chama tênue se elevava da terra e parecia dirigir-se ao homem. Uma inscrição explicava o significado dessa pintura; outra indicava os meios que eu devia empregar para sair da sala.

. Desejei me retirar depois de olhar o quadro e a estrela. Eu Ia entrar pela porta vermelha, quando esta, girando sobre seus gonzos com um barulho espantoso, se fechou diante de mim. Tentei o mesmo com aquela que tinha a cor do céu, ela não se fechou, mas um ruído repentino me fez voltar a cabeça. Vi a estrela se agitar; ela se deslocou, revolveu e se lançou rapidamente pela abertura da porta branca. Eu a segui imediatamente.



  1. SEÇÃO III

Um vento impetuoso se elevou, me custava manter minha lâmpada acesa. Enfim, uma plataforma de mármore branco se ofereceu à minha vista; subi até ela por nove degraus. Chegado ao último, divisei uma imensa extensão de água. À minha direita se faziam ouvir torrentes impetuosas. À minha esquerda, uma chuva fria misturada a pedaços de granizo caía perto de mim. Eu contemplava esta cena majestosa, quando a estrela que me havia guiado até a plataforma e que se balançava lentamente sobre a minha cabeça, lançou-se ao abismo. Acreditei ler as ordens do Altíssimo. Eu me precipitei ao meio das ondas.

Uma mão invisível pegou minha lâmpada e a colocou no alto de minha cabeça. Abri com o peito a onda espumosa, esforçando-me para chegar ao ponto oposto àquele de onde parti. Enfim vi no horizonte uma fraca claridade e me apressei; eu estava em meio das águas e o suor cobria meu rosto, eu me esgotava em vãos esforços. A margem que mal podia enxergar afastava­se diante de mim à medida que eu avançava. Minhas forças me abandonavam, eu não temia a morte, e sim morrer sem ser iluminado... Perdi a coragem e, levantando para o firmamento meus olhos banhados em lágrimas, exclamei: Pronuncia minha sentença e me redime. Pela tua palavra vivifica-me. Ondica judicium meum et redime me; propter eloquium tuum, vivifica me).

Mal podendo agitar meus membros fatigados, eu afundava cada vez mais, quando percebi um barco perto de mim. Um homem coberto de ricas vestes o conduzia. Reparei que a proa estava voltada para a margem que eu havia deixado. Ele se aproxima, uma coroa de ouro brilha em sua fronte: Venha comigo, disse-me ele, que eu, o príncipe da terra, te mostre aqui o caminho da evolução (ou: Venha comigo, que meus princípios da terra mostrem-te o caminho pelo qual deves evoluir). (Vade me cum, mecum principium in terris, instruam-te in via hac quâ gradueris).

Eu lhe respondi no mesmo instante: E melhor esperar no senhor do que confiar nos príncipes. (Bonum est sperare in domino quam confidere in principibus).

Num instante, o barco e o monarca desapareceram no rio. Uma força nova pareceu correr em minhas veias: consegui alcançar o alvo dos meus esforços. Encontrei-me numa praia coberta de areia verde. Um muro de prata estava diante de mim. Duas lápides de mármore vermelho estavam incrustadas em sua estrutura. Eu me aproximei... uma delas estava gravada com caracteres sagrados, sobre a outra estava gravada uma linha de letras gregas; entre as duas lápides havia um círculo de ferro. Dois leões, um vermelho, outro negro, repousavam sobre nuvens e pareciam guardar uma coroa de ouro colocada acima deles. Via-se ainda perto do círculo um arco e duas flechas. Li alguns caracteres escritos sobre os flancos de um dos leões. Mal havia observado esses diferentes emblemas quando eles desapareceram junto com a muralha que os continha.



SEÇÃO IV
Em seu lugar, um lago de fogo se apresentou à minha frente. O enxofre e o betume rolavam suas ondas inflamadas. Eu tremi. Uma voz trovejante me ordenou atravessar essas chamas. Eu obedeci e as chamas pareceram ter perdido sua atividade. Por muito tempo caminhei no meio do incêndio. Chegado a um espaço circular, contemplei o pomposo espetáculo que a bondade do céu se dignou me fazer desfrutar.

