A pedagogia cultural da mídia: o que ela nos ensina sobre os surdos e a surdez?



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A PEDAGOGIA CULTURAL DA MÍDIA: O QUE ELA NOS ENSINA SOBRE OS SURDOS E A SURDEZ?
Adriana da Silva Thoma (UFRGS)
Este trabalho constitui parte da pesquisa que venho desenvolvendo no curso de doutorado em educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e busca investigar as representações sobre os surdos e a surdez presentes no(s) discurso(s) da mídia. Como marco teórico, a pesquisa aposta na aproximação do pensamento de Foucault ao dos Estudos Culturais.

Os Estudos Culturais, preocupados com as diversas formas com que somos interpelados e constituídos pelo currículo cultural das mídias e das distintas manifestações culturais presentes no âmbito social vêm ao encontro da análise que quero fazer dos materiais veiculados em jornais, na televisão e no cinema. Para dar continuidade em direção ao ponto em que desejo chegar (investigando como estes materiais constituem as subjetividades daqueles sobre os quais estão falando) vou me valer da aproximação dos Estudos Culturais ao pensamento de Foucault proposto por Veiga-Neto. Para este autor:




os Estudos Culturais são, ao mesmo tempo, um campo de conhecimentos e de militância. O mesmo acontece com Foucault: muito embora seja bastante comum buscar na perspectiva foucaultiana as ferramentas para tão somente descrever, analisar e entender determinadas práticas e configurações sociais, justamente ao fazer isso fica-se diante da possibilidade de se articular algum novo arranjo, diferente daquele que estava sob escrutínio. Em ambos os casos, está presente uma clara inconformidade, uma atitude explícita contra as condições do presente ou, no mínimo, desconfiada dessas condições. (Veiga-Neto, 2000, p. 48)
O sujeito e o poder são entendidos por Veiga-Neto como questões que podem estar articuladas entre o pensamento de Foucault e o campo dos Estudos Culturais, pois ambas as perspectivas rejeitam o sujeito transcendental proposto pelo Iluminismo. Quanto ao poder, entretanto, Foucault o entende como “uma ação sobre outras ações, todas elas pulverizadas, distribuídas, capilarizadas, manifestações de uma vontade de potência cujo objetivo é estruturar o campo das ações alheia” (id., p.62), enquanto que ao menos uma parte dos Estudos Culturais permanece na matriz de pensamento da teoria crítica, que o coloca (o poder) como algo que “se possui a fim de submeter os outros à vontade de uma classe social (dominante), de uma instituição ou Estado” (idem).

Para Foucault, só é possível pensar a constituição dos sujeitos a partir da análise das relações saber-poder que circulam na sociedade, mas a proposta de Veiga-Neto é de que podemos aproximar este pensamento ao campo dos Estudos Culturais voltando a atenção para produções mais recentes destes, cujas análises são mais pontuais, particularizadas e não se escoram nas metanarrativas Iluministas, bem como podemos continuar adotando o sentido foucaultiano de poder, sem deixar de reconhecer as imposições verticais de poder, estando de acordo com o próprio filósofo, quando diz que “sem dúvida, os mecanismos de sujeição não podem ser estudados fora de sua relação com os mecanismos de exploração e dominação” (Foucault apud Veiga-Neto, id., p. 66).

Esta pesquisa se insere, ainda, nos chamados Estudos Surdos, iniciados em 1997 pelo grupo de pesquisadores e pesquisadoras do NUPPES (Núcleo de Pesquisas em Políticas Educacionais para Surdos), cujos projetos tem se voltado para a ruptura com os tradicionais discursos sobre a surdez e os surdos, que os inscrevem a partir da anormalidade deficiente que não ouve e que necessita ser incluída na sociedade ouvinte da maioria.
Os discursos sobre a surdez e os surdos veiculados pela mídia

Os discursos midiáticos, assim como todos os discursos, são práticas sociais e implicam relações de poder. Os discursos são produzidos a partir da atuação dos indivíduos na produção de significados e de relações sociais. Os sujeitos, portanto, são inventados através de vários significados, idéias e versões de mundo que possuem, segundo Hall (1997b). Os discursos, em geral, são constituídos a partir de inúmeras vozes, que concorrem entre si para construir e posicionar os sujeitos, produzindo diferentes efeitos em cada um de nós. Os discursos constróem significados, valores, crenças e emergem de visões particulares, de modos de agir e de pensar sobre o mundo.

