A literatura salesiana ontem e hoje



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A LITERATURA SALESIANA ONTEM E HOJE: duas sensibilidades em confronto

Amador Anjos

NB. Literatura, no sentido que aqui lhe damos:

conjunto de formas de expressão no discursos oral e escrito


O tema visa apresentar a maneira como, na Congregação salesiana, se escrevia e falava ontem e como hoje se fala e escreve sobre Dom Bosco (DB) e a sua obra, pelo menos ao nível dos estudiosos.

Tomamos como ponto de separação entre o ontem e o hoje a Segunda Guerra Mundial, ou seja, a década de 40. E tomamos como pontos de referência da literatura salesiana as Memórias Biográficas, por um lado, e, por outro lado, os estudos críticos sobretudo a partir de Pietro Stella (1968).



1. Dois factos significativos
- Primeiro facto. Um grupo de estudantes da faculdade de teologia do PAS apresenta a Eugénio Ceria uma série de observações pondo em causa a credibilidade das MB. Estamos em 1946, isto é, no rescaldo da guerra. O PAS encontrava-se então em Bagnolo (Piemonte). Tinha sido para aí transferido de Turim por causa dos bombardeamentos que flagelavam a capital do Piemonte. As observações eram sete:


  1. Diz-se que o padre Lemoyne não foi propriamente um historiador, mas um romancista da história.

  2. Nas MB superabundam factos que não resistem à crítica.

  3. O próprio Dom Bosco nas suas “Memórias do Oratório”, tendo em vista edificar, modifica e acrescenta elementos em função do seu objectivo.

  4. Nas MB há contradições especialmente nos primeiros volumes.

  5. Mesmo os volumes elaborados pelo padre Eugénio Ceria não são inteiramente históricos, mas encomiásticos e laudatórios.

  6. No texto das MB faltam as sombras à figura de DB e a ligação com os acontecimentos históricos do país (idealização).

  7. A importância que geralmente se dá ao papel de DB no que respeita, por exemplo, à nomeação dos bispos e à conciliação entre a Santa Sé e o Estado italiano não aparece suficientemente confirmada por documentos de origem pública e pelas memórias de personagens que tiveram contacto com o nosso fundador relativamente a esta matéria.

Eugénio Ceria reproduz estas observações numa carta enviada ao director do PAS em 1953, lamentando a atitude atrevida dos jovens salesianos e adverte que reparos idênticos já tinham sido feitos ao padre Lemoyne, contra os quais o primeiro biógrafo de DB reagira magoado. E Eugénio Ceria conclui a carta chamando acaloradamente a atenção para o diabrete da ciência (“il diavoletto della scienza”) que, como se lê no vol. XVII das MB, aparecera num dos sonhos de Dom Bosco. Aplaudido pelos colegas reunidos em conciliábulo, este diabrete tinha apontado o meio que ele julgava mais eficaz para arruinar a Congregação salesiana: levar os seus membros a dedicar-se à ciência1.


- Segundo facto. O segundo facto significativo ocorre vinte e dois anos depois do anterior. Na reunião dos provinciais salesianos da Europa, Médio Oriente, África Central, Estados Unidos e Austrália, efectuada em Como em 1968, os representantes da área germânica exprimem a sua preocupação e suspeição face ao surgir das novas investigações que vão sendo feitas sobre DB no PAS e que eles tacham de “modernistas e incautas”: alusão implícita ao primeiro volume da obra de P. Stella, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, publicado nesse ano de 682. Estes dois factos denotam o confronto mais ou menos perturbador de duas mentalidades.

2. Dois tipos de mentalidade, dois tipos de literatura
O primeiro tipo de mentalidade tende a preservar intacta uma tradição acalentada pela aura dos tempos heróicos; o segundo procura joeirar essa mesma tradição, depurando-a do elemento maravilhoso e tornando-a, por conseguinte, mais credível ao homem de hoje, ou seja, tornando-a mais humana. Estas duas concepções exprimem-se através de dois tipos de literatura: literatura edificante ou maravilhosa e literatura criticamente fundamentada.
Literatura edificante ou maravilhosa
Trata-se de uma literatura que tem a caracterizá-la o tom apologético e amplificador, bem como a inflação do sobrenatural e do miraculoso e a intenção de incitar à virtude. Relativamente a DB, os representantes desta literatura vêem nele alguém cuja vida, desde a infância, é uma sucessão contínua de milagres, intervenções do Alto, sonhos-visões ou profecias (cf. P. STELLA, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, II, p. 17).

