A hora do Vampiro



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EXAMES (ver folha anexa):

1. Exame epidérmico de tuberculose: Neg.

2. Exame de tuberculose por saliva e urina: Neg.

3. Diabetes: Neg.

4. Contagem de glóbulos brancos: Neg.

5. Contagem de glóbulos vermelhos: 45% hemoglobina.

6. Exame de medula: Neg.

7. Raios X do peito: Neg.

POSSÍVEL DIAGNÓSTICO: Anemia perniciosa, primária ou secundária; exame anterior mostra 86% de hemoglobina. Anemia secundária é improvável; não tem história de úlcera, hemorróidas et al. Contagem diferencial de glóbulos neg. Anemia primária combinada com choque emocional é o mais provável. Recomenda-se clister de bário e raios X para eliminar hemorragia interna, mas o pai diz não ter havido acidentes recentes. Recomenda-se também uma dosagem diária de vitamina B12 (ver folha anexa).

Aguardando outros exames, o paciente receberá alta.

G. M. Gorby

Médico responsável

14

A uma da manhã do dia 24 de setembro, a enfermeira entrou no quarto de Danny Glick para lhe dar sua medicação. Parou na porta, franzindo a testa. A cama estava vazia.

Seus olhos resvalaram da cama para o estranho embrulho de roupas brancas no chão.

— Danny? — disse ela.

Ela avançou um passo, pensando: ele teve de ir ao banheiro e não agüentou, foi isso.

Virou-o delicadamente, e a primeira coisa que pensou antes de perceber que estava morto foi que a vitamina B12 estava fazendo efeito, pois ele nunca parecera tão bem desde que fora internado.

Quando ela sentiu o pulso frio e a falta de movimento nas veias azuis claras que apalpava, correu até a enfermaria para comunicar uma morte em sua ala.

Capítulo Cinco

BEN (II)


1

No dia 25 de setembro, Ben voltou à casa dos Norton para jantar. Era uma noite de quinta-feira, e a refeição foi tradicional — salsicha com feijão. Bill Norton grelhou as salsichas na churrasqueira, e Ann deixara os feijões cozinhando no melado desde as nove da manhã. Depois de comer na mesa de piquenique, os quatro ficaram fumando e conversando sobre as poucas chances que o Boston tinha de ganhar o campeonato.

O tempo mudara sutilmente — continuava agradável, mesmo de mangas curtas, mas dava para sentir um começo de frio. O outono aguardava nos bastidores, quase se deixando ver. O grande e antigo bordo em frente da pensão de Eva Miller já começara a avermelhar.

Nada mudara na relação de Ben com os Norton. O afeto de Susan por ele era claro, franco e natural. E ele gostava muito dela. Sentia em Bill uma simpatia crescente, contida por um tabu incons­ciente, comum a todos os pais na presença de homens que os visitavam por causa das filhas, e não por eles mesmos. Um homem, quando simpatiza com outro, fala abertamente, sobre mulheres e política, entre uma cerveja e outra. Mas é impossível se abrir totalmente com um homem que é, potencialmente, o deflorador da filha. Depois do casamento, o potencial se concretizava, refletiu Ben, e seria possível ser realmente amigo de um homem que penetrava sua filha noite após noite? Devia haver uma moral ali, mas Ben duvidava.

Ann Norton continuava fria. Susan lhe falara um pouco de Floyd Tibbits na noite anterior — que sua mãe achava que já havia encontrado nele um genro satisfatório. Floyd era um elemento previsível, confiável. Ben Mears, por outro lado, viera do nada e podia sumir de uma hora para outra, levando o coração da filha no bolso. Ela desconfiava de homens criativos com uma aversão instintiva e interiorana (que Edward Alington Robinson ou Sherwood Anderson conheciam muito bem). Ben suspeitava que ela tivesse um lema: ou eram bichas, ou eram mulherengos. Também podiam ser homicidas, suicidas ou loucos. Costumavam cortar as orelhas esquerdas para mandá-las a mocinhas. A participação de Ben na busca de Ralphie Glick parecia ter aumentado as suspeitas dela, em vez de aplacá-las, e ele começava a achar que conquistá-la seria um feito impossível. Será que ela sabia que Parkins Gillespie o visitara?

Era o que ele pensava preguiçosamente quando Ann disse:

— Terrível o que aconteceu com o filho dos Glick.

— Ralphie? É mesmo — disse Bill.

— Não, o mais velho. Morreu.

Ben teve um sobressalto.

— Quem? Danny?

— Morreu na madrugada de ontem. — Ann parecia surpresa com o fato de os homens não saberem. Não se falava de outra coisa.

— Ouvi uns comentários no Milt — disse Susan. Procurou a mão de Ben sob a mesa, e ele a segurou de bom grado. — Como estão os pais?

— Como eu estaria — limitou-se a dizer Ann. — Fora de si.

E com razão, pensou Ben. Dez dias antes a vida deles seguia um ciclo costumeiro e seguro; e agora a família estava destruída, em pedaços. Um calafrio o percorreu.

— Você acha que o outro menino pode aparecer com vida? — Bill perguntou a Ben.

— Não. Acho que também está morto.

— Parece aquele caso em Houston, dois anos atrás — disse Susan. — Se ele estiver morto, eu quase torço para que não seja encontrado. Quem seria capaz de fazer algo assim com um menininho indefeso...

— A polícia deve estar investigando — disse Ben. — Procurando criminosos sexuais conhecidos, interrogando-os.

— Quando encontrarem o sujeito, deviam arrancar o couro dele — disse Bill. — Que tal uma partida de badminton, Ben?

— Não, obrigado — disse Ben, levantando. — Além do mais, parece que você está jogando buraco comigo no papel de morto. Obrigado pelo jantar delicioso. Ainda preciso trabalhar hoje.

Ann Norton ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada.

— Como vai o novo livro? — disse Bill, levantando.

— Bem — disse ele brevemente. — Quer descer comigo e tomar um refrigerante na Spencer’s, Susan?

— Não sei — Ann apressou-se a dizer. — Depois do que aconteceu com Ralphie Glick, eu ficaria mais sossegada se...

— Mãe, já estou grandinha — disse Susan. — E o monte Brock é todo iluminado.

— Vou trazê-la de volta, é claro — disse Ben, quase com formalidade. Ele deixara o carro na pensão para aproveitar o belo fim de tarde.

— Não tem perigo — disse Bill. — Você se preocupa demais, mãe.

— É, acho que sim. E os jovens sempre sabem de tudo, não é? — Ela deu um sorriso forçado.

— Vou só pegar uma jaqueta — Susan murmurou para Ben. Usava uma minissaia vermelha, e suas pernas ficaram ainda mais à mostra enquanto subia os degraus até a porta. Ben admirou-as, sentindo o olhar de Ann sobre si. Bill apagava o carvão da churrasqueira.

— Quanto tempo pretende ficar na cidade, Ben? — Ann perguntou, fingindo interesse educado.

— Pelo menos até acabar o livro — disse ele. — Depois, não sei. As manhãs aqui são lindas, o ar é uma delícia. — Ele sorriu para ela. — Pode ser que eu fique mais.

— Faz frio no inverno, Ben — disse ela, também sorrindo. — Um frio terrível.

Mas Susan já voltava, com uma jaqueta leve sobre os ombros.

— Pronto? Vou tomar um chocolate. É melhor minha pele ficar esperta.

— Sua pele vai sobreviver — disse ele, e se virou para o Sr. e a Sra. Norton. — Obrigado mais uma vez.

— Disponha — disse Bill. — Volte amanhã à noite e traga cerveja, se quiser. Vamos dar risada daquele maldito Yastrzemski.

— Ótimo — disse Ben. — Mas o que faremos se o jogo acabar no primeiro tempo?

A risada de Bill, forte e cordial, seguiu-os enquanto saíam da casa.

2

Eu não queria ir à Spencer’s — disse ela enquanto desciam o monte. — Você não prefere ir ao parque?



— E os assaltantes, mocinha? — perguntou ele, imitando o sotaque do Bronx.

— Em Lot, todos os assaltantes precisam voltar para casa às sete. É lei municipal. E agora são exatamente oito horas e três minutos. — A escuridão caiu sobre eles enquanto desciam o monte, e suas sombras cresciam e encolhiam à luz dos postes.

— Os assaltantes daqui são muito comportados — disse ele. — Ninguém vai ao parque à noite?

— Às vezes alguns adolescentes, quando não têm dinheiro para o drive-in — disse ela, e piscou para ele. — Então, se você vir algum movimento nas moitas, olhe para o outro lado.

Entraram pelo lado oeste, que dava para o Paço Municipal. O parque estava sombrio e um pouco fantasmagórico, os muros de concreto se curvando sob as árvores pesadas, a piscina brilhando silenciosamente sob a luz refratada da rua. Se alguém estava lá, Ben não via.

Contornaram o Memorial da Guerra, com suas longas listas de nomes, os mais antigos da Guerra da Independência, os mais novos da Guerra do Vietnã, todos gravados sob a Guerra de 1812. Seis nomes haviam sido acrescidos após o conflito mais recente, as letras talhadas no latão fulgindo como feridas abertas. O nome desta cidade está errado, pensou ele. Devia ser Tempo. E, como se movido por esse pensamento, ele tentou avistar a Casa Marsten, mas o Paço Municipal a ocultava.

Ela seguiu o olhar dele e franziu a testa. Enquanto estendiam as jaquetas na grama e sentavam (haviam desprezado tacitamente os bancos do parque), ela disse:

— Mamãe disse que Parkins Gillespie foi procurar você hoje. É que nem o menino novo da escola, suspeito de roubar o dinheiro do leite.

— Ele é uma figura — disse Ben.

— Para minha mãe, você já estava julgado e condenado. — Ela disse com leveza, mas sem conseguir ocultar a seriedade.

— Sua mãe não gosta muito de mim, não é?

— Não — disse Susan, segurando a mão dele. — Foi um caso de antipatia à primeira vista. Eu sinto muito.

— Tudo bem — disse ele. — Um gol eu já marquei.

— Com meu pai? — Ela sorriu. — Ele sabe reconhecer quando alguém tem classe. — Ela ficou séria. — Ben, sobre o que é seu novo livro?

— É difícil dizer. — Ele tirou os sapatos e enfiou os dedos dos pés na grama orvalhada.

— É melhor mudar de assunto.

— Não, não me importo em lhe dizer. — E ele descobriu, com surpresa, que era verdade. Sempre comparara um livro em andamento a uma criança, uma criança fraca, que precisava ser protegida e acalentada. Excesso de atenção poderia matá-la. Ele não dissera uma palavra a Miranda sobre Conway’s Daughter e Air Dance, embora ela tivesse ficado louca de curiosidade. Mas Susan era diferente. Miranda ficava sempre lhe sondando, e suas perguntas pareciam mais um interrogatório.

— Deixe-me pensar como explicar — disse ele.

— Pode me beijar enquanto pensa? — ela perguntou, deitando na grama. Ele foi obrigado a notar como a saía dela era curta, e agora subira ainda mais.

— Acho que vai interferir no meu raciocínio — disse ele, suavemente. — Vamos ver.

Ele se inclinou e a beijou, apoiando a mão de leve em sua cintura. Ela se entregou ao beijo, fechando as mãos sobre as dele. Ele sentiu a língua dela pela primeira vez, e a envolveu com a sua. Ela mudou de posição para se oferecer mais ao beijo, e o roçar suave do algodão de sua saia era quase enlouquecedor.

Ele deslizou a mão para cima, e ela arqueou as costas, oferecendo-lhe o seio macio e cheio. Pela segunda vez desde que a conhecera, ele se sentia um impetuoso rapaz de 16 anos, com o mundo diante de si, nenhum obstáculo à frente.

— Ben?

— Sim.


— Faça amor comigo. Você quer?

— Eu quero.

— Aqui na grama — disse ela.

— Sim.


Ela olhava para ele, os olhos largos e escuros.

— Faça ser bom.

— Vou tentar.

— Devagar — disse ela. — Devagar. Aqui...

Eles se tornaram sombras na escuridão.

— Aí — disse ele. — Ah, Susan...

3

Eles andaran pelo parque, primeiro sem destino, depois com mais resolução em direção à rua Brock.

— Está arrependida? — perguntou ele.

Ela olhou para ele e sorriu, sem artifícios.

— Não. Estou contente.

— Que bom.

Eles andaram de mãos dadas, em silêncio.

— E o livro? — perguntou ela. — Você ia me falar sobre o livro quando fomos tão docemente interrompidos.

— O livro é sobre a Casa Marsten — disse ele, lentamente. — No começo, não era para ser, não totalmente. Achei que seria sobre a cidade. Mas acho que estou me enganando. Pesquisei Hubie Marsten, sabe. Ele era um mafioso. A transportadora era só uma fachada.

Ela o olhou, surpresa.

— Como descobriu?

— Uma parte com a polícia de Boston e o resto com uma mulher chamada Minella Corey, a irmã de Birdie Marsten. Está com 79 anos. Não se lembra do que comeu no café da manhã, mas nunca se esqueceu de uma coisa que aconteceu antes de 1940.

— E ela lhe contou...

— Tudo o que sabia. Está numa casa de repouso em New Hampshire, e acho que fazia anos que ninguém se dava ao trabalho de ouvi-la. Perguntei se Hubert Marsten fora mesmo um assassino profissional na região de Boston, como a polícia acreditava, e ela fez que sim. “Quantos ele matou?”, perguntei. Ela levantou os” dedos na frente do rosto e os balançou de um lado para outro e disse: “Quantas vezes consegue contar meus dedos?”

— Meu Deus.

— A organização em Boston começou a ficar muito apreensiva com Hubert Marsten em 1927 — continuou Ben. — Ele foi interrogado duas vezes, uma pela polícia municipal e outra pela polícia de Malden. O caso em Boston era um assassinato no submundo do crime, e ele foi solto depois de duas horas. Mas o caso em Malden não fora um acerto de contas. Um menino de 11 anos fora assassinado e eviscerado.

— Ben... — disse ela, com a voz nauseada.

— Os chefes de Marsten livraram a pele dele, provavelmente porque ele sabia onde alguns corpos haviam sido enterrados, mas estava acabado em Boston. Mudou-se discretamente para ’salem’s Lot, parecendo ser apenas um executivo aposentado que recebia um cheque todo mês. Não saía muito de casa. Pelo menos até onde sabemos.

— Como assim?

— Passei muito tempo na biblioteca, consultando números antigos do Ledger, de 1928 a 1939. Quatro crianças desapareceram nesse período. Isso não é muito raro numa zona rural. Muitas crianças se perdem e às vezes morrem de frio. Ou são soterradas em algum deslizamento numa pedreira. É horrível, mas acontece.

— Mas você não acha que foi isso que aconteceu.

— Não sei. Mas sei que nenhuma das quatro crianças jamais foi encontrada. Nenhum esqueleto nunca foi encontrado por caçadores nem por pedreiros pegando cascalho para fazer cimento. Hubert e Birdie moraram naquela casa durante 11 anos e as crianças desapareceram. É tudo que se sabe. Mas fico pensando naquele menino de Malden. Penso muito. Você conhece o livro A Assombração da Casa da Colina, de Shirey Jackson?

— Conheço.

— “E o que por lá andasse, andava só.” Você perguntou sobre o que é meu livro. Basicamente, é sobre o poder recorrente do mal.

Ela apoiou a mão no braço dele.

— Você não acha que Ralphie Glick...

— Foi engolido pelo espírito vingativo de Hubert Marsten, que volta à vida a cada três anos na lua cheia?

— Algo assim.

— Está falando com a pessoa errada, se quer ser tranqüilizada. Lembre-se de que eu fui a criança que abriu uma porta no andar de cima e o viu pendurado numa viga.

— Isso não foi uma resposta.

— Tem razão. Deixe-me contar mais uma coisa antes de lhe dizer exatamente o que penso. Minella Corey disse que havia homens maus no mundo, maus de verdade. Às vezes ouvimos falar deles, mas geralmente eles agem em total anonimato. Disse que fora condenada a conhecer dois homens assim em sua vida. Um era Adolf Hitler. O outro era seu cunhado, Hubert Marsten. — Ele fez uma pausa. — Ela disse que no dia em que Hubie matou sua irmã, ela estava a 500 quilômetros de distância, em Cape Cod. Trabalhava como governanta para uma família rica naquele verão. Às duas e quinze da tarde, ela preparava uma salada numa grande vasilha de madeira. Uma dor aguda, “como um raio”, disse ela, atravessou sua cabeça, e ela ouviu um tiro. E desmaiou. Quando voltou a se levantar sozinha (não tinha mais ninguém na casa), vinte minutos haviam se passado. Olhou para a vasilha de madeira e gritou. Parecia que estava cheia de sangue.

— Meu Deus — murmurou Susan.

— Um instante depois, tudo estava normal de novo. A dor tinha passado, não havia nada na vasilha além da salada. Mas ela disse que tinha certeza de que a irmã estava morta, assassinada com um tiro.

— É a versão dela?

— Não foi comprovada, mas ela não é uma loroteira. É uma velha que não tem mais cabeça nem para mentir. Mas essa parte não me incomoda. Não muito, pelo menos. Hoje existem muitos dados sobre poderes extra-sensoriais, que as pessoas racionais podem desprezar, se quiserem. É mais fácil para mim, acreditar que Birdie tenha comunicado sua morte a uma distância de 500 quilômetros por um telégrafo psíquico do que acreditar na face do mal, essa face monstruosa, que às vezes penso ver entre os contornos daquela casa.

“Você me perguntou o que acho. Vou lhe dizer. Acho que é relativamente fácil para as pessoas aceitarem coisas na telepatia e na parapsicologia, porque não lhes custa nada. Não lhes tira o sono à noite. Mas a idéia de que um homem pode morrer e deixar o mal como legado é muito mais perturbadora.”

Ele olhou para a Casa Marsten e falou lentamente.

— Acho que aquela casa pode ser o monumento ao mal deixado por Hubert Marsten, uma caixa de ressonância psíquica. Ou um farol guiando o sobrenatural. Talvez guardando, durante todos esses anos, a essência do mal que Hubie deixou em seus alicerces velhos e decrépitos.

— E agora voltou a ser ocupada.

— E outra criança desapareceu. — Ele se virou e segurou o rosto de Susan entre as mãos. — Não tinha contado com isso quando voltei para cá, entende? Achei até que a casa tivesse sido derrubada, mas nunca imaginei que alguém a compraria. Pensei em alugá-la e... sei lá, confrontar meus velhos medos. Dar uma de exorcista, talvez. “Desapareça em nome de todos os santos, Hubie.” Ou talvez só absorver a atmosfera do lugar e escrever um livro assustador a ponto de me render um milhão de dólares. Mas, seja como for, eu sentia que tinha controle da situação, e isso faria toda a diferença. Eu não era mais um menino de nove anos, que sairia correndo aos berros de uma imagem que talvez só tenha existido na minha imaginação. Mas agora...

— O quê, Ben?

— Agora a casa está ocupada! — ele exclamou, batendo com o punho na mão. — Não estou mais no controle da situação. Um menino desapareceu, e não sei o que pensar disto. Pode não ter nada a ver com a casa, mas... Eu não acredito. — As últimas palavras saíram a intervalos tensos.

— Está falando de fantasmas? Espíritos?

— Não necessariamente. Talvez um cara inofensivo, que admirava a casa quando criança, resolveu comprá-la e ficou... possuído.

— Você sabe alguma coisa sobre... — ela começou, alarmada.

— O novo morador? Não. Estou só supondo. Mas, se a casa estiver por trás de tudo isso, eu quase prefiro que seja possessão e não outra coisa.

— O quê?


— A casa pode ter chamado outro homem maligno — disse ele simplesmente.

4

Ann Norton olhava pela janela. Já havia ligado para a drogaria. Não, dissera a Srta. Coogan, quase com satisfação. Eles não haviam estado lá.



Onde você está, Susan? Onde?

Sua boca se curvou numa expressão de impotência.



Vá embora, Ben Mears. Vá embora e deixe-a em paz.

5

Quando deixou os braços dele, ela disse:

— Faça algo importante por mim, Ben.

— Tudo que eu puder.

— Não mencione o que me disse para ninguém na cidade. Ninguém.

Ele abriu um sorriso triste.

— Não se preocupe. Não quero que as pessoas comecem a achar que fiquei biruta.

— Você tranca seu quarto na pensão?

— Não.

— Eu trancaria. — Ela o olhou com seriedade. — Precisa lembrar que está sob suspeita.



— De sua parte também?

— Estaria, se eu não te amasse.

E então ela se afastou rapidamente em direção à estrada, deixando-o a olhá-la, espantado com tudo que dissera e mais espantado ainda com as cinco ou seis palavras que ela lhe dissera no final.
6

De volta à pensão, ele se deu conta de que não conseguiria nem escrever nem dormir. Estava agitado demais. Então entrou no Citroën e, após um instante de indecisão, partiu em direção ao Dell’s.

O bar estava lotado, barulhento e enfumaçado. Uma banda de música Country chamada The Rangers tocava uma versão de “You’ve never been this far before”, que compensava em volume o que perdia em qualidade. Uns quarenta casais giravam pelo salão, a maioria usando jeans. Ben sorriu, lembrando da dança que Edward Albee inventara em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Os bancos na frente do balcão eram ocupados por pedreiros e operários da fábrica, todos bebendo copos idênticos de cerveja e usando botas de trabalho idênticas, amarradas com couro cru.

Duas ou três garçonetes, com penteados bufantes e os nomes bordados com linha dourada nas blusas brancas (Jackie, Toni, Shirley), circulavam entre as mesas e reservados. Atrás do balcão, Dell tirava cerveja, e no outro lado, um homem parecido com um falcão, brilhantina no cabelo, preparava drinques. Seu rosto permanecia inalterável enquanto media as bebidas em copos de dose, jogava-as na coqueteleira prateada e adicionava os outros ingredientes.

Ben andava em direção ao balcão, contornando a pista de dança, quando alguém o chamou.

— Ben! Você por aqui! Tudo certo, amigo?

Ben olhou ao redor e viu Weasel Craig sentado a uma mesa perto do balcão, segurando uma cerveja pela metade.

— Oi, Weasel — disse Ben, sentando-se. Sentiu alívio ao ver um rosto conhecido, e gostava de Weasel.

— Decidiu curtir um pouco a noite, amigo? — Weasel sorriu e lhe deu um tapa no ombro. “O cheque dele deve ter saído”, pensou Ben. Só seu bafo era capaz de levar Milwaukee para os noticiários.

— Pois é — disse Ben. Tirou um dólar do bolso e o colocou sobre a mesa, coberta com os vestígios circulares dos muitos copos de cerveja que haviam estado lá. — E aí, tudo bem?

— Tudo ótimo. O que está achando desse conjunto novo? Bom, não?

— É razoável — disse Ben. — Termine logo essa cerveja antes que esquente. Hoje é por minha conta.

— Estou esperando alguém dizer isso a noite toda. Jackie!— ele berrou. — Traga uma jarra para o meu amigo aqui. Budweiser!

Jackie trouxe a jarra numa bandeja coberta de moedas molhadas de cerveja e a colocou sobre a mesa, seu braço direito se dilatando como o de um lutador. Olhou para o dólar como se fosse uma nova espécie de barata.

— Custa um dólar e quarenta — disse ela.

Bill colocou outra nota sobre a mesa. Ela pegou as duas, pescou sessenta centavos em meio às poças da bandeja, colocou as moedas na mesa e disse:

— Weasel Craig, quando você grita daquele jeito, parece que alguém está torcendo o pescoço de um galo.

— Você é uma graça, amor — disse Weasel. — Este é Ben Mears. É escritor.

— Prazer — disse Jackie, e desapareceu nas sombras do bar.

Ben encheu um copo e Weasel fez o mesmo, enchendo o seu profissionalmente até o topo. A espuma ameaçou transbordar e depois recuou.

— A sua saúde, amigo.

Ben ergueu o copo e bebeu.

— E então, como vai o livro?

— Vai indo, Weasel.

— Vi você com a filha dos Norton. Ela é uma uva. Você não podia ter escolhido melhor.

— É, ela...

Mott! — berrou Weasel, quase fazendo Ben derrubar seu copo. Nossa, pensou. Ele parece mesmo um galo sendo esganado.

— Matt Burke! — Weasel acenava freneticamente, e um homem de cabelos brancos cumprimen­tou-o com um aceno e abriu caminho entre a multidão.

— Você precisa conhecer o Matt — Weasel disse a Ben. — É um sujeito inteligente.

O homem que se aproximava parecia ter cerca de sessenta anos. Era alto, usava uma camisa de flanela limpa aberta no pescoço, e seu cabelo, branco como o de Weasel, tinha corte à escovinha.

— Olá, Weasel — disse ele.