A mídia se apropria e faz circular discursos sobre a surdez, oriundos do campo da medicina, da filosofia, da antropologia e da pedagogia, os quais se ocuparam de nomear e narrar os/as surdos/as e a surdez ao longo dos tempos. Ainda hoje, é clara a influência destes discursos, isolados ou combinados, nas representações que a mídia faz circular acerca destes sujeitos.

Quando discutimos a questão da melhor ou pior nomenclatura a ser utilizada na referência aos surdos/as, permanecemos fixados nas idéias Iluministas que pretendem criar verdades. No contexto dos estudos em que se insere a presente pesquisa, não é esta a questão que está em jogo, mas os efeitos causados pelo uso desta ou daquela forma de nomear o “corpo que não ouve”. Em cada tempo, a partir da hipótese de que há uma força operacional nos conceitos, os/as surdos/as são apresentados (e representados) como deficientes auditivos, surdos-mudos ou simplesmente surdos. Para a comunidade surda brasileira e para os profissionais da área que participam das discussões propostas pelas instituições representativas (clubes e associações de surdos; escolas especiais e federações), a mais recente defesa é para a adoção do termo “surdo” referindo-se a um grupo de sujeitos pertencentes a uma comunidade cultural e lingüisticamente distinta, em oposição ao uso dos termos “surdo-mudo”, que pressupõe a inabilidade dos surdos/as para a fala e “deficiente auditivo”, pois neste o déficit é predominantemente marcado. Mas até que ponto a troca de termos gera mudanças nas práticas?

A tese defendida nesta proposta é de que há uma constituição mútua entre discursos e práticas. Se assim não fosse, de pouca adiantaria a luta empreitada pelos surdos/as no sentido de não mais serem nomeados "deficientes auditivos" ou de "surdos-mudos". Porém, a mudança de nomenclatura nesta área do conhecimento, não tem feito com que os discursos oficiais passem a entender os surdos/as a partir da diferença, pois estes continuam a situá-los no discurso da anormalidade deficiente.

Sobre Representação


Para a Filosofia e a Psicologia Social, representação é um conceito central, embora cada um destes campos o entenda de forma distinta. Em análises culturais mais recentes, representação é um termo utilizado para designar a descrição dos diferentes grupos culturais e suas características, através de formas textuais e visuais. Na perspectiva dos Estudos Culturais, segundo Silva (2000, p. 97), "a análise da representação concentra-se em sua expressão material como "significante": um texto, uma pintura, um filme, uma fotografia". Os Estudos Culturais interessam-se, particularmente, pelas conexões entre identidade cultural e representação, afirmando que não há identidade fora da representação.

A chamada “política de identidade” reúne duas dimensões centrais do conceito de “representação”: representação como “delegação” e representação como “descrição” (...) No primeiro caso, trata-se da pergunta sobre quem tem o direito de representar quem, em instâncias nas quais se considera necessário delegar a um número reduzido de representantes a voz e o poder de decisão de um grupo inteiro. Essa idéia de representação constitui justamente a base dos regimes políticos caracterizados como “democracia representativa”. No segundo caso, pergunta-se sobre como os diferentes grupos culturais e sociais são apresentados nas diferentes formas de inscrição cultural: nos discursos e nas imagens pelos quais a cultura representa o mundo social. As duas dimensões da representação estão, é claro, indissoluvelmente ligadas. (Silva, 1999, p. 33)


Ainda segundo o mesmo autor, a delegação de alguns para falar e agir em nome do "outro", faz com que o processo de apresentação e descrição do "outro" seja dirigido por quem possui esta delegação, pois "quem fala pelo outro controla as formas de falar do outro" (Silva, 1999, p.33-34).

Hall (1997b), por sua vez define representação dizendo que ela é o resultado da produção e das trocas dos significados entre os membros de uma comunidade. A Representação é, acima de tudo, uma das práticas centrais que produzem cultura e a linguagem, consiste no meio pelo qual "significamos" as coisas.

