A morte e o Seu Misterio Vol 1



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CAMILLE FLAMMARION

A MORTE E O SEU MISTÉRIO

VOLUME 1°

I

PODE SER ATUALMENTE RESOLVIDO O MAIOR DOS PROBLEMAS


II

O MATERIALISMO

Doutrina errônea, incompleta e insuficiente.
III

QUE E O HOMEM? EXISTE A ALMA?


IV

FACULDADES SUPRANORMAIS DA ALMA, DESCONHECIDAS OU POUCO ESTUDADAS, PROVANDO A SUA EXISTENCIA INDEPENDENTE DO ORGANISMO MATERIAL.

Pressentimentos. Adivinhações. Premonições. Sensações em sonhos. Chamadas misteriosas.
V

A VONTADE AGINDO SEM A PALAVRA E SEM QUALQUER SINAL, E A DISTANCIA.

Magnetismo - Hipnotismo - Sugestão mental.

- Auto-sugestão.


VI

A TELEPATIA

As transmissões psíquicas à distância. - Vista e audição telepáticas
VII

A VISTA SEM OS OLHOS, PELO ESPÍRITO, FORA DAS TRANSMISSÕES TELEPÁTICAS. - A LUCIDEZ


VIII

A VISTO DOS ACONTECIMENTOS FUTUROS. - O FUTURO PRESENTE. - O JA VISTO


IX

O CONHECIMENTO DO FUTURO



O fatalismo. - O determinismo e o livre arbítrio. - Problema do tempo e do espaço


I
PODE SER ATUALMENTE RESOLVIDO O MAIOR DOS PROBLEMAS

“Te Be or not be.

Ser ou não ser.”


SHAKESPEARE

Resolvo-me a oferecer hoje à atenção dos homens que pensam uma obra começada há mais de meio século, apesar de ela me não satisfazer completamente. O método científico experimental, o único que vale para a pesquisa da verdade, tem exigências a que não podem nem devemos eximir-nos O grave problema exposto neste ensaio é o mais complexo de todos os problemas e participa tanto da constituição geral do Universo como da do ser humano, microcosmo no grande todo.

E nas horas da mocidade que se empreendem estes estudos sem fim, porque de nada se duvida e temos diante de nós uma longa vida em perspectiva; mas a vida mais longa passa como um sonho, com suas luzes e suas sombras. Se podemos desejar alguma coisa de melhor e útil no curso desta existência, é o de servir da algum modo ao progresso lento, mas todavia real da Humanidade, essa raça bizarra, crédula e céptica, indiferente e curiosa, boa e má, virtuosa e criminosa, aliás incoerente e ignorante no seu conjunto, saída apenas dos casulos da crisálida animal.

Quando foram publicadas as primeiras edições do meu livro A Pluralidade dos Mundos Habitados (1862-1864), certo número de leitores pareceu aguardar a sua natural continuação aparente: A Pluralidade da Existência da Alma. Se o primeiro problema foi julgado resolvido pelos meus trabalhos seguintes (Astronomia Popular, O Planeta Marte, Urânia, Lúmen, Esteia, Sonhos Estrelados, etc.), o segundo ainda o não está (1) e a sobrevivência da alma, seja no espaço, seja-nos outros mundos, seja pelas reencarnações terrestres, põe sempre diante de nós o mais formidável dos pontos de interrogação.

Átomo pensante, levado sobre um átomo material através das imensidades da Via-Láctea, o homem pode perguntar a si mesmo se existe pelo espírito tão insignificante como pelo corpo, se a lei do Progresso não o deve elevar numa ascensão indefinida e se há um sistema do mundo moral harmoniosamente associado ao sistema do mundo físico.

O espírito não será superior à matéria? Qual é a nossa verdadeira natureza? Qual é o nosso futuro destino? Somos apenas chamas efêmeras brilhando um instante antes de nos extinguirmos para sempre? Não tornaremos mais a ver os que amamos e que nos precederam no túmulo? As separações são eternas? Tudo se extingue em nós? Se alguma coisa fica, em que se torna esse elemento imponderável, invisível, mas consciente, que constituiria a nossa duradoura personalidade? Sobreviverá muito tempo? Sobreviverá para sempre?

