A recepçÃo de ‘L’antisémitisme’ na construçÃo da naçÃo brasileira de gustavo barroso



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A RECEPÇÃO DE ‘L’ANTISÉMITISME’ NA CONSTRUÇÃO DA

NAÇÃO BRASILEIRA DE GUSTAVO BARROSO (DÉCADA DE 1930)
Antonio Ferreira de Melo Junior

Mestrando em História/Bolsista CAPES/PPGH/UFRN



antoniofdemelojr@yahoo.com.br

Orientador: Dr. Renato Amado Peixoto

PPGH/DEHIS/UFRN

Objetivamos discutir neste trabalho os vínculos entre a biografia e os textos políticos antissemitas de Gustavo Dodt Barroso (1888-1959), doravante Barroso, para compreendermos como isso embasou a sua ideia de nação brasileira na década de 1930. Nesse sentido, entendemos esse autor como um ‘fascista clerical’ em que a visão de mundo católica desempenha forte influência na sua produção intelectual, bem como entendemos ser necessária a apreciação das suas matrizes de pensamento, o estudo da recepção feita por ele de autores católicos e antissemitas, principalmente dos europeus, dado até agora ignorado pela historiografia.

Por esta razão, apresentamos como estudo de caso a obra L’antisémitisme escrita pelo judeu sionista Bernard Lazare em 1894, porque ela mereceu considerável número de citações nos textos de Barroso. Por meio da análise da recepção dessa obra procuramos demonstrar a relação entre catolicismo e antissemitismo na nação forjada pela narrativa de Barroso e como, nesse empreendimento, ele mesmo se identifica enquanto católico, antissemita e brasileiro. Além disso, no esforço de unir a História Política à História da Religião e à História do Espaço Nacional, procuramos dar subsídios para o estudo da forma como este intelectual produz história e pensa a relação entre História e Espaços.

Apesar de relativamente desconhecido da historiografia, Barroso foi um dos principais intelectuais brasileiros da década de 1930. Nasceu no Ceará, formou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1912, fundou e dirigiu o Museu Histórico Nacional, dirigiu a revista Fon-Fon, atuou como ideólogo da Ação Integralista Brasileira e como leitor e tradutor de livros em alemão, espanhol, inglês, francês e latim. É a sua produção integralista que nos interessa neste trabalho, particularmente a sua tradução dos Protocolos dos Sábios de Sião (1936), e também nos debruçamos sobre a primeira edição de L´antisémitisme.



Palavras- chave: Gustavo Barroso, L’antisémitisme, nação brasileira.

ABSTRACT

This paper discusses this study the links between biography and anti-Semitic political texts of Gustavo Barroso Dodt (1888-1959) to understand how it based the idea of ​​a Brazilian nation in the 1930s that sense, we understand that as author a "clerical fascist 'in the Catholic worldview plays strong influence on his intellectual production, and we believe it is necessary appreciation of their matrices of thought, the study of reception made by him of Catholic and anti-Semitic authors, mainly Europeans, given so far ignored by historiography.

For this reason, we present a case study the work L'antisémitisme written by Jewish Zionist Bernard Lazare in 1894 because she deserved considerable number of citations in Barroso texts. By analyzing the reception of this work we try to demonstrate the relationship between Catholicism and anti-Semitism in the nation forged by Barroso narrative and how, in this endeavor, he identifies himself as a Catholic, anti-Semitic and Brazil. In addition, in an effort to unite the Political History to the History of Religion and History of the National Space we try to give grants to study how this produces intellectual history and think the relationship between history and spaces.

Although relatively unknown to the historiography, Barroso was one of the main Brazilian intellectuals of the 1930s was born in Ceará, graduated from the Law School of Rio de Janeiro in 1912, he founded and directed the National Historical Museum, drove the One source magazine Fon, served as ideologue of Brazilian Integralism and as a reader and translator of books in German, Spanish, English, French and Latin. Is your integralista production that concerns us in this work, particularly the translation of the Protocols of the Elders of Zion (1936), and also worked through about the first edition of L'antisémitisme.