Através da linguagem, os significados são produzidos e "trocados"; o acesso comum à linguagem, permite o acesso a cultura. Os participantes de uma mesma cultura interpretam o mundo através da linguagem, que opera como um sistema representacional, através de símbolos e signos que representam nossas idéias, conceitos e sentimentos.

Representação é o processo pelo qual membros de uma cultura usam a língua (amplamente definida como qualquer sistema que empregue signos, qualquer sistema significante) para produzirem significados. Esta definição já carrega a importante premissa de que as coisas - objetos, pessoas, eventos do mundo - não têm em si qualquer significado estabelecido, final ou verdadeiro. Somos nós - na sociedade, nas culturas humanas -que fazemos as coisas significarem, que significamos. Os significados, conseqüentemente, mudam sempre de uma cultura ou época para outra. (Hall, 1997b, p.61)


As interpretações mais tradicionais entendem que cultura significa o que de melhor tem sido pensado e dito em uma sociedade ("alta cultura"). Entretanto, as visões mais recentes, entendem que não é possível fazer uma distinção entre alta e baixa cultura. Cultura, em ciências sociais, é entendida agora como o modo de vida de pessoas, de grupos sociais ou de uma nação (visão mais antropológica) ou como os valores compartilhados por um grupo ou por uma sociedade (ênfase mais sociológica).

A chamada "virada cultural" coloca a importância do significado na definição de cultura, não tanto como um conjunto de coisas (romances, pinturas, novelas, arte em geral), mas como um conjunto de práticas. A cultura está preocupada agora com a produção e o sentido das práticas, com a troca de significados entre os membros de uma sociedade. Entretanto há, em qualquer cultura, uma extensa variedade de significados sobre as coisas, eventos ou pessoas e várias formas de interpretá-las e significá-las. Os significados culturais organizam e regulam práticas sociais, influenciando nossas formas de entender e agir no mundo. Pelo uso que fazemos das coisas, o que nós pensamos, sentimos e dizemos sobre elas - como nós as representamos, na perspectiva de Hall (1997a; 1997b)- é que damos significados a elas. Porém existem o que Hall chama de contra-estratégias nas políticas de representação, mostrando que muitos significados podem ser resistidos e como um determinado regime de representação pode ser desafiado, contestado e transformado.


As Representações de Surdo e de Surdez nos materiais jornalísticos, televisivos e cinematográficos


Os materiais que veiculam discursos sobre os surdos e a surdez nos meios midiáticos, em particular em jornais, na televisão e no cinema utilizados nesta pesquisa vêm sendo coletados desde 1996. Mergulhar na materialidade discursiva da mídia, diz Fischer (1997, p.67), significa buscar:

as estratégias concretas que esse espaço fundamental da cultura constrói para atingir diferentes grupos sociais e cada indivíduo particularmente, através de objetos que os significam, criando-lhes identidades, mesmo que transitórias,

produzindo, enfim, uma comunidade imaginária que os consola e representa.
Dos materiais coletados nas três mídias que interessam a este trabalho, os jornais são os que se apresentam em maior quantidade, visto terem sido a primeira fonte buscada. São notícias encontradas desde o ano de 1978 até o ano de 2000, conseguidas aleatoriamente, sem que tenham sido vasculhados os arquivos das empresas de onde provém o material. Até o momento foram analisados 17 recortes dos 70 encontrados.

Na mídia televisiva, 10 materiais veiculados a partir de 1998 através de programas e comerciais, foram selecionados para fazer parte do trabalho. Assim como os recortes de jornais, estes materiais foram conseguidos aleatoriamente, apresentando em comum o fato de que todos foram veiculados pela Rede Globo de Televisão ou suas integrantes no Rio Grande do Sul (RBS TV e TV COM) 1, por ser esta emissora considerada a de maior audiência no país e no estado.

Da indústria cinematográfica, oito filmes foram selecionados, entre os 33 a que tive acesso. São fitas encontradas nas duas maiores vídeo locadoras da cidade de Porto Alegre: a “Espaço Vídeo” e a “TV 3 Vídeo Locadora”. A busca destes materiais teve início em 1998, quando comecei a definir o que pretendia fazer enquanto pesquisa.

