A reforma da escola nova no paraná



Baixar 58,8 Kb.
Encontro26.07.2018
Tamanho58,8 Kb.


A REFORMA DA ESCOLA NOVA NO PARANÁ: as atuações de Lysímaco Ferreira da Costa e de Erasmo Pilotto

Maria Elisabeth Blanck Miguel


“De certo o problema é complexo. Mas o objetivo tem de ser apenas um: levar à criança da zona rural o mestre tecnicamente formado e formado na sua personalidade para o exercício de sua função. É preciso acertar com uma solução de profundidade e realizá-la com firmeza” (PILOTTO, 1952, p. 18). Eis aí o espírito do que foi a Escola Nova no Paraná, no período de sua consolidação. Esta reforma se deu pela vontade dos professores que estiveram à frente da implantação das idéias novas sobre educação, inspirados pelos autores europeus e norte-americanos e também porque haviam sido desenvolvidas no Estado, condições sociais, econômicas e políticas que possibilitaram a acolhida de tais idéias.

O período no qual as idéias oriundas da Pedagogia da Escola Nova influenciaram a educação escolar paranaense situa-se entre 1920 e 1961. Três fatos são marcantes no período citado: o início, caracterizado pela reorganização e sistematização da educação escolar existente, bem como a introdução do ideário da Escola Nova (1920 a 1938); a consolidação, por meio de uma experiência única realizada na Escola de Professores de Curitiba de 1938 a 1946, e após, sua expansão acompanhando as escolas que se multiplicaram pelo território paranaense impulsionadas pelo desenvolvimento do Estado (1946-1961). Na primeira fase salientam-se as figuras de Prieto Martinez e Lysímaco Ferreira da Costa; e daí em diante é marcante a presença e atuação de Erasmo Pilotto.

Para compreender o processo de assimilação das novas idéias pedagógicas e o modo como tal ideário foi aplicado, bem como as intenções da adoção e aplicação dele, fez-se necessário o levantamento de fontes documentais. Estas compreenderam a legislação (leis, decretos, relatórios, mensagens dos interventores e governadores, códigos de ensino), além dos textos escritos pelos próprios propositores, bem como das obras nas quais os mesmos se inspiraram.

As fontes possibilitaram a reconstrução de parte da história e das políticas educacionais vigentes no Paraná, no período, mas somente foi possível compreendê-las quando relacionadas às diretrizes internacionais provenientes da UNESCO, após 1946. Pois, como disse Bloch “nunca se explica plenamente um fenômeno histórico fora do estudo de seu momento”(2001, p.60).


O início da influência das idéias renovadoras: Prieto Martinez e Lysímaco Ferreira da Costa
Em 1918 e 1919 foi enviada a São Paulo, uma comissão de professores para inteirar-se das modificações que lá estavam sendo implementadas:
[...] um plano prático de processos de ensino para aplicação direta às classes primárias. Entre esses processos, o ensino analítico da leitura. A comissão reuniu uma equipe selecionada de professores, preparou-a e confiou -lhe as classes de um grupo que seria como grupo modelo. A aplicação dos novos processos era rigorosa. O grupo escolhido foi o atual Grupo Escolar Xavier da Silva. Turmas de professores do Estado faziam aí estágios, severamente controlados, até obterem pleno domínio prático dos novos processos (PILOTTO, 1954, p. 67)
A influência paulista fez-se ainda pela vinda de Cesar Prieto Martinez, então diretor da Escola Normal de Pirassununga1, para ocupar o cargo de Inspetor Geral do Ensino. A atuação de Martinez pautou-se pela organização da educação escolar segundo a “lógica da organização racionalizadora do trabalho industrial e a valorização do homem como recurso humano para o progresso da Nação”(MIGUEL, 1992, p.41). Dizia ele: “[...] me esforço para regularizar o serviço escolar, pautando-o pelo trabalho de uma oficina cuja prosperidade está na razão direta do que produz diariamente” (PARANÁ. Relatório, 1921, p. 8).