— Tudo bem, amigo? — Weasel disse. — Quero te apresentar Ben Mears, que está hospedado na Eva. Ele é escritor, um sujeito muito decente. — Olhou para Ben. — Matt e eu crescemos juntos, só que ele pegou um diploma e eu peguei a enxada. — Weasel deu uma risada estridente.

Ben se levantou e apertou a mão de Matt Burke calorosamente.

— Como vai?

— Bem, obrigado. Li um de seus livros, Sr. Mears. Air Dance.

— Pode me chamar de Ben. Espero que tenha gostado.

— Gostei muito mais do que os críticos, ao que parece — disse Matt, sentando-se. — Mas acho que vai ganhar espaço com o tempo. Como vão as coisas, Weasel?

— Uma beleza. Não podiam estar melhores. Jackie!— berrou ele. — Traga um copo para o Matt!

— Espere um pouco, velho maluco! — gritou Jackie, provocando risos nas mesas próximas.

— Ela é um doce de menina — disse Weasel. — Filha da Maureen Talbot.

— Eu sei — disse Matt. — Ela foi minha aluna na turma de 71. A mãe dela era da turma de 51.

— Matt ensina inglês e literatura no colégio — Weasel disse a Ben. — Vocês dois devem ter muito o que conversar.

— Lembro de uma garota chamada Maureen Talbot — disse Ben. — Ela buscava a roupa lavada da minha tia e a trazia passada numa cesta de vime. A cesta só tinha uma alça.

— Então você é daqui, Ben? — perguntou Matt.

— Passei alguns anos aqui na infância. Com minha tia Cynthia.

— Cindy Stowens?

— Ela mesma.

Jackie voltou com um copo limpo e Matt o encheu.

— Como o mundo é pequeno. Sua tia estava no último ano quando comecei a ensinar em ’salem’s Lot. Como ela está?

— Morreu em 1972.

— Sinto saber.

— Ela teve uma morte muito tranqüila — disse Ben, voltando a encher o copo. A banda terminara de tocar, e os membros marchavam em direção ao bar. O volume das vozes baixou um pouco.

— Você veio a Jerusalem’s Lot para escrever um livro sobre nós? — perguntou Matt.

Um alarme soou na cabeça de Ben.

— De certo modo — disse ele.

— Esta cidade conseguiu um cronista melhor do que merece. Air Dance é um belo livro. Acho que pode haver outro belo livro nesta cidade. Um dia pensei em escrevê-lo.

— Por que não o escreveu?

Matt sorriu, um sorriso tranqüilo, sem amargura, cinismo ou malícia.

— Me faltou um ingrediente vital. Talento.

— Não acredite nele — disse Weasel, enchendo o copo com a espuma que restara na jarra. — O velho Matt tem talento para dar e vender. Ensinar é um trabalho maravilhoso. Ninguém dá valor aos professores, mas eles são... — Ele balançou um pouco na cadeira, buscando um final para a frase. Estava ficando muito bêbado. — O sal da terra — completou. Deu um grande gole na cerveja, fez uma careta e se ergueu. — Com a licença de vocês, vou mijar.

Ele se afastou, esbarrando nas pessoas e saudando-as pelo nome. Elas o deixavam passar com impaciência ou bom humor, e sua trajetória até o banheiro era como a de uma bola de fliperama descendo e se debatendo em direção aos botões da máquina.

— Lá vai o que restou de um bom homem — disse Matt, e levantou um dedo. Uma garçonete apareceu imediatamente e o tratou como Sr. Burke. Parecia um pouco escandalizada ao ver seu velho professor de literatura inglesa bebendo com gente como Weasel Craig. Quando ela se afastou para buscar outra jarra, Ben achou Matt um pouco absorto.

— Gosto de Weasel — disse Ben. — Tenho a sensação de que ele já teve muito potencial. O que aconteceu?

— Ah, não tem muito o que contar — disse Matt. — A garrafa tomou conta dele. Foi tomando mais a cada ano e agora o domina totalmente. Ganhou uma medalha por bravura na Segunda Guerra. Um cínico diria que sua vida teria sido mais significativa se ele tivesse morrido lá.

— Não sou um cínico — disse Ben. — E gosto dele assim mesmo. Mas acho melhor levá-lo para casa hoje.

— Seria uma boa ação. Venho aqui de vez em quando para ouvir música. Gosto de música alta. Mais ainda depois que comecei a ouvir mal. Soube que você está interessado na Casa Marsten. Seu livro é sobre ela?

Ben deu um salto na cadeira.

— Quem lhe disse isso?

Matt sorriu.

— Como é mesmo aquela velha música de Marvin Gaye? “I Heard it Trought the Grapevine”, uma expressão sedutora, viva, mas a imagem é um pouco obscura, pensando bem. Faz pensar num homem com o ouvido colado a uma garrafa de Concord ou Tokay... Estou divagando. Tenho divagado muito ultimamente, mas não tento mais evitar. Soube através do que a imprensa chamaria de “fonte informa­da”. Loretta Starcher, a guardiã de nossa cidadela de livros. Você esteve na biblioteca várias vezes para consultar artigos do Ledger de Cumberland relativos ao antigo escândalo, e ela também buscou para você dois livros com artigos sobre crimes. A propósito, o de Lubert é bom. Ele veio a Lot fazer uma pesquisa em 1946, mas o capítulo sobre Snow não passa de especulação.

— Eu sei — disse Ben, mecanicamente.

A garçonete trouxe uma nova jarra de cerveja, e Ben subitamente teve uma visão incômoda: um peixe nada livre e sem obstáculos, pairando sobre as algas e o plâncton. Mas, de longe, o quadro se revela — é um peixe num aquário.

Matt pagou a garçonete e disse:

. — Foi horrível o que aconteceu lá. Ficou no inconsciente da cidade. É claro que histórias de maldades e assassinatos são sempre passadas com deleite mórbido de uma geração a outra, enquanto os alunos reclamam quando precisam ler um George Washington Carver ou um Jonas Salk. Mas acho que é mais do que isso. Talvez se deva a uma excentricidade geográfica.

— É verdade — disse Ben, atraído a contragosto. O professor acabava de formular uma idéia que o assediava desde o dia em que chegara à cidade, talvez até mesmo antes. — Ela fica naquele monte, olhando para a cidade como... como uma espécie de ídolo sinistro. — Ele riu para que a comparação parecesse trivial. Temia ter dito algo muito íntimo e revelador sem refletir, abrindo uma fresta de sua alma a um estranho. E o súbito olhar atento que Matt Burke lhe dirigiu não colaborou para que se sentisse melhor.

— Isso é talento — disse ele.

— Como?

— Você usou a expressão exata. A Casa Marsten nos contempla há quase cinqüenta anos, testemunha de todos os nossos pequenos pecados e mentiras. Como um ídolo.



— Talvez tenha visto coisas boas também.

— O bem é escasso em cidadezinhas sedentárias. O que predomina é indiferença temperada com uma pitada de maldade inconsciente, ou pior, consciente. O tema rendeu a Thomas Wolfe boas páginas de literatura.

— Pensei que não fosse cínico.

— Você disse que não era, não eu.

Matt sorriu e bebericou a cerveja. A banda começou a deixar o balcão, com as camisas verme­lhas, os coletes e lenços de pescoço reluzindo. O cantor pegou o violão e começou a afiná-lo.

— Ainda não respondeu à minha pergunta. Seu novo livro é sobre a Casa Marsten?

— É, de certo modo.

— Estou sendo indiscreto. Desculpe.

— Não tem problema — disse Ben, pensando em Susan e se sentindo um pouco culpado. — Por que será que Weasel está demorando? Faz tempo que ele foi ao banheiro.

— Posso abusar de nossa pequena amizade e pedir um grande favor? Se recusar, entenderei perfeitamente.

— Claro, pode pedir.

— Dou aula de redação para uma turma — disse Matt. — São crianças inteligentes, que estão terminando o ensino médio, e gostaria de lhes apresentar alguém que ganha a vida escrevendo. Alguém que, como direi?, transformou o verbo em carne.

— Será um prazer — disse Ben, sentindo-se absurdamente lisonjeado. — Quanto tempo dura a aula?

— Cinqüenta minutos.

— Acho que não conseguirei entediá-los nesse espaço de tempo.

— Não? Eu consigo muito bem — disse Matt. — Mas tenho certeza de que você não irá entediá-los. Semana que vem?

— É só falar o dia e a hora.

— Terça, na quarta aula? Vai das onze até o meio-dia; Ninguém vai vaiá-lo, mas você ouvirá vários estômagos roncando.

— Levarei algodão para os ouvidos.

Matt riu.

— Fico muito contente. Posso encontrá-lo na secretaria, se preferir.

— Ótimo. Você...

— Sr. Burke? — Era Jackie, dos bíceps musculosos. — Weasel desmaiou no banheiro masculino. O senhor poderia...

— Meu Deus. Ben, vamos até lá?

— Claro.

Eles levantaram e atravessaram o salão. A banda recomeçara a tocar, uma música sobre como os garotos de Muskogee ainda respeitavam o reitor da faculdade.

O banheiro cheirava a urina e cloro. Weasel estava escorado contra a parede entre dois mictó­rios, e um sujeito de uniforme do exército mijava a cinco centímetros de sua orelha direita.

Sua boca estava aberta, e Ben reparou como ele parecia terrivelmente velho, velho e devastado por forças frias e impiedosas. A consciência de sua própria dissolução, que avançava a cada dia, veio-lhe de repente — não pela primeira vez, mas de modo chocante e inesperado. A piedade que lhe invadiu como águas turvas era tanto por ele mesmo como por Weasel.

— Pode passar o braço debaixo dele quando esse cavalheiro terminar de se aliviar? — disse Matt.

— Claro — disse Ben. Olhou para o homem de uniforme do exército, que sacudia as últimas gotas calmamente. — Dá para ir mais rápido, amigo?

— Para quê? Ele não está com pressa.

Assim mesmo, ele subiu o zíper e se afastou do mictório para que eles pudessem se aproximar.

Ben colocou o braço sob as costas de Weasel, segurou-o pela axila e o levantou. Pressionou o corpo contra a parede de azulejos e sentiu as pulsações do som da banda. Weasel, totalmente inconsciente, deixou-se suspender como um saco de farinha. Matt passou o outro braço de Weasel sobre os ombros, abraçou-o pela cintura e os dois o carregaram para fora.

— Lá vai o Weasel — alguém disse, e outros riram.

— Dell devia parar de servi-lo — disse Matt, ofegante. — Sabe como isso sempre termina.

Eles saíram até o vestíbulo e desceram os degraus de madeira que levavam ao estacionamento.

— Devagar — grunhiu Ben. — Não o derrube.

Desceram a escada, os pés inertes de Weasel se arrastando nos degraus como blocos de madeira.

— É o Citroën... na última fileira.

Eles o arrastaram até lá. O ar da noite estava mais cortante agora, e no dia seguinte as folhas sangrariam. Weasel começara a gemer fracamente, balançando a cabeça sobre o pescoço fino.

— Você consegue levá-lo para a cama quando chegarem na Eva? — perguntou Matt.

— Acho que sim.

— Ótimo. Olhe, dá para ver o telhado da Casa Marsten além das árvores.

Ben olhou. Matt tinha razão: o ângulo superior mal se deixava ver sobre o horizonte escuro do pinheiral, ocultando as estrelas na orla do mundo com a regularidade das obras humanas. Ben abriu a porta do passageiro e disse:

— Pronto, passe-o para mim.

Ben pegou o corpo pesado de Weasel, estendeu-o cuidadosamente no banco do passageiro e fechou a porta. A cabeça de Weasel rolou contra a janela, achatando-se de modo grotesco.

— Terça às onze?

— Pode contar comigo.

— Obrigado. E obrigado também por ajudar o Weasel. — Ele estendeu a mão e Ben a apertou.

Ele entrou, deu partida no Citroën e partiu em direção à cidade. Depois que o luminoso do bar desapareceu atrás das árvores, a estrada ficou deserta e escura, e Ben pensou: essas estradas estão assombradas agora.

Weasel soltou um ronco e um gemido no banco de trás e Ben deu um salto, perdendo por um breve instante o controle do carro.

Por que fui pensar aquilo?

Nenhuma resposta.

7

Ele abriu a janela de trás, para que o vento entrasse em cheio sobre Weasel, e quando parou no pátio de entrada da pensão, ele já atingira um estado de semiconsciência.

Ben o arrastou, meio aos tropeções, pela escada da varanda traseira e depois até a cozinha, fracamente iluminada pela luz do fogão.

Weasel gemeu e depois murmurou:

— Ela é um amor de garota, Jack, e as mulheres casadas sabem...

Uma sombra emergiu do corredor. Era Eva, imensa num velho penhoar acolchoado, os cabelos presos com bobes e cobertos com uma rede. O creme de beleza tornava seu rosto pálido e espectral.

— Ed — disse ela. — Ed... você não toma jeito, não?

Ele abriu um pouco os olhos ao som da voz dela, e esboçou um sorriso.

— Não tomo mesmo — balbuciou. — E você sabe melhor do que ninguém.

— Você consegue levá-lo até o quarto? — ela perguntou a Ben.

— Claro, sem problemas.

Ele apertou Weasel mais forte e arrastou-o escada acima e depois até o quarto. A porta estava destrancada, e ele o levou para dentro. Assim que o deitou na cama, os sinais de consciência cessaram e ele mergulhou num sono profundo.

Ben fez uma pausa e olhou ao redor. O quarto era limpo, quase asséptico, os objetos guardados com organização militar. Quando começou a desamarrar os sapatos de Weasel, Eva Miller disse da porta:

— Pode deixar, Sr. Mears. Pode subir, se quiser.

— Mas ele precisa...

— Eu tiro as roupas dele. — Seu rosto expressava uma tristeza digna e comedida. — E vou esfregar álcool em seu corpo para aliviar a ressaca de amanhã. Já fiz isso antes, várias vezes.

— Está certo — disse Ben, e subiu sem olhar para trás. Despiu-se lentamente, pensou em tomar um banho mas mudou de idéia. Deitou na cama e ficou olhando para o teto durante muito tempo, sem conseguir dormir.


Capítulo Seis

A CIDADE (II)

1

Outono e a primavera chegam a Jerusalem’s Lot de modo tão súbito como a aurora e o crepúsculo nos trópicos. A linha de demarcação pode ser apenas um dia. Mas a primavera não é a estação mais bela na Nova Inglaterra — é curta e incerta demais, e pode ficar turbulenta de uma hora para outra. Mesmo assim, alguns dias de abril são tão inesquecíveis quanto o toque da pessoa amada, ou a sensação da boca desdentada do bebê sugando o seio. Mas, já em meados de maio, o sol emerge da névoa matinal com força e autoridade, e você sairá para a varanda às sete da manhã com sua marmita na mão, sabendo que o orvalho terá evaporado da grama às oito e que a poeira nas estradas de terra pairará imóvel no ar durante cinco minutos após a passagem de um carro, e que à uma da tarde fará 35 graus no terceiro andar da fábrica e o suor escorrerá pelos braços como óleo, fazendo a camisa grudar nas costas, formando um círculo molhado, como se fosse julho.

Mas depois de meados de setembro, o outono chega expulsando o traiçoeiro verão, e se instala por algum tempo como um velho e saudoso amigo, que senta na sua cadeira favorita, acende o cachimbo e enche a tarde com histórias dos lugares onde esteve e as coisas que fez desde sua última visita.

O outono fica durante todo o mês de outubro e, raramente, durante o mês de novembro. Dia após dia, o céu ganha um azul intenso e límpido, e as nuvens que deslizam por ele, sempre em direção ao leste, são navios calmos e brancos com quilhas cinzentas. O vento começa a soprar durante o dia e não pára mais, apressando as pessoas nas ruas e triturando as folhas caídas em espirais frenéticas e variadas. O vento causa uma ânsia profunda e ancestral. Talvez toque um ponto na alma, uma antiga memória coletiva que diz Migre ou morra, migre ou morra. Mesmo em sua casa, atrás de sólidas paredes, o vento açoita a madeira e o vidro e curva os beirais, obrigando-o a interromper o que está fazendo para ir olhar. E você pode sair até a varanda ou a porta da casa no meio da tarde e ver as sombras das nuvens correrem sobre o pasto dos Griffen e subirem o morro do Pátio do Colégio, clareando e sombreando a relva, como se alguém abrisse e fechasse as persianas do céu. As varas-de-ouro, essas tenazes, belas e perniciosas flores da Nova Inglaterra, curvam-se contra o vento como uma imensa e silenciosa congregação. E quando não há nem carros nem aviões, se ninguém estiver no bosque a oeste da cidade atirando numa codorna ou num faisão, se o único som for o lento bater de seu coração, você talvez escute outro som, o som da vida declinando rumo a seu fecho cíclico, aguardando a primeira neve do inverno para receber a extrema-unção.

2

Naquele ano, o primeiro dia do outono (do verdadeiro, não o do calendário) foi 28 de setembro, o dia em que Danny Glick foi enterrado no Cemitério Harmony Hill.

A cerimônia na igreja fora fechada, mas a do cemitério seria aberta, e um grande número de moradores compareceu, entre colegas de classe, curiosos e pessoas de idade, para quem os enterros vão se tornando uma compulsão à medida que são envolvidas pela mortalha do tempo.

O longo cortejo subiu a rua Burns, dobrando uma esquina e sumindo atrás do monte. Todos os carros estavam com os faróis acesos, apesar do esplendor do dia. À frente ia o carro fúnebre de Carl Foreman, a traseira cheia de flores; depois, o Mercury 1965 de Tony Glick, o velho amortecedor soltando gemidos e estouros. Atrás, nos quatro carros seguintes, vinham parentes de ambos os lados da família, de lugares tão distantes quanto Tulsa, Oklahoma. Outros participantes do longo desfile eram: Mark Petrie (o menino que Ralphie e Danny iam visitar na noite em que o primeiro desapareceu) com a mãe e o pai; Richie Boddin e família, Mabel Werts num carro junto com o Sr. e Sra. William Norton (sentada no banco de trás com a bengala plantada entre as pernas inchadas, ela falava ininterruptamente sobre outros enterros a que ela assistira desde 1930); Lester Durham e a mulher, Harriet; Paul Maybeny e a mulher, Glynis; Pat Middler, Joe Crane, Vinnie Upshaw e Clyde Corliss, todos num carro dirigido por Milt Crossen (Milt abrira a geladeira antes de partirem, e cada um tomou uma cerveja solenemente diante do fogão); Eva Miller seguia num carro ao lado das amigas Loretta Starcher e Rhoda Curless, ambas ainda donzelas; Parkins Gillespie e seu vice, Nolly Gardener, iam no carro de polícia de Jerusalem’s Lot (era o Ford de Parkins com uma estrela colada no painel); depois ainda vinham Lawrence Crockett e sua lívida mulher; Charles Rhodes, o rabugento motorista de ônibus, que compa­recia a todos os enterros por uma questão de princípio; a família de Charles Griffen, incluindo a mulher e os dois filhos, Hal e Jack, o único que ainda não saíra de casa.

Mike Ryerson e Royal Snow haviam aberto a cova de manhã, estendendo faixas de grama falsa sobre a terra fresca retirada do chão. Enquanto hasteava a Flâmula da Memória que os Glick haviam especificado, Mike notou que Royal estava diferente naquela manhã. Geralmente não parava de caçoar da tarefa reservada a eles (cantava, desafinado: “Eles te enrolam num lençol branco, e te enterram no fundo do barranco”), mas naquele dia ele estava estranhamente silencioso, quase emburrado. Pode ser ressaca, pensou Mike. Deve ter ido ao Dell’s com Peters, seu amigo cheio de músculos, e enchido a cara ontem à noite.

Cinco minutos antes, ele vira o carro fúnebre de Carl subindo o monte a uns dois quilômetros de distância e escancarara os portões de ferro, olhando para as altas lanças de ferro como sempre fazia desde que encontrara Doc espetado numa delas. Depois voltou até a cova recém-aberta, onde o padre Donald Callahan, responsável pela paróquia de Jerusalem’s Lot, esperava ao lado da sepultura. Usava uma estola sobre os ombros, e o missal em sua mão estava aberto no capítulo sobre funerais infantis. Era o que eles chamavam de terceira estação, Mike sabia. Primeira estação, a casa do falecido, segunda estação, a igrejinha católica de St. Andrew, e a última estação, cemitério de Harmony Hill. Desçam todos.

Um arrepio o percorreu e ele olhou para a vistosa grama plástica, perguntando-se por que era parte integrante de todo funeral. Era exatamente o que parecia: uma imitação barata da vida, mascarando a terra arrancada para abrir a morada final.

— Eles estão chegando, padre — disse ele.

Callahan era um homem alto, de penetrantes olhos azuis e tez avermelhada. Seus cabelos eram de um cinza metálico. Ryerson, que não pisava na igreja desde os 16 anos, gostava mais dele do que dos outros religiosos locais. John Groggins, o ministro metodista, era um velho chato e hipócrita, e Patterson, da Igreja dos Santos do Último Dia e Seguidores da Cruz, era louco de pedra. No funeral de um dos diáconos da igreja dois ou três anos antes, Patterson se jogara no chão e se pusera a rolar. Mas Callahan era um bom sujeito, apesar de papista, e seus funerais eram calmos, confortantes e sempre curtos. Ryerson duvidava que seu rosto tivesse ficado tão vermelho de tanto rezar, mas se tinha bebido um pouco na vida, quem podia condená-lo? Do jeito que o mundo estava, era um milagre que todos os sacerdotes não acabassem no hospício.

— Obrigado, Mike — disse ele, e olhou para o céu luminoso. — Este vai ser difícil.

— Parece. Quanto tempo vai demorar?

— Dez minutos, no máximo. Não vou prolongar o sofrimento dos pais. Eles ainda terão muito pela frente.

— Ok — disse Mike, e andou em direção aos fundos do cemitério. Saltaria o muro de pedra e comeria seu almoço na floresta. Sabia de longa experiência que a última coisa que os parentes e amigos do falecido queriam ver na terceira estação era o coveiro com seu macacão manchado de terra. Era uma visão que interferia com a imagem do paraíso pintada pelo sacerdote.

Perto do muro, ele se curvou para examinar uma lápide que havia caído para frente. Endirei­tou-a e voltou a sentir um arrepio ao limpar a terra da inscrição:

HUBERT BARCLAY MARSTEN

6 de outubro de 1889

12 de agosto de 1939

O anjo da Morte



empunhando a brônzea Lâmpada

além dos portões dourados

levou-o a turvas Águas

E embaixo, quase apagadas por 36 estações de geadas, as palavras:



Que Deus o conserve lá

Ainda vagamente inquieto e ainda sem saber o porquê, Mike Ryerson entrou na mata para almoçar ao lado do riacho.

3

Nos primeiros anos de seminário, um amigo do padre Callahan lhe dera um álbum com bordados blasfemos que lhe causara acessos de riso horrorizado na época, mas que pareciam mais verdadeiros e menos sacrílegos com o passar do tempo: Deus, dai-me SERENI­DADE para aceitar o que não posso mudar, TENACIDADE para mudar o que posso e SORTE para não fazer muita merda. Isso escrito em caligrafia antiga e rebuscada, com um sol nascente ao fundo.

Agora, diante dos parentes e amigos de Danny Glick, a velha oração voltou a lhe ocorrer.

Os carregadores do caixão, dois tios e dois primos do menino, haviam pousado o ataúde no chão. Marjorie Glick, de casaco preto e chapéu preto com véu, o rosto se revelando por entre a rede, era amparada pelo braço protetor do pai e agarrava uma bolsinha preta como se fosse um salva-vidas. Tony Glick estava longe dela, o rosto chocado e distante. Várias vezes durante a cerimônia na igreja ele olhara ao redor, como para confirmar sua presença entre aquelas pessoas. Tinha a expressão de alguém preso num sonho.

A igreja não pode tirá-lo desse sonho, pensou Callahan. Nem toda a serenidade, tenacidade e sorte do mundo. A merda já tinha acontecido.

Ele espargiu água benta no caixão e no túmulo, santificando-os para todo o sempre.

— Rezemos, irmãos — as palavras escorreram melodiosas de sua boca como sempre, na alegria e na tristeza, na lucidez e na embriaguez. Os presentes inclinaram a cabeça.

— Senhor, graças a Vossa piedade, os que vivem na fé encontram a paz eterna. Abençoai esta sepultura e enviai um anjo para guardá-la. Recebei o espírito de Daniel Glick enquanto enterramos seu corpo, e que ele encontre a vida eterna em seu seio. É o que pedimos em nome de Jesus Cristo, Nosso Senhor, Amém.

— Amém — a congregação murmurou, e o vento levou a palavra para longe. Tony Glick olhava ao redor com olhos escancarados e aflitos. Sua mulher pressionava um Kleenex contra a boca.

— Com a fé em Jesus Cristo, trazemos humildemente o corpo desta criança para ser enterrado com suas imperfeições humanas. Rezemos, confiando em Deus, que dá vida a todos os seres, que ele atinja a perfeição na companhia dos santos.

