A importância da Obra Infantil de Domingos Pellegrini Para Os Pequenos Leitores



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A IMPORTÂNCIA DA OBRA INFANTIL DE DOMINGOS PELLEGRINI PARA OS PEQUENOS LEITORES
Leônidas Pelllegrini - (G – UEL)

Nascido em Londrina (PR), em 1949, Domingos Pellegrini fez-se conhecer por seus romances, contos e livros juvenis. Terra Vermelha (1998) estréia em breve no cinema como produção de Ruy Guerra. O Caso da Chácara Chão (2000) valeu-lhe o Prêmio Jabuti 2001, e, No Coração das Perobas (2002), seu último romance publicado, ficou entre os finalistas do Jabuti 2003. Com O Homem Vermelho, cujo conto “A maior Ponte do Mundo” consta na antologia organizada por Ítalo Moriconi Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, também ganhou o Jabuti em 1977. Seu primeiro romance juvenil, A Árvore que Dava Dinheiro (1981), está no programa Biblioteca da Escola, do Ministério da Educação. As Batalhas do Castelo (1987) ganhou o prêmio de melhor livro juvenil pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte no mesmo ano de sua publicação. Assim, o restante de sua produção literária (crônicas, poesia, infantil, biografia, reportagem) fica um tanto quanto ofuscada e esquecida pela crítica, e, conseqüentemente, afastada do público leitor, mesmo que se revele de grande qualidade. Objetiva-se aqui, portanto, evidenciar a importância de sua obra infantil para os pequenos leitores, o mais importante público justamente por reservar grandes leitores em potencial.

Partindo do princípio da formação do leitor, podemos, primeiramente, atentar quanto a esse processo: a criança lê o texto para ler ou reler o mundo? De fato, a inclinação primeira parece ser sempre a de se achar que a leitura do mundo faz-se a partir da leitura do texto, e, justamente nesta concepção é que pecamos no processo de formação de leitores. O que acontece, na verdade, é que nada do que uma criança lê e lhe causa estranhamento, deslumbre ou encanto revela-se-lhe inédito, pois, em algum lugar, alguma vez, ela já ouviu falar ou teve qualquer noção do que está lendo. Ocorre, portanto, que a criança lê o mundo e capta-o ao ler o texto para, então, relê-lo e repensá-lo. Histórias de assombrações, por exemplo, assombram as crianças de determinadas idades, ou instigam sua curiosidade, justamente por elas já terem alguma noção, mesmo que mínima, da morte e do fantasioso, no caso, post-mortem. Da mesma forma, interessam-nas (e não só a elas) as histórias de discos voadores porque todas já olharam para o céu. Vale atentar, portanto, aos pais e professores: um grande leitor forma-se a partir das visões de realidade que lhe são apresentadas do momento em que nascem, aprendem os primeiros vocábulos e se alfabetizam, num movimento contínuo que segue até que se alcance maturidade e independência nesse sentido. Importa, então, ajuda-lás e impulsioná-las para sua formação enquanto leitores literários nesta primeira e mais importante fase de desenvolvimento pessoal.

Considerado o processo de formação do leitor, há que se relevar, ainda, a função humanizadora da literatura. Conforme defende Antonio Candido (1972) em “A Literatura e a Formação do Homem”, a literatura tem a capacidade de confirmar a humanidade do homem e, mais que isso, uma função formativa, que educa o leitor para a vida, fazendo-o pensar, refletir, questionar e opinar sobre o mundo. “Daí o elo entre a formação do homem, humanismo, letras chamadas humanas e o estudo da língua e da literatura” (1972, p.805). Portando, a preocupação da literatura infantil: entreter sem alienar, e educar sem aborrecer ou “doutrinar”, pois,


A literatura pode formar; mas não segundo a pedagogia oficial, que costuma vê-la como um veículo da tríade famosa – o Verdadeiro, o Bom, o Belo, definidos conforme os interesses dos grupos dominantes, para reforço da sua concepção de vida. Longe de ser um apêndice da instrução moral e cívica, [...] ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela – com altos e baixos, luzes e sombras. (CANDIDO, 1972, p.805)
Então, a importância de obras de caráter humano e humanístico, que possam não somente revelar aos pequenos leitores a aventura de se entreter nas letras, como também lhes possibilitar um contato “diferente” com o mundo, uma relação mais apurada com a realidade que contemplam, no mesmo processo, anteriormente citado, de leitura e releitura de seu universo.