A arte cinematográfica pode problematizar, diferentemente dos outros discursos analisados - jornais e televisão – que, em geral, apenas veiculam informações ou vendem produtos? Esta é uma questão central neste trabalho, pois não podemos perder de vista o fato de que cada um destes discursos possui um estilo e uma intenção particular.

Através de uma primeira análise, busquei entender as representações que os discursos veiculados oferecem, assim como as resistências apresentadas, em particular pelo discurso cinematográfico, quanto as representações dos surdos e da surdez tão bem estruturadas e fixadas no meio social entre a grande maioria das pessoas que não convivem com este grupo ou que pouco ou nada sabem sobre ele, além do que lhes é ensinado pela mídia. É necessário, entretanto, irmos além, investigando o efeito destes discursos no espaço escolar e que pensemos em como criar condições para problematizá-los, não os entendendo de forma tão tranqüila e natural como vem acontecendo.

Até agora, os materiais puderam ser distribuídos em 10 categorias que se inter-relacionam e que serão brevemente descritas abaixo:



  1. A Metáfora do Silêncio

Inúmeras vezes, a surdez tem sido associada ao silêncio, assim como a cegueira a escuridão e a paralisia a prisão (“ele está preso a uma cadeira de rodas”). Entre os materiais encontrados e selecionados, vários filmes e matérias de jornais utilizam no próprio título a palavra silêncio ou suas derivações.

Porém, “da maneira como o termo é empregado por pessoas ouvintes, o silêncio é uma descrição simplificada, redutora, da experiência vivida por pessoas surdas.” (Lulkin, 2000, p. 93). Em geral, as pessoas que ouvem entendem o silêncio como a total incapacidade para ouvir sons, mas para aqueles que nunca ouviram, o silêncio nada mais é do que uma forma distinta da existência humana, embora o significado atribuído pelos ouvintes possa ser aprendido pelos surdos/as.

Para Wrigley (1996, p.17) o silêncio atribuído à surdez “representa banimento ou, na melhor das hipóteses, solidão e isolamento.”

Alguns exemplos encontrados nos materiais:

No título de 4 dos 8 filmes selecionados:


  • Filhos do Silêncio (1987)

  • Tortura Silenciosa (1993)

  • Morte Silenciosa (1997)

  • A Música e o Silêncio (1999)

Nos recortes de jornais:

  • "Escola faz música e dança em silêncio" (Jornal ZERO HORA: 13 de setembro de 1999)

Nos materiais televisivos:

  • No Programa "Falando Abertamente", do dia 02/julho de 1999, veiculado pela TV COM, a apresentadora Tânia Carvalho inicia perguntando como seria viver num total silêncio, como é realidade de muitos brasileiros e brasileiras que não escutam.




  1. A surdez como falta

Em geral, ao ser utilizada pelas mídias, a palavra surdo/a e/ou surdez não se refere a um grupo antropológico, social, cultural e lingüístico, mas a sujeitos a quem falta algo ou, ainda, os termos surdo e surdez são utilizados como adjetivos de qualificação negativa.

No SEGUNDO CADERNO do jornal ZERO HORA, no dia 23 de junho de 1999, na seção dedicada aos QUADRINHOS E CRUZADAS, aparece uma tira do cartunista Maurício de Souza, onde o personagem Cascão insulta Mônica chamando-a de “bobona, gorducha e dentuça”. Como os xingamentos não surtiram o efeito esperado, Cascão, diante da indiferença da Mônica, volta a insultá-la chamando-a de “surda”, usando o termo como um adjetivo para classificar negativamente sua amiga.

Um mês depois, a tira de Chris Browne, publicada na mesma seção do jornal ZERO HORA (21 de julho de 1999), traz a palavra SURDO como referência a uma situação provavelmente comum em muitas vidas conjugais: Hagar ignora os “berros” da esposa que o importuna com sua solicitação de uma tarefa tipicamente masculina (cortar lenha), para a qual ele sugere ironicamente, ao ser questionado sobre se está surdo, que os gritos da esposa (“barulhos ensurdecedores”) podem estar sendo a causa de sua não escuta ao pedido que lhe está sendo feito.