Ele virou as páginas do missal. Uma mulher na terceira fileira do grupo que cercava o túmulo como uma ferradura começou a soluçar roucamente. Um pássaro gorjeou em algum lugar da floresta.

— Rezemos por nosso irmão Daniel Glick a nosso Senhor Jesus Cristo — prosseguiu o padre Callahan —, que nos disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que acredita em mim viverá ainda que morra e nunca conhecerá a morte eterna. Senhor, que chorastes na morte de Vosso amigo Lázaro, confortai-nos em nossa dor. Pedimos em nossa fé.”

— Senhor, ouvi nossa prece — os católicos responderam.

— Vós, que ressuscitastes os mortos, concedei ao nosso irmão Daniel a vida eterna. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece — responderam. Algo parecia estar despertando nos olhos de Tony Glick; uma revelação, talvez.

— Nosso irmão Daniel foi purificado pelas águas do batismo. Concedei-lhe um lugar entre os santos. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

— Ele comungou de vossa carne e vosso sangue. Concedei-lhe um lugar à mesa no Reino dos Céus. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

Marjorie Glick começara a balançar para a frente e para trás, gemendo.

— Consolai-nos em nossa dor pela morte de nosso irmão. Que nossa fé seja nosso consolo e a vida eterna nossa esperança. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

Ele fechou o missal.

— Vamos rezar a oração que o Senhor nos ensinou — disse ele serenamente. — Pai-Nosso que estais no céu...

— Não! — gritou Tony Glick, lançando-se para frente. — Ninguém vai jogar terra no meu filho!

Mãos tentaram detê-lo, mas foram afastadas. Ele cambaleou por um instante na beira da cova, e então a grama falsa cedeu. Tony caiu dentro do buraco, atingindo o caixão com um baque horrível.

— Danny, saia daí já! — berrou ele.

— Minha nossa — disse Mabel Werts, e apertou o lenço de seda preta contra os lábios. Seus olhos estavam ávidos e brilhantes, guardando a cena como um esquilo armazena nozes para o inverno.

— Danny, quer parar com essa molecagem!

O padre Callahan fez um sinal para dois dos carregadores, e eles avançaram, mas foram precisos mais três homens, inclusive Parkins Gillespie e Nolly Gardener, para conseguir tirar Glick da cova, chutando e gritando.

— Danny, pare com isso! Você assustou sua mãe! Vou esquentar seu traseiro! Me soltem! Quero meu filho... me soltem, seus cretinos.... ahhh... Meu Deus!

— Pai-Nosso que estais no céu — Callahan recomeçou, e outras vozes se juntaram à dele, elevando-se em direção à cúpula indiferente do céu.

— ...santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita...

— Danny, venha aqui, está me ouvindo? Está me ouvindo?

— ...assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai...

Danneee!

— as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...

— Ele não está morto, ele não está morto, me soltem, seus desgraçados...

— e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, amém.

— Ele não está morto — soluçava Tony Glick. — Não pode estar. Ele tem só 12 anos, porra. — Ele começou a chorar convulsivamente, e se arrastou para frente, apesar do esforço dos homens que o retinham, o rosto contorcido e riscado de lágrimas. Caiu aos pés de Callahan e agarrou suas calças com as mãos enlameadas.

— Por favor, devolva meu filho. Por favor, pare com essa brincadeira.

Callahan pegou a cabeça dele delicadamente entre as mãos.

— Rezemos — disse ele, e sentiu os soluços dilacerantes de Glick contra as coxas.

— Senhor, consolai este homem e sua mulher nesse momento de dor. Vós purificastes esta criança nas águas do batismo e lhe destes vida nova. Que um dia nós o encontremos e juntos gozemos da vida eterna. Pedimos em nome de Jesus. Amém.

Quando ergueu a cabeça, viu que Marjorie Glick desmaiara.

4

Quando todos haviam ido embora, Mike Ryerson voltou e sentou à beira da cova aberta para comer seu último meio sanduíche e esperar pela volta de Royal Snow.

O enterro fora às quatro horas, e já eram quase cinco. As sombras se alongavam e o sol já se escondia atrás dos altos carvalhos. Aquele malandro do Royal prometera que voltaria às l6h45 no máximo. Onde estaria ele?

O sanduíche era de bolonha e queijo, o seu preferido. Todos os sanduíches que ele comia eram seus favoritos; e essa era uma das vantagens de ser solteiro. Ele terminou e limpou as mãos, espalhando algumas migalhas sobre o caixão.

Alguém o vigiava.

De repente, veio-lhe essa certeza, e ele sondou o cemitério com olhos escancarados e aflitos.

— Royal? Você está aí, Royal?

Ninguém respondeu. O vento sussurrava misteriosamente entre as árvores. À sombra oscilante dos elmos além do muro de pedra, ele via a lápide de Hubert Marsten, e de repente pensou no cachorro de Win, empalado no portão de ferro.

Olhos. Imóveis e frios. Vigiando.

Não deixe a noite te pegar aqui.

Ele se levantou de um salto, como se a frase tivesse sido dita em voz alta.

— Royal, seu desgraçado — disse ele, mas não muito alto. Já não achava que Royal estivesse por perto nem que voltaria. Teria de fazer o trabalho sem ele, e levaria muito tempo sozinho.

Talvez até o anoitecer.

Ele se pôs a trabalhar, sem tentar entender o pavor que o dominava, sem se perguntar por que aquele trabalho, que nunca o incomodara antes, incomodava-o tanto agora.

Com gestos rápidos e econômicos, ele puxou as faixas de grama artificial de cima da terra fresca e as dobrou. Colocou-as sobre o braço e as levou à camionete, parada na frente do portão, e assim que saiu do cemitério, a horrível sensação de ser vigiado desapareceu.

Guardou a grama na traseira da camionete e pegou uma pá. Começou a voltar, mas hesitou. Olhou para a cova aberta, que parecia zombar dele.

Ocorreu-lhe que; a sensação de ser vigiado sumira assim que ele deixara de ver o caixão instalado no fundo da cova. E veio-lhe a súbita imagem de Danny Glick deitado sobre o pequeno travesseiro de cetim com os olhos abertos. Não, que bobagem. Eles fechavam os olhos dos defuntos com goma. Vira Carl Forman fazer isso várias vezes. Claro que fechamos os olhos, Carl dissera certa vez. Não queremos que o corpo pisque para a congregação, não é?

Encheu a pá e jogou a terra, que atingiu a superfície do caixão de mogno com uma pancada surda. Mike fez uma careta. O som o enjoou um pouco. Ele se endireitou e olhou nervosamente para as coroas de flores. Que desperdício. No dia seguinte as pétalas estariam espalhadas em flocos vermelhos e amarelos. Não entendia por que faziam aquilo. Se queriam gastar, por que não davam o dinheiro a alguma sociedade beneficente ou até mesmo à Associação de Senhoras? Pelo menos, assim serviria para alguma coisa.

Ele atirou outra pazada e descansou de novo.

O caixão era outro desperdício. Um lindo caixão de mogno, que custara no mínimo mil dólares, e lá estava ele o cobrindo todo de terra. Os Glick não tinham tanto dinheiro assim, e quem faz seguro de vida para crianças? Deviam ter se enterrado em dívidas, e tudo por um caixão que ficaria todo imundo e enlameado.

Ele se inclinou, voltou a encher a pá e jogou a terra com relutância. De novo aquele horrível baque agourento. A superfície do caixão estava toda salpicada de terra, mas o fino mogno lustrava por trás, quase com reprovação.



Pare de olhar para mim.

Ele encheu a pá, mas não muito, e jogou a terra.



Pá!

As sombras estavam muito longas agora. Ele parou, olhou para cima e viu a Casa Marsten, as persianas fechadas. O lado leste, o primeiro a se despedir da luz do sol, dava diretamente para o portão de ferro do cemitério, onde Doc...

Ele se forçou a pegar outra pazada de terra e atirá-la na cova.

Pá!.

A terra escorreu pelos lados, empilhando-se sobre as dobradiças de metal. Agora, se alguém o abrisse, ouviria um rangido áspero como a porta de uma tumba se abrindo.



Pare de olhar pra mim, cacete.

Ele começou a encher a pá, mas veio-lhe uma lembrança tão pesada que ele teve de descansar um pouco. Certa vez ele lera — no National Enquirer, achava — que um magnata do petróleo declarara no testamento que queria ser enterrado num Cadillac Coupe de Ville novo em folha. E foi o que fizeram. Abriram a cova com um trator e colocaram o carro no fundo com um guindaste. Tanta gente dirigindo carros velhos e caindo aos pedaços, e aquele porco milionário enterrado atrás do volante de um carro de dez mil dólares, com todos os acessórios e...

Ele de repente estremeceu e recuou um passo, cauteloso. Parecia que entrara numa espécie de transe. A sensação de ser vigiado estava muito mais forte agora. Olhou para o céu, alarmado ao ver como escurecera rápido. Só o andar superior da Casa Marsten estava em plena luz do sol agora. Seu relógio indicava 18hl0. Santo Deus, uma hora se passara, e ele não jogara nem meia dúzia de pazadas na cova!

Mike se atirou ao trabalho, tentando bloquear os pensamentos. Depois de algumas pazadas, o som de terra contra a madeira se tornou abafado — o alto do caixão fora coberto, e a terra escorria pelas laterais em riscos marrons, quase alcançando a tranca.

Ele jogou mais duas pazadas e parou.

Tranca?


Mas por que cargas d’água colocar uma tranca num caixão? Era para ninguém tentar entrar? Devia ser. Com certeza não era para que ninguém tentasse sair...

— Pare de me olhar — disse Mike em voz alta, e sentiu o coração se contrair no peito. Um súbito impulso de fugir daquele lugar, de correr pela estrada até chegar à cidade, tomou conta dele. Foi com muito custo que conseguiu se controlar. Era só um ataque de nervos. Quem, trabalhando num cemitério, não ficaria assim de vez em quando? Parecia um maldito filme de terror, ter de enterrar aquele menino, só 12 anos e os olhos arregalados...

— Droga, pare! — exclamou ele, e olhou com ansiedade para a Casa Marsten. Agora só o telhado ainda estava claro. Eram 18hl5.

Ele voltou a trabalhar com mais rapidez, jogando terra na cova e tentando manter a mente totalmente vazia. Mas a sensação de ser vigiado parecia crescer em vez de diminuir, e cada pazada de terra parecia mais pesada que a anterior. O topo do caixão estava coberto agora, mas ainda dava para ver seu contorno envolto em terra.

A oração fúnebre dos católicos começou a ecoar em sua mente por nenhum motivo, como costuma acontecer com essas coisas. Ouvira Callahan dizendo-a enquanto almoçava ao lado do riacho. Ouvira também os gritos desesperados do pai.

Rezemos por nosso irmão a nosso Senhor Jesus Cristo, que disse...

(Pai, conceda-me seus favores.)

Ele parou e olhou para a cova. Era funda, muito funda. As sombras da noite já começavam a se insinuar dentro dela, como algo vivo e viscoso. Ainda faltava muito. Ele nunca conseguiria enchê-la antes de escurecer. Nunca.



Sou a ressurreição e a vida. Aquele que acredita em mim viverá mesmo que mona...

(Senhor das Moscas, conceda-me seus favores.)

Sim, os olhos estavam abertos. Por isso ele se sentia vigiado. Carl não usara goma o bastante, e as pálpebras haviam subido como persianas. E agora, Danny olhava para ele. Aquilo não podia ficar daquele jeito.



...e quem acreditar em mim não conhecerá a morte eterna...

(Eu lhe trago carne pútrida e malcheirosa.)

Tirar a terra de cima. Era essa a solução. Tirar a terra, quebrar a tranca com a pá, abrir o caixão e fechar aqueles terríveis olhos fixos. Ele não tinha goma de coveiro, mas tinha duas moedas no bolso. Serviriam. Eram de prata. Sim, era de prata que o menino precisava.

O sol estava em cima do telhado da Casa Marsten agora, e apenas tocava os mais altos e antigos abetos no lado oeste da cidade. Mesmo com as persianas fechadas, a casa parecia olhar para ele.

Vós, que ressuscitastes os mortos, concedei ao irmão Daniel a vida eterna.

(Ofereço este sacrifício por seus favores e o trago com a mão esquerda.)

De repente, Mike Ryerson saltou dentro da cova e começou a trabalhar loucamente com a pá, jogando terra para cima e para fora em lampejos marrons. Finalmente a pá atingiu a madeira, e ele começou a tirar o resto da terra das laterais. Depois se ajoelhou sobre o caixão e começou a bater na tranca de metal com a pá.

As rãs do riacho haviam começado a saltar, um bacurau cantava nas sombras das árvores e, perto dali, curiangos começavam a soltar seu grito estridente.

18h50.

O que estou fazendo?, ele se perguntou. O que estou fazendo, meu Deus? Ajoelhado sobre o caixão, ele tentava refletir, mas algo no fundo da sua mente mandava-o se apressar, o sol estava se pondo... Não deixe o escuro te pegar aqui. Ele levantou a pá, bateu-a sobre a tranca mais uma vez e ouviu um estalo. Ela quebrara. Ele olhou para cima por um instante, num último vislumbre de sanidade, o rosto manchado de terra e suor, os olhos arregalados e salientes.

Vênus brilhou contra o manto do céu. Ofegando, ele deitou por inteiro no chão e tateou em busca das alças da tampa do caixão. Encontrou-as e puxou, A tampa se abriu, as dobradiças rangendo como ele imaginara, revelando primeiro apenas cetim rosa, e depois uma manga escura (Danny Glick fora enterrado com o terno da primeira comunhão), e depois... o rosto. A respiração ficou presa na garganta de Mike. Os olhos estavam abertos. Como ele sabia que estariam. Bem abertos e nem um pouco vidrados. Pareciam horrendamente vivos à luz agonizante do dia. Não havia nenhuma palidez mortal naquele rosto. As faces estavam rosadas, transbordando vitalidade. Tentou afastar os olhos daquele olhar reluzente e gelado, mas não conseguiu. — Meu Deus — murmurou. O arco decrescente do sol submergiu no horizonte.

5

Mark Petrie montava um modelo do monstro de Frankenstein no seu quarto e ouvia a conversa dos pais na sala. Seu quarto ficava no segundo andar da casa de fazenda que haviam comprado no sul da avenida Jointner, e embora fosse aquecida por uma moderna fornalha a petróleo, as grades do antigo aquecedor permaneciam. Antes, quando a casa fora aquecida por um fogão central na cozinha, as grades impediam que o segundo andar ficasse frio demais — mesmo assim, a primeira mulher que morara na casa de 1873 a 1896, com seu austero marido batista, dormia com um tijolo quente embrulhado numa flanela —, mas agora serviam a outro propósito. Eram excelentes condutoras de som.

Seus pais estavam na sala, mas parecia que conversavam bem em frente a sua porta.

Certa vez, quando o pegou ouvindo atrás da porta na outra casa — Mark tinha apenas seis anos na época —, seu pai lhe dissera um antigo provérbio inglês: Nunca ouça atrás da árvore para não se aborrecer. Ou seja, explicou o pai, você pode ouvir algo e não gostar. Havia outro ditado. Quem avisa amigo é. Aos 12 anos, Mark Petrie era um pouco menor do que os outros meninos e de aparência um pouco delicada. No entanto, movia-se com uma graça e flexibilidade que não era comum em meninos de sua idade, que pareciam ser todos joelhos, cotovelos e cascas de ferida. Sua tez era clara, quase leitosa, e seus traços, que seriam considerados aquilinos mais tarde, agora eram um pouco femininos. Isto lhe causara inconvenientes mesmo antes da briga com Richie Boddin no pátio da escola, e ele decidira resolver o problema sozinho. A maioria dos valentões, concluiu ele, eram grandes, feios e desajeitados. Assustavam as outras crianças porque eram capazes de machucá-las. Jogavam sujo. Logo, se você não tivesse medo de se machucar um pouco, e se estivesse disposto a jogar sujo, podia levar a melhor sobre o valentão. Richie Boddin fora a primeira confirmação de sua teoria. Ele e o valentão da Escola Primária Kittery haviam empatado (o que não deixara de ser uma vitória; o valentão, sangrando mas sem se curvar, proclamara para toda a platéia no pátio que ele e Mark eram amigos. Mark, que achava o valentão um cretino estúpido, não o contradisse. Sabia o valor da discrição). Conversas não adiantavam com valentões. A dor era a única linguagem que os Richie Boddins do mundo pareciam entender, e Mark supunha que por isso o mundo sempre tivera tanta dificuldade de comunicação. Ele fora mandado para casa naquele dia, e seu pai ficara muito zangado até que Mark, resignando-se a receber as rituais pancadas com uma revista enrolada, disse-lhe que Hitler fora no fundo um Richie Boddin. Isso fez seu pai cair na gargalhada, e até sua mãe rira baixinho. Conseguiu evitar a surra. Agora June Petrie dizia:

— Você acha que tudo isso o afetou, Henry?

— É difícil... dizer. — E Mark percebeu pela pausa que seu pai acendia o cachimbo. — Ele está com uma cara bem normal.

— Quem vê cara não vê coração. — Sua mãe estava sempre dizendo coisas como quem vê cara não vê coração ou é um caminho sem retorno. Ele amava os dois profundamente, mas às vezes pareciam tão graves como os livros da seção in-fólio da biblioteca... e igualmente empoeirados.

— Eles vinham visitar Mark para brincar com o trenzinho — ela continuou. — Agora um está morto e o outro, desaparecido! Não se engane, Henry. O menino deve estar sentindo alguma coisa.

— Os pés dele estão bem plantados no chão — disse o Sr. Petrie. — Seja quais forem suas emoções, tenho certeza de que ele as controla.

Mark colou o braço esquerdo do monstro de Frankenstein no ombro. Era um modelo Aurora especial, que tinha um brilho verde no escuro, como o Jesus de plástico que ele ganhara por memorizar o salmo 119 inteiro na escola dominical de Kittery.

— Às vezes acho que devíamos ter tido outro filho — disse seu pai. — Entre outras coisas, teria sido bom para Mark. — E sua mãe, em tom brejeiro:

— Não foi por falta de tentativas, querido.

Seu pai resmungou. Fez-se uma longa pausa na conversa. Mark sabia que o pai estava folheando o Wall Street Journal. Sua mãe devia estar com um romance de Jane Austen no colo, ou talvez de Henry James. Ela os lia e relia várias vezes, e Mark não conseguia entender o sentido de ler um livro mais de uma vez. A gente já sabia como terminava.

— Será que é seguro deixá-lo entrar na mata atrás da casa? — sua mãe perguntou. — Dizem que tem areia movediça na cidade...

— A quilômetros daqui.

Mark relaxou um pouco e colou o outro braço do monstro. Ele tinha uma mesa coberta de monstros Aurora, formando uma cena que ele mudava a cada vez que um novo membro era adicionado. Era uma bela coleção. E era o que Danny e Ralphie queriam ver naquela noite em que... deixa para lá.

— Acho que sim — disse o pai. — Não depois de anoitecer, é claro. Espero que aquele horrível enterro não lhe dê pesadelos. — Mark quase podia ver seu pai encolher os ombros. — Tony Glick... Que cena lamentável. Mas a morte e o sofrimento fazem parte da vida, e já está na hora de ele se acostumar com essa idéia.

— Talvez. — Outra longa pausa. O que ela dirá agora?, ele se perguntou. O menino de hoje é o homem de amanhã. Ou é de pequenino que se torce o pepino. Mark colou o monstro na base, um túmulo com uma lápide inclinada ao fundo. — A morte nos cerca em plena vida. Mas estou achando que eu vou ter pesadelos.

— Ah, é?

— Aquele Sr. Foreman deve ser um artista e tanto, por mais horrível que seja dizer isso. Ele realmente parecia que estava dormindo. Que a qualquer momento abriria os olhos, daria um bocejo e...

Não sei por que as pessoas insistem em se torturar deixando os caixões abertos nos velórios. É... bárbaro.

— Bom, acabou.

— É, parece. Ele é um bom menino, não, Henry?

— Mark? O melhor.

Mark sorriu.

— O que está passando na TV?

— Vou olhar.

Mark se desligou do resto; a discussão séria acabara. Colocou o modelo no parapeito da janela para secar e endurecer. Em 15 minutos sua mãe o chamaria lhe dizendo que era hora de dormir. Ele tirou os pijamas da cômoda e começou a se despir.

Na verdade, sua mãe se preocupava inutilmente com sua psique, que não era nada frágil, nem havia motivo para que fosse. Ele era um menino normal, apesar de sua graça e delicadeza. Sua família era de classe média alta e podia subir ainda mais, e o casamento dos pais era sólido. Eles se amavam de um modo intenso, embora um pouco maçante. Nunca houvera nenhum grande trauma na vida de Mark. As poucas brigas na escola não lhe deixaram marcas. Entendia-se com seus companheiros e, de modo geral, queria as mesmas coisas que eles.

Se havia algo que o destacava, era um certo distanciamento, um frio autocontrole. Ninguém lhe incutira isso; ele parecia ter nascido assim. Quando seu cachorrinho, Chopper, fora atropelado, ele in­sistira em ir com a mãe ao veterinário. E quando este dissera “Preciso colocar seu cachorro para dormir, rapazinho. Você entende por quê?”, Mark dissera “Você não vai colocar ele para dormir. Vai matá-lo com gás, não é?”. O veterinário disse que sim. Mark lhe disse para continuar, mas antes beijou Chopper. Sentiu tristeza, mas não chorou. Sua mãe chorara, mas três dias depois já havia esquecido Chopper. Mark nunca o esqueceria. E era esse o valor de não chorar. Chorar era como deixar vazar os sentimentos no chão.

Ele ficara chocado com o desaparecimento de Ralphie Glick, e depois com a morte de Danny, mas não sentira medo. Ouvira um homem na loja dizer que provavelmente um pervertido sexual pegara Ralphie. Mark sabia o que eram pervertidos. Faziam algo com você que os deixavam malucos e, quando acabavam, te estrangulavam (nas revistinhas, a pessoa estrangulada sempre dizia Arrrggh) e te enterravam numa cova ou sob as tábuas de um galpão deserto. Se um pervertido um dia lhe oferecesse doces, ele lhe chutaria o saco e sairia correndo como um raio.

— Mark? — era a voz da mãe, vinda da escada.

— Sou eu — disse ele, e sorriu de novo.

— Não se esqueça de lavar as orelhas quando tomar banho.

— Pode deixar.

Ele desceu para lhes dar um beijo de boa-noite, andando com leveza e agilidade, lançando um olhar para a mesa onde seus monstros se exibiam: Drácula com a boca aberta, mostrando os caninos, ameaçava uma moça deitada no chão, enquanto o Cientista Louco torturava uma mulher na maca e o Sr. Hyde espreitava um velho que caminhava para casa.

Se ele sabia o que era a morte? Claro. Era quando os monstros te pegavam.

6

Roy McDougall parou na entrada do seu trailer às oito e meia, acelerou o motor do seu velho Ford duas vezes e depois o desligou. O tubo do exaustor pifara, os faróis pisca-pisca não funcionavam e a inspeção seria no mês seguinte. Que beleza de carro. Que beleza de vida. O menino berrava dentro do trailer e Sandy gritava com ele. Que beleza de casamento.

Ele saiu do carro e tropeçou numa das lajes que comprara havia meses para o projeto, sempre adiado, de fazer uma passarela ligando o trailer à calçada.

— Merda — ele murmurou, lançando um olhar terrível para a laje e esfregando a canela.

Roy estava bêbado. Saíra do trabalho às três e desde então se pusera a beber no Dell’s com Hank Peters e Buddy Mayberry. Hank andava abonado e parecia disposto a beber todo o dinheiro extra, seja de onde viesse. Sabia o que Sandy achava de seus amigos. Ela que se danasse. Negar a um homem umas cervejinhas no sábado e domingo, depois de ele trabalhar a semana toda como um escravo na máquina de desatar fibras, e ainda fazendo hora extra no fim de semana? Quem era ela para reclamar? Passava o dia sem fazer nada além de limpar a casa, conversar com o carteiro e ver se o menino não entrava no forno. E nem cuidava bem dele ultimamente. Outro dia mesmo deixara-o cair da mesa de trocar.

O que você estava fazendo?



Eu estava segurando ele, Roy. É que ele não pára quieto,

Não pára quieto. Sei.

Ele andou até a porta, ainda bufando. A pancada na perna doía. Não que Sandy fosse se importar. E o que ela fazia enquanto ele suava feito um porco para aquele capataz cretino? Lia revistas de fofocas comendo bombons de cereja ou assistia a novelas comendo bombons de cereja ou tagare­lava com as amigas ao telefone comendo bombons de cereja. Estava ficando com espinhas não só na cara, mas na bunda. Logo não daria para saber qual era qual.