O iniciador deste tipo de literatura foi Charles D`Espiney, com uma biografia de DB, ainda vivo, em 1881. Como se lê no Bullétin Salésien de 1884, D`Espiney propunha-se pôr em evidência a “intervenção prodigiosa [e tangível] da bondade omnipotente de Nossa Senhora Auxiliadora”, a favor do seu servo3.

Passados dois anos (1883), um outro autor francês, Albert Du Boys, publicava o livro Dom Bosco e a Pia Sociedade Salesiana, menos anedótico que o de D`Espiney, mas não menos encomiástico e maravilhoso. DB é por ele apresentado como poeta genial da caridade, poeta em nada inferior a Dante ou Milton, o Homero do apostolado católico, cujas 150 casas (nessa altura) eram como que os “150 cantos da sua imensa epopeia”, composta de “homens em vez de versos e estrofes”4.

Outros autores, como Lemoyne, adoptam um estilo idêntico. No prefácio ao 1º volume das MB, Lemoyne escreve estas palavras reveladoras: «[A vida de Dom Bosco] é um conjunto maravilhoso de factos em que de forma evidente se manifesta o dedo de Deus para nosso inefável conforto [...]. A grande virgem Auxiliadora dignou-se guiar Dom Bosco de maneira maravilhosa em cada passo da sua vida, para nos dar provas inesgotáveis da sua bondade materna para connosco»5. E no início do capítulo VII:


«Gloria filiorum patres eorum: a nossa glória é DB! Data memorável o dia 24 de Julho de 1907, em que a santa Mãe Igreja o declarou VENERÁVEL SERVO DE DEUS! Ele, o servo bom e fiel, que soube pôr a render os talentos recebidos. Os seus pensamentos, os seus afectos estavam em uníssono com os do seu Senhor, de quem se lê nos livros santos: Misericordiam et veritatem diligit Deus. Efectivamente, todas as obras de DB foram misericórdia e verdade, não inspiradas pelo espírito do mundo, mas merecedoras do prémio eterno. ‘Se pretendesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo’, como diz S. Paulo aos Gálatas (1,10). E muitas vezes lembrava aos seus alunos as palavras de Tobias: ‘Servi ao Senhor com verdade e procurai fazer o que lhe agrada’. Dito isto, voltemo-nos de novo para o nosso venerável [e vejamos quanto humanamente nos seja possível] a maneira como aquela Deus que ama a verdade lhe desvendou os ocultos mistérios da sua sabedoria» (MB VII, 1).
Em 1955, o padre Domenico Bertetto publica um livro intitulado S. Giovanni Bosco. Meditazioni per la novena, le commemorazioni mensili e la formazione salesiana. No decursso do Concílio Vaticano II, o patriarca greco-melquita Máximo IV cita uma passagem deste livro – que atribui a DB –, acompanhando-a de crítica severa. A passagem é a seguinte: «O papa é Deus na terra... Jesus colocou o papa acima dos profetas, do precursor e dos anjos, elevando-o ao próprio plano de Deus»6. Estas palavras de endeusamento papal são também citadas por L. Boff no seu livro polémico Igreja, carisma e poder, as quais lhe merecem o seguinte comentário:
«É curioso observar que tais excessos verbais não acarretam as punições facilmente infligidas àqueles que, por qualquer razão teológica ou histórica, fazem algum reparo ao poder do papa. A ideologia do culto da personalidade desculpa benevolamente tais abusos e encontra sempre interpretações benignas para semelhantes afirmações exacerbadas7».
Alguns autores mais ou menos contemporâneos de Lemoyne, como Caviglia, Cerruti e Ceria, são mais sóbrios e exigentes. Mas mesmo Ceria, biógrafo atento de Dom Bosco, não deixa de trair por vezes a realidade, amplificando os aspectos positivos e esbatendo ou suprimindo os aspectos menos positivos ou mesmo desagradáveis (quadro sem sombras).
Literatura crítica ou criticamente fundamentada
A sensibilidade das jovens gerações do pós-guerra (1939-45) entra em tensão com a mentalidade tradicionalista e marca a passagem da literatura edificante para uma literatura crítica. A partir daí começa a pôr-se “com urgência o problema de uma revisão documental rigorosa e sistemática quer das MB, quer dos próprios escritos de DB, começando por aqueles que continham testemunhos autobiográficos, como as Memórias do Oratório, a Vida de Domingos Sávio e outros jovens que constituíam como que o fruto paradigmático e o selo divino da actividade educativa salesiana8. E começaram a aparecer os primeiros trabalhos de investigação elaborados com seriedade e rigor crítico, contra os quais reagem salesianos mais antigos por lhes parecer ameaçada uma herança sacrossanta que tinha embalado os seus ideais e as suas vidas. Lembrar três obras importantes:
a) Il Sistema Preventivo di Don Bosco (P. BRAIDO): 1955