  1. Resistências Surdas

Nos materiais encontrados, as resistências surdas aparecem, por exemplo, na mídia televisiva através da mostra de como são e como vivem as pessoas surdas, como na Propaganda da Pomada Vick exibida pela REDE GLOBO, feita com a participação de uma atriz surda que vende o produto enquanto é traduzida para as pessoas ouvintes. Ou em entrevistas, como a exibida no Programa “Falando Abertamente” da TV COM, em 02/julho de 1999, quando Ana Luiza, surda que estava participando do programa, diz sobre o quanto a comunidade surda vem lutando pela conquista de seu espaço na sociedade e provando que os surdos são pessoas capazes.

No filme Gestos de Amor, há uma cena em que Fausto, o personagem principal, está em uma reunião da Associação de Surdos da Itália (ASSITALIA), a qual descreverei aqui para uma melhor ilustração.

Durante a assembléia, um surdo se dirige à platéia, composta basicamente por pessoas surdas, enquanto é traduzido por um intérprete, relatando sobre uma inspeção feita nas escolas italianas onde os surdos estavam integrados, denunciando que em 80% das vezes faltavam professores especializados para os surdos ou intérpretes para os surdos: "- A lei existe, só falta ser aplicada. Por isso faremos a manifestação. Os que ouvem não podem nos ignorar! Seremos muitos, embora alguns não gostem de se expor.”, diz ele. Na platéia, uma surda se levanta e comenta: “- São os parentes que impedem. Os surdos livres não têm vergonha da surdez”, ao que Fausto responde: “- Temos vergonha, sim. Todos ouvem na minha família. Me encheram de proibições: isto não pode fazer, aquilo não, não pode... Quando as pessoas descobrem que sou surdo, me rejeitam!”. Outra surda: "- Passei 15 anos dentro de uma gaiola para aprender a ler todos os lábios que há por aí.".

Outro exemplo de resistência surda, pode ser dado por três matérias do jornal Zero Hora, publicadas nos dias 10 de julho de 1995 e 06 e 13 de janeiro de 1999, que falam sobre a presença de intérpretes em provas de vestibular realizadas por pessoas surdas.




  1. A inversão epistemológica da anormalidade

A quarta categoria aqui proposta, fala sobre quando a anormalidade deixa de ser o problema. Alguns filmes sobre pessoas deficientes que têm sido produzidos sugerem esta inversão, como O oitavo dia, filme sobre um Síndrome de Down que vive em uma instituição depois da morte da mãe, de onde foge e conhece Harry, um executivo bem sucedido nos negócios que acaba por repensar todo sua vida após conhecê-lo. Ou em Código para o Inferno, onde um menino autista decifra um código secreto (considerado indecifrável) e coloca em risco a segurança nacional.

Entre os filmes sobre surdos selecionados, esta questão também aparece, como em Na Companhia de Homens (1997), cuja cena final é feita com o foco da câmera voltado para a atriz que interpreta uma personagem surda. Após ter descoberto que havia sido vítima de um jogo de sedução entre dois homens, a personagem surda decide que não os "ouvirá" mais. Um dos amigos apaixona-se por ela e a procura para desculpar-se. Atrás de um balcão, ele grita diversas vezes “me escute!!”, mostrando a inversão dos lugares ocupados por cada um.

Wrigley (1996, p.17), fala sobre as limitações epistemológicas que temos ao analisar a surdez como uma fragilidade e inferioridade, como se estes “outros” não pudessem tomar conta de suas próprias vida. Diz ele:

A partir de uma visão dos Surdos, o ato politizado de alegar uma surdez “nativa” - ou seja, uma surdez de nascença- está ligado à identidade positiva de não estar “contaminado” pelo mundo dos que ouvem e suas limitações epistemológicas de som seqüencial. A “pureza” do conhecimento dos Surdos, a verdadeira Surdez, que vem da expulsão dessa distração é na cultura dos Surdos uma marca de distinção. Seria melhor ainda se os familiares e até mesmo seus pais fossem também Surdos.




  1. Imposição/opressão cultural

A história oficial dos surdos e da surdez que conhecemos, presente na literatura especializada e nos textos da mídia analisados, é uma história narrada pelos que ouvem e falam. Nela estão presentes a oportunidade e responsabilidade dos ouvintes em cuidar e recuperar os surdos. Por outro lado, os surdos reivindicam hoje seu espaço na construção desta história e resistem a opressão cultural de até então.2 Para ilustrar a marca desta representação nos materiais desta pesquisa, tomarei dois dos filmes escolhidos: Filhos do Silêncio e Gestos de Amor.

