A relação de Monteiro Lobato com os livros



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LOBATO E A PRODUÇÃO DE LIVROS INFANTIS


Thaís de Mattos Albieri -CNPq – Unicamp


Ando com idéias de entrar por esse caminho.

Livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei.

Bichos sem graça. Mas para criança, um livro é todo um mundo.” (M.L)
Lobato constrói sua relação com os livros de duas formas: escrevendo e editando livros. Nos estudos que se desenvolvem sobre a obra lobatiana, dificilmente vemos separadas as figuras do editor e do escritor; isto se dá, sobretudo, no período que compreende as décadas de 20 e 30.

Para a apresentação no 2º COHILILE, resolvi limitar-me ao universo dos livros infantis de Lobato – mais especificamente Reinações de Narizinho e Emília no país da Gramática, como estes foram escritos, editados e divulgados no Brasil.

A década de 1920 é muito promissora na vida editorial lobatiana; associado a Octalles Marcondes Ferreira, fundou a Monteiro Lobato & Cia, editora de grande importância no cenário nacional da época, porque fazia livros baratos, porém de qualidade, e editava autores pouco conhecidos nas rodas literárias. O pequeno conto “A história do peixinho que morreu afogado” abriu precedentes para que Lobato revivesse histórias de sua infância na roça e criasse personagens e ambiente que o remetessem a pessoas como a “mulata Joaquina, com quem ia pescar lambaris no Ribeirão; da primeira entrada na floresta em companhia do pai; das brincadeiras com as irmãzinhas; das histórias contadas por Evaristo. As cenas foram surgindo à tona da memória, e quando deu acordo de si, redigia as primeiras linhas da famosa história:

Naquela casinha branca, lá muito longe, mora D. Benta de Oliveira, uma velha de mais de sessenta anos”

Por que velha? Por que Benta?

Velha, porque se iam entrar crianças, era preciso botar uma velha, uma vovó, pois só as vovós aturam crianças e deixam-nas fazer o que querem. E Benta, por que? Num colégio em que estivera em Taubaté, havia um rapaz de nome Pedro de Castro, que às vezes contava histórias de sua avó Benta, lá de Macaé. E o conto foi brotando, ao sabor da fantasia, um pedaço hoje, outro amanhã, os intervalos que, no escritório, lhe deixavam as partidas de xadrez (...)1


Com estas personagens e situações criadas, sai o livro A menina do Narizinho Arrebitado, com capa ilustrada, 43 páginas, muitos desenhos coloridos de Voltolino e a opinião de Menotti del Picchia, publicada no jornal Correio Paulistano, de 23/12/1920:

Um belo presente de Natal de 1920 para esses milhões de serezinhos que ainda acreditam em sortilégios e fadas.

Senhor de um mágico estilo, feito para deslumbrar adultos, soube – e nisto está o grande elogio da sua obra – criar uma linguagem comovida e simples para, com ela nivelado em nossos pequerruchos, falar à ingênua imaginação das crianças.2
A aprovação de Menotti Del Picchia é interessante de ser analisada, pois mais tarde, por volta de 1930, vai compartilhar com Lobato deste universo infantil, escrevendo uma obra para crianças, intitulada Viagens de João Peralta e Pé-de-Moleque.

A saga de Narizinho e as ilustrações de Voltolino continuam na Revista do Brasil, nos meses de janeiro e fevereiro de 1921. Na introdução do primeiro fragmento, o periódico apresenta:

A nossa literatura tem sido, com poucas exceções, pobríssima de arte, e cheia de artifício, - fria, desengraçada, pretensiosa. Ler algumas páginas de certos “livros de leitura” equivale, para rapazinhos espertos, a uma vacina preventiva contra os livros futuros. Esvai-se o desejo de procurar emoções em letra de fôrma; contrai-se o horror do impresso...

Felizmente esboça-se uma reação salutar. Puros homens de letras voltam-se para o gênero, tão nobre, porventura mais nobre do que qualquer outro. Entre esses figura Monteiro Lobato, que publicou em lindo álbum ilustrado o conto da “Menina do narizinho arrebitado”, e agora o vai ampliando de novos episódios3.


