A hora do Vampiro



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Charlie se escondeu atrás do ônibus e depois avançou, colado à lateral amarela, até a porta do passageiro. Estava aberta. Ele retesou os músculos e, de um salto, subiu os degraus e entrou no ônibus.

— Fiquem onde estão! Moleque, tire a mão dessa buzina, ou eu...

O menino sentado no banco do motorista, apertando a buzina com as duas mãos, virou-se para ele com um sorriso insano. Charlie sentiu as entranhas gelarem. Era Richie Boddin. Estava branco como um lençol, com a exceção dos tições que eram seus olhos e dos lábios vermelho-sangue.

E seus dentes...

Charlie Rhodes olhou para os bancos de trás.

Aquele era Mike Philbrook? Audie James? Deus misericordioso, os filhos dos Griffen também estavam lá! Hal e Jack, sentados nos fundos, com feno nos cabelos. Mas eles não andam no meu ônibus! Mary Kate Greigson e Brent Tenney, sentados juntos. Ela estava de camisola, ele de jeans e camisa de flanela vestida ao contrário e do avesso, como se ele tivesse desaprendido a se vestir.



E Danny Glick. Mas... santo Deus... ele tinha morrido... semanas atrás!

— Seus... seus moleques... — balbuciou ele.

A raquete de tênis caiu de sua mão. Ouviu um assobio e um baque surdo quando Richie Boddin, com o mesmo sorriso insano, acionou a alavanca de cromo que fechava a porta dobradiça. E eles começaram a levantar dos bancos, um a um.

— Não — disse ele, tentando sorrir. — Crianças... vocês não estão entendendo. Sou eu. Charlie Rhodes. Vocês... vocês... — Ele lhes abriu um sorriso sem sentido, sacudiu a cabeça, estendeu as mãos para mostrar que eram apenas as mãos do velho Charlie Rhodes, inocentes, e recuou até bater com as costas no vidro amplo do pára-brisa.

— Não... — sussurrou.

Eles se aproximaram, arreganhando os dentes.

— Por favor, não...

E se abateram sobre ele.

28

Ann Norton morreu no curto trajeto de elevador do primeiro ao segundo andar do hospital. Um tremor a percorreu, e um pequeno filete de sangue escapou de sua boca. — Pronto — disse um dos serventes.

— Pode desligar a sirene agora.

29

Eva Miller despertou de um sonho.



Fora um sonho estranho, não exatamente um pesadelo. O incêndio de 1951 ainda ardia sob um céu implacável, que passava de um azul-claro no horizonte a um branco ígneo e impiedoso no zênite. O sol fulgia nessa cúpula como uma moeda de cobre. O odor acre da fumaça permeava tudo. Todas as lojas haviam fechado, e as pessoas tomavam as ruas, olhando para sudoeste, em direção aos pântanos, ou para noroeste, em direção à floresta. A fumaça havia pairado sobre a cidade a manhã toda, mas agora, à uma da tarde, dava para ver as flamejantes artérias dançando no matagal além do pasto dos Griffen. A brisa constante que empurrara as chamas sobre as clareiras agora lançava uma nuvem de cinzas brancas sobre a cidade, como neve de verão.

Ralph estava vivo, tentando salvar a serraria. Mas era uma mistura, porque ela estava com Ed Craig, e só conhecera Ed no outono de 1954.

Eva contemplava o fogo da janela do quarto. Estava nua. Mãos a tocaram por trás, mãos morenas e rústicas sobre a brancura macia de seus quadris, e ela sabia que era Ed, embora não conseguisse ver o reflexo dele na vidraça.

Ed, tentou dizer ela. Agora não. Ainda é cedo. Faltam quase nove anos.

Mas as mãos dele insistiam, acariciando sua barriga, um dedo brincando com seu umbigo. Depois, ambas as mãos subiram para envolver seus seios com insolente segurança.

Ela tentou lhe dizer que estavam na janela, que as pessoas na rua podiam vê-los, mas as palavras não saíam. E então sentiu os lábios dele em seu braço, seu ombro, depois se fechando com volúpia em seu pescoço. Sentiu os dentes dele, sugando e mordendo, tirando sangue, e ela de novo tentou protestar: Não deixe marcas no meu pescoço, Ralph vai ver...

Mas era impossível protestar, e ela já nem queria mais. Não ligava mais se alguém olhasse e os visse nus e impudentes.

Eva voltou os olhos sonhadoramente para o incêndio, enquanto ele aplicava os dentes e os lábios ao seu pescoço, e a fumaça era escura, negra como a noite, toldando o céu ardente e metálico, anoitecendo o dia. Mas o fogo o penetrava com seus pulsantes filamentos escarlates — flores febris numa selva noturna.

E então de fato era noite, e a cidade desaparecera, mas o fogo ainda fremia na escuridão, tomando formas fascinantes e caleidoscópicas, até delinear um rosto em sangue — um rosto com nariz aquilino, olhos profundos e fogosos, lábios cheios e sensuais, parcialmente ocultos por um denso bigode, e cabelos penteados para trás como os de um músico.

— O guarda-louça que está no sótão — disse uma voz distante, e ela sabia que pertencia a ele. — Acho que servirá. E depois prepararemos a escada... precisamos nos precaver.

A voz desvaneceu. As chamas desvaneceram.

Restara apenas a escuridão, e Eva em meio às brumas, sonhando ou começando a sonhar. Ela pensou vagamente que o sonho seria doce e longo, mas no fundo amargo e sem luz, como as águas do Letes.

Outra voz — a de Ed.

— Venha, querida. Levante. Precisamos fazer o que ele disse.

— Ed? Ed?

O rosto dele assomou, não afogueado, mas terrivelmente pálido e vazio. Mesmo assim ela o amava de novo... mais do que nunca. Ansiava por ser beijada.

— Venha, Eva.

— Estou sonhando, Ed?

— Não... não está.

Ela teve medo, mas não por muito tempo. A compreensão o substituiu. E, com a compreensão, veio a fome.

Eva olhou para o espelho e viu apenas o reflexo de seu quarto, vazio e imóvel. A porta do sótão estava trancada, a chave estava na última gaveta da cômoda, mas não importava. Eles não precisavam mais de chaves.

Deslizaram entre a porta e o batente como duas sombras.

30

Às três da manhã o sangue pulsa lento e espesso, o sono é pesado. Nessa hora, a alma ou dorme ignorando a escuridão ou olha ao redor em profundo desespero. Não há meio-termo. Às três da manhã, a terra, essa velha cortesã, tira a maquiagem vistosa e mostra o rosto sem nariz, o olho de vidro. Os risos se tornam frágeis e ocos, como no castelo de Poe cercado pela Morte Escarlate. O horror é destruído pelo tédio. O amor é um sonho.

Parkins Gillespie andou com passos vacilantes da mesa de sua sala até a cafeteira, como um macaco magro e doentio. Atrás dele, um jogo de paciência estendido sobre a mesa. Ele ouvira muitos gritos naquela noite, o som penetrante e estranho de uma buzina, alguém correndo. Não saíra para investigar nada disso. Seu rosto estava encovado, atormentado pelo que imaginava estar ocorrendo na cidade. Usava uma cruz, uma medalha de São Cristóvão e o símbolo da paz ao redor do pescoço. Não sabia bem por que os colocara, mas lhe davam segurança. Se conseguisse sobreviver àquela noite, iria para bem longe no dia seguinte, deixando o distintivo na prateleira, ao lado do molho de chaves.

Mabel Werts estava sentada na cozinha, diante de uma xícara de café frio, as venezianas baixadas pela primeira vez em anos, os binóculos no estojo. Pela primeira vez em sessenta anos, ela não queria ver o que se passava. A noite estava prenhe de mexericos mortais, mas ela não queria ouvi-los.

Bill Norton estava a caminho do Hospital de Cumberland atendendo a um chamado (feito enquanto sua mulher ainda vivia), com a expressão rígida e imóvel. Os limpadores de pára-brisa arrastavam-se hipnoticamente sob a chuva, que caía agora com mais força. Ele tentava não pensar em nada.

Outros na cidade, dormindo ou acordados, continuavam ilesos. A maioria era gente sozinha, sem parentes ou amigos na cidade. Muitos nem sabiam que algo estava acontecendo.

Os que estavam acordados, no entanto, haviam acendido todas as luzes. Os motoristas que cruzaram a cidade (e muitos carros passaram por lá, em direção a Portland ou localidades ao sul) devem ter estranhado aquela cidadezinha, tão parecida com outras ao longo da estrada, com tantas casas totalmente iluminadas na calada da noite. Alguns podem ter diminuído a velocidade, procurando um incêndio ou um acidente; mas, não vendo nada, voltaram a pisar no acelerador e se esqueceram do caso.

O mais estranho é que nenhum dos que vigiavam a noite em Jerusalem's Lot sabia a verdade. Alguns suspeitavam, mas essas suspeitas eram vagas e informes como fetos. Mesmo assim, não hesitaram em abrir as gavetas das cômodas, as caixas guardadas no sótão ou os porta-jóias em busca de quaisquer símbolos religiosos ou talismãs. Fizeram isso sem pensar, como um homem dirigindo por uma longa estrada começa a cantar sem perceber. Andavam lentamente de um cômodo a outro, como se tivessem frágeis corpos de vidro, acendendo as luzes, sem olhar pelas janelas.

Acima de tudo sem olhar pelas janelas.

Por terríveis que fossem os ruídos e as possibilidades, por pior que fosse o desconhecido, havia algo ainda pior: olhar a Górgona no rosto.

31

O barulho penetrou seu sono como um prego perfurando um carvalho espesso — com fina lentidão, fibra por fibra. Primeiro, Reggie Sawyer pensou que estivesse sonhando com carpintaria, e seu cérebro, no território sombrio entre o sono e a vigília, foi tomado pela lembrança fragmentária de um dia em que ele e o pai pregaram tábuas nas laterais de uma cabana que ergueram no lago Bryant em 1960.

Essa lembrança deu lugar à consciência de que ele não estava sonhando, mas ouvia mesmo o bater de um martelo. Após um breve período de confusão, ele percebeu que os golpes eram aplicados à porta da frente. Alguém esmurrava a madeira com a regularidade de um metrônomo.

Seus olhos primeiro fitaram Bonnie, deitada de lado, uma forma em S sob os cobertores. Depois o relógio: 4hl5.

Ele levantou, saiu de mansinho do quarto e fechou a porta. Acendeu a luz do corredor, andou em direção à porta e depois parou, sentindo um arrepio interior.

Sawyer olhou para a porta da frente com muda curiosidade. Ninguém batia às 4hl5. Se alguém na família morresse, alguém avisaria por telefone, não viria bater na porta.

Ele estivera no Vietnã durante sete meses em 1968, um ano muito difícil para os Estados Unidos na guerra, e participara de combates. Naquele tempo, acordar era algo brusco como um estalar de dedos ou o acender de uma lâmpada. Num minuto dormia-se como uma pedra; no outro, estava-se desperto na escuridão. Ele perdera esse hábito assim que o mandaram de volta para os Estados Unidos, e se orgulhava do fato, embora nunca o mencionasse. Não era uma máquina, afinal. Aperte o botão A e Johnny acorda. Aperte o botão B e Johnny mata uns chinas.

Mas agora, sem aviso, a confusão e a névoa do sono se desfizeram num segundo, e lá estava ele, piscando os olhos e com frio.

Havia alguém do lado de fora. O filho do Bryant, provavelmente, bêbado e procurando briga. Pronto para matar ou morrer pela bela donzela.

Ele entrou na sala e foi até o suporte de armas sobre a lareira pré-fabricada. Não acendeu a luz. Sabia se deslocar só pelo tato. Pegou a espingarda, abriu-a, e a luz do corredor se refletiu sobre os cartuchos de metal. Voltou para a porta da sala e espiou pelo corredor. As batidas continuavam monotonamente, com regularidade, mas sem ritmo.

— Entre! — gritou Reggie.

As batidas cessaram.

Depois de uma longa pausa, a maçaneta girou, muito lentamente, até o fim. A porta se abriu, e lá estava Corey Bryant.

Reggie sentiu o coração afundar. Bryant vestia as mesmas roupas que na noite em que Reggie o expulsara, só que agora estavam rasgadas e enlameadas. Folhas se colavam a suas calças e camisa. Uma mancha de terra na testa acentuava sua palidez.

— Pare onde está — disse Reggie, erguendo a espingarda e puxando a trava de segurança. — Desta vez está carregada.

Mas Corey Bryant avançou lentamente, os olhos apagados, fixos no rosto de Reggie com uma expressão pior do que o ódio. Ele passou a língua pelos lábios. Seus sapatos estavam cobertos de uma crosta de lama enegrecida pela chuva, e soltavam torrões no chão do corredor a cada passo. Havia algo implacável e desumano naquele andar, que ecoava na expressão fria e impiedosa dos olhos. Os pés cobertos de lama pisavam forte. Nenhuma ordem ou súplica os faria parar.

— Se der outro passo, arrebento sua cabeça — disse Reggie. As palavras saíram duras e secas. O rapaz não estava só bêbado. Estava doido. E Reggie teve a súbita certeza de que teria de atirar nele.

— Pare — disse de novo, mas de modo quase mecânico.

Corey Bryant não parou. Os olhos se fixavam no rosto de Reggie com a avidez inerte de um alce empalhado. Seus pés pisavam solenemente o chão.

Bonnie soltou um grito.

— Entre no quarto — gritou Reggie, e entrou no corredor para se colocar entre os dois. Bryant estava a apenas dois passos de distância agora. Estendeu a mão pálida e vacilante para os canos duplos da espingarda.

Reggie puxou os dois gatilhos.

A explosão foi como um trovão no estreito corredor. Os dois canos cuspiram fogo brevemente. O cheiro de pólvora queimada encheu o ar. Bonnie deu outro grito, agudo. A camisa de Corey se desfez em retalhos escuros. Mas, quando revelou a brancura doentia do peito e do abdômen, não se via nenhuma marca. Reggie teve a impressão de que aquela carne não era real, mas imaterial como gaze.

Depois a espingarda foi arrancada de suas mãos, como das mãos de uma criança. Ele foi agarrado e jogado contra a parede com força descomunal. Suas pernas cederam, e ele caiu, entorpeci­do. Bryant passou por ele em direção a Bonnie. Ela gritava, mas os olhos pregados no rosto de Bryant estavam cheios de ardor.

Corey olhou por sobre o ombro e dirigiu um sorriso largo e demente para Reggie, como os dos crânios de vacas no deserto. Bonnie estendeu os braços trêmulos. Em seu rosto, o terror e o desejo se revezavam como flashes alternados de luz e sombra.