Em Filhos do Silêncio, em diversos momentos é retratada a educação oralista para surdos, fortemente defendida na época em que o filme foi feito (1987), marcando a imposição cultural, que afirma a necessidade dos surdos aprenderem a falar e se parecerem com os ouvintes.

No filme Gestos de Amor, a mãe de Helena (personagem surda) tenta matriculá-la em uma escola normal. A diretora argumenta que ela já perdeu o trimestre e é melhor que repita o ano. A mãe insiste: "- Helena precisa de uma prova de confiança”. “- Esta é uma escola e não uma instituição beneficente”. “- Para Helena também. Já pedi um professor particular para ela”. As duas continuam, enquanto a mãe insiste na vaga para a filha, a diretora tenta desmotivá-la de todas as formas.

Diretora: “- Fazem as leis mais não as aplicam, (...) os excepcionais devem ficar nas escolas deles!”.

Helena é aceita, mas no primeiro dia de aula, a diretora a leva até a sua classe e diz para a professora: “- A mãe dela fez um escândalo...Fique com ela. Entenderá o que pode”.


  1. A perpetuação da cultura

Para muitas pessoas ouvintes, a surdez é considerada uma degenerescência, uma fatalidade, um silêncio total, como já foi abordado na primeira categoria. Para muitos surdos/as, entretanto, ocorre o contrário. Em Filhos do Silêncio, por exemplo, a protagonista surda declara sua vontade de ter filhos surdos "como ela".

Em A Música e o Silêncio, são abordados os conflitos decorrentes da relação pais surdos/filha ouvintes. O filme conta a história de Lara, uma menina ouvinte que “renuncia a tudo o que mais gosta na vida para tomar conta de seus pais, surdos-mudos”, servia de intérprete para os pais, que dela dependiam para quase tudo, até o momento em que resolve sair de casa e levar sua própria vida. A perpetuação da cultura surda está presente também nos filmes onde a surdez é naturalizada e os personagens surdos convivem sem barreiras de comunicação com os ouvintes, conseguindo ler os lábios e se expressar pela voz, ou quando todos os demais personagens conhecem a língua de sinais dos surdos, como no caso de Morte Silenciosa (1997); Tortura Silenciosa (1993) e Assassinato Perfeito (1998).




  1. A arquitetura das escolas para surdos

Com o advento do oralismo a partir de 1880, a arquitetura escolar é reestruturada. As turmas de alunos surdas devem ser pequenas, a fim de que possam fazer a leitura labial do professor e o treinamento fonoarticulatório através do toque e da percepção vibratória na emissão dos sons. Este tipo de arquitetura escolar permanece vivo ainda nos dias de hoje (talvez sob outros argumentos) em muitas de nossas escolas de surdos brasileiras, mesmo diante do reconhecimento e utilização da LIBRAS. Na legislação vigente, por exemplo, a abertura de uma classe especial para surdos determina o mínimo de 4 alunos surdos até o máximo de 12, sob a crença de que há uma dificuldade maior quando se trabalha com um número de alunos surdos superior a este.

Como exemplos da arquitetura escolar do oralismo, estão cenas do filme Filhos do Silêncio e fotografias de três reportagens feitas pelo jornal Zero Hora nos dias 19 de setembro e 07 de outubro de 1978 e uma terceira em 15 de outubro de 1988 que mostram grupos pequenos de crianças sentadas próximas a professora.




  1. O uso e abuso sexual da mulher surda

A oitava categoria a ser descrita (que muito bem se encaixaria como uma forma de opressão cultural/ categoria 5), diz respeito a forma como a mulher surda é representada em sua sexualidade: "deficiente, mas bonitinha"; frágil e submissa. Em Filhos do Silêncio, Sarah (a personagem surda) é violentada pelos amigos da irmã, que leva os meninos até ela, pois esta era uma boa utilidade a ser dada a quem não ouve. Ou Na Companhia de Homens, onde novamente a exploração do corpo feminino lesado é abordada, conforme relatado na categoria 4 acima.