Faz-se interessante, ainda, perceber como se deu a produção do que se conhece atualmente por Reinações de Narizinho: primeiro o texto sai em livro, no final de 1920 com o título A menina do narizinho arrebitado, depois sai em episódios (como continuação do livro publicado em 20), na Revista do Brasil, em 1921. Alguns dos episódios publicados na revista saíram sob o título Lúcia ou a menina do narizinho arrebitado. Neste ínterim, Lobato continuou publicando livros com pequenos contos, que reunidos, resultaram, definitivamente, em 1931, em um volume intitulado Reinações de Narizinho.

Monteiro Lobato vê, ainda, a possibilidade de expandir o mercado, penetrando num universo mais específico: o da escola. Numa carta ao amigo e professor Godofredo Rangel, Lobato pede que o livro seja “testado” em algumas crianças.



Narizinho arrebitado é aprovado pelo governo de São Paulo para uso em escolas públicas. E em 1921 sai edição de 50.500 exemplares com as ilustrações de Voltolino e 181 páginas. A preocupação de Lobato com o fato de que as pessoas liam pouco fez com que tentasse ganhar o público fora do ambiente escolar. Lobato não só criou a mercadoria livro, como maneiras para que esta produção circulasse. O texto abaixo, retirado de uma entrevista dada à revista Leitura, em 1943, aborda a questão da falta de um mercado que permitisse a circulação de livros, tanto dos que vinham do exterior, quanto daqueles que já eram produzidos no Brasil, inclusive pela editora de Lobato.
A primeira dificuldade que encontramos foi essa: o Brasil queria ler, mas faltava quem lhe vendesse os livros. Que adianta escrever para não ser lido?(...) Após o lançamento das nossas primeiras edições, verificamos que em todo esse vasto e cantado território, não havia mais de oitenta livrarias...Livrarias? melhor dito, tipografias que vendiam alguns livros. Incrível! Como fazer circular o livro, sem pelo menos, uma porta que o exibia? (...) Redigi uma circular que mandei remeter aos endereços de pessoas conhecidas ou do prefeito de cada localidade. Essa circular dizia mais ou menos: pedimos o favor de indicar-nos um livreiro, ou um vendeiro ou um açougueiro, qualquer pessoa honesta estabelecida que possua no mínimo uma porta onde expor a mercadoria que pretendemos oferecer-lhe.(...) O conteúdo não interessa ao senhor que vai vender, e sim, ao seu cliente, o qual dele tomará conhecimento através das nossas explicações nos catálogos, prefácios, etc. Negócio da China!

Recebemos inúmeras respostas, fomos fazendo nossos fichários. Criamos novas possibilidades antes nem sonhadas. E foi indo. E o negócio de livros prosperou4 (...).


A partir desta declaração, podemos conceber Lobato também como uma espécie de divulgador, pois tentava difundir seus livros nos mais diferentes lugares, fossem eles, contracapas de livros, jornais revistas, embalagens de remédios, açougues... Isto nos remete à pluralidade de figuras presentes em Monteiro Lobato, já que, como vimos, ele acumula as funções de editor, escritor e divulgador dos seus livros, enquanto objetos dotados de materialidade e muito prezados pelo autor. Pensando ainda nesta materialidade, é importante destacar os diferentes tipos de “materialização” pelos quais passa o texto “Reinações de Narizinho”, até ser apresentado tal como o conhecemos hoje. Como dito anteriormente, a primeira versão do texto saiu em livro, depois em revista, e por fim, retorna a ser produzido em livro. Este movimento também nos conduz à idéia da divulgação de textos em diferentes locais, mantendo, sobretudo, a circulação deles em diversos meios, para públicos diversos.

O texto abaixo é a carta circular de que falou Lobato na entrevista. O anúncio é divertido, com linguagem irônica e convincente:

V.S tem seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será seu lucro. Quer também vender uma coisa chamada livro? V.S não precisa interar-se do que esta coisa é. Trata-se de um artigo como qualquer outro, batata, querosene ou bacalhau. E como V.S receberá este artigo em consignação não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais “livros”, terá uma comissão de 30%, e se não vendê-los, no-los devolverá pelo correio, com o porte pago por nossa conta. Responda se topa ou não topa.5
Lobato fez serviços de editor, escritor e divulgador de exemplares, pois acreditava que a modernização do Brasil se faria, entre outras coisas, pela distribuição e comercialização, em larga escala, de livros.