A reforma do ensino primário compreendeu a realocação das escolas para os lugares nos quais houvesse maior população escolar, os professores só poderiam ser transferidos fora do período letivo, foram reorganizados os programas e horários escolares, bem como uniformizados os livros didáticos. Priorizou-se a alfabetização e adotou-se um programa muito simples para as escolas isoladas. Somente três grupos escolares na capital ofereciam o 4º ano, uma vez que os 3º e 4º anos foram reunidos. Adotou-se a promoção dos alunos durante o semestre letivo e as classes de 1º anos foram organizadas unicamente com aqueles que não sabiam ler e escrever. As modificações aplicadas por Prieto Martinez caracterizaram-se pela organização da rede escolar e racionalização dos meios disponíveis para seu funcionamento. Estas mudanças no cenário educacional paranaense foram necessárias para a implantação do ideário da Escola Nova nos anos seguintes.

Quanto à Escola Normal, além de sua separação do Ginásio Paranaense, também foi modificada sua organização, principalmente em relação ao currículo do Curso Intermediário que preparava para a Escola Normal. Como medida mais significativa da influência da Pedagogia da Escola Nova, há que salientar-se a criação do Grupo Anexo à Escola Normal e que funcionou como campo para a prática docente das normalistas. Essa reforma preparou a consolidação da Escola Normal nos períodos precedentes e foi sobretudo, marcada pelo novo prédio inaugurado em 07 de setembro de 1922, que recebeu o nome de Palácio da Instrução, denotando a valorização da educação enquanto mola propulsora do progresso e forma de moldagem do caráter nacional, nas palavras de Carvalho (1987).
Lysímaco Ferreira da Costa e a Reforma da Escola Normal
A reforma da Escola Normal fez parte das propostas de Prieto Martinez, mas teve à frente Lysímaco Ferreira da Costa que a transformou em 1923, em Escola Normal Secundária. Como Diretor da Instituição elaborou as Bases Educativas para a Organização da Nova Escola Normal Secundária do Paraná em 1923. Marcada já de início pela mudança do prédio na qual passaria a funcionar, o chamado Palácio da Instrução indicava a nova conotação que o governo imprimia à formação de professores, enquanto modo de instruí-los para que educassem (formassem) o povo, dentre dos princípios republicanos de progresso dentro da ordem estabelecida.

Se, por um lado, os métodos aplicados nas escolas, como o ensino analítico da leitura e a vinda de Prieto Martinez indicavam a influência das reformas paulistas na educação paranaense, por outro a atuação de Lysímaco foi influenciada pelos países da bacia do Prata. Explica-se: em viagem a Buenos Aires para comercializar mate2, Lysímaco entrou em contato com dois pedagogos: Patrascoiou e Pablo Pizzurno, por meio dos quais tomou conhecimento da pedagogia de Herbart. No entanto, tal influência se fez sobretudo pela didática herbartiana, cujos passos formais3 que objetivavam levar os alunos à aprendizagem, foram aplicados em todas as disciplinas da formação de professores. Tal aplicação mereceu posteriormente, a crítica de Pilotto:


Foi então o império dos passos formais de Herbart, na versão de Patrascoiou, com monótonas aplicações a todas as matérias do ensino primário. Este, parece-nos o ponto baixo da reforma, quando por todo o mundo, já se agitavam as vozes mais vivas da renovação metodológica, superando em definitivo a Herbart. De outra parte, a versão patrascoiana de Herbart seria uma das mais mecânicas e atrasadas dentro da própria escola herbartiana, pecando por um formalismo desolador. Isso, porém, não deve diminuir a importância da reforma que devemos a Lysímaco Ferreira da Costa. (PILOTTO, 1954, p. 93)

Os princípios da reforma empreendida por Lysímaco traduziam a posição do Estado em relação à educação:

- esta era um esforço do governo e das pessoas melhor posicionadas na sociedade e deveria contar com o auxílio dos municípios na conservação dos prédios escolares;

- a educação popular contribuiria para a diminuição da pobreza revertendo em benefício do Estado e da sociedade;

- a educação deveria criar nos alunos o hábito do trabalho, devendo a escola não apenas ensinar os alunos a lerem mecanicamente, mas desenvolverem o hábito da leitura sadia, bem como os hábitos morais e mentais. Os Trabalhos Manuais seriam o meio de desenvolver a disciplina necessária para o trabalho, combatendo o analfabetismo, a indolência do povo, tranformando-a “em uma sã atividade produtora” (COSTA, 1987, p. 129).