Ele abriu a porta e entrou.

A cena o atingiu com violência, apagando o fogo da cerveja como um balde de água fria: o bebê gritava, nu, sangue escorrendo pelo nariz; Sandy o segurava, a blusa manchada de sangue, olhando para o marido com o rosto contraído de surpresa e medo; a fralda no chão.

Randy, com marcas escuras em torno dos olhos, estendia as mãos como numa súplica.

— O que está acontecendo aqui? — Roy perguntou lentamente.

— Nada, Roy. Ele só...

— Você bateu nele — disse Roy, com voz monótona. — Ele não parava quieto para você pôr a fralda e você bateu nele.

— Não — ela disse rapidamente. — Ele rolou e bateu o nariz, só isso. Só isso.

— Eu devia arrancar seu couro — disse ele.

— Roy, ele só bateu o nariz...

Ele deixou cair os ombros.

— O que tem para comer?

— Hambúrgueres. Mas queimaram — disse ela com petulância, tirando a ponta da blusa de dentro dos jeans para limpar o nariz de Randy. Roy viu a baleia que ela estava virando. Nunca recuperara o corpo depois da gravidez. Nem tentara.

— Faça ele calar a boca.

— Ele não está...

Faça ele calar a boca!— gritou Roy, e Randy, que na verdade já parara de chorar e fungava, voltou a gritar com força.

— Vou buscar a mamadeira — disse Sandy, levantando.

— E traga meu jantar. — Ele começou a tirar a jaqueta de brim. — Santo Deus, que bagunça que está este lugar. O que você faz o dia todo, fica tocando siririca?

Roy! — exclamou ela, em tom ofendido. Depois deu um risinho. Sua louca explosão’ de raiva porque o bebê não parava quieto para que ela prendesse as fraldas começou a se tornar distante, nebulosa. Como se tivesse acontecido numa das novelas da TV.

— Traga meu jantar e depois arrume essa porcaria de lugar.

— Está bem, está bem... — Ela tirou uma mamadeira da geladeira e colocou Randy no chiqueirinho. Ele começou a sugar o leite com apatia, os olhos indo da mãe para o pai em círculos sem saída.

— Roy?


— Hum. Fale.

— Acabou.

— O quê?

— Você sabe. Você quer? Hoje?

— Claro — disse ele. — Claro. — E pensou de novo: Que beleza de vida. Que beleza de vida.

7

Nolly Gardener ouvia Rock-and-roll pela WLOB estalando os dedos quando o telefone tocou. Parkins deixou as palavras cruzadas de lado e disse:

— Abaixe um pouco.

— Claro, Park. — Nolly abaixou o rádio e continuou estalando os dedos.

— Alô? — disse Parkins.

— Delegado Gillespie?

— Eu mesmo.

— Aqui é o agente Tom Hanrahan. Tenho as informações que pediu.

— Obrigado pela rapidez.

— Mas não sei se vai adiantar muito.

— Tudo bem — disse Parkins. — O que descobriram?

— Ben Mears foi investigado devido a um acidente de moto fatal no norte de Nova York em maio de 1973. Não foi indiciado. A mulher dele, Miranda, morreu. As testemunhas disseram que ele ia devagar e o teste de álcool deu negativo. Parece que só escorregou no asfalto. Quanto à política, tende para a esquerda. Participou de uma passeata pacifista em Princeton em 1966. Falou num comício anti-guerra no Brooklyn em 1967. Participou de passeatas em Washington em 1968 e 1970. Foi preso durante uma passeata pacifista em San Francisco em novembro de 1971. E é tudo que sabemos dele.

— O que mais?

— Kurt Barlow, Kurt com “k”. É britânico, mas naturalizado. Nasceu na Alemanha e foi para a Inglaterra em 1938, ao que parece fugindo da Gestapo. Não tivemos acesso a seus registros anteriores, mas deve estar com uns setenta anos. Seu nome de batismo é Breichen. Trabalha com importação e exportação em Londres desde 1945, mas não aparece muito. Straker é seu sócio desde então, e parece que é ele que lida com o público.

— E ele?

— Straker é britânico nativo. Tem 58 anos. Seu pai era marceneiro em Manchester. Parece que deixou bastante dinheiro para o filho, que também se deu muito bem na vida. Os dois pediram vistos de estada prolongada nos Estados Unidos há 18 meses. É tudo que sabemos. E há suspeitas de que podem ser um casal.

— É — disse Parkins, e suspirou, — Foi o que eu pensei.

— Se precisar de mais informações, podemos entrar em contato com a Divisão de Investigação Criminal e a Scotland Yard.

— Não, não precisa.

— E não há nenhuma ligação entre Mears e os dois comerciantes. Só se for muito secreta.

— Certo. Obrigado.

— É para isso que estamos aqui. Se precisar de ajuda, ligue.

— Pode deixar. Obrigado mais uma vez.

Colocou o fone no gancho e o contemplou com ar pensativo.

— Quem era, Park? — perguntou Nolly erguendo o rádio.

— O Excellent Café. Acabou o sanduíche de presunto. Tem só salada de ovo e queijo quente.

— Tem bolo de framboesa na minha mesa, se quiser.

— Não, obrigado — disse Parkins, e suspirou de novo.

8

O depósito de lixo ainda estava em lenta combustão.

Dud Rodgers andava ao redor do lixão, saboreando o aroma de carne queimada. A cada passo, esmagava garrafas e fazia subir uma nuvem de cinzas. Na imensidão do depósito, o clarão das brasas aumentava e diminuía ao sabor do vento, como um imenso olho vermelho abrindo e fechando... o olho de um gigante. De vez em quando se ouvia um estrondo abafado quando uma lata de aerossol ou uma lâmpada explodiam. Um grande número de ratos havia saído do depósito quando ele o queimara naquela manhã, mais do que ele jamais vira. Ele matara pelo menos três dúzias, e sua pistola estava quente quando ele finalmente a guardou no coldre. Eram ratões grandes, alguns com até setenta centímetros. Engraçado como eles surgiam em maior ou menor quantidade, dependendo do ano. Devia ter algo a ver com o clima. Se continuasse assim, ele teria de começar a espalhar iscas envenenadas, algo que não precisava fazer desde 1964.

Lá estava outro, rastejando sob um dos cavaletes amarelos que serviam de barreiras antifogo.

Dud sacou a pistola, puxou o pino de segurança, apontou e disparou. O tiro atingiu a terra na frente do rato, salpicando seu pêlo. Mas, em vez de fugir, ele se ergueu nas patas traseiras e o encarou, os olhinhos vermelhos brilhando entre as brasas. Como alguns deles eram atrevidos!

— Tchauzinho, rato — disse Dud, apontando com cuidado.

Bum. O rato capotou, se contorcendo.

Dud andou até o animal e o empurrou com a pesada bota de trabalho. O rato mordeu fracamente o couro da bota, arquejando.

— Filho-da-mãe — Dud disse baixinho, e esmagou sua cabeça.

Ao se acocorar para examiná-lo, voltou a pensar em Ruthie Crockett, que nunca usava sutiã. Quando ela punha aqueles suéteres justos de cardigã, dava para ver os bicos contra o tecido, eretos devido à fricção contra a lã. Ele apostava que era só roçar um pouco naqueles peitos, só um pouco mesmo, para aquela putinha subir pelas paredes.

Ele pegou o rato pelo rabo e o balançou como um pêndulo.

— E se você encontrasse esse ratinho na sua latinha de salsicha, Ruthie?

Dud achou graça na idéia e seu inesperado duplo sentido, e deixou escapar um riso estridente, sacudindo a cabeça torta.

Jogou o rato para longe, no meio do depósito. Ao fazê-lo, girou e deu de cara com um vulto — uma silhueta alta e extremamente magra a cinqüenta passos dele.

Dud enxugou as mãos nas calças verdes, suspendeu-as e se aproximou.

— O depósito está fechado, senhor.

O homem se virou para ele. O rosto que o clarão vermelho das brasas iluminou era anguloso e pensativo. Os cabelos eram brancos, riscados de mechas cinzentas curiosamente másculas. O sujeito as afastara da testa ampla e pálida, como faziam os pianistas de concerto. Os olhos refletiam o fulgor vermelho das brasas e pareciam injetados de sangue.

— É mesmo? — perguntou o homem educadamente, revelando um leve sotaque em suas palavras, embora perfeitamente articuladas. Devia ser francês, ou talvez até mesmo russo. — Vim contemplar o fogo. É lindo.

— É — disse Dud. — O senhor é daqui?

— Sim, acabei de me mudar para sua aprazível cidade. Você mata muitos ratos?

— Bastante. Ultimamente apareceram milhões desses filhos-da-mãe. Escute, por acaso o senhor é o sujeito que comprou a Casa Marsten?

— Predadores — o homem disse, cruzando as mãos atrás das costas. Dud notou, surpreso, que ele estava todo arrumado, de terno com colete e tudo. — Adoro os predadores da noite. Os ratos... as corujas... os lobos. Existem lobos nesta região?

— Não — disse Dud. — Um cara em Durham pegou um coiote há uns dois anos. E um bando de cachorros do mato anda espantando os cervos...

— Cachorros... — o estranho disse, e fez um gesto de desprezo. — Animais inferiores que se encolhem e uivam ao ouvir passos estranhos. Servem apenas para choramingar e rastejar. Deviam ser todos estripados.

— Eu nunca tinha pensado nisso — disse Dud, recuando um passo. — É bom quando aparece alguém aqui para bater um papo, mas o depósito fecha às seis aos domingos, agora já passa das nove e...

— Certamente.

Mas o estranho não fez menção de ir embora. Dud pensava consigo mesmo que passara a perna na cidade. Todos estavam se perguntando quem estaria por trás daquele tal de Straker, e ele era o primeiro a saber — fora, talvez, Larry Crockett, que era uma raposa. Na próxima vez que fosse à cidade para comprar balas daquele santinho do George Middler, diria, como quem não quer nada: encontrei aquele sujeito outro dia. Quem? Aquele que comprou a Casa Marsten. Um sujeito decente. Tem um sotaque meio russo.

— Já apareceu algum fantasma naquela casa velha? — perguntou quando viu que o velho não ia mesmo se mandar dali.

— Fantasmas! — O velho sorriu de modo inquietante. Parecia o sorriso de um tubarão. — Não, fantasmas, não. — Ele enfatizou levemente a palavra, como se houvesse algo na casa que fosse ainda pior.

— Bom, está ficando tarde... É melhor ir agora, senhor...?

— Mas nossa conversa está tão agradável — disse o velho, e pela primeira vez virou-se para Dud e o olhou diretamente. Seus olhos, muito separados, refletiam o fogo mortiço do depósito. Era impos­sível parar de olhar para eles. — Vamos continuar um pouco mais.

— É, pode ser — disse Dud, e sua voz soou distante. Os olhos dele pareciam se expandir, crescer, até parecerem poços escuros rodeados de fogo, poços onde alguém podia se afogar.

— Obrigado — disse ele. — Diga-me... essa sua corcunda não o incomoda no trabalho?

— Não — disse Dud, ainda se sentindo distante. Pensou vagamente: aposto que ele está me hipnotizando. Que nem aquele sujeito da Feira de Topsham... como ele se chamava? Mr. Mephisto. Ele punha as pessoas para dormir e elas faziam um monte de coisas engraçadas, imitavam galinhas, corriam como cachorros ou lembravam coisas que tinham acontecido quando eram pequenas. Ele hipnotizou Reggie Sawyer, e como a gente riu...

— Então o atrapalha de outras maneiras?

— Não... bom... — Dud olhava para os olhos dele, fascinado.

— Vamos, vamos — o velho o induziu gentilmente. — Somos amigos, não é? Pode me dizer.

— Bom, as mulheres... você sabe...

— Claro que sei — disse o velho, compreensivo. — As mulheres riem de você, não é? Não conhecem sua masculinidade. Sua força.

— Isso mesmo — sussurrou Dud. — Elas riem. Ela ri.

— Ela, quem?

— Ruthie Crockett. Ela... ela... — O pensamento lhe escapou. Ele permitiu. Não importava. Nada importava a não ser aquela paz. Aquela paz repousante e completa.

— Ela faz gracejos quando você passa? Ri escondido? Cutuca os amigos?

— Isso...

— Mas você a deseja — insistiu a voz. — Não é mesmo?

— É.


— Você a terá. Tenho certeza.

Havia algo... agradável naquela situação. Na distância, ele parecia ouvir vozes suaves cantando palavras obscenas. Um tocar de sinos... rostos brancos... a voz de Ruthie Crockett. Ele quase podia vê-la, as mãos erguendo os peitinhos, fazendo-os surgir sobre o V do seu suéter em maduros círculos brancos, e sussurrando: Beije eles, Dud... morda eles... chupe eles...

Era como se afogar. Se afogar nos círculos vermelhos em torno dos olhos do velho.

E quando ele se aproximou, Dud entendeu tudo e aceitou, e quando a dor veio, era doce como prata, verde como a água parada nas profundezas,

9

As mãos dele tremiam. Quando tentou pegar a garrafa, derrubou-a da mesa para o chão, e o uísque de primeira se espalhou sobre o carpete de lã verde.

— Merda! — disse o padre Donald Callahan, e abaixou-se logo para apanhá-la antes de desperdiçar mais. Na verdade, já não havia muito. Ele voltou a colocar a garrafa sobre a mesa (bem longe da borda) e foi até a cozinha buscar um trapo e um detergente debaixo da pia. Não podia deixar a Sra. Curless encontrar uma mancha de uísque perto da mesa do escritório. O olhar dela, bondoso e penalizado, era duro de suportar nas longas e ásperas manhãs quando ele se sentia um pouco...



De ressaca, você quer dizer.

Sim, de ressaca. Vamos admitir a verdade, pelo amor de Deus. Conheça a verdade, e a verdade te libertará. Viva a verdade.

Ele encontrou uma garrafa de algo chamado E-Vap e a levou para o escritório. Seu andar não estava trôpego. Nem um pouco. Olhe, seu guarda, vou andar por cima da faixa branca até o sinal vermelho.

Callahan impressionava aos 53 anos, com seu tipo irlandês, os cabelos prateados, os olhos azuis e diretos — cercados por rugas miúdas —, os lábios firmes, o queixo furado. Certas manhãs, quando se olhava no espelho, ele pensava em largar a batina e ir para Hollywood arranjar um papel de Spencer Tracy quando fizesse sessenta anos.

— Padre Flanagan, onde está quando preciso de você? — murmurou, acocorando-se para limpar a mancha. Apertou os olhos, leu as instruções no rótulo do frasco e colocou duas tampinhas de E-Vap sobre a mancha. O local imediatamente embranqueceu e começou a borbulhar. Callahan se alarmou um pouco e voltou a consultar o rótulo.

— Para manchas muito resistentes — leu ele em voz alta, a voz forte e melodiosa que o tornara tão querido na paróquia, acostumada aos longos sermões acompanhados por um bater de dentaduras do velho padre Hume. — Deixe agir de sete a dez minutos.

Ele foi até a janela do escritório, que dava para a rua Elm e a igreja de St. Andrew.

Muito bem, pensou ele, mais uma bebedeira dominical.



Abençoai-me, Pai, porque pequei.

Bebendo devagar enquanto trabalhava (em suas longas e solitárias noites, o padre Callahan produzia suas Notas. Trabalhava nelas havia quase sete anos, supostamente para um livro sobre a Igreja Católica na Nova Inglaterra, mas ele suspeitava às vezes que o livro nunca sairia. Na verdade, as Notas e seu alcoolismo haviam começado ao mesmo tempo. Genesis 1:1, “No começo havia o scotch”, e o padre Callahan disse “Que se façam as Notas.”), mal dava para notar a progressão lenta da embriaguez. E era possível treinar a mão para não sentir o peso da garrafa diminuindo.



Faz pelo menos um dia que não me confesso.

Eram onze e meia. Olhando pela janela, ele via uma escuridão uniforme, rompida apenas pelo círculo projetado pelo poste de luz em frente à igreja. A qualquer momento, Fred Astaire saltaria para dentro do círculo e dançaria, de cartola, smoking, polainas e sapatos brancos, girando uma bengala. Ginger Rogers se juntaria a ele e os dois valsariam pela noite.

Ele encostou a testa no vidro, e o rosto bonito, que até certo ponto fora sua perdição, assumiu uma expressão de cansaço e desalento.

Sou um padre bêbado e imprestável, Pai.

Com os olhos fechados, ele via a escuridão do confessionário, os próprios dedos abrindo a janela e desvendando todos os segredos do coração humano, sentia o cheiro de verniz e veludo velho dos genuflexórios e o suor de gente velha; vestígios de sal em sua saliva. .



Abençoai-me, Pai...

(Eu quebrei a carroça do meu irmão, eu bati na minha mulher, eu espiei pela janela da Sra. Sawyer enquanto ela tirava a roupa, eu menti, eu enganei, eu tive pensamentos pecaminosos, eu...)



porque pequei.

Ele abriu os olhos e viu que Fred Astaire ainda não aparecera. Talvez à meia-noite. A cidade dormia. Com a exceção...

Ele levantou os olhos. Sim, lá em cima as luzes estavam acesas.

Lembrou daquela menina, sobrenome Bowie — não, era McDougall agora —, dizendo em sua voz fina e ofegante que batia no filhinho, e quando ele perguntara com que freqüência, ele pressentiu (quase ouviu) as rodas girando na mente dela, multiplicando cinco por 12, ou cem por 12. Pobre projeto de ser humano. Ele batizara o bebê. Randall Fratus McDougall. Concebido no banco traseiro do carro de Royce McDougall, provavelmente durante um filme no drive-in. Pequena e sofredora criatura. Será que ela sabia que ele gostaria de passar os braços pela janelinha e apertar sua alma até lhe arrancar um grito? Sua penitência são seis tapas na cabeça e um bom chute na bunda. Vá embora e não peque mais.

— Que tédio.

Mas o confessionário não era apenas tedioso. Não era só ele que o nauseava e o empurrava para um clube cada vez mais populoso, a União dos Padres Católicos da Garrafa e do Cutty Sark. Era o motor uniforme e contínuo da igreja, abafando todos os pecados humanos em sua interminável busca do paraíso. Era o reconhecimento protocolar do mal por uma igreja mais preocupada com as mazelas sociais e com velhas beatas cujos pais falavam línguas européias. Era a presença efetiva do mal no confessionário, real como o cheiro de veludo velho.

Mas era um mal inconsciente e estúpido, para o qual não havia nem piedade nem alívio. O rosto do bebê agredido, o pneu cortado com um canivete, a briga no bar, as lâminas inseridas em maçãs de Halloween, as soluções insípidas que a mente humana, em suas voltas labirínticas, era capaz de engendrar. Senhoras e senhores, a solução é melhorar as prisões. Melhorar a polícia. Melhorar os serviços sociais. Melhorar o controle da natalidade. As técnicas de esterilização. Os abortos. Senhoras e senhores, se tirarmos o feto do útero, ele nunca crescerá e matará uma mulher a golpes de martelo. Senhoras e senhores, se prendermos esse homem a uma cadeira elétrica e o fritarmos como uma costela de porco, ele nunca mais terá a chance de torturar meninos até a morte. Cidadãos, se a lei da eugenia for aprovada, garanto que vocês nunca mais...

Merda.

A verdade vinha se tornando cada vez mais clara para ele nos últimos três anos. Ganhara clareza e resolução como um filme fora de foco sendo ajustado, até definir cada linha. Ele ansiava por um Desafio. Os novos padres tinham causas como a democracia racial, igualdade de direitos para as mulheres, até mesmo para os gays, a luta contra a pobreza, a insanidade, a ilegalidade. Eles o incomodavam. Os únicos padres socialmente conscientes com quem ele se sentia à vontade eram os que haviam militado contra a guerra do Vietnã. Agora que a luta acabara, eles ficavam lembrando das passeatas e comícios como casais de idade se lembram da lua-de-mel. Mas Callahan não pertencia a nenhuma dessas categorias. Era um tradicionalista que já não conseguia acreditar em seus postulados. O que ele queria era liderar uma divisão do exército de Deus — ou do bem, da virtude, eram sinônimos — numa batalha contra o MAL, Queria combater, e não ficar na porta dos supermercados distribuindo panfletos sobre o boicote à alface ou a greve dos vinicultores. Ele queria ver o MAL sem seus sudários de dissimulação, mostrando todos os traços de sua cara. Queria lutar corpo a corpo com o Mal, como Muhammad Ali contra Joe Frazier, os Celtics contra os Knicks, Jacó contra o Anjo. Queria que sua luta fosse pura, livre da política que se colava a todas as questões sociais como um irmão siamês deforma­do. Era por isso que quisera ser padre. Sentira a vocação aos 14 anos, quando ouvira a história de Santo Estevão, o primeiro mártir cristão, que fora apedrejado até a morte e vira Cristo pouco antes de morrer. O paraíso não era nada comparado a lutar — e talvez perecer — servindo a Deus.

Mas não havia batalhas. Apenas embates destituídos de convicção. E o MAL não tinha apenas uma cara, mas várias, a maioria delas inexpressivas. De fato, ele se via obrigado a concluir que não existia o MAL, mas apenas o mal, ou o (mal), talvez. Nesses momentos, ele suspeitava que Hitler não passara de um burocrata atormentado e o próprio Satã era um débil mental com péssimo senso de humor, do tipo que acha engraçado dar bombinhas enroladas em pão a gaivotas.

As grandes batalhas sociais, morais e espirituais de toda a História se resumiam a Sandy McDougall espancando seu bebê ranhento às escondidas, e este cresceria e também espancaria seu filho em segredo, aleluia, irmãos

Era mais do que tedioso. Trazia terríveis conseqüências para o conceito de vida plena, e até de paraíso. O que seria? Eternos bingos, parques de diversões e pistas de corrida?

Ele olhou para o relógio na parede. Era meia-noite e seis minutos, e nem sinal de Fred Astaire e Ginger Rogers. Nem sequer de Mickey Rooney. Mas o detergente já devia ter agido. Agora ele passaria o aspirador no carpete, e a Sra. Curless não o olharia com aquela expressão de pena. E a vida continuaria. Amém.


Capítulo Sete

MATT


1

Na terça-feira, depois da terceira aula, Matt foi até a secretaria, onde Ben Mears o aguardava.

— Oi — disse Matt. — Chegou adiantado.

Ben se ergueu, e os dois apertaram as mãos.

— Acho que é mal de família. Escute, seus alunos não vão me comer vivo, não é?

— Relaxe — disse Matt. — Venha.

Estava um pouco surpreso ao ver que Ben vestira um blazer bem-cortado e calças cinza de jérsei. E sapatos bons, com pouco uso. Matt já convidara outros escritores para suas aulas, e a maioria viera com roupas descuidadas ou esdrúxulas. No ano anterior, ele pedira a uma celebrada poeta de quem lera os poemas na Universidade do Maine, em Portland, que desse uma palestra sobre poesia a seus alunos no dia seguinte. Ela apareceu de fuseau e salto alto. Parecia um modo subliminar de dizer: “Vejam, venci o sistema no campo dele. Faço o que me dá na telha.”

A comparação aumentou sua admiração por Ben. Depois de mais de trinta anos de ensino, ele concluíra que ninguém conseguia derrotar o sistema e vencer o jogo, e só cretinos se acreditavam livres.

— Que prédio bonito — disse Ben, enquanto atravessavam o corredor. — É totalmente diferente do colégio em que estudei. Lá as janelas mais pareciam frestas numa fortificação.

— Primeiro erro — disse Matt. — Nunca diga “prédio”, e sim “espaço educacional”. Não é lousa, mas “apoio visual”. E os estudantes são “o corpo estudantil homogêneo e misto”.

— Que ótimo para eles... — ironizou Ben.

— É mesmo, não é? Você fez faculdade, Ben?

— Tentei fazer ciências humanas. Mas todos pareciam correr uma maratona intelectual em busca de um tesouro, capaz de torná-los famosos e amados. E abandonei o curso. Quando vendi Conway’s Daughter, eu trabalhava como carregador da Coca-Cola.

— Conte aos alunos. Eles vão se interessar.

— Você gosta de lecionar? — perguntou Ben.

— Claro que sim. Teriam sido quarenta anos insuportáveis se eu não gostasse.

O sinal tocou, ecoando com estridência pelo corredor, vazio, com a exceção de um estudante que passava ociosamente sob uma placa com uma seta e a inscrição “Marcenaria”.

— E a questão das drogas por aqui? — perguntou Ben.

— Tem de tudo, como em todas as escolas do país. Mas aqui o problema maior é o álcool.

— E não maconha?

— Não considero maconha um problema, nem os diretores, como admitem extra-oficialmente depois de umas doses de uísque. Nosso orientador pedagógico, um dos melhores em sua área, não se nega a fumar um baseado e ir ao cinema. Eu mesmo já experimentei. O efeito é gostoso, mas me deu indigestão.