— Querido — disse ela.

Reggie gritou.

32

Ei, amigodisse o motorista do ônibus. — Chegamos a Hartford. Callahan olhou pela janela ampla e polarizada. Viu a estranha paisagem, tornada ainda mais estranha pelas primeiras luzes da manhã. Àquela hora, em Lot, eles voltavam para suas tocas.



— Eu sei — replicou ele.

— Vamos fazer uma parada de vinte minutos. Não quer entrar e comer alguma coisa?

Callahan tirou a carteira do bolso com a mão enfaixada e quase a deixou cair. Era estranho, mas a queimadura na mão não doía mais tanto. Estava só amortecida. Ele preferia que doesse. Pelo menos a dor era real. Sentia o gosto de morte na boca, um gosto brutal e farináceo como o de uma maçã estragada. Era só aquilo? Só. Não podia ser pior.

Estendeu uma nota de vinte.

— Pode me trazer uma garrafa?

— Senhor, é proibido...

— Pode ficar com o troco, é claro. Meio litro está bom.

— Não quero confusão no meu ônibus. Vamos chegar a Nova York daqui a duas horas. Pode conseguir o que quiser lá. O que quiser.

Acho que está enganado, amigo, pensou Callahan. Voltou a inspecionar a carteira. Tinha uma nota de dez, duas de cinco, uma de um. Juntou a de dez à de vinte e as entregou com a mão enfaixada.

— Meio litro está bom — repetiu. — E pode ficar com o troco.

O motorista olhou para as notas e depois para os olhos escuros e fundos, e por um terrível momento pensou estar diante de um crânio vivo, um crânio que se esquecera de como sorrir.

— Trinta dólares por meio litro? O senhor enlouqueceu. — Mas ele pegou o dinheiro, andou até a frente do ônibus vazio e se virou. O dinheiro havia desaparecido. — Mas nada de confusão. Não quero saber de confusão no meu ônibus.

Callahan assentiu como uma criança que recebe uma merecida reprimenda.

O motorista olhou para ele durante mais um momento e desceu.

Algo barato, pensou Callahan. Que queime a boca e arda na garganta. Que tire esse gosto doce, suave... ou que pelo menos o alivie até ele encontrar um lugar para começar a beber de verdade. Beber e beber até...

Ele achou que fosse chorar. Mas não lhe vieram lágrimas. Ele se sentia seco, totalmente vazio. Tudo que havia era... aquele gosto.



Rápido, motorista.

Ele continuou olhando pela janela. Do outro lado da rua, um adolescente estava sentado nos degraus de uma varanda, a cabeça apoiada nos braços cruzados. Callahan o olhou até o ônibus voltar a andar, mas o menino não se mexeu.

33

Ben sentiu uma mão em seu braço e emergiu rapidamente do sono.

— Bom-dia — disse Mark, de pé a seu lado.

Ele abriu os olhos, piscou duas vezes para clareá-los, e olhou para o mundo além da janela. A aurora se insinuava por entre uma insistente chuva de outono. As árvores no entorno gramado do pavilhão do hospital já estavam quase desnudadas, e os ramos escuros se delineavam contra o céu cinzento como letras gigantescas de um alfabeto desconhecido. A Rodovia 30, que saía da cidade a leste, reluzia como uma pele de foca — um carro que passava com os faróis ainda ligados projetava reflexos vermelhos e sinistros sobre o asfalto.

Ben ergueu-se e olhou ao redor. Matt continuava dormindo, o movimento do peito indicando uma respiração curta mas regular. Jimmy também dormia, estendido na única espreguiçadeira do quarto. Estava com a barba por fazer, o que destoava de sua pose de médico. Ben passou a mão pelo próprio rosto áspero.

— Já está na hora, não é? — perguntou Mark.

Ben assentiu. Pensou no dia que os aguardava e em todo o seu abominável potencial e quis fugir dele. O único modo de enfrentá-lo era só pensar em termos dos dez minutos seguintes. Olhou para o rosto do menino, e viu uma determinação férrea que o constrangeu. Levantou e sacudiu Jimmy.

— Hã? — fez Jimmy. Mexeu-se na cadeira como um mergulhador emergindo das profundezas. Contorceu o rosto e abriu os olhos, que, por um momento, se encheram de terror. Olhou para os dois, desnorteado. Depois os reconheceu e relaxou.

— Estava sonhando.

Mark assentiu, entendendo perfeitamente.

Jimmy olhou pela janela.

— Amanheceu — disse ele, com a repulsa de um avarento diante da perspectiva de gastar. Ergueu-se e foi tomar o pulso de Matt.

— Como ele está? — perguntou Ben.

— Acho que melhor do que ontem — disse Jimmy. — Ben, vamos descer pelo elevador de serviço, caso alguém tenha visto Mark entrar ontem à noite. Quanto menos risco, melhor.

— O Sr. Burke ficará bem sozinho? — perguntou Mark.

— Acho que sim — disse Ben. — Ele tem seus próprios recursos. Barlow adoraria se ficássemos mais um dia presos aqui.

Cruzaram o corredor pé ante pé e pegaram o elevador de serviço. A cozinha começava a funcionar àquela hora, quase 7hl5. Um dos cozinheiros ergueu a cabeça, acenou e disse:

— Oi, doutor.

Ninguém mais lhes dirigiu a palavra.

— Para onde iremos primeiro? — perguntou Jimmy. — Para a escola da rua Brock?

— Não — disse Ben. — Tem muita gente lá de manhã. A que horas as crianças saem, Mark?

— Só às duas horas.

— Ainda restará muita luz do dia — disse Ben. — Vamos primeiro para a casa de Mark, fazer estacas.

34

Ao se aproximarem de Lot, uma nuvem de apreensão quase palpável se for­mou dentro do carro, e eles pararam de conversar. Quando Jimmy saiu da estrada depois da grande placa verde onde se lia Rodovia 12 Jerusalem’s Lot Cumberland, Ben lembrou que fora por aquele caminho que ele e Susan haviam voltado na primeira vez que saíram juntos. Ela quisera ver um filme com corrida de carros.

— A situação piorou — disse Jimmy, o rosto infantil assustado e zangado. — Nossa, dá quase para sentir pelo cheiro.

Dava mesmo, pensou Ben. Só que era um cheiro abstrato, e não físico: a exalação das tumbas.

A Rodovia 12 estava quase deserta. No caminho, passaram pelo caminhão de leite de Win Purinton, parado no acostamento e vazio. O motor ainda funcionava. Ben foi desligá-lo, depois de olhar pra dentro do veículo. Jimmy o interrogou com o olhar quando ele voltou. Ben sacudiu a cabeça.

— Não o vi. Já estava quase sem gasolina. Ficou parado, com o motor funcionando, durante horas.

Jimmy bateu na perna com o punho cerrado. Mas, ao entrarem na cidade, ele disse, com alívio quase absurdo:

— Olhem, Crossen está aberto.

Era verdade. Milt estava na frente da loja, colocando uma capa de plástico sobre a banca de jornais. Lester Silvius estava ao seu lado, com um impermeável amarelo.

— Não estou vendo o resto da turma — disse Ben.

Milt acenou para eles, e Ben pensou ver rugas de preocupação no rosto dos dois. A placa de “Fechado” continuava na porta da Funerária Foreman. A loja de ferramentas também estava fechada, assim como a drogaria Spencer’s. O restaurante estava aberto, e, depois de passarem por ele, Jimmy parou em frente da loja nova. Sobre a vitrine, letras simples e douradas anunciavam o nome: “Barlow e Straker — Móveis Finos”. E, como informara Callahan, um cartaz colado na porta anunciava, na caligrafia refinada que todos reconheceram — era a mesma da carta do dia anterior —, “Fechado até segunda ordem”.

— Por que parou aqui? — perguntou Mark.

— Para ver se, por acaso, ele não está escondido aqui — disse Jimmy. — É um lugar tão óbvio que ele pode ter achado que nem passaria pela nossa cabeça. E acho que os agentes da alfândega marcam as caixas que inspecionam. Escrevem “Ok” com giz.

Foram até os fundos da loja. Enquanto Ben e Mark se encolhiam debaixo da chuva, Jimmy quebrou o vidro da porta com o braço protegido pelo casaco, e os três puderam entrar.

O ar estava estagnado e insalubre, como se a loja estivesse fechada havia séculos, e não dias. Ben deu uma olhada na sala principal, mas não havia onde se esconder lá. A decoração era escassa, e parecia que Straker não renovara o estoque.

— Aqui! — Jimmy chamou com voz rouca, e o coração de Ben saltou até a garganta.

Jimmy e Mark olhavam para uma longa caixa que Jimmy abrira com a ponta curva do martelo. Pela fresta, viram uma pálida mão saindo de uma manga preta.

Sem pensar, Ben atacou a caixa. Jimmy tentava abrir a outra extremidade com o martelo.

— Ben, você vai cortar as mãos — disse ele. — Você...

Mas Ben não ouvia. Arrancou as tábuas da caixa, sem se importar com lascas e pregos. A viscosa criatura da noite estava lá dentro, e ele cravaria uma estaca em seu coração como havia feito com Susan, e...

Arrancou mais uma tábua da caixa ordinária de madeira e descobriu o rosto morto e pálido de Mike Ryerson.

Por um momento, fez-se silêncio, e depois os três soltaram a respiração. Foi como se uma brisa tivesse atravessado o cômodo.

— E agora? — perguntou Jimmy.

— É melhor irmos para a casa de Mark — disse Ben, a voz cheia de cansaço e decepção. — Voltaremos depois. Nem sequer temos uma estaca.

Colocaram as tábuas quebradas de volta de qualquer jeito.

— Deixe-me ver suas mãos — disse Jimmy. — Estão sangrando.

— Depois — disse Ben. — Vamos.

Eles saíram da loja, sem expressar o alívio que sentiam por voltar à luz do dia. Jimmy seguiu pela avenida Jointner rumo à parte residencial da cidade, passando pelo pequeno centro comercial. Chega­ram à casa de Mark rápido demais para o gosto deles.

O velho sedan do padre Callahan estava parado atrás do econômico carro de Henry Petrie na entrada da casa. Ao vê-lo, Mark prendeu a respiração e desviou os olhos, terrivelmente pálido.,

— Desculpe, mas não consigo entrar — murmurou. — Vou esperar no carro.

— Não precisa pedir desculpas, Mark — disse Jimmy.

Ele parou, desligou o motor e desceu. Ben hesitou e depois colocou a mão no ombro de Mark.

— Você vai ficar bem aqui?

— Vou. — Mas ele não parecia bem. Seu queixo tremia e seus olhos estavam vazios. De repente, ele se voltou para Ben, e seus olhos não estavam mais vazios, e sim cheios de dor e lágrimas.

— Por favor, cubra eles. Se estiverem mortos, cubra eles.

— Claro, Mark — disse Ben.

— É melhor assim — disse Mark. — Meu pai... teria sido um vampiro muito eficiente. Teria ficado tão bom como Barlow, com o tempo. Ele... ele era bom em tudo que fazia. Bom até demais.

— Tente não pensar demais — disse Ben, odiando o tom pouco convincente de suas palavras. Mark olhou para ele com um sorriso descorado.

— A pilha de lenha está no quintal. Podem acabar mais rápido se usarem o torno do meu pai. Está no porão.

— Certo — disse Ben. — Fique calmo, Mark. O mais calmo que puder.

Mas o menino havia se virado, enxugando os olhos com a manga.

Ben e Jimmy entraram na casa.

35

Callahan não está aqui — constatou Jimmy. Eles já haviam revistado toda a casa.



— Barlow o pegou — disse Ben com esforço.

Olhou para a cruz quebrada que tinha na mão, e que estivera no peito de Callahan no dia anterior. Era o único vestígio do padre que haviam encontrado. Estava ao lado dos pais de Mark, que de fato estavam mortos. Barlow batera suas cabeças com tanta força que literalmente as rachara. Ben lembrou da força sobrenatural que a Sra. Glick demonstrara e sentiu náuseas.

— Venha — disse a Jimmy. — Precisamos cobri-los. Eu prometi.

36

Eles pegaram a manta do sofá da sala e os cobriram. Ben tentou não pensar no que estavam fazendo, mas era impossível. Quando terminaram, uma mão — as unhas finas e pintadas indicavam ser de June Petrie — rolou de sob a manta estampada, e ele a empurrou para baixo com a ponta do pé, esforçando-se para controlar a náusea. Os formatos dos corpos sob a manta eram inconfundíveis, lembrando algumas fotos tiradas no Vietnã — mortos em campos de batalha e soldados carregando terríveis fardos em sacos de borracha preta, absurdamente parecidos com sacos de golfe.

Desceram as escadas, cada um levando uma braçada de achas de madeira.

O porão fora o domínio de Henry Petrie, e refletia sua personalidade. Três lâmpadas de alta voltagem haviam sido instaladas no teto sobre a área de trabalho, cada uma com um anteparo de metal que obrigava a luz a se projetar com mais força sobre a plaina mecânica, a serra de vaivém, a serra com suporte, o torno, a lixa elétrica. Ben viu que ele vinha montando uma casa para pássaros, que provavelmente instalaria no quintal quando a primavera chegasse. O diagrama que seguia estava cuidadosamente estendido e preso em cada canto com pesos de papel de metal. Era um trabalho competente, mas sem imaginação, e agora nunca seria concluído. O chão estava impecável, mas um aroma nostálgico de serragem pairava no ar.

— Isso não vai dar certo — disse Jimmy.

— Eu sei — disse Ben.

— Estou falando da pilha de lenha — bufou Jimmy, e soltou a madeira dos braços com estrondo. As achas rolaram desordenadamente pelo chão, e ele soltou um riso alto e histérico.

— Jimmy...

Mas sua gargalhada cortante interrompeu a fala de Ben.

— Vamos acabar com esse pesadelo com a pilha de lenha do quintal de Henry Petrie? Então, por que não pernas de cadeira ou bastões de beisebol?

— O que mais podemos fazer?

Jimmy olhou para ele e se controlou com visível esforço.

— A grande caçada ao tesouro — zombou ele. — Ande quarenta passos no pasto de Charles Griffen e olhe debaixo da pedra grande... Ah, até parece... A gente pode sair da cidade, Ben. Por que não?

— Você quer desistir? É isso que está dizendo?

— Não. Mas não vai ser só hoje, Ben. A gente vai levar semanas para pegar todos, se é que vamos pegar. Você vai suportar? Vai agüentar fazer mil vezes o que fez com Susan? Arrancar eles dos armários, gritando e esperneando, e esmagar o coração deles com uma estaca? Consegue fazer isso até novembro sem enlouquecer?

