A hora do Vampiro



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Não! É assim que eles pegam a gente!

Mark obrigou-se a desviar os olhos, mas precisou de toda a sua força de vontade para isso.

— Mark, deixe-me entrar! Eu ordeno! Ele ordena!

Mark começou a andar em direção à janela. Não tinha alternativa. Não havia como se opor àquela voz. Quando ele se aproximou do vidro, o malévolo rosto infantil começou a se crispar de avidez. As unhas, sujas de terra, arranhavam a vidraça.



Pense em outra coisa! Rápido!

— Na Espanha — sussurrou ele roucamente. — Na Espanha chove principalmente nas planícies. Em vão esmurrou a amurada, pois ainda via o fantasma.

Danny Glick gritou com voz rouca:

— Mark! Abra a janela!

— Batatinha quando nasce...

— A janela, Mark! Ele ordena!

— ...esparrama pelo chão.

Ele fraquejava. A voz sussurrante penetrava sua barricada mental, o comando era irresistível. Mark olhou para a escrivaninha, coberta pelos monstros de montar, agora tão tolos e infantis...

Seus olhos se fixaram subitamente numa parte do cenário. O monstro de plástico andava por um cemitério, e um dos monumentos era em forma de cruz.

Sem parar para pensar e ponderar (atitude que teria arruinado um adulto, como seu pai, por exemplo), Mark agarrou a cruz com força e disse em voz alta:

— Entre, então.

O rosto foi tomado por uma expressão de triunfo voraz. Danny abriu a janela, entrou e avançou dois passos. O cheiro que exalava daquela boca era indescritivelmente fétido: de restos apodrecendo num sepulcro. Mãos frias e escorregadias pousaram nos ombros de Mark. A cabeça se inclinou, como a de um cão, e o lábio superior descobriu os brilhantes caninos.

Mark levantou a cruz bruscamente e a pressionou contra o rosto de Danny Glick.

O grito foi medonho, sobrenatural... e silencioso. Ecoou apenas nos labirintos da mente de Mark. O sorriso de triunfo da criatura se tornou uma horrível careta de agonia. Fumaça começou a sair da carne pálida, e por um instante, antes de a criatura recuar e fugir pela janela, Mark sentiu a pele ceder como água.

E estava tudo acabado, como se nunca tivesse acontecido.

Por um momento, a cruz brilhou com uma luz vivida, como se estivesse acesa por dentro. Depois se apagou, deixando apenas um vago fulgor azulado.

Através da grade no chão, ele ouviu o inconfundível clique do abajur do quarto debaixo e a voz do pai:

— Que diabo foi isso?

13

A porta do quarto abriu dois minutos depois, tempo suficiente para que Mark colocasse tudo em ordem.

— Filho? — Henry Petrie chamou baixinho. — Está acordado?

— Acho que sim — Mark respondeu com voz sonolenta.

— Você teve um pesadelo?

— Acho... que sim. Não lembro.

— Você gritou enquanto dormia.

— Desculpe.

— Não precisa pedir desculpa. — Ele hesitou, lembrando-se de como era seu filho no passado, um menino de macacãozinho azul, que dava muito mais trabalho mas era infinitamente mais fácil de entender. — Quer um copo d’água?

— Não, obrigado, pai.

Henry Petrie examinou o quarto rapidamente, sem conseguir entender a sensação de pavor mortal que o despertara, e que ainda permanecia com ele — uma premonição de perigo iminente. Tudo parecia bem. A janela estava fechada. Nada estava fora do lugar.

— Mark, alguma coisa está errada?

— Não, pai.

— Bom... Então, boa-noite.

— Boa-noite.

A porta se fechou de mansinho, e Mark ouviu o pai descer as escadas. Sentiu o corpo todo amolecer de alívio. Um adulto teria tido um ataque histérico nesse momento, assim como uma criança um pouco mais nova ou mais velha. Mas Mark sentiu o terror se esvair de maneira quase imperceptível, uma sensação semelhante à do vento na pele depois de nadar num dia frio. A sonolência foi aos poucos tomando o lugar do medo.

Antes de mergulhar no sono, ele refletiu — não pela primeira vez — sobre como os adultos eram curiosos. Tomavam álcool, laxantes ou soníferos para espantar os medos e conseguir dormir, mas eram medos mansos e domésticos: trabalho, dinheiro, o que a professora vai pensar se eu não vestir Jennie melhor, será que minha mulher ainda me ama, quem são meus verdadeiros amigos. Eram suaves comparados aos medos que toda criança enfrenta a cada noite na escuridão do quarto, sem esperar que ninguém a entenda a não ser outra criança. Não existe terapia em grupo, nem psiquiatra, nem assistente social para a criança que tem de lidar com a coisa debaixo da cama ou dentro do porão todas as noites, a coisa que a ameaça e provoca além do limite da visão. A mesma batalha é travada noite após noite, e a única cura é a eventual ossificação da imaginação, que também se chama idade adulta.

De uma maneira mais simples e sucinta, esses pensamentos passaram pela mente de Mark. Na noite anterior, Matt Burke enfrentara essa coisa malévola, e o medo lhe provocara um ataque cardíaco. Mark Petrie também a enfrentara, e dez minutos depois dormia profundamente, ainda segurando a cruz de plástico como um bebê segura um chocalho. Essa era a diferença entre homens e meninos.
Capítulo Onze

BEN (IV)


1

Eram 9h10 da manhã de domingo — uma manhã luminosa e ensolarada. Ben começava a se preocupar seriamente com Susan quando o telefone ao lado da cama tocou. Ele o agarrou rapidamente.

— Onde você está?

— Relaxe. Estou no andar de cima com Matt Burke, que gostaria de ter o prazer de sua companhia assim que você puder.

— Por que não veio...

— Passei por aí ainda há pouco. Você dormia como um bebê.

— Eles sedam a gente à noite para roubar nossos órgãos e vendê-los a pacientes bilionários. Como está Matt?

— Suba e veja você mesmo.

Mal ela desligara, ele já vestia o roupão e saía do quarto.

2

Matt estava bem melhor, quase rejuvenescido. Susan, de vestido azul-turquesa, estava sentada ao lado dele. Quando Ben entrou, saudou-o com um aceno de mão e disse:

— Puxe uma pedra.

Ben puxou uma das cadeiras extremamente desconfortáveis do hospital e sentou.

— Como está se sentindo?

— Muito melhor, mas ainda um pouco fraco. Tiraram o soro ontem à noite e me deram um ovo poché no café da manhã. Ahrg. Preâmbulos do asilo para idosos.

Ben beijou Susan de leve e notou uma serenidade forçada em seu rosto, como se seu controle estivesse por um fio.

— Alguma novidade desde que você me ligou ontem à noite?

— Não soube de mais nada. Mas saí de casa às sete, e a cidade acorda um pouco mais tarde no domingo.

Ben olhou para Matt.

— Está disposto a conversar sobre isso?

— Acho que sim — disse ele. A cruz dourada que Ben colocara em seu pescoço cintilava sobre seu peito. — A propósito, obrigado pela cruz. Ela me passa muita segurança, mesmo tendo-a comprado no balcão de saldos da Woolsworth’s na tarde da sexta.

— Como você está?

— “Estabilizado” foi o termo pomposo que o Dr. Cody usou quando me examinou ontem à tarde. Segundo o eletrocardiograma, foi um ataque cardíaco menor, sem formação de coágulo. Espero, pelo bem dele, que tenha sido — resmungou. — Como aconteceu só uma semana depois do check-up que fiz com ele, eu o processaria por quebra de promessa. — Olhou para Ben. — Ele disse que casos assim podem ser causados por um grande choque emocional. Fiquei de bico calado. Fiz bem?

— Claro que sim. Mas a situação evoluiu. Susan e eu vamos falar com o Dr. Cody e contar tudo. Se ele não me der alta imediatamente, vamos mandá-lo falar com você.

— E vou lhe encher os ouvidos — disse Matt, mal-humorado. — O metido me proibiu de encostar no cachimbo.

— Susan já lhe contou o que aconteceu em Jerusalem’s Lot desde a noite de sexta?

— Não, ela preferiu esperar você chegar.

— Antes, gostaria de saber exatamente o que aconteceu na sua casa.

A expressão de Matt se fechou, e por um instante a máscara da convalescença caiu, e Ben voltou a ver o velho que encontrara dormindo no dia anterior.

— Se não estiver disposto...

— Não, claro que estou. Preciso estar, se metade das minhas suspeitas for verdadeira. — Ele abriu um sorriso amargo. — Sempre me considerei um livre-pensador, alguém que não se choca facilmente. Mas é incrível como a mente bloqueia algo que considera ameaçador. Como as lousas mágicas que tínhamos quando crianças. Se a gente não gostasse do desenho, era só puxar a superfície superior para que desaparecesse.

— Mas o contorno ficava no material debaixo para sempre — disse Susan.

— Isso mesmo. — Matt sorriu para ela. — Uma bela metáfora da interação entre consciente e inconsciente. É uma pena que Freud tenha preferido falar de cebolas. Mas estamos divagando. — Ele olhou para Ben. — Susan já lhe contou o que houve?

— Já, mas...

— Claro. Eu só queria saber se podia pular os antecedentes.

Ele contou a história com voz monótona, quase sem inflexão, parando apenas quando uma enfermeira entrou com passos sussurrantes para saber se ele queria um copo de ginger ale. Matt aceitou, e terminou a história enquanto sorvia o líquido pelo canudo. Ben notou que, quando ele chegou à parte em que Mike caía da janela de costas, os cubos de gelo tilintaram levemente no copo. Assim mesmo, a voz dele não se alterou — manteve a mesma tonalidade serena e modulada que ele devia usar na sala de aula. Ben pensou, e não pela primeira vez, que ele era um homem admirável.

Fez-se um silêncio depois que Matt terminou, e ele mesmo se interrompeu.

— E então? — disse ele. — Vocês que não viram nada com seus próprios olhos, o que acham dessa história?

— Falamos bastante sobre isso ontem — disse Susan. — Deixarei que Ben lhe conte.

Com certa timidez, Ben expôs cada uma das explicações razoáveis, descartando-a logo em seguida. Quando falou da tela que fechava por fora, da terra mole, da ausência de marcas de escada, Matt o aplaudiu.

— Bravo, detetive!

Matt olhou para Susan.

— E você, Srta. Susan, que escrevia redações tão bem organizadas, com parágrafos como tijolos e subtítulos como cimento? O que acha?

Ela olhou para as mãos, que seguravam uma prega da saia, e voltou a olhar para ele.

— Ontem Ben me deu uma aula sobre o sentido lingüístico da expressão não posso, e não vou usá-la. Mas é muito difícil para mim acreditar que vampiros estejam perambulando por ’salem’s Lot, Sr. Burke.

— Se pudermos dar um jeito de fazer isso discretamente, concordo em passar por um detector de mentiras — disse Matt baixinho.

Susan corou um pouco.

— Não, não me entenda mal. Estou convencida de que algo está acontecendo na cidade. Algo... horrível. Mas... isso...

Ele pousou a mão sobre a dela.

— Entendo, Susan, mas faça uma coisa por mim.

— Se eu puder...

— Vamos raciocinar sob a premissa de que tudo isso é real. Vamos mantê-la até que algo prove sua falsidade. É o método científico. Ben e eu já discutimos como testar essa premissa. E ninguém deseja mais do que eu que seja descartada.

— Mas não acha que será, não é?

— Não — disse ele, serenamente. — Após uma longa conversa comigo mesmo, cheguei a uma decisão. Acredito no que vi.

— Vamos esquecer essas questões de crença ou descrença por um minuto — propôs Ben. — Por enquanto são controvertidas.

— Concordo — disse Matt. — Como acha que devemos prosseguir?

— Bom — disse Ben. — Quero indicá-lo como pesquisador-chefe. Com sua formação, é o mais preparado para essa função. E assim não precisará se deslocar.

Os olhos de Matt brilharam, como quando lembrou a perfídia de Cody por proibir seu cachimbo.

— Ligarei para Loretta Starcher assim que a biblioteca abrir. Ela me trará os livros nem que seja de carrinho de mão.

— Hoje é domingo — lembrou Susan. — A biblioteca está fechada.

— Ela terá de abri-la para mim — declarou Matt. — Ou terá de se explicar.

— Peça tudo que tenha a ver com o assunto — disse Ben. — Nas áreas de psicologia, patologia e mito. Entendeu? O pacote completo.

— Vou anotar tudo num caderno — disse Matt. — Deixe comigo! — Ele olhou para os dois. — Desde que acordei neste hospital, pela primeira vez me sinto um homem. E o que você vai fazer?

— Primeiro, falar com o Dr. Cody. Ele examinou Ryerson e Floyd Tibbits também. Podemos tentar convencê-lo a exumar Danny Glick.

— Será que ele fará isso? — Susan perguntou a Matt.

Matt deu um gole na ginger ale antes de responder.

— O Jimmy Cody que foi meu aluno faria sem hesitar. Era um menino imaginativo e de mente aberta, que detestava falsos dogmas. Até que ponto a faculdade de medicina o tornou um empirista, isso eu já não sei.

— Tudo isso me parece muito tortuoso — disse Susan. — Principalmente procurar o Dr. Cody e arriscar ouvir um não. Por que Ben e eu não vamos até a Casa Marsten e acabamos logo com isso? Era nosso plano semana passada.

— Vou lhe dizer o porquê — disse Ben. — Porque estamos trabalhando com a premissa de que tudo isso é verdadeiro. Quer mesmo colocar sua cabeça na boca do leão?

— Achei que vampiros dormissem durante o dia.

— Straker pode ser muitas coisas, mas não um vampiro — disse Ben. — A não ser que as antigas lendas estejam totalmente erradas. Ele tem se mostrado de dia constantemente. Na melhor das hipóteses, seríamos presos como invasores de propriedade privada. Na pior, ele nos subjugaria e manteria lá até o anoitecer. Um lanchinho para quando o Conde acordasse.

— Barlow? — perguntou Susan.

Ben encolheu os ombros.

— Por que não? Essa história de que está em Nova York fazendo compras para a loja é certinha demais para ser verdade.

Susan continuou com uma expressão obstinada, mas se calou.

— O que vai fazer se Cody rir na sua cara? — perguntou Matt. — Supondo que ele não peça uma camisa-de-força na hora.

— Irei para o cemitério ao anoitecer. E vigiarei o túmulo de Danny Glick. Será um teste de campo.

Matt se ergueu dos travesseiros.

— Prometam que tomarão cuidado. Prometa, Ben!

— Não se preocupe — disse Susan, acalmando-o. — Vamos nos cobrir de cruzes da cabeça aos pés.

— Não brinque — murmurou Matt. — Se tivessem visto o que eu vi... — Ele virou a cabeça e olhou pela janela, que mostrava uma árvore com folhas encharcadas de sol contra o luminoso céu de outono.

— Ela pode estar brincando, mas eu não — disse Ben. — Tomaremos todas as precauções.

— Procure o padre Callahan — disse Matt. — Peça-lhe um pouco de água benta... e, se possível, algumas hóstias.

— Que tipo de homem ele é? — perguntou Ben.

Matt encolheu os ombros.

— Um pouco estranho. Acho que bebe. De qualquer forma, é culto e educado. Parece que se exaspera um pouco com o cabresto do catolicismo romano.

— Tem certeza de que o padre Callahan... bebe? — perguntou Susan, arregalando os olhos.

— Não absoluta. Mas um ex-aluno meu, Brad Campion, que trabalha na loja de bebidas Yarmouth, disse que Callahan é cliente habitual. Bebe Jim Beam. Tem bom gosto.

— Dá para conversar sobre isso tudo com ele? — perguntou Ben.

— Não sei. Mas acho que deve tentar.

— Quer dizer que você não o conhece?

— Muito pouco. Está escrevendo a história da Igreja Católica da Nova Inglaterra e é um conhecedor dos poetas da chamada idade de ouro. Whittier, Longfellow, Russell, Holmes e outros. Chamei-o para falar aos meus alunos de literatura americana no ano passado. Sua mente é rápida e penetrante. Os alunos gostaram dele.

— Vou procurá-lo. E Seguirei meu instinto.

Uma enfermeira espiou dentro do quarto, fez um sinal com a cabeça, e Jimmy Cody entrou com um estetoscópio ao redor do pescoço.

— Vieram perturbar meu paciente? — perguntou amavelmente.

— Quem me perturba é você — disse Matt. — Quero meu cachimbo.

— Não pode fumar — Cody disse distraidamente, lendo o prontuário de Matt.

— Maldito charlatão — resmungou Matt.

Cody devolveu o prontuário a seu lugar e puxou a cortina verde que contornava a cama num cano em. forma de C.

— Terei de pedir que vocês saiam daqui a pouco. Como está a cabeça, Sr. Mears?

— Até agora, nada vazou.

— Soube o que aconteceu com Floyd Tibbits?

— Susan me contou. Gostaria de falar com você, se tiver um tempinho depois de ver seus pacientes.

— Então, deixarei para examiná-lo por último, lá pelas 11 horas.

— Ótimo.

Cody segurou a cortina de novo.

— E agora, se me dão licença...

— Lá vou eu amigos, para o exílio — disse Matt. — Diga a palavra secreta e ganhe cem dólares...

A cortina separou Ben e Susan da cama. Por trás do tecido, Cody disse:

— A próxima vez que lhe der anestesia, vou cortar sua língua e metade de seu lóbulo pré-frontal. .

Eles sorriram um para o outro, como jovens namorados quando o sol brilha e não há nada de errado no mundo. Mas os sorrisos se apagaram quase simultaneamente. Por um momento, os dois se perguntaram se não estavam loucos.

3

Quando Jimmy Cody finalmente entrou no quarto de Ben, eram 23h20.

— Precisava falar com você porque... — começou Ben.

— Primeiro a cabeça, depois a conversa. — Cody dividiu os cabelos de Ben delicadamente, observou algo e depois disse. — Vai doer. — Puxou o curativo, e Ben deu um salto. — Que galo enorme! — exclamou o médico, e cobriu o machucado com um curativo um pouco menor.

Examinou os olhos de Ben com a lanterninha e bateu em seu joelho esquerdo com um martelo de borracha. Com súbita morbidez, Ben se perguntou se era o mesmo que ele usara no joelho de Mike Ryerson.

— Tudo parece satisfatório — disse ele, guardando os instrumentos. — Qual é o nome de solteira de sua mãe?

— Ashford — disse Ben. Já haviam lhe feito essas perguntas quando ele recobrara a consciência.

— Professora no primeiro grau?

— A Sra. Perkins. Ela passava rinçagem no cabelo.

— Nome do meio do pai?

— Merton.

— Sente tontura ou náusea?

— Não.

— Sente aromas ou vê cores estranhas ou...



— Não, não e não. Estou ótimo.

— Isso sou eu quem decido — disse Cody, empertigando-se. — Teve visão dupla?

— A última vez foi quando comprei um litro de Thunderbird.

— Certo — disse Cody. — Eu o declaro curado pelos poderes da medicina moderna e pela graça de uma cabeça dura. Agora, sobre o que quer falar comigo? Sobre Tibbits e o bebê dos McDougall, imagino. Só posso lhe dizer o que já disse a Parkins Gillespie. Primeiro, estou feliz por não ter saído nos jornais. Um escândalo por século já basta para uma cidade pequena. Segundo, não imagino quem possa ter feito algo tão pervertido. Não pode ser alguém daqui. Temos os nossos malucos de plantão, mas...

Ele parou de falar, vendo a expressão confusa de Ben e Susan.

— Vocês ainda não sabem?

— O quê? — perguntou Ben.

— Parece um filme com Boris Karloff ou uma novela de Mary Shelley. Alguém roubou os corpos do necrotério de Cumberland, em Portland, ontem à noite.

— Santo Deus — disse Susan, entre lábios rígidos.

— O que foi? — perguntou Cody, subitamente preocupado. — Vocês sabem de algo a respeito disso?

— Estou começando a pensar seriamente que sim — disse Ben.

4

Eram 12h10 quando eles terminaram de contar tudo. A bandeja com o almoço que a enfermeira trouxera para Ben permanecia intocada ao lado da cama.

A última palavra fora dita, e o único som era o barulho de copos e talheres que entrava pela porta entreaberta, enquanto pacientes mais famintos almoçavam.

— Vampiros — murmurou Jimmy Cody. — E Matt Burke, justo ele... Assim fica mais difícil achar graça de tudo isso.

Ben e Susan não disseram nada.

— E querem que eu exume Danny Glick — meditou ele. — Santa Mãe de Deus...

Cody tirou um frasco da maleta e o jogou para Ben, que o pegou no ar.

— Aspirina — disse ele. — Já usou?

— Muitas vezes.

— Meu pai dizia que era a melhor enfermeira do médico. Sabe como funciona?

— Não — disse Ben, girando o frasco de aspirina entre as mãos. Não conhecia Cody a ponto de saber o que costumava ocultar, mas sabia que nenhum de seus pacientes já o vira assim, com o rosto infantil, parecido com o de Norman Rockwell, pensativo e introspectivo. E não quis interromper suas reflexões.

— Nem eu. Ninguém sabe. Mas é bom para dor de cabeça, artrite e reumatismo. E também não sabemos o que são esses males. Por que nossa cabeça dói? Não existem nervos no cérebro. Sabemos que a composição da aspirina é semelhante à do LSD, mas por que uma cura a dor de cabeça e o outro a enche de flores? Não entendemos isso porque no fundo não entendemos o cérebro. Mesmo o médico mais bem-formado do mundo está ilhado em meio a um mar de ignorância. Brandimos nossas varinhas de condão e lemos mensagens no sangue. E é surpreendente como funciona a maioria das vezes. É magia branca. Bene gris-gris. Meus professores de medicina arrancariam os cabelos se me ouvissem falar assim. Alguns arrancaram mesmo quando eu lhes disse que ia praticar medicina na zona rural do Maine. Um deles me disse que Marcus Welby sempre lancetava os furúnculos na bunda do paciente durante as vinhetas da emissora. Mas eu nunca quis ser Marcus Welby. — Ele sorriu. — Eles teriam um ataque e rolariam no chão se soubessem que vou pedir a exumação de Danny Glick.

— Vai mesmo? — perguntou Susan, francamente surpresa.

— Que mal pode fazer? Se estiver morto, pronto. Se não estiver, terei algo para chocar o congresso de medicina no ano que vem. Direi ao legista do município que preciso procurar sinais de encefalite infecciosa. É a única explicação razoável que me ocorre.

— Pode ser isso então? — perguntou ela, esperançosa.

— É muito improvável.

— Pode fazer isso o mais rápido possível? — perguntou Ben.

— Amanhã, no máximo. Se tiver algum contratempo, terça ou quarta.

— Como ele estará? — perguntou Ben. — Quero dizer...

— Eu sei o que quer dizer. A família não mandou embalsamar o menino, não é?

— Não.

— Faz uma semana?



— Isso.

— Quando o caixão for aberto, provavelmente sairá uma onda de gás e um cheiro bastante repulsivo. O corpo pode estar inchado. O cabelo terá crescido até o colarinho. Continua a crescer durante bastante tempo. As unhas também estarão compridas. E os olhos, quase com certeza, terão afundado.

Susan tentava manter uma expressão de neutralidade científica, sem muito sucesso. Ben sentiu alívio por não ter almoçado.

— O corpo ainda não terá entrado em decomposição radical — prosseguiu Cody, em seu melhor tom magistral. — Mas a umidade presente já pode ter levado ao surgimento, no rosto e nas mãos, de uma substância musgosa chamada... — Ele parou. — Desculpe. Estou chocando vocês.

— Existem coisas piores do que a decomposição — disse Ben, tentando manter a voz neutra. — Mas e se você não encontrar nenhum desses sinais? E se o corpo estiver com o aspecto idêntico ao do dia em que foi enterrado? O que fará? Enterrará uma estaca em seu coração?

— Dificilmente — disse Cody. — Para começar, o médico-legista ou seu assistente estarão presentes. Acho que nem Brent Norbert acharia profissional se eu tirasse uma estaca da maleta e a enterrasse no cadáver de uma criança.

— E o que você vai fazer? — perguntou Ben, curioso.

— Bom, Matt Burke que me perdoe, mas não acho que isso vai acontecer. Mas, se o corpo estiver nesse estado, sem dúvida será levado ao Centro Médico do Maine para um exame mais demorado. Lá, eu esperaria até o anoitecer... e observaria os fenômenos que ocorressem.

— E se ele se levantar?

— Assim como você, acho isso inconcebível.

— Estou achando cada vez mais concebível — disse Ben, seriamente. — Posso estar presente quando isso acontecer? Se acontecer?

— Posso dar um jeito.

— Certo. — Ben levantou da cama e foi até o armário, onde suas roupas estavam penduradas. — Vou...

Susan deu uma risadinha, e Ben se virou.

— O que foi?

Cody sorria de orelha a orelha.

— Os aventais de hospital costumam abrir atrás, Sr. Mears.

— Caramba — disse Ben, instintivamente fechando a abertura traseira do avental. — É melhor me chamar de Ben.

— E, aproveitando a deixa, Susan e eu vamos sair — disse Cody, levantando-se. — Encontre com a gente no café quando estiver decente. Nós dois temos afazeres esta tarde.

— Temos?


— Precisamos contar aos pais de Danny Glick a história da encefalite. Pode fingir que é meu colega, se quiser. Não diga nada. Apenas ponha a mão no queixo e faça cara de sábio.

— Eles não vão gostar nada disso, não é?

— Você gostaria?

— Não.


— Precisa da permissão deles para a exumação? — perguntou Susan.

— Tecnicamente, não. Mas é melhor pedir. Minha única experiência com exumações foi na faculdade de medicina. Mas acho que, se forem contra, os pais podem entrar com um processo. Isso levaria de duas semanas a um mês, e até lá minha teoria sobre a encefalite não se sustentaria mais. — Ele fez uma pausa e os olhou. — O que me leva à questão mais perturbadora de todas, fora a história do Sr. Burke. Danny Glick é o único corpo que podemos examinar. Os outros desapareceram sem deixar vestígios.

5

Bem e Jimmy Cody chegaram à casa dos Glick por volta da lh30. O carro de Tony Glick estava na garagem, mas a casa estava silenciosa. Como ninguém atendeu quando bateram, eles atravessaram a rua até a casinha estilo Campestre que ficava em frente — um melancólico casebre pré-fabricado que se sustentava sobre duas escoras. O nome na caixa de cartas era Dickens. Um flamingo cor-de-rosa enfeitava o gramado, e um cocker spaniel abanou a cauda ao vê-los.

Pauline Dickens, garçonete e sócia do Excellent Café, abriu a porta logo depois que Cody tocou a campainha. Estava de uniforme.

— Oi, Pauline — disse Jimmy. — Você sabe onde estão os Glick?

— Então você não sabe?

— O quê?

— A Sra. Glick morreu esta manhã. Levaram Tony Glick ao Hospital Central do Maine. Ele está em choque.

Ben olhou para Cody, que tinha a expressão de alguém que levara um chute no estômago. Resolveu assumir o controle da situação.

— Para onde levaram o corpo?

Pauline alisou o uniforme.

— Falei com Mabel Werts pelo telefone há uma hora, e ela disse que Parkins Gillespie ia levar o corpo direto para a funerária daquele judeu em Cumberland, já que ninguém sabe onde Carl Foreman está.

— Obrigado — Cody disse lentamente.

— Que coisa horrível — disse ela, olhando para a casa vazia do outro lado da rua. O carro de Tony Glick, na entrada, parecia um cachorro grande e cinzento, acorrentado e depois abandonado. — Se eu fosse supersticiosa, ficaria com medo.

— Medo do quê, Pauline? — perguntou Cody.

— Ah, sei lá... — Ela sorriu vagamente, segurando uma corrente que tinha no pescoço.

Era uma medalha de São Cristóvão.

6

Estavam de volta ao carro. Viram Pauline sair para o trabalho sem dizer nada...

— E agora? — disse Ben finalmente.

— Que catástrofe — disse Jimmy. — O judeu que ela falou é Maury Green. Acho melhor irmos até Cumberland. Há nove anos o filho de Maury quase se afogou no lago Sebago. Por acaso eu estava lá com uma namorada, e salvei o menino com respiração boca a boca. Talvez seja o momento de eu pedir um favor em troca.

— Do que adiantará? O legista já deve ter levado o corpo para a sala de autópsia.

— Duvido. Hoje é domingo, lembra? O legista deve estar na floresta com seu martelo para colher rochas. É geólogo amador. Norbert... lembra-se dele?

Ben fez que sim.

— Norbert deve estar de plantão, mas não é confiável. Deve ter tirado o telefone do gancho para assistir ao jogo do Packers contra o Patriots. Se formos à funerária de Maury Green agora, é bem provável que encontremos o corpo intocado.

— Certo — disse Ben. — Vamos lá.

Lembrou-se da visita que deveria fazer ao padre Callahan, mas teria de ficar para depois. Tudo estava indo rápido demais para o gosto dele. Fantasia e realidade haviam se fundido.

7

Viajaram em silêncio até chegarem à estrada, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Ben refletia sobre o que Cody dissera no hospital. Carl Foreman desaparecera. Os corpos de Floyd Tibbits e do bebê haviam sumido debaixo do nariz dos dois funcionários do necrotério. Mike Ryerson também desaparecera, e só Deus sabia quem mais. Quantas pessoas em ’salem’s Lot podiam sumir sem que ninguém notasse sua falta durante muito tempo? Centenas, talvez. Suas mãos começaram a suar.

— Isso está começando a parecer uma alucinação — disse Jimmy. — Ou os quadrinhos do Gahan Wilson. O mais assustador, do ponto de vista acadêmico, é a facilidade relativa com que uma colônia de vampiros pode se formar, se admitirmos a existência deles. ’Salem’s Lot é uma cidade-dormitório para quem trabalha em Portland, Lewiston e Gates Falls. Não existem indústrias locais que notariam se muitos empregados começassem a faltar. As escolas são unificadas com as de duas outras cidades, e se as faltas começarem a aumentar, quem repara? Muita gente vai à igreja em Cumberland, e mais gente ainda não vai a igreja alguma. E a televisão acabou com as antigas reuniões de bairro, descontando os coitados que matam tempo na loja de Milt. Tudo isso pode se desenrolar com muito sucesso nos bastidores.

— É — disse Ben. — Danny Glick infectou Mike. Mike infectou... não sei, Floyd, talvez. Aquele bebê pode ter infectado o pai ou a mãe. Como estão eles, por falar nisso? Alguém foi verificar?

— Não são meus pacientes. O Dr. Plowman deve ter ligado para eles esta manhã e comunicado o sumiço do corpo. Mas não tenho certeza.

— Alguém deveria verificar como estão. — Ben começou a se sentir acossado. — É uma bola de neve. Uma pessoa de fora pode passar pela cidade e não notar nada de errado. Mais uma cidadezinha mixuruca onde todos se deitam às nove. Mas ninguém sabe o que se passa por trás das portas. Os moradores podem estar na cama... ou dentro dos armários, como vassouras... ou nos porões, esperando o sol se pôr. E, a cada amanhecer, menos pessoas saem às ruas. Menos a cada dia. — Ele engoliu em seco.

— Calma — disse Jimmy. — Nada está provado.

— Estão chovendo provas — retorquiu Ben. — Se estivéssemos lidando com algo aceitável, como uma epidemia de febre tifóide ou de gripe, a cidade inteira estaria de quarentena a essa altura.

— Duvido. Não esqueça que apenas uma pessoa realmente viu alguma coisa.

— E não foi exatamente o bêbado da cidade.

— Matt seria crucificado se sua história se espalhasse — disse Jimmy.

— Por quem? Por Pauline Dickens é que não. Ela só falta pintar talismãs na porta de sua casa.

— Em tempos de Watergate e escassez de petróleo, ela é uma exceção.

Continuaram a viagem em silêncio. A funerária Green ficava no norte de Cumberland. Dois carros funerários estavam parados nos fundos, entre a capela ecumênica e uma cerca alta. Jimmy desligou o carro e olhou para Ben.

— Pronto?

— Acho que sim.

Eles saíram do carro.

8

A revolta que vinha crescendo dentro de Susan explodiu por volta das duas da tarde. Eles estavam dando voltas, tentando provar algo que (desculpe, Sr. Burke) provavelmente não passava de uma bobagem. E ela decidiu ir até a Casa Marsten naquela tarde mesmo.