Como vimos, os primeiros anos da década de 1920 são extremamente promissores no que tange à produção de literatura infantil nacional escrita por Lobato; o autor ainda publica por sua editora alguns clássicos estrangeiros adaptados à realidade das crianças brasileiras; Robinson Crusoé e Alice no país das Maravilhas são exemplo disso.6

Diante destes fatos, Lobato apega-se ao trabalho de tradutor e ao desenvolvimento mais sistemático de histórias para o público infanto juvenil. Os objetivos das obras para crianças ainda são os mesmos de outrora: um livro barato e de qualidade, acessível a todas as camadas da população. É neste contexto que a obra voltada para a escola ganha força; Emília no país da Gramática é um exemplo deste tipo de trabalho que a partir de 1931 (quando retorna dos Estados Unidos) Monteiro Lobato começa a desenvolver.

Especifiquemos mais do que se trata o tipo de trabalho voltado para a escola; Lobato percebera, já quando lançara Narizinho Arrebitado, que a escola era um “bom filão” do mercado. Como se sabe, Lobato manda distribuir gratuitamente 500 exemplares para todos os grupos e escolas públicas da cidade de São Paulo. O “interesse às crianças” de que falou Lobato surtiu tanto efeito, que 30 mil exemplares foram comprados por Washington Luís, então governador de São Paulo em 1921, e distribuídos nas escolas, de modo que nenhum estudante da época ficou sem a companhia de Narizinho (e sua turma), das ilustrações de Voltolino e das aventuras escritas por Lobato.

No início da década de 20 ainda possuía sua editora e tentava estabelecer um nome na literatura infantil, já que “estava condenado a ser o Andersen desta terra, e já que a escola o tinha adotado em Narizinho Arrebitado, por que não adotar outros títulos lobatianos, que se preocupassem em desenvolver nas pequeninas cabeças pensantes da época um gosto por temas escolares associando-os a aventuras e personagens já conhecidas?

Foi isso que Lobato fez em Emília no país da Gramática, publicado em 1934: levou Emília e a turma do sítio ao país da Gramática para dar uma aula sobre a história da Língua Portuguesa, e de uma maneira ilustrativa e ficcionalizante, ensinou as regras e a história da nossa língua materna. Incluiu na aventura Eduardo Carlos Pereira, gramático que Lobato havia “descoberto” e editado em 1926.

A aventura de Emília, Pedrinho, Narizinho, Rabicó e o Visconde sai em 1934, como parte de um projeto pedagógico pensado por Lobato já em 1933. Este projeto era conhecido por Escola Nova, doutrina que valorizava o conhecimento científico e a atitude reflexiva, além do questionamento da tradição brasileira. Anísio Teixeira, importante educador da época, que fez parte da criação do movimento da Escola Nova, era modelo de educação na concepção de Lobato, que em 1933, escreve uma carta ao professor Anísio Teixeira contando sobre a aventura lingüística de suas personagens:

Estou escrevendo Emília no país da Gramática. Está estupendo. Inda agora fiz a entrevista de Emília na qualidade de repórter do Grito do pica Pau Amarelo, um jornal que ela vai fundar no sítio, com o Venerabilíssimo Verbo SER que ela trata respeitosamente de Vossa Serência! Está tão pernóstica, Anísio, que você nem imagina.7


O livro é um sucesso de crítica e público, o que traz dinheiro a Lobato, e com este outra idéia: a necessidade de livros paradidáticos que pudesse gerar nos alunos interesse pelas disciplinas escolares.

Aproveitando, então, o sucesso de Emília no país da Gramática, A Cia Editora Nacional lança A aritmética da Emília, Geografia de D. Benta e História das Invenções, todos publicados em 1935 e partes integrantes do projeto pedagógico de Lobato.

É importante notar, contudo, os dois momentos pelos quais passam a literatura infantil de Monteiro Lobato. Se no início da década de 1920 a literatura infantil fazia parte de um projeto, cujo objetivo era possibilitar aos estudantes conhecer as figuras do imaginário popular infantil (como Saci, animais que falam, crianças que passam as férias eternas num local livre de inquietações e perigos, como era o Sítio do pica Pau Amarelo), em 30, a prioridade de Lobato foi a de ganhar dinheiro com a literatura para as crianças, estreitando a relação da literatura infantil com a escola. Esta relação surge como uma forma de incentivo aos ideais da classe média; para estas pessoas, a escola é um meio de ascensão social e os temas moralizantes e pedagógicos fortalecem as ligações entre escola (ou ensino) e literatura. Mas não só os temas didaticamente e moralmente aceitáveis fazem parte deste universo literário, nota-se também outros temas que ultrapassam o setor estritamente escolar. É importante observar que os professores têm participação na divulgação dos livros produzidos para crianças e voltados à escola, já que a eles cabia entender e absorver, de acordo com suas concepções, os temas presentes nas obras infantis.