Quarenta colunas de fogo decoravam a sala onde eu me encontrava. Um lado das colunas brilhava com um fogo branco e vivo. O outro permanecia na sombra e uma chama escura o cobria.

No centro desse lugar se elevava um altar em forma de serpente. Um ouro esverdeado enfeitava suas escamas matizadas, sobre as quais se refletiam as chamas que a cercavam. Seus olhos pareciam rubis. Havia uma inscrição prateada perto dela. Uma rica espada estava cravada na terra ao lado da serpente. Uma taça repousava sobre sua cabeça.

Ouvi o coro dos espíritos celestes e uma voz me disse: "o término dos teus trabalhos se aproxima. Toma a espada e golpeia a serpente." Tirei a espada de sua bainha e me aproximei do altar. Peguei a taça com uma mão e com a outra desferi um terrível golpe no pescoço da serpente. A espada ricocheteou, o golpe ressoou como se eu tivesse atingido um sino de bronze. Mal tinha obedecido a voz, quando o altar desapareceu. As colunas perderam-se na imensidão. O som que eu tinha ouvido ao atingir o altar se repetia como se mil golpes estivessem sendo desferidos ao mesmo tempo. Uma mão me agarrou pelos cabelos e me elevou até o teto: este se abriu para me dar passagem. Diferentes fantasmas se apresentaram diante de mim: as Hidras, as Lamies me cercaram de serpentes. A visão da espada que eu tinha na mão afugentou essa multidão imunda, como os primeiros raios do dia dissipam os sonhos, frágeis filhos da noite.

Depois de subir numa linha perpendicular através das diferentes camadas que compõem as paredes do globo, eu revi a luz do dia.

SEÇÃO V
Mal retomei à superfície da terra, quando meu guia invisível me arrastou mais depressa ainda. A velocidade com a qual percorremos os espaços aéreos só é comparável a ela mesma. Num instante perdi de vista os planos sobre os quais eu dominava. Observei admirado que saí do seio da terra, longe dos campos de Nápoles. Uma planície deserta e algumas massas triangulares eram os únicos objetos que eu conseguia perceber. Em breve, malgrado as provas que padeci, um novo terror veio me assaltar. A Terra não me parecia mais do que uma nuvem confusa. Eu fora alçado a uma altura imensa. Meu guia invisível me abandonou. Tornei a descer por um tempo bastante longo, eu rolava no espaço, a terra já se aproximava de meus olhos turvos... Eu pude calcular quantos minutos se passariam antes de me estatelar contra um rochedo.

Em seguida, rápido como um pensamento, meu guia se precipita à minha frente, agarra-me e me eleva outra vez. Ele me deixa cair novamente, enfim, eleva-me consigo a uma distância incomensurável. Eu via os globos girarem ao meu redor, as terras gravitarem aos meus pés.

De repente, o gênio que me levava me tocou os olhos e perdi os sentidos. Ignoro quanto tempo passei nesse estado.

Quando voltei a mim, encontrei-me deitado sobre um rico leito; flores e aromas perfumavam o ar que eu respirava. Uma veste azul, semeada de estrelas de ouro, havia substituído a veste de linho. À minha frente havia um altar amarelo. Um fogo puro exalava dele, sem que nenhuma outra substância, que não o próprio altar, o alimentasse. Caracteres negros estavam gravados em sua base. Junto havia um círio aceso que brilhava como o sol. Abaixo havia um pássaro cujos pés eram negros, o corpo de prata, a cabeça vermelha, as asas negras e o pescoço de ouro. Ele se agitava sem parar, mas sem fazer uso das asas. Ele só podia voar quando se encontrava no meio das chamas. No seu bico havia um ramo verde, seu nome é Hâkim (sábio)





e o nome do altar é Hallah (caldeirão).





O altar, o pássaro e o círio são os símbolos de tudo. Nada pode ser feito sem eles, que são tudo o que é bom e grande.

O círio se chama Majûsi (mazdeano-alusão ao culto do fogo).





Quatro inscrições cercavam esses diferentes emblemas.







    1. SEÇÃO VI

Eu me virei e percebi um palácio imenso. Sua base repousava sobre nuvens. Mármores compunham-lhe a estrutura e sua forma era triangular. Quatro andares de colunas se elevavam uns sobre os outros. Uma bola de cristal; rematava esse edifício. A primeira fileira de colunas era branca, a segunda negra, a terceira verde, a última, de um vermelho brilhante.



