A pedagogia da alegria e da festa



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Capítulo 16.

A PEDAGOGIA DA ALEGRIA E DA FESTA

Foi afirmado com feliz intuição por um agudo filósofo, Francisco Orestano: “Se São Francisco santificou a natureza e a pobreza, São João Bosco santificou o “trabalho”e a “alegria” (...). Não me admiraria se Dom Bosco fosse proclamado Santo protetor dos jogos e dos esportes modernos”1.

Em uma sintética visão da pesquisa mais recente sobre Dom Bosco e a sua “modernidade”, Pedro Stella observava que alguns estudos têm posto em evidência, mais do que as formulações de 1877 sobre o “sistema preventivo”, as intuições que o regem em seu devir e, em relação com estas, o papel que desempenharam o uso do tempo livre e o esporte na experiência educativa de Dom Bosco: tanto no agrupamento espontâneo juvenil dos oratórios, quanto no bastante desinibido (ainda que não isento de elementos coercitivos ou mesmo repressivos) do colégio salesiano: onde o brinquedo no pátio era momento importante de vida e também de salutar válvula de escape”2.
1. A alegria
A alegria é o elemento constitutivo do “sistema”, inseparável do estudo, do trabalho e da piedade, a “religião”. “Se você quiser tornar-se bom – sugeria Dom Bosco ao jovem Francisco Besucco – pratique somente três coisas e tudo correrá bem (...). São elas: Alegria, Estudo, Piedade. É este o grande programa que você deve praticar, e assim poderá viver feliz e fazer muito bem à sua alma”3. Um ano antes, em 1862, o estudante João Bonetti anotava em uma de suas crônicas: “Dom Bosco costuma dizer aos jovens do oratório que deles quer três coisas: alegria, trabalho e piedade. Repete freqüentemente as palavras de São Felipe Néri aos seus jovens: “No momento devido corram, saltem, divirtam-se até mais não poder, mas, por caridade, não façam pecado”4.

A alegria é característica essencial do ambiente familiar e expressão da amorevolezza, resultado lógico de um regime baseado na razão e na religiosidade, interior e espontânea, que tem a sua fonte última na paz com Deus, na vida de graça. “O contacto fraterno e paterno do educador com os seus alunos” “não teria valor nem efeito sem a eficácia da vida alegre, da alegria sobre o espírito do jovem, que por ela se abre à influência do bem”5.

A alegria, antes de ser expediente metodológico, um “meio” para fazer aceitar o que é “sério” em educação, é para Dom Bosco forma de vida, que ele vê derivar de uma instintiva avaliação psicológica do jovem e do espírito de família. Em um tempo geralmente austero na própria educação familiar, Dom Bosco, mais do que qualquer outro, entende que o garoto é garoto e permite, antes, quer que ele o seja; sabe que a sua exigência mais profunda é a alegria, a liberdade, o jogo, a “sociedade da alegria”. Além disso, homem de fé e padre, ele está convencido de que o cristianismo é a mais segura e duradoura fonte de felicidade, porque é alegre anúncio, “evangelho”: da religião do amor, da salvação, da graça, não pode ser senão a alegria, o otimismo. Entre jovens e vida cristã existe, portanto, uma singular afinidade, quase um apelo recíproco. “o jovem que se sente em graça de Deus, experimente naturalmente a alegria, seguro da posse de um bem que está todo em seu poder, e o estado de prazer se traduz para ele em alegria”6.

Efetivamente, na prática educativa e na correlativa reflexão pedagógica de Dom Bosco, a alegria assume um significado religioso. Sabem isto muito bem os próprios alunos, como aparece no encontro de Domingos Sávio com Camilo Gávio, onde, como já foi visto, a alegria coincide com a santidade7. Este aspecto aparece explícito e límpido nesta e nas outras vidas escritas por Dom Bosco ou vividas na sua “casa”. “Dom Bosco – insiste Caviglia – soube ver a função da alegria na formação e na vida de santidade, e quis que reinasse entre seus jovens a alegria e o bom humor. Sirvam ao Senhor na alegria podia ser chamado o décimo mandamento da casa de Dom Bosco”8.

Esta mistura equilibrada de sacro e profano, de graça e de natureza, na esperteza tipicamente humana do jovem, feliz no estado de graça, revela-se em todas as expressões da vida cotidiana, no cumprimento do dever, como na “recreação”. Atinge particular intensidade nas muitas festividades, religiosas e profanas, com uma tonalidade característica no fim do carnaval, no princípio os últimos três dias. Com o exercício da boa morte, a adoração eucarística contínua, a oração, entrelaçam-se o tratamento especial na mesa, os esportes, o bingo, o teatro, a música, a fogueira final.