Ben tentou refletir, mas era algo impensável.

— Não sei — respondeu.

— E o menino? Acha que vai agüentar? Ele vai daqui direto para o hospício. E Matt vai morrer. Posso garantir. E quando a polícia estadual vier ver que diabo está acontecendo em ’salem’s Lot? O que vamos dizer? “Espere um pouco, seu guarda, enquanto espeto esse vampiro”? O que me diz, Ben?

— E como vou saber, droga? Quem até agora conseguiu parar e pensar?

Eles perceberam, ao mesmo tempo, que estavam cara a cara, gritando um com o outro.

— Opa — disse Jimmy.

— Desculpe — disse Ben, baixando os olhos.

— Não, a culpa foi minha. Estamos sob muita pressão. Barlow sem dúvida diria que é fim de jogo. — Ele passou a mão pelos cabelos alaranjados e lançou um olhar perdido ao redor. Seus olhos de repente brilharam quando deram com algo ao lado do diagrama de Petrie. Era um lápis de graxa.

— Acho que encontrei o melhor jeito — disse ele.

— Qual?

— Você fica aqui, Ben, fazendo as estacas. Já que é para ir em frente, sejamos científicos. Você fica sendo o setor de produção. Mark e eu seremos o setor de pesquisa. Vamos revistar a cidade e procurar por eles. E vamos encontrá-los, assim como encontramos Mike. Vou marcar os locais com este lápis de graxa. Amanhã, atacaremos com as estacas.



— Mas eles não vão ver as marcas e mudar de lugar?

— Acho que não. A Sra. Glick não parecia muito lúcida. Acho que eles agem mais por instinto do que por raciocínio. Talvez fiquem mais espertos com o passar do tempo e comecem a se esconder melhor, mas acho que no começo vai ser como pescar num barril.

— E por que não eu?

— Porque eu conheço a cidade e a cidade me conhece, como conheciam meu pai. Os sobrevi­ventes de Lot estão escondidos em casa hoje. Se você bater na porta, não vão atender. Se eu bater, a maioria atenderá. Conheço alguns esconderijos. Sei onde os bêbados se abrigam no pântano e onde vão dar as estradas de lenhadores. Você não. Sabe mexer com esse torno?

— Sei — disse Ben.

Jimmy tinha razão, claro. Mas o alívio que ele sentiu por não ter que sair e enfrentá-los o deixou culpado.

— É melhor começar. Já passa do meio-dia.

Ben virou-se para o torno.

— Se quiserem esperar meia hora, já poderão levar algumas estacas.

Jimmy hesitou, depois baixou os olhos.

— Acho que amanhã... amanhã será...

— Certo, então vá — disse Ben. — O que acha de voltar lá pelas três horas? A escola já vai estar tranqüila a essa hora, e poderemos dar uma olhada.

— Boa idéia.

Jimmy começou a andar em direção à escada do porão. Alguma coisa — uma idéia vaga, uma súbita iluminação — fez com que se virasse. Viu Ben trabalhando sob o forte clarão das três lâmpadas, cuidadosamente enfileiradas.

Algo lhe veio... mas lhe escapou.

Ben fechou o torno e olhou para ele.

— Mais alguma coisa?

— Estava na ponta da língua — disse Jimmy. — Mas esqueci.

Ben ergueu as sobrancelhas.

— Quando cheguei à escada e virei para você, senti um estalo. Mas já passou.

— Era importante?

— Não sei. — Ele se demorou mais um pouco, tentando lembrar. Tinha a ver com a imagem de Ben, inclinado sobre o torno debaixo das luzes fortes. Não adiantou. O esforço para lembrar só serviu para afastar mais a lembrança.

Ele subiu a escada, mas olhou para trás mais uma vez. A imagem era estranhamente familiar, mas ele não sabia o porquê. Cruzou a cozinha e foi para o carro. A chuva se tornara uma garoa.

37

O carro de Roy McDougall estava parado na frente do trailer na estrada da Curva. Ao se deparar com ele num dia de semana, Jimmy se preparou para o pior.

Saiu do carro com Mark, levando a maleta preta. Subiram os degraus, e Jimmy tocou a campainha. Não funcionava, e ele bateu na porta. As pancadas insistentes não acordaram ninguém no trailer dos McDougall, nem no trailer vizinho, a 20 metros, que também tinha um carro parado na frente.

Jimmy tentou abrir a porta externa. Estava trancada.

— Tem um martelo no banco de trás do carro — disse ele.

Mark foi buscá-lo, e Jimmy quebrou o vidro ao lado da maçaneta. Passou o braço pelo buraco e soltou a tranca. A porta de dentro estava aberta. Eles entraram.

Sentiram o cheiro instantaneamente. As narinas de Jimmy se contraíram, tentando bloqueá-lo. Não era tão forte quanto o que haviam sentido no porão da Casa Marsten, mas era basicamente o mesmo, de coisa morta e apodrecida. Um cheiro úmido, pestilento. Jimmy se lembrou de quando era criança e ia com os amigos de bicicleta, na primavera, recolher as garrafas retornáveis de cerveja e refrigerante reveladas pela neve que derretia. Numa delas (uma garrafa de Crush) ele encontrou um ratinho decomposto, que fora atraído pelo açúcar e não conseguira sair. Depois de dar uma cheiradinha, tinha soltado a garrafa e vomitado. Aquele cheiro era nauseantemente parecido — uma doçura doentia e uma acidez pútrida, que se misturavam e fermentavam. Sentiu o estômago se revolver.

— Eles estão aqui — disse Mark. — Em algum lugar.

Revistaram o trailer metodicamente — a cozinha, a salinha de jantar, a sala de visita, os dois quartos. Abriram os armários ao passar. Jimmy pensou ter encontrado algo no armário do quarto do casal, mas era só uma pilha de roupas sujas.

— Não tem porão? — perguntou Mark.

— Não, mas pode ter algum tipo de depósito.

Eles foram até os fundos e viram um pequeno alçapão na base de concreto barato do trailer. Estava trancado com um cadeado velho. Jimmy o arrebentou com cinco marteladas. Quando puxou o alçapão, o cheiro os atingiu numa onda nauseabunda.

— Lá estão eles — disse Mark.

Jimmy espiou pela abertura e viu três pares de pés, como corpos enfileirados num campo de batalha. Um par usava botas, outro, chinelos de lã, e o terceiro — pés minúsculos — não usava nada.

Que linda cena de família, pensou Jimmy, absurdamente. Uma página do Reader’s Digest. O desespero o dominou. O bebê... Como conseguiriam fazer aquilo com um bebê?

Marcou o alçapão com o lápis de graxa e recolheu o cadeado quebrado.

— Vamos para o trailer ao lado — disse ele.

— Espere — disse Mark. — Deixe-me puxar um deles para fora.

— Puxar...? Para quê?

— Talvez a luz do dia acabe com eles. Assim não teremos de fazer isso com as estacas.

Jimmy sentiu uma ponta de esperança.

— Está bem. Mas qual?

— O bebê, não — respondeu Mark prontamente. — O homem. Você pega um pé e eu pego outro.

— Certo — disse Jimmy, a boca seca como um papel. Quando tentou engolir, sentiu um estalo na garganta.

Mark entrou pelo buraco de bruços, as folhas mortas crepitando sob seu corpo. Agarrou uma das botas de trabalho de Roy McDougall e a puxou. Jimmy se encolheu e rastejou ao lado dele, raspando as costas no teto baixo, resistindo à claustrofobia. Pegou a outra bota e, juntos, puxaram o corpo para a garoa fraca e a luz.

O que aconteceu foi quase insuportável. Roy McDougall começou a se contorcer assim que a luz o atingiu em cheio, como um homem atormentado durante o sono. Vapor e umidade emanaram de seus poros, e a pele cedeu e ganhou um tom amarelado. Os globos oculares viraram sob a pele fina das pálpebras. Chutou as folhas molhadas com pés lentos e sonhadores. O lábio superior se contraiu, revelando incisivos grandes como os de um cão — um pastor alemão ou um collie. Os braços agitaram-se lentamente, as mãos se abrindo e fechando, e, quando uma delas roçou a camisa de Mark, ele saltou para trás com um grito enojado.

Roy se virou de bruços e começou a rastejar lentamente para o cubículo, braços e joelhos cavando sulcos no húmus molhado. Jimmy notou que uma respiração ofegante, como de um paciente com insuficiência cardíaca, começara assim que a luz atingira o corpo. E parou logo que McDougall se escondeu nas sombras novamente. Assim como a expulsão de líquidos.

Ao chegar a seu local de repouso, McDougall virou de costas e permaneceu imóvel.

— Feche — pediu Mark com voz estrangulada. — Por favor, feche.

Jimmy fechou o alçapão e reinstalou o cadeado quebrado o melhor que pôde. A imagem do corpo de McDougall, debatendo-se nas folhas molhadas como uma cobra atordoada, ficou gravada em sua mente. Achou que nunca se apagaria de sua memória, mesmo que vivesse cem anos.

38

Tremendo sob a chuva, eles se entreolharam.

— Vamos para o trailer ao lado? — perguntou Mark.

— Vamos. Devem ter sido as primeiras pessoas que os McDougall atacaram.

Andaram até o trailer, e dessa vez captaram o inconfundível cheiro já na porta de entrada. O nome sob a campainha era Evans. Jimmy conhecia David Evans e sua família. Ele era mecânico do setor de automóveis da Sears de Gates Falls. Tratara-o, não fazia muitos anos, de um cisto ou algo parecido.

Dessa vez a campainha funcionou, mas ninguém atendeu. Encontraram a Sra. Evans na cama. As duas crianças estavam num beliche em outro quarto, vestidas com pijamas idênticos estampados com o ursinho Pooh. Demoraram mais para encontrar Dave Evans. Ele se escondera no depósito inacabado sobre a pequena garagem.

Jimmy desenhou um círculo cruzado na porta da frente e na da garagem.

— Nada mau — disse ele. — Já marcamos dois pontos.

— Espere um pouco — pediu Mark, timidamente. — Preciso lavar as mãos.

— Claro, eu também. Os Evans não vão se importar se usarmos o banheiro.

Voltaram a entrar. Jimmy sentou numa cadeira da sala e fechou os olhos. Logo ouviu Mark abrindo a torneira do banheiro.

Na tela de sua mente, ele viu a mesa do necrotério, o lençol sobre o corpo de Marjorie Glick começar a tremer, a mão cair da mesa e executar uma lenta dança com os dedos...

Abriu os olhos.

O trailer estava em condições bem melhores do que o dos McDougall — arrumado, bem-cuidado. Não conhecia a Sra. Evans, mas parecia que fora uma boa dona de casa. Viu os brinquedos das crianças, cuidadosamente arranjados num cubículo, provavelmente chamado de “área de serviço” no folheto do vendedor do trailer. Pobres crianças. Desejou que elas tivessem aproveitado bem os brinquedos enquanto ainda podiam andar na luz. Havia um triciclo, vários caminhões de plástico, um posto de gasolina de brinquedo, um tratorzinho (como eles deviam ter brigado por causa dele), uma mesa de bilhar infantil...

De repente, ele arregalou os olhos.



Giz azul.

Três lâmpadas enfileiradas no teto.

Homens andando ao redor da mesa verde sob o clarão das luzes, preparando os tacos, limpando o giz azul que ficara nos dedos...

— Mark! — gritou, erguendo-se na cadeira. — Mark!

Mark veio correndo, sem camisa, para ver o que acontecera.

39

Um antigo aluno de Matt (turma de 64, A em literatura, C em composição) fora visitá-lo por volta das duas e meia. Notou as pilhas de livros sobre vampirismo e perguntou se ele se preparava para obter um título em ciências ocultas. Matt não se lembrava se o nome dele era Herbert ou Harold.

Para Matt, que lia um livro chamado Estranhos Desaparecimentos quando Herbert-ou-Harold chegou, foi bem-vinda a interrupção. Já esperava o telefone tocar, mesmo sabendo que os amigos não podiam entrar na escola da rua Brock antes das três horas. Estava desesperado para saber o que acontecera ao padre Callahan. Parecia-lhe que o dia passava com rapidez alarmante. E sempre ouvira falar que o tempo passava devagar no hospital. Sentia-se lento e obtuso. Um velho, finalmente.

Começou a contar a Herbert-ou-Harold a história da cidade de Momson, Vermont, que estivera lendo. Achou-a interessante porque, se fosse verdadeira, podia ser uma precursora da sina de Lot.

— Todos desapareceram — disse ao rapaz, que ouvia com um tédio educado, mas não muito bem disfarçado. — Era uma cidadezinha no norte de Vermont, acessível pela rodovia interestadual 2 e a rodovia 19 de Vermont. Tinha 312 habitantes, pelo censo de 1920. Em agosto de 1923, uma mulher em Nova York começou a se preocupar porque fazia dois meses que a irmã não lhe escrevia. Ela e o marido foram até a cidade, e foram os primeiros a contar a história para os jornais. Mas os moradores das áreas ao redor já deviam saber havia algum tempo. A irmã da mulher e o marido haviam desaparecido, assim como toda a população de Momson. As casas e os celeiros continuavam de pé. Numa casa, a mesa estava posta para o jantar. O caso provocou bas­tante sensação à época. Eu é que não gostaria de passar uma noite lá. O autor do livro diz que as pessoas nas cidades vizinhas contavam histórias assustadoras, sobre espíritos e duendes. Muitos celeiros tinham talismãs e grandes cruzes pintados na frente, e têm até hoje. Veja, uma foto do armazém geral, do posto de combustível e do empório, que formavam o centro da cidade de Momson. O que acha que aconteceu lá?

Herbert-ou-Harold olhou a fotografia com educação. Viu só uma cidadezinha, com algumas lojas e casas. Algumas estavam caindo, provavelmente devido ao peso da neve no inverno. Parecia-se com qualquer cidadezinha do interior. Quem passa de carro por qualquer uma delas não sabe se tem alguém vivo depois das oito horas, quando tudo fecha. O velho professor tinha mesmo ficado meio caduco. Herbert-ou-Harold lembrou de uma velha tia que, nos últimos dois anos de vida, convencera-se de que a filha matara seu periquito de estimação e lhe dava a ave para comer no bolo de carne. Gente velha tinha idéias esquisitas.

— Muito interessante — disse ele, levantando os olhos. — Mas não acho que... Sr. Burke? Sr. Burke, o que houve? C) senhor está... Enfermeira! Enfermeira!