Depois de admirar essa obra dos artistas eternos, desejei' retomar ao lugar onde estavam o altar, o pássaro e o círio, pois queria observá-los mais. Eles tinham desaparecido. Procurava­ os com os olhos, quando as portas do palácio se abriram. Delas saiu um ancião venerável. Sua roupa era semelhante à minha, exceto que um sol dourado brilhava sobre seu peito. Sua mão direita segurava um ramo verde, a outra carregava um incensório. Uma corrente de madeira estava presa ao seu pescoço; uma tiara pontiaguda como a de Zoroastro cobria sua cabeça branca. Ele se aproximou de mim, o sorriso da benevolência se mostrava em seus lábios: "Adora Deus," disse-me em língua persa, "foi Ele que te susteve durante as provas, seu espírito está contigo. Meu filho, tu deixaste passar a oportunidade, podias num instante pegar o pássaro Hakim,






o círio Majûsi,





e o altar Hallâj



tu voltarás, a seu tempo, ao Altar, Pássaro e Círio. É preciso agora, para alcançar o lugar mais secreto do Palácio das ciências sublimes, que tu percorras todos os desvios, vem... devo primeiro apresentar-te aos meus irmãos." Pegou-me pela mão e me introduziu numa vasta sala.



Os olhos vulgares não podem conceber a forma e a riqueza dos ornamentos que a enfeitavam. Trezentas e sessenta colunas a cercavam de todos os lados. No teto havia uma cruz vermelha, branca, azul e negra, sustentada por uma argola de ouro. No centro da sala havia um altar triangular composto pelos quatro elementos; sobre seus três ângulos estavam pousados o pássaro, o altar e o círio. "Eles trocaram de nome", disse-me meu guia "aqui se chamam: o pássaro - Aspirna (advérbio, significa diligentemente),





o altar - Kahena (padre, forma caldéia),





e o círio-Nephrith (?).





A sala é chamada Hajalah (câmara nupcial),






o altar triangular - Athanor.




Em volta do altar estavam dispostos oitenta e um tronos, subia-se a cada um por nove degraus de altura desigual, cobriam­nos tapetes vermelhos.

Enquanto eu examinava os tronos, fez-se ouvir o som de uma trombeta. A este ruído as portas da sala Hajalah



se abriram para deixar passar setenta e nove pessoas, todas vestidas como o meu guia. Eles se aproximaram lentamente e sentaram-se sobre os tronos. Meu guia se pôs de pé ao meu lado. Um ancião que se distinguia de seus irmãos por um manto púrpura, cujas bordas eram gravadas por caracteres bordados, se levantou, e meu guia tomou a palavra em língua sagrada:

"Eis", disse ele, "um dos nossos filhos que Deus quer que seja tão grande quanto seus pais". "Que a vontade do Senhor seja cumprida", respondeu o ancião. "Meu filho," acrescentou ele, dirigindo-se a mim, "teu tempo de provas físicas terminou... Resta-te fazer grandes viagens. De hoje em diante te chamarás EI Taâm (o alimento?).




Antes de percorrer este edifício, eu e oito de meus irmãos

vamos te fazer, cada um, um presente".

Ele veio a mim e me deu, com um beijo da paz, um cubo de

terra cinza. Chamam-no Human (cinzas ou lava de vulcão).





o segundo, três cilindros de pedra negra, chamada Qenka (teu ninho).




o terceiro, um pedaço de cristal arredondado que se chama - (caracteres desconhecidos, talvez sírios).






o quarto, um penacho de penas azuis chamado Ashqushaq (?).



o quinto presenteou um vaso de prata que tem o nome de Geshem (chuva ou corpo).





o sexto, um cacho de uva, conhecido entre os sábios com o nome de Mara-resha, (a primeira palavra significa amargura, a segunda é uma forma caldéia rasch, talvez cabeça).


o sétimo me presenteou uma figura de pássaro semelhante à forma Evei (a palavra hebraica lEVE, escrita no sentido inverso) ,






mas sem suas cores brilhantes, era de prata; "Ele tem o mesmo nome," disse-me ele, "cabe a ti dar-lhe as mesmas virtudes". O oitavo me deu um pequeno altar lembrando também o altar Nephrith.