Ser ou não ser? Eis a grande, a eterna questão, formulada pelos filósofos, os pensadores, os pesquisadores de todos os tempos e de todas as crenças. A morte será um fim ou uma transformação? Existem provas, testemunhos da sobrevivência do ser humano após a destruição do organismo vivo? Até hoje, o assunto tem permanecido fora do quadro das observações científicas. Será permitido tratá-lo pelos princípios do método experimental, ao qual a Humanidade deve todos os progressos realizados pela Ciência? Será lógica esta tentativa? Estaremos diante dos arcanos de um mundo invisível diferente daquele que cai sob os nossos sentidos e é impenetrável aos nossos meios de investigação positiva? Não será possível ensaiar, procurar, se certos fatos, correta e escrupulosamente observados, são suscetíveis de serem analisados cientificamente e aceitos como reais pela crítica mais severa? Dispensemos mais frases, mais metafísica. Aos fatos! Aos fatos!

Trata-se da nossa sorte, do nosso destino, do nosso futuro pessoal, da nossa existência.

Não é somente a razão fria que indaga; não é somente o espírito; é também o sentimento; é também o coração.

E' pueril e pode parecer vaidoso que eu entre em cena; mas é algumas vezes difícil abster-me e, como é sobretudo para responder às dores de corações ulcerados que tenho prosseguido nestas pesquisas laboriosas, parece-me que o prefácio mais lógico deste livro seria oferecido por algumas das inumeráveis confidencias que tenho recebido durante meio século, para reclamar angustiosamente a solução do mistério.

Aqueles que nunca viram morrer um ente adorado, não conhecem a dor, não caíram no abismo do desespero, não tropeçaram com a porta fechada do túmulo. Quer-se saber, e um muro impenetrável ergue-se inexoravelmente diante do pavor. Tenho recebido centenas de adjurações às quais quisera poder dar resposta. Devo tornar conhecidas estas confidências?... Hesitei muito tempo... Mas são tão numerosas, representam com tanta sinceridade o intenso desejo de chegar a uma conclusão, que o meu caminho está traçado, visto tratar-se do interesse geral. Tais manifestações são a introdução natural desta obra, pois foram elas que me determinaram a escrevê-la. Peço desculpa, entretanto, de reproduzir estas páginas sem as modificar, pois se revelam o estado da alma dos seres sensíveis que as conceberam, exprimem a meu respeito conceitos elogiosos cuja publicação neste lugar poderia dar ensejo a crer-se numa falta de modéstia da minha parte. Isto não passa de particularidade pessoal, e, portanto, insignificante, tanto mais que um astrônomo, que se considera átomo diante do Universo infinito e eterno, é inacessível e: hermeticamente fechado às sensações da vaidade mundana. Os que me conhecem já me julgaram, a este respeito, faz longos anos.

A minha absoluta indiferença por todas as honrarias prova-o suficientemente.

Que me chamem grande ou pequeno, que me louvem ou que me censurem, sou espectador longínquo desses atos.

A seguinte carta foi escrita por desolada mãe, e transcrita textualmente. Ela mostra quanto seria desejável tentar, ao menos, aliviara miséria da Humanidade sofredora. Mais do que a medicina do corpo, é a medicina da alma que se deveria criar.


AO NOSSO GRANDE FLAMMARION

Reinosa (Espanha), 30 de Março de 1907.


Senhor:

Quisera ajoelhar-me diante do senhor e beijar-lhe os pés, pedindo que me ouça e que não repila a minha súplica. Não sei nem posso exprimir-me; desejava inspirar-lhe lástima, interessá-lo na minha dor, mas era preciso vê-lo, contar-lhe a minha desgraça, pintar-lhe o horror do que se passa em minha alma, e então não lhe seria possível deixar de sentir imensa compaixão. E' necessário que eu padeça muito para chegai a cometer um ato de audácia e de indiscrição que parece uma loucura! Como me lembrei de dirigir-me ao nosso ilustre Flammarion para pedir-lhe que console uma desconhecida que não tem outro titulo a sua benevolência senão o de compatriota? E' porque sofro! Venho de perder um filho, o meu único filho. Sou viúva e toda a minha felicidade consistia nesse filho e numa filha. Para que me pudesse compreender, Senhor Flammarion, seria preciso que tenha conhecido o filho adorado que acabo de perder e que eu lhe descrevesse os trinta e três anos de sua existência.