Você?

— Shhh — disse Matt. — O Grande Irmão ouve tudo. Além disso, chegamos.

— Minha nossa...

— Não fique nervoso — disse Matt, entrando na sala. — Bom-dia, pessoal — disse ele aos vinte e poucos adolescentes, que olharam para Ben com interesse. — Este é Ben Mears.

2

A princípio, ben pensou que errara de casa.

Quando Matt Burke o convidara para jantar, tinha certeza de que ele dissera que era a casinha cinza depois da universidade, mas ele ouvia rock-and-roll a todo volume dentro daquela.

Bateu com a argola embaçada da porta e, como ninguém respondeu, bateu de novo. Dessa vez a música baixou, e uma voz que só podia ser de Matt gritou:

— Entre! Está aberta!

Ele entrou, olhando ao redor com curiosidade. A porta dava direto para uma pequena sala de estar decorada no melhor estilo brechó, tendo ao meio uma tevê Motorola incrivelmente antiga. Um aparelho de som KLH com alto-falantes quad era a fonte da música.

Matt saiu da cozinha com um avental de xadrez vermelho e branco, seguido pelo aroma de molho de espaguete.

— Desculpe pela barulheira — disse ele. — Sou um pouco surdo.

— Excelente música.

— Sou fã de rock desde Buddy Holly. Adoro as músicas dele. Está com fome?

— Estou. Mais uma vez, obrigado pelo convite. Desde que voltei para ’salem’s Lot, tenho jantado fora mais do que nos últimos cinco anos.

— É uma cidade simpática. Espero que não se importe em comer na cozinha. Um antiquário passou por aqui há uns dois meses e me ofereceu duzentos dólares pela minha mesa de jantar. Ainda não tive tempo de comprar outra.

— Não me importo. Comer na cozinha é uma antiga tradição de família.

A cozinha estava impecavelmente limpa. No pequeno fogão, uma panela com molho de tomate fervia em fogo brando e um escorredor com espaguete fumegava. Uma pequena mesa dobrável estava arrumada com pratos que não combinavam e copos com personagens de quadrinhos ao redor das bordas — copos de geléia, pensou Ben, sorrindo. A última gota de embaraço por estar na companhia de um estranho se foi, e ele começou a se sentir em casa.

— Tem uísque e vodca no armário em cima da pia — disse Matt, apontando. — E ingredientes para drinques na geladeira. Nada muito sofisticado.

— Uísque com água de torneira está bom para mim.

— Fique à vontade. Vou servir essa gororoba.

— Gostei de seus alunos — disse Ben, enquanto preparava uma bebida. — Fizeram boas perguntas. Difíceis, mas boas.

— Como “de onde vêm suas idéias?” — disse Matt, imitando o sexy ceceio de menininha de Ruthie Crockett.

— Ela é uma garota e tanto.

— É mesmo. Tem uma garrafa de vinho Lancers na geladeira, atrás das fatias de abacaxi. Comprei especialmente para hoje.

— Não precisava...

— Ora, Ben. Não vemos autores famosos em Lot todos os dias.

— Que extravagância.

Ben terminou a bebida, pegou um prato de espaguete que Matt lhe deu, cobriu-o de molho e enrolou a massa no garfo contra a colher.

— Fantástico — disse ele. — Mamma mia.

— Fique à vontade — disse Matt.

Ben olhou para o prato, que esvaziara com incrível rapidez. Limpou a boca, sentindo-se um pouco culpado.

— Quer mais?

— Só meio prato, por favor. Está uma delícia.

Matt encheu todo o prato de Ben.

— Se não comermos, meu gato comerá. É um sem-vergonha. Pesa dez quilos e anda como uma pata choca.

— Nossa, como é que eu não o vi?

Matt sorriu.

— Ele está na farra. Seu novo livro é um romance?

— É romanceado — disse Ben. — Para falar a verdade, estou querendo ganhar dinheiro. A arte é algo maravilhoso, mas uma vez na vida eu gostaria de acertar na loteria.

— E as perspectivas?

— São sombrias — disse Ben.

— Vamos para a sala — disse Matt. — As poltronas são velhas, mas um pouco mais confortáveis do que esses bancos de cozinha. Está satisfeito?

— Nem me fale...

Na sala, Matt empilhou vários discos na vitrola e se dedicou a acender um enorme cachimbo de cabaça. Quando o achou a contento, depois de formar uma nuvem de fumaça, olhou para Ben.

— Não — disse ele. — Não dá para ver daqui.

Ben, que estava na janela, se virou bruscamente.

— O quê?

— A Casa Marsten. Aposto cinco centavos que era o que estava procurando.

Ben deu uma risada constrangida.

— Nada de apostas.

— Seu livro se passa numa cidade como ’salem’s Lot?

— É sobre a cidade e seus habitantes — disse Ben. — Acontece uma série de crimes sexuais e mutilações. Abrirei com um deles e o descreverei do começo ao fim, nos mínimos detalhes. Esfregarei o crime na cara do leitor. Estava esboçando essa parte quando Ralphie Glick desapareceu, e foi... bom, foi bastante desagradável.

— Está baseando o livro nos desaparecimentos que ocorreram na região nos anos 1930?

Ben o olhou com atenção.

— Você sabe disso?

— Claro. E vários dos moradores mais velhos também. Eu ainda não estava na cidade, mas Mabel Werts, Glynis Mayberry e Milt Crossen estavam. Alguns já fizeram a ligação.

— Que ligação?

— Ora, Ben. A ligação é óbvia, não?

— Bastante. Na última vez que a casa foi habitada, quatro crianças desapareceram num período de dez anos. Agora voltou a ser ocupada após 36 anos, e Ralphie Glick desapareceu sem mais nem menos.

— Acha que é coincidência?

— Suponho que sim — disse Ben com cuidado, tendo em mente o alerta de Susan. — Mas é engraçado. Pesquisei os exemplares do Ledger de 1939 a 1970 só para comparar. Três crianças desapareceram nesse período. Uma fugiu e depois foi encontrada trabalhando em Boston. Tinha 16 anos e parecia mais velho. Outro foi retirado do rio Androscoggin um mês depois. E outro foi encontrado enterrado à beira da Rota 116, em Gates, depois de ser atropelado. Tudo explicado.

— Talvez o desaparecimento de Ralphie também seja explicado.

— Talvez.

— Mas você não acredita nisso. O que sabe sobre esse tal de Straker?

— Absolutamente nada — disse Ben. — Nem sei se quero conhecê-lo. Estou desenvolvendo um livro em torno de uma certa concepção da Casa Marsten e seus habitantes. Constatar que Straker não passa de um negociante totalmente normal, como certamente é o caso, pode me tirar da trilha.

— Não acho que seria assim. Ele abriu a loja hoje, você sabe. Ouvi dizer que Susie Norton e a mãe passaram por lá. Mas todas as mulheres da cidade deram pelo menos uma espiada. Segundo Dell Markey, uma fonte incontestável, até Mabel Werts se arrastou até lá. Parece que o homem impressiona. Bem-vestido, cortês, totalmente careca. E encantador. Soube que chegou a vender umas peças.

Ben sorriu.

— Que maravilha. E alguém já viu o outro sócio?

— Parece que está viajando a negócios.

— Por que “parece”?

Matt encolheu os ombros.

— Não sei. Deve ser um negócio perfeitamente honesto, mas a casa me deixa nervoso. Parece que esses dois foram atraídos por ela. Como você disse, é como um ídolo, plantado no alto do monte.

Ben assentiu com um gesto de cabeça.

— E, se não bastasse tudo isso, outra criança desapareceu. E Danny, o irmão de Ralphie, morreu aos 12 anos. Causa da morte, anemia perniciosa.

— O que há de estranho nisso? É uma desgraça, mas...

— Meu médico é um rapaz chamado Jimmy Cody, Ben. Foi meu aluno. Era uma praga na época, mas um bom médico agora. O que vou lhe dizer é só um boato.

— Ok.

— Fui ao hospital para um check-up, e comentei que era uma lástima o que acontecera com Danny, que era uma catástrofe para os pais, depois do desaparecimento do outro. Jimmy disse que discutira o caso com George Gorby, o médico responsável. O menino estava anêmico mesmo. Disse que a contagem de glóbulos vermelhos de um menino da idade de Danny varia de 85% a 95%. Danny tinha 45%.



— Nossa — exclamou Ben.

— Estava recebendo injeções de vitamina B12 e fígado de vitela, e tudo parecia ir bem. Receberia alta no dia seguinte. E então, bum, caiu morto.

— Não deixe Mabel Werts ouvir isso — disse Ben. — Ela começaria a ver índios com zarabatanas no parque.

— Não falei disso a ninguém, fora você. E nem falarei. A propósito, Ben, é melhor não divulgar o assunto de seu livro. Se Loretta Starcher perguntar sobre o que está escrevendo, diga que é sobre arquitetura.

— Já me deram o mesmo conselho.

— Foi Susan Norton, sem dúvida.

Ben olhou para o relógio e levantou.

— Falando em Susan...

— O macho abre as plumas para a corte — disse Matt. — Na verdade, preciso ir até a escola. Estamos ensaiando o terceiro ato da peça escolar, uma comédia de grande significado social chamada O Problema de Charley.

— E qual é o problema dele?

— Espinhas — disse Matt, rindo.

Andaram até a porta juntos. Matt parou para vestir uma desbotada jaqueta esportiva da escola. Parecia mais um técnico de futebol maduro do que um professor de inglês sedentário, refletiu Ben. Sem levar em conta o rosto, que era inteligente, sonhador e um pouco inocente.

— Escute — disse Matt, enquanto saíam. — Quais são seus planos para a noite de sexta?

— Não sei — disse Ben. — Acho que Susan e eu vamos ao cinema. Parece que não há muito mais a fazer por aqui.

— Tenho outro programa — disse Matt. — Que tal formarmos um comitê, irmos à Casa Mastern e nos apresentarmos ao novo proprietário? Em nome do município, é claro.

— Boa idéia — disse Ben. — Um simples gesto de cortesia, não é?

— Uma rústica expedição de boas-vindas — concordou Matt.

— Falarei com Susan hoje. Acho que ela vai topar.

— Ótimo.

Matt acenou enquanto o Citroën de Ben se afastava. Ben respondeu com dois toques na buzina, antes que seus faróis traseiros desaparecessem atrás do monte.

Matt permaneceu no alpendre ainda algum tempo, as mãos nos bolsos da jaqueta, os olhos voltados para a casa no topo do monte.

3

Não havia ensaio da peça na noite de quinta, e Matt partiu para o Dell’s por volta das nove horas para tomar algumas cervejas. Se aquele chato do Jimmy Cody não lhe dava remédios para insônia, ele mesmo se medicaria.

O Dell’s não enchia muito nas noites em que não havia música ao vivo. Matt avistou apenas três conhecidos: Weasel Craig, segurando uma cerveja num canto, Floyd Tibbits, com expressão que anunciava chuvas e trovoadas (falara com Susan três vezes naquela semana, duas pelo telefone e uma pessoalmente, na casa dela, e nenhuma das conversas fora bem) e Mike Ryerson, sentado num dos reservados mais afastados, contra a parede.

Matt andou até o balcão, onde Dell Markey enxugava copos enquanto assistia a Ironside numa TV portátil.

— Oi, Matt. Como vão as coisas?

— Tudo bem. Está sossegado aqui hoje.

Dell encolheu os ombros.

— É. Estão passando filmes sobre motos no drive-in de Gates. Isso não é páreo para mim. Quer um copo ou uma jarra?

— Pode ser uma jarra.

Dell puxou a cerveja, tirou o excesso de espuma e encheu mais um pouco. Matt pagou e, depois de hesitar um instante, aproximou-se do reservado de Mike. Ele passara pelas salas de aula de Matt, como a maioria dos jovens de Lot, e causara boa impressão. Tirara notas acima da média mesmo tendo uma inteligência mediana, porque se esforçava e perguntava tudo que não entendia até que entrasse em sua cabeça. Além disso, tinha um senso de humor espontâneo e um agradável individualismo que fizeram dele um dos favoritos da classe.

— Oi, Mike — disse ele. — Posso sentar com você?

Quando Mike Ryerson levantou os olhos, Matt sentiu um choque violento o percorrer. Sua primeira reação: Drogas. Drogas pesadas.

— Claro, Sr. Burke. Sente-se. — Sua voz era apática. Sua pele, de um branco horrível e pastoso, escurecia ao redor dos olhos. Os olhos em si estavam escancarados e febris. Suas mãos moviam-se lentamente sobre a mesa, como fantasmas na obscuridade da taverna. Um copo de cerveja permanecia intocado diante dele.

— Como vai, Mike? — Matt encheu um copo de cerveja, controlando as mãos para não tremerem.

Sua vida sempre fora docemente equilibrada, um gráfico com moderados altos e baixos (e mesmo esses haviam se tornado relativos após a morte de sua mãe, 13 anos antes), e uma das coisas que mais mexiam com ele era ver o triste fim que alguns de seus alunos encontravam. Billy Rokyo, que morrera num acidente de helicóptero no Vietnã dois meses antes do cessar-fogo; Sally Greer, uma das alunas mais brilhantes e vivazes que ele já tivera, morta pelo namorado bêbado quando lhe disse que queria terminar; Gary Coleman, que uma misteriosa degeneração do nervo óptico cegara; Doug, o irmão de Buddy Mayberry, o único bom menino daquele clã obtuso, afogado na praia Old Orchard. E as drogas, que são pequenas mortes. Nem todos que bebiam da Fonte do Esquecimento acabavam mergulhando nela, mas muitos jovens estavam se alimentando de sonhos letais.

— Como vou? — disse Mike lentamente. — Não sei, Sr. Burke. Não muito bem.

— Que porcaria você tomou, Mike? — perguntou Matt, delicadamente. Mike o olhou sem entender.

— Que droga? — disse Matt. — Anfetamina? LSD? Cocaína? Ou é...

— Não estou drogado — disse Mike. — Acho que estou doente.

— Está falando a verdade?

— Nunca usei drogas pesadas na vida — disse Mike, formando as palavras com muito esforço. — Só maconha, mas não fumo um baseado faz quatro meses. Estou doente... desde segunda, eu acho. Adormeci no cemitério Harmony Hill na noite de domingo. Só acordei na manhã da segunda. — Ele balançou a cabeça lentamente. — Estou um lixo desde então. E parece que pioro a cada dia. — Ele suspirou, o sopro de ar o sacudiu, como uma folha morta no inverno.

Matt inclinou-se para frente, preocupado.

— Isso aconteceu depois do enterro de Danny Glick?

— Foi. — Mike o olhou de novo. — Voltei para terminar o serviço depois que todos haviam ido embora, mas aquele maldito... desculpe, Sr. Burke. Mas Royal Snow não apareceu. Esperei por ele bastante tempo, e acho que foi aí que comecei a ficar doente, porque tudo depois disso... Estou com dor de cabeça. Não consigo pensar.

— Do que você se lembra, Mike?

— Do que me lembro? — Mike olhou para as profundezas douradas de seu copo, para as bolhas que se destacavam das laterais e flutuavam para a superfície. — Lembro de uma canção. Da canção mais doce que já ouvi. E da sensação... de me afogar. Mas era gostoso. Fora os olhos. Os olhos...

Ele cruzou os braços e estremeceu.

— Que olhos? — perguntou Matt, inclinando-se.

— Eram olhos vermelhos, assustadores.

De quem eram?

— Não lembro. Não vi olho nenhum. Foi tudo um sonho. — Ele afastou a imagem de si, de um modo quase visível para Matt. — Não lembro de mais nada que aconteceu no domingo à noite. Acordei na segunda deitado no chão, e no começo nem consegui levantar de tão cansado. Mas finalmente consegui. O sol estava alto e fiquei com medo de me queimar. E fui para a beira do riacho, no bosque. Estava cansado. Muito cansado. E voltei a dormir. Dormi até... sei lá, quatro ou cinco horas. — Ele deu uma risada fraca. — Acordei coberto de folhas, mas me sentia um pouco melhor. Levantei e voltei para minha camionete. — Passou a mão lentamente pelo rosto. — Devo ter acabado o serviço de Danny Glick na noite do domingo. Engraçado, Não me lembro.

— Acabado?

— A cova estava cheia. Com a grama por cima e tudo. Um trabalho caprichado, mas não me lembro de ter feito. Acho que eu estava doente mesmo.

— Onde passou a noite de segunda?

— Em casa. Onde mais?

— Como se sentiu na terça de manhã?

— Não acordei na terça de manhã. Dormi o dia inteiro. Só acordei na terça à noite.

— E como se sentiu então?

— Horrível. Minhas pernas pareciam de borracha. Tentei beber água e quase caí. Tive de ir para a cozinha me agarrando aos móveis. Estava fraco como um gatinho. — Ele franziu a testa. — Meu jantar era um cozido enlatado, mas não consegui comer. Só de olhar para o negócio fiquei enjoado. Parecia que eu estava de ressaca.

— Você não comeu nada?

— Tentei, mas vomitei. Mas me senti um pouco melhor. Saí e dei uma volta. Depois, voltei para a cama. — Ele acompanhava com os dedos os círculos deixados pelos copos de cerveja na mesa. — Fiquei com medo antes de dormir. Como uma criança com medo do bicho-papão. Olhei se todas as janelas estavam trancadas e fui dormir com todas as luzes acesas.

— E ontem de manhã?

— Hã? Não... só acordei às nove da noite ontem. — Ele deu a mesma risada frouxa. — Lembro que pensei que, se continuasse assim, dormiria 24 horas por dia. E é o que acontece quando a gente morre.

Matt o olhava com preocupação. Floyd Tibbits levantou, colocou uma moeda no jukebox e começou a selecionar músicas.

— Engraçado — continuou Mike. — A janela do meu quarto estava aberta quando eu acordei. Eu mesmo devo ter aberto. Tive um sonho... alguém estava na janela... e eu levantei e abri a janela para ele. Como se fosse um velho amigo, que a gente deixa entrar porque está com frio ou... ou com fome.

— E quem era?

— Foi só um sonho, Sr. Burke.

— Mas, no sonho, quem era?

— Não sei. Eu tentei comer, mas só de pensar na idéia fiquei com vontade de vomitar.

— O que você fez?

— Vi tevê até acabar o programa do Johnny Carson. Eu me sentia bem melhor. Depois, fui dormir.

— Trancou as janelas?

— Não.

— E dormiu o dia todo?



— Acordei quando estava anoitecendo.

— Sentia-se fraco?

— Muito. — Ele passou a mão pelo rosto. — Estou tão mal! Deve ser só gripe, não é, Sr. Burke? Não estou doente de verdade, não é?

— Não sei — disse Matt.

— Achei que umas cervejas me animariam, mas não consigo beber. Dei um gole e quase engasguei. A semana passada... parece um pesadelo. E estou com medo. Morrendo de medo. — Ele cobriu o rosto com as mãos magras, e Matt viu que chorava.

— Mike?


Ele não respondeu.

— Mike. — Ele puxou delicadamente as mãos de Mike, descobrindo-lhe o rosto. — Quero que vá para casa comigo hoje e durma no quarto de hóspedes. Pode ser?

— Pode ser, tanto faz. — Mike enxugou os olhos com lentidão letárgica.

— E amanhã vamos falar com o Dr. Cody.

— Tudo bem.

— Então, vamos embora.

Matt pensou em ligar para Ben Mears, mas desistiu.

4

Matt bateu na porta trazendo um pijama.

— Entre — disse Mike.

— Acho que vai ficar um pouco grande, mas...

— Não precisa, Sr. Burke. Eu durmo de cueca.

Era como ele estava. Matt viu que seu corpo todo estava terrivelmente pálido. As costelas se projetavam em sulcos circulares.

— Vire a cabeça, Mike. Para este lado.

Mike virou a cabeça obedientemente.

— Que marcas são essas?

Mike tocou o pescoço abaixo do maxilar.

— Não sei.

Matt andou até a janela. Estava bem trancada, mas mesmo assim ele voltou a abrir e fechar o trinco com mãos nervosas. A escuridão da noite parecia pressionar a vidraça.

— Me chame se você precisar de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Até se tiver um pesadelo. Certo, Mike?

— Certo.


— Estou falando sério. Meu quarto fica no fim do corredor.

— Está bem.

Hesitando, sentindo que ainda faltava fazer algo, Matt saiu do quarto.

5

Matt não pregou o olho, e só não ligou para Ben Mears porque sabia que estavam todos dormindo na pensão da Eva. Muitos inquilinos eram idosos, e quando o telefone tocava no meio da noite, pensavam que alguém tinha morrido.

Ficou deitado, inquieto, vendo os ponteiros luminosos do despertador avançarem para o número 12. Fazia um silêncio sobrenatural, talvez porque seus ouvidos estivessem atentos ao menor ruído. A casa era velha, mas sólida, e suas tábuas não rangiam. Os únicos sons eram o do relógio e do vento lá fora. Não passava nenhum carro na via Taggart Stream nas noites de semana.

O que você está pensando é uma loucura.

Mas o pensamento voltava com insistência. É claro que, sendo um literato, fora a primeira coisa que passara por sua cabeça quando Jimmy Cody descrevera o caso de Danny Glick. Ele e Cody riram da hipótese. Talvez estivesse sendo punido por rir.

Aquelas marcas não eram arranhões. Eram furos.

Todos sabiam que tais coisas não existiam. O poema “Cristabel” de Coleridge e o romance de Bram Stroker eram apenas frutos de imaginações refinadas. Claro que existiam monstros, mas eram os controladores de bombas termonucleares, os seqüestradores, os assassinos em massa, os molestadores de crianças. Mas aquilo era absurdo. A marca do demônio no seio de uma mulher não passava de uma pinta, o homem que se ergueu dos mortos e voltou para casa apenas sofria de ataxia, o bicho-papão à espreita no canto do quarto nada mais era que cobertores empilhados. Até Deus já estava morto, segundo alguns.

Tiraram-lhe quase todo o sangue.

Nenhum som vinha do corredor. Ele dorme como uma pedra, pensou Matt. E por que não? Não fora para isso que o convidara? Para que dormisse bem, sem ser interrompido por... pesadelos? Ele saiu da cama, acendeu o abajur e foi até a janela. De onde estava, via apenas a ponta do telhado da Casa Marsten, congelado pelo luar.



Estou com medo.

Mas era pior. Ele estava apavorado. Enumerou mentalmente os talismãs contra uma doença indizível: alho, água benta, crucifixo, rosas, água corrente. Ele não tinha nenhum objeto santificado. Era metodista não-praticante, e achava John Groggins o maior cretino do mundo ocidental.

O único artefato religioso que tinha em casa era...

Então ele ouviu as palavras, ditas em voz baixa e sonolenta por Mike Ryerson, mas claramente audíveis na casa silenciosa.



Pode entrar.

Matt segurou a respiração, e então o grito preso em sua garganta saiu na forma de um silvo. Sentiu uma vertigem de medo. Seu estômago se congelou. Seus testículos se retraíram. Quem, em nome de Deus, fora convidado para entrar em sua casa?

Ouviu o trinco da janela do quarto de hóspedes se abrir furtivamente. Depois, o roçar da madeira, quando a janela foi levantada.

Ele podia descer as escadas correndo, pegar a Bíblia que estava na cômoda da sala de jantar, voltar, escancarar a porta, empunhar a Bíblia e gritar: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ordeno que se afaste...

Mas quem estava lá?

Me chame se precisar de qualquer coisa.

Mas não posso, Mike. Sou um velho. Estou com medo.

A noite invadiu seu cérebro formando um círculo de imagens aterrorizantes, que apareciam entre sombras. Rostos pálidos, de olhos imensos, dentes afiados, vultos que estendiam as longas mãos brancas em direção a...

Ele deixou escapar um gemido trêmulo e cobriu o rosto com as mãos.

Não posso. Estou com medo.

Não teria se mexido nem se a maçaneta de sua própria porta tivesse começado a girar. Estava paralisado de medo, desejando loucamente não ter ido ao Dell’s naquela noite.



Estou com medo.

E, no pesado silêncio da casa, sentado impotente na cama, o rosto entre as mãos, ele ouviu o riso alto e maligno de uma criança...

...e o som da sucção.

PARTE II


O REI DO SORVETE

Chame o enrolador de grandes charutos,

Aquele musculoso, e mande-o bater

Libidinosos coalhos em xícaras de cozinha.

Que as moças passeiem com a mesma roupa

Que estão acostumadas a usar, e que os meninos

Tragam flores enroladas em jornais do mês passado.

Que o ser seja o final do parecer.

O único rei é o do sorvete.

Tire da penteadeira de pinho,

Onde faltam os três puxadores de vidro, aquele lençol

Onde ela um dia bordou três vistosos pombos

E estenda-o de modo a cobrir seu rosto.

Se seus pés unhudos ficarem de fora, é para

Mostrar como ela está fria, e muda.