Apesar de circunscrito a uma área específica da vida de DB – a actuação educativa – este estudo de P. Braido apresentava já uma ou outra particularidade que podia causar uma certa estranheza. E. Ceria não deixa de o assinalar no prefácio que faz ao livro, além de felicitar o A. pelo trabalho levado a cabo:


«Um esclarecimento particular é devido a uma classe não reduzida de leitores. Esses leitores irão deplorar o silêncio relativamente a factos carismáticos, que andam de boca em boca [...]. Não há motivo para alarme. Elementos carismáticos que ficariam bem, por exemplo, em tratados ou em livros hagiográficos, podem estar fora de lugar em estudos de índole científica. Isto, no entanto, não significa que se devam excluir os meios sobrenaturais ordinários, de que não pode prescindir uma educação cristã como todos sabem e o sabe perfeitamente o autor9.
Duas obras recentes e importantes do autor: Prevenire. Non reprimere. Il sistema educativo di Don Bosco (450 pp.), 1999; Prete dei giovani nel secolo delle libertà (vol. I, 608 pp; vol II, 736 pp.), 2003».
b) Les ‘Memorie I’ de G.B. Lemoyne (F. DESRAMAUT): 1962

Tese de doutoramento. Trabalho de análise séria e cuidadosa, mas circunscrito ao 1º volume das MB, deixando em aberto aspectos importantes de crítica histórica, mesmo em relação a esta primeira fase da vida de DB (infância e juventude).

Num estudo muito mais recente (1990), Desramaut faz vários reparos críticos aos autores das MB, sobretudo a Lemoyne. Deste diz, por exemplo, que atraiçoou muitos documentos mediante interpolações de vária ordem e apresenta o agir constante de DB predeterminado pelo Alto (tudo o que DB fazia era ditado por Deus e Maria Auxiliadora)10. E noutro estudo de 1991 diz que a grande preocupação de Lemoyne era “atribuir ao seu herói o máximo de sobrenatural, entendido no sentido de miraculoso e maravilhoso”. Este sobrenatural concorria para o agigantar na santidade11.

De qualquer modo, tendo presente o estado de tensão entre os salesianos quando escreveu a sua primeira obra, F. DESRAMAUT procura tranquilizar nessa altura os salesianos mais antigos, assegurando-lhes que a base documental utilizada por Lemoyne é em geral digna de crédito e procura ao mesmo tempo mostrar aos mais novos que é legítimo prosseguir uma análise mais reflectida de toda a literatura relativa a DB e à Congregação.

Por sua vez, P. Stella não deixa de acrescentar que as MB permanecem como “ponto de confronto obrigatório” para o conhecimento de Dom Bosco e das suas realizações12.

Biografia recente de DB escrita por F. DERRAMAUT, Don Bosco en son temps, SEI, 1996 (1450 pp.).


c) Don Bosco nella storia della religiosità cattolica: I – Vita e opere (1968); II – Mentalità religiosa e spiritualità (1969); III – La canonizzazione (1988) (P. STELLA)
Estamos diante da primeira síntese da figura e obra de DB, síntese elaborada com um critério rigorosamente científico e a preocupação de a situar no seu contexto histórico-cultural.
Quem se debruça hoje sobre «a literatura floreada em torno da figura de S. João Bosco» – escreve o A.– «depressa se apercebe de que tal literatura apresenta uma trajectória que teve o seu auge, quer quanto a número de publicações quer quanto a vibração entusiástica, por altura da sua beatificação e canonização».

Hoje, mais afastados no tempo, em relação ao herói, do que as gerações que nos precederam, é-nos possível analisá-lo com maior serenidade e objectividade. Isto, porém, não quer dizer que tenha diminuído a convicção de que DB foi uma das figuras mais eminentes do catolicismo oitocentista. Quer dizer apenas que à exaltação emocional sucedeu o estudo atento e reflectido.