Não existe livro de Dom Bosco que ponha mais em evidência esta mistura de devoções e brinquedos, que as Memórias do Oratório, “oratório” em sentido etimológico, lugar de oração, e “jardim de recreação”. Ele mesmo afirma: “Afeiçoados a essa mistura de devoção, de brinquedos, de passeios, cada um se afeiçoava muito a mim de tal modo que, não somente eram obedientíssimos às minhas ordens, mas ficavam ansiosos para que eu lhes incumbisse de algum trabalho”9.

Em segundo lugar, Dom Bosco considera a alegria necessidade fundamental de vida, lei da juventude, por definição idade em expansão livre e alegre. Por isso fica exultante, como em uma bela página do Esboço biográfico de Miguel Magone. Com aberta complacência escreve “da sua índole fogosa e esperta”, do “apaixonado olhar para os brinquedos” no fim do recreio e daquele “parecia que um canhão saía da sua boca”, quando se passava da sala de aula ou do estudo para o recreio10.

Dom Bosco via nele o arquétipo da grande massa dos jovens.

Esta compreensão da psicologia juvenil fá-lo aceitar, em parte, as efervescências militares de 1848 e “adaptando-se às exigências do tempo, em tudo aquilo que não era prejudicial à religião e ao bom costume, ele não hesitou em permitir aos jovens que fizessem, também eles, no pátio do Oratório, suas manobras, antes, deu um jeito de arranjar uma boa quantidade de fuzis sem cano, mas com um bastão na ponta”11. São conhecidas dos contemporâneos de Dom Bosco, as disposições do “soldado” José Brosio (1829-1883), por eles recordados em uma sua tardia memória12.

Os jogos, as brincadeiras, os barulhos, as conversas alegres e ao mesmo tempo com tons de seriedade e construção educativas, povoam as recreações. As Memórias do Oratório são ricas de vocábulos que indicam movimento e alegria: “brincadeiras, cantos, gritos”; “provocar aplausos e ovações gritando, assoviando e cantando”; “cansados de rir, brincar, cantar e diria mesmo de urrar”13; “o recreio com bolas de pau, pernas de pau, com fuzis, com espadas de madeira, e com os primeiros instrumentos de ginástica”; “a maior parte do tempo transcorria-se saltando, correndo e curtindo vários jogos e brinquedos”. “Todas as possibilidades de salto, corrida, alteres, cordas, bastões” “eram colocados em movimento sob meu comando”14.

A alegria torna-se, nas mais variadas formas de recreação e sobretudo nos brinquedos ao ar livre, meio diagnóstico e pedagógico de primeira ordem para os educadores; e para os próprios jovens, campo de irradiação de bondade. “Depois da confissão – observa Alberto Caviglia -, não se pode indicar outro centro mais vital e ativo do que este no seu sistema. Porque, não somente na espontaneidade da vida alegre e familiar do jovem se tem uma das fontes capitais do conhecimento dos ânimos; mas, sobretudo, tem-se um meio e uma ocasião de aproximar-se, sem sujeição e sem dar na vista, de um por um dos jovens, e de dizer-lhes em confiança aquela palavra que cada um precisa. Volta aqui o princípio vital da pedagogia, ou melhor, da educação verdadeira e própria: o da educação de um por um, mesmo se respirada no clima ambiente da educação coletiva”15.

À vida do pátio Alberto Caviglia dedica uma significativa “digressão” no seu estudo sobre a biografia do jovem Magone, enunciando o seu tema: “se lembramos que até quando foi possível, Dom Bosco deixava todo o resto para encontrar-se no pátio com seus filhos, nós compreenderemos a importância que este fator tem, aos seus olhos de pai e de educador das almas dos seus filhos” 16. “Eu servia-me daquela livre recreação – atesta o próprio Dom Bosco referindo-se ao primeiro oratório – para insinuar nos meus alunos pensamentos de religião e de freqüência aos santos sacramentos”17. O último dos sete “segredos do Oratório”, revelados por Dom Bosco em junho de 1875 e registrados pelo Padre Barberis,é: “Alegria, canto, música e grande liberdade nos divertimentos”18.