Deixe a lâmpada fixar seu lume

O único rei é o do sorvete.

WALLACE STEVENS

A coluna tem um

Buraco. Vês

A Rainha dos Mortos?

GEORGE SEFERIS

Capítulo Oito

BEN (III)

1

Alguém devia estar batendo na porta há muito tempo, porque o som parecia ecoar nas alamedas do sono enquanto ele se esforçava para despertar. Estava escuro na rua. Ele se virou para pegar o relógio e o derrubou no chão, sentindo temor e confusão.

— Quem é? — gritou.

— É a Eva, Sr. Mears. Telefone para o senhor.

Ele levantou, enfiou as calças e abriu a porta, sem camisa. Eva Miller vestia um roupão felpudo de algodão e tinha a expressão vulnerável de quem ainda não acordou direito. Trocaram um olhar aflito, enquanto ele pensava: Quem está doente? Quem morreu?

— É interurbano?

— Não, é Matthew Burke.

A informação não o aliviou como ela esperava.

— Que horas são?

— Quatro e pouco. O Sr. Burke parece muito nervoso.

Ben desceu e pegou o telefone.

— É o Ben, Matt.

Matt arquejava ao telefone.

— Você pode vir aqui, Ben? Agora mesmo?

— Claro. O que houve? Você está doente?

— Não posso falar pelo telefone. Venha logo.

— Estarei aí em dez minutos.

— Ben?

— Diga.


— Você tem um crucifixo? Uma medalha de São Cristóvão? Qualquer coisa assim?

— Não. Eu sou, era, batista.

— Tudo bem. Venha logo.

Ben desligou e subiu as escadas correndo. Eva esperava, preocupada e indecisa — por um lado, queria saber o que estava acontecendo; por outro, não queria se meter na vida do seu inquilino.

— O Sr. Burke está doente, Sr. Mears?

— Disse que não. Só me pediu... por acaso a senhora é católica?

— Meu marido era.

— A senhora tem um crucifixo, um rosário ou uma medalha de São Cristóvão?

— Bom, o crucifixo do meu marido está no quarto... O senhor quer...

— Quero, por favor.

Ela subiu o corredor, arrastando os chinelos felpudos pelo carpete desbotado. Ben entrou no quarto, vestiu a camisa do dia anterior e calçou rapidamente os sapatos. Quando saiu de novo, Eva estava ao lado da porta, segurando o crucifixo, que refletia um brilho prateado.

— Obrigado — disse ele, pegando-o.

— O Sr. Burke lhe pediu isso?

— Pediu.


Ela franzia a testa, mais desperta agora.

— Ele não é católico. Acho que não vai à igreja.

— Ele não me explicou o motivo.

— Ah. — Ela fingiu entender com um gesto de cabeça. — Por favor, tome cuidado com ele. É muito precioso para mim.

— Entendo. Pode deixar.

— Espero que o Sr. Burke esteja bem. É um bom homem.

Ele saiu da pensão. Não conseguia segurar o crucifixo e procurar as chaves do carro ao mesmo tempo e, em vez de mudá-lo de mão, pendurou-o no pescoço. A prata pousou sobre sua camisa, e ele entrou no carro, vagamente consciente da segurança que o objeto lhe transmitia.

2

Todas as luzes do andar inferior da casa de Matt estavam acesas, e logo que Ben parou na entrada e seus faróis iluminaram a fachada, Matt abriu a porta.

Ben estava pronto para tudo, mas assim mesmo a expressão de Matt o chocou. Estava de uma palidez mortal, os lábios tremiam, os olhos arregalados não piscavam.

— Vamos para a cozinha — disse ele.

Ben entrou, e a luz do corredor iluminou a cruz sobre seu peito.

— Você trouxe.

— É de Eva Miller. O que houve?

— Na cozinha — repetiu Matt. Quando passaram pela escada, ele olhou para o andar de cima e se encolheu.

A mesa onde eles haviam comido o espaguete estava vazia, com a exceção de três objetos: uma xícara de café, uma antiquada Bíblia com fecho e um revólver calibre 38.

— Agora fale, Matt. Você está com uma cara horrível.

— Pode ter sido apenas um sonho, mas graças a Deus você veio. — Ele apanhara o revólver e o manuseava com agitação.

— Conte o que foi. E pare de mexer com isso. Está carregado?

Matt largou a pistola e passou a mão pelos cabelos.

— Sim, está. Mas acho que não adiantaria muito. A não ser que eu o usasse contra mim mesmo. — Ele soltou uma risada áspera e doentia.

— Pare com isso.

O tom firme de Ben dissolveu o olhar fixo e vidrado de Matt. Ele sacudiu a cabeça, como um animal sacode o pêlo ao sair da água gelada.

— Há um morto lá em cima.

— Quem?


— Mike Ryerson. Um funcionário público, cuida das áreas verdes do cemitério.

— Tem certeza de que está morto?

— Meus instintos dizem que sim, mas ainda não fui olhar. Não tive coragem. Porque pode ser que ele não esteja nada morto.

— Matt, isso não faz sentido.

— Você acha que eu não sei? Estou falando absurdos e pensando loucuras. Mas eu não podia chamar ninguém, a não ser você. Em toda a cidade, você é, o único que pode... que pode... — Ele sacudiu a cabeça e recomeçou. — É que conversamos sobre Danny Glick.

— Sim.


— E que ele teria morrido de anemia perniciosa... O que nossos avós chamavam de “fraqueza”.

— Sim.


— Foi Mike quem o enterrou. E encontrou o cachorro de Win Purinton empalado no portão do cemitério Harmony Hill. Encontrei Mike Ryerson no Dell’s ontem, e...

3

— ... e não consegui entrar no quarto — terminou ele. — Não consegui. Fiquei sentado na minha cama durante quase quatro horas. Depois desci pé ante pé como um ladrão e liguei para você. O que acha?



Ben tirara o crucifixo. Agora brincava com a corrente amontoada sobre a mesa com ar pensativo. Eram quase cinco horas. A leste, a aurora já pintava o céu de rosa.

— Acho melhor olharmos o quarto de hóspedes. Por enquanto, é tudo que consigo pensar.

— Tudo isso parece o pesadelo de um louco, agora que o dia está nascendo. — Ele deu uma risada trêmula. — E espero que seja. Espero que Mike esteja dormindo como um bebê.

— Bom, vamos ver.

Matt firmou os lábios com esforço.

— Ok. — Olhou para a mesa e em seguida para Ben, interrogativamente.

— Claro — disse Ben, e passou a corrente com o crucifixo pelo pescoço de Matt.

— Na verdade, ele faz com que eu me sinta melhor. — Riu, envergonhado. — Será que vão me deixar usá-lo quando me despacharem para Augusta?

— Quer a arma? — perguntou Ben.

— Acho que não. Eu acabaria guardando na calça e estourando meu saco.

Eles subiram, Ben na frente. Em cima, um corredor levava a duas direções. De um lado, a porta do quarto de Matt estava aberta, deixando escapar um pálido feixe de luz sobre o carpete laranja.

— Do outro lado — disse Matt.

Ben atravessou o corredor e parou diante da porta do quarto de hóspedes. Não acreditava na atrocidade que Matt insinuara, mas mesmo assim foi tomado por uma onda de medo como nunca sentira antes.”

Quando abrir a porta, ele estará pendurado na viga, a cara inchada e escura, e então os olhos se abrirão, saltando das órbitas, e ele o verá, e ficará satisfeito por ter vindo.

A lembrança emergiu com força num paralelo sensorial, paralisando-o por um instante. Ele quase sentia o cheiro de argamassa e de animais hibernando. Parecia-lhe que a porta simples e envernizada do quarto de hóspedes interpunha-se entre ele e os segredos do inferno.

Então ele girou a maçaneta e empurrou a porta. Matt estava logo atrás, agarrando o crucifixo de Eva.

A janela do quarto clava diretamente para leste, e o sol começava a clarear o horizonte. Os primeiros raios cristalinos do sol entravam pela janela, iluminando partículas douradas ao incidir sobre o lençol de linho branco que cobria Mike Ryerson até o peito.

Ben olhou para Matt.

— Ele está bem — sussurrou. — Está dormindo.

— A janela está aberta. Estava fechada e trancada. Eu mesmo a tranquei.

Ben olhou para a bainha do lençol de uma brancura impecável que cobria Mike. Viu uma única mancha de sangue sobre ela, seca e escura.

— Acho que ele não está respirando — disse Matt.

Ben avançou alguns passos e parou.

— Mike? Mike Ryerson? Acorde, Mike!

Não houve resposta. Os cílios de Mike se destacavam contra a tez suave. Seus cabelos estavam desalinhados sobre a testa, e Ben achou que, à luz delicada da manhã, ele estava belo como uma estátua grega. Suas faces estavam rosadas, e seu corpo não tinha nada da palidez mortal que Matt mencionara.

— Claro que está respirando — disse com um pouco de impaciência. — Está num sono profundo. Mike... — Ele o sacudiu delicadamente. O braço esquerdo do rapaz, antes pousado natural­mente sobre o peito, tombou inerte ao lado da cama, raspando o chão com um som sobrenatural.

Matt curvou-se e pegou o braço imóvel, pressionando o indicador sobre o pulso.

— Nada.

Ia soltar o braço, mas, lembrando-se do som fantasmagórico da mão raspando o chão, decidiu colocá-lo de novo sobre o peito de Mike. O braço começou a resvalar de novo, e ele o firmou fazendo uma careta.



Ben não acreditava. O rapaz só podia estar dormindo. O rubor saudável, o vigor dos músculos, os lábios entreabertos como se para absorver o ar... uma sensação de irrealidade o tomou. Apalpou o ombro de Mike. A pele estava fria. Molhou o dedo e o colocou diante dos lábios entreabertos. Nada. Nem sinal de respiração.

Ele e Matt se entreolharam.

— E as marcas no pescoço? — perguntou Matt.

Ben pegou o queixo de Ryerson e o virou suavemente. O movimento deslocou o braço esquer­do, que voltou a cair e raspar o chão.

Não havia marca nenhuma no pescoço dele.

4

Eles estavam de volta à mesa da cozinha. Eram 5h35. À distância, ouviam o mugido das vacas de Griffen enquanto entravam no pasto na base do monte, além do matagal que ocultava o riacho Taggart.

— Segundo a lenda, as marcas desaparecem — disse Matt de repente. — Quando a vítima morre, as marcas desaparecem.

— Eu sei — disse Ben. Lembrava-se tanto de Drácula de Bram Stoker quanto dos filmes da Hammer, estrelados por Christopher Lee.

— Temos que atravessar seu coração com uma estaca.

— Pense bem — disse Ben, dando um gole no café. — Isso não seria nada fácil de explicar a um legista. No mínimo, você seria preso por profanar um cadáver. Ou iria para o hospício.

— Acha que estou louco? — perguntou Matt serenamente.

— Não — respondeu Ben, sem hesitação aparente.

— Acredita no que eu disse sobre as marcas no pescoço?

— Não sei. Acho que devo acreditar. Por que mentiria para mim? Não ganharia nada com isso. A não ser que o tenha matado.

— Então, vamos supor que o matei — disse Matt, observando-o.

— Há três argumentos contra essa tese. Primeiro, qual seria seu motivo? Desculpe, Matt, mas você é velho demais para os motivos clássicos como ciúme ou dinheiro. Segundo, qual foi seu método? Não pode ter sido veneno, porque a aparência dele está muito serena.

— E o terceiro argumento?

— Nenhum assassino em seu juízo perfeito inventaria uma história como a sua para ocultar um crime. Seria uma insanidade

— Voltamos a falar de minha saúde mental — disse Matt. — Eu sabia.

— Eu não acho que esteja louco — disse Ben, enfatizando a primeira palavra. — Você parece bem lúcido.

— Mas você não é médico, certo? E muitos loucos conseguem fingir sanidade com bastante sucesso.

Ben concordou.

— Então, onde ficamos?

— Na estaca zero.

— Não. Não podemos nos dar a esse luxo, porque há um morto lá em cima, e logo teremos de prestar contas disso. O delegado, o legista, o chefe da polícia estadual, todos vão querer uma explica­ção. Matt, será que Mike não passou a semana doente com algum vírus e acabou morrendo na sua casa?

Pela primeira vez desde que haviam descido, Matt se mostrou agitado.

— Ben, você sabe o que ele me disse! Vi as marcas no pescoço dele! E o ouvi convidando alguém para entrar na minha casa! Depois eu ouvi... Meu Deus, ouvi aquele riso! — Seus olhos voltaram a ficar fixos e aterrados.

— Está bem — disse Ben. Levantou-se e foi até a janela, tentando organizar as idéias. Aquilo não ia bem. Como dissera a Susan, tudo parecia querer fugir ao controle. Olhou em direção à Casa Marsten.

— Matt, você sabe o que vai acontecer se contar a mais alguém o que me contou, não é?

Matt não respondeu.

— As pessoas vão bater na testa e sacudir a cabeça quando você passar. As crianças vão persegui-lo nas ruas com máscaras de Halloween. Seus alunos rirão de você. Seus colegas começarão a olhá-lo de modo estranho. Receberá telefonemas anônimos de gente dizendo ser Danny Glick ou Mike Ryerson. Sua vida vai virar um pesadelo. Seria expulso da cidade em seis meses.

— Não, os moradores me conhecem.

Ben virou-se para ele.

— Quem eles conhecem? Um velho excêntrico que mora sozinho numa casa afastada. Só por não ser casado, acharão que tem um parafuso a menos. E que apoio posso lhe dar? Vi o corpo e nada mais. E, mesmo que eu tivesse visto mais, eles diriam que não passo de um forasteiro. Diriam até que somos um casal de bichas e que essa é uma de nossas taras.

Matt o olhava com crescente horror diante daquele quadro.

— Uma palavra, Matt. Basta uma palavra para destruí-lo em ’salem’s Lot.

— Então, nada pode ser feito.

— Pode, sim. Você tem uma teoria sobre quem, ou o quê, matou Mike Ryerson. É relativamente simples provar ou refutar essa teoria. Estou numa sinuca de bico. Não acredito que você esteja louco, mas não consigo acreditar que Danny Glick ressuscitou dos mortos e sugou o sangue de Mike Ryerson durante uma semana antes de matá-lo. Mas vou testar sua teoria, e você vai me ajudar.

— Como?

— Ligue para o seu médico. Chama-se Cody, não é? Depois ligue para Parkins Gillespie e ponha a engrenagem em movimento. Faça de conta que não ouviu coisa alguma durante a noite. Você foi ao Dell’s e encontrou Mike. Ele disse que não se sentia bem desde domingo. Você o convidou para dormir na sua casa. Foi ver como ele estava por volta das três e meia, não conseguiu acordá-lo e me ligou.



— Só isso?

— Só. Quando falar com Cody, nem diga que ele está morto.

— Não?

— Como ter certeza de que ele está? — explodiu Ben. — Você não conseguiu encontrar o pulso. Eu não percebi sinais de respiração. Se soubesse que alguém podia me enterrar com base só nisso, eu ficaria preocupado. Principalmente se eu estivesse com um ar saudável como o dele.



— Isso também o incomoda, não é?

— É, incomoda — admitiu Ben. — Ele parece uma estátua de cera.

— Certo, o que você diz faz sentido, na medida em que é possível numa situação como essa. Nesse ponto, acho que pareci um louco.

Ben começou a protestar, mas Matt o interrompeu com um gesto.

— Mas suponha... é só uma hipótese... suponha que minha primeira suspeita esteja correta. Será que não existe sequer uma remota possibilidade? De que Mike... volte?

— Como eu disse, é fácil provar ou refutar essa teoria. Mas não é isso que me incomoda, nessa história.

— E o que é?

— Espere, uma coisa de cada vez. Para provar ou refutar essa teoria, não basta um exercício de lógica. É preciso excluir possibilidades. Primeira: Mike morreu de alguma doença, causada por um vírus ou algo assim. Como confirmar ou descartar isso?

Matt encolheu os ombros.

— Com um exame médico.

— Exato. É o mesmo método para confirmar ou excluir a hipótese de assassinato. Se alguém o envenenou ou lhe deu um tiro ou um bolo com cacos de vidro...

— Nem sempre assassinatos são detectados.

— Eu sei. Mas vamos apostar no médico legista.

— E se o veredicto dele for “causa desconhecida”?

— Então — disse Ben com decisão —, visitaremos o túmulo depois do enterro e veremos se ele sairá de lá. Se sair, o que me parece inconcebível, teremos certeza. Se não sair, enfrentaremos a questão que me incomoda.

— Minha insanidade — Matt disse lentamente. — Ben, juro em nome da minha mãe que vi as marcas, que ouvi a janela ser levantada, que...

— Acredito em você — disse Ben.

Matt parou. Tinha a expressão de alguém que se preparara para uma pancada que não viera.

— Acredita? — perguntou, incerto.

— Melhor dizendo, recuso-me a acreditar que você está louco ou teve uma alucinação. Também tive uma experiência... uma experiência ligada àquela maldita casa... que me torna extremamente solidário com pessoas cujas histórias parecem insanas à luz da razão. Um dia lhe contarei.

— Por que não agora?

— Não temos tempo. Você tem telefonemas a fazer. E eu tenho mais uma pergunta. Pense bem antes de responder. Você tem algum inimigo?

— Nenhum que aprontaria algo assim.

— Algum ex-aluno ressentido, talvez?

Matt, que sabia exatamente até que ponto influenciara a vida de seus alunos, riu educadamente.

— Está bem, acredito em sua palavra. — Ben sacudiu a cabeça. — É terrível. Primeiro aquele cachorro no portão do cemitério. Depois Ralphie Glick desaparece, seu irmão morre, e agora Mike Ryerson. Talvez haja alguma ligação. Mas não posso acreditar nisso.

— Vou ligar para a casa de Cody — disse Matt, levantando. — Parkins também deve estar em casa.

— Ligue para a escola e diga que está doente.

— Certo — disse Matt com uma risada triste. — Será a primeira vez que isso acontece em três anos. Uma ocasião histórica.

Ele foi para a sala e começou a fazer as ligações, esperando longamente que os toques arrancassem alguém do sono. A mulher de Cody aparentemente lhe deu o telefone da recepção do hospital, porque ele voltou a discar, pediu para falar com ele e lhe contou brevemente a história combinada. Desligou e gritou para Ben, ainda na cozinha.

— Jimmy chegará em uma hora.

— Ótimo — disse Ben. — Vou subir.

— Não encoste em nada.

— Pode deixar.

Quando chegou ao patamar do andar de cima, Ben ouviu Matt falar ao telefone com Parkins Gillespie. As palavras se dissolveram num murmúrio indistinto enquanto ele atravessava o corredor.

A sensação de um terror entre a lembrança e a imaginação o dominou de novo enquanto contemplava a porta do quarto de hóspedes. Mentalmente, ele se viu avançando, abrindo-a. O quarto parece maior, visto da perspectiva de uma criança. O corpo está como antes, o braço esquerdo pendurado ao lado da cama, o rosto contra o travesseiro. Os olhos de repente se abrem, cheios de vigor inumano e visceral. A porta se fecha com um baque. O braço esquerdo se ergue, os lábios formam um sorriso vulpino e exibem dentes incisivos extraordinariamente longos e afiados...

Ele avançou e abriu a porta com cuidado. As dobradiças rangeram levemente.

O corpo estava como antes, o braço esquerdo caído, o rosto contra a fronha do travesseiro...

— Parkins está vindo — disse Matt no corredor, e Ben quase deu um grito.

5

Ben pensou que sua frase fora bastante apropriada: coloque a engrenagem em movimento. Era mesmo uma engrenagem, como as complicadas engenhocas alemãs feitas com dentes e peças de relógio, movendo-se lentamente.

Parkins Gillespie chegou primeiro, usando uma gravata verde presa com um broche dos vetera­nos de guerra. Seus olhos ainda estavam sonolentos. Disse que já notificara o médico-legista do condado.

— Ele mesmo não virá, o filho-da-mãe — disse Parkins, metendo um Pall Mall no canto da boca. — Mas vai mandar um assistente e um sujeito para tirar fotos. Vocês encostaram no defunto?

— O braço caiu do lado da cama — disse Ben. — Tentei colocá-lo de volta, mas não parou. Parkins o olhou de cima a baixo, mas não disse nada. Ben lembrou do som sobrenatural que a mão fizera ao raspar no chão do quarto e sentiu um riso irracional se formar na garganta. Mas ele logo o engoliu.

Matt subiu na frente, e Parkins andou ao redor do corpo várias vezes.

— Vocês têm certeza de que ele está morto? — finalmente perguntou. — Tentaram acordá-lo?

O doutor James Cody chegou depois, tendo acabado de fazer um parto no hospital. Depois da troca de cortesias, Matt subiu mais uma vez com o grupo. Se cada um tocasse um instrumento, pensou Ben, o rapaz teria um belo bota-fora musical. O riso voltou a coçar sua garganta.

Cody puxou os lençóis e olhou o corpo, franzindo a testa. Com uma calma que surpreendeu Ben, Matt disse:

— Lembrei do que você disse sobre Danny Glick, Jimmy.

— Foi um comentário confidencial, Sr. Burke — disse Jimmy Cody, brandamente. — Se os pais de Danny descobrirem que você disse isso, podem me processar.

— E ganhariam?

— Creio que não — disse Jimmy, e suspirou.

— O que tem Danny Glick? — perguntou Parkins, franzindo a testa.

— Nada — disse Jimmy. — Não há nenhuma ligação. — Utilizou o estetoscópio, levantou uma pálpebra e iluminou o globo ocular com uma pequena lanterna.

Ben viu a pupila se contrair e exclamou:

— Meu Deus!

— É um reflexo interessante, não? — disse Jimmy. Soltou a pálpebra, que voltou a se fechar com lentidão grotesca, como se o cadáver piscasse para eles. — David Prine, da Universidade Johns Hopkins, notou contrações pupilares em cadáveres até nove horas após a morte.

— Agora virou um erudito — provocou-o Matt. — Antes, só tirava C em Redação Dissertativa.

— É que você não gostava de textos sobre dissecação, seu implicante — retrucou Jimmy distraidamente, e pegou um pequeno martelo. Muito bem, pensou Ben. Ele mantém a compostura mesmo quando o paciente era um defunto, como diria Parkins. Ele voltou a sentir um desejo despro­positado de rir.

— Está morto? — perguntou Parkins, e bateu a cinza do cigarro num vaso de flores vazio. Matt fez uma careta.

— Ah, sim — respondeu Jimmy. Ele se ergueu, descobriu os pés de Ryerson e bateu com o martelinho no joelho direito. Os dedos dos pés continuaram imóveis. Ben notou que Mike tinha calos amarelos nas plantas dos pés, o que lhe trouxe à mente o poema de Wallace Stevens sobre a mulher morta.

— “Que seja o final de parecer” — citou, algo erroneamente. — “O único rei é o do sorvete.”

Matt lhe lançou um olhar penetrante, e por um momento seu autocontrole fraquejou.

— Que negócio é esse? — perguntou Parkins.

— É de um poema — disse Matt. — De um poema sobre a morte.

— Parece mais um sorveteiro falando. — disse Parkins, e voltou a bater a cinza no vaso.

6

Já fomos apresentados? — perguntou Jimmy, olhando para Ben.

— Foram, mas de passagem — disse Matt. — Jimmy Cody, médico do corpo, esse é Ben Mears, médico da alma. E vice-versa.

— Ele sempre foi espertinho — disse Jimmy. — Foi assim que ficou rico desse jeito.

Os dois apertaram as mãos sobre o cadáver.

— Ajude-me a virá-lo, Sr. Mears.

Sentindo um pouco de náusea, Ben o ajudou a virar o corpo de bruços. Estava frio, mas ainda não rígido. Jimmy o observou atentamente e puxou a cueca, revelando as nádegas do morto.

— Para que isso? — perguntou Parkins.

— Estou tentando determinar a hora da morte pela coloração da pele — disse Jimmy. — O sangue desce ao nível mais baixo quando o bombeamento cessa, como qualquer líquido.

— Que nem no comercial do desentupidor Drãno. Mas isso não é trabalho do legista?

— Ele vai mandar Brent Norbert, você sabe. E ele nunca foi de rejeitar uma mãozinha dos amigos.

— Norbert não sabe nem onde está o próprio nariz — disse Parkins, e jogou o toco do cigarro pela janela. — A tela desta janela caiu, Matt. Vi em cima da grama quando cheguei.

— Ah, é? — disse Matt, controlando a voz.

— É.


Cody tirara um termômetro da maleta e o introduzia no ânus de Ryerson. Pousou o relógio sobre o lençol branco, e o metal refletiu a forte luz do sol. Eram 18h45.

— Vou descer — disse Matt, com a voz levemente alterada.

— Vocês todos podem ir — disse Jimmy. — Ainda vou demorar um pouco. Você não quer fazer um café, Sr. Burke?