Com base no considerável trabalho crítico levado a cabo de há uns quarenta anos para cá, é-nos possível detectar um conjunto de elementos espúrios incrustados na figura de DB e avaliar a sua obra, singular sem dúvida mas estreitamente ligada a uma época e um contexto cultural bem determinado: o Piemonte oitocentista.

Os salesianos passaram por uma fase bastante aguda no seu evoluir histórico marcada por um fenómeno que é próprio de todo o movimento organizado: a preocupação de fidelidade ao passado em tensão com a necessidade inevitável de adaptação às exigências ambientais. Tal como os franciscanos, eles tomaram muito a sério o mote da regula sine glossa, quase como se se tratasse de uma questão de vida ou de morte. O apelo à fidelidade a DB, repetido por M. Rua, P. Albera, F. Rinaldi, P. Ricaldone, R. Ziggiotti, foi-se traduzindo durante largo tempo em fórmulas como estas: atenhamo-nos à regra, não cedamos ao prurido de reformas, mantenhamo-nos fiéis a Dom Bosco e ao seu espírito (mordicus)13.

O facto é que esta atitude levaria fatalmente ao fixismo, ou seja, a reproduzir de forma servil determinados gestos e práticas de DB – ou a DB atribuídos – que muitas vezes reflectiam apenas gestos e práticas do contexto piemontês do seu tempo.

A tendência fixista foi ainda reforçada, nas primeiras décadas do séc. XX, pelo movimento antimordernista, alérgico a tudo o que cheirasse a evolução, e pelo movimento dos católicos intransigentes que, na defesa dos princípios e doutrina da Igreja, foram incapazes de distinguir o essencial do secundário. No âmbito salesiano dá-se até uma incompreensão do procedimento do próprio DB que, na sua actuação ao longo dos anos, se vai sempre adaptando a circunstâncias novas14.



3. Posicionamento das instâncias superiores da Congregação
Perante o movimento de contestação das novas gerações salesianas do pós-guerra, qual o posicionamento ou atitude das instâncias superiores da Congregação? Não só não impedem o trabalho de investigação científica e revisão crítica da literatura salesiana, mas apoiam mesmo o seu prosseguimento, seguindo aliás o apelo do Concílio Vaticano II aos institutos religiosos, no sentido de se renovarem à luz do Evangelho, da inspiração fundacional e das exigências dos tempos: «A adequada renovação da vida religiosa implica simultaneamente, por um lado, um retorno constante às fontes de toda a vida cristã e à inspiração primitiva dos institutos e, por outro lado, uma adaptação dos mesmos às novas condições dos tempos».

R. Ziggiotti e L. Ricceri, apesar das reacções manifestadas no encontro de provinciais em Como, deixam prosseguir o trabalho encetado no campo da investigação histórica, conscientes de que tal trabalho correspondia ao espírito do Concílio.

O Capítulo Geral Especial (1970/71) compreendeu perfeitamente que a fidelidade a DB não tem nada a ver com a idolatria de tudo o que ele fez ou das mínimas fórmulas por ele adoptadas: “Reconhecer a inspiração divina na vida de DB não significa, de forma alguma, que a sua obra e realizações [concretas] devam ser divinizadas e consideradas intocáveis” (n. 13):
«A fidelidade a DB não significa repetição mecânica das suas iniciativas, mas significa, por um lado, consonância com o seu fim e o seu estilo [e significa, por outro lado,] esforço de assimilação das exigências do nosso tempo, a exemplo [dele próprio] que soube ser sensibilíssimo aos apelos do seu tempo (n. 229).

«Em vez de se empenharem na repetição mecânica de gestos caducos, [os salesianos] são chamados a compreender a lei profunda em que se inspirava o seu agir [...]: ‘Fui sempre avançando como o Senhor me inspirava e as circunstâncias o exigiam’» (n. 197).

Não se trata, por conseguinte, de uma fidelidade estática, mas sim de uma “fidelidade dinâmica à missão originária do nosso fundador”. No conceito de “fidelidade dinâmica” entram duas componentes em tensão constante: permanência-contingência ou continuidade-novidade. O que é que permanece ou continua? O espírito, as preocupações, o carisma, a missão originária (n. 219 e 297).