Condenado por todos os médicos célebres de Madrid e de Paris, na idade de cinco anos, em virtude duma coxalgia, sacrifica, eu e meu pobre marido, uma bela situação em Madrid, retirando-nos para triste campina espanhola, a fim de salvarmos a idolatrada criança. Esteve doente durante oito anos e ficou coxo! Quanto me custou de cuidados, de aflições, de noites de insônia, de angústias, de sacrifícios, é impossível dizer! Mas como era gentil! Criado num carrinho, coberto de carícias e de beijos, era a criança mais adorável que se podia sonhar! Ah! essa infância! Se ela perdurasse ainda! Aos doze anos já não sofria da perna, mas não podia andar sem muletas. Que pesar para mim, que o havia dado ã vida, forte e bem constituído! Mais tarde, aos dezessete anos, caminhava com uma única muleta e uma bengala. Aos vinte, era o mais belo moço que se possa imaginar. Se não temesse ser ousada, enviar-lhe-ia o retrato, para lhe mostrar que o amor materno nada exagera. O seu encanto subjugava toda a gente. Possuía esse dom de agradar que não se explica nem se define! Homens, mulheres, crianças, velhos e novos, deixavam-se seduzir por qualquer coisa inexplicável, que irradiava da sua pessoa. Em toda parte onde fosse com ele, recebia felicitações pela beleza e pela bondade de meu filho! Invejavam-no'. Porque era tão belo como bom. Em sua alma tudo era nobreza, grandeza, generosidade.

Inteligente, espirituoso, de caráter igual e terno, a vida com ele era um sonho celeste, um perpétuo encantamento! E poderá avaliar-lhe o mérito, Senhor Flammarion, quando eu lhe disser que aos vinte anos teve uma cistite - provavelmente um retrocesso à sua primeira doença - que foi o ponto de partida de longa série de sofrimentos, dos quais só o inferno dará idéia! Não posso compreender que Deus, nosso Criador, permita que a carne humana seja assim martirizada Sobretudo, quando esse martírio é imposto a um ser inocente e bom como era meu filho.

Todos os grandes especialistas foram novamente consultados; mas, infelizmente! Nenhum o pôde curar. Passou treze anos em alternativas de melhorar e piorar, conservando, no meio de dores atrozes, a mesma igualdade de caráter, a mesma doçura, a mesma bondade e a alegria de sempre, para não entristecer os outros.

Fazia quatro anos que pouco sofria; e o ano passado encontrava-se tão bem que se julgara curado! Desde a morte de meu pobre marido, falecido em 1902, que meu filho era o chefe de nossa pequena família: mãe, irmã e ele. Como éramos felizes! Ainda que obrigados a trabalhar para angariarmos o nosso pão, a vida parecia-nos tão bela! Minha filha não quis casar-se para se consagrar inteiramente ao irmão, a quem adorava. Via os meus dois filhos amarem-se tanto que não receava a morte, certa de que seriam inseparáveis, vivendo um para o outro.

Que lhe dizer senhor, da ternura de meu filho para sua mãe e da desta por seu filho? Procure no Céu, entre os anjos, lá bem alto, nesses mundos onde a sua vista penetra tudo o que a ternura pode produzir de mais suave, de melhor, e terá, perfeita idéia do amor filial e do amor materno desses dois entes! Nem quero pensar nisso! Não ouso lembrar-me dos olhos, da voz de meu filho quando, fitando-me, dizia: Querida mãe!