— Claro.


Eles saíram, e Ben fechou a porta, olhando uma última vez para a cena: o quarto inundado pelo sol, o lençol limpo afastado, o relógio de ouro projetando riscos luminosos sobre a parede, e o próprio Cody, com os flamejantes cabelos ruivos, sentado ao lado do corpo como uma gravura em aço.

Matt fazia café quando Brenton Norbert, o assistente do médico-legista, chegou num velho Dodge cinzento. Entrou com outro homem, que trazia uma grande máquina fotográfica.

— Onde está? — perguntou Norbert.

Gillespie fez um gesto com o polegar em direção à escada.

— Jim Cody está lá em cima.

— Que ótimo... — disse Norbert. — O defunto já deve estar virado do avesso. — E subiu com o fotógrafo.

Parkins Gillespie colocou creme no café até transbordar no pires, testou-o com o dedo, limpou o dedo na calça, acendeu outro Pall Mall e disse:

— Como se meteu nessa história, Sr. Mears?

Ben e Matt recitaram a versão que haviam combinado. Nada do que disseram era exatamente mentira, mas o que não disseram os unia numa teia de cumplicidade. Ben se perguntou, inquieto, se não estava sendo cúmplice de uma inocente maluquice ou de algo mais sério e macabro. Matt lhe dissera que o chamara porque era a única pessoa em ’salem’s Lot que daria ouvidos a uma tal história. Matt podia não estar batendo muito bem, mas com certeza sabia interpretar personalidades. E isso também era enervante.

7

À 21hH30, tudo já estava acabado.

O carro funerário de Carl Foreman já levara o corpo de Mike Ryerson, e sua morte passou a ser assunto da cidade. Jimmy Cody voltara a seu consultório, e Norbert e o fotógrafo retornaram a Portland para conferenciar com o médico-legista.

Parkins Gillespie, um cigarro entre os lábios, saiu para o alpendre enquanto o carro funerário se afastava lentamente.

— Mike dirigiu tanto esse carro, e aposto que nem imaginava que logo estaria andando na traseira. — Voltou-se para Ben. — Você não vai embora da cidade já, não é? Queria que testemunhasse para o júri legista, se não se importa.

— Não, vou ficar.

O delegado o examinou com os olhos azuis descorados.

— Verifiquei sua ficha com a polícia federal e estadual, em Augusta — disse ele. — Está limpa.

— É bom saber — disse Ben.

— Ouvi dizer que está de caso com a filha de Bill Norton.

— Você me pegou.

— Ela é uma boa moça — disse Parkins, sério. O carro fúnebre já sumira de vista. Nem o som do motor era mais audível. — Acho que ela não tem saído mais com Floyd Tibbits.

— Você não tem que cuidar da papelada, Park? — cutucou Matt.

Parkins suspirou e jogou fora o toco do cigarro.

— Nem me fale, Tudo em duas ou três vias, carimbadas, seladas e assinadas. Estou tendo um trabalho de cão nas últimas semanas. Até parece maldição daquela Casa Marsten.

Ben e Matt não esboçaram reação.

— Bom, já vou indo. — Ele puxou a calça para cima e andou até o carro. Ao abrir a porta, olhou para eles. — Vocês dois não estão escondendo nada de mim, não é?

— Parkins — disse Matt —, não há nada para esconder. Ele morreu.

O delegado os examinou com os penetrantes olhos descorados durante mais alguns instantes e suspirou.

— Certo. Mas é esquisito pra diabo. O cachorro, o filho dos Glick, depois o outro filho dos Glick e agora Mike. É coisa pra mais de ano numa cidadezinha pacata que nem a nossa. Minha avó falava que as coisas ruins vinham em três, não em quatro.

Ele entrou no carro, ligou o motor e deu ré. No instante seguinte ele se afastava monte acima, despedindo-se com um toque na buzina.

Matt suspirou, aliviado.

— Acabou.

— Acabou — disse Ben. — Estou exausto. E você?

— Eu também. Mas me sinto... bizarro. Do jeito como os jovens usam essa palavra.

— Sei.


— Eles têm outro termo: chapado. Como depois de uma viagem de ácido ou anfetamina, quando até ficar normal é esquisito. — Ele passou a mão no rosto. — Meu Deus, você deve me achar um lunático. Tudo parece o delírio de um louco à luz do dia, não é?

— Sim e não — disse Ben, colocando a mão no ombro de Matt. — Mas Gillespie tem razão. Algo está acontecendo aqui. E cada vez tenho mais certeza de que tem a ver com a Casa Marsten. Fora eu, eles são os únicos novos moradores da cidade. E eu sei que não fiz nada. Nosso passeio até lá ainda está de pé? A expedição de boas-vindas?

— Se você quiser...

— Eu quero. Agora, entre e durma. Falarei com Susan e viremos buscá-lo de noite.

— Está bem. — Ele fez uma pausa. — Tem outra coisa, que está me incomodando desde que você falou de autópsias.

— O quê?


— A risada que ouvi, ou pensei ouvir, era de uma criança. Horrível e cruel, mas de uma criança. Depois do que Mike disse, isso não faz pensar em Danny Glick?

— Claro que sim.

— Você sabe como é o processo de embalsamento?

— Não exatamente. Tiram o sangue do cadáver e o substituem por um tipo de líquido. Antes era formaldeído, mas hoje os métodos devem estar mais sofisticados. E o corpo é eviscerado.

— Será que fizeram tudo isso com Danny? — disse Matt.

— Conhece Carl Foreman bem o bastante para lhe fazer essa pergunta?

— Sim, acho que eu posso dar um jeito de perguntar.

— Então, faça isso.

— Pode deixar.

Eles se olharam mais um instante, e o olhar que trocaram era amigável mas indefinível. Da parte de Matt, o desconforto do homem racional que fora obrigado a dizer irracionalidades. E da parte de Ben, um vago medo de forças que ele ainda não era capaz de definir.


8

Eva passava roupa e assistia a “Dialing for Dollars” quando Ben chegou. O prêmio estava em 45 dólares, e o apresentador sorteava números de telefone, tirando-os de um grande vaso de vidro.

— Ouvi dizer — disse ela, enquanto ele abria a geladeira e pegava uma Coca. — Que horror! Coitado do Mike.

— É mesmo. — Ele tirou o crucifixo e a corrente do bolso.

— Já sabem o que...

— Ainda não — disse Ben. — Estou muito cansado, Sra. Miller. Vou dormir um pouco.

— Claro, vá. O quarto de cima é muito quente a essa hora, mesmo nessa época do ano. Durma no quarto do corredor de baixo, se quiser. Os lençóis estão limpos.

— Não, tudo bem. Conheço todos os rangidos do quarto de cima.

— É verdade, a gente se acostuma com o nosso quarto — ela disse, em tom casual. — Mas por que o Sr. Burke queria o crucifixo de Ralph?

Ben parou a caminho da escada, procurando o que dizer.

— Acho que ele pensou que Mike Ryerson fosse católico.

Eva colocou mais uma camisa sobre a mesa de passar.

— Ele devia saber. Afinal, foi professor de Mike. A família dele era luterana.

Para isso, Ben não tinha resposta. Subiu, tirou a roupa e deitou na cama. O sono veio rápido e pesado. E sem sonhos..

9

Quando acordou, eram 16h15. Seu corpo estava coberto de suor, o lençol fora chutado para longe. Mas ele sentia-se lúcido novamente. Os eventos daquela manhã pareciam vagos e distantes, e as fantasias de Matt Burke haviam perdido o impacto. Naquela noite, tentaria fazer com que ele as esquecesse.

10

Decidiu ligar para susan da Spencer e pedir que o encontrasse lá. Iriam ao parque e ele lhe contaria tudo do começo ao fim. Queria ouvir a opinião dela antes de chegarem à casa de Matt e ele contar sua versão. De lá, iriam à Casa Marsten, pensou ele, sentindo um arrepio na espinha.

Estava tão perdido nesses pensamentos que não notou que já havia alguém em seu carro. Quando abriu a porta, um vulto alto saltou para fora. Por um momento, o espanto o deixou sem ação. Primeiro pensou ser um espantalho. O sol delineava a figura com nitidez e crueldade — o chapéu velho enterrado na cabeça, os óculos escuros, o casaco surrado com a gola erguida, as luvas industriais de borracha verde nas mãos.

— Quem... — foi tudo que Ben teve tempo de dizer.

A figura se aproximou, fechando os punhos. Ben sentiu um aroma de coisas velhas e amarela­das, e percebeu que era naftalina. Ouviu uma respiração pesada.

— Você é o filho-da-mãe que roubou minha namorada — disse Floyd Tibbits com voz rouca e monótona. — Vou te matar.

E, enquanto Ben tentava entender a situação, Floyd Tibbits atacou.


Capítulo Nove

SUSAN (II)

1

Susan chegou de Portland pouco depois das três. Entrou em casa com três sacolas marrons de uma loja de departamentos. Vendera dois quadros por um total de oitenta dólares e resolvera se dar alguns presentes — duas saias novas e uma blusa de lã.

— Suze? — gritou a mãe. — É você?

— Cheguei. Eu...

— Venha aqui. Precisamos conversar.

Ela reconheceu o tom de voz na hora, embora não o ouvisse com aquela intensidade desde o tempo do colégio, quando as discussões sobre namorados e saias curtas eram sofridas e diárias.

Susan largou as sacolas e entrou na sala. Sua mãe rejeitava cada vez mais seu namoro com Ben, e devia estar pronta para dar sua palavra final. Encontrou-a sentada na cadeira de balanço ao lado da janela, tricotando. A televisão estava desligada. Eram indícios de tempestade.

— Acho que não ouviu a última — disse a Sra. Norton, movendo as agulhas rapidamente, transformando a lã verde-escura em pontos exatos. Devia estar fazendo um cachecol para alguém. — Você saiu muito cedo.

— A última?

— Mike Ryerson morreu na casa de Matthew Burke ontem à noite. E quem estava ao lado do leito de morte, se não seu amigo escritor, Ben Mears?

— Mike... Ben... como assim?

A Sra. Norton abriu um sorriso severo.

— Mabel me ligou cedo e me contou. O Sr. Burke diz que encontrou Mike na taverna de Delbert Markey na noite passada, agora, me diga o que um professor fazia num lugar como aquele, e o levou para casa porque o rapaz não parecia bem. E morreu durante a noite. Mas o que ninguém consegue entender é o que o Sr. Mears estava fazendo lá.

— Eles se conhecem — disse Susan, com o olhar perdido. — Ben me disse que eles se deram muito bem... O que aconteceu com Mike, mãe?

Mas a Sra. Norton se recusou a mudar de assunto.

— Seja como for, tem gente achando que a cidade ficou agitada demais desde que Ben Mears deu as caras por aqui.

— Isso é bobagem — disse Susan, exasperada. — Mas o que houve com Mike?

— Ainda não sabem — disse a Sra. Norton, soltando o fio do novelo de lã. — Alguns acham que ele pegou alguma doença de Danny Glick.

— Mas, então, por que ninguém mais pegou? Nem os pais dele?

— Alguns jovens acham que sabem tudo — observou a Sra. Norton, movendo agulhas.

— Acho que vou sair e ver se... — disse Susan, levantando.

— Sente um pouco — disse a mãe. — Ainda não acabei de falar.

Susan sentou, a expressão neutra.

— Mas às vezes os jovens não sabem de tudo — disse Ann Norton, com um falso tom carinhoso que deixou Susan desconfiada.

— Do que está falando, mãe?

— Ao que parece, o Sr. Ben Mears sofreu um acidente de moto há alguns anos, logo depois da publicação do seu segundo livro. Estava bêbado, e sua mulher morreu.

Susan levantou.

— Não quero ouvir mais nada.

— Estou lhe dizendo para o seu próprio bem — disse a Sra. Norton, calmamente.

— Quem lhe contou? — perguntou Susan. Não sentia mais a raiva impotente, a vontade de fugir daquela voz calma e dominadora e chorar no quarto. Sentia-se fria e distante, como se flutuasse no ar. — Foi Mabel Werts, não foi?

— O que importa é que é verdade.

— Claro. Assim como ganhamos a guerra do Vietnã e Jesus Cristo passeia pelo centro da cidade todos os dias de tarde.

— Mabel achou que já tinha visto a cara dele — disse Ann Norton. — E olhou os números antigos de sua caixa de jornais um por um.

— Aqueles jornais de fofoca? Especializados em astrologia, fotos de acidentes e modelos peladas? Ah, são fontes muito fidedignas...

— Não precisa ser grosseira. A matéria estava lá, preto no branco. A mulher dele, se é que eram mesmo casados, estava na garupa. Ele derrapou no asfalto e bateu na lateral de um caminhão de mudança. O artigo diz que ele fez o teste do bafômetro na mesma hora. Na mesma horinha — ela enfatizou cada palavra batendo a agulha de tricô no braço da cadeira.

— Então, por que não está preso?

— Essa gente famosa sempre conhece pessoas influentes — disse ela, com uma calma certe­za. — Quem tem dinheiro sempre dá um jeitinho. É só ver o caso dos Kennedy.

— Ele foi julgado?

— Já disse, ele fez o teste...

— Eu sei, mas ele estava bêbado?

— Já disse que estava! — Manchas vermelhas começavam a se formar no rosto dela. — Eles não fazem teste do bafômetro em quem está sóbrio. A mulher dele morreu. É igualzinho àquele caso em Chappaquiddick! Igualzinho!

— Vou mudar para a cidade — Susan disse lentamente. — Estava para contar para vocês. Já devia ter mudado há muito tempo, mãe, para o bem de todos nós. Babs Griffen me disse que viu uma casinha de quatro cômodos na rua Sister...

— Agora ela ficou ofendida! — disse a Sra. Norton. — Alguém acabou de estragar sua linda imagem do maravilhoso Ben Mears e ela ficou tão brava que está cuspindo fogo. — Essa frase costumava ser especialmente eficaz no passado.

— Mãe, o que aconteceu com você? — perguntou Susan, um pouco desolada. — Você não costumava... jogar tão baixo.

Ann Norton estremeceu. Deixou cair o tricô, levantou e sacudiu Susan pelos ombros.

— Escute aqui! Não vou deixar você andar por aí como uma rameira com um escritorzinho efeminado que encheu sua cabeça de ilusões! Ouviu bem?

Susan lhe deu um tapa em pleno rosto.

Ann Norton piscou e depois arregalou os olhos, incrédula. Elas se olharam, chocadas, durante um longo instante. Susan começou a dizer algo, mas parou.

— Vou subir — terminou dizendo. — Terça-feira, no máximo, estou saindo daqui.

— Floyd veio aqui — disse a Sra. Norton, seu rosto ainda tenso. As marcas dos dedos da filha delineavam-se em sua pele como pontos de exclamação.

— Não tenho mais nada com Floyd — disse Susan. — Acostume-se com a idéia. Pode contar àquela jararaca da Mabel. Talvez aí você comece a acreditar.

— Floyd te ama, Susan. Tudo isso está... acabando com ele. Ele me contou tudo. Abriu o coração para mim. — Os olhos dela brilharam. — No fim, ele chorou como um bebê.

Aquela cena não combinava com Floyd, pensou Susan. Olhou para a mãe para ver se estava mentindo, mas percebeu por seu olhar que não.

— É isso que você quer para mim, mãe? Um bebê chorão? Ou está louca para ter netos loiros? Sou um problema para você. Só sentirá seu dever cumprido quando eu me casar com um bom homem que você possa dominar. Alguém que me engravide e me transforme numa matrona num piscar de olhos. É essa a jogada, não? E o que eu quero, não conta?

— Susan, você não sabe o que quer.

Ela disse isso com uma certeza tão absoluta que, por um momento, Susan quase acreditou. Veio-lhe à mente a imagem dela e de sua mãe, como estavam naquele momento, a primeira na cadeira e a segunda perto da porta, mas ligadas por um fio de lã verde, um cordão que ficara puído e gasto depois de tantos puxões. Essa imagem foi substituída por outra de sua mãe com chapéu de palha, tentando desesperadamente pescar uma enorme truta de vestido amarelo. Tentava puxá-la pela última vez e jogá-la na cesta de vime. Mas para quê? Para dominá-la? Comê-la?

— Não, mãe. Sei exatamente o que eu quero. Ben Mears.

Ela lhe deu as costas e subiu para o quarto. Ann correu atrás dela e gritou com voz estridente.

— Você não pode nem alugar um quarto! Com que dinheiro?

— Tenho cem dólares na conta corrente e trezentos na poupança — Susan respondeu calma­mente. — E posso trabalhar na Spencer. O Sr. Labree já me convidou várias vezes.

— Ele só quer olhar suas pernas — disse Ann, mas sua voz baixara uma oitava. Parte da raiva fora substituída por medo.

— Ele que olhe — disse Susan. — Vou usar ceroulas.

— Querida, não fique brava. — Ela subiu dois degraus. — Só quero o que é melhor...

— Poupe-se, mãe. Desculpe pelo tapa. Foi horrível da minha parte. Amo vocês dois, mas vou me mudar. Já passou da hora. Vocês sabem disso.

— Pense bem — disse a Sra. Norton, agora arrependida, além de assustada. — Mas acho que não falei nada despropositado. Já vi tipos metidos como esse Ben Mears antes. Ele só está interessado em...

— Não, chega — disse Susan, dando-lhe as costas.

Sua mãe subiu mais um degrau e gritou:

— Floyd saiu daqui arrasado. Ele...

Mas Susan fechou a porta do quarto, cortando suas palavras.

Ela deitou na cama, que não fazia muito tempo fora decorada com bichos de pelúcia e um cachorrinho com um rádio na barriga, e olhou para o teto, tentando não pensar. Havia alguns pôsteres da organização ambiental Sierra Club na parede, mas antes ela colava pôsteres que tirava das revistas Rolling Stone, Cream e Crawdaddy, de ídolos como Jim Morrison, John Lennon, Dave van Ronk e Chuck Berry. Os fantasmas daquele tempo a atormentavam como fotografias mentais de má qualidade.

Ela quase podia ver a manchete, saltando do jornal sensacionalista. Jovem escritor iniciante e sua mulher envolvidos em acidente fatal. E a matéria cheia de insinuações discretas. Talvez com uma foto do local do acidente, sangrenta demais para os grandes jornais, mas perfeita para o tipo que Mabel consumia.

E o pior era que uma semente de dúvida fora plantada. Bobagem. Por acaso ela achava que ele chegara à cidade puro e casto? Embrulhado em celofane higiênico como um copo de motel? Bobagem. Mas a semente fora plantada. E por isso ela sentia mais do que rancor adolescente contra a mãe. Sentia algo que beirava o ódio.

Ela afastou os pensamentos, colocou o braço sobre o rosto e caiu num sono superficial, que foi interrompido pelo toque estridente do telefone e pela voz mais aguda ainda de sua mãe no andar de baixo.

— Susan! É para você!

Ela desceu, notando que eram 17h30. O sol já se punha. Sua mãe estava na cozinha, começando a preparar o jantar. Seu pai ainda não chegara.

— Alô?

— Susan? — A voz era familiar, mas ela não a reconheceu de imediato.



— Sim, quem é?

— Eva Miller. Tenho más notícias.

— Aconteceu algo com Ben? — Sua boca ficou seca, e ela levou a mão ao pescoço. A Sra. Norton saiu da cozinha com uma espátula na mão e a observou.

— Aconteceu uma briga. Floyd Tibbits apareceu aqui esta tarde...

— Floyd!

A Sra. Norton contraiu o rosto.

— Eu disse que o Sr. Mears estava dormindo. Ele disse que tudo bem, educado como sempre, mas estava com umas roupas muito esquisitas. Perguntei se ele se sentia bem. Usava um casaco antiquado e um chapéu estranho, e não tirava as mãos dos bolsos. Nem pensei em dizer isso ao Sr. Mears quando ele acordou. Depois de um dia tão agitado...

— O que aconteceu? — Susan quase gritou.

— Floyd lhe deu uma surra — disse Eva, penalizada. — Bem no meu estacionamento. Sheldon Corso e Ed Craig tiveram de tirá-lo de cima dele.

— E Ben? Como ele está?

— Nada bem.

— O que houve? — Ela apertava o telefone com força.

— No fim Floyd jogou o Sr. Mears em cima do carrinho importado dele, e ele bateu a cabeça. Carl Foreman o levou para o hospital de Cumberland. Ele estava desmaiado. Não sei de mais nada. Se você quiser...

Ela desligou, correu para o armário e tirou o casaco.

— Susan, o que foi?

— Floyd, aquele anjo de rapaz... — disse ela, mal percebendo que chorava —, mandou Ben para o hospital.

E saiu correndo, sem esperar uma resposta.

2

Ela chegou ao hospital e esperou numa desconfortável cadeira plástica, olhan­do estupidamente para um exemplar de Casa e Decoração. Só eu vim, pensou ela. Era desolador. Pensou em ligar para Matt Burke, mas desistiu quando lembrou que o médico podia chegar e não encontrá-la.

Os minutos se arrastavam no relógio da sala de espera. Às 18h50, um médico com um maço de papéis na mão entrou e disse:

— Srta. Norton? . .

— Isso mesmo. Como está Ben?

— Ainda não posso responder. — Ele viu o temor no rosto dela e acrescentou. — Ele parece estar bem, mas precisa ficar internado mais dois ou três dias. Está com uma fratura pequena, várias contusões e um olho bem roxo.

— Posso vê-lo?

— Hoje, não. Ele foi sedado.

— Só um minuto. Por favor...

Ele suspirou.

— Pode ir até o quarto, se quiser. Deve estar dormindo. Não fale nada a não ser que ele fale com você.

Ele a levou para o terceiro andar e depois para um quarto no fim do corredor que cheirava a remédios. O outro paciente lia uma revista e os olhou com indiferença.

Ben estava deitado de olhos fechados, o lençol puxado até o queixo. Estava tão pálido e imóvel que, por um momento de pânico, Susan achou que tivesse morrido enquanto ela e o médico conver­savam. Depois notou a respiração lenta que movia seu peito e sentiu um alívio tão intenso que chegou a cambalear. Olhou para o rosto dele atentamente, mal notando os ferimentos. “Efeminado”... Susan entendia de onde sua mãe tirara aquela idéia. Seus traços eram fortes, mas delicados (ela procurou uma palavra melhor do que “delicado”, que se aplicava mais ao bibliotecário da cidade, que escrevia pomposos sonetos spenserianos no tempo livre, mas era a única que se encaixava). Só os cabelos eram viris no sentido tradicional. Negros e densos, pareciam flutuar sobre seu rosto. O curativo branco na têmpora esquerda se destacava com nítido contraste.

Eu amo esse homem, pensou ela. Melhore, Ben. Melhore e termine seu livro para que possamos ir embora de Lot juntos, se você me quiser. A cidade se tornou um lugar ruim para nós dois.

— É melhor você ir agora — disse o médico. — Talvez amanhã...

Ben se mexeu e emitiu um som gutural. Suas pálpebras abriram lentamente, fecharam e voltaram a abrir. Seus olhos estavam sedados, mas notaram a presença de Susan. Pousou a mão sobre a dela. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela sorriu e apertou a mão dele.

Ele moveu os lábios e ela se inclinou para ouvir.

— O pessoal dessa cidade é de matar, não?

— Ben, eu sinto tanto...

— Acho que quebrei dois dentes dele antes de ele me derrubar — sussurrou Ben. — Nada mau para um escritorzinho.

— Ben...

— Agora, chega, Sr. Mears — disse o médico. — A cola do avião precisa secar.

Ben olhou para o médico.

— Só um minuto.

O médico girou os olhos para cima.

— Foi o que ela disse.

As pálpebras de Ben caíram e voltaram a se erguer com dificuldade. Ele disse algo ininteligível. Susan inclinou-se mais.

— O que foi, querido?

— Já escureceu? — Já.

— Você pode ir à casa de...

— Matt?

Ele assentiu com a cabeça.



— Diga-lhe que... eu quero que você saiba de tudo. Pergunte se ele... conhece o padre Callahan. Ele vai entender.

— Pode deixar — disse Susan. — Darei seu recado. Agora, durma, Ben.

— Certo. Eu te amo. — Ele murmurou outra coisa, duas vezes, e depois fechou os olhos e começou a respirar mais pesado.

— O que ele disse? — perguntou o médico.

Susan franziu a testa.

— Acho que foi “tranque as janelas” — disse ela.

3

Eva Miller e Weasel Craig estavam na sala de espera quando ela voltou para buscar o casaco. Eva usava um antiquado casaco com uma gola de pele puída, obviamente reservado para grandes ocasiões, e Weasel parecia sumir dentro de uma jaqueta de motoqueiro grande demais para ele. Susan se alegrou ao vê-los.

— Como ele está? — perguntou Eva.

— Acho que vai ficar bom. — Ela repetiu o diagnóstico do médico, e o rosto de Eva relaxou.