- para tanto era necessário formar o bom professor que acompanhasse a disseminação de escolas. No entanto, era preferível que houvesse boas escolas do que muitas de má qualidade.

Essas medidas constituíam a “máxima eficiências da instrução ministrada pelo Estado” (COSTA, 1987, p. 129). Como os homens não mais procuravam a Escola Normal devido a fundação da Universidade do Paraná (19/12/1912)4 a formação do professor dirigia-se, sobretudo à mulher, salientando a sua dedicação. Esta deveria garantir, no exercício de sua profissão, “a transmissão aos alunos de uma educação racional e [...] um mínimo de conhecimentos concretos e úteis [...] para uma vida laboriosa e fecunda” (COSTA, 1987, p. 130)

O sistema educativo não deveria perder o caráter nacionalista cujo espírito seria transmitido pela Escola Normal, por meio das virtudes que o professor tivesse: boa conduta, autodisciplina, “respeito à lei, às autoridades e às instituições” (COSTA, 1987, p. 131). Seriam elas que formariam o escudo por meio do qual o professor se defenderia das influências do meio no qual fosse lecionar, transformando-o sem transformar-se.

Tais princípios condicionavam os objetivos e definiam a conduta do professor quando em sua prática educativa nas escolas. Para o desenvolvimento deste tipo de educação foi necessário mudar todo o corpo docente da Escola Normal, dispensando os professores do Ginásio Paranaense que em sua maioria eram livres pensadores, substituindo-os por normalistas recém formadas, capazes de colocar acima de suas opiniões individuais, quaisquer que fossem, os “sagrados direitos da Educação”, bem como tivessem vivo o sentimento da gravidade da tarefa que recebiam do Estado, que lhes impunha “hábitos de obediência, disciplina, modéstia, tolerância, observação, estudo e dedicação leal”(Costa, 1987, p. 132).

Ainda, Lysímaco preferia a indicação de professores para o ingresso no magistério, em vez do concurso. Segundo ele, tal procedimento facilitava a obediência do professor ao Estado representado pela figura do Diretor, a quem cabia “o dever de zelar pelo conjunto e de estabelecer o equilíbrio e a harmonia indispensáveis a homogeneidade do aparelho educativo” (COSTA, 1987, p. 133).

Para a nova Escola Normal, o plano curricular compreendia o Curso Geral com a duração de 3 anos e o Curso Especial, de um ano e meio. A finalidade do Curso Geral era a de dar uma sólida formação geral aos professores, ampliando-lhes a cultura, “sem descer à especialização”(COSTA, 1987, p.138). O Curso Especial tinha como objetivo dar “ao futuro educador uma boa técnica metodológica apoiada nos princípios gerais e regras da Pedagogia e nas noções fundamentais da Psicologia da Educação [...]” (COSTA, 1987, p.142).

No Curso Geral, os alunos estudavam no 1º ano, Português, Geografia Geral e Corografia do Brasil, Aritmética e Álgebra, Desenho, Música, Trabalhos de Agulha e Economia Doméstica, Trabalhos Manuais e Ginástica; do 2º ano constavam as disciplinas de Português, Geometria, Física e Química, História Geral da Civilização, Desenho, Música, Trabalhos de Agulha e Economia Doméstica, Trabalhos Manuais e Ginástica; no 3º ano, as disciplinas de Português, História do Brasil, História Natural, Geometria no Espaço, Desenho, Trabalhos de Agulha e Economia Doméstica, Trabalhos Manuais, Música e Ginástica.

Faziam parte do Curso Especial as metodologias das diferentes matérias, aulas de aplicação, Psicologia, Higiene e Agronomia, Moral e Educação Cívica, Noções de Direito Pátrio e Legislação Escolar (4º ano), Puericultura, Prática e Crítica Pedagógica (1º semestre do 5º ano).