O ano passado, em Agosto, propuseram-lhe visitar uma mina (ele se interessava por esses negócios e deles se ocupava havia algum tempo) e quis levar-me com ele. Chegados a certo sítio, diseram-nos que era preciso montar a cavalo para chegarmos até ã mina. A principio recusei, sabendo que a equitação lhe era proibida devido ao sofrimento da bexiga; mas meu filho me garantiu que poderia fazer esse trajeto sem perigo; hesitei, parlamentou-se; cedi.

Ah! não ser possível remediar o mal praticado!... Essa excursão fatigou tanto meu filho que ele adoeceu com febre gástrica. Entregue aos cuidados de médicos ignorantes e estúpidos que não conheceram os seus estado e levaram meses a dizer que não era nada, um tumor invadiu-lhe a bexiga e, não podendo as membranas suportar essa prova, ela rebentou!

Os suplícios do inferno nada são comparáveis às torturas experimentadas por meu infortunado filho! Foi chamado um cirurgião célebre; chegaram vinte e duas horas depois do acidente, quando o enfermo já estava prestes a partir para o outro mundo!

Foi operado, mas era tarde. O infeliz sobreviveu treze dias ã operação; o cirurgião só lhe dava vinte e quatro horas de vida. Compreendendo, porém, a dor de sua mãe e de sua irmã, resistiu, lutou corajosamente, apesar de tudo. Ah! que treze dias, senhor! Durante esse tempo, deu-nos a medida da grandeza de sua alma.

Não pensando senão em nós, nas conseqüências da sua morte para as duas mulheres que ficavam sós, sem apoio em terra estranha, a chorar eternamente o filho adorado, um irmão, procurou por todos os meios suavizar a crueldade desta situação. O que nos disse nesses momentos supremos não é de um moço de trinta e três anos, mas de um santo, de um anjo, de um ente sobre-humano! Oh! aquele rosto torturado pelos sofrimentos! Aqueles olhos que pareciam ver alguma coisa do Além!

E a sua boca, contraída pela dor, procurando ainda Sorrir; a sua mão apertando a minha, enquanto me dizia: 'Adeus, mãe querida! adeus! Amava-te tanto! Não te esqueças de mim!

Senhor todo poderoso, dizia ele, não deste maior cruz a teu filho que era Deus, do que a mim que sou um pobre homem! A morte! A morte por piedade! Se me quereis, mãe, pedi a Deus que me envie a morte!

E foi assim durante treze dias.

O Flammarion! tenha compaixão de mim! Em nome de sua, mãe, seja misericordioso! Estou louca de dor. Há trinta e dois dias que ele morreu e, depois disso, não consegui dormir dez horas. À noite, fico de pé até as quatro da manhã, e quando, vencida pelo cansaço, me deito, vestida, no meu leito e fecho os olhos, a idéia fixa continua durante o penoso sono; não perco a lucidez um só minuto e, quando abro os olhos, experimento a obsessão que perdura durante o dia. E' tão assustador o que sinto, e tão atroz, que a mim mesmo pergunto se o inferno não será preferível ao que sofro!

E possível que seja Deus o criador de seres destinados a suportar semelhantes misérias?

O senhor, astrônomo e pensador, que pesa os sóis e os mundos e cuja vista penetram nessas regiões misteriosas onde o nosso espírito se perde, oh! Diga-me, suplicá-lo de joelhos, se as almas sobrevivem se posso conservar a esperança de tornar a ver meu filho e se ele me vê! Existirá algum meio de comunicar com ele?