A alegria é, portanto, para Dom Bosco, não só recreio, divertimento, mas autêntica, insubstituível realidade pedagógica. Não por nada, como já foi visto, que a “familiaridade com os jovens especialmente no recreio” é um ponto capital do sistema reafirmado na carta aos educadores de maio de 188419.
2. As festas
Daí se deduz o significado também “pedagógico” das festas.Nos dias festivos a alegria encontra suas expressões mais sensíveis e intensas20. Estes dias festivos sucedem-se numerosos e diversamente acentuados. Devem ser mencionados antes de tudo, os domingos ordinários e as grandes solenidades litúrgicas, entre as quais aparecem a novena e a festa de Natal, a solenidade da Epifania, a Semana Santa, Páscoa, a Ascensão, Pentecostes, Corpus Christi. A Páscoa é preparada ou seguida de grande movimento de confissões e comunhões para meninos e meninas dos oratórios festivos21.

De excepcional significado educativo, para cada um e para a “limpeza” da comunidade, são algumas celebrações Mariana: a Natividade em setembro, a Imaculada Conceição em dezembro, festa importantíssima, porque lembrava o início da obra dos oratórios, Maria Auxiliadora, em 24 de maio, a Assunção. O 24 de maio não é somente festa do oratório mas torna-se logo uma verdadeira festa popular e de peregrinos com extraordinárias manifestações sagradas e profanas; na organização e na condução das várias atividades envolvem-se jovens e salesianos22.

São vividas, com particular intensidade e acontecimentos especiais, as festas de santos mais queridos: São Francisco de Sales, São José, São Luis Gonzaga, São João Batista, com a grande festa anual para Dom Bosco dos alunos e ex-alunos, São Pedro com a festa do Papa, Todos os Santos, Santa Cecília, padroeira dos músicos, enfim, o padroeiro de cada instituição educativa. Interesse particular toma a festa de 24 de junho, com início na noite da vigília, modelo da “festa da gratidão”, celebrada em diferentes datas nas “casas” e nos oratórios salesianos. Da de Valdocco, o “Boletim salesiano”, desde 1879, oferece boas informações, seguidas pela relembrança dos encontros, em julho, com os ex-alunos do oratório, sacerdotes e leigos23.

Entre as festas, caracterizadas por extraordinária efusão musical, cantos e esplendor de ritos, muitas são precedidas por tríduos e novenas. Também alguns meses são prenhes de excepcional carga educativa, que provoca a festiva e convicta participação dos jovens: o mês de maio, mariano; o mês de março em honra de Sã José, vizinho ao interesse quase corporativo dos artesãos; o mês de outubro, com a festa de Nossa Senhora do Rosário e o incremento desta prática.


“O esforço – observa Eugênio Ceria – para oferecer às mentes e às fantasias dos jovens um alimento variado, que os afastasse de pensamentos de coisa menos boa, era constante no santo Educador. Como as representações dramáticas também dirigia à mesma finalidade as festas na igreja e fora da igreja, que ele fez celebrar não só com pompa e alegria, mas também em intervalos tais que, quando se acabava a impressão deixada por uma, logo surgia a expectativa da outra”24.
Reflexivos e alegres, ao mesmo tempo, são o retiro mensal, chamado “exercício da boa morte”, os retiros espirituais anuais, o tríduo de introdução ao ano escolar, enriquecidos com excursões e festas: da uva, das castanhas, das premiações. Na primavera, acrescentava-se, preparado com particular cuidado, o passeio anual25. Já falamos do carnaval e dos seus “ritos”, sagrados e profanos.

Eram freqüentes também as recepções de autoridades eclesiásticas e civis, e outras iniciativas que impediam que na instituição educativa se instaurasse um estilo de rotina e de enjôo.

Qualquer manifestação apresentava sempre um rosto duplo: religioso e profano. Dom Bosco queria que fosse potenciado seu explícito valor educativo, começando dos comuns encontros dominicais do oratório, que, porquanto fosse possível, deviam apresentar um caráter de “novidade”, de alegria e de edificação26.

Nas salas de aula os professores eram convidados a chamar a atenção dos alunos sobre as festas27.