Desceu e pegou a bolsa. Sua mãe estava preparando biscoitos e seu pai estava na sala, assistindo ao jogo.

— Aonde você vai? — perguntou a Sra. Norton.

— Vou dar uma volta.

— Vamos jantar às seis. Tente voltar a tempo.

— Voltarei no máximo às cinco.

Ela saiu e entrou no carro, que era seu maior orgulho — não porque era o primeiro de sua vida (embora fosse), mas porque o comprara (ainda faltavam seis prestações, lembrou ela) com seu próprio dinheiro, seu próprio talento. Era um Vega pequeno, com quase dois anos. Tirou-o cuidadosamente da garagem e acenou para a mãe, que a olhava da janela da cozinha. A relação delas ainda estava abalada, embora não falassem mais a respeito. As outras discussões, mesmo que amargas, tinham sido esqueci­das com o tempo — a vida simplesmente continuava, enterrando as mágoas, que só voltavam a aflorar na briga seguinte, quando eram contadas como pontos numa disputa. Mas aquela guerra fora completa. As feridas não podiam ser curadas. A amputação era a única saída. Ela já começara a fazer as malas, com sensação de justiça. Estava mais do que na hora.

Seguiu pela rua Brock, sentindo prazer e determinação (e uma agradável sensação de absurdidade). Tomaria uma atitude concreta, e a idéia a estimulava. Era uma pessoa direta. Os fatos do fim de semana a haviam confundido e deixado à deriva. Mas agora ela remaria numa direção certa.

Parou no acostamento de terra na saída da cidade e andou pelo pasto de Carl Smith até uma cerca de neve vermelha, enrolada à espera do inverno. A sensação de absurdidade cresceu, e ela não pôde deixar de sorrir ao dobrar uma das ripas para frente e para trás até romper o arame que o prendia aos outros. Era uma estaca perfeita, de quase um metro, pontuda na extremidade. Levou-a para o carro e a colocou no banco de trás, sabendo para que era (ela vira filmes da produtora Hammer suficientes para saber como se matavam vampiros), mas não parou para pensar se seria capaz de cravá-la no peito de um homem se fosse preciso.

Saiu dos limites da cidade e entrou em Cumberland. Viu à esquerda uma lojinha que abria aos domingos, onde seu pai comprava o jornal. Lembrou-se que havia uma vitrine de bijuterias baratas ao lado do caixa.

Comprou o jornal e um pequeno crucifixo dourado. Suas compras, no valor de quatro dólares e cinqüenta centavos, foram registradas por um balconista gordo que não tirou os olhos da televisão, onde Jim Plunkett era expulso do jogo.

Em seguida ela pegou a estrada municipal, que fora recém-asfaltada. Tudo parecia novo, fresco e vivo naquela tarde ensolarada, e a vida parecia muito preciosa. E para, a partir disso, pensar em Ben era um pulo.

O sol saiu detrás de uma grande e vagarosa nuvem, cobrindo o asfalto de faixas claras e escuras ao incidir sobre as árvores que margeavam a estrada. Num dia como aquele, pensou ela, era possível acreditar em finais felizes.

Cerca de oito quilômetros depois, ela saiu da estrada e entrou na via Brooks, que não era asfaltada, e voltou a entrar em ’salem’s Lot. A estrada subia, descia e serpenteava pela densa vegetação dessa área, que encobria boa parte da luminosidade do dia. Não se viam casas nem trailers. Aquelas terras pertenciam a uma indústria de papel conhecida por pedir aos clientes que não amassassem o papel higiênico. A cada 30 metros, apareciam placas proibindo a caça e a passagem ao lado da estrada. Ao passar pelo desvio que levava ao depósito de lixo, Susan sentiu uma onda de inquietação. Naquele trecho sombrio da estrada, possibilidades nebulosas tornavam-se mais reais. Começou a se perguntar — e não pela primeira vez — por que uma pessoa normal compraria a casa arruinada que pertencera a um suicida e manteria as janelas sempre fechadas, tapando a luz do dia.

A estrada desceu bruscamente e depois começou a subir pelo flanco oeste do monte Marsten. Susan conseguiu divisar o telhado da Casa Marsten por entre as árvores.

Estacionou na entrada de uma antiga trilha para lenhadores no final da inclinação e saiu do carro. Após um instante de hesitação, pegou a estaca e pendurou o crucifixo no pescoço. Ela ainda se sentia absurda, mas se sentiria ainda mais se algum conhecido passasse por ali e a visse subindo o monte com a estaca de uma cerca na mão.



Oi, Suze, aonde está indo?

Vou dar uma passada na Casa Marsten e matar um vampiro. Mas tenho que me apressar, porque o jantar é às seis.

Ela decidiu cortar caminho pela floresta.

Ao passar cuidadosamente por cima de um muro arruinado no final da vala da estrada, ficou feliz por estar de calças compridas. A mais alta-costura para destemidas matadoras de vampiros. E ainda enfrentou arbustos espinhosos e buracos encobertos antes de entrar na floresta.

Em meio aos pinheiros, o dia se tornou pelo menos dez graus mais frio e ainda mais sombrio. O chão estava acarpetado de folhas amareladas e o vento assobiava entre as árvores. Em algum lugar, um animal correu pela vegetação rasteira. Susan de repente se deu conta de que, se virasse à esquerda e andasse uns 700 metros, chegaria ao cemitério Harmony Hill — isso se conseguisse escalar o muro de trás.

Ela continuou a subir o monte, o mais silenciosamente possível. Ao se aproximar do topo, avistou a casa em meio aos ramos cada vez mais esparsos — o lado da casa que não se via da cidade. E começou a sentir medo. Não conseguia precisar o motivo, e por isso era como o medo que sentira na casa de Matt Burke. Sabia que ninguém ouvia seus passos e que o sol brilhava, mas o medo continuava a oprimir seu peito. Parecia brotar de uma região arcaica e geralmente silenciosa de seu cérebro. O prazer que o dia lhe proporcionara antes se foi. Assim como a sensação de que era tudo uma brincadeira. E sua determinação. Voltou a pensar nos filmes de terror em que a heroína se aventura por corredores estreitos em direção ao sótão para ver o que assustara a pobre senhora Cobham, ou entrava em porões escuros e cobertos de teias de aranha — simbolizando o útero. Nessas ocasiões, com o braço do namorado ao seu redor, ela pensava: Que idiota! Eu nunca faria isso. E lá estava ela, fazendo justamente aquilo. E refletiu como a distância entre o cérebro superior e inferior se tornara grande. O cérebro superior obrigava a pessoa a continuar, apesar dos alertas daquela região instintiva, tão parecida com a constituição física do cérebro de um jacaré. O cérebro superior podia obrigar a pessoa a continuar em frente, até que a porta do sótão se abrisse diante de um horror indizível ou até chegar a uma alcova oculta no porão e visse...

Pare!

Ela afastou esses pensamentos e notou que estava suando. Só porque vira uma casa comum com as janelas fechadas. Pare de ser idiota, disse a si mesma. Você vai lá dar uma espiada na casa, só isso. Do jardim dá para ver sua própria casa. O que pode acontecer com você diante de sua própria casa?

Mesmo assim, ela se abaixou um pouco e segurou a estaca com mais força. Quando as árvores começaram a ficar muito espaçadas para escondê-la, ela começou a andar de quatro. Pouco depois, ela não podia mais avançar sem revelar sua presença. De seu esconderijo atrás do último grupo de pinheiros, via o lado oeste da casa e os arbustos de madressilva, agora despidos pelo outono. A grama do verão amarelara, mas ainda estava alta. Ninguém se dera ao trabalho de cortá-la.

De repente um motor roncou no silêncio da tarde. O coração de Susan deu um salto. Ela se controlou apertando o chão com os dedos e mordendo o lábio inferior. Logo depois um carro preto e antigo saiu da garagem, cruzou a entrada para veículos e pegou a estrada em direção à cidade. Susan viu o motorista com clareza: a cabeça calva, os olhos tão fundos que pareciam ser apenas órbitas, as lapelas de um terno escuro. Straker. A caminho da loja de Crossen, talvez.

Notou que a maioria das venezianas tinha lâminas quebradas. Ótimo. Ela se aproximaria de fininho, espiaria e descobriria o que havia lá dentro. Provavelmente era só uma casa que passava por uma longa reforma, por uma troca de papel de parede e reboco, e ela veria apenas ferramentas, baldes e escadas. Tudo romântico e sobrenatural como um jogo de futebol na televisão.

Mas o medo voltou. Tomou-a subitamente, sufocando a lógica e a brilhante fórmica da razão, deixando um gosto de cobre em sua boca.

E ela sabia que alguém estava atrás dela antes mesmo de sentir a mão em seu ombro.

9

Era quase noite.



Ben levantou-se da cadeira dobrável de madeira, andou até a janela que dava para o gramado traseiro da casa funerária e não viu nada especial. Eram 18h45, e as sombras do anoitecer se alongavam sobre o chão. A grama continuava verde apesar da época do ano, e ele imaginou que o agente funerário tentaria mantê-la assim até que a neve a cobrisse. Um símbolo da continuidade da vida em meio à morte da natureza. Essa idéia o deprimiu, e ele se afastou da janela.

— Como eu queria um cigarro — disse ele.

— O cigarro mata — disse Jimmy, sem se virar. Assistia a um documentário sobre a vida animal na televisão de Maury Green. — Na verdade, eu também queria. Parei de fumar quando o ministro da Saúde condenou o cigarro há dez anos. Seria ruim para minha imagem se não parasse. Mas sempre acordo procurando o maço na mesa-de-cabeceira.

— Não tinha parado?

— Deixo o maço lá pelo mesmo motivo pelo qual alguns alcoólatras em recuperação sempre têm uma garrafa de uísque no armário da cozinha. Força de vontade, amigo.

Ben olhou para o relógio. Eram 18h47. Segundo o jornal que Maury Green deixara sobre a mesa, o anoitecer aconteceria oficialmente às 19h02.

Jimmy cuidara da situação com habilidade. Maury Green era um homenzinho que abrira a porta de colete preto desabotoado e camisa branca de colarinho aberto. Sua expressão sóbria e inquisitiva deu lugar a um largo sorriso de boas-vindas.

Shalom, Jimmy — exclamou ele. — Que prazer ver você! O que tem feito?

— Salvado o mundo da gripe — disse Jimmy, sorrindo e apertando a mão de Green. — Quero que conheça um grande amigo meu, Ben Mears.

Maury apertou a mão de Ben calorosamente. Seus olhos brilhavam por trás dos óculos de aros pretos.

Shalom para você. Amigos de Jimmy são meus amigos também. Entrem, entrem. Vou chamar Rachel e...

— Não precisa — disse Jimmy. — Viemos lhe pedir um favor. Um favor dos grandes.

Green olhou bem para o rosto de Jimmy.

— Um favor dos grandes — repetiu zombeteiramente. — E por quê? O que você já fez por mim, para que meu filho se formasse em terceiro lugar na Northwestern? Peça o que quiser, Jimmy.

Jimmy corou.

— Fiz o que qualquer um teria feito, Maury.

— Não vou discutir com você. Peça. O que está preocupando tanto você e o Sr. Mears? Sofreram um acidente?

— Não, nada do gênero.

Ele os conduzira a uma pequena cozinha atrás da capela e, enquanto conversavam, preparou café numa cafeteira velha sobre uma chapa elétrica.

— Norbert já veio buscar a Sra. Glick? — perguntou Jimmy.

— Não, nem sinal dele — disse Maury, colocando açúcar e creme sobre a mesa. — Aposto que vai aparecer às 11 da noite e reclamar porque não esperei por ele. Pobre mulher — suspirou. — Quanta tragédia numa só família. E ela está parecendo um anjo, Jimmy. Aquele imprestável do Reardon a trouxe. Era sua paciente?

— Não — disse Jimmy. — Mas Ben e eu... gostaríamos de observá-la esta noite, Maury. Lá embaixo.

Green parou no ato de apanhar o bule de café.

— Observá-la? Examiná-la, você quer dizer?

— Não — disse Jimmy calmamente. — Só observá-la.

— Está brincando? — Ele o olhou com atenção. — Não, vejo que não. Para que fazer isso?

— Não posso lhe dizer, Maury.

— Ah. — Ele serviu o café, sentou-se e deu um gole. — Ótimo, não ficou muito forte. Mas ela morreu de alguma doença infecciosa?

Jimmy e Ben trocaram um olhar.

— Não no sentido mais comum da palavra — disse Jimmy.

— Você quer que eu fique de bico calado, não é?

— Isso mesmo.

— E se Norbert chegar?

— Eu cuido dele — disse Jimmy. — Direi que Reardon me pediu para procurar sinais de encefalite infecciosa. Ele nunca irá conferir se é verdade.

Green concordou com um gesto de cabeça.

— Norbert não sabe nem conferir o relógio.

— Pode ser, Maury?

— Claro que sim. Mas pensei que fosse um favor dos grandes.

— É maior do que pensa.

— Quando terminar meu café, vou para casa ver que horror Rachel preparou para o jantar de domingo. Aqui está a chave. Tranque a porta quando sair.

Jimmy guardou a chave no bolso.

— Pode deixar. Obrigado mais uma vez, Maury.

— Não precisa agradecer. Mas faça-me um favor em troca.

— Claro. O quê?

— Se ela disser alguma coisa, anote para a posteridade. — Ele começou a rir, mas viu a expressão no rosto deles e se calou.

10

Eram 18hsh55. Ben sentia a tensão enrijecer o corpo.

— Pare de olhar para o relógio — disse Jimmy. — Não vai fazer com que ande mais rápido olhando para ele.

Ben teve um sobressalto de culpa.

— Duvido muito que os vampiros, se é que existem, levantem-se no horário oficial do anoitecer — disse Jimmy. — Ainda está claro a essa hora.

Mesmo assim, ele se ergueu e desligou a televisão, calando o grasnado de um pato.

O silêncio caiu sobre eles como um manto pesado. Estavam na sala de trabalho de Green. O corpo de Marjorie Glick jazia sobre uma mesa de aço inoxidável equipada com calhas e apoios para os pés que podiam ser subidos e descidos. Pareciam macas de maternidades, pensou Ben.

Jimmy puxara o lençol que cobria o corpo quando entraram e fizera um breve exame. A Sra. Glick usava um roupão acolchoado cor de vinho e chinelos de lã. Um band-aid na canela esquerda talvez cobrisse um corte feito pelo aparelho de barbear. Ben tentara desviar os olhos do corpo, mas sem sucesso.

— O que você acha? — ele perguntara.

— Não quero me comprometer, já que dentro de três horas deveremos ter uma resposta. Mas seu estado é incrivelmente semelhante ao de Mike Ryerson. Nenhuma palidez, nenhum sinal de rigidez, nem mesmo incipiente. — E ele voltara a suspender o lençol e não dissera mais nada.

Eram 19h02.

— Onde está sua cruz? — Jimmy perguntou de repente.

Ben se sobressaltou.

— A cruz? Meu Deus, esqueci de trazer.

— Vejo que nunca foi escoteiro — disse Jimmy, abrindo sua maleta. — Eu, no entanto, estou sempre alerta.

Tirou dois depressores de língua, removeu o embrulho de celofane e os uniu com esparadrapo da Cruz Vermelha.

— Abençoe a cruz — disse a Ben.

— Como? Não sei fazer isso.

— Então, improvise — disse Jimmy, com o rosto simpático subitamente tenso. — Você não é escritor? Seja também um metafísico. Mas ande logo, pelo amor de Deus. Acho que algo vai acontecer. Não está sentindo?

Ben sentia. Algo parecia estar se acumulando no lento e arroxeado crepúsculo, ainda invisível, mas com o peso de uma carga elétrica. Sua boca secara, e ele teve de molhar os lábios para conseguir falar.

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. — E acrescentou. — Em nome da Virgem Maria também. Abençoe essa cruz e... e...

As palavras então lhe vieram com súbita e misteriosa firmeza.

— O Senhor é meu pastor. Nada me faltará. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes. Restaura as forças de minha alma. -

Jimmy uniu a voz à dele.

— Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei...

Era difícil manter a respiração constante. Todo o corpo de Ben estava coberto de arrepios, e os cabelos de sua nuca se eriçaram.

— Vosso bordão e vosso báculo são meu apoio. Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça e transbordai minha taça. A vossa bondade e misericórdia hão de...

O lençol que cobria o corpo de Marjorie Glick começara a tremer. A mão resvalou para fora do lençol e os dedos começaram a se mover.

— Meu Deus, não posso estar vendo isso — sussurrou Jimmy. Seu rosto ficou branco e suas sardas se destacavam como respingos numa vidraça.

— ...seguir-me por todos os dias de minha vida — terminou Ben. — Jimmy, olhe para a cruz.

A cruz cintilava. A luz se derramava sobre sua mão com um clarão élfico.

Uma voz lenta e estrangulada fez-se ouvir, arranhando o silêncio como um caco de louça.

Danny?

Ben sentiu sua língua se colar no céu da boca. A silhueta sob o lençol estava se sentando. Sombras deslizavam na sala escura.

Danny, onde você está, querido?

O lençol caiu do rosto e se amontoou no colo do vulto.

O rosto de Marjorie Glick era um círculo branco na semi-obscuridade, marcado apenas pelos buracos negros dos olhos. Quando ela os viu, sua boca se abriu num horrível esgar. Os dentes cintilaram sob a luz morrente do dia.

Ela passou as pernas para o lado da mesa. Um dos chinelos caiu no chão, onde ficou esquecido.

— Sente aí! — disse Jimmy. — Não se mexa!

A resposta dela foi um rosnado canino, um som argênteo e medonho. Ela desceu da mesa, cambaleou e andou em direção a eles. Ben encontrou aqueles olhos profundos e se forçou a desviar o olhar. Eram galáxias negras cercadas de vermelho, onde ele se via refletido, onde mergulharia com prazer.

— Não olhe para a cara dela — alertou a Jimmy.

Eles recuavam sem pensar, deixando que ela os acuasse no corredor estreito que levava às escadas.

— Tente usar a cruz, Ben.

Ele quase se esquecera dela. Ergueu-a então, e a cruz pareceu faiscar com esplendor. Ele precisou franzir os olhos diante do brilho. A Sra. Glick emitiu um som sibilante e protegeu o rosto com as mãos. Seus traços se contraíram, contorcendo-se como um ninho de cobras. Ela recuou um passo.

— Deu certo! — gritou Jimmy.

Ben avançou em direção à Sra. Glick, estendendo a cruz a sua frente. Ela tentou derrubá-la com os dedos que pareciam garras. Ben conseguiu se desviar e continuou a investir sobre ela com a cruz. A morta-viva deu um grito ululante.

Para Ben, o que se seguiu teve as cores de um pesadelo. Apesar dos horrores piores que ainda viriam, ele sempre lembraria em seus sonhos de empurrar Marjorie Glick de volta à mesa funerária, onde o lençol que a cobrira jazia amontoado ao lado de um chinelo de lã.

Ela recuava a contragosto, o olhar passando da temível cruz para um ponto no pescoço de Ben. Os sons que saíam de sua garganta eram inarticulados, sibilantes, desumanos. Ela recuava com relutân­cia tão cega que começou a lembrar um enorme e pesado inseto. Ben pensou: se eu não estivesse com essa cruz à minha frente, ela abriria minha garganta com as unhas e engoliria o sangue que esguicharia da jugular e da carótida como um homem morrendo de sede no deserto. Ela se banharia no meu sangue.

Jimmy saiu do lado dele e começara a cercá-la pela esquerda. Ela não o viu. Seus olhos estavam pregados em Ben, cheios de ódio... e de medo.

Jimmy contornou a mesa e, quando ela se aproximou, ele agarrou seu pescoço com as duas mãos e soltou um grito convulsivo.

Ela deu um berro agudo e terrível, contorcendo-se entre os braços dele. Ben viu as unhas de Jimmy arrancarem um pedaço da pele do ombro dela, mas nenhum sangue saiu. O corte permaneceu pálido e seco. Então, com força assustadora, ela o atirou até o outro lado da sala. Jimmy caiu, derrubando a televisão de Maury Green do suporte.

Ela investiu para o médico velozmente, correndo arqueada como uma aranha. Num relance, Ben a viu cair sobre ele, rasgar seu colarinho, e depois a inclinação predatória da cabeça, o escancarar das mandíbulas quando ela começou a sugá-lo.

Jimmy Cody gritou com o desespero dos condenados.

Ben se atirou sobre a criatura, tropeçando e quase caindo sobre a televisão quebrada no chão. Ouvia a áspera respiração dela, e, por trás desse som, o ruído repugnante de lábios que chupavam e sorviam.

Ele a agarrou pelo colarinho do roupão e a puxou para cima, esquecendo-se da cruz por um momento. Ela girou a cabeça com rapidez assustadora. Os olhos estavam dilatados e brilhantes, os lábios e queixo manchados de sangue que parecia negro na escuridão quase total.

Ben sentiu no rosto a respiração da criatura, incrivelmente pútrida, o hálito das tumbas. Como em câmera lenta, viu-a passar a língua nos dentes.

Ergueu a cruz bem quando ela o puxava para seus braços, com uma tal força que ele se sentiu feito de pano. A ponta redonda do depressor de língua atingiu-a sob o queixo e continuou a penetrar a carne sem resistência. Os olhos de Ben foram ofuscados por uma luz que não estava diante deles, mas atrás. Sentiu o cheiro quente e nauseante de carne queimada. A morta soltou um grito de dor e desespero. Ele a viu recuar bruscamente, tropeçar na televisão e cair no chão, amortecendo a queda com o braço pálido. Ergueu-se de novo com agilidade lupina, os olhos apertados de dor, mas ainda cheios de fome insana. A carne de seu maxilar estava escura e fumegante. Ela rosnava para ele.

— Vem, sua vaca — arquejou ele. — Vem.

Ben estendeu a cruz diante de si novamente e a encurralou no canto esquerdo da sala. Preparou-se para cravar a cruz na testa da criatura. Mas, mesmo pressionada contra a parede, ela soltou um riso alto e estridente que o fez contrair o rosto. Era como o som de um garfo arranhando uma superfície de porcelana.

Alguém se alegra agora! E seu círculo está menor!

E, diante dos olhos de Ben, o corpo pálido se alongou e se tornou translúcido. Num momento ela estava lá, rindo dele, e no outro apenas a luz branca do poste de rua brilhava sobre a parede nua. Uma sensação em seus terminais nervosos lhe informava que ela se infiltrara pelos poros da parede, como fumaça.

Ela sumira.

E Jimmy gritava.

11

Ele acendeu as luzes fluorescentes do teto e correu para Jimmy, mas ele já estava de pé, com as mãos na lateral do pescoço, os dedos escarlates.

— Ela me mordeu! — ele gritou. — Santo Deus, ela me mordeu!

Ben foi até ele, tentou tomá-lo nos braços, mas ele o empurrou. Seus olhos moviam-se freneti­camente nas órbitas.

— Não encoste em mim. Fui contaminado.

— Jimmy...

— Me dá minha maleta. Meu Deus, Ben, estou sentindo. Está se espalhando dentro de mim. Pelo amor de Deus, me dá minha maleta!

A maleta estava num canto. Ben foi buscá-la, e Jimmy arrancou-a de suas mãos. Foi até a mesa funerária e apoiou a maleta sobre ela. Seu rosto, de uma palidez mortal, estava coberto de perspiração. O sangue pulsava impiedosamente do talho em seu pescoço. Ele sentou na mesa, abriu a maleta e remexeu dentro dela, respirando penosamente.

— Ela me mordeu — murmurou inclinado sobre a maleta. — Aquela boca... Meu Deus, aquela boca imunda...

Ele tirou um frasco de desinfetante e jogou a tampa no chão de ladrilhos. Depois se inclinou, apoiando-se no braço, e verteu o frasco sobre o pescoço, derramando o líquido sobre a ferida, as calças, a mesa. O sangue se soltou em filamentos. Ele fechou os olhos e gritou uma vez, e depois outra, sem balançar o frasco.

— Jimmy, o que posso...

— Daqui a pouco — murmurou Jimmy. — Espere. Acho que está melhorando. Espere.

Ele atirou o frasco no chão, estilhaçando-o. A ferida, agora limpa, estava nitidamente visível. Não era um, mas dois furos próximos da jugular, um deles horrivelmente lacerado.

Jimmy tirou uma ampola e uma seringa da maleta. Removeu a capa protetora da agulha e a enfiou na ampola. Suas mãos tremiam tanto que ele teve de tentar duas vezes. Ele encheu a seringa e a entregou para Ben.

— É antitetânica — disse ele. — Aplique em mim. Aqui. — Ele levantou o braço de modo a expor a axila.

— Jimmy, isso vai te derrubar.

— Não, não vai. Aplique.

Ben pegou a seringa e olhou interrogativamente para Jimmy. Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, e Ben injetou o líquido.

O corpo de Jimmy retesou-se como aço flexível. Por um momento, ele se tomou a imagem da agonia, cada tendão de seu corpo destacando-se sob a pele. Aos poucos, começou a relaxar. Seu corpo estremeceu, e Ben viu que as lágrimas haviam se misturado ao suor em seu rosto.

— Ponha a cruz em cima de mim — disse ele. — Se eu ainda estiver contaminado, a cruz... fará algo comigo.

— Será?

— Tenho certeza. Quando você estava lutando com ela, eu olhei para cima e quis atacar você. Deus me perdoe, mas eu quis. Olhei para a cruz e... meu estômago virou.



Ben colocou a cruz no pescoço dele. Nada aconteceu. Seu brilho — se é que houvera mesmo um brilho — sumira totalmente. Ben removeu a cruz.

— Certo — disse Jimmy. — Acho que é tudo que podemos fazer. — Remexeu na maleta de novo, encontrou um envelope contendo dois comprimidos e os meteu na boca. — Tranqüi­lizantes — disse ele. — Santa invenção. Ainda bem que fui ao banheiro antes... antes de acontecer. Acho que mijei na calça, mas saiu só umas gotas. Você consegue fazer um curativo no meu pescoço?

— Acho que sim — disse Ben.

Jimmy lhe deu gaze, esparadrapo e tesouras cirúrgicas. Ao se inclinar para fazer o curativo, Ben viu que a pele ao redor das feridas ganhara um horrível tom de vermelho. Jimmy se contraiu quando ele apertou delicadamente o curativo no lugar.

— Por alguns minutos — disse ele —, achei que ia ficar louco. Clinicamente louco. Os lábios dela no meu pescoço, me mordendo... — Sua garganta se moveu quando ele engoliu. — E, enquanto ela fazia isso, eu gostava. Isso é o pior, Ben. Cheguei a ter uma ereção. Dá para acreditar? Se você não a tivesse puxado de cima de mim, eu teria... teria deixado que...

— Deixe para lá — disse Ben.

— Preciso fazer mais uma coisa desagradável.

— O quê?


— Olhe para mim um pouco.

Ben terminou o curativo e se afastou um pouco para olhar para Jimmy.

— O que...

Sem mais nem menos, Jimmy lhe deu um murro. Estrelas dançaram em seu cérebro, e ele recuou três passos e sentou pesadamente no chão. Balançou a cabeça e viu Jimmy descendo cuidadosamente da mesa e andando em sua direção. Procurou freneticamente a cruz, pensando: Que jeito idiota de morrer, seu imbecil, seu imbecil...

— Você está bem? — Jimmy lhe perguntou. — Desculpe, mas é um pouco melhor quando é de surpresa.

— Mas que droga...

Jimmy sentou-se ao lado dele no chão.

— Ouça a história que vamos contar — disse ele. — É bem esfarrapada, mas acho que Maury Green a confirmará. Vai salvar minha carreira e impedir que nós dois acabemos na cadeia ou no hospício. E, no momento, não estou preocupado com isso, e sim em ficar livre para poder combater essas coisas, seja lá o que forem. Entendeu?

— A idéia geral, sim — disse Ben. Levou a mão ao maxilar e contraiu o rosto. Sentiu uma saliência no queixo.

— Alguém invadiu a sala enquanto eu examinava a Sra. Glick — disse Jimmy. — O cara nocauteou você e me usou como saco de pancadas. Durante a luta, ele me mordeu para eu soltá-lo. É tudo que conseguimos lembrar. Tudo. Entendeu?

Ben fez que sim.

— Ele usava um casaco de oficial escuro, talvez azul ou preto, e um boné de malha verde ou cinza. É tudo que você viu. Está bem?

— Já pensou em trocar a medicina pela carreira de escritor?

Jimmy sorriu.

— Só sou criativo em momentos de extremo interesse próprio. Você vai se lembrar da história?

— Claro. E não a acho tão esfarrapada assim. Afinal, o corpo dela não foi o primeiro a desa­parecer ultimamente.

— Espero que levem isso em conta. Mas o delegado municipal é bem mais esperto do que Parkins Gillespie. Temos que tomar cuidado. Não enfeite a história.

— Você acha que alguma autoridade começará a entender o que está se passando?

Jimmy balançou a cabeça.

— Não existe a menor chance. Teremos que nos virar sozinhos. E lembre-se que, daqui em diante, somos criminosos.

Em seguida, ele pegou o telefone e ligou para Maury Green e depois para o delegado municipal, Homer McCaslin.

12

Ben voltou para a pensão por volta da meia-noite e quinze e preparou um café na cozinha deserta. Bebeu-o lentamente, relembrando os acontecimentos da noite com a intensa emoção de um homem que por pouco não caíra de um precipício.

O delegado municipal era um homem alto e parcialmente calvo que mascava tabaco. Movia-se lentamente, mas seus olhos eram vivos e observadores. Tirara do bolso da calça uma enorme e surrada caderneta presa por uma corrente e uma antiga caneta-tinteiro do colete de lã verde. Interrogara Ben e Jimmy enquanto dois policiais recolhiam digitais e tiravam fotos. Maury Green assistiu a tudo em silêncio, lançando um olhar confuso para Jimmy de vez em quando.

Por que haviam ido à Funerária Green?

Jimmy se encarregou da resposta, falando da suspeita de encefalite.

O velho doutor Reardon sabia disso?

Não, Jimmy achou melhor fazer uma investigação discreta antes de comunicar suas suspeitas. O doutor Reardon às vezes falava demais.

E a mulher tinha essa tal de encefalite?

Era quase certo que não. Ele já havia terminado o exame quando o homem de casaco de oficial apareceu. Não era capaz de dizer do que a mulher morrera, mas com certeza não fora de encefalite.

Eles podiam descrever o sujeito?

Deram a resposta que tinham combinado. Ben acrescentou que o homem usava botas marrons para que não parecesse muito ensaiado.

McCaslin fez mais algumas perguntas, e quando Ben começava a achar que haviam se safado, o delegado se virou para ele e perguntou:

— E o que estava fazendo aqui, Mears? Você não é médico.

Ele o olhou atentamente. Jimmy abriu a boca para responder, mas o delegado o silenciou com um gesto de mão.

Se McCaslin quisera pegar Ben de surpresa e arrancar uma expressão de culpa, seu objetivo fracassou. Ben estava abalado demais para reagir. Ser pego em contradição não era tão terrível assim comparado a tudo que acontecera.

— Sou escritor, não médico. No momento, estou escrevendo um romance em que um dos personagens é filho de um agente funerário. Eu só queria dar uma olhada na sala, e Jimmy me deu uma carona. Ele me disse que preferia não revelar por que tinha vindo, e não lhe perguntei. — Esfregou o queixo, onde um Calombo nascera. — Consegui mais do que esperava.

McCaslin não pareceu nem contente nem descontente com a resposta de Ben.

— Parece que sim. Foi você que escreveu Conway’s Daughter, não foi?

— Foi.

— Minha mulher leu parte da história numa revista feminina. Na Cosmopolitan, eu acho. Achou muito divertida. Dei uma olhada e não vi nada engraçado numa menina viciada em drogas.



— Não — disse Ben, olhando McCaslin nos olhos. — Também não vi nada engraçado nisso.

— Esse novo livro é o que dizem que você está escrevendo em Lot?

— Esse mesmo.

— Por que não dá para Moe Green ler? — perguntou McCaslin. — Ele pode lhe dizer se a parte funerária está certa.