Pelas disciplinas ofertadas é possível perceber-se que Lysímaco pretendia desenvolver nos futuros professores a capacidade de orientar a educação do homem para o trabalho, principalmente dos habitantes das zonas rurais (Trabalhos Manuais, Higiene e Agronomia). A exclusão do Francês do currículo foi justificada pela inadequação desse tipo de ensino em relação ao meio no qual os professores iriam trabalhar. Segundo o Diretor da Escola Normal, mais “útil que o Francês seria, para o professor paranaense, o ensino no Curso Normal, do alemão, do italiano e do polaco, dadas as numerosas colônias, das respectivas nacionalidades, que convivem conosco e de cuja instrução o Estado não pode descurar”(COSTA, 1987, p. 140).

A reforma empreendida por Lysímaco Ferreira da Costa na Escola Normal de Curitiba, em que se considere a aplicação mecânica dos passos formais de Herbart, apesar das críticas de Pilotto, representou a introdução dos normalistas em uma formação sistemática, racionalizadora e com objetivos bem específicos: o professor era, na ótica do governo, seu funcionário e mediador da educação disciplinadora do povo, principalmente do habitante das zonas rurais. Enquanto disciplinador e formador tinha também ele que ser obediente à voz do Estado. A introdução das metodologias que se faziam sobre uma formação geral demonstrava a especificação da função do professor, ou seja, a de ensinar os diferentes conteúdos.

As práticas desenvolvidas na Escola de Aplicação, a sistematização da formação, a aplicação de metodologias específicas, a ênfase no processo de aprendizagem do aluno, apontavam para a adoção dos preceitos da Pedagogia da Escola Nova.



A atuação de Erasmo Pilotto na Escola de Professores de Curitiba: consolidação das idéias da Pedagogia da Escola Nova no Paraná.
As idéias da Pedagogia da Escola Nova no Paraná tiveram como espaço de aplicação, a Escola de Professores de Curitiba (1938 a 1946) e foram orientadas pela ação de Erasmo Pilotto, para depois se expandirem nas escolas que abriram no Estado acompanhando a ocupação populacional de seu território (1946 a 1961), impulsionadas ainda por Pilotto.

Pelo decreto nº 6150, de 10 de janeiro de 1938, as escolas normais paranaenses foram transformadas em “escolas de professores fundindo o curso ginasial da Escola Normal Secundária de Curitiba ao Ginásio Paranaense e o da Escola Normal de Ponta Grossa ao Ginásio Regente Feijó, respectivamente” (MIGUEL, 1997, p. 70). A estrutura curricular dos cursos bem como sua duração foi tomada da proposta anteriormente contida no Código de Educação de 1937, não discutido e aprovado pela Assembléia Legislativa, por força da decretação do Estado Novo (10/11/1937 a 29/10/1945).

O regulamento dos cursos de formação de professores foi aprovado pelo decreto nº 6597, de 15 de março de 1938, segundo o qual os fins de tais escolas ficaram assim definidos:

a) formar professores primários;

b) promover investigações e estudos relativos a assuntos de educação;

c) auxiliar o trabalho de constante aperfeiçoamento cultural do magistério público do Estado (Art. 1º)


Embora a duração do curso permanecesse a mesma da proposta no Código de 1937, bem como a sua divisão em quatro seções, as disciplinas que formavam o currículo foram modificadas. Assim, na primeira seção (primeiro semestre) seriam estudadas matérias de Psicologia Geral e Infantil, Pedagogia Geral, Metodologia e Prática do Ensino, História da Educação. Da segunda seção (segundo semestre) constavam; Metodologia e Prática do Ensino, Biologia Aplicada á Educação, Puericultura, Higiene Escolar. Compunham a terceira seção (terceiro semestre): Metodologia e Prática do Ensino, Sociologia Geral, Sociologia Educacional e, finalmente as disciplinas que seriam estudadas na quarta seção (quarto semestre) eram: Metodologia e Prática do Ensino, Desenho, Modelagem e Caligrafia, Trabalhos Manuais, Música e Canto Orfeônico. Nesta seção seriam ministradas aulas de Noções Fundamentais de Agronomia, Educação Física, Educação Doméstica (cf. Art. 2º) (MIGUEL, 1997, p.71-72).

O decreto nº 6597 ainda estabelecia que fossem ministrados trinta minutos diários de Educação Física em todas as seções.