A festa solene reproduzia o ritmo religioso do domingo, fortemente potenciado com música e canto, possivelmente com a presença de um bispo, com um almoço mais prolongado e mais rico, encerrado às vezes com as harmonias da banda de música no pátio e mais o teatro à noite. O vértice da festa era constituído agora pela comunhão eucarística, possivelmente geral na primeira missa matutina.
“Na noite de 25 – escrevia de Roma ao Padre Rua, em fevereiro de 1870, dirigindo-se no final diretamente aos jovens - estarei nomeio de vocês para ser todo de vocês. Peço-lhes também não fazer-me nenhuma festa. A festa maior para mim é ver vocês todos em boa saúde e com boa conduta. Eu procurarei fazê-los alegres. No domingo depois da minha chegada, espero que faremos uma grande festa em honra de são Francisco de Sales. Façam-me então a mais querida festa que eu possa desejar, isto é, que todos façam naquele dia a santa comunhão. Quando vocês fazem festas desse tipo, o resto não interessa”28.

3. O teatro.
A primeira representação teatral foi feita em 29 de junho de 1847 no incipiente Oratório de Valdocco, por ocasião da visita do arcebispo Luis Fransoni. Um grupo de jovens havia-se preparado “para a declamação, para os diálogos e para o teatrinho”. À chegada do arcebispo, Dom Bosco leu “alguma coisa de oportunidade”. Depois do rito da crisma e da missa, em honra do arcebispo foram recitadas “primeiro, várias composições em poesia e em prosa”, seguidas de um diálogo-comédia de um colaborador de Dom Bosco, o teólogo Carpano, com o título Um soldado de Napoleão29.

Dois anos depois, um jovem pintor de 20 anos, original e brilhante, Carlos Tomatis, que ficou no oratório de 1849 a 1861, enquanto Dom Bosco, no sábado de noite, estava ocupado nas confissões, tomou a iniciativa de entreter os mais jovens companheiros internos com mímicas, teatros de marionetes, farsas, comédias30.

Para os anos 1847-1852, está documentado um outro tipo de atividade teatral com diálogos e representações didáticas sobre história sagrada, o sistema métrico decimal, etc., geralmente unida com a atividade das aulas noturnas e dominicais, algumas vezes na presença de personagens especiais, como Ferrante Aporti e Carlos Bon Compagni31.

Com os anos 50, no internato de Valdocco, tem início uma verdadeira tradição teatral, que acabará por enriquecer-se nos 60 com vários “gêneros”: comédias e farsas populares, dialetais e italianas; comédias latinas, na presença de ilustres personagens da cidade; o drama histórico e sacro; vários tipos de apresentações musicais: opereta, melodrama, antologias de trechos tirados do teatro lírico, romanças32. Em abril de 1861 acontece a primeira representação da comédia latina Minerval do Jesuíta Padre Palumbo. Em Valdocco acontecia, em 2 de junho de 1864, a réplica da comédia Phasmatonices (Vencedor das larvas), já representada em 12 de maio, do bispo S.M. Rosini, adaptada pelo mesmo Padre Palumbo33. Em primeiro de junho 1865 será representado em Mirabello34. Representações latinas e academias eram parte notável das atividades paraescolares35.

O teatro, portanto, nas várias expressões, gradualmente se insere com pleno direito no sistema educativo de Dom Bosco, praticamente e vitalmente, como elemento integrante e para a constituição do ambiente de alegria e com uma função educativa e didática36.

Dom Bosco reserva ao teatro, obviamente, uma imediata finalidade recreativa, ordenada, porém, também a superiores finalidade culturais e educativas. Falava disso em um vibrante discurso aos diretores no curso das “conferências de São Francisco de Sales” de janeiro de 1871.


“Vejo que aqui entre nós não é mais como deveria ser, e como era nos primeiros tempos, não é mais teatrinho, mas é um verdadeiro teatro. Portanto, eu entendo que os teatrinhos devam ter isso por base: divertir e instruir; e não tenham nada a ver com aquelas cenas que podem endurecer o coração dos jovens ou causar má impressão em seus delicados sentidos. Façam-se comédias, mas coisas simples, que tenham uma moralidade. Haja cantos, porque estes, além de alegrar são também parte da instrução tão exigida nestes tempos”37.

Às distintas compatíveis finalidades ele empenhou-se muitas vezes em determinar inderrogáveis regras, discutidas e precisadas até na mais alta assembléia da congregação religiosa, o capítulo geral. Divertir e alegrar deviam absolutamente conjugar-se com instruir e educar38.



Sintetizava os diversos valores do teatrinho o proêmio das normas a ele referidas no Regulamento das casas: “O teatrinho, feito segundo as regras da moral cristã, pode ser de grande vantagem para a juventude, quando não mire a outra coisa, senão a alegrar, educar e moralmente instruir os jovens o mais que se pode. Afim de que se possa atingir este objetivo, é preciso estabelecer: 1. Que a matéria seja adaptada. 2. Sejam excluídas aquelas coisas que podem degenerar em maus hábitos”39.