O CG21 (1978) emite, entre outras deliberações, a seguinte: «No espírito da ‘Perfectae Caritatis’ e na convicção de que é extremamente importante que a Congregação, espalhada pelo mundo inteiro, reencontre constantemente a sua unidade e autenticidade no espírito do fundador e no seu pensamento acerca da evangelização e da promoção humana dos jovens e das classes populares, o CG21 delibera quanto segue:


«O Conselho Geral criará, quanto antes, um Instituto Histórico Salesiano que, mediante as formas ideal e tecnicamente mais válidas, ponha à disposição da Família Salesiana, da Igreja e do mundo da cultura e da acção social os documentos do rico património espiritual, legado por DB e acrescentado pelos seus continuadores, e promova a todos os níveis o aprofundamento desse mesmo legado, a sua ilustração e difusão. Toda a Congregação concorrerá para levar a efeito e dinamizar tão importante iniciativa, com o pessoal e os meios disponíveis» (n. 105, c).

Em obediência a esta deliberação capitular, o Conselho Geral cria o Instituto Histórico Salesiano em 1981 na Casa Generalícia15. O n. 304 dos ACG (1982) traz a carta de apresentação do superior-geral e o decreto de erecção canónica. Na carta de apresentação o superior-geral, ao mesmo tempo que indica os objectivos do Instituto, sublinha o seu papel relevante na renovação da vida salesiana:


«Acho supérfluo pôr em relevo a importância desta nova iniciativa para a vida da Congregação e provavelmente não só para ela [...]. Efectivamente não se trata de um museu de memórias passadas e mortas, mas de um dos mais válidos subsídios que nos permite verificar a ligação vital com as nossas raízes históricas e espirituais»16.
E menciona os campos específicos de investigação abertos ao Instituto: a vida e a acção de DB; a dimensão missionária da nossa experiência global. Anuncia também para breve o aparecimento de uma revista especializada: Ricerche Storiche Salesiane17.
Uma nota importante: o próprio E. Ceria reconhece os limites das MB, em grande parte por ele redigidas. No estudo sobre o 1º volume desta obra monumental, F. Desramaut refere-se a uma carta de E. Ceria ao director do escolasticado de Lyon em 1951, que o tinha interrogado acerca do valor histórico dos relatos de Lemoyne relativos à juventude de DB.

E. Ceria responde que as MB – concretamente o volume I – não têm nada a ver com a história científica. A história científica de DB ainda não foi escrita. Sê-lo-á um dia «com base em documentos de arquivos e no conjunto das suas cartas, bem como em dados fornecidos por estudos acurados»18.

O mesmo F. Desramaut refere ainda outra declaração de E. Ceria, feita a ele próprio e a outros salesianos, já no fim da vida: «Aqueles que pensam escrever alguma tese sobre DB aconselho-os sempre a mudar de tema. Mais tarde, talvez quando as cartas de DB tiverem sido publicadas...». E F. Desramaut continua: «E. Ceria reconhecia que as suas Memorie, consideradas por muitos a fonte única e definitiva de estudos sérios e rigorosos sobre DB, não podiam servir de base a tais estudos»19.

4. Em que medida terá mudado a mentalidade nos salesianos de hoje?
Segundo testemunhos de alguns representantes do Instituto Histórico Salesiano, parece não se ter notado ainda uma mudança significativa de mentalidade na generalidade dos salesianos de hoje em relação aos salesianos de antes de meados do século XX.

Num estudo de 1990, P. Stella observa que as publicações sobre DB nestes últimos trinta ou quarenta anos não ultrapassam, salvo raras excepções, o nível de uma cultura popular e repetitiva. No cinema, em livros, em conferências, em exortações, a legenda aurea das MB continua a exercer o seu fascínio e a alimentar o tom inflamado e grandiloquente dos discursos20.

P. Braido cuja avaliação coincide com a de P. Stella acha que, na literatura salesiana actual, tende a prevalecer “o tradicionalismo, o conservadorismo, o tom celebrativo”, parecendo-lhe ainda pouco significativo o envolvimento dos salesianos na problemática do mundo científico mais amplo. A maciça obra pré-científica das MB continua a constituir para muitos “a primeira e última palavra fidedigna sobre DB”. Persiste ainda a imagem de um DB idealizado: “homem carismático, infalível, perfeito, taumaturgo, poderoso, sobre-humano”21.

No entanto, não podemos deixar de admitir que, se ao nível da mentalidade geral as coisas parece não terem mudado muito do ponto de vista crítico, tem de se reconhecer que algo mudou, na prática da vida corrente dentro da Congregação, sem que por causa disso os salesianos de hoje se sintam menos ligados a DB do que os salesianos de ontem. Pensemos, por exemplo, nas expressões da prática religiosa ou exercícios de piedade e sobretudo na reformulação do texto constitucional. Efectivamente, há já bastantes anos que nas nossas casas deixou de ser seguido o esquema das práticas de piedade indicadas no Jovem Instruído e às quais ninguém podia acrescentar nem tirar uma vírgula. Assim também as novas Constituições são muito diferentes das antigas quanto à forma, embora em nada tenham mudado quanto ao conteúdo: ficaram até muito mais enriquecidas.