Os olhos de Matt estavam fixos. Ele agarrava o lençol da cama com uma das mãos. A outra estava apertada contra o peito. Seu rosto estava pálido, e uma veia pulsava no meio da testa.



Ainda não, pensou ele. Ainda não...

A dor o esmagava em ondas, empurrava-o para a escuridão. Ele pensou, indistintamente: Cuidado com o último degrau, é de matar.

Depois, a queda.

O ex-aluno saiu correndo do quarto, derrubando a cadeira e uma pilha de livros. A enfermeira já vinha chegando, quase correndo.

— O Sr. Burke — disse o rapaz. Ainda segurava o livro, com o dedo indicador marcando a página com a foto de Momson, Vermont.

A enfermeira fez um gesto breve com a cabeça e entrou no quarto. Matt estava deitado com a cabeça meio para fora da cama, os olhos fechados.

— Ele está... — Herbert-ou-Harold perguntou timidamente. Não precisou completar a pergunta.

— Acho que sim — respondeu a enfermeira, ao mesmo tempo em que apertava o botão para chamar a equipe cardiovascular. — Você precisa sair agora.

Ela voltou a se acalmar, e teve tempo de lamentar o almoço, que deixara pela metade.

40

Mas não tem nenhum bilhar em Lot — disse Mark. — O mais próximo fica em Gates Falls. Será que ele iria até lá?



— Com certeza não — disse Jimmy. — Mas algumas pessoas têm mesa de bilhar em casa.

— É, eu sei.

— E tem mais — disse Jimmy. — Já estou quase lembrando.

Ele se recostou, fechou os olhos e os pressionou com as mãos. Havia mais alguma coisa, associada a plástico. Por que plástico? Brinquedos de plástico, utensílios de plástico para piqueniques, capas de plástico para cobrir o barco no inverno...

E, de repente, a imagem de uma mesa de bilhar coberta com uma grande capa de plástico se formou em sua mente, até com trilha sonora, uma voice-over que dizia: Eu deveria vendê-la antes que o feltro mofe, Ed Craig disse que pode mofar. Mas era de Ralph...

Jimmy abriu os olhos.

— Sei onde ele está. Sei onde Barlow está. Está no porão da pensão de Eva Miller. — E era verdade. Ele sabia que era. Pareceu-lhe incontestável.

Os olhos de Mark brilharam.

— Vamos pegá-lo.

— Espere.

Ele procurou o telefone, encontrou o número de Eva na lista e discou rapidamente. Ninguém respondeu. Dez chamadas, 11, 12. Devolveu o fone ao gancho, assustado. Eva tinha pelo menos dez inquilinos, a maioria deles de idade, aposentados. Sempre havia alguém por perto para atender o telefone.

Consultou o relógio. Eram 15hl5. O tempo estava voando.

— Vamos.

— E o Ben?

— Não dá para ligar para ele — disse Jimmy, carrancudo. — A linha da casa dele está cortada. Vamos direto para a pensão. Se não encontrarmos Barlow, ainda restará bastante luz do dia. Mas, se ele estiver lá, pegaremos Ben e acabaremos com a raça dele.

— Deixe-me vestir minha camisa — disse Mark, e correu até o banheiro.

41

O Citroën de Ben ainda estava no estacionamento da pensão, agora coberto com as folhas úmidas dos elmos que sombreavam o quadrado de cascalho. O vento apertara, mas parara de chover. A placa que dizia “Pensão da Eva” balançava e rangia na tarde cinzenta. A casa, mergulhada em silêncio espectral, parecia esperar por algo. Jimmy estabeleceu a ligação e sentiu o coração gelar. Parecia a Casa Marsten. Imaginou se alguém já havia se suicidado lá. Eva sabia... mas não estava mais em condições de lhes contar.

— Perfeito — disse ele. — Instalar-se na pensão da cidade, cercado de sua prole.

— Não é melhor a gente buscar o Ben?

— Mais tarde. Vamos.

Eles saíram do carro e andaram até a varanda. O vento puxava-lhes as roupas, agitava-lhes os cabelos. Todas as janelas estavam fechadas. A casa parecia se inclinar sobre eles.

— Está sentindo o cheiro? — perguntou Jimmy.

— Estou. Mais forte do que nunca.

— Você consegue encarar essa?

— Consigo — disse Mark com firmeza. — E você?

— Espero por Deus que sim — disse Jimmy.

Subiram os degraus da varanda, e Jimmy tentou abrir a porta. Estava destrancada. Quando entraram na grande cozinha de Eva Miller, obsessivamente limpa, o cheiro atingiu a ambos, como uma fossa aberta — mas seco, curtido pela fumaça do tempo.

Jimmy recordou sua conversa com Eva, que acontecera havia quase quatro anos, quando ele começara a praticar medicina. Eva fora fazer um check-up. Fora paciente de seu pai durante anos, e quando Jimmy assumiu o lugar dele, no mesmo consultório em Cumberland, ela o procurara sem constrangimento. Falaram sobre Ralph, morto havia 12 anos, e ela dissera que o seu fantasma conti­nuava na casa — ela vivia encontrando algum objeto esquecido no sótão ou em alguma gaveta da cômoda. Fora a mesa de bilhar no porão. Ela disse que precisava se livrar dela, já que ocupava um espaço que podia usar para outra coisa. Mas pertencera a Ralph, e ela não conseguia se decidir a colocar um anúncio no jornal ou num programa de rádio.

Mark e ele atravessaram a cozinha em direção à porta do porão. Jimmy a abriu. O mau cheiro era intenso, quase esmagador. Ele apertou o interruptor de luz, sem resultado. Ele o quebrara, é claro.

— Procure por aí — disse a Mark. — Ela deve ter uma lanterna ou velas.

Mark começou a procurar, abrindo gavetas e as revistando. Notou que o suporte para facas sobre a pia estava vazio, mas não deu importância ao fato. Seu coração pulsava com dolorosa lentidão, como um tambor abafado. Precisou admitir que atingira o limite de sua resistência. Sua mente não raciocinava mais, apenas reagia. A todo instante ele pensava ver algo, virava bruscamente a cabeça e não encontrava nada. Um veterano de guerra teria reconhecido os sintomas que anunciavam o princípio de uma neurose de guerra.

Foi até o corredor e procurou na cômoda que havia lá. Na gaveta, encontrou uma lanterna comprida de quatro pilhas. Levou-a para a cozinha.

— Achei, Ji...

A porta do porão estava aberta.

E os gritos começaram.

42

Quando Mark voltou para a cozinha da pensão, eram l6h40. Seus olhos estavam ocos, sua camiseta, manchada de sangue. Tinha o olhar atordoado e lento.

De repente, ele gritou.

O som emergiu do fundo de suas entranhas, vibrou por sua garganta e saiu pelas mandíbulas distendidas. Gritou até sentir que um pouco da insanidade saíra de sua mente. Gritou até a garganta ceder e uma dor intensa penetrar suas cordas vocais como a lasca de um osso. E, mesmo depois de externar todo o medo, horror, fúria e decepção que conseguiu, a terrível pressão continuou emergindo do porão em ondas — a consciência de que Barlow estava lá, em algum lugar. E de que logo escureceria.

Ele foi até a varanda e respirou o vento em grandes golfadas. Ben. Ele tinha de buscar Ben. Mas uma estranha letargia transformara suas pernas em chumbo. De que adiantava? Barlow venceria de qualquer forma. Tinha sido loucura lutar contra ele. E agora Jimmy pagara o preço. Assim como Susan e o padre.

Mas uma vontade de aço se impôs. Não. Não. Não.

Desceu os degraus da varanda com as pernas trêmulas e entrou no Buick de Jimmy. As chaves estavam na ignição.

Preciso buscar Ben. Tentar mais uma vez.

Suas pernas não alcançavam os pedais. Ele levantou o banco e girou a chave. O motor rugiu. Empurrou o câmbio e apertou o acelerador. O carro deu um salto para a frente. Ao enterrar o pé no freio, chocou-se dolorosamente contra o volante. A buzina tocou.



Não consigo dirigir!

E pensou ouvir o pai dizer com sua voz lógica e enfática: Tome cuidado quando aprender a dirigir, Mark. O único meio de transporte que não é totalmente regulamentado pelo governo federal é o carro. Por isso, todos os motoristas são amadores. E muitos desses amadores são suicidas. Portanto, você precisa ser extremamente cuidadoso. Aperte o acelerador como se houvesse um ovo entre seu pé e o pedal. Quando dirigir um carro com transmissão automática, como o nosso, o pé esquerdo nunca é usado. Só o direito é usado — primeiro o freio, depois o acelerador.

Ele tirou o pé do freio e o carro se arrastou pela alameda. Atingiu o meio-fio com um solavanco, e ele o brecou bruscamente. O pára-brisa estava embaçado. Ele o esfregou com o braço, embaçando-o ainda mais.

— Dane-se — murmurou.

Saiu aos arrancos e fez uma ampla e ébria curva de 180 graus, passando por cima da calçada oposta, e partiu em direção a sua casa. Precisava esticar o pescoço para enxergar por sobre o volante. Tateou com a mão direita, ligou o rádio e aumentou o volume. Estava chorando.

43

Ben andava pela avenida Jointner em direção à cidade quando viu o Buick de Jimmy se aproximando, aos trancos e solavancos, trançando pelo caminho. Acenou com os braços, e o carro parou, subindo na calçada com o pneu esquerdo.

Ben perdera a noção do tempo enquanto fazia estacas. Quando olhou para o relógio, viu, com surpresa, que eram 16hl0. Fechou o torno, pegou duas estacas, prendeu-as no cinto e subiu a escada para usar o telefone. Só quando pôs a mão nele, lembrou que estava desligado.

Francamente preocupado, correu para fora e olhou dentro dos dois carros, o de Callahan e o de Petrie. Nenhum estava com as chaves. Podia voltar e procurar nos bolsos de Henry Petrie, mas não suportou a idéia. Partiu para a cidade em passo acelerado, esperando avistar o Buick de Jimmy. Pensava em ir direto para a escola da rua Brock quando avistou o carro de Jimmy.

Correu até a janela do motorista e viu Mark Petrie sentado ao volante... sozinho. O menino lhe lançou um olhar entorpecido. Seus lábios se moveram, sem emitir som algum.

— O que aconteceu? Cadê o Jimmy?

— Jimmy está morto — disse Mark, com voz monótona. — Barlow passou a perna na gente outra vez. Está no porão da pensão da Sra. Miller. Jimmy também está lá. Desci para ajudar ele e não consegui mais sair. No fim encontrei uma tábua e consegui subir, mas no começo achei que fosse ficar preso lá até... até escurecer.

— Do que você está falando? O que aconteceu?

— Jimmy descobriu de onde vinha o giz azul. A gente estava numa casa lá na Curva. Giz azul, mesas de bilhar. Tem uma mesa de bilhar no porão da Sra. Miller. Era do marido dela. Jimmy ligou para a pensão, mas ninguém atendeu. E a gente foi para lá.

Mark ergueu o rosto sem lágrimas para Ben.

— Jimmy me disse para procurar uma lanterna, porque o interruptor de luz do porão estava quebrado. Como na Casa Marsten. Eu comecei a procurar e... e reparei que as facas do suporte em cima da pia não estavam mais lá. Mas não liguei. Então, de certa forma, eu matei ele. Matei, sim. É tudo minha culpa, tudo minha culpa...

Ben o sacudiu pelos ombros.

— Pare, Mark! Pare!

Mark levou as mãos à boca, estancando a torrente de palavras histéricas. Seus olhos escancara­dos estavam fixos em Ben.

Finalmente, conseguiu prosseguir:

— Encontrei uma lanterna na cômoda do corredor. E foi então que Jimmy caiu. Começou a gritar. Ele... eu quase caí também, mas ele me avisou. A última coisa que ele disse foi: Cuidado, Mark!

— O que houve? — perguntou Ben, aflito.

— Barlow e os outros vampiros tiraram a escada do porão — disse Mark com voz apática. — Serraram a escada depois do segundo degrau. Deixaram um pouco do corrimão, então parecia que... que... — Ele sacudiu a cabeça. — No escuro, Jimmy achou que os degraus ainda estavam lá. Entendeu?

— Entendi — disse Ben, nauseado. — E as facas?

— Estavam fincadas no chão — sussurrou Mark. — Eles passaram as lâminas por uns quadrados de madeira compensada e tiraram os cabos para que ficassem direitas no chão, com as lâminas apontando...

— Ah — exclamou Ben, desolado. — Ah, meu Deus... — Ele se inclinou e pegou Mark pelos ombros. — Tem certeza de que ele está morto, Mark?

— Tenho. Ele... ele foi perfurado nuns cinco lugares. O sangue...

Ben olhou para o relógio. Eram l6h50. Voltou a se sentir encurralado, correndo contra o relógio.

— O que a gente vai fazer agora? — perguntou Mark, com voz distante.

— Vamos para a cidade, telefonar para Matt e depois para Parkins Gillespie. Precisamos acabar com Barlow antes do anoitecer.

Mark abriu um sorrisinho mórbido.

— Foi o que Jimmy disse. Que a gente ia acabar com a raça dele. Mas ele sempre vence. Gente melhor do que nós já deve ter tentado antes.

Ben olhou para o menino e se preparou para Jazer algo sórdido.

— Parece que você está com medo — disse ele.

— Eu estou com medo — disse Mark, sem entender. — Você não?

— Estou — retrucou Ben. — Mas também estou furioso. Perdi uma garota que eu adorava. Acho que eu a amava. Nós dois perdemos Jimmy. Você perdeu seu pai e sua mãe. Estão deitados na sala, debaixo da manta do sofá. — Ele se obrigou a cometer uma última brutalidade. — Quer voltar e ver?

Mark se encolheu no banco, o rosto horrorizado e ressentido.

— Quero você ao meu lado — disse Ben, abrandando a voz. Sentiu uma ponta de autodesprezo. Parecia um técnico de futebol antes do grande jogo. — Pouco me importa quem tentou acabar com ele antes. Não me importo nem se Átila, o Huno, tentou e não conseguiu. Eu também vou tentar. E quero você comigo. Preciso de você. — E era a verdade, nua e crua.

— Está bem — disse Mark. Olhou para o colo e apertou as mãos com nervosismo.

— Tente ser firme — disse Ben.

Mark lhe lançou um olhar desamparado.

— Estou tentando — disse ele.

44

O posto Exxon de Sonny, no fim da avenida Jointner, estava aberto. E Sonny James (que explorava seu xará, astro da música Country, com um enorme cartaz colorido na janela ao lado de uma pirâmide de latas de óleo) saiu para atendê-los pessoalmente. Era um homem com jeito de gnomo, cujo cabelo era ceifado num perpétuo corte à escovinha que mostrava o couro cabeludo rosado.