Ao senhor, que sabe tantas coisas sobre o céu, sobre os Espíritos, sobre as maravilhas do Universo, peço, por piedade, que me diga uma palavra que deixe um raio de esperança, por fraco que seja, no meu coração despedaçado, magoado, martirizado! Não pode compreender o excesso da minha dor! Quisera morrer dela, e assim o espero, mas... Minha filha implora-me que viva que a não deixe só no mundo, e vejo-me obrigada a viver e a sofrer! Que horror! Quando penso que num só instante podia pôr fim a este suplício!... Se fosse possível pesar a dor, medi-la como 0 senhor media os mundos, seria tal o peso da minha, tamanha a extensão, que o assustaria pensar que uma alma possa atingir tal grau de tormento. E' preciso que haja para isso alguma coisa de infernal no meu destino! Nem ferros em brasa, nem tenazes de tortura são capazes de produzir semelhantes sofrimentos! Meu filho, meu filho adorado! Desejo vê-lo. Não quero o Céu sem ele! Oh! Meu Emmanuel, idolatrado filho das minhas entranhas! Alegria da minha vida! Felicidade de mãe, para sempre perdida! Há um Deus? Será ele quem permite estes horrores sobre a Terra? Por piedade, Senhor Flammarion, em nome dos que ama e que o amam, não seja insensível à maior dor humana que jamais supliciou um coração; diga-me alguma coisa, o senhor que possui o segredo dos céus! Que muito sabe, pois nós, simples mortais, não o sabemos nem o compreendemos. Diga-me se as almas sobrevivem em alguma parte, se elas se recordam, se elas amam ainda os que ficam na Terra, se nos vêem, se podemos chamá-las para junto de nós!

Ah! Se pudesse visitá-lo e ajoelhar a seus pés! Perdoe este proceder insensato; estou louca de dor, não sei se sonho ou se estou acordada! Sei que sinto uma dor aguda que parece ferro em brasa posto sobre uma chaga!

Perdoe Senhor Flammarion! Os seus sóis, as suas estrelas, tão belas e maravilhosas, não sofrem, não sentem, e eu sinto uma dor maior que todos os mundos que se agitam no espaço! Ser tão pequena coisa, tão miúda, e, entretanto sentir uma dor tão intolerável! Que é isso? Que mistério é esse? Um ser tão fraco, tão limitado e... Sofrer tanto!

Perdoe mais uma vez, Mestre, em nome de sua mãe! Perdoe-me e tenha compaixão de sua infeliz compatriota.

VIUVA N. BOFFARD

(Reinosa (Espanha), Província de Santander.).

Aí está a carta angustiada que reproduzo textualmente para mostrar todo o horror de semelhante situação. Que me desculpem, mais uma vez, as expressões ditirâmbicas que me dizem respeito. A única significação que têm é a de fazerem sentir com exatidão essas dores imensas, duplicadas pela esperança ardente de se verem dissipar as trevas.

Seria preciso ter um coração de pedra para não nos comovermos, até às lágrimas, diante dessas súplicas lancinantes do amor materno, para ficarmos surdos ante a angústia de tais desesperos e para não experimentarmos o desejo ardente de consagrar a vida a dar-lhes remédio.

Os padres recebem diariamente suplicações desta ordem, porque são considerados ministros de Leus, dotados do poder de penetrar o enigma do sobrenatural e de resolvê-lo. Respondem a essas dores levando-lhes os confortos da Religião. O sacerdote afirma em nome da Fé, da Revelação; mas a fé não se impõe nem é tão geralmente aceita quanto se imagina. Conheço padres, bispos, cardeais que a não têm, apesar de a indicarem como benefício social. Há, na Terra, umas cinqüenta religiões diferentes, úteis talvez, mas inaceitáveis sob o ponto de vista filosófico. Em face dos espetáculos que acabamos de relembrar, poderão seus ministros convencer-nos de que um Deus bom e justo rege a Humanidade? O homem de ciência não se senta nem no confessionário nem na cátedra evangélica e só pode dizer o que sabe. É, antes de tudo, leal, franco, independente, racional. O seu dever é estudar, pesquisar. Procuramos ainda e não afirmamos ter encontrado e muito menos ter recebido do Céu a revelação da Verdade. Foi tudo quanto pude responder à desconhecida, dando-lhe a esperança de tornar a ver um dia seu filho e de ficar doravante em relação espiritual com ele. Quanto eu estimaria levar à sua alma uma convicção libertadora! Mas não tenho, como Augusto Comte, Saint-Simon ou Enfim, a ilusão de ser o grande sacerdote de uma nova religião. Entretanto, não há dúvida de que a religião universal do futuro será fundada na Ciência e em particular na Astronomia associada aos conhecimentos psíquicos.