Para exercer a chefia das 2ª e 4ª seções foi convidado o professor Erasmo Pilotto, que depois passou a exercer mais tarde o cargo de Assistente Técnico da Escola de Professores de Curitiba. Pilotto redimensionou os fins dessa Escola atribuindo-lhe três funções:


  1. formar professores primários;

  2. ser um centro de cultura pedagógica, compreendendo-se mais particularmente, a investigação filosófica e a investigação experimental relativa aos problemas ligados ao fenômeno da Educação;

  3. ser um centro de vulgarização pedagógica, de âmbito de ação que se estendesse ao Magistério da Estado e fosse abranger também, ainda que mais restritamente, os responsáveis, na família, pela Educação ( PILOTTO, s.d., p.117).

Eram características da organização e do funcionamento da Escola de Professores:

a percepção da Pedagogia como ciência, a ênfase na aplicação da investigação científica na prática educacional, a necessidade de uma sólida cultura geral independentemente da origem da clientela escolar, a seleção e formação diferenciada dos alunos considerados mais capazes pela inteligência e caráter, a aplicação da metodologia ativa, , a preparação do professor para o trabalho nas zonas rurais.

Para a organização da Escola de Professores, bem como subsidiar o estofo teórico da proposta, Pilotto buscou inspiração em Pestalozzi, Montessori e Decroly. Mas, autores como Gentile e o livre pensador, professor Dario Vellozo, fundador do movimento neopitagórico5 também influenciaram as propostas implantadas e vividas na formação do magistério paranaense no período. A busca por categorias mais gerais, por princípios capazes de dar significado ao conhecimento, presentes na educação mostravam a influência do Idealismo sobre as propostas implantadas por seu autor.

Em Pestalozzi, Pilotto sustentou seu posicionamento sobre a escola elementar acreditando que a esta “devia dar os elementos básicos para toda a educação ulterior, de todas as classes sociais”(PESTALOZZI, 1928, p.19). Ainda ao considerar o meio rural e a realidade das escolas públicas mais afastadas dos centros urbanos, escolas nas quais as alunas da Escola de Professores iriam lecionar, Pilotto apoiava-se em Pestalozzi:
O júbilo dos seus lucros com o algodão, sua ascendente riqueza, suas casas pintadas de branco, suas colheitas excelentes, mesmo o socratizar de alguns de seus mestres e os círculos de leitura dirigidos pelos filhos dos superintendentes e barbeiros, não me enganavam. Via sua miséria [...] (PESTALOZZI, 1946, p. 157 citado por PILOTTO, s. d., p. 46).
Inspirado na Psicologia Diferencial foi aplicado o processo de avaliação dos alunos, cujos resultados os encaminhavam para uma educação diferenciada. Esta orientação da formação dos professores seguia os pressupostos teóricos da Pedagogia da Escola Nova fundamentada na Psicologia, Biologia e Sociologia. Os testes sociológicos procuravam levantar os líderes das turmas com os quais se fazia um trabalho especial preparando-os para, mais tarde, liderarem também a continuidade da aplicação da proposta então vivida na Escola de Professores, nas demais escolas públicas paranaenses.

Para o bom andamento do trabalho desenvolvido com os alunos da Escola de Professores, os professores deveriam registrar em fichas, os dados referentes à vida intelectual, vida afetiva, atividades, temperamento e caráter, além das fichas biométrica, da vida escolar e de ocorrências diárias. O sistema de fichas e o trabalho com os dados levantados ficavam a cargo de um “serviço central, especializado, e incumbido exclusivamente disso”(PILOTTO, s.d., p.119). Os dados levantados eram tratados pela Estatística, incluindo-se aí os resultados dos testes para identificar os líderes. Com tais dados, a ação pedagógica se fazia no sentido de propiciar uma educação que atendesse as características individuais dos alunos.

A preocupação com “a investigação pedagógica e experimental dos problemas da educação” (Pilotto, s. d., p. 117) fez com que ele propusesse a Escola Paranaense de Pedagogia da qual, necessariamente todos os professores participariam para desenvolver estudos pedagógicos mais aprofundados e debater temas de interesse cultural.