Um dos mais confiáveis colaboradores de Dom Bosco tinha resumido o pensamento comum, fundado na experiência vivida, sobre o valor educativo das representações teatrais.


“Primeiramente, se bem escolhidas, as representações são escolas de santidade (...). 2. Instrução extraordinária, mesmo puramente intelectual, que nos ensina aquela prudência prática que nos é necessária na vida. 3. Desenvolvimento extraordinário da mente de quem recita (...). 4. Faz-nos conhecer a vida íntima do homem e da sociedade. 5. Oh! Quanta alegria traz aos jovens; pensam nele muitos dias antes e muitos dias depois (...). 6. No ano passado (e terá acontecido mil vezes antes e depois) um clérigo me revelou que decidiu ficar na congregação, atraído pela alegria que nele despertam os teatros (...). 7. Quantos maus pensamentos e más conversas ele afasta. Todos os pensamentos e as palavras estão concentrados naquele ponto. 8. Atrai muitos jovens aos nossos colégios; porque também nas férias se conta aos companheiros, aos amigos a alegria do oratório e dos nossos teatrinhos... e muitos outros”40.
Em janeiro de 1885, por sugestão de Dom Bosco, da tipografia salesiana de São Benigno Canavese sai o primeiro fascículo da Coleção periódica de leituras dramáticas para institutos de educação e família, antes bimestrais, e após 1886, mensais. Na capa do primeiro fascículo As pistrinas e a última hora do paganismo em Roma do Padre João Batista Lemoyne, estava fixado o seu programa.
“Observou-se que especialmente os livros de comédia, quando não são rigorosamente morais, produzem no coração dos jovens impressões tão funestas, que permanecem até na mais provecta idade. Para ir de encontro a este inconveniente foi idealizada uma coleção de Leituras Dramáticas, as quais, ao mesmo tempo que são atraentes e amenas, são também educativas e rigidamente morais. Para este fim, alguns sacerdotes muito hábeis, sob a guia e a direção do Padre João Bosco, propõe-se executar o seguinte programa: “As Leituras Dramáticas terão por fim alegrar, instruir e educar o povo, e especialmente a juventude italiana, com uma série de livrinhos que contêm dramas, comédias, farsas, tragédias e também simples diálogos e poesias recreativas””.41
4. Música e canto
A função da música instrumental e vocal, no sistema educativo de Dom Bosco, está estreitamente unida ao seu conceito de educar mediante a alegria, a atmosfera que tranqüiliza e o refinar do gosto estético e dos sentimentos. Por isso ela encontra amplo espaço em todas as instituições, do oratório festivo ao internato para estudantes, às escolas artesanais e profissionais: nestas é muito bem cuidada a banda de música.

Ademais, a música dá um tom vivo de festa a todas as solenidades, sagradas e profanas: ritos religiosos, procissões, passeios e excursões, recepções e festas, distribuições de prêmios, academias e teatrinhos.

Em 1859, Dom Bosco mandou escrever na porta da sala de música vocal uma passagem bíblica explicando o seu sentido: Não impeças a música42. A sua posição torna-se eficaz através da feliz expressão: “Um Oratório sem música é um corpo sem alma”43.

Formulada em circunstâncias particulares44, ela não fazia outra coisa, senão teorizar uma convicção, que tinha sido realidade viva e prática desde os inícios de sua atividade educativa. Recordando os primeiríssimos colaboradores das incipientes reuniões juvenis (1842), ele escreve nas Memórias do Oratório: “Eles ajudavam-me a manter a ordem e também a ler e a cantar loas sacras; por isso, desde então percebi que, sem a difusão de livros de canto e de leitura amena, as reuniões festivas teriam sido como um corpo sem alma”45. Lembrando nas mesmas Memórias o início das primeiras escolas noturnas no inverno 1846-1847, Dom Bosco escrevia: “Além da parte científica, animava as nossas aulas o canto orfeônico e a música vocal, que foram sempre cultivados entre nós”46.

Vários motivos se entrelaçam. Nos primeiros tempos, a música é considerada sobretudo como meio preventivo: “houve uma procura fabulosa da aula de música. A música vocal e instrumental foi ensinada para tirar os jovens “dos perigos aos quais estavam expostos em questão e religião e de moralidade”: “na escola noturna e também diurna, além da música vocal, julgou-se oportuno acrescentar a aula de piano, de órgão, e a própria música instrumental”47.

