A juventude dos espaços populares e as políticas sociais: desconstruindo algumas representações tradicionais



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Encontro23.02.2019
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A juventude dos espaços populares e as políticas sociais: desconstruindo algumas representações tradicionais


Jailson de Souza e Silva1

A vida cotidiana nas favelas e periferias brasileiras é um mundo desconhecido para a grande maioria dos moradores da cidade que nelas não residem. Fascínio, preconceito e medo se entrelaçam nas falas dos moradores dos bairros formais ao tratarem dos habitantes desses espaços. E esse sentimento ainda é mais expressivo quando se fala dos jovens da periferia e da favela. Isso porque as interpretações mais comuns sobre esses espaços e seus jovens moradores são caracterizadas por pressupostos sociocêntricos, que dificultam a compreensão e o encontro de alternativas adequadas para os problemas reais da vida nos espaços populares.


O sociocentrismo se materializa quando, a partir dos padrões de vida, valores e crenças de um determinado grupo social, se estabelece um conjunto de comparações com outros, colocados, em geral, em condições de inferioridade. Os discursos estabelecidos em relação aos espaços populares, dentre outros, seguem esse padrão. Por isso, a valorização das ausências é eixo dos olhares dirigidos àquelas áreas urbanas: a favela e a periferia são definidas, de forma quase homogênea, por uma pretensa carência, seja de serviços públicos e equipamentos urbanos, de leis, de beleza e, no limite, de noções básicas de moral e de ética. Seriam o espaço da violência e do caos, por definição.
O sociocentrismo vem sempre acompanhado do adultocentrismo. Da mesma forma que a prática anterior, essa é marcada pela visão hierárquica estabelecida em relação aos jovens. Esse juízo afeta, naturalmente, os jovens de todas as classes sociais, mas em relação aos de origem popular as práticas repressivas são bem mais graves. O adultocentrismo parte do pressuposto, como Aristóteles, que a principal característica da juventude seria sua incompletude. Ela não estaria preparada para viver na cidade, nos espaços de poder. Seus espaços e suas práticas devem, então, ser controlados e reprimidos, sem muita atenção para os seus desejos de circulação na cidade. Ignora-se, ou se teme, reconhecer que a razão de ser da juventude é devorar a geração anterior, reconstruindo, sob novas referências, a caminhada de Sísifo, o rei condenado pelos deuses ao trabalho sem sentido e a reproduzir-se eternamente.
Os citados “centrismos” são as premissas representacionais que sustentam o processo de criminalização dos adolescentes e jovens dos grupos sociais populares. Nesse caso, todas as políticas sociais desenvolvidas nos territórios populares - seja educacional, cultural, de lazer ou de geração de emprego - são entendidas como iniciativas voltadas para evitar-se que aqueles determinados moradores se tornem infratores. Os adolescentes e jovens, nesse caso, não são pensados como sujeitos de direitos, mas como objetos de projetos.
O mais grave é o fato desse discurso ser proclamado tanto pelos setores conservadores como por muitas organizações sociais ditas progressistas. O argumento dessas é que essa vinculação contribui na sensibilização dos setores médios e dominantes, gerando a liberação de mais recursos para os projetos sociais. O que esse discurso pragmático ignora é que as pretensas vantagens financeiras advindas dessa estratégia, no curto prazo, são profundamente nocivas a médio/longo prazo. Em primeiro lugar, o uso dos projetos sociais como forma de prevenir a violência, e não em função da condição cidadã dos adolescentes e jovens dos espaços populares, não auxilia na consciência política dos membros dessas categorias sociais e na superação do peso da discriminação que sobre eles pesam. Com efeito, o jovem do espaço popular é impelido cotidianamente, em função de uma ordem social dominado pela hierarquia ditada pelo consumo, a negar seu local de moradia; a cor de sua pele – em geral preta ou parda; a escola em que estuda, normalmente pública; a escolaridade e o trabalho de seus pais e sua origem geográfica, em geral migrante. A política social não contribui, assim, para ampliar as possibilidades de inserção social desse jovem na pólis e contribuir na ruptura das hierarquias sociais, mas, pelo contrário, auxilia em sua legitimação e reprodução.
O efeito mais perverso, todavia, dessa representação criminalizante é o fato de amplos setores sociais naturalizarem o assassinato em massa de adolescentes e jovens de origem popular do país, a maior tragédia urbana do Brasil atual. Já que eles seriam criminosos em potencial, sua eliminação física é parte do jogo de controle da ordem social. Nesse caso, o assassinato em massa de adolescentes e jovens pobres do sexo masculino passou a ser uma das principais estratégias das instituições de (in)segurança urbana, em particular nas regiões metropolitanas. Reconhecer a identidade comum entre os processos é um passo central para a superação do genocídio.
Cabe, além disso, buscar construir novas interpretações das práticas sociais populares, em particular dos jovens e adolescentes, elaborando um paradigma da presença. Através de um novo olhar, que reconhece a complexidade das práticas populares, sem cair em sua idealização, será possível construir e/ou fortalecer políticas públicas que reconheçam a condição de sujeitos de direitos para os adolescentes e jovens dos territórios populares. E só a partir daí será possível avançarmos na construção de uma sociedade brasileira efetivamente democrática, justa e cidadã.

1 Jailson de Souza e Silva é Professor da Universidade Federal Fluminense e Coordenador Geral do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.





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