— Olá, Sr. Mears. Tudo bem? Cadê o Citroën?

— Está encostado, Sonny. E o Pete? — Pete Cook era o ajudante de Sonny, que morava na cidade. Sonny não morava.

— Não apareceu hoje. Mas não faz mal. O movimento está fraco mesmo. A cidade parece que está morta.

Ben sentiu uma gargalhada mórbida se formar em sua barriga, ameaçando explodir numa grande onda histérica.

— Encha o tanque — ele conseguiu dizer. — Posso usar seu telefone?

— Claro. Oi, garoto. Não teve aula hoje?

— Estou passeando com o Sr. Mears — disse Mark. — Meu nariz estava sangrando.

— Acredito. Meu irmão também tinha isso. É sinal de pressão alta, rapaz. Tome cuidado. — Ele foi até a traseira do carro e tirou a tampa do tanque.

Ben entrou e usou o telefone público ao lado da pilha de mapas rodoviários da Nova Inglaterra.

— Hospital de Cumberland. Qual setor?

— Quero falar com o Sr. Burke, por favor. Quarto 402.

Ben percebeu uma estranha hesitação na voz da atendente, e estava prestes a perguntar se o quarto fora trocado quando ela disse:

— Quem fala?

— Benjamin Mears. — De repente, a possibilidade da morte de Matt lhe ocorreu como uma terrível sombra. Será? Não podia ser. Seria demais. — Ele está bem?

— É parente dele?

— Não, amigo. Ele não está...

— O Sr. Burke morreu às três e sete da tarde, Sr. Mears. Se quiser aguardar um minuto, verei se o Dr. Cody já chegou. Talvez ele possa...

A voz continuou, mas Ben não a ouvia mais, embora continuasse com o fone colado ao ouvido. De repente, percebeu o quanto contava com Matt para ajudá-los a enfrentar o resto daquela tarde de horrores. Matt tinha morrido. De insuficiência cardíaca. Uma causa natural. Era como se Deus tivesse virado as costas para eles.



Só eu e Mark agora.

Susan, Jimmy, o padre Callahan, Matt. Todos se foram.

O pânico o tomou, e ele o controlou em silêncio.

Colocou o fone no gancho sem pensar, guilhotinando uma pergunta que emergia.

Saiu. Eram 17hl0. A oeste, as nuvens se esgarçavam.

— Deu três dólares, certinho — disse Sonny, alegremente. — Esse carro é do Dr. Cody, não é? Quando vejo esses carros com placa de médico, sempre lembro de um filme que eu vi, com um bando de ladrões, e um deles sempre roubava carros com placa de médico porque...

Ben lhe deu três notas de um dólar.

— Preciso ir andando, Sonny. Desculpe. Estou com problemas.

O rosto de Sonny se fechou.

— Puxa, que pena, Sr. Mears. Recebeu más notícias de seu editor?

— É, pode-se dizer que sim.

Ele sentou atrás do volante, fechou a porta e arrancou, deixando Sonny plantado no mesmo lugar, com seu impermeável amarelo.

— Matt morreu, não é? — Mark perguntou, observando-o.

— É. Foi ataque cardíaco. Como você soube?

— Sua cara. Vi pela sua cara.

Eram 17hl5.

45

Parkins Gillespie estava na pequena varanda coberta do Paço Municipal, fumando um Pall Mall e olhando para o oeste. Voltou a atenção para Ben Mears e Mark Petrie com relutância. Seu rosto parecia triste e velho, como os copos d’água que são oferecidos em restaurantes baratos.

— Como vai, delegado? — perguntou Ben.

— Está dando para agüentar — admitiu Parkins. Examinou uma cutícula solta na pele áspera que cercava a unha de seu polegar. — Vi vocês dois para baixo e para cima hoje. Da última vez, parecia que o menino estava dirigindo sozinho na rua da Ferrovia. Foi isso mesmo?

— Foi — disse Mark.

— Quase levou uma trombada. O motorista que vinha do outro lado não te pegou por um triz.

— Delegado — disse Ben —, queremos lhe contar o que está acontecendo na cidade. Parkins Gillespie cuspiu o toco do cigarro sem tirar as mãos do corrimão da varanda. Sem olhar para eles, disse calmamente:

— Não quero saber.

Eles o olharam, assombrados.

— Nolly não apareceu hoje — disse Parkins, com a mesma voz calma e trivial. — E acho que não vai aparecer. Ele me ligou tarde da noite ontem dizendo que tinha visto o carro de Homer McCaslin na via Deep Cut, acho que foi Deep Cut que ele disse. Depois não ligou mais.

Com gestos lentos e tristes, como um homem submerso, ele meteu a mão no bolso da camisa e tirou outro Pall Mall do maço. Girou-o pensativamente entre o polegar e o indicador.

— Não vou deixar esse trem dos infernos acabar comigo — completou.

Ben não desistiu.

— O homem que comprou a Casa Marsten chama-se Barlow, delegado. E está no porão da pensão de Eva Miller neste exato momento.

— É mesmo? — disse Parkins, sem aparentar surpresa. — Ele é um vampiro, não é? Que nem naquelas revistinhas que a gente lia vinte anos atrás.

Ben não disse nada. Sentia-se como um homem perdido num grande e opressivo pesadelo, cujo mecanismo avançava com a precisão de um relógio, invisível sob a crosta do mundo.

— Vou sair da cidade — continuou Parkins. — Já estou com as malas no carro. Deixei a arma e o distintivo na prateleira. Chega de ser polícia. Vou visitar minha irmã em Kittery, isso sim. Acho que lá é longe bastante para ficar seguro.

Ben ouviu a si próprio dizer:

— Seu canalha medroso. Seu covarde de merda. A cidade ainda está viva e você foge com o rabo no meio das pernas.

— Não está viva — disse Parkins, acendendo o cigarro com um fósforo de cozinha. — Por isso ele veio para cá. Está morta como ele. Morreu há mais de vinte anos. O país todo vai no mesmo caminho. Eu e Nolly fomos ver um filme no drive-in de Falmouth há umas duas semanas, antes de fecharem para o inverno. Vi mais matança e sangue naquele faroeste do que nos dois anos que passei na Coréia. Os jovens comiam pipoca e davam risada. — Ele fez um gesto vago em direção à cidade, magicamente dourada sob os raios do sol que caminhava para o poente, como um vilarejo encantado. — Eles devem gostar de ser vampiros. Eu não. Nolly ia ficar no meu lugar hoje. Eu estou indo.

Ben lhe lançou um olhar impotente.

— Vocês também deveriam entrar no carro e dar o fora daqui — disse Parkins. — A cidade pode se virar sem nós... por algum tempo. Depois, não vai fazer diferença.



E por que não fazer isso?, pensou Ben.

Mark teve bom senso pelos dois.

— Porque ele é mau, moço. Mau de verdade. Só por isso.

— É mesmo? — disse Parkins. Assentiu e deu um trago no Pall Mall. — Seja como for. — Olhou em direção ao Colégio Integrado. — A freqüência foi baixa hoje. Pelo menos de alunos aqui da cidade. Ônibus atrasados, crianças doentes, secretárias telefonando para as casas onde ninguém atende. O diretor me ligou, e eu o tranqüilizei um pouco. É um Sujeitinho careca e esquisito, que acha que sabe o que faz. Pelo menos, os professores estão lá. A maioria é de outras cidades. Podem ficar ensinando uns aos outros.

— Nem todos são de outra cidade — disse Ben, pensando em Matt.

— Tanto faz — disse Parkins, olhando para as estacas no cinto de Ben. — Vai tentar pegar o sujeito com esses paus aí?

— Vou.

— Pode usar minha pistola para dispersar multidões, se quiser. Foi idéia do Nolly. Ele gostava de andar armado. A cidade não tem nem banco. Como é que podia torcer para acontecer um assalto? Mas ele vai dar um bom vampiro, depois que pegar o jeito.



Mark olhava para ele com horror crescente, e Ben viu que precisava tirá-lo de lá. Aquilo era o pior de tudo.

— Vamos — disse a Mark. — Ele já terminou.

— Acho que sim — disse Parkins. Observava a cidade com os olhos descorados, cercados por rugas. — Está tudo sossegado. Vi Mabel Werts olhando para fora com os binóculos, mas acho que não tem muito para ver agora. De noite vai ter mais.

Voltaram para o carro. Eram quase 17h30.

46

Estacionaram em frente à igreja St. Andrew às 17h45. O prédio projetava sombras que cruzavam a rua em direção ao presbitério, cobrindo-o como uma profecia. Ben pegou a maleta de Jimmy que estava no banco de trás e a esvaziou. Encontrou várias ampolas e jogou o conteúdo pela janela, guardando os invólucros.

— O que está fazendo?

— Vamos encher as ampolas de água benta — disse Ben. — Venha.

Subiram os degraus da igreja. Mark ia abrir a porta, mas parou e apontou.

— Olhe.

A alça estava escura e levemente deformada, como se tivesse recebido uma forte carga elétrica.



— Isso lhe diz alguma coisa? — perguntou Ben.

— Não, mas... — Mark sacudiu a cabeça, afastando um pensamento inacabado. Empurrou a porta e eles entraram. A igreja estava fresca e sombria, cheia da atmosfera sugestiva comum a altares de todos os credos, do bem e do mal.

As duas fileiras de bancos eram divididas por um corredor central. Na entrada deste, dois anjos de gesso seguravam vasos de água benta, os rostos serenos e sábios inclinados, como se contemplas­sem seu reflexo no líquido.

Ben guardou as ampolas no bolso.

— Lave as mãos e o rosto — disse ele.

Mark o olhou, aflito.

— Mas isso é sacri... sacri...

— Sacrilégio? Não no nosso caso. Ande.

Eles mergulharam as mãos na água benta e a jogaram no rosto, como alguém que acaba de acordar lava os olhos com água fria para que o choque lhe traga o mundo de volta.

Ben tirou a primeira ampola do bolso e começou a enchê-la quando uma voz aguda gritou:

— Ei! O que estão fazendo?

Ben se virou. Era Rhoda Curless, a governanta do padre Callahan. Quando eles entraram, ela estava no primeiro banco, rezando o terço desamparadamente. Usava um vestido preto, e sua combi­nação aparecia sob a barra. Seus cabelos estavam desarrumados. Via-se que tentara ajeitá-los com os dedos.

— Onde está o padre? O que estão fazendo? — insistiu ela com voz estridente, quase histérica.

— Quem é a senhora? — perguntou Ben.

— A Sra. Curless, governanta do padre Callahan. Onde está ele? O que estão fazendo? — Ela uniu as mãos num gesto desesperado.

— O padre Callahan se foi — disse Ben, com o máximo de brandura.

— Ah... — Ela fechou os olhos. — Ele se foi combatendo o mal que atormenta esta cidade?

— Sim — respondeu Ben.

— Eu sabia. Nem precisava perguntar. Ele é um padre bom e forte. Tinha gente que dizia que ele não tinha tutano para substituir o padre Bergeron, mas se enganaram. Provou que tinha de sobra.

Ela abriu os olhos e olhou para eles. Uma lágrima rolou pelo seu rosto.

— Ele não vai voltar, não é?

— Não sei — disse Ben.

— Diziam que ele bebia — continuou ela, como se não tivesse ouvido. — Mas quem já viu um padre irlandês que não gosta de um trago? Ele não gostava de mimar os fiéis com bingos, festas e papagaiadas. Ele era muito mais do que isso! — A voz dela se ergueu em direção ao teto abobadado quase num desafio. — Ele era um sacerdote, e não um político!

Ben e Mark a ouviram em silêncio, sem surpresa. Não havia mais lugar para surpresa naquele dia que mais parecia um sonho. Não se viam mais como vingadores nem salvadores. O dia os absorvera. Impotentes, eles apenas viviam.

— Ele ainda estava forte quando o viram pela última vez? — ela quis saber, observando-os atentamente. As lágrimas tornavam seu olhar ainda mais penetrante.

— Ainda — respondeu Mark, lembrando-se do padre Callahan na cozinha de sua casa, erguendo a cruz.

— E estão continuando o trabalho dele?

— Estamos — disse Mark.

— Então, continuem — ralhou ela. — O que estão esperando?

E se afastou pelo corredor central com seus trajes pretos, a pranteadora solitária de um funeral em que o morto se ausentara.

47

A pensão de Eva mais uma vez — a última. Eram 18hl0. O sol se inclinava sobre os pinheiros, espiando pelas nuvens desfiadas com raios sanguíneos.

Ben entrou no estacionamento e olhou com curiosidade para o próprio quarto. A janela estava aberta, e ele viu a máquina de escrever a postos como uma sentinela, e, a seu lado, a pilha de originais com o globo de vidro por cima. Era inacreditável ver tudo aquilo de onde estava, como se tudo em outro mundo continuasse normal, são e ordenado.

Em seguida, ele olhou para a varanda de trás. As cadeiras de balanço onde Susan e ele trocaram o primeiro beijo continuavam lado a lado, como sempre. A porta que dava ingresso à cozinha continuava aberta, como Mark a deixara.

— Não consigo — murmurou Mark. — Não dá.

Os olhos dele estavam grandes e assustados. Puxara os joelhos contra o peito, encolhendo-se no banco.

— Tem de ser nós dois — disse Ben. Estendeu-lhe duas ampolas cheias de água benta. Mark se contraiu, horrorizado, como se temesse se envenenar ao tocá-las. — Vamos lá — disse Ben. Não tinha mais argumentos. — Vamos...

— Não.

— Mark...



— Não!

— Mark, eu preciso de você. Só restamos nós dois.

— Já fiz bastante! — gritou Mark. — Não consigo fazer mais. Será que não entende que não consigo olhar para ele?

— Mark, tem de ser nós dois. Você sabe disso, não é?

Mark pegou as ampolas e as pressionou lentamente contra o peito.

— Ai, meu Deus — murmurou ele. — Ai, meu Deus... — Olhou para Ben e assentiu com um gesto trêmulo e torturado. — Está bem — disse ele.

— Onde está o martelo? — perguntou ao saírem.

— Estava com Jimmy.

— Certo.

Subiram os degraus da varanda, contra o vento que se acirrava. O sol brilhava através das nuvens, tingindo o mundo de vermelho. Na cozinha, o cheiro de morte era úmido e palpável, pesado como granito. A porta do porão estava aberta.

— Estou com medo — disse Mark, tremendo.

— É bom mesmo. E a lanterna?

— Está no porão. Eu a deixei cair quando...