Procuremos humildemente e todos juntos. Perdoem-me ainda por reproduzir as linhas elogiosas desta epístola: mas suprimi-las seria suprimir ao mesmo tempo a expressão dessa angústia, dessa confiança e dessa fé.

A morte de um filho inspirou a carta precedente. A de uma filha ditou a seguinte:

Theil-sur-Vanne, Novembro, 1899.


Mestre:

Tenho a honra de conhecê-lo suficientemente pelas suas obras, para saber que é bom e para esperar, embora me não conheça o seu assentimento em ler-me com indulgência e que se compadecera moralmente com a minha desgraça, concedendo-me o socorro espiritual de que tanto preciso.

Em 19 de Setembro findo passei pela dor terrível de perder uma encantadora criança de dezesseis anos e meio, de grande inteligência, de esquisita delicadeza de sentimento. E como era bela!

Pensávamos que tínhamos diante de nós uma criatura imaterial, tanto o seu corpo casto era de ninfa como o seu rosto angélico eram idealmente lindos.

A minha queridinha. Com seus magníficos olhos azuis, tão expressivos, franjados de pestanas negras, assim como as sobrancelhas tão delicadamente arqueadas, o nariz um pouco longo, fino, direito, a boca talvez grande, mas de expressão tão meiga, o rosto de oval tão harmonioso, uma tez de lírio branco! , Gentil covinha no mento imprimia destaque ao seu sorriso, iluminando-lhe o rosto ordinariamente bastante sério.

Esplêndidos cabelos louros castanhos, anelados naturalmente e finamente encrespados qual musgo de ouro, ornavam-lhe a fronte virginal; as orelhas, mimosas conchas escondidas nos cabelos, eram ninhos de beijos em que jamais pousarei os lábios ávidos de ternura...

Minha filha bem-amada já não vive meus olhos nunca mais descansarão amorosamente no seu rosto adorado, só a posso chorar.

Tantas perfeições morais e físicas aniquiladas brutalmente, estupidamente, cruelmente, barbaramente! A morte desapiedada tudo me roubou. A minha Renata estremecida partiu e eu vivo. A vida... Que terrível galé!...

Com ela acabaram as nossas interessantes conversas, os nossos colóquios sobre as questões mais abstratas do Além, pois minha filha, apesar de moça, era pensadora, uma preciosa amiga, a minha confidente e minha companheira amada Era tudo para mim, essa bela flor ceifada antes ai desabrochar. Por quê? Que problema!

Depois da sua morte, pensei muitas vezes no suicídio para reunir a ela... , mas (seria intuição de seu próximo fim?) na véspera de expirar, disse, beijando-me com carinho: A mamã não se hão de suicidar; devemos esperar, não é assim?Fiquei surpreendida e só compreendi tudo no dia seguinte, quando, branca como um lírio admirável, ela fechou seus belos olhos para sempre, dando-me um último beijo.

Ah! Este beijo derradeiro! Pós nele o resto de sua vida. Sinto-o sempre. Que momentos!... Que torturas!

Hora suprema e inolvidável, que revivo sempre! Amo o meu sofrimento. Vejo a minha querida morta que havia adivinhado o meu desespero: ela quis que eu ficasse, para chorá-la. O meu pesar é feito de saudades estéreis, de decepção amarga, de revolta contra todos e tudo; barafusto contra o próprio Deus que me levou mais do que mil vezes a vida. Agora, só posso viver da recordação de minha filha, meu pensamento constante, meu culto, minha adoração.

Quisera encontrar, se isso fosse possível, uma suavização à minha dor, no Espiritismo; refugiar-me nele com fé, esperança e amor...

Mas sou bem pouco iniciada neste estudo.

Meu marido e eu temos tentado a experiência da mesa, sem resultado, apesar de empregarmos todos os esforços para conseguir, colocando nela o retrato de nossa querida filha, um anel de seus cabelos, uma página de sua escrita, e de termos evocado com toda a força de nossa vontade. Mas as nossas lágrimas, os nossos apelos, os nossos desejos, tudo foi inútil! Quero continuar, perseverar, e é com esse fim, caro e ilustre Mestre, que lhe suplico o seu auxilio.

