A religiosidade popular é um dos te



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Jornal A Tarde, sexta-feira, 25/10/1985

Assunto:


FÉ E RELIGIÃO “POPULAR”

A religiosidade popular é um dos temas, compreensivelmente preocupantes da História, da Sociologia e da pastoral da Igreja no Brasil atual. A literatura a respeito é numerosa e vária em suas colocações e interpretações. As cartas pastorais antigas já se ocupavam do assunto, contrastando essa expressão da fé com os preceitos e as normas prescritas pela Sé de São Paulo, isto é, pela Santa Sé e pela tradição. Não falta literatura a respeito também nas revistas eclesiásticas e de Teologia, bem como nos ensaios de analistas láicos. Uma das dificuldades de lidar com a matéria tem caráter semântico: recordo a posição tomada, muitos anos atrás, pelo arcebispo da Bahia, D. Augusto Álvaro da Silva, distinguindo religião de religiosidade. Talvez nenhum outro prelado haja feito caracterização mais precisa dos dois conceitos como eram vistos de dentro da Igreja; tive ocasião de aproveitar seu modo de pensar numa das notas a meu livro O Catolicismo no Brasil (1955): “Se, para sermos justos, quiséssemos definir o espírito religioso de nosso povo, teríamos que confessar: religiosidade, muita; religião, muito menos do que parece. Mas, religiosidade e religião são coisas muito diferentes. Não é religião, está claro, esse sentimentalismo inato, esse pendor natural, pronunciado para coisas misteriosas, essa tendência evidenciada em nossa gente para o desconhecido, mas tudo inteiramente estéril e vão. A religião verdadeira importa num conhecimento esclarecido, numa consciência formada, numa prática inteligente, respeitosa, constante de tudo que forma a verdadeira “religião católica”. E Interroga: “Onde está esse conhecimento? Onde está a consciência formada e firmada? Onde está a prática fervorosa, constante, desassombrada e prudente do verdadeiro catolicismo? Eis porque, mais do que nunca, precisamos de, pelo mais oportuno e eficiente dos meios, reorganizar, intensificar e aperfeiçoar a formação religiosa do nosso rebanho”. Outros têm escrito sobre “a religião verdadeira” do nosso povo, do povo nordestino, conceituando-a de determinado ponto de abordagem, sempre a distinguir diferentes expressões da vivência da fé.

A religiosidade é hoje, como vocábulo descritivo, tomada como a forma, o caráter, a manifestação observável da religião. Aí se considera para quaisquer fins, sejam pastorais e teológicos, sejam historiográficos e sócio-antropológicos, como religiosidade a maneira como se apresenta a concretização pessoal e social da crença que incorpora a religião, isto é, a doutrina e os preceitos. Isto se verifica, por sinal, em relação ao catolicismo como a todo cristianismo, ao islamismo, ao budismo. No mundo católico, a distinção é inevitável e importa até em conceituar a legitimidade, a autenticidade, a fidelidade de cada expressão encontrada. O extraordinário mestre da Sociologia e do folclore, que é Câmara Cascudo, coloca-se no particular de um modo muito apropriado. Ao invés do falar de religião “do” povo, escreve Religião no povo (1974), procurando comunicar o que observa dos modos de ser religioso e católico do brasileiro, sobretudo no Nordeste. E não confunde “religiosidade popular” com a “Igreja Popular” criada pela imaginação distorcida de uns poucos teólogos...



Para os objetivos da hodierna pastor não é pertinente menosprezar a religiosidade do povo, desde quando a mesma se insere no espírito, na formação, na existência e vivência da fé cristã ensinada e pregada pela Igreja. Esta, aliás, nunca excluiu a chamada religião popular de suas cogitações e de seus planos de ação desde quando constitui o principal da vivência de nossa gente. A tal ponto isto se verifica que, é dos estratos da sociedade dominados por esse modo de ser católico que vem, tradicionalmente, a maioria das vocações sacerdotais e das manifestações de fé com as procissões, as festas, as celebrações litúrgicas das massas e a cultura nacional sob o ângulo espiritual. Por certa influência européia, desde alguns anos adotou a Igreja no Brasil instituir cursos de esclarecimento sobre batismo, o matrimônio, a confirmação ou crisma, como para suprir certas características da religiosidade popular que não tinham em suficiente conta o significado dos sacramentos, desde quando na generalidade do povo os sacramentos não eram considerados meios necessários da graça e da santificação. Mas as conferências do episcopado latino-americano em Puebla, em Medellín, vieram a tornar em merecida conta a religiosidade popular, vendo nela genuínas demonstrações da crença e da fé da gente deste continente, no Brasil e nos outros países desta parte da América. Somente alguns puristas, menos cônscios de nossas realidades, rejeitam in limine, como não-genuínas as práticas e até as idéias correntes, independente de classes sociais, em matéria de religião. Se bem que não seja aceitável o principio de que o válido é a religião arbitrariamente concebida pelo povo com abstração do magistério da Igreja. O certo e correto é tomar em consideração o popular, não em contraste, mas com extensão do erudito, do formal, do oficial, do canônico e agir em conseqüência, sempre no intento de dar à vivência “popular” o suficiente de genuíno e de fiel ao depósito da fé inculcada pela Igreja, Mater et Magistra, mãe e mestra. A posição do nosso D. Avelar é notoriamente essa, evidenciada em sua pregação, em suas atitudes, em sua “Oração Dominical”, em seus programas pastorais; ele não extrema, não opõe uma modalidade à outra, muito menos um estrato da população ao que incorpora e vive as normas e os preceitos mais diretamente emanados da cátedra pontifícia e o faz sem desviar-se da fidelidade ao ensino e à inspiração da Igreja de que é pastor e vigilante guia entre nós.



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