Key words: Gustavo Barroso, L'antisémitisme, Brazilian nation

INTRODUÇÃO

É muito comum na historiografia brasileira concernente ao pensamento católico e à história dos espaços do século XX uma compreensão fechada dos textos, uma dedução da influência de um autor sobre outro a partir tão-só das posições políticas. Assim, se um autor X é conservador ou da direita em termos de política isso significa, nessa compreensão, que ele leu autores Y e Z também conservadores ou liberais e que os reproduziu fielmente, copiou e colou feito um trabalho regido com papel e tesoura.1

Acreditamos que para compreendermos os textos de Gustavo Barroso devemos tomar uma orientação diversa da assinalada acima, antes de tudo porque a própria produção desse intelectual católico nos impele a fazê-lo2. A obra L’antisémitisme foi escrita por Bernard Lazare, um judeu radicado na França, jornalista, polemista, anarquista e, pasmem, sionista, num momento em que ele intervém no famoso Caso Dreyfus, quando este judeu fora acusado de trair a França na intenção de ajudar a Alemanha. No entanto, mesmo com essas características, essa obra se fará presente no texto de um autor que abertamente disseminava o seu ódio aos judeus, era fascista, integralista e nacionalista ferrenho. Como isso é possível? É possível porque o que está sendo recepcionado não é o autor, e sim a obra; o autor como que morre em virtude de uma elaboração de determinado sentido do texto, a serviço dos interesses de Barroso. Assim, não adianta remeter à vida e às intenções políticas de Lazare para nisso remeter a uma influência em Barroso, o contrário é verdadeiro: Barroso dota o texto de um significado inusitado para o público brasileiro, o qual pouco tinha contato com a edição original em francês.

Partiremos agora para os principais pontos de ‘L’antisémitisme. Objetivo, fontes, conceitos, frisar a introdução e a conclusão.

TRAÇOS GERAIS DA OBRA L’ANTISÉMTISME

O livro dói escrito num “grande intervalo” em jornais e revistas não denominados pelo autor e a ideia, ao contrário do que se poderia pensar pelo contexto, não escrever um texto do ponto de vista antissemita, e sim “um estudo imparcial, um estudo de história e de sociologia” (LAZARE, 1894, p. iii). Para ele, o antissemitismo é medíocre, raso e incompleto, por isso, o seu objetivo é explicar as suas principais causas, o que o torna possível, tentando perscrutar suas mudanças ao longo da história, suas modificações e transformações (cf. LAZARE, 1894, p. iv-v). Nesse sentido, a ideia central a ser combatida é a seguinte:

Il m'a semblé qu'une opinion aussi universelle

que l'antisémitisme, ayant fleuri dans tous les

lieux et dans tous les temps, avant l'ère chré-

tienne et après, à Alexandrie, à Rome et à An-

tioche, en Arabie et en Perse, dans l'Europe du

moyen âge et dans l'Europe moderne, en un mot,

dans toutes les parties du monde où il y a eu et

il y a des juifs, il m'a semblé qu'une telle

opinion ne pouvait être le résultat d'une fantaisie

et d'un caprice perpétuel, et qu'il devait y avoir

à son éclosion et à sa permanence des raisons

profondes et sérieuses (LAZARE, 1894, p. IV).

Assim, é a própria historicidade de algo chamado ‘antissemitismo’ que aparece como central na proposta acima. Mas o que significa aqui o termo ‘antissemitismo’? O antissemitismo é um sentimento comum ao longo da história estranhado nos europeus marcado por uma oposição política, econômica e religiosa aos judeus enquanto uma resposta à constante busca de liberdade, iniciado após a dispersão, remetendo às origens do estado de Israel, dos judeus (LAZARE, 1894, p. 1-2).

Nessa perspectiva, o autor admitia como pressuposto como pretensões verdadeiramente judaicas:

Je compte en reprendre

quelques parties, et un jour que j'espère prochain

je tenterai de montrer quel a été dans le monde

le rôle intellectuel, moraJ, économique et révo-

lutionnaire du Juif, rôle que je n'ai fait ici qu'in-

diquer (LAZARE, 1894, p. vii).

Podemos entender que não obstante a preocupação com a historicidade e fazendo eco aos grandes historiadores do século XIX, os judeus são homogeneizados (existe ‘o judeu’) a partir da ideia da atuação mundial, tendo como parâmetros a intelectualidade, a moral, a economia e a revolução. Como está sendo defendida essa homogeneização, aliás, ela já coerente com o sionismo de Lazare, fica subentendida a existência de outros povos também homogêneos e distintos, de acordo com os mencionados parâmetros. Nesse sentido, há a sugestão aqui de uma supremacia judaica sobre os povos, como se o povo judeu tendesse a ela.