Consideradas as prerrogativas anteriores, tornamos à obra de Domingos Pellegrini. Constando dos três títulos a serem analisados aqui – A Festa dos Números, No dia em que Deus Criou as Frutas e A Guerra do Macarrão – sua produção infantil permanece esquecida pela crítica, em geral mais preocupada com a temática adulta, e pelo mercado livreiro, mais interessado na literatura best-seller, ou, no caso da literatura infantil, nas obras clássicas. E lembramos, antes de tudo, que não há aqui a intenção de se atacar os clássicos, mas há que se compreender a necessidade de um espaço para uma nova literatura infantil. Muitas das antigas histórias infantis traziam, em suas versões originais, mensagens austeras, de um moralismo agressivo, e suas sucessivas adaptações e readaptações, hoje, chegam à exaustão e mesmo ao empobrecimento destas próprias obras. É importante relembrar, portanto, que este maior espaço para uma nova literatura infantil serve mesmo para que esta se aprimore mais, pois reconhecemos também elevada quantidade de “tranqueiras” que circulam no mercado editorial infantil, seja por charlatanismo (que sempre há de existir), seja pela falta de maturidade de muitos autores deste gênero. Convenientes, então, fazem-se as palavras de Maria da Glória Bordini:


O que impera, na média da produção ficcional para crianças, é o despautério. Campeiam a imbecilização das fórmulas verbais com diminutivos e adjetivações profusas e construções frasais canhestras; a apresentação desavergonhada de absolutos duvidosos e irretorquíveis sobre o real, desestimulando a reflexão e a crítica; a censura aos aspectos menos edificantes da conduta humana e, em especial, a vontade desembargada de ensinar, sejam atitudes morais ou informações tidas por úteis, como se a obra devesse substituir os manuais de ensino e a ação educacionadora dos pais e professores. (BORDINI, 1985, p.7)
Aqui, parece que tornamos à questão do processo de formação do leitor e do homem e mais uma vez nos afastamos da obra de Pellegrini. É muito necessário frisar, entretanto, que devemos ter bem clara a importância desse processo para analisarmos os livros de Pellegrini, assim como há que se ressaltar o contexto em que sua produção infantil está inserida. Na atitude de evidenciar o valor da referidas obras, torna-se imprescindível uma contextualização e uma justificativa prévias. Mas voltamos, enfim, ao principal assunto de nossa tese.

As produções infantis de Domingos Pellegrini revelam-se ricas em conteúdo e engenho. Além das mensagens que edificam sem querer avidamente “ensinar” (vide a citação anterior), e que são capazes de entreter e divertir, seus livros nesta área são todos eles constituídos de uma linguagem poética cuidadosamente trabalhada, capaz de encantar não só as crianças, mas leitores de todas as idades. Daí, um fator que favorece a participação dos pais e professores no papel de “formadores literários”: com obras bem trabalhadas, que podem vir a despertar as suas curiosidades também, fica mais fácil e agradável sua atuação nesse sentido. Além disso, é bastante claro que as crianças não são indiferentes à poesia. Seu contato com ela faz-se presente desde quando são bebês, com as cantigas de ninar. Assim, a linguagem presente nos livros de Pellegrini põe os pequenos em contato com o ritmo, a rima e a musicalidade, identificando-se com o universo infantil. Segundo Bordini,


A evidência sonora da poesia, traço diferencial que aos olhos despreparados a torna distinta da prosa, ocupa a linha de frente quando o texto se destina à criança, em especial ao bebê e aos pequeninos. O tecido melódico, formado por aliterações e assonâncias, anáforas e rimas, estribilhos, acentos e metros variados, tradicionalmente tem sido cultivado pelo povo para aquietar a criança com ritmos hipnóticos ou para expressar-lhe corporalmente o afetos dos pais, unindo a voz, que sussurra ou canta os versos, à carícia. (BORDINI, 1985, p.23)
Na literatura, portanto, não se faz menos essencial a presença do elemento poético. O homem, se desde cedo tem esse contato, torna-se em tal proporção muito mais sensível à arte e mais apurado com o uso da própria língua, o que lhe vale uma maior qualidade de vida. E, finalmente, concluindo as considerações acerca da linguagem dos livros infantis de Domingos Pellegrini, verificamos também que a dramaticidade expressa nos constantes diálogos entre os personagens dá mais vida às histórias, e também uma alta dinâmica de leitura, tornando seu hábito agradável e estimulando os pequenos leitores a continuarem lendo. Traçaremos, então, a seguir, as considerações pertinentes a cada uma das referidas obras.