Também em dois recortes de jornal encontrados, embora não selecionados para este trabalho, haviam denúncias como esta: a primeira, de um pai que violentara a filha: “Pai vai à cadeia por novo estupro” (Zero Hora: 13 de setembro de 1996): “Acusado de estuprar a filha surda-muda de 10 anos, ele negou a autoria do crime. Segundo o titular da DP, a menina prestou depoimento com a ajuda de intérpretes”. A outra nota, intitulada “Surda-muda é vítima de estupro” (Correio do Povo: 05 de novembro de 1996), conta a história de uma “menor de 16 anos com problemas de audição e de fala”, que foi seqüestrada e violentada por três homens, na cidade de Gravataí, no Rio Grande do Sul.




  1. A tecnologia a serviço do surdo

Cada vez mais têm aparecido notícias nos jornais e na televisão, que falam sobre equipamentos desenvolvidos para pessoas com algum tipo de deficiência: são membros biônicos para pessoas com deficiências físicas, óculos com sensores para cegos, impressoras Braille, telefones e pagers para surdos etc. Também em alguns filmes analisados isto está presente: em Tortura Silenciosa, Jilliam (interpretada pela também surda Marlee Matlin) possui um "bip" no qual é escondida a prova de um crime. Em Gestos de Amor, a casa de Fausto possui um telefone TDD, do qual ele pode se comunicar com a mãe.

No Rio Grande do Sul, bem como em outros estados brasileiros, recentemente foram instalados telefones públicos especiais para "deficientes auditivos". A Rede Globo de Televisão adotou o uso de legenda em alguns de seus noticiários que permitem aos surdos terem acesso às informações.

Outro avanço da tecnologia que pode beneficiar as pessoas surdas diz respeito à avaliação precoce da audição dos bebês. Hoje, já é possível fazer uma avaliação da audição no recém-nascido, conforme mostrou a Zero Hora de 27 de fevereiro de 1999, em matéria publicada no Caderno Vida, intitulada “Examine a Orelhinha”.

O implante coclear é outra forte contribuição, segundo a representação jornalística, para a melhoria da qualidade de vida das pessoas surdas e Parece crescerem cada vez mais os investimentos em projetos que tragam a cura definitiva aos surdos.




  1. A cura pela fé

Entre vários exemplos desta representação nos materiais selecionados, duas notícias, uma de vários anos atrás (s.d.) e outra mais recente, do dia 07 de fevereiro de 2000, falam sobre missas especiais que são rezadas para pessoas surdas por um padre surdo gaúcho, o Padre Volmir Guisso.

A catequização dos surdos e a salvação pela fé são ainda hoje fortes ideários de muitas religiões, em particular das igrejas evangélica e católica. Com muita freqüência também os profissionais que trabalham com pessoas surdas são vistos como pessoas especiais, cuja vocação levou a esta escolha e a grande maioria das escolas de surdos continua sendo de ordem religiosa.


Considerações finais


A partir desta breve análise dos materiais, podemos perceber que os surdos/as e a surdez têm sido representados pelo discurso da mídia de forma por vezes contraditória, assumindo interdiscursividades com outros campos do conhecimento, como a medicina, a educação, a filosofia, a(s) religião(ões) e, mais recentemente, a antropologia e a sociologia. Ao mesmo tempo em que se apropria do discurso destes campos, a mídia cria seu próprio discurso sobre a surdez e os surdos, reforçando e alimentando, na maioria das vezes, estereótipos, representações e imaginários que os apresenta como pertencentes a uma categoria excluída e dominada por discursos normalizadores.

A prática e o discurso de normalização veiculados em boa parte dos materiais encontrados, buscam tornar o surdo um “ouvinte” através das chamadas terapias da fala, que se manifestam pelo uso de estratégias, recursos e aparatos tecnológicos oriundos de olhares voltados a hegemonia da raça. Tornar igual o diferente: eis o grande objetivo dos discursos que tradicionalmente falam sobre os surdos e a surdez.

Os discursos sobre a surdez que se apresentam nos jornais impressos, na mídia televisiva e na produção cinematográfica, assim como grande parte dos discursos que têm nomeado o surdo ao longo dos tempos, representam-no quase sempre como espetáculo. Exemplos desta constatação aparecem em diversos momentos da história (Lulkin, 2000 e outros), mas o foco central de minha atenção tem se voltado para o discurso de diferentes mídias por estas possuírem um alcance massivo e formarem parte da pedagogia cultural, entendida na modernidade como constituidora dos sujeitos.