— Certo. — Eles estavam na boca do porão. Como Mark dissera, a escada parecia intacta sob a luz do crepúsculo.

— Venha comigo — disse Ben.

48

Estou a caminho da morte, pensou Ben.

O pensamento lhe veio de modo natural, sem medo ou pesar. As emoções haviam sido esmagadas pela atmosfera maligna que pairava sobre a casa. Enquanto descia com dificuldade pela tábua que Mark apoiara para sair do porão, ele sentia apenas uma calma estranha e glacial. Viu que suas mãos brilhavam, como se usasse luvas sobrenaturais. Não ficou surpreso.

Que o ser seja o final de parecer. O único rei é o do sorvete. Quem dissera aquilo? Matt? Matt estava morto. Susan estava morta. Miranda estava morta. Wallace Stevens também estava morto. É melhor não olhar, amigo. Mas ele olhara. Era assim que as pessoas ficavam no fim. Uma massa esmagada e rompida, cheia de fluidos multicolores. Não era tão ruim. Não quando comparado à morte pelas mãos dele. Jimmy estava com a pistola de McCaslin. Ainda devia estar no seu bolso. Ele a pegaria, e se a noite chegasse antes que eles conseguissem destruir Barlow... primeiro atiraria no menino, depois em si próprio. Não era nada agradável, mas melhor do que morrer nas mãos dele.

Pisou no chão do porão e ajudou Mark a descer. O menino olhou para a silhueta sombria, contorcida no chão, e virou a cabeça.

— Não consigo olhar — ele disse, roucamente.

— Tudo bem.

Mark virou as costas e Ben se ajoelhou. Empurrou os letais quadrados de madeira compensada, as lâminas projetando-se deles como dentes de dragão. Depois, delicadamente, virou o corpo de Jimmy.

É melhor não olhar, amigo.

— Ah, Jimmy — ele tentou dizer, e as palavras morreram e sangraram em sua garganta. Acalentou o amigo nos braços e retirou as lâminas deixadas por Barlow. Eram seis ao todo, e Jimmy havia sangrado muito.

Viu uma pilha de cortinas cuidadosamente dobradas sobre uma prateleira. Pegou-as e cobriu Jimmy com elas depois de pegar a arma, a lanterna e o martelo.

Ergueu-se e testou a lanterna. A tampa plástica das lentes estava rachada, mas a lâmpada ainda funcionava. Dirigiu o feixe de luz ao redor. Nada. Olhou sob a mesa de bilhar. Nada. E nada atrás da fornalha. Apenas prateleiras de conservas e um suporte de ferramentas. E a escada amputada, deixada a um canto para não ser vista da cozinha. Parecia um andaime que levava a lugar algum.

— Onde ele está? — murmurou Ben. Olhou para o relógio: 18h23. Quando o sol se punha? Ele não se lembrava, mas não devia ser depois das 18h55. Restava-lhes apenas meia hora.

— Onde ele está? — repetiu. — Sinto que está aqui, mas onde?

— Lá! — gritou Mark, apontando com a mão reluzente. — O que é aquilo?

Ben dirigiu a lanterna para o objeto. Um guarda-louça.

— É muito pequena — disse a Mark. — E está nivelada contra a parede.

— Vamos olhar atrás.

Ben encolheu os ombros. Andaram até o guarda-louça, e cada um pegou uma ponta. Ele sentiu uma onda de crescente excitação. O odor, ou aura, ou atmosfera, ou chame como quiser, não estava mais intenso lá, mais repulsivo?

Ben lançou um olhar para a porta da cozinha. A luz estava mais fraca agora, menos dourada.

— É muito pesado para mim — ofegou Mark.

— Não importa — disse Ben. — Vamos virá-lo. Faça o máximo de força.

Mark se inclinou, encostando o ombro à madeira. Seus olhos tinham um brilho feroz.

— Está bem.

Uniram as forças e empurraram o guarda-louça, que virou espatifando a porcelana que Eva Miller ganhara no casamento eras atrás.

— Eu sabia! — gritou Mark, triunfante.

Havia uma portinha no meio da parede onde o guarda-louça estivera encostado. Um novo cadeado Yale prendia o ferrolho.

Duas marteladas fortes bastaram para convencer Ben de que o cadeado não cederia.

— Santo Deus — murmurou ele, baixinho. Sentiu uma onda de frustração fechar sua garganta. Ser vencido assim, no final, por um cadeado barato...

Não. Ele abriria a madeira com os dentes, se fosse preciso.

Girou a lanterna pelo porão, e seu facho caiu sobre o suporte de ferramentas à direita da escada. Um machado com uma capa de plástico sobre a lâmina pendia de um dos pinos de aço.

Ben correu, arrancou-o do suporte e removeu a capa da lâmina. Tirou uma ampola do bolso e a derrubou no chão. A água benta se esparramou com um brilho intenso. Pegou outra, girou a tampinha e molhou a lâmina do machado, que começou a brilhar ,com uma luz fantasmagórica. E, quando agarrou o cabo de madeira, sentiu uma incrível justeza. Um poder parecia ter soldado seu corpo naquela posição. Olhou para a lâmina brilhante e, tomado por um estranho impulso, levou-a até a testa. Uma sensação de segurança o dominou, de justiça inevitável, de pureza. Pela primeira vez em semanas, ele não se sentia perdido em névoas de dúvida, lutando contra um adversário incorpóreo que desprezava seus golpes.

A força vibrava em seus braços como eletricidade.

A lâmina brilhava com mais força.

— Vamos! — suplicou Mark. — Rápido, por favor!

Ben afastou as pernas, girou o machado para trás e o baixou num arco cintilante, cuja luz se imprimiu nas retinas. A lâmina atingiu a madeira com grande estrépito, destruindo o ferrolho, espalhan­do lascas no ar.

Ben puxou o machado, e a madeira gritou contra o aço. Desferiu outro golpe, e outro, e mais outro. Sentia os músculos das costas e dos braços flexionando e retesando, com uma segurança e ardor concentrado que ele nunca sentira antes. Cada golpe produzia lascas que voavam como metralhas. No quinto golpe, a lâmina atravessou a porta, e ele começou a ampliar o buraco com uma pressa que beirava o frenesi.

Mark o olhava, maravilhado. A fria flama azul subira pelo cabo do machado e se espalhara pelos braços de Ben, até que ele parecesse envolto por uma coluna de fogo. A cabeça estava inclinada para o lado, os músculos do pescoço, tensos e saltados, um olho aberto e fulminante, o outro fechado. As costas da camisa haviam se rompido devido à pressão das espáduas, e os músculos distendiam-se sob a pele como cordas. Era um homem tomado, possuído, e Mark viu sem saber (ou precisar saber) que não era uma possessão cristã. Era um bem mais elementar, menos apurado. Era minério bruto, que brotava do chão. Nada tinha de refinado. Era Força, era Poder, era o que movia as rodas do universo.

A porta do armário de Eva Miller não resistiu a esse ímpeto. O machado se movia com uma rapidez quase cegante. Tornou-se uma onda, um arco descendente, um arco-íris que partia do ombro de Ben e terminava na madeira desse último obstáculo.

Deu um golpe final e jogou o machado longe. Estendeu as mãos para frente. Elas resplandeciam.

Estendeu-as paira Mark, e o menino hesitou.

— Eu te amo — disse Ben.

Eles uniram as mãos.

49

O armário embutido era pequeno como uma cela, e estava vazio, com a exceção de algumas garrafas empoeiradas, alguns engradados e uma cesta cheia de batatas velhas, cujos brotos se estendiam em todas as direções — e os corpos. O caixão de Barlow estava nos fundos, apoiado contra a parede como um sarcófago egípcio, e sua crista brilhou friamente à luz que eles traziam em si como o fogo de Santo Elmo.

Em frente ao caixão, conduzindo a ele como uma trilha, estavam os corpos das pessoas com quem Ben vivera e dividira o pão: Eva Miller, com Weasel Craig a seu lado; Mabe Mullican, que ocupara o quarto no final do corredor do segundo andar; John Snow, que vivia de pensão e cuja artrite mal permitira que andasse até a mesa do café da manhã; Vinnie Upshaw, Grover Verrill.

Ben e Mark passaram sobre eles e pararam ao lado do caixão. Ben olhou para o relógio. Eram 18h40.

— Vamos levá-lo lá para fora — disse ele. — Para peito de Jimmy.

— Deve pesar uma tonelada — disse Mark.

— A gente consegue. — Ele estendeu a mão, quase experimentalmente, e agarrou o canto superior direito do caixão. A crista brilhou como um olho apaixonado. A madeira era repulsiva ao toque, tomada lisa e pétrea pelos anos. Não tinha poros nem pequenas imperfeições onde os dedos pudessem se firmar. Mas era fácil balançá-lo. Uma só mão bastava.

Ben o inclinou com um pequeno impulso, sentindo o grande volume que parecia contido como que por contrapesos invisíveis. Ouviu um som surdo no interior. E pegou um lado do caixão.

— Agora, o seu lado — disse a Mark.

O menino pegou a outra extremidade do caixão, que subiu facilmente em suas mãos. Seu rosto se encheu de espanto e alegria.

— Acho que conseguiria com um dedo.

— Provavelmente. As coisas estão do nosso lado agora. Mas a gente tem de correr.

Quando passaram pela porta estilhaçada, o caixão quase ficou preso na extremidade mais larga, mas Mark baixou a cabeça e o empurrou com força. A madeira passou com um rangido agudo.

Levaram o caixão até onde Jimmy jazia, coberto com as cortinas de Eva.

— Aqui está ele, Jimmy — disse Ben. — Aqui está o filho-da-mãe. Vamos pôr no chão, Mark.

Olhou para relógio de novo. 18h45. A luz que entrava pela porta da cozinha já se tingia de cinza.

— Agora? — perguntou Mark.

Eles se entreolharam sobre o caixão.

— Agora — disse Ben.

Mark deu a volta e olhou para os selos e trancas do caixão. Eles se dobraram, e as trancas se partiram quando as tocaram, produzindo um estalido seco. Ergueram a tampa.

Barlow estava diante deles, os olhos brilhantes bem abertos.

O que viram foi um rapaz, com os cabelos pretos viçosos e brilhantes espalhados sobre o travesseiro de cetim de seu pequeno aposento. Sua pele tinha o brilho da vida. Suas faces estavam vermelhas como sangue. Seus dentes se curvavam sobre os lábios cheios, brancos com veios de amarelo, tal como o mármore.

— Ele... — começou a dizer Mark, mas não terminou.

Os olhos vermelhos de Barlow rolaram nas órbitas, enchendo-se de vida e triunfo zombeteiro. Mergulharam nos de Mark, que se perdeu neles, seus olhos também ficando neutros e distantes.

— Não olhe para ele! — gritou Ben, mas era tarde demais.

Empurrou Mark para longe. O menino soltou um gemido longo e, subitamente, atacou Ben. Pego de surpresa, Ben recuou com passos trôpegos. No instante seguinte, as mãos do menino invadi­ram seu bolso, em busca da pistola de Homer McCaslin.

— Mark! Não...

Mas o menino não ouviu. Seu rosto estava pálido como um lençol. O gemido continuou em sua garganta, o lamento de um animalzinho encurralado. Ele segurou a pistola. Ben tentou arrancá-la das mãos dele, mantendo o cano afastado dos dois.

— Mark! — gritou ele. — Mark, acorde, pelo amor de Deus...

O cano virou em direção a sua cabeça quando a arma disparou. Ele sentiu a bala passar ao lado da têmpora. Agarrou as mãos de Mark e lhe deu um chute. Mark tombou para trás, e a arma caiu no chão entre eles. O menino se atirou sobre ela, gemendo, e Ben esmurrou sua boca com toda a força. Sentiu os lábios do menino se chocarem contra os dentes e gritou como se ele tivesse recebido o golpe. Mark caiu de joelhos, e Ben chutou a arma para longe. O menino tentou rastejar atrás dela, mas Ben o esmurrou de novo.

Com um suspiro cansado, o menino desabou.

A força e a segurança o haviam abandonado. Voltara a ser apenas Ben Mears, e estava com medo.

O retângulo de luz na cozinha agora estava de um púrpura mortiço. Ele olhou para o relógio. 18h51.

Uma força tremenda impelia sua mente, ordenando que olhasse para o parasita corado e satisfeito no caixão ao lado.



Olhe para mim, seu inseto. Olhe para Barlow, para quem séculos são como as horas que você passa diante da lareira com um livro. Olhe para a grande criatura da noite, que você pretende abater com um mísero pedaço de madeira. Olhe para mim, pobre escriba. Pois escrevo em vidas humanas, e o sangue é minha tinta. Olhe para mim e desista!

Jimmy, não vou conseguir. É tarde demais, ele é muito forte...



Olhe para mim!

Eram 18h53.

Mark gemeu no chão.

— Mãe? Mamãe, cadê você? Minha cabeça está doendo... está escuro...



Ele entrará para minha igreja como um castrato.

Ben tirou uma das estacas do cinto, mas a deixou cair no chão. Deu um grito de desespero. Lá fora, o sol abandonava Jerusalem’s Lot. Seus últimos raios demoravam-se sobre o teto da Casa Marsten.

Ele apanhou a estaca. Mas onde estava o martelo? Onde estava o maldito martelo?

Ao lado da porta do armário. Deixara-o lá depois de arrebentar o cadeado.

Cruzou o porão correndo e o pegou.

Mark erguia-se sobre os cotovelos, a boca sangrando. Passou a mão pelos lábios e olhou para o sangue, confuso.

— Mamãe! — gritou. — Cadê minha mãe?

Eram 18h55. A luz e as trevas estavam em perfeito equilíbrio.

Ben voltou correndo para o caixão, agarrando a estaca com uma mão, o martelo com a outra.

Ouviu uma risada retumbante e triunfal. Barlow estava sentado no caixão, os olhos rubros cintilando de júbilo. Ben olhou para eles, e sentiu a força se exaurir.

Com um grito louco e convulsivo, ergueu a estaca sobre a cabeça e a baixou com vontade. A ponta afilada rompeu a camisa de Barlow, e ele a sentiu penetrar a carne.

Barlow gritou — um som lúgubre e doído como o uivo de um lobo. A força da estaca esmagando seu peito o empurrou de volta para o caixão. Estendeu os braços, as mãos como garras, agitando-se loucamente.

Ben bateu com o martelo no alto da estaca, e Barlow gritou novamente. Uma de suas mãos, fria como uma lápide, agarrou a mão esquerda de Ben, que segurava a estaca.

Ben entrou no caixão, os joelhos plantados sobre os de Barlow. Olhou para o rosto crispado de dor e ódio.

Solte-me! — gritou Barlow.

— Tome, seu filho-da-mãe — soluçou Ben. — Tome, seu sanguessuga!

Bateu com o martelo na estaca mais uma vez. O sangue espirrou para o alto num jato frio, cegando-o por um momento. A cabeça de Barlow se debatia sobre o travesseiro de cetim.

Solte-me, como você ousa, como você ousa fazer isso...

Ben continuou batendo com o martelo. O sangue escorria das narinas de Barlow. Seu corpo começou a se contorcer no caixão como um peixe num anzol. Suas garras se enterraram no rosto de Ben, abrindo longos vincos na pele.

Solte-me! Sooolte...

Ben bateu mais uma vez com o martelo na estaca, e um sangue negro começou a brotar do peito de Barlow.

E depois, veio a dissolução.

Ela se deu no intervalo de dois segundos, tão rápido que lhe pareceu inacreditável à luz dos anos seguintes, mas lenta bastante para recorrer em seus pesadelos, em terrível câmara lenta.

A pele tornou-se amarela e áspera e se cobriu de pústulas como uma velha lona. Os olhos se apagaram, cobriram-se de uma névoa branca, afundaram-se. Os cabelos embranqueceram e caíram como folhas secas. O corpo dentro do terno preto murchou e encolheu. A boca se escancarou e os lábios recuaram cada vez mais, até encontrarem com o nariz e desaparecerem no círculo dos dentes pontudos. As unhas escureceram e se descolaram, e restaram apenas ossos, ainda ornados com anéis, estalando e batendo como castanholas. Uma nuvem de poeira se desprendeu das fibras da camisa. A cabeça calva e enrugada reduziu-se a um crânio. As calças, com nada para preenchê-las, pareciam vassouras vestidas de seda negra. Por um momento, um medonho espantalho animado contorceu-se diante dos olhos de Ben, que saltou para fora do caixão com um grito estrangulado de pavor. Mas era impossível afastar os olhos da última metamorfose de Barlow. Ela hipnotizava. O crânio descarnado debatia-se sobre o travesseiro de cetim. O maxilar descoberto abriu-se num grito mudo, destituído de cordas vocais. Os dedos esqueléticos Contorciam-se na escuridão como sinistras marionetes.

Cheiros chegavam às narinas de Ben e se esvaíam em pequenas ondas: gases; carne em putrefação; um mofo de bibliotecas. E então, nada. Os dedos que se torciam e protestavam se desfizeram como pó. A cavidade nasal do crânio se ampliou até se encontrar com a cavidade da boca. As órbitas vazias se alargaram numa expressão de surpresa e horror, fundiram-se e se desintegraram. O crânio cedeu como um antigo vaso Ming. As roupas vazias se aplanaram, impessoais como uma muda destinada à lavanderia.

Contudo, ainda não terminara seu tenaz domínio sobre o mundo — a poeira ainda se erguia e girava como pequenos demônios brancos dentro do caixão. E então, de repente, ele sentiu a passagem brutal de algo que o empurrou como um vento forte. Ele estremeceu. No mesmo instante, todas as janelas da pensão de Eva Miller explodiram para fora.

— Cuidado, Ben! — gritou Mark. — Cuidado!

Ele se voltou rapidamente e os viu saindo do armário — Eva, Weasel, Mabe, Grover e os outros. A hora deles chegara.

Os gritos de Mark ecoaram nos ouvidos de Ben como grandes sirenes de incêndio, e ele o agarrou pelos ombros.

A água benta!— gritou para o menino atormentado. — Eles não podem encostar em nós!

Os gritos de Mark se acalmaram.

— Suba pela tábua — disse Ben. — Suba.

Precisou virar o menino em direção à tábua e dar um tapa em sua bunda para fazê-lo subir. Em seguida, voltou-se e encarou os Desmortos.

Eles aguardavam passivamente a uns cinco metros, olhando-o com um ódio vazio que não era humano.

— Você matou o Mestre — disse Eva, e ele pensou ouvir pesar em sua voz. — Como pôde matar o Mestre?

— Vou voltar — ele disse. — E pegarei todos vocês.

Ele subiu a tábua, inclinado, agarrando-a com as mãos. A madeira tremeu sob seu peso, mas agüentou. No alto, ele parou e olhou para baixo. Os Desmortos cercavam o caixão, olhando-o em silêncio. Faziam lembrar as pessoas que rodearam o corpo de Miranda depois do acidente de moto­cicleta.

Procurou Mark, e o encontrou deitado ao lado da porta da varanda, com a cara no chão.

50

Ben disse a si mesmo que o menino estava apenas desmaiado. Podia ser. O pulso estava constante e forte. Pegou-o no colo e o levou para o Citroën.

Sentou atrás do volante e ligou o motor. Ao entrar na rua da Ferrovia, a reação retardada o atingiu como um murro, e ele teve de abafar um grito.

Os mortos-vivos tomavam as ruas.

Com a mente febril, ecoando o clamor das trevas, ele virou à esquerda na avenida Jointner e seguiu em direção à saída da cidade.

Capítulo Quinze

BEN E MARK


1

Mark despertou aos poucos, deixando que o murmúrio constante do motor o trouxesse à tona, sem que precisasse pensar ou lembrar. Finalmente, olhou pela janela, e o medo o dominou com mãos frias. Estava escuro. As árvores que margeavam a estrada eram manchas indistintas, e os carros que passavam por eles estavam com os faróis acessos. Um gemido desarticulado escapou de seus lábios, e ele levou a mão ao pescoço à procura da cruz.

— Relaxe — disse Ben. — Saímos da cidade. Já ficou 30 quilômetros para trás.

O menino se jogou sobre ele, quase o fazendo perder a direção, e trancou a porta do motorista. Em seguida, trancou sua própria porta. Depois, encolheu-se no banco, formando uma bola com o corpo. Queria que o nada voltasse. O nada era bom e escuro, sem nenhuma imagem medonha.

O rumor constante do motor o confortava. Mmmmm. Era bom. Ele fechou os olhos.

— Mark?

Era melhor não responder.



— Mark, você está bem?

Mmmmmmmmm.

— Mark...

A voz se tornou distante. Ótimo. O delicioso nada voltou, e sombras cinzentas o acalentaram.

2

Ben parou num motel logo depois da divisa de New Hampshire, registrando-se como Ben Cody e Mark como seu filho. Mark entrou no quarto empunhando a cruz. Seus olhos iam de um lado a outro nas órbitas como pequenos animais enjaulados. Segurou a cruz até que Ben fechasse a porta, trancasse e pendurasse sua própria cruz na maçaneta. Havia uma tevê colorida no quarto, e Ben ligou-a. Duas nações africanas haviam entrado em guerra. O presidente estava resfriado, mas não era nada sério. E um homem em Los Angeles enlouquecera e matara 14 pessoas a tiros. A previsão do tempo era de chuva — e nevascas no norte do Maine.

3

Salem’s Lot dormia, e os vampiros perambulavam por suas ruas e estradas de terra como espectros do mal. Alguns haviam emergido das névoas da morte o bastante para readquirir astúcias rudimentares. Lawrence Crockett ligou para Royal Snow e o convidou para ir até o escritório jogar cartas. Quando Royal entrou, ele e a mulher o atacaram. Glynis Mayberry ligou para Mabel Werts, disse que estava assustada e perguntou se podia passar a noite com ela até que o marido voltasse de Waterville. Mabel concordou com um alívio quase patético, e, quando abriu a porta dez minutos depois, Glynis estava na soleira, totalmente nua, a bolsa a tiracolo, sorrindo com dentes imensos e famintos. Mabel teve tempo de gritar, só uma vez. Quando Delbert Markey saiu para fechar a taverna deserta pouco depois das oito, Carl Foreman e Homer McCaslin emergiram das sombras e disseram que preci­savam de um trago. Milt Crossen, pouco antes de fechar a loja, recebeu a visita de alguns de seus mais fiéis clientes e amigos. E George Middler visitou vários meninos do colégio, que compravam na sua loja e sempre o olhavam com um misto de desprezo e malícia. E satisfez suas mais ocultas fantasias.

Turistas e transeuntes ainda passavam pela rodovia 12, não vendo nada em Lot além do outdoor de boas-vindas e uma placa que indicava a velocidade máxima: 60 quilômetros por hora. Quando saíam da cidade, voltavam a 90 quilômetros por hora e pensavam distraidamente: “Credo, que lugarzinho morto.”

A cidade guardava seus segredos, e a Casa Marsten pairava sobre ela como um rei arruinado.

4

Ben voltou no amanhecer do dia seguinte, deixando Mark no quarto do motel. Parou numa movimentada loja de ferragens em Westbrook e comprou uma pá e uma picareta.

’Salem’s Lot jazia silenciosa sob um céu cinzento e chuvoso. Poucos carros passavam na rua. A Spencer’s estava aberta, mas o Excellent Café fechara as portas, assim como as persianas verdes, e não se viam os cardápios nas janelas, nem a pequena lousa que anunciava o prato do dia.

A visão das ruas vazias lhe gelou os ossos. Uma imagem lhe veio à mente — um velho disco de rock-and-roll com a foto de um travesti na capa, o perfil talhado contra um fundo preto, o rosto estranhamente masculino sangrando ruge e tinta; o título: “They Only Come Out at Night” (Eles só saem à noite).

Foi primeiro à pensão da Eva. Subiu até o segundo andar e abriu a porta do seu quarto. Estava exatamente como o havia deixado — a cama desfeita, um dropes aberto sobre a mesa. Ele puxou a lixeira vazia, que estava debaixo da mesa, para o meio do quarto.

Jogou nela seus originais. Enrolou a página de rosto e a queimou com seu isqueiro Cricket. Quando ela pegou fogo, jogou-a em cima das páginas datilografadas. A chama as lambeu e, tendo-as provado, começou a devorá-las. As pontas do papel queimaram, dobraram-se, enegreceram. Uma fumaça branca começou a se elevar da lixeira; ele, sem pensar no que fazia, inclinou-se sobre a mesa e abriu a janela.

Sua mão esbarrou no peso de papel — o globo de vidro que o acompanhara desde a infância —, apanhado numa visita onírica a uma casa assombrada. Quando a gente o sacode, a neve cai...

Foi o que ele fez, erguendo-o diante dos olhos como fazia quando criança, e assistiu àquele truque tão antigo. Em meio aos flocos de neve, via-se uma casinha de gengibre com um pequeno jardim na frente. As janelas estavam fechadas, mas meninos cheios de imaginação (como Mark Petrie era agora) tinham a impressão de que uma das janelas estava sendo fechada por uma mão branca e esquálida, e um rosto pálido os espiava, sorrindo e mostrando os longos dentes, convidando-os para entrar nessa casa em meio a uma terra fantástica, onde a falsa neve caía infinitamente e onde o tempo era um mito. O rosto olhava para ele agora, pálido e faminto, um rosto que jamais voltaria a ver a luz do sol e o azul do céu.

Era o seu próprio rosto.

Ele atirou o peso de papel contra a parede, estilhaçando-o.

Saiu do quarto sem olhar para ver o que escapava dele.

5

Ben desceu ao porão para buscar o corpo de Jimmy. Esse foi o pior trajeto de todos. O caixão continuava no mesmo lugar, vazio — nem pó continha. Mas não totalmente vazio. A estaca continuava lá, e algo mais. Ele sentiu a garganta apertar. Dentes. Os dentes de Barlow — tudo o que restara dele. Ben se inclinou e os apanhou — e eles se retorceram em suas mãos, como pequenos animais brancos, tentando se unir e morder.

Com um grito de repulsa, ele os atirou para longe, espalhando-os.

— Santo Deus — ele sussurrou, esfregando a mão na camisa. — Santo Deus, faça com que isso tenha terminado. Por favor, faça com que tenha terminado.

6

Penando, ele conseguiu tirar Jimmy, ainda enrolado nas cortinas de Eva, do porão. Acomodou o corpo no porta-mala do Buick e seguiu para a casa de Mark, a pá e a picareta ao lado da maleta preta de Jimmy no banco de trás. Numa clareira atrás da casa e perto do murmurante córrego Taggart, ele passou o resto da manhã e parte da tarde abrindo uma grande cova com um metro e pouco de profundidade. Lá acomodou Jimmy e os pais de Mark, ainda enrolados na manta do sofá.

Começou a tapar a cova dos que morreram puros às duas e meia. Apressou o ritmo à medida que o sol avançava pelo céu nublado em direção a oeste. Um suor que não era fruto só da exaustão se condensou sobre sua pele.

Às quatro, terminou seu trabalho. Ajeitou a grama por cima da cova da melhor maneira possível e voltou para a cidade com a pá e a picareta enlameadas no porta-mala do carro de Jimmy. Parou na frente do Excellent Café, deixando as chaves na ignição.

Fez uma pausa, olhando ao redor. Os prédios comerciais desertos, com as fachadas falsas, pareciam se inclinar fragilmente sobre a rua. A chuva, que começara por volta do meio-dia, caía lenta e branda, como num pranto. O parque onde ele conhecera Susan estava vazio e desolado. As janelas do Paço Municipal estavam fechadas. Uma placa escrito “Volto logo” pendia da Seguradora e Imobiliária Larry Crockett com triste autoconfiança. E o único som era o da chuva fina.

Ele subiu a rua da Ferrovia, seus passos ecoando na calçada vazia. Quando chegou à pensão, parou ao lado do seu carro por um momento, olhando ao redor pela última vez. Nada se mexia.

A cidade estava morta. A certeza lhe veio, súbita e implacável, como ele tivera certeza de que Miranda estava morta quando viu seu sapato caído sobre o asfalto.

Ele começou a chorar.

Ainda chorava quando passou pela placa que dizia: “Você está deixando Jerusalem’s Lot, uma cidade pequena e de paz. Volte sempre!”

Entrou na estrada. As árvores esconderam a Casa Marsten quando ele desceu a rampa de asfalto. Seguiu em direção ao sul, ao encontro de Mark e da vida.
EPÍLOGO

Entre essas vilas dizimadas

Sobre o pontal, exposto ao vento sul

Com as montanhas se estendendo adiante,

nos escondendo,

Quem entenderá nossa decisão de esquecer?

Quem aceitará nossa oferta nesse final

de outono?

— GEORGE SEFERIS

Ela, sem olhos, agora.

As cobras que um dia abrigara

Devoram suas mãos.

— GEORGE SEFERIS

1

Do álbum de recortes feito por Ben Mears (com artigos do Press-Herald, de Portland):


19 de novembro de 1975 (p. 27)

Jerusalem’s Lot — A família de Charles V. Pritchett, que comprou uma fazenda na cidade de Jerusalem’s Lot, no município de Cumberland, há apenas um mês, está se mudando por causa dos barulhos que ouvem durante a noite, segundo Charles e Amanda Pritchett, que vieram de Portland. A fazenda, no monte do Pátio da Escola, é um marco da região e pertenceu antes a Charles Griffen. O pai de Griffen era o proprietário da Laticínios Sunshine, que foi incorporada pela Empresa de Laticínios Slewfoot em 1962. Charles Griffen, que vendeu a propriedade através de um corretor de Portland por “preço de banana”, segundo o próprio Pritchett, não foi encontrado pela reportagem. Amanda Pritchett falou ao marido sobre os “barulhos estranhos” no palheiro logo depois que...

4 de janeiro de 1976 (p. 1)

Jerusalem’s Lot — Um estranho acidente de carro aconteceu na noite de ontem ou na manhã de hoje na pequena cidade de Jerusalem’s Lot, no sul do Maine. Baseando-se em marcas no asfalto encontradas perto do local, a polícia presume que o carro, um sedã de modelo recente, andava em alta velocidade quando saiu da estrada e bateu num poste da Usina Elétrica do Centro do Maine. O carro ficou totalmente destruído, e embora marcas de sangue tenham sido encontradas no banco da frente e no painel, os passageiros estão desaparecidos. Segundo a polícia, o carro estava registrado em nome do Sr. Gordon Phillips, de Scarborough. Segundo um vizinho, Phillips e a família planejavam visitar parentes em Yarmouth. A hipótese da polícia é que Phillips, a mulher e os dois filhos saíram do carro desnorteados e se perderam. Planos de busca foram...

14 de fevereiro de 1976 (p. 4):

Cumberland — A Sra. Gertrude Hersey, sobrinha da Sra. Fiona Coggins, uma viúva que morava sozinha na via Smith, no oeste de Cumberland, comunicou o desaparecimento da tia esta manhã à polícia do município de Cumberland. Segundo a Sra. Hersey, sua tia era uma reclusa e estava doente. Os policiais estão investigando, mas dizem que por enquanto é impossível...

27 de fevereiro de 1976 (p. 6):



Falmouth — John Farrington, um fazendeiro idoso que morou a vida inteira em Falmouth, foi encontrado morto esta manhã em seu celeiro pelo genro, Frank Vickery. Segundo Vickery, Farrington estava caído de bruços ao lado de um monte de feno, com um forcado perto da mão. O legista do município, David Rice, disse que Farrington parece ter morrido de hemorragia severa ou talvez interna...

20 de maio de 1976 (p. 17):

Portland — O Serviço Florestal do Estado do Maine alertou os guardas florestais do município de Cumberland para que procurem uma matilha de cães selvagens que pode estar à solta na região de Jerusalem’s Lot, Cumberland e Falmouth. No último mês, várias ovelhas foram encontradas mortas com a garganta e a barriga rasgadas. Em alguns casos, os animais foram desventrados. O guarda florestal Warden Upton disse: “Como sabem, a situação piorou muito no sul do Maine...”

29 de maio de 1976 (p. 1):

Jerusalem’s Lot — A polícia suspeita que foi criminoso o desaparecimento de Daniel Holloway e sua família, que haviam se mudado há pouco tempo para uma casa na via do córrego Taggart, nessa pequena comarca de Cumberland. A polícia foi avisada pelo avô de Daniel Holloway, que ficou preocupado porque ninguém atendia o telefone.

O casal e os dois filhos mudaram-se para a via do córrego Taggart em abril, e se queixavam a amigos e parentes de que ouviam “barulhos estranhos” à noite.

Jerusalem’s Lot tem sido palco de vários acontecimentos estranhos nos últimos meses, e muitas famílias...

4 de junho de 1976 (p. 2)

Cumberland — A Sra. Elaine Tremont, uma viúva que mora numa casinha na via Back Stage, na região oeste dessa cidadezinha no município de Cumberland, foi internada no Hospital de Cumberland esta manhã depois de sofrer um ataque cardíaco. Ela disse ao repórter que ouviu um barulho na janela do quarto enquanto assistia à televisão e, quando foi verificar, viu um rosto olhando para ela.

“Estava sorrindo”, relatou a Sra. Tremont. “Foi horrível. Nunca senti tanto medo em minha vida. Desde que mataram aquela família na via do córrego Taggart, a apenas um quilômetro e meio de casa, eu vivo assustada.”

A Sra. Tremont se referia à família de Daniel Holloway, que desapareceu da própria casa em Jerusalem’s Lot no começo da semana passada. A polícia disse que investiga a ligação entre os casos, mas...

2

O homem alto e o menino chegaram a Portland em meados de setembro e se hospedaram num motel durante três semanas. Estavam acostumados ao calor, mas depois do clima seco de Los Zapatos, estranharam a umidade do local. Os dois passavam muito tempo nadando na piscina do motel e contemplando o céu. O homem comprava o Press-Herald de Portland todos os dias — jornais novos agora, sem marcas do tempo ou de urina de cachorro. Lia a previsão do tempo e procurava artigos a respeito de Jerusalem’s Lot. No nono dia da estada deles em Portland, um homem desapareceu em Falmouth. Seu cão foi encontrado morto no quintal. A polícia investigava o caso.

O homem acordou cedo no dia 6 de outubro e saiu para o pátio do motel. A maioria dos turistas já havia voltado para suas casas, em Nova York, Nova Jersey ou Flórida, em Ontário ou Nova Scotia, na Pensilvânia ou Califórnia. Partiram deixando lixo e dólares, enquanto os nativos aproveitavam a mais linda estação da região.

Naquela manhã havia algo novo no ar. O cheiro dos motores que vinha da estrada não era tão forte. Não havia névoa no horizonte, nem neblina leitosa repousando aos pés do outdoor que se erguia no campo ao longe. O céu matinal estava muito claro, e o ar, gelado. O veranico se fora da noite para o dia.

O menino saiu e parou ao lado do homem.

— Hoje — disse o homem.

3

Era quase meio-dia quando chegaram à entrada de ’salem’s Lot. Ben sentiu dor ao lembrar do dia em que chegara lá, cheio de confiança, disposto a exorcizar os demônios que o perseguiam havia tanto tempo. Naquele dia, fazia mais calor, o vento oeste não estava tão forte, e o veranico apenas começava. Ele vira dois meninos levando varas de pescar. O céu naquele dia estava de um azul mais intenso, mais frio.

O rádio do cano proclamava que o índice de risco de incêndio atingira cinco pontos, o segundo nível mais alto. Praticamente não chovia no sul do Maine desde a primeira semana de setembro. O locutor da WJAB alertou os motoristas para apagarem bem o cigarro antes de jogá-lo pela janela e em seguida tocou uma música sobre um homem que ia se atirar de uma torre d’água por amor.

Seguiram pela rodovia 12, passaram pela placa de boas-vindas e entraram na avenida Jointner. Ben notou que a luz de advertência estava apagada. Ninguém precisava tomar cuidado agora.

Entraram na cidade. Cruzaram-na lentamente. Ben sentiu o velho medo cair sobre ele, como um casaco encontrado no sótão, que apertava mas ainda servia. Mark estava sentado rigidamente ao seu lado, segurando um frasco de água benta que trouxera de Los Zapatos. Fora presente de despedida do padre Gracon.

Com o medo, vieram as lembranças, ameaçando partir o coração.

Uma drogaria da rede LaVerdiere substituíra a Spencer’s, mas não tivera sorte melhor. As janelas fechadas estavam nuas e sujas. A placa de ônibus da Greyhound fora retirada. Uma placa de “Vende-se” pendia, meio torta, na vitrine do Excellent Café — os bancos do balcão haviam sido arrancados e transportados para alguma lanchonete mais próspera. Mais adiante, a placa na porta do que antes fora uma lavanderia ainda dizia “Barlow e Straker — Móveis Finos”, mas as letras douradas, que ninguém mais lia, haviam perdido o brilho. A vitrine estava vazia, e sujo o carpete que a revestia. Ben pensou em Mike Ryerson, perguntando-se se ainda estaria naquela caixa no fundo da loja. A idéia secou-lhe a boca.

Ben diminuía a velocidade nos cruzamentos. Viu a casa dos Nortons no alto do monte, cercada de grama alta e amarela, cobrindo a churrasqueira que Bill Norton construíra. Algumas janelas estavam quebradas.

Um pouco mais adiante, ele parou e foi olhar o parque. O Memorial de Guerra erguia-se em meio a uma selva de arbustos e capim. A piscina infantil fora encoberta por plantas aquáticas. A tinta verde dos bancos estava descascada. Os balanços estavam enferrujados, e produziriam um rangido insuportável se alguém resolvesse usá-los. O escorregador caíra de lado e jazia com as pernas rígidas e esticadas, como um antílope morto. E, num canto da caixa de areia, o braço mole caído sobre a grama, jazia um boneco de pano esquecido por alguma criança. Seus olhos de botão pareciam exprimir um horror sem nome, como se tivessem visto todos os segredos das trevas durante sua longa estada na caixa de areia. E talvez tivessem mesmo.

Ele olhou para cima e viu a Casa Marsten, as persianas ainda fechadas, olhando para a cidade com trêmula malevolência. Era inofensiva àquela hora, mas e depois do anoitecer...?

As chuvas deviam ter levado as hóstias com as quais Callahan a selara. Podia voltar a ser deles se a quisessem — um santuário, um farol do mal pairando sobre a cidade morta e desertada. Será que eles se reuniam lá?, perguntou-se Ben. E perambulavam, pálidos, pelos corredores enoitecidos, e ofereciam festins e rituais perversos ao Criador do Criador que adoravam?

Ele desviou os olhos, sentindo-se frio por dentro.

Mark olhava para as casas. A maioria delas tinha as persianas fechadas. Em outras, as janelas nuas revelavam cômodos vazios. Eram piores do que as decentemente fechadas, pensou Ben. Pareciam olhar para eles, invasores diurnos, com a expressão apalermada dos deficientes mentais.

— Eles estão nessas casas — disse Mark, taciturno. — Estão aí, nesse exato momento. Atrás das cortinas, nas camas, nos armários, nos porões. Debaixo dos pisos. Escondidos.

— Calma — disse Ben.

A cidade ficou para trás. Ben entrou na via Brooks, e eles passaram pela Casa Marsten, as persianas ainda cerradas, o jardim um complexo labirinto de capim e grama alta.

Mark apontou e Ben olhou. Uma trilha bem marcada fora aberta através da grama. Atravessava o jardim da estrada até a varanda. Então eles a deixaram para trás, e ele sentiu o peito desafogar. Já haviam enfrentado o pior.

Na via Burns, não muito longe do cemitério Harmony Hill, Ben parou o carro e eles desceram. Entraram na floresta. A seca vegetação rasteira estalava sob seus passos. Eles sentiram o aroma ácido dos frutos dos juníperos e ouviram o som dos gafanhotos. Saíram num pequeno promontório que dava para uma clareira na mata, onde as linhas de força da Usina Elétrica do Maine brilhavam no vento frio. Algumas árvores começavam a mudar de cor.

— Os antigos moradores diziam que foi aqui que começou, em 1951 — disse Ben. — O vento soprava do oeste. Acham que alguém não tomou cuidado com o cigarro. Bastou um cigarro. O fogo se espalhou pelo pântano, e ninguém conseguiu apagá-lo.

Ele tirou um maço de Pall Mall do bolso, olhou para o emblema com ar pensativo — in hoc signo vinces — e removeu o celofane da ponta. Acendeu um cigarro e agitou o fósforo, apagando-o. Achou a fumaça espantosamente saborosa, embora não fumasse havia meses.

— Eles têm seus lugares — disse. — Mas podem perdê-los. Muitos podem ser mortos. Destruídos, melhor dizendo. Mas não todos. Entende?

— Sim — disse Mark.

— Não são muito inteligentes. Se perderem o esconderijo, não saberão se esconder direito depois. Duas pessoas procurando nos lugares óbvios podem resolver. Talvez esteja tudo terminado em ’salem’s Lot antes da primeira neve do inverno. Talvez nunca termine. Não há garantias, de um jeito ou de outro. Mas... sem algo para expulsá-los, para tirá-los de onde estão, não haverá nenhuma chance.

— É.

— Será horrível e perigoso.



— Eu sei.

— Mas dizem que o fogo purifica — refletiu Ben. — A purificação deve adiantar alguma coisa, não acha?

— Acho — disse Mark.

Ben levantou-se.

— Precisamos voltar.

Jogou o cigarro aceso sobre uma pilha de galhos secos e folhas mortas. O rolo branco de fumaça elevou-se contra os bastidores das árvores e depois foi levado pelo vento. A poucos metros, no sentido do vento, havia um grande emaranhado de galhos e ramos caídos.

Eles contemplaram a fumaça, hipnotizados, fascinados.

O incêndio ganhou corpo. Uma língua de fogo surgiu. Um pequeno estalido emergiu da pilha de vegetação morta quando os galhos se inflamaram.

— Esta noite eles não vão correr atrás de ovelhas nem visitar fazendas — disse Ben. — Esta noite eles vão fugir. E amanhã...

— Você e eu — disse Mark, e cerrou os punhos. Seu rosto já não estava pálido, e sim iluminado por uma chama interior. Seus olhos ardiam.

Voltaram para a estrada e partiram.

Na pequena clareira que dava para a usina, o fogo na floresta queimava com mais força, impelido pelo vento outonal que soprava do oeste.

Outubro de 1972

Junho de 1975

OBRAS DE STEPHEN KING
BUICK 8

A CASA NEGRA

DANÇA MACABRA

TRIPULAÇÃO DE ESQUELETOS

O APANHADOR DE SONHOS

OS OLHOS DO DRAGÃO

CARRIE, A ESTRANHA

A COISA


QUATRO ESTAÇÕES

À ESPERA DE UM MILAGRE

A MALDIÇÃO DO CIGANO

CHRISTINE

DESESPERO

OS JUSTICEIROS

O ILUMINADO

INSÔNIA


JOGO PERIGOSO

O CEMITÉRIO

O TALISMÃ

PESADELOS E PAISAGENS NOTURNAS - VOL. 1

PESADELOS E PAISAGENS NOTURNAS - VOL. 2

ROSE MADDER

SACO DE OSSOS
AGUARDE:

SOMBRAS DA NOITE

A DANÇA DA MORTE

O PISTOLEIRO - A TORRE NEGRA VOL. 1



A ESCOLHA DOS TRÊS - A TORRE NEGRA VOL. 2

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