Ainda existe aquela cuja vida em flor foi tão brutalmente ceifada, que era tão pura, que teve apenas o tempo de amar sua mãe?

Sua mamãe, palavra tão doce na sua querida boca! Eu era demasiadamente feliz! Há quanto tempo já que não ouço o suave som da sua voz! Para ouvi-lo ainda, daria de bom grado os anos que me restam de vida.

Desejo avidamente ter provas da sobrevivência da alma querida e bela de minha adorada Pilha, saber, sobretudo se ela pode comunicar comigo. Se alcançasse esta felicidade, dirigida pelo meu caro Mestre, tal fonte perene de consolação seria para mim indizível. Confundi-lo-ia no mesmo pensamento com minha filha e Deus. A leitura das suas obras admiráveis sugeriu-me o pensamento de por em si as minhas esperanças, com a certeza de que pode satisfazer o que lhe peço, e a confiança em que acolherá favoravelmente a súplica duma pobre mãe que exulta à esperança de tornar a encontrar sua filha desaparecida e não morta. Seja benévolo para esta mãe triste e ignorante. Já que possui a luz, alumie-a, socorra-a na sua miséria moral: é a mais bela esmola que lhe pode fazer.

O meu grande desejo de aprofundar esses mistérios não é vã curiosidade: é necessidade poderosa, real, única, da qual só a morte me poderá libertar. Aguardo, com confiança, mas também com impaciência, a sua resposta, e, se assim o julga conveniente, irei de boa vontade a Paris, ou a outro qualquer sítio que me designar.

Digne-se, senhor e ilustre sábio, receberem os meus agradecimentos antecipados e os melhores sentimentos da sua humilde criada.

R. PRIMAULT (2)

Reproduzi exatamente esta carta, como a precedente, sem eliminar os termos elogiosas a meu respeito, porque, como já disseram em outro lugar, as sensações de vaidades pueris são-me desconhecidas, e, além disso, estou acostumado, há mais de meio século, a louvores que me deixam indiferente. A convicção absoluta de um astrônomo é a de que somos apenas átomos da última insignificância. Todavia, essas expressões de admiração de leitores a um autor, seja ele quem for, justificam a confiança e a fé exprimidas e devem ser respeitadas.

A lealdade científica obriga-nos a dizer só o que sabemos. Não devemos enganar ninguém, nem mesmo na melhor das intenções e com o fim de oferecermos uma satisfação transitória. Não pude dar à pobre mãe uma certeza absoluta. Foi há vinte anos. Desde essa época, não interromperam as minhas pesquisas. Este livro é escrito para expor os resultados do meu trabalho.

Tomei a liberdade de reproduzir, textualmente também, a carta tão terna da minha correspondente desconhecida, porque é a expressão da dor de todas as mães que perderam o seu filho, de todos os que perderam um ente querido e para os quais até o nome de bom Deus parece um insulto à realidade. Explica-se perfeitamente a revolta dessas almas. Possuo muitas outras cartas mais severas ainda para as falsas consolações religiosas, as quais me foram dirigidas por católicos, protestantes, judeus, espiritualistas de todas as crenças, livres-pensadores, materialistas, ateus, aproveitando as injustiças observadas para negarem a existência dum Princípio inteligente na organização do mundo. Os homens consolam-se muitas vezes pelo cepticismo, pela submissão ao irrevogável, pela verificação da indiferença da Natureza para com as impressões humanas. As mulheres não. Essas não se resignam. Não aceitam o Nada. Sentem que há quaisquer coisas de desconhecido, mas de real. Querem saber.