É claro que isto aconteceu sob o impulso do Concílio Vaticano II e a partir de uma reflexão atenta e empenhada em que toda a Congregação participou. Reflexão que deu os seus frutos, sobretudo mediante o trabalho aprofundado dos últimos Capítulos Gerais e provinciais. Subjacente a todo este movimento há sem dúvida uma sensibilidade nova que explica as transformações operadas.


Concluindo
Uma análise atenta da maneira de agir de DB, no decurso da sua vida e actuação, leva-nos a verificar que ele próprio não foi nada fixista e soube exercitar a sua invulgar capacidade de adaptação a situações novas. Um exemplo bem elucidativo é o das instituições educacionais que foi promovendo em fases sucessivas da sua vida: oratórios festivos, oratórios diários, aulas nocturnas, hospícios de artes e ofícios (para as camadas mais humildes da sociedade), colégios (em escala bem significativa e voltados predominantemente para a classe média).

Ora, uma das conclusões a que leva o trabalho reflectido dos investigadores é precisamente esta: o exemplo do Dom Bosco histórico, real (e não mítico), constitui um desafio à nossa criatividade que é, ao fim e ao cabo, uma forma inteligente de fidelidade ao seu espírito.



Lisboa, Janeiro de 2004

1 Outros meios sugeridos por outros diabretes: gula (comer e beber bem); amor à riqueza; liberdade ou desprezo da Regra (MB XVII, 385 ss). O padre Ceria lembra um episódio análogo que se lê na legenda franciscana: «Paris fez esquecer Assis».


2 Cf. P. STELLA, “Bilancio delle forme di conoscenza e degli studi su don Bosco”, in Don Bosco nella Storia (a cura di M. MIDALI), LAS Roma, 1990, p. 22 ss. Desramaut tinha já publicado o seu estudo notável (tese de doutoramento), sobre o volume I das MB (1962).

3 Bullétin Salésien, 1884, 6, p.4.

4 STELLA, Don Bosco nella storia della religiositá cattolica, I, 14 s.

5 MB I, p. 1. Para Lemoyne tudo o que DB contava nas boas-noites aos alunos, à maneira de historietas ou sonhos, era expressão de revelações celestes. Daí a sua busca constante do miraculoso e sensacional.

6 Cit. Por P. STELLA, “Le ricerche...”, in Don Bosco nella storia, (M. MIDALI), p. 378.

7 L. BOFF, Igreja, carisma e poder, 1981, Ed. Inquérito, p. 82.

8 P. STELLA, Don Bosco nella storia della religiosità..., III, p. 116.

9 P. BRAIDO, Il sistema preventivo..., PAS, Torino, 1955, p. 13.

10 DESRAMAUT “Come hanno lavorato gli autoi delle MB”, in Don Bosco nella storia ( MIDALI), 1990, 57 ss.

11 Id., Autour de six logia..., in RSS, 1991, n.1, p. 53.

12 P. STELLA, “Bilancio...”, in Don Bosco nella storia (M. MIDALI), 31.

13 Fedeltà a Don Bosco Santo, título de um lema proposto aos salesianos por P. Ricaldone para o ano de 1935.

14 Todas estas considerações encontram-se basicamente na introdução ao 1º volume da obra Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, pp. 13-20.

15 O Instituto Histórico Salesiano teve a precedê-lo o Centro de Estudos Dom Bosco, fundado em 1973 na UPS.

16 ACG, n. 304, aprile-giugno 1982, pp. 71-73.


17 O 1º número desta revista sairia pouco depois: luglio-dicembre 1982:

18 F. DESRAMAUT, Les ‘Memorie I’ de G.B. Lemoyne, 1962, p. 410.

19 F. DESRAMAUT, “Come hanno lavorato...”, in Don Bosco nella storia (M. MIDALI), p. 64.

20 P. STELLA, “Bilancio delle forme di conoscenza...”, in Don Bosco nella storia (M. MIDALI), 1990, p. 32.

21 “Una svolta negli studi su DB”, in RSS, 1991, n. 2, pp. 356-357.







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