A (in)sustentável leveza do internetês. Como lidar com essa realidade virtual na escola?



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Encontro15.07.2018
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A (in)sustentável leveza do internetês. Como lidar com essa realidade virtual na escola?
O internetês tem sido um tema constante nas rodas de conversas informais, em reportagens da mídia, e principalmente, em cursos de capacitação para professores de língua portuguesa. Está mais do que na hora de os professores de linguagem discutirem mais abertamente sobre essa questão tão presente no nosso cotidiano escolar e, ás vezes, tão mal compreendida principalmente pelos próprios docentes da área. Por um lado muitos professores de diversas disciplinas são radicalmente contra a utilização desse novo “dialeto” pelos alunos e por quem quer que seja, pois veem-no como uma evidente ameaça ao bom português. Alguns desses docentes consideram-no um verdadeiro sacrilégio, uma agressão ao idioma pátrio já “tão matratado pelos brasileiros incultos e desatentos com um de seus mais importantes patrimônios culturais que é a “língua”, como costumam praguejar alguns. Por outro lado, há docentes que não aguardam quaisquer reservas contra o internetês. Há professores, até mesmo de límgua portuguesa, que tratam a chegada e o uso do internetês com tanta naturalidade que até o empregam, eles mesmos em seus blogs, sites pessoais de relacionamentos, e-mail, chats e outros gêneros digitais em que esta linguagem já se estabeleceu.
A GNET e o internetês chegam á escola
O internetês nasce da necessidade de os micreiros se comunicarem com a mesma velocidade e espontaneidade da modalidade oral da língua, utilizando para isso não a voz, nem os gestos corporais, mas o teclado e uma espécie de reconfiguração da escrita das palavras e da ressingnificação de alguns sinais diátricos á mão do internauta. Segundo Xavier (2009, no prelo), essa geração digital manuseia os aparelhos eletrônicos com muita facilidade, em especial, o computador, todos os dias, durante vários horas do dia ou da noite, de tal sorte que essa máquina já faz parte do seu cotidiano. A consequência de tanta intimidade com esse mundo tecnológico é, sem dúvida, o surgimento de uma linguagem que execute as cções céleres que esses internautas relizam muitas vezes e todos os dias.
O que é e como se caracteriza o internetês
Antes de abordar diretamente uma possivel saída para lidar com esse fenômeno de linguagem, é preciso conhecer qual a real natureza do internetês, ou seja, conhecer um pouco mais sobre suas características fono-morfo-sintático-semântico-pragmáticas.
Um dialeto escrito com efeito oral
Não é estranho dizer que esse gênero simula uma conversa espontânea face a face. As diferenças e limitações desse gênero digital em relação á conversa oral real são notáveis. No que se refere aos aspectos fonológicos que emergem no internetês, quem se engaja em conversações desse tipo normalmente busca reproduzir a mesma velocidade das trocas orais presenciais, e assim tornar a interação que é remota mais próxima e fluente de forma natural de conversar. Quanto ao aspecto morfológico, o que mais salta aos olhos e incomoda muita gente é o fato de o usuário do internetês, ao tentar reproduzir com precisão a sonoridade da pronúncia coloquial, modificar a escrita oficial dos grafemas, cortar as palavras, suprimir vogais e até consoantes. Apesar de todas essas transformações, é possivél recuperar qual teria sido a palavra modificada, pois normalmente são preservadas as consoantes e eliminadas as vogais, tal como acontece em: td (tudo); blz (beleza); ctg (contigo); kd (cadê); flw (falou), que estão presentes no diálogo acima. Em um primeiro momento um leitor que não entenda pode estranhar essa grafia, mas uma releitura com as devidas percepções do contexto permitirá a compreensão do que cada uma das palavras modificadas pode significar, depois de vincular a que forma lexical cada uma das mudanças gráficas estaria representando.
Vantagens ou perigos do internetês?
Nem vantagens nem perigos. Este “dialeto escrito” com efeito oral existe, não pode ser ignorado pela sociedade nem pela escola, entendamos isso nós, professores! Nem um dialeto ameaça a vida de uma língua. Ambos convivem e são bem-sucedidos se aceitos pela comunidade de fala que as utiliza. Visto pelo ângulo da funcionalidade, o internetês mostra-se vantajoso, pois seus usuários parecem satisfeitos quando precisam dele para se comunicar por gêneros digitais e hipertextos (Xavier, 2009). Todavia, observado pelo prisma da novidade semiótica, o internetês parece representar perigo áquele que não compreende ainda, nem tem boa vontade para estudá-lo a fim de encontrar a funcionalidade interacional presente em todas as línguas e dialetos, inclusive neste. É comum se dizer que este “dialeto” dificultaria a aprendizagem do sistema de notação alfabético do português. Se o internetês fosse liberado pelos professores para uso indiscriminado, os alunos se acostumariam a escrever com tais modificações gráficas em todo e qualquer gênero textual e situação comunicativa.
Como lidar com esse dialeto na escola?
Eis uma boa questão. Que não podemos ignorar a chegada do internetês na vida da GNET e consequentemente na escola já sabemos. Que estamos diante de um fenômeno linguístico diferente também já nos convencemos disso. Precisamos de estratégias pedagógicas para fazer com que este “dialeto” seja bem trabalhado para ajudar a aprendizagem da modalidade escrita do português padrão. Antes de traçarmos quaisquer estratagemas educacionais com esse “dialeto” será necessário nos “despreconceitualizarmos” acerca dele. Comparando a forma gráfica do internetês com a reprodução do mesmo conteúdo sem tais marcas, podemos levar o aprendiz a perceber a grafia oficial das palavras dentro de um contexto específico de produção de linguagem. Verter do internetês para a escrita padrão exige movimentos sensórios-motores e visuais que poderão conduzir o aprendiz á consciência da adequação, e consequentemente, á flexibilidade quanto ao uso dos grafemas alfabéticos.

Considerações finais
Fosse apenas mais uma gíria, esse dialeto escrito na tela, não teria causado tanto frisson e certamente não meteria medo em alguns conservadores das formas tradicionais de uso da escrita. O fato é que não se trata de mais uma gíria a nossa disposição no mercado verbal da língua portuguesa. Ao contrário do que possa parecer para alguns professores, o internetês apresenta, sim, uma leveza sustentável. Dois fatores garantem-na. O primeiro tem a ver com o prazer evidente da GNET em usá-lo nas situações comunicativas mediadas por computador em gêneros digitais. Essa geração chega á escola com a expectativa de também vê-la valorizada pelo professor. O outro objetivo é evitar a dor. A intolerância ou o desprezo do professor por tal dialeto causa dor no aprendiz que, por sua vez, evitará a fonte dessa dor, o professor e suas ações pedagógicas.



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