Não há uma linearidade na maneira como os surdos são representados na mídia, mas uma representação em espiral, descontínua, que apresenta idas e vindas, avanços e retrocessos. As representações vão sendo, assim, criadas e legitimadas, produzindo efeitos de sensibilização aos limites que os surdos encontram no mercado de trabalho, na vida escolar e diária e/ou efeitos de superestimação, considerando os/as surdos/as capazes de realização na trajetória escolar, profissional, afetiva, social, familiar, apesar da deficiência. O que menos se percebe (ao menos por aqueles que não convivem freqüentemente com membros desta comunidade) é que tanto em um caso como em outro, o preconceito é o que aparece em primeiro plano.

As tradicionais formas de representar a surdez e os surdos (Skliar, 1999; Thoma, 1998) criam condições de possibilidade para que se reproduzam discursos que falam de uma suposta capacidade olfativa e/ou visual, de atenção e/ou concentração entre outras, como “recompensa” a perda da audição. Na perspectiva da deficiência, este discurso fica centrado no não ouvir, não falar, não poder se comunicar com a sociedade majoritária de ouvintes-falantes, não poder ocupar determinados cargos, não conseguir alcançar índices satisfatórios de escolaridade etc. Quando o foco de atenção é a “deficiência”, o não aparece sempre em primeiro plano, determinando os lugares possíveis e os não possíveis de serem ocupados pelos surdos.

A representação que muitos destes materiais pode gerar é de que a surdez traz consigo outras características de personalidade como forma de compensação ao déficit auditivo, quando por exemplo, lhes atribui uma atenção maior ou propõem que os surdos e surdas são capazes de “levar uma vida normal, mesmo não ouvindo”. O indivíduo útil é uma constante busca em sociedades capitalistas modernas como a nossa e Foucault (1995; 1996; 1997) trata desta questão descrevendo, entre outras, as formas como se dá o controle sobre as mentes e os corpos dos sujeitos a fim de torná-los úteis e produtivos em instituições sociais como as prisões e manicômios. Seus estudos têm servido de inspiração para educadores mostrarem como este controle ocorre de forma similar na escola moderna.

A mídia, faz circular discursos sobre os surdos e a surdez derivados de regimes de verdade, ao mesmo tempo em que cria um discurso próprio sobre eles. Ao dizer o que o surdo é capaz de desempenhar profissionalmente, o(s) discurso(s) midiático(s) se baseiam em informações dadas por profissionais com crenças e valores específicos, difundindo-os em massa. A legitimidade dos discursos da mídia se dá justamente pelo amparo técnico-científico em que se baseia para veicular as informações. Sabendo que, como nos mostrou Foucault (1996; 1997), há uma relação direta e estreita entre poder, saber e verdade, o senso-comum, inúmeras vezes, percebe o que está na mídia como verdadeiro e incontestável, pois provém de um discurso que sabe, que investiga aquilo que torna público. Conseqüentemente, este discurso detém o poder de formar opiniões sobre o que escreve ou apresenta (Fischer, 1996;1997).


Referências Bibliográficas


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1 O seriado Reasonable Doubts, veiculado pela Warner, canal a cabo por assinatura, foi considerado, num primeiro momento, material televisivo possível de ser analisado. Entretanto, nenhuma análise permitiria colocá-lo na mesma categoria que os demais materiais (comerciais e reportagens). E isto por razões claras: os comerciais, em geral, têm a intenção de vender ou divulgar algo ou algum produto e as reportagens, por sua vez, divulgam fatos reais que acontecem no dia-a-dia das pessoas, a fim de mantê-las informadas e/ou atualizadas. Já os seriados, aproximam-se mais das telenovelas ou mesmo do cinema, pois possuem um enredo, uma trama, uma história afinal, que exige outro tipo de linguagem, roteiro, filmagem, edição e exibição.

2 Estou me referindo a comunidade surda organizada e não aos surdos como uma totalidade, pois muitos surdos permanecem ainda no discurso da caridade e da benevolência ouvinte, muitas vezes inculcando-a como verdade e acomodando-se a ela.




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