Ainda fazia parte da organização da Escola de Professores, o Centro de Superior de Pedagogia, espaço destinado aos “melhores” alunos segundo os resultados levantados pelas observações dos professores e pelos testes de inteligência. O trabalho da Orientação Educacional seria perceber as necessidades de cada aluno (considerando as observações e os resultados dos testes), possibilitando o encaminhamento dos que alcançassem os pontos mais altos na avaliação, para as atividades do Centro. Este Centro funcionaria fora do ambiente escolar, com o objetivo de discutir problemas de interesse dos alunos enquanto futuros professores. Aos alunos que o freqüentassem eram oferecidas as melhores obras de autores que aprofundassem e ampliassem a cultura, preparando-os como líderes da ação educacional no Estado. Esta intenção estava explicitada no plano de organização da Escola.

“Para o comum da turma” destinava-se “um trabalho de caráter mais prático, mais de acordo com o seu desenvolvimento, com as suas possibilidades” (PILOTTO, s. d., p.132).
Tanto para o desenvolvimento da cultura geral como o da formação especializada, foram projetados planos que procuravam garantir a organicidade do conjunto do trabalho educacional desenvolvido na escola de professores. As aulas, atividades extraclasse, práticas pedagógicas, foram planejadas de modo que se complementassem e enriquecessem umas às outras.

Quanto à formação especializada compreendendo o trabalho desenvolvido nas classes, a recomendação que se fazia era a de que o mesmo fosse ‘o mais ativo possível’, através de exposição do professor, ‘exposição pessoal dos alunos, trabalho coletivo dos alunos e coleta e elaboração de dados para a solução de problemas vários, discussão livre, plano Dalton, método de projetos ou outros de moldes semelhantes’(PILOTTO, s.d., p.126, citado por MIGUEL, 1997, p. 79)

Eram ainda valorizadas atividades como o Jornal “A voz da Escola”6 elaborado pelos alunos e o Museu da Escola. Todos organicamente dispostos de modo a manter a coerência da proposta da Escola de Professores.

Os alunos desenvolviam também atividades no Centro Estudantil Dona Júlia Wanderley7. O ambiente da Escola de Professores tal como descrito por Pilotto em suas obras, caracterizava-se pelo envolvimento dos alunos nas atividades educacionais, de modo que a mesma fosse “palpitante de vida”.

A importância atribuída à educação geral encontrava justificativa na concepção de cultura veiculada à tendência humanista, segundo a qual ela é formada pelas melhores obras nas ciências e nas artes que a humanidade já produziu. Por isto, os alunos deveriam conhecer e levar ao interior, para as escolas onde fossem lecionar, discos das melhores músicas, livros com as melhores obras e tudo o que pudesse contribuir para a apropriação pelo habitante rural, de parte da cultura elaborada, no que ela tivesse de melhor.

Em relação à cultura geral que deveria ser objetivo da escola primária, afirmava Pilotto:


Muitas pessoas têm tido a idéia de dar àquelas crianças uma educação para fazer delas melhores pescadores ou melhores agricultores, etc. Isso está errado. A escola primária comum não pode pensar em fazer do aluno nem pescador, nem agricultor, nem marceneiro, nem qualquer outra coisa assim. A obrigação dela é dar aos seus alunos um certo tanto de Educação Geral.

Ensinar o indivíduo a ler, a gostar de ler, a ler bastante, por exemplo, é Educação Geral; qualquer que seja o que ele venha a ser mais tarde, deve conhecer certos cuidados de higiene, deve ter boa saúde, deve saber algumas contas e saber usá-las na sua vida de todos os dias, deve querer ser útil aos que vivem junto dele, deve conhecer alguma coisa sobre o mundo que o cerca, deve saber de sua Pátria e deve saber uma porção de coisas mais desse tipo, que o indivíduo pode aprender enquanto criança. É essa Educação Geral, essa educação que todos os indivíduos devem ter, qualquer que seja o que eles venham a ser mais tarde, que a escola primária deve procurar dar a todos. Isso e nada mais (PILOTTO, s. d., p. 105)


A experimentação marcou a proposta implantada na Escola de Professores de Curitiba pela aplicação das experiências educacionais exitosas provadas a priori, no Instituto Pestalozzi8. Esta instituição foi uma escola particular, de caráter experimental, para crianças, “que funcionou como laboratório de inovações a serem implantadas no curso de magistério”(MIGUEL, 1997, p.90). As idéias de Montessori, Pestalozzi e Decroly, eram então ali aplicadas e, quando davam bons resultados junto aos alunos, ensinadas aos normalistas da Escola de Professores.

