A importância do Perì mousikés de Plutarco



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A importância do Perì mousikés de Plutarco

por Roosevelt Araújo da Rocha Júnior
Muito já se estudou, no Brasil e em outros países, sobre os diversos aspectos da cultura dos povos da Antigüidade Clássica: a religião, a mitologia, a história, a filosofia, as artes e a ciência. Mas um tema específico permanece negligenciado: a música. Isso acontece, certamente, por dois motivos. Há uma relativa escassez de fontes para se estudar as manifestações musicais entre gregos e romanos, pelo menos do nosso ponto-de-vista do que seria “música”. Além disso, grande parte das fontes que chegaram até nós são de períodos posteriores aos séculos V e IV a. C. ( cuja produção continua recebendo a maior parte das nossas atenções). Por isso esses documentos permanecem relativamente desprezados.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a música ocupava um lugar de destaque no cotidiano dos povos greco-romanos, estando presente em vários tipos de celebrações religiosas, na educação como elemento chave da paidéia e, de modo inseparável, junto com a poesia e com a dança. Por isso, o estudo da música adquire tamanho interesse, pois debruçando-nos sobre esse assunto estaremos desvelando facetas ainda desconhecidas e estaremos também produzindo pesquisas que nos auxiliarão na (re)interpretação de outros temas já bastante estudados.

Em seguida, é preciso dizer que também para se estudar a música na Antigüidade Clássica é necessário um exercício de distanciamento, uma visada antropológica de reconhecimento do outro. É verdade que as bases da teoria musical do Ocidente foram lançadas pelos pitagóricos, mas a arte musical entre os gregos e os romanos era bastante diferente da maneira como nós entendemos a música hoje em dia. E, em um primeiro momento, nós devemos nos concentrar nas diferenças para evitar confusões e anacronismos (isso vale, de forma geral, para todos os campos dos Estudos Clássicos).

Além desse exercício de distanciamento, é importante que nós façamos uma crítica de certas idéias estabelecidas. Por que estudar somente os autores e os temas dos chamados “períodos clássicos”? Há todo um conjunto de obras, uma literatura vasta produzida por uma civilização que resultou das conquistas alexandrinas e, depois, da expansão do poderio romano. Estas fontes também têm o seu valor e merecem nossa atenção.

E dentre essas obras, estão algumas das principais fontes para o estudo da arte musical na Antigüidade greco-romana. Em especial, o Perì mousikés, que foi atribuído a Plutarco (discutiremos mais à frente o problema da autoria).

Weil e Reinach (1900: I) afirmam que essa obra é “um dos documentos mais preciosos que a Antigüidade nos legou para o conhecimento da música helênica”. É tão precioso pois trata, em detalhe, da história da arte musical, com especial atenção aos períodos mais remotos. Além do valor histórico, esse tratado traz também informações sobre os princípios da crítica musical, tal como ela era desenvolvida no século IV a. C. sob a influência das escolas filosóficas.

Entretanto, embora possamos dizer que o Perì mousikés desperta o nosso interesse pelo seu valor documental, ele não tem grande valor literário. Do ponto-de-vista da forma, ele pertence ao gênero deipnosofístico ou simposial, onde aparecem homens letrados, durante ou após um banquete, se entretendo com questões eruditas. E aí se reafirma a importância desse tratado, justamente por causa da sua falta de originalidade (Barker, 1989:205). Ao tratar da história da música grega e de aspectos de teoria musical, o autor do diálogo faz muitas citações e paráfrases de fontes muito anteriores, como, por exemplo, Glauco de Régio, Platão, Aristóteles, Aristoxeno e Heráclides do Ponto. Portanto, as fontes remontam aos séculos IV e V a. C. e o autor parece tê-las reproduzido com fidelidade. Por essas razões, o Perì mousikés tem tanto valor para o estudo da arte musical grega.