E raro passar-se uma semana sem que eu receba cartas deste gênero. Mas, qual é a inteligência universal? Somos inclinados a imaginar que Deus pensa como nós, que o nosso sentimento da justiça está de acordo com o dele, que o seu pensamento é da mesma natureza que o nosso, apesar de infinitamente superior. E' talvez outra coisa. O inseto pensa pesadamente quando se transforma em crisálida e quando rompe este invólucro para abrir as asas que acaba de adquirir; o nosso pensamento está presumivelmente tão longe do de Deus como o da lagarta o está do nosso.

Encontramo-nos em pleno mistério! Mas o nosso dever é de o perscrutar.

Durante a infame guerra alemã que suprimiu na flor da idade uns quinze milhões de homens, com direito à vida, criados pelos pais, pelas mães, muitas vezes à custa de sacrifícios enormes, recebi centenas de cartas acusando a injustiça e a barbaria das instituições humanas, lastimando que o ódio pela Guerra, que um grupo de amigos da Humanidade prega há tanto tempo, não tenha sido compreendido pelos governantes, revoltando-se contra Deus que permite estas pavorosas destruições, e declarando as suas existências despedaçadas para sempre, pelos lutos irreparáveis.

Mais que nunca, o problema atroz dos destinos ergue-se diante de nós.

Será verdadeiramente insolúvel? O véu não poderá afastar-se, levantar-se mesmo ligeiramente?

Ah! As religiões, apesar de terem todas por origem esta necessidade das nossas almas, este desejo de conhecer, a dor de ver diante de si o cadáver mudo de um ente querido, não nos deram as provas que prometiam. As mais belas dissertações teológicas nada comprovam. Não são frases que queremos, são fatos demonstrativos. A morte é o maior problema que jamais tem ocupado o pensamento dos homens, o problema supremo de todos os tempos e de todos os povos. Ela é fim inevitável para o qual nos dirigimos todos; faz parte da lei das nossas existências sob o mesmo título que o do nascimento. Tanto uma como outro são duas transições fatais na evolução geral, e, entretanto a morte, tão natural como o nascimento, parece-nos contra a Natureza.

A esperança na continuação da vida é inata na alma humana; é de todos os tempos e de todos os países. A cultura das ciências nada tem com esta crença universal, que repousa em aspirações pessoais e não se apóia em bases positivas.

Eis aí um fato cuja averiguação tem seu valor.

O sentimento não é uma quantidade omissível, igual a zero, seu coeficiente científico.

As duas comunicações já reproduzidas pertencem a uma série começada há muito tempo e que os meus leitores conhecem. O número das cartas recebidas, aceita e inscritas nesta coleção de documentos, de observações, de pesquisas, de perguntas motivadas, eleva-se, no meu registro, desde o inquérito começado em 1899 (ver minha obra

Grande Irmão,

Meus olhos sofrem de cataratas, mas é preciso que lhe escreva. Sou um céptico, um zombeteador empedernido, mas necessito crer em alguma coisa. Uma terrível catástrofe, irreparável, acaba de destruir quatro existências. Minha filha, cujo encanto, índole, gracilidade haviam seduzido toda a cidade de Rochefort, em 1902, desde as mães das rivais às próprias rivais para o casamento, acaba de seguir para o manicômio em Niort, onde vai aguardar a morte... Foi uma agonia de dezoito meses para a mártir e para sua pobre mãe, que a levou a Paris, Bordéus, Saujon, onde especialistas ambiciosos mostraram a incapacidade radical de sua pretensa ciência. E aqui estou sozinho com meu filho, vitima da mesma catástrofe. A idéia do suicídio persegue-me. O meu cérebro repete o estribilho: sua filha está doida. E penso nas misérias gerais, no imenso logro que é a vida para a maioria das criaturas. Trazemos, ao nascer, a tara dos nossos ascendentes (com que direito se metem nisto?). Qual será a nossa personalidade paralisada, afundada na espessa massa carnal? Pelo seu jogo molecular, pelo exemplo da educação dos parentes, pela linha de vida obrigatória, pelas condições da situação física e moral dos pais, essa ganga seria então a poderosa diretriz da personagem que acaba de encarnar-se, ou antes, de fundir-se num agregado de que será escrava por toda a vida. Que quer dizer tudo isto?



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