A isto se somava o motivo religioso, sobretudo em relação ao canto sacro e gregoriano, o canto-chão: “era também desejo seu que os jovens, retornando às suas cidades, ajudassem o pároco a cantar nas sagradas funções”48. Outro motivo era a luta contra o ócio: “É preciso manter os meninos sempre ocupados”49.

Deve-se também ter presente, enfim, a avaliação mais particularmente pedagógica da música. Sobre isto Eugênio Ceria escreve um capítulo de síntese a respeito da música salesiana no primeiro volume dos Anais. “A razão principal deve ser procurada na salutar eficácia que ele lhe atribuía sobre o coração e sobre a imaginação dos jovens, com o fim de torná-los mais gentis, elevá-los e torná-los melhores”50
5. Excursões
Nas páginas sobre o sistema preventivo e nas atividades de Dom Bosco educador, são postas em evidência, além do passeio semanal por classes e o passeio escolar anual, de artesãos e estudantes, também as excursões do outono. Era um jeito de pôr em prática o princípio de amar aquilo que o jovem ama, para que o jovem ame o que ama o educador.

Também estas contribuem para criar aquele clima de alegria cristã, que é parte essencial da formação integral do jovem. Têm, portanto, um fundamental alcance educativo.

No Oratório festivo de Valdocco floresceram, desde os inícios, as excursões e as peregrinações, absolutamente necessárias nos anos 1844-1846, quando o Oratório não tinha ainda lugar fixo e não dispunha de espaços próprios para o culto. As próprias Memórias do Oratório lembram passeios a Sassi, a Nossa Senhora do Campo, a Stupinigi, à Consolata, ao Monte dos Capuchinhos51.

São clássicos os passeios de outono. Há uma variadíssima série deles, que vai de 1847 a 186452. Quando estas terminaram, continuou a ida aos Becchi para cantores e premiados.

Especial desenvolvimento – em torno de duas semanas – tiveram os passeios entre 1858 e 1864. Bem organizados, deles participavam os jovens em grupos sempre mais numerosos. As excursões entravam nas aldeias com a banda na frete, acolhidos com festa pelos habitantes, pelos párocos e pela gente influente do lugar, que garantiam para eles ótima hospedagem e o alimento quotidiano. Os dias previam visitas a pessoas de respeito, funções religiosas matutinas e vespertinas, atividades recreativas, exibições da banda de música, espetáculos teatrais em palcos improvisados na praça. Incluíam cantos, sons, diálogos em dialeto, pequenas comédias: não podia faltar Gianduia, a clássica máscara piemontesa. Histórica foi a de Gênova, na primeira quinzena de outubro de 1864. No caminho de volta, entre Lerma e Mornese, Dom Bosco atraía para si dois personagens de vanguarda na congregação, Francisco Bodrato e Padre João Batista Lemoyne.

Os passeios cumpriam, assim, uma verdadeira função educativa: eles garantiam, acima de tudo, a preservação dos jovens durante as férias, enriquecendo seu mundo emotivo: “fazer como que tocar com as mãos” aos jovens que “servir a Deus pode estar muito bem junto com a honesta alegria”53. Os jovens, depois do ano escolar, recebiam nestes passeios um consistente benefício físico, como uma verdadeira “recreação”, ampla e generosa.



Eram, em substancia, prelúdio das palavras do sistema preventivo: “Dê-se ampla liberdade de pular, correr, fazer barulho quanto quiser”; juntos com outros expedientes, “os passeios são meios eficacíssimos para obter a disciplina, preservar a moralidade e a saúde”54.

1 FRANCISCO ORESTANO, Celebrações, volume I, páginas 76-77; cfr. GEORGE SÖLL, Dom Bosco – embaixador da alegria.Colônia, Kölner Kreis 1977.

2 PEDRO STELLA, Balanço das formas de conhecimentos e dos estudos sobre Dom Bosco, em MÁRIO MIDALI, Dom Bosco na história..., página 35.

3 JOÃO BOSCO, O pastorzinho dos Alpes..., páginas 90-91, OE XV 332-333.

4 JOÃO BONETTI, Anais II (1861-1862), 2 de maio de 1862, página 77.

5 Cfr. ALBERTO CAVIGLIA, Introdução à leitura de A vida de Domingos Sávio, páginas 41-42. O tema “a alegria como fator educativo” em Dom Bosco é particularmente desenvolvido também por F. X. EGGERSDORFER, Educação da juventude..., páginas 263-264.