Mas o que se passa nesse simpósio? Um anfitrião erudito, chamado Onesícrates, convidou para jantar, no segundo dia das Saturnálias, alguns amigos, dentre os quais havia dois especialistas em música, Lísias e Sotéricos. Depois de terminadas as refeições, Onesícrates propõe aos convidados falar sobre a história e a utilidade da música. Lísias e Sotéricos fazem então suas exposições: ao invés de um diálogo propriamente dito, temos dus verdadeiras conferências, que , de certa forma, se repetem.

Lísias, que é citaredo profissional, por um lado, faz uma exposição mais breve e mais técnica. Ele trata da origem e do desenvolvimento dos diferentes gêneros musicais e da sucessão de músicos célebres desde as origens míticas da arte até a segunda escola musical de Esparta, que marca o advento da lírica coral. Sua exposição visa a exatitude e a precisão cronológica e termina apresentando um lamento por causa da corrupção da música contemporânea.

Sotéricos vai além: faz uma exposição mais longa e tem uma visão mais larga. Ele trata da origem divina da música e exalta a pureza e a gravidade da arte antiga em comparação à arte moderna (isto é, a arte contemporânea a eles). O orador trata também do caráter moral dos diferentes modos e das teorias harmônicas de Platão e de Aristóteles. De modo geral, ele se dedica a atacar a música contemporânea, que era muito refinada e complexa, contrapondo a ela o maior valor moral, por causa da simplicidade e da sobriedade, da música antiga. Por isso ele trata também da importância da educação musical e da utilidade da música.

Por fim, Onesícrates retoma a palavra e faz uma breve exposição acerca do papel da música nos banquetes e acerca da harmonia dos mundos.

A respeito do Perì mousikés há ainda uma questão a ser abordada por nós: a da autoria. O autor seria realmente Plutarco? Essa atribuição, testemunhada em todos os manuscritos, foi muitas vezes contestada e é comum encontrarmos o nome “Pseudo-Plutarco” em algumas edições desse tratado sobre a música. Um dos motivos para desacreditar da autoria de Plutarco seria uma questão de estilo: nos seus escritos autênticos, Plutarco evita hiatos e no Perì mousikés abundam hiatos. Outro motivo: Plutarco usa pouco a locução te kaì e essa locução também aparece muito no tratado aqui estudado.

Entretanto, essas ocorrências acontecem mais nos textos citados do que nos próprios textos compostos pelo compilador. Pode-se afirmar também (Weil e Reinach, 1900:XXVIII) que há um perfeito acordo entre as teorias expostas no Perì mousikés e as idéias presentes em outras obras de Plutarco. Nessas obras aparece a forte influência de Aristoxeno (cujas citações ou paráfrases compõem quase a metade do Perì mousikés), o qual acreditava que a música tem um papel moralizante e pedagógico; o qual também cultuava a música severa e que lamenta nos seus textos, como Plutarco faz no seu diálogo, a decadência da arte musical a partir do século IV a. C. Há também a questão do uso do nome de Onesícrates. Este é um nome pouco comum e era o nome de um médico de Queronéia, amigo de Plutarco, o qual aparece num outro diálogo chamado tradicionalmente Questiones Convivales.

Mas independente dessas discussões sobre a autoria o Perì mousikés exerceu uma grande influência sobre os estudos musicológicos depois do Renascimento e hoje é um importante documento que nos auxilia a compreender a arte musical dos antigos gregos. Por isso, se precisamos desemvolver pesquisas acerca da música na Antigüidade Clássica, o Perì mousikés é um dos primeiros textos a ser estudados.



Bibliografia


Barker, A. (1989) Greek Musical Writings: I, Cambridge, Cambridge University Press.

Nasser, N. (1997) “O ETHOS na música grega”, em Boletim do CPA, IFCH, Unicamp, ano II, no 4, Julho/Dezembro.

Plutarque, (1900) De la Musique, Ed. crítica de Henri Weil e Théodore Reinach, Paris, Ernest Leroux Éditeur.

Reinach, T. (1926) La musique grecque, Paris, Payot.



West, M. L. (1994) Ancient Greek Music, Oxford, Clarendon Press.



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