Finalmente, meu guia me colocou na mão um círio composto como Marah,


de partículas brilhantes, mas estava apagado: "Cabe a ti”, acrescentou ele, como os que o precederam, "dar-lhe as mesmas virtudes" .

"Reflete sobre estas dádivas" disse-me, em seguida, o chefe dos sábios, "todos tendem igualmente à perfeição, mas nenhum é perfeito por si mesmo. E de seu conjunto que deve sair a obra divina. Sabe ainda que todos são nulos, se não forem empregados segundo a ordem na qual te foram dados. O segundo, que serve para utilizar o primeiro, não será mais que uma matéria bruta, sem calor, sem utilidade, sem o auxílio daquele que o segue. Guarda cuidadosamente os presentes que recebeste e começa tuas viagens depois de ter bebido na taça da vida".

Ele me apresentou numa taça de cristal, um licor brilhante e açafranado. Seu gosto era delicioso, um perfume esquisito exalava dele. Eu quis devolver a taça depois de molhar meus lábios no licor. "Acaba," disse-me o ancião "essa bebida será o único alimento que tomarás durante o tempo de tuas viagens". Obedeci e senti um fogo divino percorrer todas as fibras do meu corpo. Eu estava mais forte, mais corajoso, minhas faculdades intelectuais pareciam redobradas.

Apressei-me a saudar com a saudação dos sábios a ilustre assembléia que iria deixar e, sob as ordens do meu guia, introduzi­me numa longa galeria que se encontrava à minha direita

SEÇÃO VII
A entrada dessa galeria estava colocada uma vasilha de aço. Ao me aproximar, ela se encheu de uma água pura como cristal, que vinha se purificar sobre uma areia branca e fina. A vasilha era oval e se apoiava sobre três pés de bronze. Uma lâmina negra incrustada sobre o lado que dava para a porta continha alguns caracteres. Perto da vasilha havia um véu de linho, abaixo dela, duas colunas de mármore verde sustentavam uma placa arredondada de mármore. Via-se nela, cercada por duas inscrições, a figura do selo sagrado, formado de uma cruz de quatro cores, afixada a uma faixa de ouro que sustinha (H) dois outros círculos concêntricos, o maior, negro, o outro vermelho. A uma das colunas estava afixado um machado de prata cujo cabo era azul. Ele se chama "qualqanthûm", (calcantha, nome que os antigos davam ao sulfato de cobre).




Depois de ler as inscrições, aproximei-me da vasilha e aí me lavei, começando pelas mãos; terminei mergulhando por inteiro.

Aí fiquei três dias. Ao sair da água, percebi que ela havia perdido sua transparência: sua areia ficou acinzentada. Partículas cor de ferrugem se agitavam no líquido. Quis me enxugar com o auxílio do véu de linho mas novas gotas de água substituíam sem cessar aquelas que o linho enxugava.



H Dois círculos que rodeiam
Desisti de me enxugar com o véu e, colocando-me na sombra, fiquei imóvel durante seis dias inteiros.

Ao final desse tempo, a fonte dessas águas secou. Encontrei-­me seco e mais lépido, uma vez que minhas forças me pareceram aumentadas. Depois de passear algum tempo, voltei à vasilha. A água que ela continha havia desaparecido. Em seu lugar havia um licor rosado e a areia estava cinza e metálica.

Banhei-me novamente nela, cuidando no entanto de não ficar ali mais do que alguns instantes. Ao me retirar, notei que eu havia absorvido uma parte do líquido. Desta vez não tentei secar no linho o licor que me impregnava, pois ele o destruiria num instante de tanto que era forte e corrosivo.

Fui ao outro extremo da galeria e deitei-me num leito de areia quente. Ali passei sete dias. Ao final desse tempo, voltei à vasilha. A água estava semelhante à primeira. Mergulhei nela e saí depois de ter me lavado com cuidado. Desta vez consegui me enxugar sem aflição. Enfim, depois de ter me purificado, segundo as instruções que havia recebido, dispus-me a sair dessa galeria após um período de permanência de dezesseis dias.





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