O ambiente do Instituto Pestalozzi caracterizava-se pelas paredes das salas de aula pintadas em tom cinza que favoreciam os quadros, os brinquedos e os jogos. Além disto, a escolinha de artes, o tabuleiro de areia, a presença de pequenos animais, o jardim, a horta, enfim, todo o ambiente escolar era preparado para as experiências de aprendizagem que alinhavam-se às recomendações da Pedagogia da Escola Nova. “Completava-se o Instituto com material, especialmente as coleções de Decroly, ‘em especial as coleções de jogos de construção’, que haviam sido feitas em ‘formato grande com algumas peças que chegavam a ter 50 cm’ (Pilotto, s. d., p. 17). E ainda com material para ensino de modelagem, desenho, recorte e música”(MIGUEL, 1992, p 136). Também nesta escola-laboratório eram proporcionadas às crianças, atividades que desenvolvessem a criatividade: teatro, música.

As normalistas tinham então a oportunidade de, na Escola de Aplicação anexa à Escola de Professores, aplicarem as mesmas experiências já anteriormente testadas. A Escola de Aplicação era composta por um Grupo Escolar com as cinco séries e uma escola isolada, ou seja, uma classe com alunos em diferentes níveis de aprendizagem correspondendo às três primeiras primárias. Desta forma, como laboratório, essa escola isolada situada no centro de Curitiba, procurava reproduzir a realidade das classes multiseriadas existente nas zonas rurais.

A proposta teórica metodológica da Escola Nova vivida na Escola de Professores de Curitiba trazia em si contradições. A preocupação com as categorias valorativas que os alunos formariam pela aquisição de conhecimentos traduziam-se no conceito de que essas eram a


[...] fundamental e a verdadeira força educadora, - extraordinária força formadora, um poder de persuasão e de beleza maravilhosa, criando no espírito dos alunos, não as absurdas acumulações de ‘pontos’ ou dados materiais, ou mesmo simples informações, mas verdadeiras categorias, o sentido, a satisfação que são o característico da realidade das ciências do espírito, que hão de ser empreendidas pela compreensão, cada aluno apanhando no universo das aulas o material para a criação do seu próprio universo, impressionados uns pela Grécia, outros pela Cavalaria, outros pelo Renascimento, outros por Buda, outros por Jesus, outros pela Revolução Francesa, etc., e tirando daí um sentimento de vida – em síntese, aquela criação categorial [...], que é mesmo o fundamental na Educação, no caso presente (PILOTTO, 1969, p. 72).
Mas, ao mesmo tempo, a proposta teórico – metodológica era enfaticamente permeada pela seleção dos alunos e formação diferenciada, como já demonstramos anteriormente.

Este ideário expandiu-se pelas escolas paranaenses que foram fundadas no período de 1946 a 1961, nos municípios oriundos do desenvolvimento proporcionado pelas lavouras de café, no norte do Paraná e pecuária no sudoeste.

A Pedagogia da Escola Nova consolidou-se na formação do magistério pela experiência da Escola de Professores como uma denominação genérica unificando vertentes diferentes, entre as quais se dava relevância ao aluno como centro do processo ensino-aprendizagem, à metodologia ativa, à ação educacional pautada nos avanços científicos da Psicologia, da Biologia e da Sociologia. Mas, continha também mecanismos de controle social proporcionados pela formação diferenciada dos alunos . No entanto, tal proposta, foi plenamente vivificada pela crença no poder de transformação da educação: transformação dos homens, transformação do meio e principalmente, na crença do poder da ação educativa do professor e da escola.
REFERÊNCIAS
FONTES DOCUMENTAIS
PARANÁ: Relatório apresentado ao Secretário Geral do Estado pelo Professor César Prieto Martinez, Inspetor Geral do Ensino, 1920. Curitiba: Tipografia da Penitenciária Geral do Estado.