— Ainda não escrevi essa parte — disse Ben. — Sempre pesquiso antes de escrever. Fica mais fácil.

McCaslin sacudiu a cabeça, intrigado.

— Sabe, essa história está me parecendo aqueles livros com o Fu Manchu. Um sujeito invade o necrotério, domina dois homens fortes e foge com o corpo de uma pobre mulher que morreu de causas desconhecidas.

— Ouça, Homer... — começou Jimmy.

— Não me chame de Homer — disse McCaslin. — Não gosto. E não estou gostando de nada disso. Essa tal de encefalite é contagiosa, não é?

— Sim, é transmissível — Jimmy respondeu com cautela.

— E assim mesmo trouxe esse escritor junto? Sabendo que a mulher podia estar com uma doença assim?

Jimmy encolheu os ombros, irritado.

— Não questiono suas decisões profissionais, delegado. Terá de aceitar as minhas. A encefalite é uma infecção menor, que se espalha lentamente pela corrente sangüínea humana. Achei que nenhum de nós correria perigo. Agora, não seria melhor tentar descobrir quem levou o corpo da Sra. Glick? Ou acha mais divertido nos interrogar?

McCaslin extraiu um profundo suspiro de sua considerável barriga, fechou a caderneta e voltou a guardá-la nas profundezas do bolso.

— Vamos dar o alerta, Jimmy. Duvido que façamos algum avanço a não ser que esse maluco resolva agir de novo. Se é que esse maluco existe, o que eu duvido.

Jimmy ergueu as sobrancelhas.

— Vocês estão mentindo para mim — McCaslin disse pacientemente. — Eu sei, esses policiais sabem, até o velho Moe deve saber. Não sei se estão mentindo muito ou um pouco, mas sei que não poderei provar que estão mentindo enquanto não caírem em contradição. Poderia levar os dois para o xadrez, mas sou obrigado a deixar que façam um telefonema, e até um recém-formado em direito poderia libertá-los, já que não tenho prova nenhuma, só suspeitas. E aposto que seu advogado não é um recém-formado, certo?

— Não, não é — disse Jimmy.

— Eu os levaria assim mesmo só pela amolação, mas tenho a sensação de que estão mentindo não porque fizeram alguma coisa ilegal. — Ele pisou no pedal da lixeira de aço inoxidável ao lado da mesa funerária. A tampa subiu com estrondo, e ele cuspiu uma massa marrom de tabaco no interior da lixeira. Maury Green deu um salto. — Não é melhor me contarem essa história direito? — ele perguntou calmamente, sem o sotaque caipira e nasalado de antes. — A coisa é séria. Aconteceram quatro mortes em Lot, e os quatro corpos sumiram. Quero saber o que está acontecendo.

— Já lhe dissemos tudo que sabíamos — disse Jimmy com firmeza, olhando diretamente para McCaslin. — Diríamos mais se pudéssemos.

McCaslin retribuiu o olhar penetrante.

— Você está cagando de medo — disse ele. — Você e esse escritor, os dois. Estão parecendo aqueles soldados quando voltaram da guerra da Coréia.

Os policiais olhavam para eles. Ben e Jimmy não disseram nada.

McCaslin suspirou de novo.

— Vão, sumam daqui. Quero os dois na minha sala amanhã às dez horas, para prestar depoi­mento. Se não estiverem lá às dez, mando um carro-patrulha buscar vocês.

— Não será preciso — disse Ben.

McCaslin o olhou com decepção e sacudiu a cabeça.

— Você devia escrever livros mais sensatos. Como aquele sujeito que escreve as histórias com Travis McGee. Nelas a gente sente firmeza.

13

Ben levantou da mesa e lavou a xícara de café na pia, parando para olhar a escuridão da noite pela janela. Quem vagaria pelas ruas àquela hora? Marjorie Glick, enfim ao lado do filho? Mike Ryerson? Floyd Tibbits? Carl Foreman?

Deu as costas para a janela e subiu as escadas.

Ele dormiu o resto da noite com o abajur aceso e a cruz feita com depressores de língua na cabeceira da cama. Seu último pensamento antes de adormecer foi se perguntar se Susan estaria sã e salva.
Capítulo Doze

MARK


1

Quando ouviu os passos de alguém se aproximando sobre os gravetos, ele se escondeu atrás do tronco de uma grande árvore e esperou para ver quem era. Eles não podiam sair de dia, mas deviam ter outros a seu serviço que podiam. Dar-lhes dinheiro era um jeito de conseguir isso, mas não o único. Mark vira o tal de Straker na cidade — tinha olhos como os de um sapo esquentando-se ao sol. Parecia ser capaz de quebrar o braço de um bebê com um sorriso.

Apalpou a pesada pistola do pai que trazia no bolso do casaco. Balas não adiantavam contra eles — fora balas de prata, talvez —, mas um tiro no meio da testa daria um jeito naquele Straker.

Olhou de relance para o objeto cilíndrico que estava encostado na árvore, enrolado numa toalha velha. Havia uma pilha de lenha atrás de sua casa — achas de freixo que ele e o pai haviam cortado com a motosserra de McCulloch em julho e agosto. Henry Petrie era metódico, e Mark sabia que cada acha teria exatamente 90 centímetros. Seu pai sabia o tamanho certo, assim como sabia que o inverno vinha depois do outono e que o freixo produzia um fogo mais duradouro e higiênico na lareira da sala.

Mas o filho sabia de outras coisas, como o que fazer para acabar com aquela coisa. Naquela manhã, enquanto os pais davam seu passeio dominical, ele pegou uma acha e, com a machadinha dos escoteiros, talhou uma das extremidades formando uma ponta. O resultado ficou grosseiro, mas serviria.

Ele viu um lampejo colorido e se encolheu atrás da árvore, espiando por trás do tronco. Não demorou para que visse a pessoa que subia o monte. Era uma moça. Ele sentiu um misto de alívio e decepção. Não era nenhum ajudante do demônio que se aproximava, e sim a filha da Sra. Norton.

Apurou a visão mais uma vez. Ela também trazia uma estaca! Quando ela chegou mais perto, ele sentiu vontade de rir. Era a ripa de uma cerca, que podia ser partida em dois com um simples golpe de martelo.

Ela passaria por ele pela direita. Quando chegou mais perto, ele começou a deslizar cuidadosa­mente para o lado esquerdo da árvore, evitando pisar em gravetos e revelar sua presença. Finalmente ele completou o movimento sincronizado, e ela estava de costas para ele, subindo o monte em direção à margem da floresta. Andava com muito cuidado, notou ele com aprovação. Isso era bom. Apesar da ridícula estaca de cerca, ela parecia ter alguma idéia do que estava fazendo. Mas, se avançasse muito, teria problemas. Straker estava em casa. Mark chegara lá ao meio-dia e meia e vira Straker sair até a entrada para carros, olhar a estrada e voltar para a casa. Estava justamente tentando decidir o que fazer quando aquela moça entrou em cena, perturbando a equação.

Talvez não acontecesse nada a ela. Parara atrás de uma barreira de arbustos e se agachara lá, olhando para a casa. Mark refletiu por um momento. Era óbvio que ela sabia. Não importava como, mas ela não teria trazido aquela estaca lamentável se não soubesse. Precisava avisá-la que Straker ainda estava na casa, de guarda. Ela não devia ter uma arma, nem uma pequena como a dele.

Estava pensando em como abordá-la sem que ela gritasse feito uma louca quando o motor do carro de Straker rugiu. Ela deu um salto, e ele temeu que saísse correndo, desembestando pela mata e anunciando sua presença. Mas ela se agachou novamente, agarrando a grama como se tivesse medo que o chão lhe faltasse. Ela tem coragem, mesmo sendo burra, pensou ele com aprovação.

O carro de Straker saiu de ré da garagem — ela devia estar vendo bem melhor de onde estava; ele via apenas o teto preto do Packard —, hesitou um pouco e depois pegou a estrada em direção à cidade.

Mark decidiu que precisavam se unir. Qualquer coisa era melhor do que entrar naquela casa sozinho. Ele já provara a atmosfera envenenada que a cercava. Sentira-a a meio quilômetro de distância, e ela se acentuava quanto mais ele chegava perto.

Ele subiu de mansinho a elevação acarpetada de folhas e apoiou a mão no ombro da moça. Sentiu o corpo dela enrijecer, percebeu que ia gritar e disse:

— Não grite. Está tudo bem. Sou eu.

Ela não gritou. Apenas deixou escapar o ar com expressão aterrorizada. Olhou para ele, pálida.

— Eu... quem?

Mark se sentou ao lado de Susan.

— Meu nome é Mark Petrie. Eu conheço você. É Sue Norton. Meu pai conhece seu pai.

— Petrie...? Henry Petrie?

— Isso, é meu pai.

— O que você está fazendo aqui? — Ela não parava de olhá-lo de cima a baixo, como se ainda não tivesse conseguido assimilar sua presença.

— O mesmo que você. Só que sua estaca não vai funcionar. É muito... — Ele procurou uma palavra que entrara em seu vocabulário graças às leituras, mas que ele nunca usara. — É muito tênue.

Ela olhou para sua ripa de cerca e chegou a corar.

— Isto? Eu encontrei no meio do mato. Alguém podia cair em cima e se machucar, então eu...

Mark a interrompeu com impaciência.

— Você veio matar o vampiro, não é?

— De onde você tirou essa idéia de vampiro?

— Um vampiro tentou me atacar ontem à noite. E quase conseguiu — disse ele, sério.

— Que absurdo. Um mocinho como você não devia inventar essas...

— Era Danny Glick.

Susan recuou e seus olhos se apertaram como se ele a tivesse acertado com um soco, e não com palavras. Estendeu a mão trêmula e pegou o braço de Mark. Olhou nos olhos dele.

— Você está inventando isso, Mark?

— Não — disse ele, e contou o que lhe acontecera em poucas frases simples.

— E você veio até aqui sozinho? — perguntou Susan quando ele terminou. — Você acreditou nisso e veio até aqui sozinho?

— Se eu acreditei? — Ele a olhou, francamente intrigado. — Claro que acreditei. Eu vi, não foi?

Susan ficou sem resposta. De repente, sentiu vergonha de ter duvidado (não, dúvida era uma palavra suave demais) da história que Matt contara e que Ben aceitara depois de tanta hesitação.

— E você, como veio parar aqui?

Ela hesitou um pouco, e depois disse:

— Algumas pessoas na cidade desconfiam que tem um homem naquela casa que ninguém viu ainda. E que ele pode ser um... um... — Susan ainda não conseguia dizer a palavra, mas ele assentiu num gesto de compreensão. Mesmo conhecendo-o tão pouco, ele lhe parecia um menino extraordiná­rio. Abreviando tudo que podia ter acrescentado, ela disse: — E eu vim ver se é verdade.

Ele indicou a estaca com um gesto de cabeça.

— E trouxe isto para espetar no peito dele?

— Não sei se seria capaz.

— Eu seria — declarou ele calmamente. — Depois do que eu vi ontem... Danny se grudou do lado de fora da minha janela como uma mosca gigante. E seus dentes.... — Ele sacudiu a cabeça, afastando o pesadelo.

— Seus pais sabem que você está aqui? — perguntou Susan, já sabendo a resposta.

— Não. Domingo é o dia de encontrarem a natureza. Vão observar pássaros de manhã e de tarde fazem outras coisas. Às vezes vou com eles, às vezes não. Hoje foram dar uma volta pela costa.

— Você é um menino e tanto — disse ela.

— Não sou, não — disse Mark, sem se abalar com o elogio. — Mas vou dar um jeito nele! — Olhou para a casa.

— Tem certeza...

— Claro que tenho. E você também tem. Não sente como ele é mau? A casa não dá medo, só de olhar para ela?

— Dá — admitiu ela. A lógica dele era a dos terminais nervosos, e, ao contrário dos argumentos de Ben ou Matt, era irresistível.

— Como vamos fazer? — perguntou ela, passando automaticamente a liderança para ele.

— Vamos até lá e entramos na casa. Encontramos ele, enfiamos a estaca, minha estaca, no coração dele e saímos de novo. Ele deve estar no porão. Eles gostam de lugares escuros. Você trouxe uma lanterna?

— Não.


— Droga, nem eu. — Ele raspou os pés calçados com tênis sobre as folhas. — E também não deve ter trazido uma cruz.

— Isso eu trouxe — disse Susan. Ela puxou a corrente de dentro da blusa e a mostrou. Mark assentiu e puxou uma corrente de dentro de sua própria camisa.

— Espero conseguir pôr isto de volta no lugar antes de meus pais chegarem — disse ele. — Tirei da caixa de jóias da minha mãe. Vai ser um inferno se ela descobrir. — Ele olhou ao redor. As sombras haviam se alongado mais enquanto conversavam, e ambos sentiam um impulso de adiar e adiar.

— Quando a gente o encontrar, não olhe nos olhos dele — disse Mark. — Ele não pode sair do caixão antes de escurecer, mas pode prender a gente com os olhos. Você sabe alguma reza de cor?

Eles haviam começado a andar pelos arbustos entre a floresta e a grama alta da Casa Marsten.

— Bom, sei o Pai-Nosso...

— Já está bom. Essa eu sei também. Vamos dizer ao mesmo tempo enquanto espeto o coração dele.

Mark viu a expressão de Susan, de desânimo e repulsa, e apertou-lhe a mão. Sua calma e controle eram desconcertantes.

— Ouça, a gente tem de fazer isso. Aposto que ele pegou metade da cidade ontem à noite. Se a gente esperar mais, ele vai pegar a cidade toda. Agora vai ser rápido.

— Ontem à noite?

— Eu tive um sonho — disse ele. Sua voz continuava calma, mas seus olhos estavam sombrios. — Sonhei que eles batiam nas portas das casas ou ligavam para as pessoas implorando para entrar. Algumas pessoas no fundo sabiam quem eles eram, mas deixavam entrar assim mesmo. Era mais fácil do que achar que uma coisa tão ruim podia ser verdade.

— Foi só um sonho — disse ela, inquieta.

— Aposto que tem muitas pessoas deitadas na cama hoje, com as cortinas fechadas, achando que pegaram um resfriado ou uma gripe. Sentindo-se fracas e confusas. Não conseguem comer. Só de pensar em comer sentem vontade de vomitar.

— Como você sabe tudo isso?

— Leio revistas de monstros e vejo filmes desse tipo sempre que posso. Tenho de dizer a minha mãe que vou ver filmes do Walt Disney. Mas não dá para acreditar em tudo. Às vezes eles inventam coisas só para a história ficar mais sangrenta.

Estavam ao lado da casa. Somos uma equipe e tanto, pensou Susan. Um velho professor meio doido de tanto ler, um escritor obcecado com pesadelos da infância, um menino especialista em vampiros graças a filmes B e revistas baratas. E eu? Será que acredito? Fantasias paranóicas podem ser contagiosas?

Ela acreditava.

Como Mark dissera, era impossível duvidar estando perto da casa. Todos os processos mentais, o próprio ato de conversar, eram encobertos por uma voz mais fundamental, que gritava perigo! perigo! de modo inarticulado. Seu batimento cardíaco e ritmo respiratório haviam se acelerado, mas sua pele estava fria, porque a adrenalina dilatava os vasos capilares e fazia o sangue se retrair durante momentos de estresse. Sentia os rins pesarem. Seus olhos estavam estranhamente atentos, notando cada lasca e cada mancha na lateral da casa. E nenhum estímulo externo acionara todas essas reações. Não havia homens armados, cães ameaçadores, cheiro de fogo. Um vigia mais alerta do que seus cinco sentidos havia sido acordado depois de um longo sono. E era impossível ignorá-lo.

Susan espiou por uma fresta da veneziana.

— Nossa, eles não fizeram nada para restaurar a casa — disse ela, quase indignada. — Está uma bagunça.

— Deixe-me ver. Levante-me.

Ela entrelaçou os dedos para que Mark pudesse se apoiar e espiar a sala decrépita da Casa Marsten. Ele viu um cômodo deserto de linhas retas, com uma espessa camada de poeira no chão, papel de parede descascado, duas ou três poltronas velhas, uma mesa danificada. Teias de aranha enfeitavam os cantos das paredes, perto do teto.

Antes que Susan pudesse protestar, ele arrebentou a tranca que fechava a veneziana com a ponta lisa da estaca. A tranca enferrujada caiu no chão em dois pedaços, e a veneziana se abriu uns cinco centímetros.

— Ei! — protestou ela. — Você não devia...

— O que você quer fazer? Tocar a campainha?

Mark empurrou a persiana direita e deu uma pancada numa das vidraças empoeiradas. O vidro se quebrou por dentro. Susan sentiu o medo crescer dentro dela, quente e palpitante, deixando um gosto de cobre em sua boca.

— Ainda podemos fugir — disse ela, quase que para si mesma.

Mark a olhou sem nenhum desdém ou desprezo — só honestidade e um medo tão grande quanto o dela.

— Vai, se precisa ir — disse ele.

— Não. Não preciso. — Ela tentou engolir o nó na garganta, sem muito sucesso. — Rápido. Você está ficando pesado.

Mark quebrou os cacos restantes na vidraça, passou a estaca para a outra mão, passou o braço pelo buraco e abriu a janela, que gemeu fracamente quando ele a empurrou. O caminho estava aberto.

Ele desceu das mãos de Susan, e os dois olharam em silêncio para a janela. Depois ela deu um passo adiante, empurrou a veneziana até o fim, apoiou as mãos no peitoril da janela e se preparou para entrar. O medo que sentia era estonteante, insano. Finalmente ela entendia como Matt se sentira ao subir as escadas ao encontro daquilo que o aguardava no quarto de hóspedes.

Susan sempre dominara seus medos usando uma equação, consciente ou inconsciente: medo = desconhecido. Sendo assim, bastava resolver em termos algébricos. Desconhecido = tábua rangendo (por exemplo), tábua rangendo = nenhum motivo para ter medo. No mundo moderno, todos os temores podiam ser vencidos usando-se o axioma transitivo da igualdade. Alguns temores eram justifi­cados (não se deve dirigir depois de beber, nem estender a mão para um cachorro raivoso, nem ir a lugares escuros com rapazes desconhecidos), mas até então ela não sabia que alguns medos iam além da compreensão, apocalípticos e quase paralisantes. Aquela equação era insolúvel. O simples ato de avançar um passo se tornava heroísmo.

Ela se ergueu agilmente, passou uma perna pelo peitoril, pulou para o chão poeirento da sala e olhou ao redor. Sentiu um cheiro no ar. Escoava das paredes num miasma quase visível. Tentou se convencer de que era apenas reboco velho ou o esterco acumulado de todos os animais que haviam se aninhado por trás do estuque rachado — marmotas, ratos, guaxinins. Mas não era isso. O cheiro era mais entranhado e profundo do que emanações animais. Lembrava lágrimas, vômito e trevas.

— Ei — Mark chamou baixinho, com as mãos sobre o peitoril. — Me dá uma mão.

Ela se inclinou, pegou-o pelas axilas e o puxou até ele se agarrar ao peitoril. Depois ele se içou facilmente. Saltou para o carpete, e a casa voltou a ficar silenciosa.

Eles ficaram escutando o silêncio, fascinados. Não ouviam nem sequer o fraco zumbido que reverbera na quietude total, o som dos terminais nervosos se estendendo no vazio. Sentiam apenas um silêncio morto e o pulsar do sangue nos ouvidos.

No entanto, ambos sabiam que não estavam sozinhos.

2

Vamosdisse Mark. — Vamos dar uma olhada por aí. — Ele agarrou a estaca e, por um momento apenas, olhou com anseio para a janela.



Susan avançou lentamente para o corredor, e ele foi logo atrás. Ao lado da mesa havia uma mesinha e sobre ela um livro. Mark o pegou.

— Você sabe latim? — perguntou ele.

— Aprendi um pouco na escola.

— O que quer dizer isto? — Ele lhe mostrou a lombada do livro.

Ela murmurou as palavras, franzindo a testa. Depois, sacudiu a cabeça.

— Não sei.

Ele abriu o livro a esmo, depois se encolheu. Encontrara a imagem de um homem nu erguendo o corpo de uma criança estripada em direção a algo invisível. Ele largou o livro, aliviado assim que o soltou — seu toque lhe parecera estranhamente familiar —, e eles cruzaram o corredor em direção à cozinha. As sombras se acentuavam mais. O sol já estava do outro lado da casa.

— Está sentindo o cheiro? — perguntou ele.

— Estou.

— Está pior aqui, não é?

— Está.

Mark lembrou da despensa que sua mãe tinha na outra casa. Certo ano, três cestas de tomate apodreceram lá dentro, na escuridão. Era isso. Aquele cheiro parecia com o de tomates podres.



— Meu Deus, que medo... — sussurrou Susan.

Ele pegou a mão dela e a apertou forte.

O linóleo da cozinha era velho e esburacado, enegrecido em frente da velha pia de porcelana. Uma mesa grande e arranhada estava no centro, sobre ela um prato amarelo, uma faca e um garfo, um pedaço de hambúrguer cru.

A porta do porão estava entreaberta.

— É lá que temos de entrar — disse Mark.

— Ah... — disse Susan debilmente.

Pela fresta da porta, a luz não parecia penetrar. A língua da escuridão estendia-se faminta sobre a cozinha, esperando a noite chegar para engoli-la inteira. Aquela nesga de escuridão sugeria possibi­lidades terríveis. Susan permaneceu ao lado de Mark, imóvel e impotente.

Em seguida ele avançou, abriu a porta e ficou parado, olhando para baixo. Ela viu um músculo saltar sob seu maxilar.

— Acho que... — ele começou a dizer.

Foi então que Susan ouviu um ruído atrás de si e se virou, sabendo que era tarde demais. Straker estava lá, com um largo sorriso.

Mark se virou e o viu. Tentou correr e se desviar dele, mas o homem o acertou em cheio no queixo. E ele não viu mais nada.

3

Quando voltou a si, Mark estava sendo arrastado por uma escada — mas não era a do porão. Não sentiu a clausura da pedra, e o ar não era fétido. Ousou abrir as pálpebras somente uma fresta, sem mexer a cabeça, que manteve inerte. Uma escada que subia... para o segundo andar. Ele via claramente. O sol ainda não se pusera. Havia uma esperança, então.

Chegaram ao topo e, de repente, os braços que o seguravam o soltaram. Ele caiu pesadamente no chão, batendo a cabeça.

— Acha que não sei quando alguém está se fazendo de morto, jovem mestre? — perguntou Straker.

Mark o olhou. De onde estava, ele parecia ter três metros. Sua cabeça calva reluzia na semi-obscuridade. O menino viu, com horror, que ele tinha uma corda sobre o ombro. Levou a mão ao bolso, onde guardara a pistola.

Straker riu, jogando a cabeça para trás.

— Tomei a liberdade de retirar a arma, jovem mestre. Meninos não devem brincar com armas... assim como não devem entrar com mocinhas numa casa onde sua presença não foi solicitada.

— O que você fez com Susan Norton?

Straker sorriu.

— Levei-a aonde ela pretendia ir, meu rapaz. Ao porão. Mais tarde, quando anoitecer, ela encontrará o homem que veio aqui para conhecer. Você também o conhecerá, se não esta noite, na de amanhã. Talvez ele o ofereça à moça... mas acho que preferirá cuidar de você pessoalmente. A moça terá seus amigos para encontrar, alguns deles intrometidos como você.

Mark chutou com ambos os pés a virilha de Straker, mas este se desviou, ágil como um bailarino. Sem perder tempo, deu um pontapé, atingindo em cheio os rins de Mark.

O menino mordeu os lábios e se contorceu no chão. Straker deu uma risada.

— Vamos, jovem mestre. Levante-se.

— Não... consigo.

— Então, rasteje — disse o homem com desdém. Chutou-o de novo, dessa vez acertando o músculo de sua coxa. A dor era terrível, mas Mark cerrou os dentes. Apoiou-se sobre os joelhos e depois sobre os pés.

Eles avançaram pelo corredor em direção à porta no final. A dor nos rins se transformara numa pontada surda e insistente.

— O que você vai fazer comigo?

— Vou amarrá-lo como um peru de natal, jovem mestre. Mais tarde, depois que meu Mestre tiver estabelecido relações com você, poderá ir.

— Como os outros?

Straker sorriu.

Quando Mark empurrou a porta e entrou no quarto onde Hubert Mastern se suicidara, algo singular aconteceu em sua mente. Não que o medo tivesse ido embora, mas ele parou de bloquear sua mente, de emperrar seu funcionamento. Seus pensamentos começaram a se processar com espantosa rapidez, não em palavras ou em imagens, mas num tipo de estenografia simbólica. Sentiu-se como uma lâmpada que acabara de receber uma carga de energia de uma fonte desconhecida.

O quarto em si era bastante prosaico. O papel de parede, rasgado, mostrava o reboco branco e a parede por trás. O chão, coberto pela poeira do tempo, revelava apenas uma seqüência de pegadas, como se alguém tivesse entrado uma vez, olhado ao redor e saído. Mark viu duas pilhas de revistas, uma cama de ferro fundido, sem molas ou colchão, e uma pequena chapa de estanho com uma desbotada marca da Currier & Ives, que outrora bloqueara o buraco da chaminé. A veneziana da janela estava fechada, mas a luz que se filtrava pelas lâminas quebradas permitiu que Mark calculasse que ainda restava uma hora de luz do dia. Uma aura sórdida impregnava o cômodo.

Ele levou apenas cinco segundos para abrir a porta, ver tudo isso e chegar ao centro do quarto, onde Straker lhe disse para parar. Nesse curto período, sua mente correra por três faixas e vira três possíveis desfechos para a situação em que se encontrava.

Numa, ele saltava em direção à janela e tentava atravessar a veneziana e o vidro como o herói de um filme de caubói, atirando-se com esperança cega rumo ao desconhecido. Mentalmente, ele se viu atravessando a janela e caindo sobre uma pilha enferrujada de equipamentos agrícolas, passando os últimos segundos de sua vida empalado nas lâminas de um arado como um inseto num alfinete. Ou chocando-se contra o vidro sem que este se quebrasse. Viu Straker puxando-o para trás, suas roupas rasgadas, o corpo lacerado e sangrando em vários lugares.

Na segunda faixa, viu Straker amarrando-o e partindo. Viu-se amarrado no chão enquanto o dia morria, debatendo-se de modo cada vez mais frenético (e inútil) até finalmente ouvir os passos na escada de alguém mil vezes pior do que Straker.

Na terceira faixa, viu-se usando um truque que lera num livro sobre Houdini. Houdini fora um mágico famoso, que escapava de celas de cadeia, de caixas acorrentadas, de cofres de banco, de baús atirados em rios. Conseguia se livrar de cordas, de algemas, de armadilhas chinesas. O livro dizia que uma das coisas que ele fazia era prender a respiração e apertar bem as mãos enquanto um voluntário da platéia o amarrava. Inchava as coxas, os antebraços e os músculos do pescoço. Assim, quando relaxava os músculos, sobrava uma pequena folga. O truque era relaxar completamente e começar a fugir com calma e lentidão, sem deixar o pânico atrapalhar. Aos poucos, a transpiração agia como uma graxa, o que também ajudava. Pelo livro, parecia bem fácil.

— Vire-se — disse Straker. — Vou amarrá-lo. Não se mexa. Se você se mexer, vou usar isto — e ele mostrou o polegar para Mark, como alguém pedindo carona — para arrancar seu olho direito. Entendeu?

Mark fez que sim. Respirou o mais fundo que podia e contraiu todos os músculos. Straker jogou a corda sobre uma das vigas.

— Deite-se — disse ele.

Mark obedeceu.

Straker cruzou as mãos do menino atrás das costas e as amarrou com força. Depois, passou a corda pelo pescoço de Mark e fez um nó de enforcado.

— Você está preso à mesma viga em que o amigo e patrocinador de meu Mestre neste país se enforcou, jovem mestre. Sente-se honrado?

Passou a corda por baixo da virilha de Mike e apertou o laço com um puxão brutal, fazendo o menino gemer. Straker riu com monstruoso bom humor.

— Seu saco doeu? Logo não vai mais doer. Você vai levar uma vida de asceta, meu rapaz. Uma vida muito, muito longa.

Straker passou a corda pelas coxas contraídas de Mark, apertou o nó, passou-a pelos joelhos e também pelos tornozelos. O menino precisava desesperadamente de ar, mas continuou a prender a respiração.

— Você está tremendo, jovem mestre — escarneceu Straker. — Seu corpo está todo tenso e contraído. E sua pele está branca.... mas ficará ainda mais. Mas não precisa ter tanto medo. Meu Mestre sabe ser bondoso. Ele é muito amado, aqui mesmo, na sua cidade. É só uma picadinha, como uma injeção, e depois vem o bem-estar. E mais tarde você será libertado. E irá visitar seus pais, está bem? Irá visitá-los depois que dormirem.

Ele se levantou e olhou Mark com benevolência.

— Direi adeus por enquanto, jovem mestre. Preciso cuidar do conforto de sua linda companhei­ra. Quando nos encontrarmos novamente, você gostará mais de mim.

Ele saiu, batendo a porta. Uma chave girou na fechadura. E, enquanto ele descia as escadas, Mark soltou a respiração e relaxou os músculos com um grande suspiro de alívio.

As cordas que o amarravam se afrouxaram — um pouco.

Ele ficou imóvel, se recobrando. Sua mente continuava a funcionar com a mesma velocidade sobrenatural. De onde estava, olhou por sobre o piso irregular para a cama de ferro. Viu a parede ao lado. O papel de parede que se soltara daquele local jazia ao lado da cama como uma pele de cobra descartada. Ele fixou o olhar numa pequena porção da parede. Expulsou todo o resto do cérebro. O livro sobre Houdini dizia que a concentração era a chave. Nenhum medo ou pânico podia se insinuar na mente. O corpo precisava estar totalmente relaxado. E a fuga tinha de ocorrer na mente antes que qualquer movimento fosse feito. Cada etapa precisava existir concretamente na mente.

Ele olhava para a parede enquanto os minutos passavam. A parede era branca e irregular, como a tela de um velho drive-in.

Finalmente, quando seu corpo estava relaxado até o último grau, ele começou a se projetar naquela tela, um menino de camiseta azul e jeans Levi’s. O menino estava de lado, com os braços para trás, os pulsos presos logo acima dos quadris. Um nó corrediço envolvia seu pescoço, e qualquer movimento brusco apertaria aquele nó inexoravelmente até bloquear sua respiração e obscurecer sua mente.

Ele olhava para a parede. Sobre ela, a figura começara a se mexer cuidadosamente, embora ele mesmo continuasse totalmente imóvel. Fascinado, ele observava cada movimento do simulacro. Seu nível de concentração era semelhante ao dos faquires e iogues indianos, que são capazes de contemplar os dedos dos pés ou a ponta do nariz durante dias, ou o de certos médiuns, que fazem mesas levantar ou extraem longas tiras de teleplasma do nariz, da boca, dos dedos. Era um estado próximo ao sublime. Ele não pensava em Straker ou no dia que expirava. Não via mais o piso áspero, a cama de ferro, nem mesmo a parede. Via apenas o menino, que executava uma pequena coreografia com músculos cuidadosamente controlados.

Ele olhava para a parede.

E finalmente começou a mexer os próprios punhos em semicírculos, um em direção ao outro. No final de cada semicírculo, as laterais de suas palmas se tocavam. Os únicos músculos que se moviam eram os das extremidades dos antebraços. Ele não se apressava. Olhava para a parede.

Quando o suor brotou de seus poros, seus pulsos começaram a girar com mais facilidade. Os meios círculos se ampliaram. No final de cada um, ele pressionava os dorsos das mãos um contra o outro. As cordas que os prendiam se afrouxaram um pouquinho mais.

Ele parou.

Depois de um momento, ele começou a flexionar os polegares contra as palmas e pressionar os dedos num movimento sinuoso. Seu rosto estava totalmente inexpressivo, como o de um manequim numa vitrine.

Cinco minutos se passaram. Suas mãos suavam profusamente agora. O nível extremo de sua concentração lhe permitia controlar parcialmente seu sistema nervoso simpático, outro traço dos iogues e faquires, e, sem perceber, ele começou a controlar as funções involuntárias de seu organismo. O suor abundante não se justificava apenas por seus movimentos cuidadosos. Suas mãos estavam gordurosas. Gotículas de suor caíam de sua testa, escurecendo a poeira do chão.

Ele começou a mexer os braços para cima e para baixo como um êmbolo, passando a usar os bíceps e os músculos das costas. O nó se apertou um pouco, mas ele sentiu que um dos laços começava a escorregar em direção a sua mão direita. Encostou no seu polegar e parou. O entusiasmo o invadiu, e ele parou imediatamente até que a emoção se extinguisse por completo. Depois, recome­çou. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Ganhava uma fração de centímetro a cada vez. E, de repente, sua mão direita estava livre.

Ele não a mexeu, apenas a flexionou. Quando viu que não estava dormente, passou os dedos sob o laço que prendia seu pulso esquerdo e o puxou. A mão esquerda se libertou.

Ele trouxe as duas mãos para frente e as apoiou no chão. Fechou os olhos por um instante. O truque agora era não achar que já conseguira. O truque era agir com grande deliberação.

Apoiando-se na mão esquerda, ele apalpou com a direita o nó áspero que prendia o laço em seu pescoço. Viu imediatamente que teria de quase se enforcar para se libertar, e aumentaria ainda mais a pressão sobre seus testículos, que já latejavam.

Respirou fundo e começou a soltar o nó. A corda retesava-se gradualmente, apertando seu pescoço e virilha. As cerdas grosseiras da corda enterravam-se em seu pescoço. O nó resistiu durante um tempo que pareceu infinito. Sua visão se obscurecia, invadida por grandes flores negras que brotavam por trás dos olhos. Mas ele não se apressava. Continuava puxando o nó, até que finalmente o sentiu afrouxar. Por um momento, a pressão sobre sua virilha aumentou insuportavelmente. E então, com um gesto abrupto, ele puxou o laço sobre a cabeça e a dor abrandou.

Ele se sentou e inclinou a cabeça, arquejando, segurando os testículos doloridos. A dor aguda se tornara surda e difusa, deixando-o nauseado. Quando se aplacou um pouco, ele olhou para a janela fechada. A luz que entrava pelas lâminas quebradas já se avermelhava. E a porta estava trancada.

Ele puxou a corda para baixo, soltando-a da viga, e começou a afrouxar os nós que prendiam suas pernas. Estavam tão apertados que, no intenso esforço de desfazê-los, sua concentração começou a vacilar.

Ele libertou as coxas, os joelhos e, após uma luta aparentemente interminável, os tornozelos. Ergueu-se fracamente entre os montes inertes de corda e cambaleou. Começou a esfregar as coxas.

Ouviu um ruído no andar de baixo: passos.

Levantou os olhos, em pânico, as narinas se dilatando. Capengou até a janela e tentou abri-la. Estava fechada com pregos, encurvados sobre a madeira barata do peitoril como grampos.

Os passos vinham pelas escadas.

Ele olhou desesperadamente ao redor do quarto. Duas pilhas de revistas. Uma pequena chapa de estanho com a gravura de um piquenique em 1890. A cama de ferro.

Ele correu até a cama e a levantou. E deuses distantes, vendo quanta sorte ele conquistara sozinho, resolveram lhe conceder mais uma quota.

Os passos haviam chegado ao corredor e avançavam em direção à porta quando ele acabou de desparafusar a perna da cama e a soltou.

4

Quando a porta abriu, Mark estava atrás dela empunhando a perna da cama, como um índio com um tacape.

— Jovem mestre, vim para...

Straker viu as cordas soltas no chão, e a surpresa o paralisou durante um segundo sobre a soleira da porta.

Para Mark, tudo se desenrolou com a lentidão de uma manobra de futebol vista em câmera lenta. Parecia que tinha minutos, e não poucos segundos, para mirar a fração do crânio visível além da porta.

Segurando a arma improvisada com as duas mãos, ele a baixou (sacrificando parte da força à precisão do golpe) sobre a cabeça de Straker, atingindo-o na têmpora, quando ele se virava para olhar atrás da porta. Seus olhos, arregalados, fecharam-se de dor. O sangue brotou do ferimento num jorro abundante.

Straker se contraiu e recuou, cambaleando. Seu rosto estava contorcido numa careta assustadora. Ele avançou para Mark, que o golpeou de novo. Dessa vez, o ferro atingiu o crânio logo acima da testa, causando um novo jato de sangue.

E ele desabou molemente, virando os olhos para cima.

Mark se aproximou do corpo, com os olhos arregalados de assombro. A ponta do ferro estava coberta de sangue. Sangue mais vermelho do que o dos filmes em tecnicolor. Essa visão lhe provocou náuseas, mas ele não sentiu nada ao olhar para Straker.



Eu o matei, pensou ele. E logo depois: Ainda bem.

A mão de Straker se fechou em seu tornozelo.

Mark ofegou e tentou se libertar. A mão o prendia como uma armadilha de aço. Straker o fitava, os olhos frios e brilhantes por trás de uma máscara de sangue. Seus lábios se mexeram, mas nenhum som saiu. Mark puxou o pé com mais força, em vão. Com um gemido, começou a bater na mão de Straker com o pé da cama. Uma vez, duas, três, quatro. Mark ouviu o estalo horrível dos dedos. A pressão sobre seu tornozelo cessou, e ele o puxou com tanta força que foi arremessado para trás, tropeçando até o corredor.

A cabeça de Straker tombara novamente, mas sua mão lacerada se abria e fechava com tenebro­sa vitalidade, como as patas de um cão que sonha em pegar um gato.

Mark soltou a perna da cama e recuou, tremendo. O pânico o dominou, e ele desceu correndo as escadas, saltando dois ou três degraus de uma vez, deslizando a mão pela balaustrada.

O vestíbulo estava tomado pela escuridão.

Ele entrou na cozinha e lançou um olhar desvairado para o porão aberto. O sol se punha numa explosão de tons vermelhos, amarelos e púrpura. Numa funerária a 25 quilômetros dali, Ben Mears via o ponteiro do relógio hesitar entre 7h01 e 7h02.

Mark não sabia disso, mas sabia que a hora do vampiro se aproximava. Ficar mais era arriscar um confronto; entrar no porão e tentar salvar Susan era entrar para as fileiras dos mortos-vivos.

Mesmo assim, ele se aproximou do porão, e chegou a descer os primeiros três degraus antes que o medo o cercasse de modo quase físico e o impedisse de; avançar. Chorava, e seu corpo tremia como se tomado por uma febre.

— Susan! — gritou ele. — Corra!

— M-Mark? — A voz dela parecia fraca e aturdida. — Não estou vendo nada. Está escuro...

Mark ouviu um súbito estrondo, como um tiro, seguido por uma profunda e perversa risada.

Susan gritou... um som que morreu num gemido e depois silenciou.

Mark ainda esperou, embora seus pés, leves como pluma, quisessem arrancá-lo dali.

Então, uma voz veio de baixo, uma voz cordial, incrivelmente parecida com a de seu pai.

— Desça, meu rapaz. Eu o admiro.

A força contida só nessa voz era tão grande que ele sentiu o medo refluindo, as plumas em seus pés se transformando em chumbo. Começou a descer outro degrau, mas se dominou — e para isso precisou de toda a pouca disciplina que ainda lhe restava.

— Desça — disse a voz, mais próxima agora. Sob o tom terno e paternal, havia um férreo comando.

— Eu sei seu nome! É Barlow! — gritou Mark.

E fugiu.


Quando chegou ao vestíbulo, o medo o atingiu em cheio de novo, e se a porta não estivesse destrancada, ele a teria atravessado bem no meio, deixando recortada uma silhueta de si mesmo como nos desenhos animados.

Ele saiu em disparada pela entrada para carros (como aquele outro menininho, Benjamin Mears, tanto tempo atrás) e depois pela rua Brooks, em direção à relativa segurança da cidade. Afinal, o rei dos vampiros podia estar vindo atrás dele.

Mark saiu da estrada e abriu caminhou cegamente pela floresta, chapinhando no riacho Taggart, caindo sobre arbustos emaranhados na outra margem e finalmente saindo no quintal de sua casa.

Ele cruzou a cozinha e parou na porta da sala, onde sua mãe, com a preocupação estampada no rosto, falava ao telefone com a lista telefônica aberta no colo.

Ela levantou a cabeça e, quando o viu, o alívio se espalhou por seu rosto como uma onda física.

— Ele chegou.

Ela desligou o telefone sem esperar uma resposta e andou em direção ao filho. Mark notou, com mais compaixão de que ela o julgaria capaz, que a mãe estivera chorando.

— Mark... onde você estava?

— Ele chegou? — gritou o pai, do escritório. Seu rosto, ainda que invisível, era ameaçador.

Onde você estava? — Ela o pegou pelos ombros e o sacudiu.

— Na rua — disse Mark debilmente. — Eu caí quando corria para casa.

Não havia mais nada a dizer. A característica essencial da infância não é a fusão de sonho e realidade, mas a alienação. Não há palavras para os mecanismos ocultos da mente de uma criança. Quando sábia, ela reconhece o fato e se submete às conseqüências. Quando contabiliza os danos, não é mais uma criança.

— Perdi a noção do tempo e...

E então seu pai se encarregou dele.

5

Ainda era a madrugada de segunda-feira.

Alguém arranhava a janela.

Mark despertou sem passar pelo intervalo entre a sonolência e a lucidez. Para ele, não havia mais diferença entre as insanidades do sono e as da vigília.

O rosto pálido do outro lado do vidro era de Susan.

— Mark... deixe-me entrar.

Mark levantou da cama. O chão sob seus pés estava frio. Ele tremia.

— Vá embora — disse ele, sem entonação na voz. Viu que ela ainda usava a mesma blusa, as mesmas calças. Será que os pais dela estão preocupados?, pensou ele. Será que chamaram a polícia?

— Não é tão ruim assim, Mark — disse ela, com os olhos vítreos e inexpressivos. Sorriu, mostrando os dentes, que se destacavam vivamente sob as gengivas lívidas. — É delicioso. Deixe-me entrar. Vou te mostrar. Vou te beijar, Mark. Vou te beijar inteiro, como sua mãe nunca beijou.

— Vá embora — repetiu ele.

— Um de nós vai te pegar mais cedo ou mais tarde — disse ela. — Somos muitos agora. Deixe-me entrar, Mark. Eu estou... com fome. — Ela tentou sorrir, mas produziu apenas um esgar malévolo que gelou o sangue dele.

Mark levantou a cruz e a encostou na janela.

Ela emitiu um silvo, como se tivesse sido escaldada, e soltou-se do caixilho da janela. Durante um momento, ficou suspensa no ar, seu corpo se tornando vago e indistinto. No momento seguinte, desapareceu. Mas não antes que ele visse (ou achasse ter visto) uma expressão de desespero e tristeza em seu rosto.

A noite voltou a ser tranqüila e silenciosa.

Somos muitos agora.

Mark pensou nos pais, que dormiam inconscientes do perigo que corriam, e o pavor tomou conta de suas entranhas.

Susan dissera que algumas pessoas sabiam, ou desconfiavam.

Quem?


O escritor, claro. O namorado dela. Chamava-se Mears e morava na pensão da Eva. Escritores eram muito sabidos. Seria ele. Mark teria de procurá-lo antes de Susan.

Ele estacou a caminho da cama.



Se é que ela já não o procurara.
Capítulo Treze

PADRE CALLAHAN

1

Naquela mesma noite de domingo, o padre Callahan entrou com hesitação no quarto de Matt Burke. Eram 18h45 no relógio de Matt. Sua mesa-de-cabeceira e até sua cama estavam cobertas de livros, alguns velhos e amarelados. Matt ligara para Loretta Starcher e conseguira que a solteirona não só abrisse a biblioteca no domingo como levasse os livros para ele em pessoa. Ela e mais três funcionários do hospital haviam entrado em procissão, carregados de obras. E ela partira bufando, porque ele se recusara a responder a suas perguntas sobre a estranha solicitação.

O padre Callahan contemplou o professor com curiosidade. Parecia abatido, mas não tanto como os paroquianos que costumava visitar em circunstâncias semelhantes. As pessoas reagiam diante de um câncer, de um derrame, de um infarto ou da falência de algum órgão sentindo-se traídas. Ficavam chocadas ao saber que um amigo tão íntimo (e que até então julgavam entender tão bem) como o próprio corpo podia ser negligente a ponto de não fazer seu trabalho direito. A reação seguinte era romper com esse amigo tão pouco confiável. Mas a conclusão que vinha a seguir era que não importava se o amigo era ou não confiável. Era impossível cortar relações com o próprio corpo, ou apresentar uma petição contra ele, ou ignorá-lo. E por fim o paciente começava a suspeitar que o corpo podia não ser nenhum tipo de amigo, mas um inimigo implacável, disposto a destruir a força superior que usara e abusara dele desde que a razão — essa doença — se instalara.

Durante uma inspirada bebedeira, Callahan começara a escrever uma monografia sobre o tema para o Jornal Católico. Chegara até a ilustrá-la com um cartum diabólico, que mostrava um cérebro equilibrado sobre um arranha-céu. O prédio (o “Corpo Humano”) estava em chamas (o “Câncer”, embora pudessem ser várias outras doenças). O título do cartum era “Alto demais para pular”. Durante a sobriedade do dia seguinte, ele rasgara a monografia e queimara o cartum — não havia lugar na doutrina católica para nenhum dos dois, a não ser que ele acrescentasse um helicóptero escrito “Cristo” lançando uma escada de corda. Assim mesmo, ele achava que sua percepção fora correta, e o resultado do raciocínio do paciente no leito do hospital costumava ser depressão aguda. Os sintomas eram olhar parado, reações lentas, suspiros do fundo do peito e às vezes lágrimas diante do padre, esse corvo sinistro cuja função baseava-se justamente no problema que a mortalidade apresentava para o ser racional.

Mas Matt Burke não parecia deprimido. Estendeu a mão, apertando a do padre com extraordi­nária firmeza.

— Padre Callahan, muito obrigado por vir.

— É um prazer. Bons professores, como mulheres sábias, são um dom inestimável.

— Mesmo velhos teimosos e agnósticos como eu?

— Esses em especial — disse Callahan, revidando com prazer. — Acho que o peguei num momento de fraqueza. Não há ateus nas trincheiras, segundo dizem, nem agnósticos na UTI.

— Que pena, eu logo serei transferido.

— Não faz mal — disse Callahan. — Ainda o verei rezando Pais-Nossos e Ave-Marias.

— Essa possibilidade não é tão remota quanto parece — disse Matt.

O padre Callahan se sentou, batendo os joelhos na mesa-de-cabeceira ao aproximar a cadeira. Uma pilha de livros desabou sobre seu colo. Ele leu os títulos em voz alta enquanto os devolvia ao lugar.

Drácula. O Hóspede de Drácula. O Ramo de Ouro. A História Natural do Vampiro... natural? Lendas Húngaras. Monstros das Trevas. Monstros na Vida Real, Peter Kurtin, O Monstro de Düsseldorf. E... — Ele removeu uma espessa camada de pó da última capa, revelando um vulto espectral que ameaçava uma donzela adormecida. — Varney, o Vampiro, ou O Banquete de Sangue. É essa a leitura recomendada para pacientes que se recuperam de um infarto?

Matt sorriu.

— Pobre Varney. Li o livro há muito tempo para um trabalho na universidade. Literatura romântica. O professor, cuja noção de fantasia começava em Beowulf e terminava em Cartas do Diabo a seu Aprendiz, ficou chocado. Recebi D no trabalho, além de uma recomendação por escrito para aprimorar minha visão de mundo.

— Mas o caso de Peter Kurtin é bem interessante — observou Callahan. — Embora repulsivo.

— Conhece a história?

— Quase toda. Interessei-me por essas questões quando era estudante de teologia. Minha desculpa para as autoridades céticas foi que, para ser um bom padre, precisava mergulhar nas profundezas da alma humana. Mas era papo-furado. Como qualquer um, eu gostava de sentir arrepios. Kurtin, quando criança, matou dois amiguinhos por afogamento. Pegou uma jangada ancorada no meio de um rio e os empurrou para longe até que ficassem exaustos e submergissem.

— Isso mesmo — disse Matt. — Na adolescência, ele tentou duas vezes matar os pais de uma moça que se recusou a sair com ele. Mais tarde queimou a casa deles. Mas não é nessa parte de sua, digamos, carreira que estou interessado.

— Parece que não, a julgar por suas leituras. — Callahan pegou uma revista que estava sobre a cama e que mostrava uma moça de incríveis dotes físicos e roupa colante que sugava o sangue de um rapaz. A expressão do rapaz era um misto de extremo terror e extrema luxúria. O nome da revista, e da moça, ao que parecia, era Vampirella. Callahan largou a revista, mais intrigado do que nunca.

— Kurtin atacou e matou mais de 12 mulheres — disse ele. — Mutilou muitas mais com um martelo. Quando estavam menstruadas, ele bebia o sangue.

Matt Burke assentiu novamente.

— Mas o que poucos sabem é que ele também mutilava animais. No auge de sua obsessão, ele arrancou a cabeça de dois cisnes no parque central de Düsseldorf e bebeu o sangue que esguichava do pescoço das aves.

— Tudo isso tem a ver com seu desejo de falar comigo? — perguntou Callahan. — A Sra. Curless me disse que era um assunto importante.

— Sim, tem a ver e é importante.

— Então, o que é? Se queria me deixar intrigado, com certeza conseguiu.

Matt o olhou calmamente.

— Um grande amigo meu, Ben Mears, ficou de procurá-lo hoje. Mas sua governanta disse que não o viu.

— É verdade. Não recebi ninguém depois das duas da tarde.

— Não consegui falar com ele. Saiu do hospital junto com meu médico, James Cody, com quem também não consegui falar. Também não sei onde está Susan Norton, a namorada de Ben. Ela saiu no começo da tarde, depois de prometer aos pais que voltaria às cinco. Eles estão preocupados.

Callahan se aprumou ao ouvir isso. Conhecia Bill Norton, que o procurara certa vez para tratar de um problema relacionado com colegas católicos.

— Você suspeita de alguma coisa?

— Deixe-me fazer uma pergunta — disse Matt. — Pense bem antes de responder. Notou algo fora do comum na cidade ultimamente?

Callahan confirmou a impressão de que Matt procedia com muita cautela, não querendo assustá-lo com o que tinha em mente. Os livros sugeriam algo bastante escabroso.

— Vampiros em ’salem’s Lot? — perguntou.

E lembrou que a depressão resultante de uma doença grave podia ser evitada quando o paciente tinha um envolvimento profundo com a vida: artistas, músicos, um carpinteiro preocupado com uma obra inacabada. O mesmo interesse podia estar ligado a uma psicose inofensiva (ou não tão inofensiva), talvez incipiente antes de a doença se manifestar.

Ele certa vez conversara com um senhor de idade, chamado Horris, morador do monte Schoolyard, que fora internado no Centro Médico do Maine com câncer intestinal. Apesar da dor, que devia ser excruciante, ele fez uma detalhada e lúcida narrativa sobre as criaturas de Urano que se infiltravam em todas as camadas da sociedade americana. “Um dia o frentista do posto de gasolina é Joe Blow, de Falmouth”, disse-lhe o homem, que não passava de um esqueleto de olhos brilhantes. “No outro, ele é um uraniano que apenas se parece com Joe Blow. Continua tendo as lembranças e o jeito de falar de Joe Blow. Porque os uranianos comem ondas alfa... nhaque, nhaque, nhaque”. Horris não achava que tinha câncer, e sim um caso avançado de intoxicação por raios laser. Os uranianos, alarmados por ele saber de suas maquinações, haviam decidido neutralizá-lo. Mas ele estava disposto a morrer lutando. Callahan não tentou desiludi-lo. Parentes bem-intencionados mas obtusos podiam se encarregar disso. Sabia que a psicose, como uma boa dose de Cutty Sark, podia ser extremamente benéfica.

Portanto, ele simplesmente cruzou as mãos e esperou que Matt prosseguisse.

— Isso é muito difícil para mim — disse Matt. — E ficará ainda mais se você pensar que sofro de demência hospitalar.

Surpreso ao ouvir seus pensamentos expressos como acabara de formulá-los, Callahan teve dificuldade em manter a expressão neutra. Ainda que a emoção que pudesse revelar fosse admiração, e não preocupação.

— Ao contrário. Você parece extremamente lúcido.

Matt suspirou.

— A lucidez não implica sanidade, como deve saber. — Ele mudou de posição na cama, redistribuindo os livros ao seu redor. — Se Deus existir, deve estar me fazendo pagar por uma vida de academicismo, de recusa em entrar em territórios que não estivessem cercados por seguras notas de rodapé. Agora, pela segunda vez hoje, sou obrigado a fazer declarações as mais extravagantes sem uma única prova. Tudo que posso dizer em defesa da minha sanidade é que minhas afirmações podem ser comprovadas ou refutadas sem muita dificuldade, torcendo para que me leve a sério a ponto de testá-las antes que seja tarde demais. — Ele deu uma risada. — Antes que seja tarde demais. Parece uma frase das revistas de monstros dos anos 1930.

— A vida é cheia de melodramas — observou Callahan, refletindo que, se isso fosse verdade, ele não encontrara muitos ultimamente.

— Deixe-me perguntar novamente se notou alguma coisa, qualquer coisa estranha neste fim de semana.

— Que tenha a ver com vampiros ou...

— Com qualquer coisa.

Callahan refletiu.

— O depósito de lixo fechou — disse ele finalmente. — Mas, como o portão estava arrombado, eu entrei assim mesmo. — Ele sorriu. — Gosto de levar o lixo ao depósito. É uma atividade prática e humilde, que me permite realizar minhas fantasias elitistas de ser um proletário pobre, mas feliz. Não vi Dud Rogers por lá.

— O que mais?

— Bem... a família Crockett não foi à missa esta manhã, e a Sra. Crockett não costuma faltar.

— Mais alguma coisa?

— A pobre Sra. Glick, claro...

Matt se apoiou no cotovelo.

— A Sra. Glick? O que tem ela?

— Morreu.

— Do quê?

— Pauline Dickens acha que foi ataque cardíaco — disse Callahan, com hesitação.

— Mais alguém morreu na cidade hoje? — Aquela pergunta teria sido absurda em outros momentos. Óbitos em cidadezinhas como ’salem’s Lot eram raros, apesar da numerosa população de idosos.

— Não — respondeu Callahan. — Mas o índice de mortalidade certamente tem estado alto. Mike Ryerson... Floyd Tibbits... o filhinho dos McDougall...

Matt assentiu, com ar cansado.

— Não é estranho? Mas a situação está chegando a um ponto em que eles terão livre trânsito. Mais algumas noites e eu temo que... que...

— Vamos direto ao assunto — disse Callahan.

— Está bem. Já chega de rodeios.

E ele fez seu relato do começo ao fim, entremeando as contribuições de Ben, Susan e Jimmy, sem esconder nada. Quando terminou, os horrores da noite haviam terminado para Ben e Jimmy. Para Susan Norton, apenas começavam.

2

Quando terminou, Matt ficou em silêncio por um instante, e depois disse:

— E então? Acha que estou louco?

— Está disposto a fazer com que as pessoas pensem isso — disse Callahan. — Embora tenha convencido o Sr. Mears e seu próprio médico. Não, não acho que esteja louco. Afinal, minha profissão é lidar com o sobrenatural. É meu pão e vinho, se me permite um trocadilho.

— Mas...

— Vou lhe contar uma história. Não garanto que seja verdadeira, embora eu acredite que seja. Diz respeito a um amigo meu, o padre Raymond Bissonette, responsável por uma paróquia na Cornuália, ao longo da chamada Costa do Estanho. Já ouviu falar?

— Já li a respeito.

— Há uns cinco anos, ele me escreveu dizendo que fora chamado a uma região remota da paróquia para presidir à cerimônia fúnebre de uma moça que definhara até morrer. O caixão estava cheio de rosas silvestres, o que Ray achou estranho. Mas o que lhe pareceu realmente grotesco foi que a boca da moça fora aberta com um graveto e enchida de alho e tomilho.

— Mas são...

— Os tradicionais amuletos contra a volta dos mortos. Receitas populares. Ray sondou o pai da moça, que lhe disse, com naturalidade, que ela fora morta por um incubo. Conhece o termo?

— É o vampiro sexual.

— A moça fora prometida para um rapaz chamado Bannock, que tinha uma grande pinta vermelha num lado do pescoço. Duas semanas antes do casamento, ele foi atropelado e morreu. Dois anos depois, a moça ficou noiva de outro homem. Rompeu o noivado subitamente uma semana antes de as proclamas correrem pela segunda vez. Disse aos pais que John Bannock vinha lhe fazendo visitas noturnas, e que fora infiel com ele. O segundo noivo estava mais preocupado que fosse insanidade do que manifestações demoníacas. Seja como for, ela definhou, morreu e foi enterrada segundo os antigos ritos da igreja.

“Mas não foi esse o motivo da carta de Ray, e sim um fato que ocorreu dois meses depois do enterro da moça. Enquanto fazia uma caminhada matinal, Ray viu um rapaz de pé ao lado do túmulo — um rapaz com uma pinta vermelha no pescoço. Mas a história ainda não acabou. Ray ganhara uma Polaroid dos pais no Natal anterior, e começou a fotografar a paisagem da Cornuália. Tenho algumas dessas fotos na paróquia. São muito boas. Ele estava com a câmera naquela manhã, e tirou várias fotos do rapaz. Quando as mostrou no vilarejo, a reação foi surpreendente. Uma velha desmaiou, e a mãe da moça começou a rezar no meio da rua.

“Mas, quando Ray levantou na manhã seguinte, o rapaz tinha sumido totalmente das fotografias. Só restaram várias imagens do cemitério.”

— E você acredita nisso? — perguntou Matt.

— Ah, sim. E acho que a maioria acreditaria. As pessoas comuns não duvidam tanto do sobrenatural quanto os escritores dão a entender. Muitos autores que tratam desse tema são mais céticos em relação a espíritos e demônios do que o cidadão comum. Lovecraft era ateu. Edgar Allan Poe era um transcendentalista de meia-tigela. E Hawthorne era religioso só por fora.

— Vejo que é muito versado sobre o tema — notou Matt.

O padre encolheu os ombros.

— Quando criança, eu me interessava por ocultismo. E, mais tarde, minha vocação religiosa acentuou esse interesse, em vez de eliminá-lo. — Ele suspirou. — Mas ultimamente venho me interro­gando sobre a natureza do mal que existe no mundo. E isso não tem sido muito agradável.

— Então... você investigaria algumas coisas para mim? E teria alguma objeção em levar consigo um pouco de água benta e algumas hóstias?

— Está tocando em questões teológicas delicadas — disse Callahan, com genuína gravidade.

— Por quê?

— Ainda não vou negar seu pedido — disse Callahan. — E devo dizer que se tivesse falado com um padre mais jovem, ele teria aceito imediatamente, sem nenhum escrúpulo. — Sorriu com amargura.

— Eles encaram os artefatos da Igreja como algo simbólico, e não prático, como o cocar e o bastão de um xamã. Esse jovem padre podia achá-lo louco, mas se espalhar um pouco de água benta ajudasse a acalmá-lo, não haveria problema. Eu não sou capaz disso. Se fosse fazer essas investigações com um belo terno e nada debaixo do braço a não ser um exemplar de um livro da feiticeira Sybil Leek, seria um assunto entre mim e você. Mas se eu for com a hóstia... então irei como representante da Santa Igreja Católica, pronto para realizar os ritos mais espirituais do meu ofício. Então irei como representan­te de Cristo na Terra. — Ele olhava para Matt de modo sério, solene. — Posso ser um padre lamentável, um pouco cansado, um pouco cínico, e sofrendo ultimamente de uma crise de fé ou identidade, mas ainda acredito o bastante no poder admirável, místico, apoteótico da Igreja que personifico para não aceitar levianamente seu pedido. A Igreja é mais do que um monte de ideais, como os padres mais jovens parecem acreditar. É mais do que um Grupo de Escoteiros espiritual. A igreja é uma Força... e não se coloca uma Força em movimento de modo leviano. — Ele lançou um olhar severo para Matt. — Você entende isso? É vital que entenda.

— Eu entendo.

— A noção de mal na Igreja Católica passou por uma mudança radical neste século. Sabe por quê?

— Imagino que tenha sido por causa de Freud.

— Muito bem. A igreja desenvolveu uma nova noção ao longo do século XX: a do mal com “m” minúsculo. E o demônio deixou de ser um monstro de chifres vermelhos, rabo pontudo e cascos fendidos, ou uma serpente rastejando no Jardim do Éden (embora essa seja uma imagem psicológica muito adequada). O demônio, segundo o Evangelho de Freud, seria um id gigantesco e complexo, o subconsciente de todos nós.

— Certamente um conceito mais admirável do que o de espectros ou demônios de olfato tão sensível que até um padre com gases é capaz de expulsá-los — observou Matt.

— Admirável, sem dúvida. Mas impessoal. Impiedoso. Intocável. Expulsar o demônio criado por Freud é tão impossível quanto o desafio lançado a Shylock, remover uma libra de carne sem derramar uma gota de sangue. A Igreja Católica foi obrigada a rever toda a sua concepção do mal, com os bombardeios no Cambodja, a guerra na Irlanda e no Oriente Médio, os levantes nos guetos e os milhões de males menores que são soltos no mundo diariamente como uma praga de mosquitos. Está a caminho de deixar seus paramentos e reemergir como um organismo socialmente ativo e consciente. A periferia vencendo o confessionário. A comunhão subordinada ao movimento dos direitos civis e à renovação urbana. A Igreja está a caminho de plantar os dois pés na terra.

— Onde não existem bruxas, nem incubos, nem vampiros — disse Matt. — Apenas abuso infantil, incesto e agressão ao meio ambiente.

— Exato.


— E você odeia isso, não? — disse Matt.

— Sim — respondeu Callahan. — Acho abominável. É o jeito de a Igreja Católica dizer que Deus não morreu, só ficou meio caduco. E acho que essa é minha resposta, não? O que você quer que eu faça?

Matt lhe disse.

Callahan refletiu e disse:

— Você percebe que seu pedido vai de encontro a tudo que acabei de lhe dizer?

— Ao contrário. Acho que é sua chance de pôr a sua Igreja à prova.

Callahan respirou fundo.

— Certo, eu concordo. Com uma condição.

— Qual?

— Que todos os participantes dessa expedição passem primeiro na loja desse Sr. Straker. O Sr. Mears será o porta-voz e falará francamente com Straker sobre tudo isso. Todos teremos a oportunidade de observar as reações dele. E ele terá a chance de rir da nossa cara.



Matt franziu a testa.

— Isso será alertá-lo.

Callahan sacudiu a cabeça.

— O alerta de nada adiantará se nós três, o Sr. Mears, o Dr. Cody e eu, decidirmos seguir em frente assim mesmo.

— Está bem — disse Matt. — Concordo, desde que Ben e Jimmy Cody também aprovem.

— Muito bem — suspirou Callahan. — Não se ofenda se eu lhe disser que espero que tudo isso só exista na sua mente. E que espero que Straker ria da nossa cara, e com motivo.

— De maneira alguma.

— É o que espero. Cedi mais do que imagina. E estou assustado.

— Eu também estou — disse Matt, brandamente.

3

Mas, enquanto voltava para a igreja, Callahan não se sentia nem um pouco assustado. Sentia-se bem-disposto, renovado. Pela primeira vez em anos, estava sóbrio e não ansiava por um trago.

Ele entrou no presbitério, pegou o telefone e discou o número da pensão de Eva.

— Alô? Sra. Miller? Posso falar com o Sr. Mears? Ele não está? Sei, entendo... Não, não precisa. Eu ligo amanhã. Até logo.

Ele desligou e andou até a janela.

Mears estaria em algum bar, tomando uma cerveja, ou seria verdade tudo que o velho professor lhe dissera?

Se fosse verdade, então...

Ele não conseguiu ficar dentro de casa. Foi até a varanda de trás, respirou o ar fresco e cortante de outubro e olhou para a escuridão que se movia. Talvez a culpa não fosse de Freud. Talvez a grande responsável fosse a invenção da luz elétrica, que eliminara as sombras da mente humana.

O mal prosseguia, mas agora sob o clarão impiedoso das luzes fluorescentes dos estacionamen­tos, dos tubos de néon, das inúmeras lâmpadas de cem watts. Os generais planejavam ataques aéreos sob a luz prosaica de correntes alternadas, e tudo saía do controle, como um carrinho de rolimã solto ladeira abaixo, sem breques. Eu obedecia a ordens. Sim, era verdade. Éramos todos soldados, apenas obedecendo a ordens escritas em nossas cartas de demissão. Mas de onde vinham as ordens, afinal? Leve-me a seu líder. Mas onde ficava a sala dele? Eu apenas obedeci a ordem. O povo me elegeu. Mas quem elegia o povo?

Um bater de asas, e Callahan olhou para cima, despertando de seu confuso devaneio. Um pássaro? Um morcego? Já se fora. Não importava.

Prestou atenção aos ruídos da cidade, e ouviu apenas o rumor dos fios telefônicos.

Na noite em que o kudzu toma seus campos, você dorme o sono dos mortos.

Quem escrevera aquilo? Dickey?

Nenhum som. Nenhuma luz, exceto o círculo fluorescente em frente à igreja, onde Fred Astaire nunca dançara, e o fraco tremeluzir da luz amarela de advertência no cruzamento da rua Brock e da avenida Jointner. Nenhum bebê chorava.

Na noite em que o kudzu toma seus campos, você dorme o...

O júbilo se extinguira como o eco nefasto da vaidade. O terror se fechou sobre seu coração. Não temia por sua vida, ou por sua honra, ou que a governanta descobrisse suas bebedeiras. Era um medo como ele nunca sonhara, nem mesmo durante sua torturada adolescência.

Ele temia por sua alma imortal.
PARTE III

A CIDADE DESERTA

I heard a voice, crying from the deep

Come join me, baby, in my endless sleep.

— Velha canção de rock

E hoje no vale os viajantes

Nas rubras janelas ainda espiam

Vultos que se movem, oscilantes,

A uma dissonante melodia;

E, qual medonho e veloz rio,

Pelos pálidos portais

A feroz turba sai em desvario

Capaz de rir, mas de sorrir, não mais.

— EDGAR ALLAN POE

“O Palácio Assombrado”

Tell you now that the whole town is empty.

— BOB DYLAN

Capítulo Catorze

A CIDADE (IV)

1

Do “Almanaque do Velho Lavrador”:

Domingo, 5 de outubro de 1975: pôr-do-sol às 19h02. Segunda-feira, 6 de outubro de 1975: nascer do sol às 6h49. A noite em Jerusalem’s Lot durante aquela específica rotação da Terra, 13 dias após o equinócio vernal, durou 11 horas e 47 minutos. Era lua nova. A frase do dia do Velho Lavrador era: “O dia dura menos, a colheita está perto do fim.”

Da Estação Meteorológica de Portland:

A temperatura máxima no período noturno foi de 16 graus, registrada às 19h05. Mínima de 8 graus, registrada às 4h06. Nuvens esparsas, índice pluviométrico, zero. Ventos de noroeste de 8 a 15 quilômetros por hora.



Do registro da polícia do Condado de Cumberland:

Nada.


2

Ninguém decretou a morte de Jerusalem’s Lot na manhã de 6 de outubro. Ninguém sabia que a cidade estava morta. Como os corpos dos dias anteriores, ela ainda parecia viver.

Ruthie Crockett, que passara o fim de semana na cama, doente e pálida, sumiu na manhã de segunda. Ninguém comunicou o desaparecimento. Sua mãe estava no porão, deitada atrás do armário de conservas, com um encerado de lona sobre o corpo, e Larry Crockett, que acordou muito tarde, simplesmente supôs que a filha tivesse ido para a escola. Decidiu não ir para o escritório naquele dia. Sentia-se fraco, aéreo e exausto. Devia ser uma gripe. Seus olhos ardiam na luz. Ele levantou e puxou as cortinas, dando um grito quando o sol incidiu diretamente sobre seu braço. Precisava trocar aquela janela quando melhorasse. Vidraças defeituosas não eram brincadeira. Um cidadão pode chegar em casa num belo dia de sol, encontrar a casa pegando fogo e ouvir dos pilantras da seguradora que foi combustão espontânea e não receber um tostão. Mas esperaria até melhorar. Pensou numa xícara de café e sentiu o estômago virar. Estranhou vagamente a ausência da esposa, mas logo depois esqueceu. Voltou para a cama, passando o dedo num estranho corte de navalha bem abaixo do maxilar, puxou o lençol sobre o rosto pálido e voltou a dormir.

Sua filha, enquanto isso, dormia ao lado de Dud Rogers na escuridão esmaltada de um freezer abandonado. No mundo sombrio de sua nova existência, ela achava as investidas do corcunda, em meio aos montes altos de lixo, bastante aceitáveis.

Loretta Starcher, a bibliotecária, também desaparecera, embora não houvesse ninguém na vida da solteirona que notasse o fato. Ela agora residia no escuro e mofado terceiro andar da Biblioteca Pública de Jerusalem’s Lot. O terceiro andar ficava sempre trancado (ela era a única que tinha as chaves, que levava numa corrente pendurada ao pescoço), exceto quando alguém especial conseguia convencê-la de que tinha inteligência e moral fortes o bastante para receber uma autorização especial.

Agora ela mesma se fechara lá, um outro tipo de primeira edição, pura como quando viera ao mundo. Sua encadernação, digamos, nunca fora tocada.

O desaparecimento de Virgil Rathbun também passou despercebido. Franklin Bokkin acordou no barraco que dividiam às nove horas, viu que o colchão de palha de Virgil estava vazio e, sem dar importância ao fato, levantou e foi procurar uma cerveja. Mas caiu de costas, com as pernas moles, a cabeça girando.



Nossa, pensou, voltando a cair no sono. O que a gente bebeu ontem? Querosene?

E, debaixo do barraco, no frescor das folhas de outono e entre uma galáxia de latas de cerveja jogadas pelas tábuas do piso da sala, Virgil esperava pelo anoitecer. Sua mente argilosa talvez ansiasse por um líquido mais ardente do que o melhor uísque, mais reconfortante do que o melhor vinho.

Eva Miller notou a ausência de Weasel Craig no café da manhã, mas não se importou. Estava ocupada supervisionando a refeição matinal de seus inquilinos, que engoliam a comida e saíam para encarar mais uma semana de trabalho. Em seguida precisou arrumar a cozinha e lavar os pratos do maldito Grover Verrill e do imprestável Mickey Sylvester, que faziam questão de ignorar o cartaz escrito “Favor lavar a louça que sujar” pregado sobre a pia havia anos.

Mas, quando o silêncio voltou a impregnar o dia e a atividade frenética do café da manhã deu lugar à rotina das tarefas habituais, Eva voltou a sentir falta de Weasel. Segunda-feira era o dia em que o caminhão de lixo passava na rua da Ferrovia, e ele sempre levava os grandes sacos verdes de lixo até a sarjeta para que Royal Snow os colocasse em seu velho e arruinado caminhão International Harvester. Naquele dia, os sacos verdes continuavam sobre a escadinha que dava para o quintal.

Ela subiu até o quarto dele e bateu na porta de leve.

— Ed?


Não houve resposta. Se fosse outro dia, ela concluiria que ele estava bêbado e levaria o lixo para fora sozinha, apertando os lábios mais do que o normal. Mas naquela manhã uma apreensão a tomou, e ela girou a maçaneta e introduziu a cabeça pela fresta da porta.

— Ed? — chamou ela.

Não havia ninguém no quarto. A janela ao lado da cama estava aberta, as cortinas balançando ao sabor da brisa. A cama estava desfeita, e ela a arrumou automaticamente. Ao contornar a cama, pisou em algo. Olhou para baixo e viu o espelho de Weasel com cabo de chifre espatifado no chão. Apanhou-o e o examinou, franzindo a testa. O espelho pertencera à mãe de Weasel. Certa vez ele se recusara a vendê-lo por dez dólares a um antiquário. E já bebia nessa época.

Ela buscou a pá de lixo no armário do corredor e recolheu os cacos do espelho com gestos lentos e pensativos. Sabia que Weasel fora dormir sóbrio na noite anterior, e não havia onde comprar cerveja depois das nove horas, a não ser que ele tivesse ido de carona ao Dell’s ou a Cumberland.

Ela jogou os fragmentos do espelho na lixeira de Weasel, vendo seu próprio reflexo multiplicar-se nos cacos por um breve segundo. Revistou a lixeira, mas não viu nenhuma garrafa vazia. De qualquer modo, beber escondido não era o estilo de Ed Craig.

Bom, uma hora ele aparece.

Mas, quando ela desceu, a preocupação a acompanhou. Sem admitir conscientemente, ela sabia que o que sentia por Weasel ia um pouco além da amizade.

— Senhora?

Arrancada do devaneio, ela olhou para o estranho que entrara na cozinha. Era um menino, bem-vestido, com calças de veludo cotelê e camiseta azul limpinha. Parece que caiu da bicicleta. Achou que já o conhecia, mas não sabia de onde. Devia ser de uma das famílias que haviam se mudado recentemente para a avenida Jointner.

— O Sr. Ben Mears mora aqui?

Eva ia lhe perguntar por que não estava na escola, mas desistiu. A expressão do menino era muito séria, chegava a ser grave. Notou que ele estava com olheiras.

— Está dormindo.

— Posso esperar?

Homer McCaslin fora diretamente da funerária de Green para a casa dos Norton na rua Brock. Já eram 11 horas quando chegou. A Sra. Norton estava em prantos. Bill Norton aparentava calma, mas fumava um cigarro atrás do outro e tinha o rosto abatido.

McCaslin disse que divulgaria a descrição de Susan pelo rádio. Sim, avisaria assim que tivesse alguma notícia. Sim, ligaria para todos os hospitais da região, fazia parte da rotina (assim como ligar para o necrotério). Em segredo, concluiu que a moça fugira de casa. A mãe confessara que haviam brigado e que ela vinha falando em se mudar.

Por via das dúvidas, ele patrulhou algumas ruas secundárias, atento ao ruído da estática que vinha do rádio acoplado sob o painel. Alguns minutos depois da meia-noite, quando subia a via Brooks em direção à cidade, o refletor que ele dirigira para o acostamento da estrada produziu um lampejo metálico — era um carro estacionado na floresta.

Ele parou, deu ré, saiu. O carro estava estacionado numa velha estrada desativada. Um Chevy Vega novo, marrom-claro. McCaslin puxou a volumosa caderneta do bolso de trás, virou a página com o interrogatório de Ben e Jimmy e dirigiu a lanterna para o número da placa que a Sra. Norton lhe passara. Correspondia. Era o carro da moça. Isso tornava a situação mais séria. Apoiou a mão sobre o capô. Estava frio. Fazia tempo que estava parado.

— Xerife?

Uma voz leve, despreocupada, melodiosa. Por que, então, ele levou a mão à coronha da arma?

Ele se virou e deu com Susan Norton, incrivelmente bela, que andava em sua direção de mãos dadas com um estranho — um rapaz de cabelos pretos penteados para trás num estilo fora de moda. McCaslin dirigiu a lanterna para o rosto dele e teve a estranha impressão de que a luz o atravessava sem iluminá-lo. Além disso, quando andavam, eles não deixavam pegadas na terra macia. O medo se espalhou por cada nervo de seu corpo, sua mão apertou mais forte a arma... mas depois relaxou. Ele desligou a lanterna e esperou passivamente.

— Xerife — disse ela, a voz agora baixa e acariciante.

— É muita gentileza sua ter vindo — disse o estranho.

E eles o cercaram.

O carro-patrulha agora jazia no mato alto da trilha sem saída em que acabava a via Deep Cut, sem que o menor lampejo de cromo fosse visível por entre os ramos densos de árvores, samambaias e arbustos. McCaslin estava encolhido no porta-malas. O rádio o chamava a intervalos irregulares, em vão.

Naquela mesma madrugada, Susan fez uma breve visita à mãe, mas sem fazer muito estrago. Como uma sanguessuga que já encontrara sua presa, estava saciada. Mesmo assim, ela fora convidada para entrar, e podia voltar quando quisesse. Sentiria fome de novo naquela noite... e em todas as noites.

Charles Griffen acordou a mulher pouco depois das cinco naquela manhã de segunda, o rosto mal-humorado e sardônico. No pasto, as vacas mugiam, de tetas cheias. Ele resumiu o que acontecera em poucas palavras:

— Os meninos fugiram, desgraçados.

Mas não fora nada daquilo. Danny Glick se alimentara do sangue de Jack Griffen, e este por sua vez fora ao quarto do irmão, Hal, e terminara para sempre com suas angústias escolares. Agora ambos estavam escondidos no meio de uma imensa pilha de feno no celeiro mais afastado, com restos de palha nos cabelos e partículas de pólen dançando nas narinas imóveis e sem alento. Um rato eventu­almente passeava sobre seus rostos.

A luz agora inundava a terra, e todas as coisas malignas dormiam. Seria um belo dia de outono, fresco e claro, banhado pelo sol. Aos poucos, a cidade (sem saber que estava morta) começava sua rotina, inconsciente do que se urdira durante a noite. Segundo o Almanaque do Velho Lavrador, anoiteceria na segunda às 19 horas em ponto.

Os dias se encurtavam com a proximidade do Halloween e do inverno, que não tardaria a chegar.

3

Quando Ben desceu às 8h45, Eva Miller, debruçada na pia, disse-lhe:

— Tem alguém esperando o senhor na varanda.

Ele assentiu e saiu pela porta de trás, ainda de chinelos, esperando ver Susan ou o xerife McCaslin. Mas seu visitante era um menino pequeno e esguio, que esperava sentado no último degrau da varanda, olhando para a cidade, que aos poucos despertava para a segunda-feira.

— Olá — disse Ben, e o menino se voltou rapidamente.

Eles se entreolharam por um breve instante, que para Ben pareceu estranhamente longo, e uma sensação sobrenatural o dominou. Fisicamente, o menino se parecia com ele quando criança, mas não era só isso. Um peso se abateu sobre seus ombros, como se ele pressentisse que suas vidas não haviam se cruzado por acaso. Lembrou do dia em que conhecera Susan no parque, e como a primeira conversa que tiveram, leve e informal, parecera-lhe pesada e cheia de presságios.

Talvez o menino sentisse algo semelhante, pois seus olhos se abriram mais e sua mão segurou a grade da varanda, em busca de apoio.

— Sr. Mears — disse o menino, não em tom de pergunta.

— Sou. Vejo que está em vantagem.

— Eu me chamo Mark Petrie — disse ele. — E tenho más notícias.



Não duvido, pensou Ben, e tentou se preparar mentalmente para o que estava prestes a ouvir. Mesmo assim, a surpresa e o choque o esmagaram.

— Susan Norton agora é um deles — disse o menino. — Barlow a pegou no casarão. Mas eu matei Straker. Pelo menos, é o que eu acho.

Ben tentou dizer algo, mas não conseguiu. Sua garganta estava travada.

O menino assentiu, assumindo a liderança da situação.

— Vamos dar uma volta no seu carro e conversar? Não quero que ninguém me veja por aí. Estou matando aula, e meus pais já estão no meu pé.

Ben disse algo — não sabia bem o quê. Depois do acidente de moto que matara Miranda, ele se levantara do asfalto, abalado mas intacto (exceto por um arranhão no dorso da mão esquerda — era importante lembrar. Medalhas já haviam sido atribuídas por menos do que isso). O motorista do caminhão andara em sua direção, projetando duas sombras sob a luz do poste e dos faróis do caminhão. Era um homem grande, semicalvo, com uma caneta no bolso da camisa branca. “Frank’s Transporta”, estava escrito em letras douradas na caneta, e ele adivinhara que as letras ocultas pelo bolso da camisa eram “dora”. Elementar, meu caro Watson. O motorista lhe dissera algo, ele não lembrava o quê, e depois tomara-lhe o braço delicadamente, tentando tirá-lo dali. Mas ele vira uma das sapatilhas de Miranda perto das rodas traseiras do caminhão e se livrara do motorista. Andara em direção às rodas, mas o homem lhe dissera É melhor não chegar perto, amigo. Ben olhara para ele estupidamente, incólume, exceto pelo arranhão na mão, querendo lhe dizer que cinco minutos antes nada daquilo tinha acontecido, que, num mundo paralelo, ele e Miranda haviam dobrado à esquerda uma quadra antes e avançavam para um futuro inteiramente diferente. Uma multidão se formara, saindo de uma loja de bebidas numa esquina e de uma pequena lanchonete na outra. E ele começara a sentir o que sentia naquele momento: a complexa e terrível interação física e mental que é o começo da aceitação. E a única sensação equivalente era a do estupro. O estômago parece encolher. Os lábios se amortecem. O céu da boca se cobre de uma fina espuma. Os ouvidos zumbem. A pele dos testículos se retesa. A mente se retrai, como diante de uma luz forte e insuportável. Ele afastou mais uma vez o bem-intencionado motorista e apanhou a sapatilha. Virou-a para cima. Colocou a mão em seu interior, que ainda conservava o calor do pé dela. Com a sapatilha na mão, deu mais dois passos e viu as pernas esparramadas sob as rodas da frente do caminhão, vestidas com a calça amarela de brim que ela vestira, risonha e despreocupada, no apartamento. Era impossível acreditar que a mulher que vestira aquelas calças estava morta — e no entanto a aceitação estava lá, em seu estômago, sua boca, seus testículos. Ele gemeu em voz alta, e foi então que o fotógrafo do tablóide tirou a foto para o jornal que Mabel lia. Um pé calçado, um pé descalço. As pessoas olhando como se nunca tivessem visto um pé antes. Ele recuou dois passos, se dobrou e...

— Vou vomitar — disse ele.

— Tudo bem.

Ben foi para trás do Citroën e se dobrou, segurando a maçaneta da porta. Fechou os olhos e a escuridão o envolveu, e na escuridão ele viu o rosto de Susan, olhando e sorrindo para ele com seus lindos olhos profundos. Ele levantou a cabeça. Ocorreu-lhe que o menino poderia estar mentindo, ou confuso, ou podia ser totalmente maluco. Mas essa idéia não lhe trouxe conforto. Ele não passava essa impressão. Ele se voltou e olhou para o rosto do menino, e tudo que viu foi preocupação — nada mais.

— Vamos — disse ele.

O menino entrou no carro e eles partiram. Eva Miller acompanhou a cena da janela da cozinha, a testa franzida. Algo muito ruim estava acontecendo. Ela sabia, sentia, era o mesmo temor obscuro e vago que se apossara dela no dia em que o marido morrera.

Eva se ergueu e ligou para Loretta Starcher. O telefone tocou, sem resposta, e ela o recolocou no gancho. Onde estaria ela? Com certeza não na biblioteca. Não abria às segundas.

Continuou olhando para o telefone, pensativa. Sentia que um grande desastre estava no ar — quem sabe algo tão terrível quanto o incêndio de 1951.

Finalmente, pegou o telefone e ligou para Mabel Werts, que tinha as últimas fofocas da hora e estava louca para ouvir mais. A cidade não via um fim de semana como aquele há anos.


4

Ben dirigiu a esmo, sem rumo definido, enquanto Mark lhe contava sua história. Contou direitinho, desde a noite em que Danny Glick aparecera em sua janela até a visita espectral daquela madrugada.

— Tem certeza de que era Susan? — perguntou Ben.

Mark Petrie fez que sim.

Ben fez uma abrupta curva de 180 graus e correu pela avenida Jointner em sentido contrário.

— Para onde está indo? Para a...

— Não. Ainda não.

5

Espere. Pare.



Ben parou e eles desceram do carro. Vinham lentamente pela via Brooks, na base do monte Marsten. A estrada de teria onde Homer McCaslin avistara o carro de Susan. Ambos viram o reflexo do sol sobre o metal. Subiram em silêncio pela estrada abandonada. O caminho era sulcado por profundas marcas de roda, cercado por grama alta. Ouviram o distante trinado de um pássaro.

Não demoraram a achar o carro.

Ben hesitou e em seguida estacou. Voltou a sentir náuseas. Suava frio.

— Olhe você — disse a Mark.

Mark andou até o carro e se debruçou na janela do motorista.

— As chaves estão aqui — informou.

Ben começou a andar em direção ao carro e chutou um. objeto no chão. Olhou para baixo e viu um revólver calibre 38 na poeira do chão. Apanhou-o e o examinou. Parecia-se muito com um revólver policial.

— De quem será? — perguntou Mark, aproximando-se com as chaves de Susan na mão.

— Não sei. — Ele verificou a trava de segurança e guardou a arma no bolso.

Mark estendeu-lhe as chaves, e Ben as pegou. Andou em direção ao Vega, sentindo-se num sonho. Suas mãos tremiam, e ele teve dificuldade para inserir a chave na fechadura do porta-malas. Girou-a e puxou a tampa, sem se permitir uma pausa para pensar.

Olharam juntos. O porta-malas continha um estepe, um macaco e nada mais. Ben soltou a respiração num jato.

— E agora? — perguntou Mark.

Ben demorou um momento para responder. Quando sentiu que controlava a voz, disse:

— Vamos visitar Matt Burke, um amigo meu que está no hospital. Ele está pesquisando vampiros.

O menino o fitava com urgência nos olhos.

— Você acredita em mim?

— Acredito — disse Ben, e, ao pronunciar a palavra, ela ganhou peso e autenticidade. Não dava mais para recuar. — Sim, acredito em você.

— O Sr. Burke dá aula no colégio, não é? Ele sabe de tudo isso?

— Sabe. E o médico dele também.

— O Dr. Cody?

— Ele mesmo.

Enquanto falavam, ambos olhavam para o carro como se fosse uma relíquia de uma raça obscura e extinta, descoberta na luminosa floresta que cercava a cidade. O porta-malas lembrava uma boca escancarada, e, quando Ben o fechou com força, o baque surdo ecoou em seu coração.

— E, depois da conversa — disse Ben — a gente vai até a Casa Marsten para pegar o filho-da-mãe que fez isso.

Mark olhou para ele sem se mexer.

— Pode não ser tão fácil quanto você pensa. Ela também vai estar lá. Ela é dele agora.

— Ele vai desejar nunca ter vindo a ’salem’s Lot — murmurou Ben. — Vamos.

6

Chegaram ao hospital as 9h30. Jimmy Cody estava no quarto de Matt. Olhou para Ben, com semblante grave, e depois considerou Mark Petrie com curiosidade.

— Tenho más notícias para você, Ben. Sue Norton desapareceu.

— Ela é uma vampira agora — disse Ben, sem rodeios. Matt gemeu na cama.

— Tem certeza? — perguntou Jimmy, sobressaltado.

Ben apontou Mark com o polegar e o apresentou.

— Mark recebeu uma visitinha de Danny Glick na noite de sábado. Ele pode contar o resto da história.

Mark a contou do começo ao fim, como contara a Ben pouco antes.

Quando ele terminou, Matt foi o primeiro a falar.

— Ben, não tenho palavras para lhe dizer o quanto eu lamento.

— Posso lhe dar algum calmante, se precisar — disse Jimmy.

— Só preciso de um remédio, Jimmy. Quero ir atrás de Barlow hoje. Agora. Antes que escureça.

— Tudo bem — disse Jimmy. — Cancelei todas as minhas consultas. E telefonei para a delegacia do município. McCaslin também está sumido.

— Talvez seja a explicação para isto — disse Ben, tirando a pistola do bolso e a colocando sobre a mesa-de-cabeceira de Matt. A arma parecia estranha e deslocada naquele quarto de hospital.

— Onde você a encontrou? — perguntou Jimmy, pegando a arma.

— Perto do carro de Susan.

— Então acho que já entendi tudo. McCaslin foi até a casa dos Norton depois de falar com a gente. Pegou informações sobre Susan, incluindo a marca, o modelo e a placa do carro dela. Foi patrulhar as estradas secundárias, só para garantir e...

A frase pairou no ar. Ninguém precisou completá-la.

— A funerária de Foreman continua fechada — disse Jimmy. — E os velhos que matam tempo na loja de Crossen estão se queixando do depósito de lixo. Faz uma semana que ninguém vê Dud Rogers.

Eles se entreolharam em silêncio.

— Falei com o padre Callahan ontem de noite — disse Matt. — Ele concordou em participar, desde que vocês dois, e Mark, naturalmente, antes passem na loja nova para falar com Straker.

— Acho que ele não vai falar com ninguém hoje — disse Mark calmamente.

— O que você descobriu sobre eles? — Jimmy perguntou a Matt. — Algo de útil?

— Bom, acho que consegui reunir algumas peças. Straker deve ser o cão de guarda e o segurança dessa coisa... um cúmplice humano. Deve ter chegado à cidade muito antes de Barlow. Alguns ritos precisavam ser realizados para aplacar o Pai das Trevas. Até Barlow está submetido a um Mestre, entendem? — Ele lhes lançou um olhar sombrio. — Inclusive suspeito que ninguém jamais achará vestígios de Ralphie Glick. Acho que ele foi o passaporte de Barlow. Straker o raptou e o sacrificou.

— Canalha — disse Jimmy com ar distante.

— E Danny Glick? — perguntou Ben.

— Straker o sangrou primeiro — disse Matt. — Foi uma dádiva do Mestre. O primeiro sangue para o fiel servo. Mais tarde, Barlow se encarregou dessa tarefa. Mas Straker prestou outro serviço para Barlow antes mesmo que ele chegasse. Algum de vocês sabe qual?

Fez-se silêncio por um momento, e depois Mark disse distintamente;

— O cachorro encontrado no portão do cemitério.

— O quê? — espantou-se Jimmy. — Por quê? Por que ele faria isso?

— Os olhos brancos — disse Mark, e lançou um olhar interrogativo para Matt, que assentiu com ar surpreso.

— Passei a noite inteira sem pregar o olho lendo esses livros, sem saber que tínhamos um sábio entre nós. — O menino corou um pouco. — Mark está totalmente certo. Segundo várias fontes sobre folclore e o sobrenatural, um dos modos de espantar um vampiro é pintar “olhos de anjo” sobre os olhos de um cachorro preto. O cachorro de Win era todo preto, exceto por duas manchas brancas. Win dizia que eram seus faróis, porque ficavam bem em cima de seus olhos. Ele deixava o cachorro solto à noite. Acho que Straker o viu e o matou, e depois o pendurou no portão do cemitério.

— E quanto a esse Barlow? — perguntou Jimmy. — Como ele chegou à cidade?

Matt encolheu os ombros.

— Não sei dizer. Acho que devemos supor, segundo as lendas, que ele é velho. Muito velho. Pode ter mudado de nome dezenas ou milhares de vezes. Já pode ter pertencido a vários países do mundo em diversos momentos, mas suspeito que suas origens sejam romenas, magiares ou húngaras. Na verdade não importa como ele chegou à cidade... embora eu não fosse ficar surpreso se descobrisse que Larry Crockett tem um dedo nisso. Ele está aqui, e isso é o que importa.

“Agora, eis o que devem fazer. Levem uma estaca quando forem à Casa Marsten. E uma arma, caso Straker ainda esteja vivo. O revólver do xerife McCaslin veio a calhar. A estaca deve perfurar o coração do vampiro para que ele não reviva. Jimmy, você pode verificar isso. Depois de cravar a estaca, precisam cortar a cabeça dele, encher a boca de alho e virar o rosto para baixo no caixão. Nas ficções do gênero, sejam de Hollywood ou não, o vampiro vira pó quase instantaneamente. Talvez não seja assim na vida real. Se não for, vocês precisam encher o caixão de pedras e jogá-lo em água corrente. Sugiro o rio Royal. Alguma pergunta?”

Ninguém tinha nenhuma.

— Ótimo. Precisam levar um frasco de água benta e algumas hóstias. E cada um deve se confessar com o padre Callahan antes de partir.

— Acho que nenhum de nós é católico — disse Ben.

— Eu sou — disse Jimmy. — Não-praticante.

— Mesmo assim, confessem-se e façam um ato de contrição. Depois estarão puros, lavados no sangue de Cristo. Um sangue limpo, não corrompido.

— Certo — disse Ben.

— Ben, você foi para a cama com Susan? Perdoe-me, mas...

— Dormi — disse ele.

— Então você deve cravar a estaca, primeiro em Barlow, depois nela. Você é o único em nosso pequeno grupo que foi pessoalmente atingido. Vai agir como o marido. E não pode falhar. Será a libertação dela.

— Certo — ele repetiu.

— Acima de tudo — Matt abarcou a todos com o olhar —, não olhem nos olhos dele! Se olharem, ele os dominará e os voltará contra os outros, mesmo que isso lhes custe a vida. Lembrem-se de Floyd Tibbtis! Por isso é perigoso levar uma arma, mesmo sendo necessário. Jimmy, leve-a com você e fique para trás. Se tiver de examinar Barlow ou Susan, passe-a para Mark.

— Entendido — disse Jimmy.

— Não se esqueçam de comprar alho. E rosas, se for possível. Aquela floricultura pequena em Cumberland ainda está aberta, Jimmy?

— A Northern Belle? Acho que sim.

— Uma rosa branca para cada um. Prendam no cabelo ou ao redor do pescoço. E vou repetir, não olhem nos olhos dele! Eu poderia segurar vocês aqui e lhes dizer mais centenas de coisas, mas é melhor se apressarem. Já são dez horas, e o padre Callahan pode estar pensando duas vezes. Que minhas preces acompanhem vocês. Rezar é uma dificuldade para um velho agnóstico como eu, mas acho que não sou mais tão agnóstico como antes. Foi Carlyle quem disse que, se um homem derruba Deus do trono do seu coração, Satã deve tomar o Seu lugar?

Ninguém respondeu, e Matt suspirou.

— Jimmy, quero ver seu pescoço mais de perto.

Jimmy aproximou-se da cama e levantou o queixo. Os ferimentos eram furos nítidos, mas ambos haviam formado casca e pareciam estar se fechando.

— Está doendo? Ou coçando? — perguntou Matt.

— Não.

— Você teve muita sorte — disse ele, olhando-o seriamente.



— Começo a pensar que tive mais sorte do que imagino.

Matt recostou-se na cama. O rosto estava encovado, os olhos, fundos.

— Vou aceitar o comprimido que Ben recusou.

— Direi a uma enfermeira.

— Vou dormir enquanto vocês cumprem sua missão — disse Matt. — Mais tarde haverá outra questão... bom, chega disso. — Olhou para Mark. — Você fez uma coisa admirável ontem, rapaz. Tola e imprudente, mas admirável.

Ela pagou por isso — disse Mark baixinho, apertando as mãos diante de si. Elas tremiam.

— Sim, e você pode ter de pagar de novo. Digo isso a todos vocês. Não o subestimem! E agora, se não se importam, estou muito cansado. Passei quase a noite toda lendo. Liguem para mim assim que terminarem.

Eles saíram do quarto. No corredor, Ben olhou para Jimmy e perguntou:

— Ele não o fez lembrar de alguém?

— Fez — disse Jimmy. — Van Helsing.

7

Às 10h15, Eva Miller foi ao porão buscar dois potes de milho para levar para a Sra. Norton, que, segundo Mabel Werts, estava de cama. Eva passara o mês de setembro numa cozinha cheia de fumaça, labutando com suas conservas, curando legumes e guardando-os, selando potes com parafina para proteger suas geléias caseiras. Havia mais de duzentos potes de vidro cuidadosamente guardados nas prateleiras de seu impecável porão. As conservas estavam entre suas grandes alegrias. Mais tarde, com a chegada do inverno e a proximidade das festas, ela acrescentaria potes de carne moída com especiarias e frutas cristalizadas.

Ela sentiu o cheiro assim que abriu a porta do porão.

— Cruzes — murmurou, e desceu as escadas cuidadosamente, como se entrasse numa piscina poluída. Seu marido construíra o porão sozinho, com paredes de pedra para torná-lo fresco. De vez em quando um rato ou uma marmota entrava por uma rachadura e morria lá dentro. Era o que devia ter acontecido, embora ela nunca tivesse sentido um fedor tão forte antes.

Ela chegou ao último piso e examinou paredes, forçando a vista sob lâmpadas de 50 watts. Precisava trocá-las por lâmpadas de 75 watts, pensou. Pegou as conservas, em cujos rótulos escrevera milho com sua caligrafia caprichada (uma fatia de pimentão vermelho em cima de cada uma) e continuou a inspeção, procurando até atrás da enorme fornalha. Nada.

Voltou aos degraus que levavam à cozinha e olhou ao redor, franzindo a testa, as mãos nos quadris. O espaçoso porão estava bem mais arrumado desde que ela contratara dois empregados de Larry Crockett para erguer um depósito de ferramentas atrás da casa dois anos antes. Restara a fornalha, que parecia uma escultura impressionista da deusa Kali, com seus vários tubos contorcendo-se em várias direções; as janelas externas, que ela logo teria de instalar, porque outubro chegara e era preciso preservar o calor; a mesa de bilhar que pertencera a Ralph, agora coberta por um encerado. Ela limpava o feltro cuidadosamente todo mês de maio, mesmo que ninguém mais a usasse desde que o marido morrera em 1959. E não havia mais nada. Fora uma caixa de brochuras que ela guardara para o Hospital de Cumberland, uma pá de neve com o cabo quebrado, um quadro com algumas ferramentas de Ralph penduradas, um baú contendo cortinas que já deviam estar todas emboloradas.

Mas o odor persistia.

Seus olhos se demoraram na pequena porta do armário embutido onde guardava cebolas e batatas, mas ela não estava disposta a descer até lá. Além disso, as paredes do cubículo eram de concreto. Dificilmente algum animal teria entrado lá. Assim mesmo...

— Ed? — ela chamou subitamente, por nenhum motivo. O som da própria voz a assustou.

A palavra morreu no porão mal-iluminado. Ora, mas por que ela fizera aquilo? O que Ed Craig poderia estar fazendo lá, ainda que houvesse um lugar para se esconder? Bebendo? Não podia haver lugar mais deprimente na cidade para beber do que seu porão. Ele devia era estar na floresta com aquele seu amigo imprestável, Virge Rathbun, bebendo os dividendos de alguém.

No entanto, ela se deixou ficar mais um pouco, olhando ao redor. O cheiro de podridão era horrível. Ela esperava não ter que fumigar o porão.

Com um último olhar para a porta do armário, ela subiu a escada.

8

O padre Callahan ouviu o que os três tinham a lhe dizer. Já passava das llh30 quando terminaram de colocá-lo a par da situação. Estavam na fresca e espaçosa sala do presbitério, e o sol entrava pelas grandes janelas da frente em lâminas luminosas que pareciam capazes de cortar. Observando as partículas de pó que dançavam nos feixes de luz, Callahan lembrou-se de um velho quadrinho que vira em algum lugar. Uma empregada com a vassoura na mão, olhando com surpresa para o chão — acabara de varrer parte de sua sombra. Ele se sentia um pouco daquele jeito. Pela segunda vez em 24 horas, defrontava-se com uma total impossibilidade — mas agora corroborada por um escritor, um menino aparentemente equilibrado e um médico respeitado na cidade. Mas uma impossibilidade continuava sendo uma impossibilidade. Era impossível varrer a própria sombra. Só que daquela vez aquilo parecia ter acontecido.

— Seria mais fácil acreditar nessa história se caísse uma tempestade e ficássemos no escuro — observou.

— É tudo verdade — disse Jimmy, apalpando o pescoço. — Posso lhe garantir.

O padre Callahan se levantou e tirou algo da maleta preta de Jimmy — dois tacos de beisebol truncados e com as pontas afiadas. Examinou um deles entre as mãos e disse:

— Um momento, Sra. Smith. Não vai doer nada.

Ninguém riu.

Callahan devolveu as estacas, foi até a janela e olhou para a avenida Jointner.

— Vocês são muito persuasivos — disse ele. — E preciso acrescentar algo que acho que ainda não sabem.

Virou-se para eles.

— Vi uma placa na vitrine da Loja de Móveis Barlow e Straker. “Fechado até segunda ordem.” Fui até lá pessoalmente às nove da manhã para discutir as alegações do Sr. Burke com esse misterioso Sr. Straker. A loja está trancada, tanto a porta da frente como a de trás.

— Precisa admitir que isso combina com o que Mark disse — notou Ben.

— Talvez. Ou talvez seja só um acaso. Deixe-me perguntar outra vez. Precisam mesmo envolver a Igreja Católica no caso?

— Sim — disse Ben. — Mas continuaremos mesmo sem o senhor. Se for preciso, vou sozinho.

— Não será necessário — disse o padre Callahan, erguendo-se. — Venham comigo até a igreja, cavalheiros. Vou ouvir sua confissão.
9

Ben ajoelhou-se, desajeitado, na escuridão mofada do confessionário, a men­te em turbilhão, os pensamentos inacabados. Vinha-lhe uma sucessão de imagens surreais: Susan no parque; a Sra. Glick recuando diante da cruz improvisada, a boca aberta como uma ferida; Floyd Tibbits saltando de dentro do seu carro, vestido como um espantalho, atacando-o; Mark Petrie debruçando-se na janela do carro de Susan. Pela primeira e única vez, a possibilidade de que tudo aquilo não passasse de um sonho lhe ocorreu, e sua mente cansada a agarrou avidamente.

Ele avistou um objeto caído num canto do confessionário e o apanhou curioso. Era uma caixa vazia de bala de menta, que caíra do bolso de um menino, talvez. Um toque de realidade inegável. O papelão era real e tangível entre seus dedos. O pesadelo era real.

A portinhola de correr se abriu. Ele olhou para a abertura, mas não enxergou nada. Uma tela pesada a fechava.

— O que devo fazer? — perguntou à tela.

— Diga: “Perdoai-me, Pai, porque pequei.”

— Perdoai-me, Pai, porque pequei — disse Ben, sua voz soando estranha e pesada no espaço confinado.

— Agora, conte-me seus pecados.

— Todos? — perguntou Ben, horrorizado.

— Só os mais representativos — disse Callahan. — Sei que temos algo a fazer antes de escurecer.

Concentrando-se e tentando manter os Dez Mandamentos como uma espécie de filtro, Ben começou. Não ficou mais fácil à medida que prosseguia. Não sentiu nenhuma catarse — só o constrangimento de contar a um estranho os segredos de sua vida. Mas ele percebeu como aquele ritual podia se tornar compulsivo — tão compulsivo como álcool de farmácia para o bêbado crônico e a revista atrás da tábua solta do banheiro para o adolescente. Havia algo de medieval naquilo, algo de amaldiçoado — um ato ritual de regurgitação. Ele se lembrou de uma cena do filme de Bergman O Sétimo Selo, onde uma multidão de penitentes em andrajos perambulava por uma cidade atacada pela peste negra. Os penitentes se açoitavam com ramos de bétula, sangravam. A sensação odiosa de se despir daquela maneira (e, perversamente, ele não mentiu, embora pudesse fazer isso de modo bem convincente) tornou a missão que os esperava mais real, e ele quase conseguiu ver a palavra “vampiro” impressa na tela de sua mente, não como no cartaz de um filme, mas em letras pequenas e econômicas, como numa xilogravura ou num pergaminho. Sentiu-se impotente nas garras daquele estranho ritual, fora de sincronia com seu tempo. O confessionário parecia ser uma linha direta com o tempo em que lobisomens, incubos e bruxas eram parte da realidade, e a igreja a única fonte de luz. Pela primeira vez na vida, ele sentiu o lento e terrível pulsar das eras e viu sua própria vida como uma débil centelha num todo que, se pudesse ser apreendido, enlouqueceria a humanidade. Matt não lhe contara que o padre Callahan via a igreja como uma Força, mas Ben teria compreen­dido essa idéia naquele momento. Sentia a Força naquele fétido compartimento, repercutindo nele, deixando-o nu e desprezível. Sentia-a como nenhum católico, habituado a se confessar desde criança, seria capaz de senti-la.

Quando saiu da cabine, o ar fresco que entrava pelas portas abertas o encheu de alívio. Enxugou o pescoço suado com a palma da mão.

Callahan também saiu.

— Ainda não acabou — disse ele.

Sem dizer nada, Ben voltou para dentro, mas não ajoelhou. Callahan lhe passou uma penitência — dez Pais-Nossos e dez Ave-Marias.

— Não conheço a segunda — disse Ben.

— Vou lhe dar um cartão com a oração — disse a voz do outro lado da tela. — Você pode dizê-las mentalmente a caminho de Cumberland.

Ben hesitou por um momento.

— Matt tinha razão quando disse que seria mais difícil do que pensávamos. Acho que vamos acabar suando sangue.

— Acha mesmo? — disse Callahan.

Se ele estava sendo educado ou duvidava, Ben não sabia dizer. Olhou para baixo e viu que ainda segurava a caixa de balas de menta, agora amassada e informe em sua mão direita.

10

Era perto de uma hora quando todos entraram no grande Buick de Jimmy Cody e partiram. Seguiram em silêncio. O padre Donald Callahan estava de batina, sobrepeliz e estola branca bordada de roxo. Dera a cada um deles um frasco de água benta e abençoara-os com o sinal-da-cruz. Levava no colo uma caixinha com várias hóstias.

Passaram primeiro no consultório de Jimmy, e ele deixou o motor ligado enquanto entrava. Quando saiu, vestia um casaco esporte largo que escondia o revólver de McCaslin e trazia um martelo Craftsman na mão direita.

Ben olhou o martelo com fascínio e viu com o canto dos olhos que Mark e Callahan também o olhavam. A peça tinha cabeça de aço azul e alça de borracha perfurada.

— Terrível, não? — disse Jimmy.

Ben imaginou-se usando aquele martelo para empurrar uma estaca entre os seios de Susan e sentiu o estômago dar uma lenta volta, como um avião girando no céu.

— É, terrível mesmo — concordou, molhando os lábios.

Depois, seguiram para um supermercado. Ben e Jimmy entraram e pegaram todo o alho que havia no setor de legumes — 12 caixas de bulbos cinzentos. A moça do caixa ergueu as sobrancelhas e disse:

— Ainda bem que não vou sair com vocês hoje à noite, rapazes.

Na saída, Ben perguntou:

— De onde vem a crença de que o alho combate vampiros? Da Bíblia, de algum antigo folclore ou...

— Acho que provoca alergia — disse Jimmy.

— Alergia?

Callahan ouviu o fim da conversa e pediu que a repetissem enquanto se dirigiam para a floricultura Belle Flower.

— Concordo com o Dr. Cody — disse ele. — Provavelmente é uma alergia, se é que isso é capaz de detê-lo. Lembrem-se, ainda não foi provado.

— É engraçado um padre dizer isso — observou Mark.

— Por quê? Se devo aceitar a existência de vampiros (e parece que devo, pelo menos no presente momento), devo também achar que são criaturas totalmente imunes às leis naturais? Alguns, certamente. Segundo o folclore, não são refletidos em espelhos, podem se transformar em morcegos, lobos ou pássaros, os chamados psicopompos, podem se encolher e escapar pelas frestas mais estreitas. Mas sabemos que eles enxergam, ouvem, falam... e certamente têm paladar. Talvez também sintam dor, desconforto...

— E amor? — Ben perguntou, olhando direto para frente.

— Não — respondeu Jimmy. — Desconfio que o amor esteja além da capacidade deles.

Ele parou num pequeno estacionamento ao lado de uma floricultura ligada a uma estufa.

Um sininho tilintou acima da porta quando entraram, e o aroma forte de flores atingiu-lhes em cheio. Ben sentiu-se enjoado com a mistura exagerada de perfumes, que lembravam uma casa funerária.

— Olá — disse um homem alto de avental de lona, que se aproximou com um vaso de flores na mão.

Ben começou a explicar o que queriam, mas o homem logo o interrompeu, sacudindo a cabeça.

— Chegaram tarde. Na sexta, um homem comprou todas as rosas que eu tinha no estoque: vermelhas, brancas, amarelas. Agora só terei mais na quarta. Se quiserem encomendar...

— Como era esse homem?

— Muito diferente — disse o proprietário, pousando o vaso na mesa. — Era alto e totalmente careca. Fumava cigarros estrangeiros, pelo cheiro. Teve de levar as flores para fora em três viagens. Colocou-as na traseira de um carro bem antigo, acho que um Dodge...

— Um Packard — disse Ben. — Um Packard preto.

— Então você o conhece.

— De certa maneira, sim.

— Ele pagou em dinheiro, o que foi estranho, devido ao tamanho da compra. Fale com ele. Quem sabe ele lhe vende...

— Quem sabe — disse Ben.

De volta ao carro, eles discutiram o problema.

— Tem uma floricultura em Falmouth — disse o padre Callahan, em tom de dúvida.

— Não! — disse Ben. — Não! — E o timbre quase histérico de sua voz atraiu o olhar de todos. — E se a gente chegar a Falmouth e descobrir que Straker também passou por lá? O que vamos fazer? Ir para Portland? Kittery? Boston? Vocês não entendem o que está acontecendo? Ele previu nossos passos! Está nos segurando pela coleira!

— Ben, seja razoável — disse Jimmy. — Devíamos ao menos...

— Lembre-se do que Matt disse. “Não pensem que estão seguros só porque ele não pode se levantar durante o dia.” Veja que horas são, Jimmy.

— Duas e quinze — disse ele lentamente, e olhou para o céu- como se duvidasse do relógio. Mas era verdade, as sombras já haviam mudado de lado.

— Ele se antecipou — prosseguiu Ben. — Tem passado a perna na gente desde o começo. Acham que ele nunca se deu conta de que existíamos? Que nunca considerou a possibilidade de ser descoberto e combatido? Temos de ir já, ou passaremos o resto do dia discutindo o sexo dos anjos.

— Ele tem razão — disse Callahan serenamente. — Chega de conversa e vamos logo.

— Então, pé na tábua — disse Mark, com impaciência.

Jimmy deu ré e saiu do estacionamento da floricultura, cantando os pneus. O dono ficou a olhá-los — um menino e três homens, entre eles um padre, dentro de um carro cuja placa indicava que pertencia a um médico, procurando rosas e gritando loucuras uns para os outros.

11

Quando Jimmy se aproximou da Casa Marsten pela via Brooks, no lado oposto ao da cidade, Donald Callahan, vendo-a sob esse novo ângulo, pensou: Puxa, realmente ela domina a cidade. Estranho como nunca percebi antes. A altura deve ser perfeita lá, já que o monte fica bem acima do cruzamento da avenida Jointner e da rua Brock. Deve proporcionar uma visão de 360 graus da cidade. Era uma casa enorme e angulosa e, com as venezianas fechadas, assumia uma configuração enorme e incômoda na mente — era como um monólito em forma de sarcófago, uma evocação do mal.

Além disso, fora palco de suicídio e assassinato — era um terreno maldito. Ele abriu a boca para dizer isso aos companheiros, mas mudou de idéia.

Jimmy entrou na via Brooks, e por um momento a casa foi oculta pelas árvores. Depois, estas ficaram esparsas, e Jimmy virou na entrada para carros da Casa Marsten. O Packard estava estacionado na frente da garagem. Quando desligou o carro, Jimmy sacou o revólver de McCaslin.

Callahan sentiu a atmosfera do lugar imediatamente. Tirou do bolso o crucifixo que pertencera a sua mãe e o pendurou no pescoço ao lado da cruz que sempre usava. Nenhum pássaro cantava naquelas árvores despidas pelo outono. A grama alta e irregular parecia mais seca e desidratada do que o normal naquela época do ano. O próprio solo parecia cinzento e sem vida.

Os degraus que levavam à varanda eram tortos, e um quadrado de tinta mais clara num dos pilares da varanda indicava o local em que estivera um cartaz alertando que a entrada era proibida. Um cadeado Yale novo em folha cintilava sob a velha e enferrujada tranca da porta da frente.

— Podemos entrar por uma janela, como Mark — arriscou Jimmy.

— Não — disse Ben. — Pela porta da frente, nem que a gente tenha de arrombá-la.

— Acho que não vai ser necessário — disse Callahan, e sua voz não parecia lhe pertencer. Quando saíram do carro, ele os guiou sem parar para pensar. Uma ânsia, a velha ânsia que ele pensava ter sumido para sempre, apoderou-se dele quando se aproximou da porta. A casa parecia se inclinar sobre eles, parecia vazar o mal pelos poros da pintura rachada. Mas ele não hesitou. Não era mais hora de contemporizar. Nos últimos momentos, ele os guiou na mesma medida em que era guiado.

— Em nome do Pai e do Filho! — gritou ele, e sua voz assumiu um tom de comando que atraiu os companheiros para mais perto dele. — Ordeno que o mal saia desta casa! Espíritos, afastem-se!

E, inconsciente do que fazia, golpeou a porta com o crucifixo que segurava.

Eles viram um clarão de luz — mais tarde, todos concordaram com isso —, sentiram um odor pungente de ozônio e ouviram um estalido, como se as próprias tábuas tivessem gritado. A clarabóia de vidro da porta subitamente explodiu para fora, e a grande janela ao lado, que dava para o gramado, estilhaçou-se na mesma hora. Jimmy deu um grito. O novo cadeado jazia aos pés dele, derretido e quase irreconhecível. Mark se abaixou para cutucá-lo e gritou.

— Que quente!

Callahan se afastou da porta, tremendo. Olhou para a cruz que segurava.

— Sem sombra de dúvida, esta foi a coisa mais incrível que já aconteceu na minha vida — disse ele. Olhou para cima, como se esperasse ver a face de Deus, mas o céu permanecia indiferente.

Ben empurrou a porta, que se abriu com facilidade, mas esperou que Callahan entrasse primeiro. No vestíbulo, Callahan questionou Mark com o olhar.

— O porão — disse o menino. — A gente entra nele pela cozinha. Straker está lá em cima. Mas... — Ele fez uma pausa, franzindo a testa. — Algo está diferente. Não sei bem o quê. Algo não está como antes.

Primeiro, foram ao andar de cima. Mesmo não estando na frente, Ben sentiu o ferrão do antigo pavor quando se aproximaram da porta ao fim do corredor. Agora, quase um mês depois que voltara a ’salem’s Lot, ele entraria pela segunda vez naquele quarto. Quando Callahan empurrou a porta, ele olhou para cima... e sentiu o grito subir pela garganta e sair pela boca antes que pudesse impedi-lo — alto, feminino, histérico.

Mas não era Hubert Marsten quem estava pendurado na viga nem seu espírito.

Era Straker. Fora pendurado de ponta-cabeça como um porco num matadouro, sua garganta rasgada de um lado a outro. Seus olhos vidrados olhavam para eles, através deles.

Fora sangrado até a última gota.

12

Santo Deus exclamou o padre Callahan. — Santo Deus...



Eles entraram lentamente no quarto, Callahan e Cody um pouco à frente, Ben e Mark atrás, grudados um ao outro.

Os pés de Straker haviam sido amarrados, e seu corpo fora içado e amarrado à viga. Ocorreu a Ben, num ponto distante de seu cérebro, que fora preciso uma força sobre-humana para puxar o corpo de Straker para cima até que as mãos pendidas não mais tocassem o chão.

Jimmy encostou a mão na testa do cadáver e em seguida segurou uma das mãos do morto.

— Ele morreu há umas 18 horas — disse ele. Soltou a mão com um calafrio. — Meu Deus, que jeito horrível de... Não consigo entender isto. Por quê... quem...

— Foi Barlow — disse Mark. Ele fitava o corpo de Straker com olhar inabalável.

— E Straker se encrencou — disse Jimmy. — Nada de vida eterna para ele. Mas por que deste jeito, pendurado de cabeça para baixo?

— É uma prática muito antiga — disse o padre Callahan. — Pendurar o corpo do inimigo ou traidor para baixo de modo que a cabeça fique em direção à terra e não ao céu. São Paulo foi crucificado assim, numa cruz em forma de X, com as pernas quebradas.

— Ele ainda está desviando nossa atenção — disse Ben, com uma voz que pareceu antiga e cansada. — Ele tem centenas de truques. Vamos.

Seguindo-o, eles desceram a escada e foram para a cozinha. Lá, Ben voltou a passar a liderança ao padre Callahan. Por um momento, eles olharam um para o outro, e depois para o porão, cujas escadas levavam para baixo, assim como 25 anos antes escadas que levavam para cima colocaram Ben diante de um enigma esmagador.

13

Quando o padre abriu a porta, Mark sentiu o odor rançoso e fétido invadir suas narinas novamente. Mas estava diferente. Menos forte. Menos malévolo.

O padre começou a descer as escadas. Mesmo assim, Mark precisou de toda a força de vontade para acompanhá-lo até aquele covil de mortos.

Jimmy sacou uma lanterna da maleta e a ligou. O feixe de luz percorreu o chão, uma parede e o chão de novo. Depois, iluminou uma caixa comprida e em seguida uma mesa.

— Vejam — disse ele. — Em cima da mesa.

Era um envelope, impecável e reluzente na escuridão abissal, de caro papel pergaminho.

— É um truque — disse o padre Callahan. — Não encostem nisso.

— Não — disse Mark, sentindo alívio e decepção ao mesmo tempo. — Ele não está aqui. Deixou a carta para nós. Deve estar cheia de maldades.

Ben avançou e pegou o envelope. Girou-o na mão duas vezes — Mark via à luz da lanterna que seus dedos tremiam — e depois o abriu.

Havia uma folha dentro, de papel pergaminho como o envelope. Todos se aproximaram. Jimmy dirigiu a lanterna para a página, escrita numa caligrafia elegante e rebuscada. Leram juntos, Mark um pouco mais lentamente do que os outros.

4 de outubro.

Caros e Jovens Amigos,

Quanta gentileza virem me visitar!

Sempre gostei de companhia. Tem sido uma das minhas maiores alegrias numa vida longa e muitas vezes solitária. Se tivessem vindo à noite, eu os teria recebido em pessoa, com o maior prazer. No entanto, como imaginei que chegariam durante o dia, achei melhor me ausentar.

Mas deixei um pequeno sinal de meu afeto. Uma pessoa muito íntima e querida de um de vocês está no lugar onde eu mesmo passei meus dias até me transferir para aposentos mais convenientes. Ela é adorável, Sr. Mears — muito saborosa, se me permite um pequeno bon mot. Não tenho mais necessidade dela, e portanto a deixei como aquecimento para a prova principal. Para abrir o apetite, digamos. Vejamos que tal lhes parece a entrada para o prato principal a que tanto almejam.

Mestre Petrie, você me privou do servo mais fiel e competente que já tive. Obrigou-me, de modo indireto, a participar de sua ruína. Fez com que meus apetites me traíssem. Sem dúvida o atacou por trás. Terei muito prazer em travar contato com você. Primeiro, com seus pais. Esta noite... ou a de amanhã... ou a próxima. E depois com você. Mas entrará para o coral da minha igreja como um castrato.

E, padre Callahan... eles o convenceram a vir? Foi o que pensei. Tenho observado-o desde que cheguei a Jerusalem’s Lot. Assim como um bom enxadrista estuda os movimentos do adversário, concorda? Mas a Igreja Católica não é a mais antiga das minhas adversárias! Eu já era velho quando ela nascia, quando seus membros se escondiam nas catacumbas de Roma e pintavam desenhos de peixes no peito para poderem se reconhecer. Eu já era forte quando o tímido clube dos adoradores do cordeiro era fraco. Meus ritos já eram antigos quando os de sua Igreja sequer haviam sido concebidos. No entanto, não a subestimo. Sou sábio no bem assim como no mal. Não baixo a guarda.

E vou vencê-los. Mas como?, podem se perguntar. Callahan não porta o símbolo da Fé? Callahan não pode agir de dia bem como de noite? Não existem encantos e poções, tanto cristãos como pagãos, como meu bom amigo Matthew Burke lhes informou? Sim, sim e sim. Mas eu sou mais velho do que vocês. Sou engenhoso. Não sou a serpente, mas o pai das serpentes.

Mesmo assim, vocês dizem que isso não é bastante. E não é. No fim, padre Callahan, você vai se arruinar. Sua fé é fraca e vacilante. Você fala de amor sem conhecê-lo. Só sabe do que fala quando o assunto é a garrafa.

Meus bons amigos — Sr. Mears, Sr. Cody, Mestre Petrie, padre Callahan —, aproveitem sua estada. O Médoc é excelente, trazido especialmente para mim pelo antigo dono da casa, cuja compa­nhia nunca tive o prazer de desfrutar. Por favor, sirvam-se, caso ainda tenham sede de vinho depois que terminarem a tarefa que os aguarda. Voltaremos a nos encontrar, em pessoa, e nessa ocasião expressa­rei minhas felicitações a cada um de uma maneira mais pessoal.

Até lá, adieu.

Barlow


Trêmulo, Ben deixou a carta cair sobre a mesa. Olhou para os outros. Mark estava com os punhos cerrados, a boca franzida como alguém que comeu algo estragado. O rosto infantil de Jimmy estava tenso e pálido. Os olhos do padre Callahan brilhavam, seu queixo tremia.

Um a um, eles olharam para o padre.

— Vamos — disse ele.

E avançaram pelo corredor juntos.

14

Parkin Gillespie estava na escada do Pátio Municipal, olhando pelos binóculos Zeiss de alta potência, quando Nolly Gardener chegou no carro de polícia da cidade e desceu, levantando o cinto e puxando os fundos da calça.

— O que foi, Park? — perguntou, subindo os degraus.

O delegado lhe passou os binóculos em silêncio e indicou com o polegar calejado a Casa Marsten.

Nolly olhou. Viu o velho Packard, e, estacionado atrás dele, um Buick bege novo. O alcance do binóculo não permitia ler o número da placa. Ele o afastou do rosto.

— Aquele não é o carro do doutor Cody?

— Acho que sim. — Parkins meteu um Pall Mall na boca e riscou um fósforo na parede de tijolos atrás de si.

— É o primeiro carro que eu vejo lá, fora o Packard.

— É, eu também — disse Parkins, com ar pensativo.

— Acha que a gente deve ir dar uma olhada? — Nolly falava sem o característico entusiasmo na voz. Mesmo sendo policial há cinco anos, continuava extasiado com sua profissão.

— Não — disse Parkins. — Vamos deixar como está. — Tirou o relógio do colete e empurrou a tampa de prata como um agente ferroviário confirmando a hora do trem. Eram 15h41. Comparou seu relógio com o da prefeitura e voltou a guardá-lo no bolso.

— Afinal, o que aconteceu com Floyd Tibbits e o filhinho dos McDougall? — perguntou Nolly.

— Sei lá.

— Ah — fez Nolly, momentaneamente perdido. Parkins sempre fora taciturno, mas estava batendo um novo recorde. Voltou a olhar pelos binóculos. Nada mudara.

— A cidade está quieta hoje — observou Nolly.

— É, está — disse Parkins. Voltou os olhos azuis apagados para a avenida Jointner e para o parque. Ambos estavam desertos. Não se viam mães empurrando carrinhos de bebês nem vadios ao redor do Memorial da Guerra.

— Coisas estranhas estão acontecendo — arriscou dizer Nolly.

— É, estão — disse Parkins, em tom meditativo.

Como último recurso, Nolly puxou o único assunto ao qual Parkins não resistia: o tempo.

— Está nublado — disse ele. — Pode chover hoje à noite.

Parkins examinou o céu. Havia nuvens pequenas logo acima e outras maiores se formavam a sudoeste.

— É — disse ele, jogando fora o toco do cigarro.

— Park, você está se sentindo bem?

Parkins Gillespie refletiu.

— Não.


— Bom, então qual é o problema?

— Acho que estou morrendo de medo — disse Gillespie.

— Como? — espantou-se Nolly. — Medo do quê?

— Não sei — disse Parkins, e pegou os binóculos de volta. Voltou a observar a Casa Marsten enquanto Nolly o olhava, boquiaberto.

15

Depois da mesa onde a carta fora deixada, o porão fazia uma curva em L. O local já fora uma adega. Hubert Marsten devia mesmo ter sido um contrabandista, pensou Ben. Estavam cercados de barris pequenos e médios, cobertos de poeira e teias de aranha. Uma parede estava forrada de suportes para vinho, e algumas garrafas ainda espiavam de seus orifícios em forma de diamante como pombas. Algumas haviam explodido, e onde antes o vinho Borgonha esperava paladares sofisti­cados as aranhas agora teciam suas teias. Outras haviam se convertido em vinagre, cujo aroma pungente impregnava o ar, misturado ao cheiro de podridão.

— Não — disse Ben, com serena segurança. — Não consigo fazer isso.

— É seu dever — disse o padre Callahan. — Não estou dizendo que vai ser fácil nem que é o melhor, apenas que é seu dever.

— Não consigo! — gritou Ben, e dessa vez sua voz ecoou pelo porão.

No centro do cômodo, sobre uma plataforma iluminada pela lanterna de Jimmy, Susan Norton jazia imóvel. Estava coberta dos ombros até os pés com um simples lençol branco. Eles se aproximaram dela sem dizer palavra. O espanto os emudecera.

Em vida, ela fora uma moça bonita e alegre, que por pouco não chegara a ser bela. E não por alguma falha de seus traços, mas, talvez, por sua vida ter sido extremamente calma e pacata. Mas agora ela atingira a beleza. Uma beleza sinistra.

A morte não lhe imprimira sua marca. Suas faces estavam coradas, e seus lábios, virgens de maquiagem, eram de um vermelho vivido e profundo. Sua fronte estava pálida, mas perfeita; a pele, como seda. Os olhos estavam fechados, e os cílios escuros destacavam-se contra a pele. Uma das mãos estava fechada ao lado do corpo, enquanto a outra repousava levemente sobre o ventre. Contudo, a impressão não era de formosura angelical, mas de uma beleza fria e distante. Algo em seu rosto — apenas insinuado — fez Jimmy pensar nas meninas de Saigon, algumas com menos de 13 anos, que se ajoelhavam diante dos soldados nos becos atrás dos bares. Mas, no caso daquelas moças, a corrupção não fora fruto do mal, mas apenas um conhecimento prematuro do mundo. A mudança no rosto de Susan era totalmente outra — mas ele não saberia explicá-la.

Callahan se adiantou e tocou a região firme do seio esquerdo.

— Aqui — disse ele. — No coração.

— Não — repetiu Ben. — Não consigo.

— Tenha a atitude de um amante — disse o padre Callahan brandamente. — Melhor, de um marido. Ela não vai sofrer, Ben. Vai ser libertada. O único a sofrer será você.

Ben olhou para ele estupidamente. Mark tirou a estaca da maleta preta de Jimmy e a estendeu para ele em silêncio. Ben a pegou, estendendo a mão pelo que pareciam ser quilômetros.



Se eu não pensar no que estiver fazendo, então talvez...

Mas seria impossível não pensar a respeito. E, de repente, ele se lembrou de uma fala de Drácula, aquele filme divertido que não mais o divertia. Era o que Van Helsing tinha dito a Arthur Holmwood quando este teve de enfrentar a mesma e terrível tarefa: Precisamos passar por águas bravias antes de chegar às serenas.

Mas será que eles ainda poderiam encontrar a serenidade?

— Tomem! — gemeu ele. — Não me obriguem a fazer isso...

Ninguém respondeu.

Ele sentiu um suor frio e doentio brotar de sua testa, de suas faces, de seus antebraços. A estaca, que fora um simples taco de beisebol quatro horas antes, parecia misteriosamente pesada, como se linhas de força invisíveis mas titânicas houvessem convergido para ela.

Ergueu a estaca e a pressionou contra o seio esquerdo de Susan, bem acima do último botão de sua blusa. A ponta afundou a pele, e ele sentiu o canto de sua boca se contrair num tique incontrolável.

— Ela não está morta — disse ele, a voz rouca e pastosa. Era sua última defesa.

— Não — disse Jimmy, implacável. — Ela está Desmorta, Ben.

E ele já comprovara. Colocara o medidor de pressão no braço inerte e o bombeara. O resultado fora 0:0. Encostara o estetoscópio no peito, e todos puderam escutar o silêncio no interior daquele corpo.

Alguém colocou algo na outra mão de Ben — ele nunca conseguiu lembrar quem fora. O martelo. O martelo Craftsman com o cabo de borracha perfurado. A cabeça de aço brilhou à luz da lanterna.

— Seja rápido — disse Callahan. — E depois, saia para a luz. Nós faremos o resto.



Precisamos passar por águas bravias antes de chegar às serenas.

— Deus me perdoe — sussurrou Ben.

Ergueu o martelo e o baixou.

O martelo atingiu a ponta da estaca em cheio, e o tremor gelatinoso que subiu pela madeira assombraria para sempre seus sonhos. Os olhos dela se arregalaram, grandes e azuis, como se movidos pela força do golpe. O sangue esguichou da ferida aberta pela estaca num jorro vivo e espantoso, manchando suas mãos, sua camisa, seu rosto. Num segundo, o porão se encheu do odor quente e acre.

Ela se contorceu na mesa. Ergueu as mãos e as agitou freneticamente. Seus pés bateram na madeira da plataforma em ritmo errático. Sua boca se escancarou, revelando presas aterradoras, lupinas, e ela começou a dar gritos que soaram como a trombeta do inferno. O sangue escorria dos cantos de sua boca como riachos.

O martelo se ergueu e baixou mais uma vez. E mais outra. E outra.

A mente de Ben se encheu dos gritos de grandes corvos negros. Girava em meio a imagens horríveis e obliteradas. Suas mãos estavam rubras, a estaca estava rubra, o implacável martelo estava rubro. Nas mãos trêmulas de Jimmy, a lanterna se tornou uma luz estroboscópica, iluminando o rosto ensandecido de Susan de modo entrecortado. Os dentes dela cravaram-se na carne dos lábios, dilacerando-os. O sangue se espalhou pelo lençol branco, que Jimmy dobrara com tanto cuidado, formando desenhos que lembravam ideogramas chineses.

E então, subitamente, ela estirou as costas como um arco e abriu a boca até quase romper as mandíbulas. Uma enorme explosão de sangue verteu da ferida aberta pela estaca, um sangue quase negro sob a luz incerta da lanterna — sangue do coração. O grito que brotou da câmara ressonante daquela boca vinha das catacumbas da memória da espécie, da escuridão úmida da alma humana. O sangue subitamente jorrou de seu nariz e boca numa torrente... e algo mais. À luz vacilante, foi apenas uma impressão, uma sombra, de algo que saltou para fora, enganado e arruinado. Amalgamou-se à escuridão e desapareceu.

Ela voltou a se estender na mesa, a boca relaxando, fechando. Os lábios mutilados se entreabriram numa última e sussurrante respiração. Por um instante, as pálpebras se abriram, e Ben viu, ou julgou ver, a Susan que ele conhecera no parque, lendo um livro.

Estava feito.

Ele recuou, soltando o martelo, estendendo as mãos diante de si, como um maestro horrorizado diante de sua macabra sinfonia.

Callahan colocou a mão em seu ombro.

— Ben...

Ele saiu correndo.

Subiu a escada aos tropeços, caiu e rastejou em direção à luz da cozinha. Terrores infantis e adultos haviam se fundido. Se olhasse para trás, veria Hubie Marsten (ou talvez Straker) a um fio de cabelo de distância, o rosto inchado e pútrido sorrindo, a corda enterrando na carne do pescoço, o sorriso revelando presas e não dentes. Ele soltou um grito desesperado.

Ao longe, ouviu Callahan dizer:

— Não, deixe-o sozinho...

Ben irrompeu pela cozinha e depois pela porta de trás. Seus pés tropeçaram nos degraus da escada, e ele caiu de bruços na terra. Ele se ajoelhou, ficou de pé e olhou atrás de si.

Nada.

A casa se erguia sem propósito. Agora que o último mal que abrigava se extinguira, ela voltara a ser apenas uma casa comum.



Ben Mears permaneceu no vasto silêncio do quintal cercado de mato, com a cabeça para trás, respirando o ar em grandes golfadas.

16

No outono, a noite chega assim a Lot:

O calor do sol arrefece mais cedo, e o ar fica frio, lembrando que o inverno está chegando e será longo. Finas nuvens se formam, e as sombras se alongam mais. Não têm amplitude, como as sombras de verão — não há folhas nas árvores nem nuvens gordas no céu para lhes dar espessura. São sombras magras e miseráveis, que mordem o chão como dentes.

Quando o sol se aproxima do horizonte, seu amarelo benevolente se intensifica, se infecciona, até brilhar com feroz vermelho inflamado. E lança um brilho variegado sobre o horizonte — uma membrana nebulosa que se alterna em tons de vermelho, laranja, escarlate, violeta. Às vezes, as nuvens se rompem em grandes e lentos retalhos, deixando passar feixes de inocente luz prateada que provo­cam uma doce saudade do verão que se foi.

São seis horas, hora da ceia (em Lot, o almoço é ao meio-dia, e as marmitas que os homens levam para o trabalho são chamadas de “tigelas de jantar”). Mabel Werts, com a doentia gordura da velhice pendendo em dobras do corpo, senta-se diante de um peito de frango grelhado e uma xícara de chá Lipton, o telefone ao alcance da mão. Na pensão de Eva, os homens comem o que há para comer: pratos congelados, carne enlatada, feijões em lata — tão diferentes dos que suas mães costuma­vam deixar cozinhando durante todo o sábado quando eram crianças —, macarrão pronto ou hambúr­gueres requentados comprados no McDonald’s de Falmouth na volta do trabalho. Eva está na sala da frente, irritada, jogando cartas com Grover Verrill e implicando com os inquilinos, gritando que limpem a sujeira e não façam bagunça. Eles nunca a viram desse jeito, nervosa e mal-humorada. Mas sabem o que ela tem, mesmo que ela não saiba.

O Sr. e a Sra. Petrie comem sanduíches na cozinha, tentando decifrar a ligação que haviam acabado de receber, do padre católico da cidade, Callahan: Seu filho está comigo. Ele está bem. Logo o levarei para casa. Até logo. Pensaram em ligar para o delegado do lugarejo, Parkins Gillespie, mas decidiram esperar. Já haviam notado uma mudança no filho, que sempre foi um introspectivo, como dizia a Sra. Petrie. Contudo, os espectros de Ralphie e Danny Glick pairavam sobre eles sem que o admitissem.

Milt Crossen está comendo pão com leite nos fundos de sua loja. Quase não tinha mais apetite desde que a mulher morrera em 1968. Delbert Markey, proprietário do Dell’s, devora metodicamente os cinco hambúrgueres que preparou para si mesmo na grelha. Acompanha-os com mostarda e pilhas de cebolas cruas, e mais tarde se queixará para quem quiser ouvir que sua maldita acidez estomacal o está matando. Rhoda Curless, a governanta do padre Callahan, não come nada. Está preocupada com o padre, ainda na rua até aquela hora. Harriet Durham e sua família comem costeletas de porco. Carl Smith, viúvo desde 1957, come uma batata assada com uma garrafa de refrigerante Moxie. Os Derek Boddin jantam um pernil com couve-de-bruxelas. Aargh, diz Richie Boddin, o valentão deposto. Couve-de-bruxelas... Coma ou vai ganhar um safanão na orelha, diz Derek, que também as odeia.

Reggie e Bonnie Sawyer jantam um rosbife de costela, milho congelado, batata frita e, de sobremesa, pudim de chocolate com calda. São os pratos favoritos de Reggie. Bonnie, cujas contusões começam a se atenuar, serve em silêncio, os olhos baixos. Reggie come com atenção e seriedade, matando três latas de Budweiser durante a refeição. Bonnie come de pé. Continua dolorida demais para sentar. Não está com apetite, mas come assim mesmo, para que Reggie não repare e diga algo. Depois de espancar a mulher naquela noite, ele jogara seus anticoncepcionais na privada e a violentara. E vinha violentando-a todas as noites desde então.

Por volta das 19hl5, a maioria dos moradores já havia jantado, fumado seus cigarros ou charutos, tirado a mesa. Pratos eram lavados, enxaguados e postos para secar. Crianças vestiam pijamas e iam para a outra sala ver programas de auditório até a hora de dormir.

Roy McDougall, que acabara de queimar uma frigideira cheia de bifes de vitela, xinga alto e joga tudo — frigideira e bifes — no lixo. Veste a jaqueta de brim e parte para o Dell’s, deixando a gorda e inútil da sua mulher dormindo no quarto. O filho morto, a mulher sem forças, o jantar queimado. Hora de encher a cara. E talvez de fazer as malas e cair fora daquela porcaria de cidade.

Num pequeno apartamento na rua Taggart, que parte da avenida Jointner e acaba sem saída atrás do Paço Municipal, Joe Crane recebe um ambíguo presente dos deuses. Depois de comer uma pequena tigela de aveia e sentar para ver televisão, ele sentiu uma forte e súbita dor paralisar o lado esquerdo do peito e o braço esquerdo. O que é isso? Ataque cardíaco?, pensa ele. E é exatamente isso. Ele se ergue e avança meio-caminho até o telefone, mas a dor subitamente cresce e o derruba como um novilho atingido pelo martelo. Sua pequena TV em cores continua tagarelando. Levará 24 horas para que alguém o encontre. Sua morte, às 18h51, foi o único óbito natural ocorrido em Jerusalem’s Lot em 6 de outubro.

Às 19 horas, a panóplia de cores no horizonte se reduz a uma estreita linha alaranjada a oeste, como se fornalhas tivessem sido abafadas além da margem do mundo. A leste as estrelas já cintilam, com o brilho uniforme de diamantes. Elas são impiedosas nessa época do ano, não acolhem os amantes. Reluzem em linda indiferença.

Para as crianças, chegou a hora de dormir. Hora de serem colocadas nas camas e berços por pais que sorriem quando elas pedem para ficar acordadas só mais um pouquinho ou para deixarem uma luz acesa. E os pais abrem armários pacientemente, mostrando que não há nada dentro deles.

Mas, em torno dos moradores, a bestialidade da noite irrompe em asas tenebrosas. A hora do vampiro chegou.

17

Matt cochilava quando Jimmy e Ben entraram. Despertou com um sobressal­to, apertando a cruz que segurava com a mão direita.

Olhou para Jimmy e depois para Ben, com mais vagar.

— O que houve?

Jimmy contou-lhe brevemente. Ben não disse nada.

— E o corpo dela?

— Callahan e eu o colocamos de cara para baixo numa caixa que encontramos no porão, talvez a mesma em que Barlow chegou à cidade. E a jogamos no rio Royal há menos de uma hora, cheia de pedras. Fomos com o carro de Straker. Se alguém o viu ao lado da ponte, pensará que era ele.

— Agiram bem. Onde está Callahan? E o menino?

— Foram para a casa de Mark. Precisam contar tudo aos pais dele. Barlow os ameaçou diretamente.

— Será que eles vão acreditar?

— Se não acreditarem, Mark pedirá que os pais liguem para você.

Matt assentiu. Parecia muito cansado.

— Ben, venha aqui — disse ele. — Sente na cama.

Ben obedeceu, o rosto pálido e confuso. Sentou e cruzou as mãos com cuidado sobre o colo. Seus olhos estavam febris.

— Nada pode consolar você agora — disse Matt, tomando uma das mãos dele entre as suas. — Não importa. O tempo lhe trará consolo. Ela está em paz.

— Ele nos fez de bobos — disse Ben, com a voz entorpecida. — Zombou de cada um de nós. Jimmy, mostre a carta para Matt.

Jimmy entregou o envelope a Matt. Ele tirou o espesso papel e o leu com cuidado, segurando a folha a centímetros do rosto, movendo os lábios de leve. Depois, largou a folha e disse:

— Sim, é ele. Seu ego é maior ainda do que eu imaginava. Me dá calafrios.

— Ele a deixou lá para nos pregar uma peça — continuou Ben, com a mesma voz inexpressiva. — Saiu de lá muito antes. Lutar com ele é como lutar com o vento. Devemos parecer insetos para ele. Formigas atarantadas que o divertem.

Jimmy abriu a boca para falar algo, mas Matt balançou levemente a cabeça.

— Isso está longe de ser verdade — disse ele. — Se ele pudesse levar Susan, teria levado. Não desistiria de seus Desmortos por uma brincadeira, já que são tão poucos. Pare um pouco e pense no que fizeram com ele. Mataram seu leal servo, Straker. Ele próprio admitiu que foi obrigado a participar do assassinato devido a seu apetite insaciável! Como deve ter ficado aterrorizado ao despertar e descobrir que uma criança, desarmada, destruíra um homem tão temível.

Matt se ergueu na cama com alguma dificuldade. Ben se voltou para ele e o olhou, demonstran­do algum interesse pela primeira vez desde que saíra da Casa Marsten.

— E talvez não seja nem essa a maior vitória — refletiu Matt. — Vocês o expulsaram de sua casa, do lar que ele escolhera. Jimmy disse que o padre Callahan esterilizou o porão com água benta e selou todas as portas com hóstias. Se ele entrar lá novamente, vai morrer... e ele sabe.

— Mas ele escapou — disse Ben. — Que diferença faz?

— Sim, escapou — concordou Matt. — Mas onde dormiu hoje? No porta-malas de um carro? Na adega de uma de suas vítimas? Talvez no porão da velha Igreja Metodista, no pântano, que pegou fogo no incêndio de 51? Seja onde for, acha que ele gostou ou que se sentiu seguro?

Ben não respondeu.

— Amanhã, vocês começarão a caçada — disse Matt, apertando com força a mão de Ben. — Não só de Barlow, mas também dos peixes pequenos, è muitos peixes pequenos surgirão depois desta noite. A fome deles jamais é saciada. Sempre querem mais. As noites pertencem a ele, mas, durante o dia, vocês o perseguirão e acossarão até ele se apavorar e fugir. Ou até vocês o arrastarem, com a estaca no coração, para a luz do dia!

Ben começou a erguer a cabeça enquanto Matt falava. Seu rosto assumiu um ânimo quase sobrenatural. Um sorriso começou a se formar em seus lábios.

— Sim, isso mesmo — murmurou. — Mas não amanhã. Esta noite mesmo. Agora.

Matt agarrou o ombro de Ben com surpreendente energia.

— Não. Passaremos esta noite juntos, você, eu, Jimmy, o padre Callahan, Mark e os pais dele. Agora ele sabe... e está com medo. Só um louco ou um santo ousaria se aproximar de Barlow durante a noite que o protege. E não somos nem santos, nem loucos. — Ele fechou os olhos e disse baixinho. — Acho que estou começando a conhecê-lo. Fico deitado nessa cama, dando uma de Mycroft Holmes, tentando adivinhar seus passos e me colocando em seu lugar. Ele vive há séculos, é uma criatura brilhante. Mas também é um egocêntrico, como sua carta indica. Por que não seria? Seu ego cresceu como uma pérola, camada por camada, até ficar imenso e venenoso. Ele é todo orgulho e presunção. E sua sede de vingança deve ser suprema, aterrorizante, mas, quem sabe, podemos usá-la a nosso favor.

Ele abriu os olhos e olhou solenemente para os dois. Ergueu a cruz.

— Isto detém a ele, mas talvez não a outros que ele pode manipular, como manipulou Floyd Tibbits. Acho que tentará eliminar alguns de nós hoje à noite... ou talvez todos nós.

Olhou para Jimmy.

— Acho que não foi uma boa decisão mandar o padre Callahan falar com os pais de Mark. Podíamos ter ligado daqui e pedido que viessem, sem saber de nada. Agora, estamos divididos. Estou preocupado principalmente com o menino. Jimmy, é melhor ligar para eles. Agora.

— Certo. — Ele levantou.

Matt olhou para Ben.

— E você? Vai ficar conosco? Vai lutar conosco?

— Vou — respondeu ele com voz rouca. — Vou.

Jimmy saiu do quarto, foi até o balcão do corredor e procurou o número dos Petries na lista telefônica. Discou rapidamente, e foi tomado por um horror doentio quando o som agudo de uma linha desligada entrou no lugar do toque de chamar.

— Ele os pegou! — exclamou.

A enfermeira-chefe ergueu os olhos ao ouvir o tom de sua voz e se assustou com a expressão de seu rosto.
18

Henry Petrie era um homem culto. Era bacharel pela Northwestern, mestre pela Massachusetts Tech e doutor em economia. Deixara um bom cargo como professor do ensino superior para aceitar um posto administrativo na Companhia Consultiva de Seguros, mais por curiosidade do que por expectativa de ganhos financeiros. Queria ver se algumas de suas teorias econômicas também funcionariam na prática. E funcionaram. No verão seguinte, ele pretendia passar na prova de auditor público e, dois anos depois, na prova da ordem. Sua meta era começar os anos 80 com um cargo econômico nas altas esferas do governo federal. A tendência sonhadora de Mark não viera do pai, que seguia uma lógica exata e planejava seu mundo com quase total precisão. Era democrata de carteirinha e votara em Nixon nas eleições de 1972, não porque acreditasse que o homem fosse honesto — costumava dizer à mulher que Richard Nixon era um pilantra sem imaginação com a elegância de um trombadinha —, mas porque o adversário era um piloto desmiolado que levaria o país ao desastre econômico. Assistira à contracultura do final dos anos 60 com calma e tolerância, acreditando que acabaria sem causar maiores estragos, já que não se apoiava em nenhuma base econômica. Seu amor pela mulher e o filho não era lírico — ninguém jamais escreveria um poema sobre a paixão de um homem que enrolava as meias na frente da mulher —, mas era firme e inabalável. Ele era reto como uma flecha, confiante em si mesmo e nas leis naturais da física, da matemática, da economia e (em menor grau) da sociologia.

Ouviu a história contada pelo filho e pelo vigário da cidade bebendo uma xícara de café e fazendo-lhes perguntas lúcidas quando o fio da narrativa se tornava emaranhado ou obscuro. Sua calma crescia na mesma medida em que a história ficava mais grotesca e a agitação de sua mulher, June, crescia. Quando terminaram o relato, eram quase 19h05. Henry Petrie declarou seu veredicto com quatro sílabas calmas e refletidas.

— Impossível.

Mark suspirou, olhou para Callahan e disse:

— Eu não falei? — E ele falara mesmo, quando saíram do presbitério no carro velho de Callahan.

— Henry, você não acha que...

— Espere.

Essa palavra e a mão erguida (quase com negligência) bastaram para calar a mulher. June sentou e passou o braço ao redor de Mark, afastando-o ligeiramente do padre Callahan. O menino se submeteu.

Henry Petrie lançou um olhar amistoso para o padre.

— Vamos tentar resolver esse delírio, ou seja o que for, como dois homens racionais.

— Talvez seja impossível — retrucou Callahan, com igual amabilidade —, mas pode ter certeza de que tentarei. Estamos aqui, Sr. Petrie, especificamente porque Barlow ameaçou o senhor e sua mulher.

— O senhor realmente cravou uma estaca no coração de uma moça?

— Não fui eu. Foi o Sr. Mears.

— O corpo continua lá?

— Foi jogado no rio.

— Se essa parte for verdade, vocês envolveram meu filho num crime. Já pensou nisso?

— Já. Foi necessário. Sr. Petrie, por que não liga para Matt Burke no hospital e...

— Ora, sei que seu amigo confirmará o que disse — disse Petrie, ainda com o mesmo sorriso brando e irritante. — É um dos aspectos fascinantes dessa insensatez. Posso ver a carta que esse tal de Barlow lhes deixou?

Callahan praguejou mentalmente.

— Está com o Dr. Cody. — E acrescentou, numa reflexão tardia. — É melhor irmos todos para o hospital de Cumberland. Se falarem com...

Petrie abanou a cabeça.

— Vamos conversar mais um pouco. Não duvido que suas testemunhas sejam confiáveis. O Dr. Cody é nosso médico de família, e todos gostamos muito dele. Também já me deram a entender que Matthew Burke está acima de qualquer crítica... pelo menos como professor.

— Mas, mesmo assim...

— Padre Callahan, deixe-me fazer uma comparação. Se dúzias de testemunhas confiáveis lhe dissessem que uma joaninha gigante cruzou o parque da cidade em plena luz do dia cantando “Sweet Adeline” e agitando a bandeira americana, o senhor acreditaria?

— Se tivesse certeza de que as testemunhas eram confiáveis e não estavam brincando, acho que eu acabaria acreditando.

Ainda com seu sorriso condescendente, Petrie disse:

— É aí que nós diferimos.

— O senhor tem a mente fechada, Sr. Petrie — disse Callahan.

— Não, simplesmente esclarecida.

— Dá na mesma. Diga-me, a companhia onde trabalha aprova que seus executivos tomem decisões baseando-se em crenças internas em vez de em fatos externos? Isso não é lógica, Petrie. É dogmatismo.

Petrie parou de sorrir e levantou.

— Essa história é perturbadora, admito. Envolveram meu filho em algo demente, talvez perigoso. Terão muita sorte se não terminarem no tribunal por causa disso. Vou ligar para seus amigos e falar com eles. Em seguida, iremos visitar o Sr. Burke no hospital e discutiremos a questão.

— Muito obrigado por contrariar seus princípios — disse Callahan secamente.

Petrie foi até a sala e pegou o telefone. Não ouviu sinal de discar — a linha estava muda. Franzindo a testa, ele mexeu nos botões. Nenhuma resposta. Devolveu o fone ao gancho e voltou para a cozinha.

— O telefone não está funcionando — informou.

Viu que o filho e o padre Callahan trocavam um olhar cúmplice e amedrontado e ficou irritado.

— Garanto que o serviço telefônico de Jerusalem’s Lot não precisa de vampiros para funcionar mal — disse ele, com mais aspereza do que era sua intenção.

As luzes se apagaram.

19

Jimmy voltou correndo para o quarto de Matt.

— O telefone da casa dos Petries foi cortado. Acho que ele está lá. Droga, como fomos idiotas...

Ben levantou da cama. O rosto de Matt se contraiu num espasmo.

— Viram como ele age? — murmurou. — Com que precisão? Se ao menos ainda restasse uma hora de luz do dia, poderíamos... Mas não. Acabou.

— Temos de ir até lá — disse Jimmy.

— Não! Não façam isso! Se temem pela vida de vocês e pela minha, fiquem aqui.

— Mas eles...

Não podemos fazer nada! O que está acontecendo já terá terminado quando chegarem lá!

Eles pararam junto à porta, indecisos.

Matt se ergueu, juntou suas forças e falou com calma, mas com energia.

— O ego dele é grande, assim como seu orgulho. São falhas que podemos explorar. Mas sua inteligência também é grande, e precisamos levá-la em conta e respeitá-la. Na carta, ele menciona o jogo de xadrez. Não duvido que seja um exímio jogador. Não percebem que ele poderia ter cumprido sua missão naquela casa sem desligar a linha? Fez isso para que saibam que uma das peças brancas do tabuleiro está em xeque. Sabe que é mais fácil vencer quando as forças adversárias estão confusas e divididas. Vocês permitiram que ele fizesse a primeira jogada porque se esqueceram disso, e o grupo se dividiu em dois. Se saírem correndo para a casa dos Petries, o grupo será dividido em três. Estou sozinho e acamado, uma presa fácil, apesar das cruzes, dos livros e dos sortilégios. É fácil para ele mandar um de seus quase-mortos me matar com uma arma ou uma faca. E restarão apenas vocês dois, correndo como baratas tontas para sua própria destruição. E ’salem’s Lot será dele. Será que não vêem isso?

Ben foi o primeiro a falar.

— Sim, eu vejo.

Matt curvou os ombros.

— Não digo isso para proteger minha vida, Ben. Você tem de acreditar. E nem mesmo para proteger a vida de vocês. Temo pela cidade. Não importa o que aconteça, alguém precisa sobrar para acabar com ele amanhã.

— Isso mesmo. E ele não acabará comigo antes de eu vingar Susan.

Um silêncio caiu sobre eles.

Jimmy Cody o quebrou.

— Talvez eles escapem — disse, pensativo. — Acho que ele subestimou Callahan, e com certeza subestimou Mark. Aquele menino é impressionante.

— Tomara que sim — disse Matt, fechando os olhos.

E eles se prepararam para esperar.

20

Donald Callahan estava de um lado da espaçosa cozinha, erguendo sobre a cabeça o crucifixo da mãe, que espalhava pelo ambiente um esplendor sobrenatural. Barlow estava do outro lado, perto da pia, prendendo os braços de Mark com uma mão, com a outra segurando o pescoço do menino. Entre eles, Henry e June Petrie, estirados sobre o chão entre os cacos de vidro produzidos pela entrada de Barlow.

Callahan estava aturdido. Tudo acontecera com tamanha rapidez que ele ainda não se recupera­ra. Num momento estava discutindo a situação racionalmente (na medida do possível) com Petrie sob a luz clara e direta das lâmpadas da cozinha. No outro, ele fora atirado na insanidade que o pai de Mark acabara de negar com tanta calma e firmeza.

Tentou reconstituir o que acontecera.

Petrie voltara e dissera que o telefone não estava funcionando. Momentos depois, as luzes se apagaram. June Petrie gritou. Uma cadeira tombou no chão. Durante alguns momentos, eles tatearam em meio à escuridão, chamando uns pelos outros. Depois a janela sobre a pia se estilhaçara, espalhan­do cacos de vidro sobre o balcão e o piso de linóleo. Tudo isso no intervalo de trinta segundos.

Então um vulto penetrara na cozinha, tirando Callahan do transe em que mergulhara. Ele agarrou a cruz pendurada em seu pescoço, e, assim que a tocou, o ambiente se iluminou com a sua luz misteriosa.

Viu Mark tentando arrastar a mãe para o arco que dava para a sala. Henry Petrie estava ao lado deles, o rosto antes calmo agora pálido, boquiaberto diante daquela invasão totalmente ilógica. E atrás dele, assomando sobre eles, um rosto lívido e sorridente como uma figura de um quadro de Frazetta, com presas longas e afiadas, olhos vermelhos e lúridos como as portas do inferno. Barlow estendeu as mãos (Callahan conseguiu ver como eram longos e sensíveis aqueles dedos brancos, como os de um pianista), pegou a cabeça de Henry Petrie com uma, a de June com a outra, e as bateu uma contra a outra com um estalido surdo e repugnante. Os dois tombaram como pedras. Barlow cumprira sua primeira ameaça.

Mark dera um grito agudo e penetrante e se atirara contra Barlow.

— Olhe quem está aqui! — Barlow trovejou amavelmente, com a voz profunda e poderosa. Mark o atacou sem pensar, e foi capturado imediatamente.

Callahan avançou, erguendo a cruz.

O sorriso de triunfo de Barlow na mesma hora se transformou num ricto de agonia. Ele recuou em direção à pia, arrastando o menino à sua frente. Seus pés esmagaram o vidro quebrado.

— Em nome de Deus... — começou Callahan.

Ao ouvir o nome da Divindade, Barlow gritou como se tivesse levado uma chicotada, escancarando a boca para baixo, as presas pontudas faiscando. Os tendões de seu pescoço se projetaram em nítido relevo contra a pele.

— Nem mais um passo! — gritou. — Nem mais um passo, xamã! Ou abrirei a jugular do menino antes que você consiga piscar os olhos! — ao falar, ergueu o lábio superior, mostrando os dentes longos e afiados, e quando terminou, mergulhou a cabeça velozmente em direção ao pescoço de Mark, parando milímetros antes de tocar a pele.

Callahan estacou.

— Afaste-se — ordenou Barlow, sorrindo novamente. — Você no seu lado do tabuleiro, eu no meu, hã?

Callahan recuou lentamente, ainda segurando a cruz diante do rosto, espiando por cima dela. A cruz parecia pulsar com fogo contido, e sua energia transmitia-se por seu antebraço, fazendo seus músculos tremerem.

Eles se encararam.

— Enfim, juntos! — exclamou Barlow, sorrindo. Seu rosto era forte, inteligente e belo, mas brutal e sombrio. Quando a luz mudou de ângulo, pareceu quase efeminado. Onde ele já vira aquele rosto antes? E a imagem lhe vedo, naquele momento do mais extremo pavor. Era o rosto do Sr. Flip, o bicho-papão de sua infância, a coisa que se escondia no armário durante o dia e saía depois que sua mãe fechava a porta do quarto. Seus pais não lhe deixavam nenhuma luz acesa, pois achavam que o melhor modo de vencer os medos infantis era enfrentá-los, sem concessões. E todas as noites, quando a porta se fechava e os passos de sua mãe se afastavam pelo corredor, a porta do armário abria uma fresta, e ele pressentia (ou via?) o rosto fino e pálido e os olhos febris do Sr. Flip. E lá estava ele de novo, fora do armário, olhando por sobre os ombros de Mark com o rosto branco de palhaço, os olhos vermelhos e brilhantes, os lábios sensuais.

— E agora? — disse Callahan, sentindo que a voz deixara de ser sua. Olhava para os dedos de Barlow, aqueles dedos longos e sensíveis que pressionavam a garganta do menino. Viu pequenas manchas azuis neles.

— Depende. O que você me dá em troca deste pirralho miserável? — Ele deu um puxão brusco nos pulsos de Mark, tentando pontuar sua pergunta com um grito, mas o menino o frustrou. Fora o ar que escapou entre seus dentes cerrados, ele permaneceu em silêncio.

— Você ainda vai gritar — sussurrou Barlow, e seus lábios se crisparam num esgar de ódio animal. — Vai gritar até explodir sua garganta!

— Pare com isso! — gritou Callahan.

— Devo parar? — O ódio sumira de seu rosto, substituído por um sorriso sombrio e gracioso. — Devo deixar o garoto viver mais uma noite?

— Sim!

Com voz macia, quase ronronante, Barlow disse:



— Então, concorda em jogar fora a cruz e me enfrentar de igual para igual? Sua fé contra a minha?

— Sim — disse Callahan, mas com menos firmeza.

— Então, jogue! — Os lábios cheios se franziram, expectantes. A fronte alta brilhou à estranha luz que banhava o ambiente.

— E confiar que vai soltar o menino? Seria o mesmo que pôr uma cascavel dentro da camisa e confiar que não me morderia.

— Mas eu confio em você... veja!

Ele soltou Mark e recuou, com as mãos para o alto, vazias.

Mark ficou imóvel, sem acreditar por um momento, e depois correu para os pais sem olhar para Barlow.

— Corra, Mark! — gritou Callahan. — Corra!

Mark olhou para ele, com os olhos arregalados e escuros.

— Acho que eles morreram...

Corra!

Mark se ergueu lentamente. Virou-se e olhou para Barlow.

— Não demorará, irmãozinho — disse Barlow, quase com bondade. — Não demorará para que nós dois...

Mark cuspiu em seu rosto.

Barlow parou de respirar. Sua testa se toldou com uma fúria que revelou que sua expressão anterior não passara de encenação. Por um momento, Callahan viu uma loucura assassina em seus olhos.

Você cuspiu em mim — Barlow sussurrou. Seu corpo tremia, quase sacudia de ódio. Deu um passo vacilante para frente como um cego abominável.

Para trás! — Callahan gritou, estendendo a cruz.

Barlow deu um grito e protegeu o rosto com as mãos. A cruz refulgiu com um brilho ofuscante e sobrenatural. E foi naquele instante que Callahan poderia tê-lo banido se tivesse ousado avançar.

— Eu vou te matar — disse Mark.

E ele se foi, como que levado por um turbilhão.

Barlow pareceu crescer. Seus cabelos, penteados para trás à moda européia, pareciam flutuar em torno de sua cabeça. Usava um terno preto e uma gravata cor de vinho, com nó impecável. Para Callahan, ele era parte integrante da escuridão que o cercava. Seus olhos saltavam das órbitas como brasas malignas.

— Agora cumpra sua parte do trato, xamã.

— Eu sou um padre! — Callahan protestou.

Barlow simulou uma reverência.

Padre... — disse ele, com o mesmo desprezo que teria por um peixe morto.

Callahan hesitou. Por que jogar a cruz? Ele podia expulsá-lo, terminar a noite em empate, e no dia seguinte...

Mas uma parte mais profunda de sua mente o alertou. Recusar o desafio do vampiro era arriscar possibilidades muito mais graves. Se ele ousasse não se desfazer da cruz, seria o mesmo que admitir... que admitir... o quê? Se ao menos tudo não acontecesse tão rápido, se ele tivesse tempo de pensar, de raciocinar...

O brilho da cruz estava morrendo.

Ele a olhou, arregalando os olhos. O medo queimou suas entranhas como um choque elétrico. Levantou a cabeça bruscamente e encarou Barlow. Ele caminhava em sua direção, o sorriso largo, quase voluptuoso.

— Para trás — Callahan disse roucamente, recuando um passo. — Eu ordeno, em nome de Deus.

Barlow riu com escárnio.

O brilho na cruz era apenas um fio de luz em forma de crucifixo. As sombras avançaram sobre o rosto do vampiro outra vez, conferindo-lhe traços estranhamente bárbaros, acentuados pelas altas maçãs do rosto.

Callahan recuou mais um passo e chocou-se contra a mesa da cozinha, encostada na parede.

— Não há para onde ir — murmurou Barlow com tristeza. Seus olhos escuros transbordavam de júbilo infernal. — É triste ver a fé de alguém vacilar. Bom, é a vida...

A cruz tremeu na mão de Callahan, e, subitamente, o que restava de sua luz se extinguiu. Ela voltou a ser apenas um pedaço de gesso que sua mãe comprara numa loja de suvenires de Dublin, provavelmente a um preço extorsivo. O poder que transmitira para seu braço, e que parecera capaz de derrubar paredes e estilhaçar pedras, se esvaíra. Os músculos ainda se lembravam da força, mas não conseguiam reproduzi-la.

Barlow estendeu a mão em meio às sombras e tirou a cruz de suas mãos. Callahan soltou um grito de desespero, o mesmo grito que vibrara na alma — mas nunca na garganta — daquela criança que a cada noite era deixada sozinha com o Sr. Flip, que a espiava pela fresta do armário. E o som que ouviu a seguir o atormentaria pelo resto da vida — dois estalidos quando Barlow quebrou os braços da cruz e a atirou no chão.

Maldito! — gritou.

— É tarde demais para esse melodrama — disse Barlow em meio à escuridão. Sua voz era quase pesarosa. — Não é necessário. Você esqueceu a doutrina de sua Igreja, não é? A cruz... o pão e o vinho... o confessionário... são apenas símbolos. Sem fé, a cruz é apenas madeira; o pão, trigo assado; o vinho, uvas amargas. Se tivesse abdicado da cruz, teria me derrotado mais uma noite. De certo modo, era o que eu esperava. Faz tempo que não encontro um adversário de valor. O menino dá dez de você, falso padre.

De repente, mãos incrivelmente fortes emergiram das trevas e seguraram os ombros de Callahan.

— Acho que o olvido da morte que ofereço seria um alívio para você. Os Desmortos não têm memória, apenas fome e necessidade de servir ao Mestre. Eu poderia usá-lo. Poderia mandá-lo de volta para seus amigos. Mas será que é necessário? Sem você para liderá-los, eles não valem nada. E o menino contará a eles. Creio que há um castigo mais adequado para você, falso padre.

Callahan se lembrou do que Matt dissera: Hã coisas piores do que a morte.

Tentou se libertar, mas as mãos o prendiam com a força de um torno. Então uma das mãos o soltou. Ele ouviu o som de um tecido deslizando contra a pele nua e depois uma fricção.

As mãos avançaram para seu pescoço.

— Venha, falso padre. Conheça a verdadeira religião. Tome a minha comunhão.

Callahan compreendeu tudo num clarão medonho.

— Não! Não...

Mas as mãos eram implacáveis. Atraíram sua cabeça para perto, para perto...

— Agora, padre — sussurrou Barlow.

E Callahan sentiu a boca pressionar a pele fétida e fria da garganta do vampiro, onde uma veia aberta pulsava. Prendeu a respiração durante o que lhe pareceu uma eternidade, sacudindo a cabeça frenética e inutilmente, o sangue manchando suas faces, seu queixo, sua testa como uma pintura de guerra.

E, por fim, ele bebeu.

21

Ann Norton saiu do carro, sem se dar ao trabalho de levar as chaves, e começou a cruzar o estacionamento do hospital em direção às luzes do saguão. No céu, nuvens ocultavam as estrelas. Ela logo começaria a chorar. Mas não olhava para cima. Olhava para frente, andando como uma sonâmbula.

Ann era uma mulher muito diferente da que Ben Mears conhecera na primeira noite em que Susan o convidara para jantar com sua família. Naquela noite, ele vira uma senhora de estatura média, com um vestido de lã verde que não indicava abundância, mas sim conforto financeiro. Não era uma senhora bonita, mas tinha aparência bem-cuidada e agradável. Seus cabelos grisalhos haviam sido recentemente penteados,

Mas essa mulher estava apenas de chinelos. Não usava meias-calças, e suas varizes estavam expostas, salientes (embora não tão salientes como antes; a pressão sangüínea havia sido diminuída). Vestia um gasto roupão amarelo sobre a camisola. As mechas de seus cabelos voavam erraticamente ao sabor do vento. Seu rosto estava pálido, com olheiras profundas.

Ela dissera para Susan tomar cuidado com aquele Mears e seus amigos, alertara-a contra o homem que a assassinara. E Matt Burke o instigara. Tramaram tudo juntos. Sim, ela sabia. Ele lhe dissera.

Ela passara o dia todo doente, fraca, sonolenta e quase incapaz de sair da cama. E à tarde, quando caiu num sono profundo enquanto seu marido estava fora, preenchendo um inútil relatório sobre pessoas desaparecidas, ele aparecera para ela num sonho. Seu rosto era belo, autoritário, arrogan­te e forte. Seu nariz era aquilino, os cabelos penteados para trás, a boca cheia, fascinante, ocultava dentes brancos e estranhamente excitantes que apareciam quando ele sorria. E os olhos... eram vermelhos e hipnóticos. Quando ele olhava para a gente com aqueles olhos, a gente não conseguia olhar para outro lado... nem queria.

Ele lhe contara tudo e lhe dissera o que ele deveria fazer. Depois que fizesse, poderia se encontrar com a filha e com muitos outros... e com ele. Apesar de Susan, era a ele que ela queria agradar, para que lhe desse o que ela precisava desesperadamente: o toque; a penetração.

O 38 do marido estava em seu bolso.

Ela entrou no saguão e olhou para a recepção. Se alguém tentasse detê-la, ela daria um jeito. Não com tiros. Não devia disparar nenhum até chegar ao quarto de Burke. Fora ele quem lhe dissera. Se a pegassem e a impedissem de cumprir sua missão, ele não a visitaria, nem lhe daria beijos ardentes à noite.

Havia uma moça de touca e uniforme brancos na recepção, fazendo palavras cruzadas à luz suave do abajur sobre o balcão. Um servente acabava de entrar no corredor e se afastava de costas para elas.

A enfermeira de plantão levantou a cabeça com um sorriso ensaiado quando ouviu os passos de Ann, mas o sorriso se apagou quando viu a mulher de olhos fundos e roupas de dormir. Seus olhos sem vida brilhavam estranhamente, como se ela fosse um boneco de corda que alguém tivesse colocado em movimento. Devia ser uma paciente perdida, pensou ela.

— Senhora, se quiser...

Ann Norton tirou o 38 do bolso do roupão como um pistoleiro espectral. Apontou-o para a cabeça da enfermeira e disse:

— Vire-se.

A boca da enfermeira se abriu em silêncio. Ela engoliu o ar convulsivamente.

— Não grite. Se gritar, eu te mato.

Ela soltou o ar, muito pálida.

— Agora, vire-se.

A enfermeira ergueu-se lentamente e se virou. Ann Norton segurou o 38 pelo cano e reuniu todas as forças para bater na cabeça da enfermeira com a coronha.

Naquele exato instante, alguém lhe deu uma rasteira, e ela desmoronou.

22

A arma saiu voando.

A mulher com o gasto roupão amarelo não gritou, mas emitiu um gemido alto e gutural, quase um lamento. Ela rastejou atrás da arma como um caranguejo, e o homem que estava atrás dela, com a expressão perplexa e assustada, também se lançou em direção ao 38. Quando viu que ela o alcançaria primeiro, chutou-o para o outro lado do saguão.

— Ei! — gritou. — Socorro!

Ann Norton olhou por cima do ombro e emitiu um som sibilante, o rosto contraído numa máscara de ódio, e voltou a rastejar atrás da arma. O servente voltou, correndo. Contemplou a cena por um momento, atônito, e depois pegou a arma que estava quase a seus pés.

— Minha nossa — disse ele. — Esta coisa está carrega...

Ela o atacou. Com as mãos como garras, arranhou o rosto do servente, abrindo riscos vermelhos na pele. Ele ergueu a arma sobre a cabeça. Ainda gemendo, ela alçou o corpo, tentando alcançá-la.

O homem perplexo chegou por trás e a agarrou. Mais tarde, ele diria que foi como agarrar um saco de cobras. O corpo sob a camisola estava quente e repulsivo, cada músculo se crispando e retorcendo.

Enquanto ela se debatia, o servente lhe deu um único murro no queixo. Ela girou os olhos para cima e desabou.

O servente e o homem perplexo se entreolharam.

A enfermeira da recepção gritava, com as mãos tapando a boca, o que dava aos gritos um singular efeito de sirene de nevoeiro.

— Que tipo de hospital é esse, afinal? — perguntou o homem perplexo.

— Não me pergunte — disse o servente. — O que aconteceu?

— Eu estava chegando para visitar minha irmã, que teve neném, quando um menino chegou para mim e disse que uma mulher armada tinha acabado de entrar. E...

— Que menino?

O homem perplexo que viera visitar a irmã olhou ao redor. O saguão estava se enchendo de pessoas, mas todas maiores de idade.

— Não o estou vendo agora. A arma está carregada?

— Com certeza — disse o servente.

— Que tipo de hospital é esse, afinal? — o homem perplexo perguntou novamente.

23

Eles viram duas enfermeiras passarem correndo em direção aos elevadores e ouviram um grito indistinto no andar de baixo. Ben olhou para Jimmy, que encolheu os ombros. Matt dormia com a boca aberta.

Ben fechou a porta e apagou as luzes. Jimmy se agachou em frente à cama de Matt. Quando ouviram passos se aproximando da porta, Ben postou-se ao lado dela, preparado. Quando ela se abriu e uma cabeça se introduziu pela fresta, ele a agarrou e apertou sua cruz no rosto do invasor.

— Me solta!

Uma mão deu socos fúteis no peito de Ben. Segundos depois, a luz do quarto se acendeu. Matt estava sentado na cama, olhando para Mark Petrie, que se debatia nos braços de Ben.

Jimmy se levantou dos pés da cama e correu para o menino, com a intenção de abraçá-lo. Mas hesitou.

— Levante o queixo.

Mark obedeceu, mostrando-lhes o pescoço sem marcas.

Jimmy relaxou.

— Puxa, nunca fiquei tão contente em ver alguém na minha vida. Cadê o padre?

— Não sei — respondeu Mark, cabisbaixo. — Barlow me pegou... e matou meus pais. Meus pais estão mortos. Ele bateu a cabeça deles uma na outra. Matou eles. Depois me pegou e falou para o padre Callahan que me soltaria se ele prometesse largar a cruz. Ele prometeu e eu saí correndo. Mas, antes, eu cuspi nele. E vou matar ele.

Ele oscilava na porta. Tinha marcas de espinhos nas faces e na testa. Atravessara correndo a floresta pela trilha onde Danny Glick e o irmão haviam encontrado a ruína tanto tempo atrás. Havia molhado as calças até os joelhos quando atravessara o córrego Taggart. Pegara uma carona, não lembrava com quem. Só lembrava que o rádio estava ligado.

Ben estava paralisado. Não sabia o que dizer.

— Pobre menino — disse Matt baixinho. — Pobre e corajoso menino...

Mark começou a contrair o rosto. Fechou os olhos, os lábios trêmulos.

— Minha mã... mãe...

Ele cambaleou e Ben o tomou nos braços, abrigando-o, acalentando-o, enquanto as lágrimas brotavam de seus olhos e manchavam sua camisa.

24

O padre Donald Callahan não fazia idéia de quanto tempo havia andado na escuridão. Voltara aos tropeços para o centro da cidade seguindo a avenida Jointner, sem se preocupar em pegar o carro, que deixara parado em frente à casa dos Petrie. Andava às vezes no meio da rua, às vezes ao lado da calçada. Uma hora um carro quase o pegou — os grandes faróis circulares brilharam e a buzina fez um grande alarde quando o motorista se desviou no último segundo, cantando os pneus. Outra hora ele caiu na vala do acostamento. Quando se aproximou da luz amarela que piscava, começou a chover.

Não havia ninguém na rua para notar sua passagem. ’Salem’s Lot se fechara para a noite ainda com mais precauções do que o habitual. O restaurante estava vazio. Na Spencer’s, a Srta. Coogan estava ao lado da caixa registradora, lendo uma revista de confissões sob a luz gelada das lâmpadas fluores­centes. Do lado de fora, sob a placa luminosa que mostrava o cachorro azul saltando, uma luz vermelha de néon dizia:

Ônibus

Os moradores estavam com medo, imaginou ele. E com bons motivos. Haviam captado o perigo, e naquela noite havia portas trancadas em Lot que não se fechavam havia anos... se é que um dia se fecharam.



Ele estava sozinho nas ruas. E era o único que não tinha nada a temer. Soltou uma gargalhada, um som que mais parecia um soluço desesperado. Nenhum vampiro se aproximaria dele. De outros, sim, mas não dele. O Mestre o marcara, e ele seria livre até que o Mestre reclamasse sua alma.

A igreja de St. Andrew assomou diante dele.

Callahan hesitou e depois se aproximou. Queria rezar. A noite inteira, se necessário. Não ao novo Deus, o dos guetos, da consciência social e do assistencialismo, mas ao velho Deus, que proclamara através de Moisés que nenhum feiticeiro deveria viver e que concedera ao próprio filho que renascesse dos mortos. Uma segunda chance, Deus. Farei penitência por toda a vida. Mas... só uma segunda chance.

Ele subiu tropegamente os largos degraus, a batina molhada e enlameada, a boca manchada com o sangue de Barlow.

No alto, ele fez uma pausa antes de estender a mão para a alça da porta.

Assim que a tocou, um clarão azul se produziu, e ele foi atirado para trás. A dor atingiu suas costas, e depois sua cabeça, peito, estômago e canelas quando ele rolou pelos degraus de granito até a calçada.

Ele estremeceu sob a chuva, a mão ardendo.

Ergueu-a diante dos olhos. Estava queimada.

— Impuro — murmurou. — Impuro. Meu Deus, tão impuro...

Começou a tremer. Abraçou os ombros, tremendo sob a chuva, a igreja assomando ao seu lado, as portas fechadas para ele.

25

Mark Petrie estava sentado na cama de Matt, exatamente no lugar que Ben ocupara antes. Enxugara as lágrimas com a manga da camisa, e, embora seus olhos estivessem inchados e inflamados, ele parecia ter-se controlado.

— Você sabe que a situação de ’salem’s Lot é desesperadora, não é? — perguntou-lhe Matt.

Mark fez que sim.

— Neste exato momento, os Desmortos que ele criou se arrastam sobre a cidade — prosseguiu Matt. — Produzindo outros. Eles não conseguirão pegar todos esta noite, mas vocês terão uma terrível missão amanhã.

— Matt, você precisa dormir — disse Jimmy. — Não sairemos daqui, não se preocupe. Sua cara não está boa. Tudo isso tem pesado muito sobre você e...

— Minha cidade está se desintegrando diante dos meus olhos e você quer que eu durma? — Seus olhos, infatigáveis, brilharam em seu rosto cansado.

Jimmy insistiu:

— Se quiser ficar para ver o final, precisa se poupar. Estou falando como seu médico, droga.

— Está bem. Daqui a pouco. — Ele os olhou com firmeza. — Amanhã vocês três devem ir à casa de Mark para fazer estacas. Muitas estacas.

Com um calafrio, eles compreenderam o significado do que ele dizia.

— Quantas? — perguntou Ben.

— Acho que precisarão no mínimo de trezentas. Aconselho que façam quinhentas.

— Impossível — declarou Jimmy. — Não podem ser tantos.

— Os vampiros têm sede — disse Matt. — É melhor se precaverem. Fiquem sempre juntos. Não se atrevam a se separar, nem durante o dia. Será uma caçada. Percorram toda a cidade, de um lado a outro.

— Nunca conseguiremos encontrar todos — objetou Ben. — Nem se começarmos ao amanhecer e terminarmos ao pôr-do-sol.

— Façam o que puderem, Ben. Talvez os moradores comecem a acreditar em vocês e até os ajudem, se lhes mostrarem que estão dizendo a verdade. E, quando a noite chegar, terão anulado boa parte do trabalho dele. — Matt suspirou. — É melhor não contarmos mais com o padre Callahan. É uma grande pena. Mas vocês devem ir em frente assim mesmo. Tomem muito cuidado. Preparem-se para mentir. Se forem presos, será perfeito para os propósitos dele. E, se ainda não pensaram nisso, é melhor começarem a pensar. É muito provável que, caso consigamos derrotá-lo, acabemos sendo julgados por assassinato.

Matt olhou para cada um deles. Deve ter ficado satisfeito com o que viu, pois voltou a dirigir a atenção exclusivamente para Mark.

— Você sabe qual é a principal tarefa, não?

— Sei — disse Mark. — Matar Barlow.

Matt sorriu com cansaço.

— Não vamos pôr o carro na frente dos bois. Primeiro precisamos encontrá-lo. — Ele olhou atentamente para o menino. — Você viu ou ouviu alguma coisa hoje, qualquer coisa, que possa nos ajudar a localizá-lo? Pense bem antes de responder! Sabe melhor do que ninguém como isso é importante.

Mark pensou. Ben nunca vira ninguém obedecer a uma ordem de modo tão literal. Ele apoiou o queixo na palma da mão e fechou os olhos. Parecia examinar deliberadamente cada detalhe do encontro daquela noite.

Finalmente abriu os olhos e sacudiu a cabeça.

— Nada.


Matt pareceu desapontado, mas não desistiu.

— Uma folha grudada ao casaco dele? Carrapatos na barra da calça? Terra nos sapatos? Algum detalhe que ele não se deu ao trabalho de ocultar? — Bateu na cama num gesto desesperado. — Santo Deus, será que ele não comete um deslize?

Mark de repente arregalou os olhos.

— O que foi? — disse Matt, agarrando o menino pelos cotovelos. — Lembrou-se de alguma coisa?

— Giz azul — disse Mark. — Ele passou um braço pelo meu pescoço, assim, e vi a mão dele. Os dedos eram compridos e brancos, e dois estavam manchados de giz azul. Eram manchas pequenas.

— Giz azul... — refletiu Matt.

— Uma escola — disse Ben. — Só pode ser.

— Mas não o colégio — disse Matt. — Todos os nossos materiais vêm da Dennison e Company, de Portland. Eles só fornecem gizes brancos e amarelos. Impregnaram minhas unhas e meus casacos durante anos.

— E nas aulas de arte? — perguntou Ben.

— Eles só têm artes gráficas no colegial, e usam tinta, e não giz. Mark, tem certeza de que...

— Era giz — afirmou ele.

— Pode ser que alguns professores de ciência usem gizes coloridos, mas não há onde se esconder no colégio. Você viu, é tudo plano, com paredes de vidro. Tem sempre gente entrando e saindo das despensas. E também da sala de calefação.

— E nos bastidores do teatro?

Matt encolheu os ombros.

— Lá é bem escuro. Mas se a Sra. Rodin dirigir a peça para mim, os alunos a chamam de Sra. Rodan, por causa de um filme de ficção científica japonês, a área será muito usada. Seria um grande risco para ele.

— E as escolas primárias? — perguntou Jimmy. — Os alunos devem aprender desenho nas primeiras séries. E aposto cem dólares que giz colorido faz parte da lista de materiais.

— A escola primária da rua Stanley foi construída com as mesmas verbas que o colégio. Também é moderna, plana e bem-aproveitada. E bem-iluminada, com muitas janelas de vidro. Não é o tipo de prédio preferido pelo nosso alvo. Eles gostam de prédios velhos, escuros, lúgubres, cheios de tradição, como...

— Como a escola da rua Brock — disse Mark.

— Isso mesmo. — Matt olhou para Ben. — A escola da rua Brock é um prédio de estrutura de madeira, com três andares e porão, erguido mais ou menos à mesma época que a Casa Marsten. Quando a verba para a nova escola estava para ser votada, falou-se muito na cidade que a escola oferecia risco de incêndio. Foi um dos motivos pelos quais conseguimos a verba. Uma escola em New Hampton pegara fogo dois ou três anos antes...

— Eu me lembro — murmurou Jimmy. — Em Cobb’s Ferry, não foi?

— Isso mesmo. Três crianças morreram queimadas.

— A escola da rua Brock ainda é usada? — perguntou Ben.

— Só o primeiro andar, com turmas da primeira à quarta série. O prédio todo será desativado daqui a dois anos, quando ampliarem a escola da rua Stanley.

— Barlow teria onde se esconder lá? — perguntou Ben.

— Acho que sim — respondeu Matt, mas com relutância. — As classes do segundo e do terceiro andar estão vazias. As janelas foram fechadas com tábuas porque muitas crianças atiravam pedras nelas.

— Então, é lá — disse Ben. — Só pode ser.

— É possível — disse Matt, aparentando muito cansaço. — Mas parece simples demais. Trans­parente demais.

— Giz azul — murmurou Jimmy, com olhar distante.

— Não sei — disse Matt, angustiado. — Simplesmente não sei.

Jimmy abriu a maleta preta e retirou um pequeno frasco de comprimidos.

— Tome dois com água — mandou ele. — Já.

— Não, temos muita coisa para analisar, muita coisa para...

— Por isso não podemos perder você — disse Ben com firmeza. — Se perdemos o padre Callahan, você é a pessoa mais importante agora. Faça o que ele disse.

Mark trouxe um copo d’água do banheiro. Matt cedeu de malgrado.

Eram 22hl5.

O silêncio caiu sobre o quarto. Ben achou que Matt parecia assustadoramente velho e cansado. Seus cabelos pareciam mais ralos, mais secos, e em poucos dias ele ganhara a aparência de alguém que levara uma vida sofrida. Fazia sentido, pensou Ben, que um profundo tormento, quando finalmente o atingiu, tivesse uma forma onírica e fantástica. Sua existência o preparara para enfrentar males simbó­licos, que ganhavam vida sob o abajur e desapareciam ao amanhecer.

— Estou preocupado com ele — disse Jimmy baixinho.

— Pensei que o ataque tivesse sido fraco — comentou Ben. — Que não tivesse chegado a ser um infarto.

— Foi uma leve obstrução. Mas o próximo não será leve. Será esmagador. Essa história vai matá-lo, se não acabar rápido. — Ele pegou o pulso de Matt e o apalpou com carinho. — E isso seria uma tragédia.

Eles esperaram ao lado da cama, dormindo e velando em turnos. Matt dormiu a noite toda, e Barlow não apareceu. Tinha afazeres em outro lugar.

26

A srta. Coogan lia um artigo chamado “Tentei Estrangular Nosso Filhinho”, na revista Confissões da Vida Real, quando a porta se abriu e o primeiro cliente da noite entrou.

Ela nunca vira tão pouco movimento. Ruthie Crockett e sua turma nem tinham aparecido para tomar um refrigerante — não que ela sentisse falta daquela corja —, e Loretta Starcher não passara para pegar o The New York Times. O jornal continuava sob o balcão, bem dobradinho. Loretta era a única pessoa em Jerusalem’s Lot que sempre comprava o Times (ela pronunciava o nome assim, com itálico). No dia seguinte, colocava-o na sala de leitura da biblioteca.

O Sr. Labree também não voltara do jantar, embora isso não fosse nada fora do comum. O Sr. Labree era um viúvo dono de um casarão no monte do Pátio da Escola, perto dos Griffens. A Srta. Coogan sabia muito bem que ele não ia para casa jantar. Ia para o Dell’s, onde comia hambúrgueres e tomava cerveja. Se ele não voltasse até as 11 (e faltavam 15 minutos), ela pegaria a chave na gaveta do dinheiro e trancaria a loja sozinha. Não seria a primeira vez. Mas os dois ficariam em maus lençóis se alguém chegasse precisando desesperadamente de algum remédio.

Ela às vezes sentia falta do movimento após a sessão de cinema, que costumava acontecer por volta daquela hora antes de a velha sala em frente ser demolida. Pessoas pedindo milk-shakes, frapês ou leite maltado, namorados de mãos dadas, falando dos trabalhos escolares. Fora uma época difícil, mas saudável Os jovens naquele tempo não eram como Ruthie Crockett e as amigas, que gostavam de exibir os seios e usar calças jeans tão justas que dava para ver a marca da calcinha — se é que usavam. Ela sentia saudade daqueles antigos clientes (que lhe haviam causado a mesma irritação, embora ela se esquecesse) e ergueu a cabeça esperançosa quando a porta se abriu, como se esperasse ver um aluno da turma de 1964 com a namorada, pronto para um sundae com cobertura de chocolate e nozes.

Mas era um homem, alguém que ela conhecia, mas não sabia de onde. Quando ele se aproxi­mou do balcão com a mala, algo em seu andar ou no movimento da cabeça revelou-lhe quem ele era.

— Padre Callahan! — exclamou ela, sem conseguir disfarçar a surpresa. Ela nunca o vira sem a batina antes. Ele vestia calças escuras simples e uma camisa azul de cambraia, como um operário comum.

De repente, ela sentiu medo. Ele usava roupas limpas e seu cabelo estava bem penteado, mas havia algo em seu rosto, algo que...

De repente, ela se lembrou do dia, vinte anos antes, quando voltara do hospital onde a mãe morrera de um súbito derrame. Quando contou ao irmão, ele ficou com uma expressão semelhante à do padre Callahan. Seu rosto tinha a palidez de um condenado, seus olhos estavam vagos e aturdidos, e tão inexpressivos que ela ficou alarmada. A pele ao redor da boca estava vermelha e irritada, como se ele tivesse se esfolado ao se barbear ou a esfregado com um pano por muito tempo, tentando remover uma mancha renitente.

— Quero comprar uma passagem de ônibus — disse ele.

Então era isso, pensou ela. Pobre homem, alguém morreu e ele acabou de receber a notícia no monastério, ou seja qual for o nome do lugar onde ele mora.

— Claro — disse ela. — Para onde...

— Qual é o primeiro ônibus?

— Para onde?

— Para qualquer lugar — disse o padre, destruindo a teoria dela.

— Bom, eu não sei... Deixe-me ver... — Ela se atrapalhou ao pegar o horário e o verificou, aturdida. — Tem um ônibus às onze e dez que passa em Portland, Hartford e Nova Y...

— Esse mesmo — disse ele. — Quanto é?

— Até quando... quer dizer, até onde? — Ela estava totalmente atrapalhada agora.

— Até a última parada — disse ele, e sorriu. Ela nunca vira um sorriso tão pavoroso num rosto humano. Recuou, assustada. Se ele encostar em mim, pensou ela, juro que eu grito.

— No... Nova York, então — disse ela. — São 29 dólares e 75 cents.

Ele tirou a carteira do bolso de trás com um pouco de dificuldade, e ela viu que sua mão direita estava enfaixada. Ele colocou uma nota de vinte e duas de um sobre o balcão, e ela derrubou uma pilha de passagens em branco no chão ao tirar uma do alto. Quando terminou de apanhá-las, ele já tirara mais cinco notas de um dólar e um monte de moedas da carteira.

A Srta. Coogan preencheu a passagem o mais rápido possível, mas nada seria rápido bastante. Sentia o olhar sem vida do padre sobre si. Carimbou a passagem e a empurrou sobre o balcão para não ter que encostar na mão dele.

— O... o senhor vai ter de esperar lá fora, padre Callahan. Vou fechar daqui a cinco minutos.

Jogou as notas e as moedas dentro da gaveta cegamente, sem pensar em contá-las.

— Tudo bem — disse o padre. Meteu a passagem no bolso da camisa. Sem olhar para ela, ele disse: — E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que ninguém que o encontrasse o matasse. E Caim, tendo se retirado da face do Senhor, andou como um fugitivo pela terra, ao leste do Éden. Está nas Escrituras, Srta. Coogan. É o trecho mais cruel da Bíblia.

— É mesmo? — disse ela. — Infelizmente o senhor precisa sair, padre Callahan. Eu... o Sr. Labree acabou de chegar, e ele não gosta que eu... que eu...

— Entendo. — Callahan começou a andar em direção à porta, mas parou e olhou para ela. A mulher se encolheu diante daqueles olhos mortiços. — Você mora em Falmouth, não é, Srta. Coogan?

— Moro...

— Tem carro?

— Claro que sim. O senhor precisa mesmo esperar lá fora e...

— Volte para casa rápido hoje, Srta. Coogan. Tranque as portas do carro e não pare para ninguém. Para ninguém. Não pare nem se for alguém conhecido.

— Nunca dou carona — disse a Srta. Coogan com ar virtuoso.

— E, quando chegar em casa, fique longe de Jerusalem’s Lot — prosseguiu Callahan. Ele a olhava fixamente. — A cidade está perdida agora.

— Não sei do que está falando — disse ela, amedrontada. — Mas terá que esperar o ônibus lá fora.

— Sim, tudo bem.

Ele saiu.

De repente, ela percebeu como a drogaria estava silenciosa. Será que ninguém, ninguém, entrara depois do anoitecer fora o padre Callahan? Não. Ninguém entrara.



A cidade está perdida agora.

Ela começou a apagar as luzes.

27

Em Lot, a escuridão era intensa.

Às dez para a meia-noite, Charlie Rhodes foi despertado por uma buzina longa e insistente. Sentou-se na cama bruscamente.

O ônibus!

E, logo em seguida:



Moleques desgraçados!

Eles já haviam feito coisas parecidas antes. Conhecia bem aqueles pilantrinhas. Uma vez, haviam esvaziado seus pneus com palitos de fósforos. Ele não vira quem fora, mas fazia uma boa idéia. Fora até a sala do maldito diretor e denunciara Mike Philbrook e Audie James. Sabia que haviam sido eles — quem precisava ver?



Tem certeza de que foram eles, Rhodes?

Foi o que eu disse, não foi?

E o molenga não pôde fazer nada a não ser suspender os moleques. Mas, uma semana depois, chamou-o de volta à sua sala.

Rhodes, suspendemos Andy Garvey hoje.

É? Não admira. O que ele aprontou?

Bob Thomas o pegou esvaziando seus pneus. E o diretor o fulminou com um olhar longo e frio.

E daí se fora Garvey em vez de Philbrook e James? Os três andavam juntos, os três eram safados, os três mereciam cintadas e salmoura.

E agora, estavam lá fora, apertando a buzina, acabando com sua bateria, enlouquecendo-o com aquele som:

Fom, fom, foooom...

— Seus filhos-da-mãe — murmurou ele, saindo da cama. Vestiu as calças sem acender a luz. Não queria assustar os miseráveis.

Noutra ocasião, alguém deixara um monte de bosta de vaca no banco do motorista do ônibus, e ele também tinha uma boa idéia de quem fora. Dava para ver nos olhos deles. Aprendera isso montando guarda na guerra. E resolvera a situação a seu modo. Expulsou o desgraçado do ônibus três dias seguidos, a seis quilômetros de casa. Finalmente o moleque o procurou chorando.

Eu não fiz nada, Sr. Rhodes. Por que está me expulsando do ônibus?

Então colocar merda de vaca no meu banco não é nada?

Não, não fui eu. Juro por Deus que não fui eu.

Ele tinha que admitir. Eles eram capazes de mentir para as próprias mães com a maior cara-de-pau. E deviam mentir mesmo. Expulsou o menino mais duas noites, e então ele confessou. Charlie o expulsou mais uma noite, só para garantir, mas Dave Felsen, da frota de ônibus escolares, lhe dissera para pegar leve.



Fooommm...

Ele enfiou a camisa e depois pegou uma velha raquete de tênis. Ia arrancar o couro daqueles moleques!

Saiu pela porta de trás e deu a volta pela casa até onde guardava seu grande ônibus amarelo. Sentia-se forte, frio e eficaz. Parecia uma tática de infiltração, como no Exército.

Ele parou atrás do loureiro e olhou para o ônibus. Sim, conseguia vê-los — era um bando deles, e as silhuetas escuras se recortavam atrás do vidro escuro. E veio-lhe a velha fúria, o ódio por aqueles moleques, queimando-o como gelo. Agarrou a raquete com mais força, fazendo com que tremesse em sua mão como um diapasão. Eles haviam arrebentado — seis, sete, oito — oito janelas de seu ônibus!



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