Por isso, partindo da premissa de que o judeu deve “defender a sua liberdade e independência”, o antissemitismo é visto não como uma construção discursiva, nem como uma obra de não-judeus (“os inimigos dos judeus são uma raça muito diversa”), mas sim como uma resposta, quase que natural, às pretensões mundiais judaicas. Existiria o antissemitismo porque existem semitas. As causas do antissemitismo estariam nos próprios judeus. Dentro dessa visão, é praticamente inexistente a distinção entre antijudaísmo e antissemitismo, como resulta deste trecho:

partout s'est développé l'antisémitisme, ou plutôt

l'antijudaïsme, car antisémitisme est un mot mal

choisi, qui n'a eu sa raison d'être que de noire

temps, quand on a voulu élargir cette lutte du Juif

et des peuples chrétiens, et lui donner une philoso-

phie en même temps qu'une raison plus métaphy-

sique que matérielle (LAZARE, 1894, p. 2).

O antissemitismo, essa « palavra mal escolhida », seria a continuação da oposição dos cristãos aos judeus e, mais do que isso, seria a própria razão de ser do século XIX, marcado pela luta do judeu com os povos cristãos. Os cristãos combateriam os judeus, e não o judaísmo em si, até porque dizem que creem no Deus dos judeus, assim, não seria o antissemitismo uma “guerra de religião”, mas uma guerra em que a linguagem religiosa desempenha forte papel, em que o político e o religioso estão imbricados; afinal, os judeus defendem um “culto político-religioso” (LAZARE, 1894, p. 3).

Nesse culto político-religioso o judeu se tornaria insociável. A sua lei, a Torah, o distingue dos que não têm orientações político-religiosas como as suas, ou seja, dos politeístas, que passam a ser chamados de estrangeiros por conta disto. Assim, neste momento Lazare começa a caracterizar o que envolve a lei judaica e qual a sua peculiaridade. Para tanto, elege os seguintes aspectos: a excelência da Torá, como a Lei de Deus e suprema distinção entr os povos; 2) o mosaísmo, que está associado à elaboração do talmude e à resistência dos judeus à metafísica cristã, uma vez que a Igreja primitiva fora formada especialmente de saduceus e essênios; 3) o exclusivismo: os judeus além de insociáveis, seriam exclusivistas, porque a sua lei parte de um ambiente específico, Israel, mas tem pretensões universalistas (“o império universal de sua lei”); 4) a escolha divina: o povo judeu foi escolhido e separado entre os povos por Deus e se torna depositário da vontade dEle; 5) a eleição: o judeu foi predestinado por Deus a se tornar um “órgão imenso” (Cf. LAZARE, 1894, p. 7-9). Esses aspectos seriam constituintes da nacionalidade judaica.

Interessa-nos aqui sublinhar este ponto. Na tentativa de apresentar as causas gerais do antissemitismo, Lazare culmina também apresentando o que seriam as causas do nacionalismo judaico; os judeus seriam uma nação, mas não no sentido do estado-nação consolidado no século XIX enquanto decorrente de um processo iniciado no século XVI. O nacionalismo judaico seria anterior ao nacionalismo presente nos países de maioria cristã e esse seria o sentido político-religioso da relação entre judeus e cristãos no século XIX, a expressão de uma luta secular.

A nacionalidade judaica é compreendida por Lazare ao remontar ao “antijudaísmo na antiguidade”, onde examina sociedades como a egípcia, a grega e a romana; o “antijudaísmo da Igreja cristã”, onde se fixa no surgimento da Igreja; depois passa pela Reforma Protestante, Revolução Francesa até chegar ao século XIX. Assim, o autor encadeia uma estrutura que apresente o nacionalismo judaico como uma construção pretérita, por conseguinte, o próprio antissemitismo como uma realidade existente desde a Antiguidade, mesmo sendo este termo um vocábulo novo para o século XIX, como ele dissera. Além disso, nessa intenção, o autor emprega indistintamente os termos “antijudaísmo” e “antissemitismo”, o que reforça o papel dos judeus como os únicos semitas e deixa subentendido o papel degradante do nacionalismo cristão sobre eles.

A RECEPÇÃO FEITA POR BARROSO NOS PROTOCOLOS DOS SÁBIOS DE SIÃO (1936)

Os Protocolos dos Sábios de Sião consiste num texto produzido numa data incerta na Rússia que descreve as ações de judeus de diversos países, em parceria com os maçons, na busca pelo domínio político, econômico, religioso e intelectual do mundo todo; defende a chamada teoria da conspiração judaica.

Contudo, a primeira versão desse texto por demais controverso foi traduzida para o português corrente no Brasil por Gustavo Barroso na década de 1930 e publicada em 1936. Barroso a encheu de notas de rodapé, direcionando assim a interpretação do texto e escreveu o prefácio e organizou a disposição dos textos e dos parágrafos, por isso, entendemos que essa versão à qual o público brasileiro teve acesso pode ter sua autoria atribuída a este intelectual católico. Aliás, devemos assinalar nisso um traço marcante da biografia de Barroso: ele continuou a acreditar na autenticidade dos Protocolos mesmo depois de o Tribunal de Berna tê-los declarado falsos, o que nos mostra como essa oposição aos judeus estava gravada na sua consciência, uma convicção com a qual ele se identificava e com a qual era identificado, uma vez que com esse pensamento ele era reconhecido como um dos pensadores mais extremados dentro das fileiras integralistas. Assim, não é estranho que as principais referências à obra ‘L’antisémitisme’ ocorra na tradução dos Protocolos.

Essa tradução está dividida em quatro partes mais um apêndice e as razões da publicação. As partes são as seguintes: O Perigo Judaico (Roger Lambelin), p. 1-20; A Autenticidade dos Protocolos dos Sábios de Sião (W. Creutz), p. 21-50; O Grande Processo de Berna sobre a autenticidade dos Protocolos- provas documentais (Gustavo Barroso), p. 51-82; e o texto traduzido com base na edição francesa dos Protocolos em seus vinte e quatro capítulos, p. 83-232.

Na intenção de justificar a publicação, a editora Minerva recorre aos traços biográficos e ao prestígio de Barroso. Ela menciona os diversos cargos políticos, seu lugar de presidente da Academia Brasileira de Letras, o “profundo conhecimento que o mesmo adquiriu em matéria de judaísmo, possuindo uma biblioteca especializada no assunto”, pois ele seria “um técnico no importante assunto, segundo o consenso dos entendidos dentro e fora da pátria”, acrescentando também “seu convívio social, sua experiência dos homens, sua observação dos fatos, seu conhecimento de vida e sua cultura” (BARROSO, 1936, p. VIII-IX). A expectativa da editora: “Os leitores terão as eruditas e profundas anotações do referido escritor [Barroso], algumas tiradas de livros raríssimos e verão se fomos ou não inspirados na escolha. Temos a certeza de que todos estarão de acordo conosco” (BARROSO, 1936, VIII-IX).

Dentro dessa habilidade de trazer à tona textos raríssimos para o público brasileiro, surgem as referências à obra em francês supramencionada. Ao todo são quatro, e nós examinaremos uma por uma de modo a caracterizarmos a recepção de Barroso (BARROSO, 1936, p. 98, 119, 136, 196).3

A primeira referência é a nota 4 da parte II (BARROSO, 1936, p. 98). Nela, Barroso cita as páginas 130 e 135 do livro de Lazare para tentar provar que na perspectiva judaica os goym, isto é, os não-judeus são, na verdade, os cristãos; os judeus estariam conduzindo uma luta contra os cristãos, luta esta escondida sob a língua hebraica. Curiosamente, não conseguimos identificar na edição que consultamos as citações por ele expostas, mas, de todo modo, sabemos a finalidade dessa recepção, a ideia de uma luta entre o judeu e o cristão; “o judeu Bernard Lazare escreve...”.

Na nota 3, página 119, Barroso não cita a página da obra de Lazare, mas tenta forçar a ideia de que o ataque judeu aos cristãos não tem uma posição política determinada, está escondida por trás da direita e da esquerda e encadeia depois de Lazare uma citação dos Protocolos, texto bem posterior à obra de Lazare. Isso mostra outra característica da recepção de Barroso: é uma recepção descontextualizada, junta elementos de diversos períodos históricos, generaliza-os para todos os judeus e todos os países (BARROSO, 1936, p. 119).

Essa descontextualização da obra de Lazare é continuada quando Barroso novamente une Eberlin (Le juifs, 201) a Lazare, sendo que mais uma vez a deste último parece ser uma entrada forçada. Ele faz Eberlin dizer que “quanto mais uma revolução é radical, mais liberdade e igualdade resultam para os judeus. Toda nova corrente de progresso consolida a posição dos judeus”. Com isso, Barroso quer sublinhar o papel oculto do judeu nas revoluções a partir de Eberlin. O trecho que ele atribui a Lazare é o seguinte: “a assimilação legal acabou em França em 1830 quando Latitte fez inscrever o culto judeu no orçamento” (BARROSO, 1936, p. 135-136), ou seja, Barroso pinça apenas um fragmento de Lazare, não contextualiza e acaba alterando as ideias do autor nessa intenção.

Outro momento de referência a Lazare está na nota 2 do capítulo XVIII do texto traduzido dos Protocolos que diz assim:

Há uma profunda ligação entre o protestantismo, a maçonaria e o judaísmo, conforme já notaram Kadmi-Cohen, Bernard Lazare, Valéry-Radot e o propus Papus, o ruralista [...]. A história contemporânea é um exemplo claríssimo da aliança oculta, sob a capa da maçonaria, entre o protestantismo e o judaísmo, que, aparentemente, parecem ignorar-se (BARROSO, 1936, p. 196).

Aqui há outra alteração do sentido da obra de Lazare. ‘L’antisémitisme’ procura caracterizar as causas gerais do antissemitismo, que é remetido ao sistema étnico-religioso judaico. O cristianismo, seja em sua manifestação católica ou protestante, é colocado como em luta contra o judeu, nesse sentido, Barroso acaba superinterpretando o texto de Lazare.

Podemos perceber, então, a presença da obra francesa na escrita de Barroso é marcada por uma alteração de sentido, ou seja, o sentido do todo é reduzido ao particular, a algumas citações sem relação entre si e totalmente fora de contexto, às vezes até em discordância com o objetivo da obra original; assim também há a inserção do trecho no acompanhamento a outros trechos de autores diversos, também eles fora de contexto, o que acaba forçando o texto a dizer algo que não se encontra nele. Além disso, os trechos de Lazare estão anotados no texto original dos Protocolos, como se constituíssem a base de reflexão deles, como se já estivesse inscrito desde sempre a sua elaboração. É a questão da construção pretérita do antissemitismo que é continuada por Barroso, agora pensada para o público brasileiro.

O IMPACTO DA RECEPÇÃO NA IDEIA DE NAÇÃO4

Tentaremos a partir de agora exemplificar algumas ideias presentes nos textos integralistas de Barroso tentando perceber um provável impacto da recepção de L’antisémitisme nesse processo. Como sabemos, essa recepção serviu para ele discorrer sobre uma pretensa ação secreta e internacional dos judeus; a remontar o antissemitismo, entendido enquanto uma motivação política de oposição aos judeus, à antiguidade; legitimar o seu constructo a partir de um texto ‘clássico’ sobre os judeus, mesmo que em alguns momentos, como mostramos acima, o texto em francês tenha sido colocado apenas marginalmente e suas ideias precípuas, esquecidas.


  • Contra o internacionalismo judaico. Em A palavra e o pensamento integralista (BARROSO, 1935), o autor remonta a obra supracitada em francês ao expor: “Os judeus consideram-se uma raça superior, destinada por Deus, segundo dizem os livros santos, dentre os outros povos. Todos serão seus escravos e Israel reinará sobre as nações curvadas diante de seu bezerro de ouro” (BARROSO, 1935, p. 81). A confirmação dessa peculiaridade é que ele se fixa no caso francês logo em seguida, trabalhando a ideia de que os judeus dominaram a França e que os Protocolos, mesmo sendo produzidos em 1914, não receberam a atenção pública devida, o que teria contribuído para esse pretenso domínio (Cf. BARROSO, 1935, p. 82-87).

Essa passagem está colocada no capítulo intitulado ‘A raça superior’ e procura enfatizar que os judeus se sentem distintos dos demais povos, tal como fora colocado por Lazare quanto à eleição e ao exclusivismo. Com isso, Barroso queria opor-se ao internacionalismo judaico, pois já dissera, no capítulo anterior, que “o internacionalismo se esfrangalha de encontro às resistências nacionais. Ele quer embalde lutar entre a natureza e a própria essência das coisas” (BARROSO, 1935, p. 34).

Com esse movimento, fica claro que o autor buscava construir com tal movimento uma ideia de nação com fronteiras fixas, resistentes ao internacionalismo judaico, respeitosas das “tradições” e do seu “sentido de vida” que impregna a política de cada estado-nação, pois a nação brasileira que ele queria tinha a pretensão de imitar quanto fosse possível a “natureza forte, potente” (BARROSO, 1935, p. 52).



  • Na obra O Espírito do século XX (BARROSO, 1936), encontramos raciocínio similar. Por exemplo, no capítulo intitulado ‘Larvas e lesmas’, o autor chama de larvas os judeus internacionalistas, empresários, burgueses e todos os que ele considera enquanto exploradores da política brasileira e opositores ao movimento integralista. Por outro lado, chama de lesmas as pessoas acomodadas, aqueles que apenas se dizem “brasileiros”, sem o serem de fato, primam pelo egoísmo e não estão dispostas ao sacrifício pela nação (BARROSO, 1936, p. 26-29).

Contra toda a degradação da nação simbolizada pelo judeu, Barroso argumenta que os judeus imoralizam a sociedade cristã por meio da sua usura monetária, atacam a economia brasileira, tem como base o preconceito da eleição, por isso, emenda: “O judaísmo é a afirmação de uma nacionalidade dentro de outras nacionalidades. A religião e a crença são bandeiras sobre que se disfarça a invasão em todos os campos: no saber, na moral, na política e na economia” (BARROSO, 1936, p. 78).

A partir dessa ideia, ele busca legitimar a sua ideia de nação por meio da defesa do integralismo: “Não se salva, não se constrói uma nação com leis, com estados de sítio ou de guerra; mas com uma doutrina, com moral, salvando primeiro os homens que constituem a nação [...] A Revolução integralista é essa regeneração pela disciplina, pela honestidade, pela bondade, pelo sacrifício e pelo heroísmo” (BARROSO, 1936, p. 38).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na década de 1930, Gustavo Barroso era um dos intelectuais mais importantes do Brasil e sua ideia de nação elaborada nesse período é de tal modo refinada que chega a influenciar uma série de nacionalistas hoje. Enquanto integrante da Academia Brasileira de Letras e proeminente ideólogo do integralismo, lia diversos textos em línguas estrangeiras. Um desses textos, a obra L’antisémitisme, de Bernard Lazare (1894) foi alvo de uma recepção particular, em que Barroso alterou deliberadamente o seu conteúdo, dando novo sentido para justificar para o público brasileiro, para conservar-se enquanto intelectual de prestígio nacional, a oposição aos judeus no Brasil, nesse sentido, fazendo eco aos adeptos do movimento integralista.

Essa recepção foi de tal modo importante que ecoou na sua ideia de nação, fazendo-se presente nos seus textos notadamente integralistas, sem que sequer a obra de Lazare fosse mencionada, o que mostra o desejo por parte deste intelectual católico de internalizar e de fazer internalizar a sua perspectiva acerca da relação entre o judeu e a nação brasileira. Dessa relação, podemos destacar a ênfase sobre o papel internacionalista do judeu, o nacionalismo judaico e a ideia de nação brasileira pautada a partir da natureza e necessitada do sacrifício daqueles que habitam o seu território.

A expectativa deste texto é que com o decorrer da pesquisa de mestrado as ideias aqui colocadas sejam amadurecidas, esclarecidas e tornadas mais coerentes.

BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

BARROSO, Gustavo. A palavra e o pensamento Integralista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935.

______. O Espírito do Século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936a.

______. Os protocolos dos sábios de Sião. São Paulo: Minerva, 1936b.

ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34, 1996, v. 1.

LAZARE, Bernard. L’antisémitisme: son histoire et ses causes. Paris : Léon Chailley, 1894.

RODRIGUES, Cândido Moreira. A Ordem: uma revista de intelectuais católicos (1934-1945). Belo Horizonte: Autêntica, 2005.



SIRINELLI, François. Os intelectuais. In: RÉMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV, 1996.

1 Exemplo disso é o excelente e principal trabalho na área do pensamento católico: RODRIGUES, 2006.

2 SIRINELLI, François. Os intelectuais. In: RÉMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV, 1996.

3 Pensamos a recepção dos textos a partir de ISER, 1996. Isso significa que: Vazios =>=>=> representações, estratégias da mente para representar o que está oculto (estética) e fundar sentidos. Quando for preenchido o vazio, novos se tornarão evidentes, fomentando o mesmo processo até o infinito, fazendo com que a relação texto-leitor seja uma dialética entre o oculto e o mostrado; nunca é um processo acabado, sim em constante e necessário movimento, é vívido... COMBINAÇÃO

4 Sobre a discussão em torno da nação, nos baseamos em ANDERSON, 2006.




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