6 ALBERTO CAVIGLIA, O “Miguel Magone”..., página 149.

7 JOÃO BOSCO, Vida do jovem Domingo Sávio...,página 86, OE XI 236.

8 ALBERTO CAVIGLIA, O “Miguel Magone”..., página 149.

9 MO (1991) 146.

10 JOÃO BOSCO, Esboço biográfico do jovem Miguel Magone..., página 15, OE XIII 169.

11 MB III 320.

12 JOSÉ BROSIO, Testemunho de 1880, páginas 3-5, cfr MB III 438-440; História do oratório..., BS 5 (1881) número 3, março, página 15.

13 MO (1991) 145.

14 MO (1991) 159.

15 ALBERTO CAVIGLIA, Domingos Sávio e Dom Bosco. Estudo, páginas 134.

16ALBERTO CAVIGLIA, O “Miguel Magone”...,página 172.

17 MO (1991) 160.

18 JÚLIO BARBERIS, Crônica, caderno II, página 3. O quinto e o sexto são respectivamente: “os superiores infundem muita confiança e encontra-se sempre no meio dos jovens” e “aquele falar-lhes duas palavras confidenciais e de coração depois das orações” (Ibidem).

19 Duas cartas datadas de Roma..., em PEDRO BRAIDO, Dom Bosco educador..., página 365, 370, 384. F. X. EGGERSDORFER, Educação da juventude..., vê na alegria e no brinquedo generosamente presente nas instituições de Dom Bosco um capital fator de vitalidade e de ativismo educativo ( páginas 283-287).

20 Cfr. FRANCISCO DESRAMAUT, A festa salesiana no tempo de Dom Bosco, no volume A festa na experiência juvenil do mundo salesiano, editado por C. Semeraro. Leumann (Turim), editora LDC 1998, páginas 79-99, particularmente O valor pedagógico das festas salesianas (páginas 97-99); R. ALBERDI, A festa na experiência salesiana na Espanha (1881-1901), Ibidem, páginas 100-129.

21 Cfr. J. M. PRELLEZO, Valdocco no 800..., páginas 83, 109-111, 189.

22 Cfr. J. M. PRELLEZO, Valdocco no 800..., páginas 79, 93, 101-102, 114-118, 155-156, 177-178, 199-200, 202-206. Porém, no primeiro capítulo geral de 1877, “falou-se de coisa perigosa para a moralidade aquela mistura geral que acontece na feira de Maria Auxiliadora e em outros colégios, em ocasiões especiais” ( JÚLIO BARBERIS, Atas, caderno primeiro página 143-144).

23 BS III (1879) numero 7, julho, páginas 8-9; 4 (1880) numero 9, setembro, páginas 9-12; 5 (1881) numero 8, agosto, paginas 15-16; 6 (1882), numero 7, julho, páginas 122-123; 7 (1883), numero 7, julho, páginas 116 e numero 8, agosto, páginas 127-129; 8 ( 1884), numero 8, agosto, páginas 110-116; 9 (1885), numero 8, agosto, páginas 116-119.

24 MB XII 136.

25 Desta é feita a análise nas “conferências” dos educadores para avaliar seu êxito, individuar os inconvenientes, propor melhorias: cfr. J. M. PRELLEZO, Valdocco no 800...,páginas 83-84, 91-93.

26 Até mesmo, desde 1842, segundo MO (1991) 123-125; Depois 125, festas dos pedreiros em honra de Santa Ana; anos depois, 144-146, passeio a Superga; 158-160: “saindo da igreja começava o tempo livre” (páginas 159); 178-180, festa de São Luis; 195-196, festa de Pio IX exilado em Gaeta.

27 “Ocorrendo novena ou solenidade, diga alguma palavra de encorajamento, mas bem rapidamente, se for possível com algum exemplo” (Regulamento para as casas...., primeira parte, capitulo VI Dos mestres de escola, artigo 13, página 35, OE XXIX 131).

28 E II 71-72.

29 MO (1991) 179 e História do Oratório...,BS IV (1880) numero 2, fevereiro, pagina 2; numero 3, março, página 7.

30 MB III 592-594.

31 MB III 231, 535, 623-652; IV 279, 410-412; Em I 157; História do oratório...,BS IV (1880) número 12, dezembro, página 5-6.

32 Na esteira de João de Vecchi, músico da cidade firmar-se-ão sucessivamente em celebradas composições musicais os salesianos João Cagliero, Tiago Costamagna e José Dougliani.