---------. Decreto nº 6150, jan. de 1938. Funde ao Ginásio Paranaense e ao Ginásio Regente Feijó, os cursos ginasiais das escolas normais de Curitiba e Ponta Grossa. Anexa a cada um dos Ginásios do Estado uma Escola de Professores. Diário Oficial do Estado do Paraná, 20 jan. 1938.

---------. Decreto nº 6597, de 15 mar. 1938. Aprova o Regulamento dos cursos de formação de professores. Diário Oficial do Estado do Paraná, 22 mar. 1938.
FONTES DE REFERÊNCIA
BLOCH. M. Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

CARVALHO. M. M C. A Escola e a República. São Paulo: Brasiliense, 1989. (Coleção Tudo é História, v. 127)

COSTA. M. J. F. F. Lysímaco Ferreira da Costa: a dimensão de um homem. Curitiba: Imprensa da Universidade Federal do Paraná, 1987.

MIGUEL. M. E. B. A formação do professor e a organização social do trabalho. Curitiba: Edit UFPR, 1997.

MIGUEL. M. E. B. A Pedagogia da Escola Nova na formação do professor primário paranaense: início, consolidação e expansão do movimento. Tese de Doutorado apresentada à PUCSP, São Paulo, 1992.

PESTALOZZI. J. H. Cartas sobre La educación primária dirigida a J. P. Greeves. Madrid: Ediciones de La Lectura, 1928.

PILOTTO. E. A educação é direito de todos. Curitiba: Max Roesner, 1952.

PILOTTO. E. A educação no Paraná: síntese sobre o ensino elementar e médio. Rio de Janeiro: Marques Saraiva, MEC/INEP, 1954 (Campanha de inquéritos e levantamentos do ensino médio e elementar, public. Nº 3).

PILOTTO. E. Dario Vellozo: Cronologia. Curitiba: Imprimax, 1969.

PILOTTO. E. Prática da Escola Serena. Curitiba: João Haupt, s.d.


REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES
DECROLY. O ; BOON. G. Iniciación general al método Decroly. Buenos Ayres: Lasada, 1968.

DECROLY. O. Problemas e psicologia de pedagogia. Madrid: Libreria Española y Extranjera. 1929.

LOURENÇO FILHO. M. B. A educação rural no México. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v. 18, nº 45, p. 108-198, jan-mar, 1952.

MONTESSORI. M. A criança. Lisboa: Portugália Editora, 1966.



PILOTTO. E. Situação do desenvolvimento brasileiro e a educação. Curitiba: Associação de Estudos Pedagógicos, 1959.



1 Desta Escola saiu também Lourenço Filho para implantar a reforma no Ceará.

2 Lysímaco trabalhava na empresa “Da Veiga e Cia Ltda”, exportadora de erva mate.

3 Herbart recomendava etapas para a instrução dos alunos: a preparação a partir do que o aluno já sabe; apresentação do novo conhecimento a partir do concreto; assimilação a partir da comparação entre o que o aluno sabe e o novo conhecimento; generalização, isto é, pela abstração o aluno chega a conceitos mais gerais e a aplicação, quando o aluno aplica o novo conhecimento por meio de exemplos e novos exercícios.

4 A respeito ver “A Universidade do Mate – história da UFPR” de Ruy Cristovan Wachowicz, Edição da APUFPR, Curitiba, 1983.

5 O neo pitagorismo caracterizou-se como um movimento cultural cujo objetivo maior era o de libertar as mentes das travas da religião, especialmente da Igreja Católica. Propugnava “a permanente busca do saber, sem limites do campo ao qual se ativesse [...]” (MIGUEL, 1997, p. 86.

6 Este Jornal foi editado em outubro de 1936 e recebeu premiação no México. Nele os alunos publicavam resumos das últimas obras de Biologia Educacional, Psicologia Diferencial e Educacional, Sociologia Educacional, História da Educação, dentre outros artigos. (MIGUEL, 1997, p. 80)

7 Nome da primeira professora paranaense formada na Escola Normal.

8 Escola particular criada e mantida por Pilotto e Adriano Robini, também professor da Escola de Professores de Curitiba.






©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal