A obra do Espírito Santo



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A Obra do Espírito Santo

por


Abraham Kuyper, D.D., LL.D.
Professor de Telogia Sistemática na Universidade de Amsterdam
Traduzido do Holandês para o Inglês com Notas Explanatórias pelo Rev. Henri de Vries

Com uma Introdução



por

Professor Benjamim B. Warfield, D.D., LL. D.


do Seminário Teológico de Princeton

 

Indice

- Primeiro Capítulo. Introdução.
I. Tratamento Cuidadoso é Requerido
II. Dois Pontos de Vista
III. As Obras Internas e Externas de Deus
IV. A Obra Distinta do Espírito Santo

- Segundo Capítulo. A Criação.


V. O Princípio de Vida Na Criatura
VI. O Pão do Céu e da Terra
VII. O Homem Criatura
VIII. Dons e Talentos

- Terceiro Capítulo. Re Criação.


IX. Criação e Re Criação
X. Orgânico e Individual
XI. A Igreja Antes e Depois de Cristo

- Quarto Capítulo. A Sagrada Escritura do Antigo Testamento.


XII. A Sagrada Escritura
XIII. A Escritura, uma Necessidade
XIV. A Revelação à Qual a Escritura do Antigo Testamento Deve a Sua Existência
XV. A Revelação do Antigo Testamento por Escrito
XVI. Inspiração

- Quinto Capítulo. A Encarnação do Verbo.


XVII. Como Um de Nós
XVIII. Inocente e Sem Pecado
XIX. O Espírito Santo no Mistério da Encarnação

- Sexto Capítulo. O Mediador.


XX. O Espírito Santo no Mediador
XXI. Não igual para Conosco
XXII. O Espírito Santo na Paixão de Cristo
XXIII. O Espírito Santo no Cristo Glorificado

- Sétimo Capítulo. O Derramar do Espírito Santo


XXIV. O Derramar do Espírito Santo
XXV. O Espírito Santo no Novo Testamento, Diferente que no Antigo.
XXVI. Israel e as Nações
XXVII. Os Sinais do Pentecostes
XXVIII. O Milagre de Línguas

- Oitavo Capítulo. O Apostolado


XXIX. O Apostolado
XXX. As Escrituras Apostólicas
XXXI. Inspiração Apostólica
XXXII. Apóstolos Hoje?

- Nono Capítulo. As Sagradas Escrituras no Novo Testamento


XXXIII. As Sagradas Escrituras no Novo Testamento
XXXIV. A Necessidade da Escritura Néo Testamentária
XXXV. O Caráter da Escrituras Néo Testamentária

- Décimo Capítulo. A Igreja de Cristo


XXXVI. A Igreja de Cristo
XXXVII. Dons Espirituais
XXXVIII. O Ministério da Palavra
XXXIX. O Governo da Igreja

Prefácio do Autor

São comparativamente poucos os tratados especiais sobre a Pessoa do Espírito Santo; e ainda mais raro é o tratamento sistemático de Suas Obras. Em dogmática, é verdade, este assunto é introduzido, desenvolvido e explicado, mas o tratamento especial é excepcional.

Assim como há muito escrito sobre Cristo, há pouco escrito sobre o Espírito Santo. A obra de John Owen neste assunto é conhecida muito amplamente e ainda não ultrapassada. Na verdade, John Owen escreveu três obras sobre o Espírito Santo; publicadas em 1674, 1682 e 1693. Ele era naturalmente um prolífico teólogo e escritor. Nascido em 1616, morreu com a boa e avançada idade de setenta e cinco anos, em 1691. Desde 1642, quando publicou seu primeiro livro, ele não parou de escrever até a sua morte.

Em 1826 Richard Baynes re-publicou os trabalhos de John Owen, D.D., editados por Thomas Russel, A.M., com as memórias e as anotações da sua vida (vinte e um volumes). Esta edição ainda está no mercado, e oferece um tesouro de teologia sólida e completa.

Além dos trabalhos de Owen, eu menciono os seguintes:

• David Rungius, “Proof of the Eternity and Eternal Godhead of the Holy Spirit”, Wittenberg, 1599.


• Seb. Nieman, “On the Holy Spirit”, Jena, 1655.
• Joannes Ernest Gerhard, “On the Person of the Holy Spirit”, Jena, 1660.
• Theod. Hackspann, “Dissertation on the Holy Spirit”, Jena, 1655.
• J. G. Dorsche, “On the Person of the Holy Spirit”, Köningsberg, 1690.
• Fr. Deutsch, “On the Personality of the Holy Spirit”, Leipsic, 1711.
• Gottfr. Olearius (John F. Burgius), “On the Adoration and Worship of the Holy Spirit”, Jena, 1727.
• J. F. Buddeuss, “On the Godhead of the Holy Spirit”, Jena, 1727.
• J. C. Pfeiffer, “On the Godhead of the Holy Spirit”, Jena, 1740.
• G. F. Gude, “On the Martyrs as Witnesses for the Godhead or the Holy Spirit”, Leipsic, 1741.
• J. C. Danhauer, “On the Procession of the Holy Spirit from the Father and the Son”, Strasburg, 1663. J. Senstius, Rostock, 1718, and J. A. Butstett, Wolfenbüttel, 1749. John Schmid, John Meisner, P. Havercorn, G. Wegner, and C. M. Pfaff.

A Obra do Espírito Santo foi discutida em separado pelos seguintes escritores: Anton (“The Holy Spirit Indispensable”); Carsov (“On the Holy Spirit in Conviction”); Wensdorf (“On the Holy Spirit as a Teacher”); Boerner (“The Anointing of the Holy Spirit”); Neuman (“The Anointing which Teaches All Things”); Fries (“The Office of the Holy Spirit in General”); Weiss (“The Holy Spirit Bringing into Remembrance”); Foertsch (“On the Holy Spirit's Leading of the Children of God”); Hoepfner (“On the Intercession of the Holy Spirit”); Beltheim, Arnold, Gunther, Wendler, e Dummerick (“On the Groaning of the Holy Spirit”); Meen (“On the Adoration of the Holy Spirit”), Henning e Crusius (“On the Earnest of the Holy Spirit”).

Os seguintes teólogos Holandeses escreveram sobre o mesmo assunto: Gysbrecht Voetius no seu “Select-Disput” (I., página 466); Sam. Maresius (“Theological Treatise on the Personality and Godhead of the Holy Spirit”) na sua “Sylloge-Disput” (I., página 364); Jac. Fruytier (“The Ancient Doctrine Concerning God the Holy Spirit, True, Proven, and Divine”); exposição de João 15:26, 27; Camp. Vitringa, Jr., (“Duæ Disputationes Academicæ de Natione Spiritus Sancti”) na sua Opuscula.

Durante o presente século, obras sobre este mesmo assunto podem dificilmente serem comparadas com os estudos de John Owen. Notamos as seguintes: Herder (“Vom Paraclet”); Xachei (“Von der Lästerung wider den Heiligen Geist” - Nürnberg, 1875); E. Guers, (“Le Saint-Esprit, Étude doctrinale et pratique sur Sa Personne et Son Oeuvre” - Toulouse, 1865), A. J. Gordon (“Dispensation of the Spirit”).

Esta biografia escassa mostra que tratamento sistemático deficiente é dispensado à Pessoa do Espírito Santo. Estudos sobre a Obra do Espírito Santo são ainda mais escassos. É verdade que há várias dissertações sobre partes separadas da Obra do Espírito Santo, mas ela nunca foi tratada em sua unidade orgânica. Nem mesmo por Guers, que reconhece que seu pequeno livro não merece lugar entre as obras dogmáticas.

Na verdade, Owen ainda não foi ultrapassado, e é, portanto, muito procurado por bons teólogos, sejam clérigos ou leigos. E, todavia, a obra prima de Owen não parece fazer um estudo mais aproximado deste tema excedente. Embora como um campeão imbatível contra os Arminianos e Semi-Arminianos da última metade do século dezessete, sua armadura é muito leve para enfrentar os erros doutrinários da atualidade. Por esta razão, o autor compromete-se a oferecer ao público cristão pensante uma exposição da segunda parte deste tema grandioso, numa forma adaptada aos clamores da época e aos erros do presente. Ele não tratou sobre a primeira parte, a Pessoa do Espírito Santo. Este não é um assunto controverso. A Natureza Eterna do Espírito Santo é de fato confessada ou negada, mas os princípios dos quais a confissão ou a negação são resultado necessário são tão divergentes que torna-se impossível um debate entre o que a confessa e o que a nega. Se jamais adentrassem numa arena eles cruzariam suas lanças no ponto referente aos princípios básicos, e debateriam sobre a Origem da Verdade. E somente após o consenso sobre este tema eles poderiam vir a discutir um assunto especial como o do Espírito Santo. Mas até então, discussão como esta, com eles que negam a Revelação, seria quase que um sacrilégio.

Mas é diferente com a Obra do Espírito Santo. Pois, embora cristãos professos reconheçam esta Obra, e tudo o que ela abrange, e tudo o que dela procede, todavia os vários grupos nos quais eles se dividem representam-na de maneiras muito divergentes. Que diferenças neste ponto, entre Calvinistas e Éticos, Reformados, Kohlbruggianos e Perfeccionistas! As representações dos práticos Sobrenaturalistas, Místicos, e Antinomianos podem dificilmente serem reconhecidas.

Parece-me confuso e impraticável atacar estas opiniões divergentes sobre pontos subordinados. As diferenças nunca deveriam ser discutidas, exceto sistematicamente. Aquele que não tenha primeiro observado, conhecido por completo o campo no qual o Espírito Santo opera, não pode medir com sucesso qualquer parte dele, para a conquista de um irmão seu e para a glória de Deus.

Daí que, deixando as polêmicas de lado quase que por completo, eu me esforcei para apresentar a Obra do Espírito Santo nas suas relações orgânicas, de modo que o leitor possa ser capaz de pesquisar o território inteiro. E ao pesquisar, quem não se surpreende com as dimensões sempre crescentes da Obra do Espírito Santo em todas as coisas que dizem respeito a Deus e ao homem?

Mesmo que honremos o Pai e creiamos no Filho, quão pouco nós vivemos no Espírito Santo! Algumas vezes até nos parece que para a nossa santificação somente é que o Espírito Santo foi acrescentado acidentalmente à grande obra redentora.

Esta é o motivo pelo qual nossos pensamentos são tão pouco ocupados com o Espírito Santo; porque no ministério da Palavra tão pouca honra Lhe é conferida; porque o povo de Deus, quando dobrado em súplicas perante o Trono de Graça, faz dEle tão pouco o objeto da sua adoração. Você sente, involuntariamente, que da nossa piedade, que já é pouca o bastante, Ele recebe uma porção por demais reduzida.

E visto que este é o resultado de uma imperdoável falta de conhecimento e de apreciação da Sua Obra gloriosa em toda a criação, um entusiasmo santo compeliu-me, no poder de Deus, a oferecer aos meus camaradas campeões pela fé que uma vez foi entregue pelos pais, alguma assistência nesse aspecto.

Que o Espírito Santo, cuja Obra divina eu tenho expressado em palavras humanas com língua gaguejante, possa coroar esta empreitada com bênçãos tais que você sinta a Sua Presença invisível mais próxima, e que Ele possa trazer ao seu coração inquieto a mais abundante consolação.

Amsterdam, 10 de Abril de 1888.


Postscript para os leitores Americanos, eu acrescento mais uma observação.

Este trabalho contém polêmicas ocasionais contra o Metodismo, as quais, para os muitos ministros e membros das igrejas chamadas “Metodistas” podem parecer injustas e desnecessárias. Seja, portanto, claramente declarado que a minha controvérsia com o Metodismo não é nunca com estas igrejas em particular. O Metodismo com o que eu contendo, prevaleceu até recentemente em quase que todas as igrejas Protestantes como um fruto prejudicial da “Mudança” no início deste século. Metodismo como aqui inferido é idêntico ao que Mr. Heath, no “The Contemporary Review” (Maio, 1898), criticou como totalmente inadequado para colocar o Protestantismo novamente na cabeça do movimento espiritual.

O Metodismo nasceu do declínio espiritual da Igreja Episcopal da Inglaterra e do País de Gales. Ele surgiu como a reação do subjetivo individual e espiritual contra o poder destrutivo do objetivo na comunidade, como manifesto na Igreja da Inglaterra. Como tal reação era preciosa e indubitavelmente uma dádiva de Deus, no seu desdobramento teria continuado tão salutar como se tivesse retido sua característica de uma reação predominante.

Deveria (o Metodismo) ter considerado a Igreja como uma comunidade, como um poder objetivo, e neste território objetivo deveria ter vindicado o significado da vida espiritual individual e da confissão subjetiva.

Mas falhou ao fazê-lo. Da vindicação dos direitos subjetivos do indivíduo, passou logo ao antagonismo contra os direitos objetivos da comunidade. Isto resultou dogmaticamente na controvérsia sobre a obra objetiva de Deus, em outras palavras, no Seu decreto e na Sua eleição, e em termos eclesiásticos, em antagonismo contra a obra objetiva do ofício, através da confissão. Deu supremacia ao elemento subjetivo no livre-arbítrio do homem e ao elemento individual na decisão “não congregacional” de conflitos na Igreja. Então, não reteve nenhum outro objetivo senão a conversão de pecadores individuais; e por esta obra abandonou o orgânico; e somente reteve o método mecânico.

Como tal, (o Metodismo) celebrou no assim chamado “Reveil[1] seu triunfo mais glorioso, e penetrou em praticamente todas igrejas Protestantes, e mesmo na Igreja Episcopal, sob o nome de Evangelicalismo ou “Igrejismo Baixo”. Como uma segunda reação contra o segundo declínio das igrejas Protestantes daquela época, este triunfo trouxe, sem dúvida, uma grande bênção.

Mas quando surgiu a necessidade de reduzir esta nova vida espiritual a um princípio definido, sobre o qual construir uma vida cristã Protestante e em oposição global às filosofias não-cristãs e à vida essencialmente mundial e panteísta, e professar estas posições e mantê-las; falhou então miseravelmente. Faltou-lhe princípios conscientes e bem definidos; com o seu individualismo e subjetividade ele não poderia alcançar as questões sociais, e, devido à sua completa falta de unidade orgânica, não poderia formular uma vida independente e global; sim, permaneceu em todos lugares, como um obstáculo a tais formações.

Por esta razão, é absolutamente necessário ensinar claramente as igrejas Protestantes a enxergarem esta sombra escura do Metodismo, enquanto que ao mesmo tempo elas deveriam continuar a estudar o seu precioso significado como reação espiritual.

Daí a minha contenda com o Metodismo e o meu persistente apontar para a necessidade imperativa de vindicar sobre, contra e lado a lado da subjetividade puramente mecânica, os direitos do social orgânico em toda a vida humana; e de satisfazer a necessidade do poder de objetividade na presença de declarações extravagantes de subjetividade. Isto pressiona tudo o mais desde que na teologia Metodista da América a tendência moderna está avançando.

A Obra do Espírito Santo não pode ser deslocada pela atividade do espírito humano.

Kuyper.


Amsterdam, 12 de Abril de 1899

 

NOTAS:

[1] - Nota do tradutor: O autor utiliza o termo “réveil”, que pode ser traduzido do Francês como “despertar”.

1º Capítulo.

Introdução.

". . .o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus." [Jo 3:36]; este deve ser o único ponto de vista verdadeiro.

Se subscrevermos esta terrível declaração; não havendo perdido nosso rumo no labirinto de uma tão chamada imortalidade condicional, a qual realmente aniquila o homem, então como podemos sonhar com um estado de felicidade perfeita para os eleitos, ao mesmo tempo em que os perdidos estão sendo atormentados pelos vermes que não morrem? Não há mais amor ou compaixão nos nossos corações? Podemos divertirmo-nos por um único momento, desfrutando da felicidade do céu, enquanto o fogo não é extinto e nenhuma tocha acesa é levada para iluminar a escuridão exterior?

Fazer da felicidade suprema dos eleitos o fim de todas as coisas, enquanto Satã ainda rosna no poço sem fim, é aniquilar o próprio pensamento de tal felicidade. O amor sofre não somente quando um ser humano sente dor, mas até mesmo quando um animal está sofrendo; quanto mais quando um anjo range seus dentes em tortura, e que anjo lindo e glorioso como Satã o era, antes da sua queda. E todavia a própria menção de Satã inconscientemente tira dos nossos corações o incômodo da identificação com a dor, com o sofrimento, e mesmo a compaixão; pois sentimos imediatamente que o conhecimento do sofrimento de Satã no inferno não faz o mínimo apelo para a nossa compaixão. Pelo contrário, acreditar que Satã existe não significaria, nem na mais absoluta desgraça, uma ferida no nosso profundo senso de justiça.

E este é o ponto: conceber a bem-aventurança de uma alma que não esteja em união absoluta com Cristo é loucura profana. Ninguém a não ser Cristo é abençoado; e homem nenhum pode ser abençoado a não ser aquele que é um, vitalmente, com Cristo - Cristo nele e ele em Cristo. De igual forma é profanamente louco imaginar um homem ou um anjo perdido no inferno a menos que ele identifique-se com Satã, tendo tornado-se moralmente um com ele. A concepção de uma alma no inferno, alma esta que não seja uma com Satã é a crueldade mais horrível, da qual cada coração nobre recua-se horrorizado.

Cada filho de Deus é furioso com Satã; ele lhe é simplesmente intolerável. No seu íntimo ser (conquanto infiel possa ser a sua natureza) há uma inimizade amarga, ódio implacável contra Satã. Daí que satisfaz a nossa consciência saber que Satã encontra-se no poço sem fundo. Encorajar no coração um apelo por ele, seria traição contra Deus. Agonia profunda pode traspassar, sua alma como uma adaga pela indizível profundidade da sua queda; não obstante Satã, como o autor de tudo o que é demoníaco e malicioso, que feriu o calcanhar do Filho de Deus, ele nunca pode mover os nossos corações. . . ."




I. Tratamento Cuidadoso é Requerido.

"...que vos dá o Seu Espírito Santo." - I Tessaolicenses 4:8.

A necessidade de direção divina nunca é mais profundamente sentida do que quando alguém se propões a instruir quanto à obra do Espírito Santo - indizivelmente suave é o tema, tocando os mais íntimos segredos de Deus e os mais profundos mistérios da alma.

Nós protegemos instintivamente a intimidade de parentes e amigos de observação intrusa, e nada fere mais o coração sensível do que a exposição rude daquilo que não deveria ser revelado, do que é lindo somente no retiro do seio familiar. Maior delicadeza é apropriada para nossa abordagem do santo mistério da intimidade da nossa alma com o Deus vivo. De fato, dificilmente podemos encontrar palavras para expressar, pois toca um território muito abaixo da vida social onde a linguagem é formada e a utilização determina o significado das palavras.

Vislumbres desta vida têm sido revelados, mas a parte maior tem sido oculta. É como a vida Dele que não clamou, nem levantou nem fez com que a Sua voz fosse ouvida na rua. E que o que foi ouvido de sua voz foi mais sussurrado que falado-um suspiro da alma, macio mas sem voz, ou antes uma irradiar do próprio calor abençoado da alma. Algumas vezes a quietude foi quebrada por um clamor ou mesmo um grito; mas houve principalmente um silencioso trabalhar, um firme ministrar de reprimenda ou um suave conforto por aquele Ser maravilhoso da Trindade Santa, a quem gaguejamos ao adorar como o Espírito Santo.

Experiência espiritual não provê base para instrução; pois tal experiência baseia-se no que ocorreu na nossa própria alma. Isto certamente tem valor, influência, no assunto. Mas o que garante a fidelidade e a exatidão na interpretação de tal experiência? E de novo, como podemos distinguir suas várias origens - de nós mesmos, do ambiente externo, ou do Espírito Santo? A dupla questão sempre existirá: A nossa experiência é compartilhada por outros, e não pode ser corrompida pelo que em nós é pecaminoso e espiritualmente anormal?

Embora não exista assunto no tratamento do qual a alma se incline mais a tirar conclusões baseadas na sua própria experiência, não há nenhum que demande mais que a nossa única fonte de conhecimento seja a Palavra dada a nós pelo Espírito Santo. Depois disso, a experiência humana pode ser ouvida, atestando o que os lábios confessaram; mesmo concedendo vislumbres dos mistérios gloriosos do Espírito, os quais são inenarráveis e acerca dos quais, portanto, não há narrativas nas Escrituras. Mas tal não pode constituir-se em base para instrução a outros.

A Igreja de Cristo, seguramente, apresenta abundante expressão espiritual em hinos e cânticos espirituais, em homilias de exortação e de consolação; em confissão sóbria de almas quase que perto de serem devastadas pelas inundações de perseguição e de martírio. Mas mesmo isto não pode ser o alicerce do conhecimento relativo à obra do Espírito Santo.

As razões a seguir o mostrarão:

Primeiro: A dificuldade de diferenciarmos entre homens e mulheres cuja experiência consideramos pura e saudável; e aqueles cujo testemunho colocamos de lado como forçados e corrompidos. Lutero falava freqüentemente da sua experiência, assim como Caspar Schwenkfeld, o perigoso fanático. Mas o que é a nossa garantia para aprovar os pronunciamentos do grande Reformador e alertar contra os pronunciamentos do nobre Silesiano? Pois que evidentemente, os testemunhos dos dois homens não podem ser igualmente verdadeiros. Lutero condenava como uma mentira o que Schwenkfeld recomendava como realização altamente espiritual.


Segundo: O testemunho de crentes apresenta somente os contornos difusos da obra do Espírito Santo. As suas vozes são fracas como se oriundas de uma região desconhecida; e o seu discurso irregular é inteligível somente quando nós, iniciados pelo Santo Espírito, podemos interpretá-lo a partir da nossa própria experiência. Do contrário escutamos, mas não conseguimos compreender; ouvimos, mas recebemos informação alguma. Somente aquele que tem ouvidos pode ouvir o que o Espírito tem falado secretamente a estes filhos de Deus.

Terceiro: Entre aqueles heróis Cristãos cujo testemunho recebemos, alguns falam claramente, verdadeiramente, vigorosamente; outros confusamente como se estivessem tateando no escuro. E de onde vem a diferença? Uma análise mais próxima mostra que os primeiros tomaram emprestado o seu estímulo, a sua ligeireza, da Palavra de Deus, enquanto que os outros tentaram acrescentar à ela algo novo, que prometia ser grande, mas que tratava-se somente de bolhas, que se dissolveram rapidamente sem deixar nenhum traço.

Último: quando, por outro lado, neste tesouro de testemunhos Cristão encontramos algumas verdades melhor desenvolvidas, mais claramente expressas, mais talentosamente ilustradas do que nas Escrituras; ou, em outras palavras, quando o minério da Escritura Sagrada foi fundido no cadinho da angústia da Igreja de Deus, e moldado em formas mais permanentes, nós então sempre descobrimos em tais formas certos tipos estáveis. A vida espiritual expressa-se diferentemente entre esquimós de alma sincera do que entre Franceses de coração leve. O Escocês exterioriza os sentimentos do seu seu coração transbordante de uma forma diferente da que faz o emotivo Alemão.

Sim, ainda mais impressionante, um pregador obteve uma influência marcada sobre as almas dos homens numa certa localidade; um exortador conquistou os corações do povo; ou uma mãe em Israel proclamou sua palavra entre os seus vizinhos; e o que descobrimos? Que em toda aquela região não encontramos outras expressões de vida espiritual senão aquelas cunhadas por aquele pregador, por aquele exortador, por aquela mãe em Israel. Isto nos mostra que a linguagem, as próprias palavras e formas nas quais a alma se expressa, são em muito emprestadas, e raramente brotam a partir da consciência espiritual de cada um; e destarte não asseguram a exatidão da interpretação que fazem da experiência da alma.

E quando heróis tais como Agostinho, Tomás, Lutero, Calvino e outros nos apresentam algo impressionantemente original, encontramos então dificuldade para entender seu testemunho forte e vigoroso. Pois a individualidade desses vasos escolhidos é tão marcada que, a menos que detidamente examinados e testados, não podemos compreende-los totalmente.

Tudo isto nos mostra que a fonte de conhecimento relativo à obra do Espírito Santo, que num julgamento superficial, deveria verter copiosamente desde os poços profundos da experiência Cristã, trata-se de não mais que poucas gotas.

Assim é que para o conhecimento do assunto nós devemos retornar à maravilhosa Palavra de Deus, a qual como um mistério dos mistérios permanece ainda incompreendida na Igreja, aparentemente morta como uma pedra, mas uma pedra que produz fogo. Quem não viu suas faíscas cintilantes? Onde está o filho de Deus cujo coração não foi inflamado pelo fogo da Palavra de Deus?

Mas a Bíblia direciona pouca luz para a obra do Espírito Santo. Como prova, veja o quanto é dito no Velho Testamento sobre o Messias e o quão comparativamente pouco sobre o Espírito Santo. O pequeno círculo de santos, Maria, Simeão, Ana, João, que, no vestíbulo do Novo Testamento, puderam perscrutar o horizonte do Antigo Testamento com um vislumbre - quanto eles sabiam da Pessoa do Salvador Prometido, e quão pouco da obra do Espírito Santo! Mesmo incluindo todos os ensinos do Novo Testamento, quão fraca e difusa é a luz jogada sobre a obra do Espírito Santo, comparada com aquela sobre a obra de Cristo!

E isto é muito natural; e não poderia ser diferente, pois Cristo é o Verbo feito Carne, tendo forma visível e bem definida, na qual reconhecemos a nossa própria, aquela de um homem, cujo perfil segue a direção do nosso próprio ser. Cristo pode ser visto e ouvido; uma vez as mãos dos homens puderam até mesmo tocar a Palavra da Vida. Mas o Espírito Santo é totalmente diferente. Dele nada aparece em forma visível; Ele nunca sai para fora do espaço intangível. Flutuando, indefinido, incompreensível, Ele permanece um mistério. Ele é como o vento! Ouvimos o seu som, mas não podemos dizer de onde vem nem para onde vai. O olho não pode vê-lo, o ouvido não pode ouvi-lo, muito menos a mão tocá-Lo. Há, na realidade, sinais simbólicos e aparições: uma pomba; línguas de fogo; o som de um vento forte, impetuoso; o respirar dos lábios santos de Jesus; afagar de mãos, um falar em língua estrangeira. Mas de tudo isto nada continua, nada perdura, nem mesmo o sinal de uma pegada. E depois de os sinais haverem desaparecido, o Seu ser permanece tão enigmático, misterioso e distante como nunca. Então quase toda a instrução divina relativa ao Espírito Santo é, da mesma forma, obscura, somente inteligível tanto quanto ele a faça clara aos olhos da alma favorecida.

Sabemos que o mesmo pode ser dito da obra de Cristo, cujo importe real é compreendido solenemente pelos espiritualmente iluminados, que percebem as maravilhas eternas da Cruz. E, ainda assim, que fascinação maravilhosa existe mesmo para uma criancinha, na estória da manjedoura em Belém, da Transfiguração, do Julgamento e do Gólgota. Quão facilmente podemos prender seu interesse falando-lhe do Pai celeste que enumera todos os fios de cabelo de sua cabeça, veste os lírios do campo, alimentas os pardais no telhado. Mas é possível prender a sua atenção na Pessoa do Espírito Santo? O mesmo é verdade quanto aos não regenerados: eles não se interessam muito para falar do Pai celeste; muitos falam sentimentalmente da Manjedoura e da Cruz. Mas falam eles alguma vez do Espírito Santo? Eles não podem; o assunto não tem nenhum significado para eles. O Espírito de Deus é tão santamente sensível que Ele se retira do olhar irreverente dos não iniciados.

Cristo revelou-Se inteiramente. Foi o amor e a compaixão divina do Filho. Mas o Espírito Santo não o fez. A Sua fidelidade salvadora, é encontrar-nos somente nos lugares secretos do Seu amor.

Isto nos traz outra dificuldade. Por causa do seu caráter não revelado a Igreja tem ensinado e estudado a obra do Espírito muito menos que a de Cristo; e tem obtido muito menos clareza na sua discussão teológica. Nós podemos dizer, desde que Ele deu a Palavra e iluminou a Igreja, que Ele falou muito mais do Pai e do Filho do que de Si próprio; não como se fosse egoísmo falar mais de Si mesmo-pois egoísmo pecaminoso é algo inconcebível para Ele-mas que ele deve revelar o Pai e o Filho antes que Ele pudesse levar-nos a um discipulado mais íntimo consigo.

Esta é a razão por que há tão pouca pregação sobre o assunto, que livros em Teologia Sistemática raramente o tratem separadamente; que o apelo e a animação do Pentecostes (a festa do Espírito Santo) às igrejas seja muito menor que o do Natal ou da Páscoa, que infelizmente muitos ministros, de outra forma fiéis, adiantem muitos pontos de vista errados sobre o assunto-um fato do qual tanto eles como as igrejas parecem não ter consciência.

Assim é que uma discussão especial deste tema merece atenção.

Desnecessário dizer que requer grande cautela e tratamento delicado. É a nossa oração, que a discussão possa revelar tão grande cuidado e cautela como exigido; e que os nossos leitores Cristãos possam receber nossos débeis esforços com aquele amor que muito sofreu.





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