33 Veja-se o convite em língua latina de 27 de maio de 1864, Em II 50-51.

34 Cfr. Carta DE Dom Bosco ao marques Domingos Fassati, 4 de junho de 1865, Em II 140.

35 Cfr. G. PROVÉRBIO, A escola de Dom Bosco e o ensinamento do latim (1850-1900), em F. TRANIELLO, Dom Bosco na história da literatura popular.Turim, SEI 1987, páginas 169-173.

36 Cfr. S. STAGNOLE, Dom Bosco e o teatro educativo salesiano. Milão, eco dos oratórios 1968, 154 páginas.

37 MB X 1.057. Do discurso de Dom Bosco resta ainda a relação manuscrita; as palavras sobre o teatrinho são relatadas pelo cronista em forma incompleta e resumida, FdB mcr 1.870 A 9-B8: “Uma coisa que se deve tomar em consideração e remediar, são também os textos ou as recitações que são feitas. Eu sempre tolerei e ainda tolero isso, mas entendo que seja teatrinho feito unicamente feito para os jovens e não para aqueles que vem de fora. Em toda a casa de educação etc....

38 regras do teatrinho impressa e espalhadas pelas casas em um panfleto de 4 páginas em 1871. São relatadas em MB VI 106-108 e X 1.059-1.061. Em 1877 foram inseridas com variantes no Regulamento para as casas e nas Deliberações do capítulo geral da Pia Sociedade Salesiana celebrado em Lanzo Torinese em setembro de 1877, OE XXIX 146-151 e 432-437.

39 Regulamento para as casas, capítulo XVI Do teatrinho, página 50, OE XXIX 146; Idênticos, à parte a ausência do inciso “feito segundo as regras da moral cristã”, é o proêmio do regulamento publicado um ano depois nas Deliberações do Capítulo Geral ...Celebrado em Lanzo Torinese..., página 56, OE XXIX 432.

40 JÚLIO BARBERIS, Crônica, caderno 4, 17 de fevereiro de 1876, páginas 68-69.

41 JOÃO BATISTA LEMOYNE, As pistrinas e a última hora do paganismo. São Benigno Canavese, tipografia e livraria salesiana 1885, programa da “Coleção de leituras dramáticas”; cfr. BS 10 (1886) número 1, janeiro, páginas 9-10; anúncio em BS 09 (1885) número 1, janeiro, página 15 e na capa; apresentação de As pistrinas em BS 9 (1885) número, março, página 48.

42 Sir 32,5; MB V 540.

43 MB XV 57.

44 Esta expressão lhe veio em Marselha, em 1881, conversando com um sacerdote francês que havia fundado uma Obra de Juventude dirigida em um modo mais austero do que o do seu oratório. Sobre isto ele havia já escrito ao Pare Lemoyne em MB V 347.

45 MO (1991) 123.

46 MO (1991) 176.

47 MO (1991) 182 e 190.

48 MB III 150-152; cfr. MO (1991) 150, 176, 182, 202.

49 MB V 347.

50 EUGÊNIO CERIA, Anais da sociedade salesiana das origens à morte de São João Bosco (1841-1888). Turim, SEI 1941, página 691; cfr. capítulo 64 A música salesiana, páginas 691-701.

51 MO (1991) 140-141, 144-146.

52 Sobre estes passeios existe uma literatura respeitável. O estudo histórico mais elaborado é de L. DEAMBROGIO, Os passeios de outono de Dom Bosco pelas colinas do Monferrato. Castelnuovo Dom Bosco, Instituto Bernardi Semeria 1975, 539 páginas. Os últimos capítulos da História do Oratório publicados no “Boletim Salesiano”, são dedicados aos passeios, BS 11 (1887) número 3, março, páginas 30-33; número 4, abril, páginas 47-48; número 5, maio, páginas 57-58; número 9, setembro, páginas 116-119; número 10, outubro, páginas 129-132. Mais do tempo são os dois volumes publicados por JOÃO BATISTA FRANCESIA, Dom Bosco e os seus passeios de outono no Monferrato. Turim, livraria salesiana 1897, 372 páginas. Do primeiro período (páginas 11-99), são as publicadas no “Boletim Salesiano”, enquanto Dom Bosco ainda vivia; IDEM, Dom Bosco e seus últimos passeios. Turim, livraria salesiana 1901, 388 páginas: do sexto e último período é o passeio à Ligúria (páginas 215-386).

53 MB II 384-391.

54 O sistema preventivo (1877), página 54, OE XXVIII 432.




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