A Festa dos Números, publicado em 1995 pela Melhoramentos e ilustrado por Mariângela Haddad, é bastante recomendável para crianças em fase de alfabetização. Neste livro, Pellegrini lida “brincando” com a noção numeral básica, transportando os números para além de seu lugar abstrato na mente das pessoas, dando-lhes vida e personalidade, valendo-se de exemplos de conhecimento geral que enriquecem o imaginário, a criatividade e os horizontes culturais dos pequenos. Em meio a um amigável conflito numa festa promovida pelo Zero, os demais números, um por um, procuram convencer a todos de que são os melhores e mais importantes, havendo, no desfecho, um entendimento geral quando os personagens percebem que, ficando lado a lado, sempre tendem a formar números maiores, e a festa torna-se uma confraternização infinita entre os números. Confiramos alguns trechos que melhor ilustram as considerações acima:
Um dia o Número Zero

deu uma festa de arromba.

Todos os números vieram

vestidos com muita pompa.

Dançaram samba e bolero

e foram tirando a roupa (FN 2)


O Um (claro) falou primeiro:

Sou o Número dos Números:

antes de mim só tem o Zero

(nada, nem menos, nem mais).

SOU ÚNICO E PRIMEIRO!

Todos números, um por um,

Numa coisa são iguais:

são múltiplos de um! (FN 5)


Então se ouviu uma voz:

O mês tem quatro semanas,

Quatro estações tem o ano,

quem tem pais tem quatro avós,

são quatro os membros humanos. (FN 10)
Os números se espantaram

com tanta numeração.

Mas logo se acostumaram,

fizeram contas então

de todo tipo: de menos

de mais, de multiplicar,

divisão e mil problemas,

equação e até teorema,

matematicamente assim

fazendo tal confusão,

que a Festa dos Números

nunca mais teve fim (FN 24)


Assim, termina a festa. Já No Dia em que Deus Criou as Frutas, publicado em 1997 pela FTD e ilustrado por José Carlos de Castro, constitui uma brincadeira com a fábula cristã da criação do mundo. Quando Deus olha para a Terra e acha que está tudo pronto, ouve uma gritaria: suas criações não lhe dão descanso até que ele transforme o mundo num imenso pomar. Seguindo com a linguagem poética, que a arte gráfica do livro traz em versos corridos e balões que constituem, respectivamente, a narração em 3a pessoa, os pensamentos de Deus e os diálogos do Criador com os animais, a obra também se mostra bastante recomendável para as crianças pela sua potencialidade de exercitar o imaginário e suscitar discussões construtivas em torno de uma questão de conhecimento geral, independentemente de quais possam ser as religiões dos pequenos. Deus, que parece constituir um assunto tão delicado e complexo de se lidar mesmo na literatura adulta, aparece aqui com a naturalidade de um pretexto feliz, que vem puxar debates sobre a existência da vida em geral, o que parece faltar tanto às crianças muitas vezes. Ficam, novamente, trechos ilustrativos:
... Ele pensou bem:

está tudo bom demais,

Terra, mar, ar e sol,

plantas, chuvas e rios,

peixes, aves e animais.

Aí se ouviu um assovio.

Era um tiziu:

Ei, Deus! Que é que nós

Vamos comer?! (DCF 3 – 4)
O canário olhou, olhou

bicou aquilo e cantou:

É uma mistura de mel

com gosto não sei de quê!

É mamão – disse Deus –

feito com todo carinho

pra bico de canarinho. (DCF 10)
Ficou só o tiziu, e viu

Deus abrir a melancia,

o vermelho das fatias,

o suco doce e as abelhas

fazendo da fruta mel.

E Deus daí resolveu

que depois da melancia

deixava outras frutas

para criar outro dia. (DCF 36 – 37)
Assim termina o livro. Em aberto, com muitas frutas a serem ainda criadas, mas já várias curiosidades instigadas no espírito do pequeno leitor. E, enfim, com A Guerra do Macarrão, completa-se a obra infantil que Domingos Pellegrini publicou até agora. Também lançado em 1997, pela Quinteto Editorial, trazendo ilustrações de Luiz Alberto da Silva, mostra-se este um livro crítico, irônico, divertido, lírico e instrutivo. Baseando-se num fato real, uma indisposição entre diplomatas italianos e chineses sobre qual dos dois povos teria inventado o macarrão, Pellegrini constrói, neste livro, uma comédia pastelão regada de farpas e molho. Na medida em que a discussão entre os diplomatas prossegue, torna-se cada vez mais calorosa até se tornar uma verdadeira guerra de massa. No final, sobrando apenas sujeira e vergonha, trazem os derradeiros versos uma mensagem de fraternidade, quando os dois copeiros (um italiano e o outro chinês) encarregados de limpar a bagunça compartilham pacificamente uma última vasilha de macarrão, ainda inteira.