Com relação às histórias de Lobato destinadas às crianças e à escola, há uma situação curiosa: o ensino ou a maneira de se ensinar e aprender as coisas não estão necessariamente na figura do professor, já que Lobato, ao criar o sítio, produz um espaço equivalente ao da escola, capaz muitas vezes de ser mais eficiente que a instituição escolar, já que Pedrinho, por exemplo, tinha mais motivação para estudar gramática no sítio com D. Benta do que na escola com a professora. Notamos isto na seguinte passagem de Emília no país da Gramática:

D. Benta, com aquela paciência de santa, estava ensinando gramática a Pedrinho. No começo, Pedrinho rezingou.

-Maçada, vovó. Basta que eu tenha que lidar com essa caceteação lá na escola. As férias que venho passar aqui são para brinquedo.

(...) Pedrinho fez bico, mas afinal cedeu; e todos os dias vinha sentar-se diante de D. Benta, de pernas cruzadas como um oriental, para ouvir explicações de gramática.

-Ah, assim, sim! Dizia ele. – Se meu professor ensinasse assim como a senhora, a tal gramática até viraria brincadeira. Mas o homem obriga a gente a decorar uma porção de definições que ninguém entende. Ditongos, fonemas, gerúndios8.


Além disso, Lobato cria em suas narrativas aventuras que possibilitam à turma do sítio polemizar e vivenciar os temas presentes na escola, casos de Aritmética da Emília, História das Invenções, Geografia de D. Benta e Emília no país da Gramática.

Na ficção infantil lobatiana – a voltada para a escola – está presente a concepção de educação de Monteiro Lobato. Nota-se a presença de um ideário grego de educação, baseado na troca, no diálogo, as soluções não são pré-fabricadas e as conclusões não são precipitadas; o ensino é calcado na ausência de um espaço determinado (as crianças se deslocam para aprender as coisas) para que o ato de aprender possa se desenvolver, ou seja, a sala de aula, o lugar por excelência da aprendizagem, pouco existia no padrão helênico de educação. O que Lobato faz com estes livros voltados para a escola, no tocante ao método dialógico de ensinar, nos remete a Platão, o qual Lobato adapta e dilui na idéia do faz-de-conta.

BIBLIOGRAFIA


Azevedo, Carmen Lúcia de; Sachetta, Vladimir; Camargos, Márcia; Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia. São Paulo, Editora Senac, 2000.

Barbosa, Alaor. O ficcionista Monteiro Lobato. S. Paulo, Brasiliense, 1996.

Cavalheiro, Edgar. Monteiro Lobato: vida e obra. Cia Editora Nacional, 1956 vol. 2

Lajolo, Marisa. “Lobato um Dom Quixote no caminho da leitura” in Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo, Ática, 2000.

Lobato, M. Emília no país da Gramática. S. Paulo, Brasiliense, 1970.

Nunes, Cassiano. “A literatura infantil” in Novos estudos sobre Monteiro Lobato. Editora UnB, 1998.

Nunes, Cassiano. Monteiro Lobato Editor do Brasil. Rio de Janeiro, Contraponto – Petrobrás, 2000.

Zilberman, Regina & Lajolo, Marisa. Literatura infantil brasileira: história e histórias. Editora Ática, 1996.




1 CAVALHEIRO, Edgar.Monteiro Lobato: vida e obra. Tomo II, 1956. São Paulo. Cia Editora Nacional.

2 Sachetta, Vladimir et al. Monteiro Lobato,: Furacão na Botocúndia. Editora Senac, 2000.

3 Idem, ibidem, p.78.

4 Cf. Nunes, Cassiano. Monteiro Lobato Editor do Brasil . Rio de Janeiro, Petrobrás, Contraponto, 2000.



5 Idem, ibidem, p.39.

6 Sobre este assunto, conferir: Vieira, Adriana, “Um inglês no sítio de D. Benta: Estudo da apropriação de Peter Pan na obra infantil Lobatiana”, dissertação de mestrado, IEL/Unicamp,1998

7 Cf. Lajolo, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do Mindo. São Paulo, Ática, 2000. P. 95.

8 LOBATO, Monteiro. Emília no país da Gramática. Sào Paulo, Brasiliense, 1970 (15ª edição





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