Tornamos, aqui, à questão de leitura e releitura do mundo e à formação do homem com a literatura. Em A Guerra do Macarrão Pellegrini revela com comicidade e ironia a estupidez do ser humano quando guiado pelo orgulho e pela vaidade, fazendo uma crítica à guerra na sua essência, mas deixando uma idéia positiva no final, mostrando que as pessoas também podem ser amigas e se entender numa boa. As crianças, após a leitura, haverão de refletir sobre o que lhes acontece em volta, e questionar e discutir com os pais e professores sobre a guerra e a paz, no caso. Em maior ou menor proporção, estão todas elas cercadas de notícias de conflitos em diversas regiões do mundo, vêem brigas na rua ou em casa, ou brigam entre si elas próprias. A partir do momento em que começarem a pensar sobre estas circunstâncias e outras parecidas, estarão mais aptas a refletir melhor sobre a realidade e seus próprios comportamentos. Da mesma forma, ficam melhor preparadas para a recepção de muitos filmes e desenhos animados violentos que lhes são empurrados todos os dias.

Finalizando nossas considerações, há que se falar, ainda, do caráter instrutivo de A Guerra do Macarrão, que traz, além dos versos e ilustrações, o dito “Cantinho de Explicações”, que consiste nas notas presentes no final da página, elucidando os leitores sobre muito do que se fala na história. Quando um dos diplomatas italianos cita Marco Pólo como inventor do macarrão, por exemplo, lá está a nota esclarecedora:
Marco Pólo foi o italiano que no tempo antigo foi à China e trouxe para o ocidente a bússola e a pólvora, esta ainda sob a forma de fogos de artifício, e daí usada para as pioneiras armas de fogo. Dizem os chineses que Pólo levou também da china o macarrão, enquanto os italianos que ele é que levou o macarrão para a China. (GM 24 – 25)
Segundo o próprio Pellegrini, numa colocação bem-humorada, “As explicações são para ajudar os pais preguiçosos mas que querem passar por sabidos com os filhos. Portanto, ou leiam o Cantinho de Explicações antes de ler A Guerra do Macarrão, ou então expliquem porque precisam consultar as explicações se são tão sabidos.” (GM 4) E fechamos, novamente, com trechos ilustrativos:
A Guerra do Macarrão

é a mais enrolada das guerras.

Uns dizem que começou

quando uma delegação

de diplomatas chineses

Visitou Milão.

Outros dizem que não,

que não foi bem assim:

começou, isto sim,

quando uma delegação

de diplomatas italianos

Visitou Pequim. (GM 4)


E como numa comédia,

cada chinês lançou mão

da cuia de macarrão,

iniciando assim

a batalha do Yakisoba

contra o talharim. (GM 30)


Foi molho pra todo lado,

tomate contra missô

as gravatas lambuzando

e – lutando com furor –

no fim, cada italiano

parecia um leão

e cada chinês, um dragão,

feitos de macarrão. (GM 32)


O que ninguém sabe ainda

é que no dia seguinte

após tais e tantos brindes,

aquele imenso salão

foi limpo por dois copeiros,

um chinês,outro italiano,

que, no meio da sujeira,

deram com uma vasilha

ainda com macarrão;

e estava frio, mas então

comeram como irmãos

e acharam uma maravilha (GM 38)


Enfim, parece ter sido bastante evidenciada a relevância dos livros infantis de Domingos Pellegrini para os pequenos leitores. Sua formação enquanto leitores literários é fortalecida, tanto com o conteúdo sempre atual e interessante das obras, assim como com o trabalho da linguagem, que coloca a poesia próxima à criança na literatura. Da mesma forma, haja vista o caráter humanístico das referidas histórias, com mensagens que divertem e edificam enquanto levam os pequenos à reflexão e à percepção crítica da realidade, sem a intenção de moldar-lhes o caráter com moralismos “canonizados”, a obra infantil de Pellegrini auxilia na formação das crianças como seres humanos, com o gosto pela leitura, literatura e poesia devidamente despertado e pronto para um futuro e constante amadurecimento.

Referências Bibliográficas


BORDINI, Maria da Glória. Poesia infantil. São Paulo: Ática, 1985. (Série Princípios, 97)

CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In: ______. Ciência e cultura. São Paulo, set., 1972, v.24 (9).

PELLEGRINI, Domingos; HADDAD, Mariângela (ilustrações). A festa dos números. São Paulo: Melhoramentos, 1995.

______; CASTRO, José Carlos de (ilustrações). No dia em que deus criou as frutas. São Paulo: FTD, 1997.



______; SILVA, Luiz Alberto da (ilustrações.) A guerra do macarrão. São Paulo: Quinteto Editorial, 1997.




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