— Que bom. O Sr. Mears parece ser um homem muito bom. Nunca aconteceu nada assim na minha pensão. Parkins Gillespie teve de trancar Floyd no xadrez dos bêbados. Mas ele não parecia bêbado. Só... abobado e confuso.

Susan sacudiu a cabeça.

— Floyd não é assim Não mesmo.

Um momento de silêncio se seguiu.

— Ben é um ótimo sujeito — disse Weasel, dando um tapinha na mão de Susan. — Ele vai ficar bom logo, logo. Você vai ver.

— Vai, sim — disse Susan, apertando a mão dele entre as suas. — Eva, Callahan é o padre da igreja St. Andrew?

— E, por quê?

— Nada, curiosidade. Ouçam, obrigada por virem. Se puderem voltar amanhã...

— Vamos voltar — disse Weasel. — Claro que vamos, não é, Eva? — Ele passou o braço pela cintura dela, embora fosse difícil para ele abarcá-la em toda a sua extensão.

— Vamos, sim.

Susan andou até o estacionamento com eles e depois dirigiu de volta a Jerusalem’s Lot.

4

Quando ela bateu, Matt não abriu a porta nem gritou Entre!, como era seu costume. Em vez disso, uma voz cuidadosa que ela mal reconheceu disse: “Quem é?”, baixinho do outro lado da porta.

— Susie Norton, Sr. Burke.

Matt abriu a porta e ela sentiu um choque ao ver como ele mudara. Parecia velho e abatido. Em seguida ela notou que ele usava um pesado crucifixo dourado. Era tão estranho e ridículo ver aquele objeto cafona e barato por cima da camisa xadrez dele que ela quase riu — mas se conteve.

— Entre. Onde está o Ben?

Ela lhe contou o que houvera e ele sacudiu a cabeça, preocupado.

— Justo Floyd Tibbits resolveu dar uma de amante traído? Não podia ter acontecido em pior hora. Mike Ryerson foi trazido de Portland no fim da tarde para os preparativos fúnebres. E acho que nosso passeio até a Casa Marsten terá de ser adiado...

— Que passeio? E o que tem Mike?

— Você quer um café? — ele perguntou, desatento.

— Não. Quero saber o que está acontecendo. Ben disse que você pode me contar.

— Uma missão ingrata. É fácil para Ben pedir isso. Difícil é fazer. Mas vou tentar.

— O que...

Ele ergueu a mão.

— Antes, uma pergunta. Você e sua mãe foram à loja nova outro dia, não foram?

Susan franziu a testa.

— Fomos. Por quê?

— Diga-me o que achou do lugar e, mais especificamente, do dono.

— O Sr. Straker?

— Sim.


— Bom, ele é muito cortês — disse ela. — “Palaciano” talvez seja um termo mais preciso. Elogiou o vestido de Glynis Mayberry, e ela corou como uma colegial. Interessou-se pelo curativo no braço da Sra. Boddin, que se queimou com óleo quente, e lhe deu a receita de um cataplasma. Escreveu para ela e tudo. E quando Mabel entrou... — Ela riu ao lembrar.

— Sim?


— Ele buscou uma cadeira para ela — continuou Susan. — Não uma cadeira qualquer. Parecia mais um trono, todo de mogno e decorado. Ele foi buscar sozinho nos fundos sem parar de sorrir e conversar com as outras senhoras. Mas devia pesar uns 150 quilos. Ele depositou a cadeira no meio da loja e conduziu Mabel até ela, pelo braço. E ela dava risinhos. Quem já viu Mabel dar risinhos, já viu tudo. Depois, ele serviu café. Muito forte, mas excelente.

— Você gostou dele? — perguntou Matt, olhando-a com atenção.

— Tudo isso está relacionado, não é? — perguntou ela.

— Pode ser que sim.

— Certo, vou lhe dar o ponto de vista feminino. Gostei e não gostei. Senti atração por ele de modo vagamente sexual. Um homem mais velho, urbano, muito cortês e refinado. Dava para ver que ele saberia o que pedir num restaurante francês e que vinho escolher, a safra e a vinícola. O oposto dos tipos que temos por aqui. Mas sem ser efeminado. Ágil, como um bailarino. E um homem tão despudoradamente careca sempre tem algo de atraente. — Ela sorriu, meio na defensiva, sabendo que estava vermelha, com medo de ter falado demais.

— Mas também não gostou — disse Matt.

Ela encolheu os ombros.

— Isso é mais difícil de definir. Acho... acho que senti um certo desprezo sob aquela fachada. Um certo cinismo. Como se ele estivesse interpretando um papel, e interpretando bem, mas sabendo que não teria de se esforçar demais para nos enganar. Um ar um pouco superior. — Ela pareceu incerta. — E senti um toque de crueldade nele. Não sei bem o porquê.

— Alguém comprou alguma coisa?

— Quase nada, mas ele não se importou. Mamãe comprou uma estante iugoslava para colocar bibelôs e a Sra. Petrie comprou uma linda mesinha dobrável, mas foi só. Ele não se importou. Só pediu que falássemos da loja aos amigos e que voltássemos sempre. O velho charme europeu.

— E acha que ele agradou?

— De modo geral, sim — disse Susan, comparando o entusiasmo de sua mãe por R. T. Straker com a antipatia imediata que sentira por Ben.

— Viu o sócio dele?

— O Sr. Barlow? Não, ele está em Nova York, fazendo compras.

Será que está mesmo?, disse Matt para si mesmo.

— Não sei. O misterioso Sr. Barlow.

— Sr. Burke, não é melhor me contar o que está acontecendo?

Ele deu um longo suspiro.

— Acho que devo tentar. O que você me contou agora é muito preocupante. Muito. Encaixa perfeitamente com...

— Com o quê?

— Preciso começar contando meu encontro com Mike Ryerson no Dell’s ontem à noite... que parece ter sido há um século.

5

Eram 20h20 quando ele terminou, depois de cada um ter tomado duas xícaras de café.

— Acho que isso é tudo — disse Matt. — E agora devo imitar Napoleão Bonaparte? Ou lhe contar minhas conversas astrais com Toulouse-Lautrec?

— Não seja bobo — disse ela. — Algo está acontecendo, mas não o que o senhor pensa. Deve saber disso.

— Sabia até a noite de ontem.

— Se ninguém tem nada contra o senhor, como Ben sugeriu, então Mike pode ter feito aquilo consigo mesmo. Talvez estivesse delirando. — Ela sabia que não fora convincente, mas continuou assim mesmo. — Ou talvez tenha dormido sem perceber e sonhado tudo isso. Já me aconteceu isso antes.

Ele encolheu os ombros, cansado.

— Como dar um testemunho que nenhuma pessoa racional vai aceitar? Eu sei o que ouvi. Não estava dormindo. E agora estou muito preocupado. Segundo a literatura gótica, vampiros não podem ir entrando na casa de alguém para sugar seu sangue. Precisam ser convidados. Mike Ryerson convidou Danny Glick para entrar ontem à noite. E eu convidei Mike!

— Matt, Ben lhe falou sobre seu novo livro?

Ele brincou com o cachimbo, mas não o acendeu.

— Muito pouco. Só que tinha ligação com a Casa Marsten.

— Ele não contou que teve uma experiência muito traumática na Casa Marsten quando era criança?

Matt ergueu os olhos, surpreso.

— Na própria casa? Não.

— Ele queria ser aceito por um clube de meninos, e como prova de coragem teve de entrar na Casa Marsten e trazer algo de dentro. Ele entrou e, antes de sair, foi até o quarto no segundo andar, onde Hubie Marsten se enforcou. Quando abriu a porta, viu Hubie pendurado. Ele abriu os olhos, e Ben fugiu. Isso o perseguiu durante 24 anos. Agora voltou a Lot para tentar exorcizar esse fantasma através da escrita.

— Santo Deus — disse Matt.

— Ele tem... uma certa teoria sobre a Casa Marsten, que nasceu em parte de sua experiência e em parte de uma incrível pesquisa que ele fez sobre Hubert Marsten.

— Sobre sua tendência a adorar o demônio?

— Como sabe? — ela perguntou, surpresa.

Ele sorriu com melancolia.

— Nas cidades pequenas, nem todas as fofocas são públicas. Algumas são secretas. E uma delas dizia respeito a Hubie Marsten. Hoje só um punhado de pessoas mais velhas conhece essa história. Mabel Werts é uma delas. Mas nem mesmo ela a comenta com ninguém fora de seu círculo íntimo. Todos falam do suicídio, do assassinato. Mas se alguém perguntar sobre os dez anos em que ele morou com a mulher naquela casa, fazendo Deus sabe o quê, um pacto de silêncio se instala, talvez a coisa mais próxima de um tabu que a civilização ocidental conhece. Houve até boatos de que Hubert Marsten raptou e sacrificou crianças pequenas a seus deuses infernais. Estou surpreso que Ben tenha descoberto tudo isso. O sigilo em torno desse aspecto de Hubie e sua mulher é quase tribal.

— Ele não descobriu em Lot.

— Então está explicado. Desconfio que a teoria dele seja um velho clichê parapsicologico. Que os seres humanos fabricam o mal assim como produzem muco, excremento ou outras secreções. E que permanece no lugar. É como se a Casa Marsten tivesse se tornado uma pilha carregada de mal, uma bateria maligna.

— Isso mesmo, foram esses os termos que ele usou — disse ela, espantada.

Ele deu uma risada seca.

— Nós lemos os mesmos livros. Mas o que você acha, Susan? Sua filosofia vai além do céu e da terra?

— Não — disse ela com firmeza. — Casas não passam de casas. O mal só existe enquanto é perpetrado.

— Está sugerindo que posso arrastar Ben junto comigo para o caminho da loucura?

— Não, claro que não. Não acho que esteja louco, Sr. Burke, mas deve saber que...

Silêncio!

Ele inclinou a cabeça, atento. Ela parou de falar e prestou atenção. Não ouviu nada, exceto talvez o rangido de uma tábua. Ela o olhou interrogativamente, mas ele sacudiu a cabeça.

— O que você dizia?

— Que infelizmente esse é um mau momento para Ben exorcizar demônios da infância. Tenho ouvido muitos boatos mesquinhos na cidade desde que a Casa Marsten voltou a ser habitada e que a loja abriu. E também ouvi boatos sobre Ben. Ritos de exorcismo às vezes saem do controle e se voltam contra o exorcista. Acho que Ben precisa sair desta cidade e que o senhor precisa passar uns tempos fora dela, Sr. Burke.

Ao falar de exorcismo, Susan lembrou que Ben lhe pedira que falasse do padre católico para Matt. Obedecendo a um impulso, ela decidiu não fazê-lo. O motivo do pedido se tomara claro, mas ela não queria colocar mais lenha numa fogueira que, na sua opinião, já estava alta demais. Se Ben lhe perguntasse, ela diria que esquecera.

— Sei que deve parecer uma loucura — disse Matt. — Até para mim, que ouvi a janela se abrindo, a risada, e vi a tela da janela no jardim esta manhã. Mas, para tranqüilizá-la, devo dizer que a reação de Ben a tudo isso foi bastante sensata. Sugeriu que agíssemos como se fosse uma teoria a ser provada ou refutada, começando por... — Ele parou de falar outra vez e prestou atenção.

Dessa vez o silêncio se estendeu, e quando ele voltou a falar, a certeza serena na voz dele a assustou.

— Tem alguém lá em cima.

Ela prestou atenção. Nada.

— E imaginação.

— Conheço minha casa — disse ele. — Tem alguém no quarto de hóspedes. Agora, ouviu?

E daquela vez ela ouviu. Uma tábua rangendo, um som típico de casas velhas. Mas que pareceu a Susan furtivo e secreto.

— Vou subir — disse ele.

— Não! — exclamou ela impulsivamente, e pensou: Agora quem começou a acreditar em fantasmas?

— Tive medo ontem à noite e não fiz nada. E as coisas pioraram. Agora vou subir.

— Sr. Burke...

Os dois falavam a meia-voz. A tensão corria nas veias dela, enrijecendo os músculos. Talvez houvesse mesmo alguém lá em cima. Um ladrão.

— Depois que eu sair, continue falando — disse ele. — Sobre qualquer coisa.

E, antes que ela pudesse protestar, ele levantou e se dirigiu para o corredor com uma agilidade espantosa. Olhou para trás, mas ela não conseguiu interpretar seu olhar. E começou a subir a escada.

Susan sentiu uma aura de irrealidade com aquela súbita reviravolta. Dois minutos antes, eles discutiam a situação calmamente, sob a luz racional das lâmpadas. E agora ela sentia medo. Pergunta: se um psicólogo ficasse numa sala com um homem que acredita ser Napoleão durante um ano (ou dez ou vinte), qual seria o resultado final? Dois cientistas ou dois homens com a mão no peito da camisa?

Ela se pôs a falar:

— Ben e eu íamos até Camden no domingo. Sabe, onde filmaram A Caldeira do Diabo. Mas agora acho que teremos de esperar. Tem uma igrejinha linda lá, e...

Ela falava com desenvoltura, embora suas mãos estivessem contraídas sobre o colo. Sua mente estava clara, não tendo sido afetada por aquela conversa de vampiros e mortos-vivos. Era de sua espinha dorsal, de uma rede muito mais primitiva de nervos e gânglios, que o terror emanava em ondas.

6

Subir a escada foi a coisa mais difícil que Matt Burke fizera na vida. Nada mais sequer se comparava. A não ser, talvez, uma coisa.

Aos oito anos, ele fizera parte de uma equipe de escoteiros. A sede ficava a um quilômetro de distância, e a ida pela estrada era tranqüila, enquanto o sol da tarde ainda brilhava. Mas na volta a noite começava a cair, liberando as sombras que cruzavam a estrada em longas formas. E quando as reuniões eram mais animadas e acabavam tarde, ele precisava voltar no escuro, Sozinho.



Sozinho. Sim, é essa a palavra mais terrível de todas. “Assassinato” não chega aos pés, e “inferno” é apenas um sinônimo inferior.

Havia uma igreja metodista abandonada no caminho, que se erguia em ruínas no atol de um gramado coberto de geada. E quando ele passava pelas janelas silenciosas que o observavam, seus passos pareciam ficar mais altos, o assobio morria em seus lábios, e ele pensava como devia ser lá dentro — os bancos virados, os hinários apodrecidos, o altar decrépito onde apenas ratos ainda se reuniam, e se perguntava o que haveria lá além de ratos — loucos, monstros. Talvez eles o espiassem com olhos amarelos de répteis. E talvez uma noite não se contentassem em espiar, e aquela porta lascada e torta subitamente se abriria, e ele veria algo que o enlouqueceria na mesma hora.

Ele não podia explicar aquilo aos pais, que eram criaturas da luz. Assim como não podia lhes explicar que, aos três anos, o cobertor aos pés do berço se transformava em cobras que o observavam com olhos fixos e sem pálpebras. Nenhuma criança consegue vencer esses medos, pensou ele. Nin­guém supera medos que nunca foram articulados. E os temores presos nas mentes infantis são grandes demais para caber em palavras. Com o tempo, todos se acostumam a passar na frente de casarões abandonados. Até aquela noite. Naquela noite, ele descobriu que seus velhos medos não haviam morrido. Permaneciam vivos, guardados nos baús da infância.

Ele não acendeu a luz. Subiu um a um os degraus, evitando o sexto, que rangia. Agarrava o crucifixo com a mão suada e trêmula.

Chegou ao alto e se virou em silêncio para o corredor. A porta do quarto de hóspedes estava aberta. Ele a deixara fechada. Do andar de baixo, vinha o som constante da voz de Susan.

Andando com cautela para não fazer barulho, ele foi até a porta e parou diante dela. A base de todos os medos humanos, pensou ele. Uma porta entreaberta.

Ele a empurrou.

Mike Ryerson estava deitado na cama.

O luar entrava pelas janelas, tornando o quarto um lago prateado. Matt sacudiu a cabeça, tentando clareá-la. Parecia que ele voltara no tempo, para a noite anterior. Desceria e ligaria para Ben, porque ele ainda não fora para o hospital, e...

Mike abriu os olhos.

Eles cintilaram por um momento à luz do luar, prateados entre círculos vermelhos. Estavam inexpressivos e sem vida. Não havia nada de humano neles. Os olhos são as janelas da alma, dissera Wordsworth. Se era verdade, aquelas janelas davam para um cômodo vazio.

Mike sentou, derrubando o lençol e descobrindo o peito, e Matt viu os pontos grosseiros com que o patologista fechara o corte da autópsia.

Mike sorriu, mostrando os caninos e os incisivos brancos e afiados. O sorriso não passava de uma flexão de músculos. Não afetava o olhar, que mantinha uma inexpressividade mortal.

Mike disse com muita clareza.

Olhe para mim.

Matt olhou. Sim, os olhos estavam vazios, mas muito profundos. Dava quase para ver pequenos camafeus de si mesmo nos poços daqueles olhos, boiando docemente, tornando o mundo sem impor­tância, os medos sem importância...

Ele recuou um passo e gritou:

— Não! Não!

E estendeu o crucifixo.

A criatura que seria Mike Ryerson silvou como se tivesse recebido água fervente no rosto. Levantou os braços num gesto de defesa. Matt avançou um passo, fazendo Ryerson recuar.

— Saia daqui! — bradou Matt. — Eu retiro meu convite!

Ryerson gritou, um som agudo e ululante, cheio de ódio e dor. Deu quatro passos vacilantes para trás. As pernas encostaram no peitoril da janela aberta, e ele cambaleou, perdendo o equilíbrio.

Você dormirá o sono dos mortos, professor.

E ele caiu de costas na escuridão, com as mãos estendidas sobre a cabeça, como um mergulha­dor, o corpo pálido feito mármore contrastando com os pontos pretos que cruzavam seu tronco formando um Y.

Matt soltou um grito aterrorizado e correu até a janela. Não conseguiu ver nada na noite enluarada, a não ser partículas móveis que podiam ser de poeira, suspensas no ar sob a janela e sobre o quadrado de luz da sala. Elas rodopiaram, uniram-se formando um vulto humanóide e depois desapareceram no nada.

Matt se virou para correr dali, e foi então que a dor atravessou seu peito e o fez cambalear. Ele levou a mão ao coração e se dobrou. A dor parecia subir pelo seu braço em ondas pulsantes. O crucifixo oscilava sob seus olhos.

Saiu do quarto com os braços cruzados sobre o peito, ainda agarrando a corrente do crucifixo, ainda pensando em Mike Ryerson suspenso na escuridão como um lívido mergulhador.

— Sr. Burke!

— Meu médico é James Cody — disse ele entre lábios frios como neve. — Está na agenda. Acho que estou tendo um infarto.

E ele desabou no meio do corredor.

7

Ela discou o número marcado ao lado das palavras Jimmy Cody, charlatão. As palavras estavam escritas com a clara letra de forma que ela lembrava tão bem de seus tempos de colégio. Uma voz feminina atendeu, e Susan disse:

— O médico está? É uma emergência!

— Está — disse a mulher calmamente. — Um segundo.

— Aqui é o Dr. Cody.

— Aqui é Susan Norton. Estou na casa do Sr. Burke. Ele teve um infarto.

— Quem? Matt Burke?

— Sim. Ele está inconsciente. O que devo...

— Chame uma ambulância — disse ele. — Em Cumberland, o número é 841-4000. Fique ao lado dele. Cubra-o com um cobertor, mas não o tire do lugar. Entendeu?

— Sim.

— Chegarei em vinte minutos.



— Você vai...

Mas ele desligara, e ela ficou sozinha.

Ligou para a ambulância e depois voltou a ficar sozinha, diante da missão de subir até onde Matt estava.

8

Ela olhou para a escada com um temor que lhe pareceu incrível. Desejava que nada daquilo tivesse acontecido, não pelo bem-estar de Matt, mas para não ter de sentir aquele medo doentio. Não acreditara naquela história espantosa, e interpretara o que Matt lhe contara em termos puramente racionais. Mas a firme descrença que a sustentara até então começava a se esvair, e ela se sentia em queda livre.

Ouvira a voz de Matt e depois um terrível augúrio: Você dormirá o sono dos mortos, professor. A voz que dissera aquelas palavras não tinha nada de humana.

Ela voltou a subir, obrigando-se a vencer cada degrau. A luz do corredor não ajudava muito. Matt estava onde ela o deixara, o rosto virado de lado contra o carpete gasto do corredor, respirando de modo ofegante e entrecortado. Ela abriu os dois botões superiores da camisa, e a respiração pareceu melhorar um pouco. Depois entrou no quarto de hóspedes para pegar um cobertor.

O quarto estava frio, a janela, aberta. A cama estava despida, exceto pelo revestimento do colchão, mas havia uma pilha de cobertores na última prateleira do armário. Quando se virou para voltar ao corredor, algo no chão perto da janela brilhou ao luar. Ela parou para apanhar o objeto e o reconheceu imediatamente. Era um anel do Colégio de Cumberland. As iniciais gravadas no interior eram M.C.R.

Michael Corey Ryerson.

E por um momento, na escuridão, ela acreditou. Acreditou em tudo. Um grito nasceu em sua garganta e ela o sufocou, mas derrubou o anel, que caiu no chão perto da janela, brilhando sob o luar de outono.

Capítulo Dez

A CIDADE (III)

1

A cidade conhecia a escuridão.



Conhecia a escuridão que cobria a terra quando o sol se escondia e também a escuridão da alma humana. A cidade era a soma de três partes que, juntas, eram maiores do que suas divisões. A cidade era seus moradores, os prédios onde moravam ou trabalhavam e a terra. Os moradores eram de origem anglo-escocesa e francesa. Havia outras descendências, mas não muitas — como um punhado de pimenta jogado num imenso caldeirão. Mas os ingredientes nunca se misturaram muito bem. Os prédios eram, quase todos, feitos de madeira. Muitas das casas antigas tinham o tradicional estilo da Nova Inglaterra, e a maioria das lojas tinha fachada falsa, embora ninguém soubesse o motivo. Os moradores sabiam que não havia nada por trás dessas fachadas, assim como sabiam que Loretta Starcher usava sutiã com enchimento. A terra tinha uma camada de granito coberta por outra, arável, mas que rachava facilmente. A lavoura era uma atividade sofrida, cansativa, ingrata. O rastelo atingia grandes pedaços da camada de granito e quebrava. Em maio, o lavrador saía com a camionete tão logo o chão secava. Com a ajuda dos filhos, retirava as pedras do solo e as transportava até a grande pilha que era formada desde 1955, quando aquele tormento começara. Depois, com os dedos sujos, inchados e entorpecidos de tanto carregar pedras, ele prendia o rastelo ao trator. Mas, mal começava a abrir os sulcos no solo, uma lâmina se quebrava numa pedra que passara despercebida. E, quando se abaixava para trocar a lâmina, pedindo para um dos filhos levantar a máquina, ouvia o primeiro mosquito da estação passar zumbindo, sedento de sangue — o mesmo som que os loucos deviam ouvir antes de matar os filhos, ou de fechar os olhos e pisar fundo no acelerador na rodovia, ou de apertar o gatilho da espingarda contra a cabeça. E os dedos suados do filho deixavam a máquina escorregar, e uma das lâminas redondas caía esfolando seu braço, e, ao olhar ao redor naquele instante desesperado e cruel, quando dava vontade de largar tudo e se afundar na bebida, ou de ir até o banco onde hipotecara as terras e declarar falência, nesse instante de ódio àquela terra que o prendia por uma força maior do que a da gravidade, ele também percebia que a amava, e que ela conhecia a escuridão e sempre a conhecera. Ele estava preso à terra, assim como à casa, à mulher por quem havia se apaixonado no colegial, aos filhos que haviam sido feitos na velha e lascada cama de cabeceira. Estava preso ao banco, assim como à concessionária de carros, à loja Sears de Lewinston e a John Deere em Brunswick. Mas, acima de tudo, estava preso à cidade porque a conhecia como conhecia o seio da própria esposa. Sabia quem fora despedido e estaria matando tempo na loja de Crossen, sabia quem estava sendo traído mesmo antes de o próprio interessado saber — como acontecia com Reggie Sawyer, porque o garoto da telefônica estava de caso com Bonnie Sawyer. Sabia o trajeto das estradas e, nas tardes de sexta, onde parar o carro com Hank e Nolly Gardener para tomar umas cervejas. Conhecia os acidentes do terreno e como atravessar o pântano em abril sem molhar o alto das botas. Sabia tudo. E a terra sabia tudo dele. Sabia como sua virilha doía depois de um dia sentado no banco do trator, e que o caroço em suas costas era apenas um cisto, e o médico dissera para não se preocupar, e como ele se afligia com as contas que chegavam na última semana do mês. A terra sabia quando mentia, até para si mesmo, quando dizia que levaria a mulher e as crianças à Disneylândia no ano seguinte ou no próximo, e que conseguiria comprar uma nova tevê em cores se cortasse madeira no outono, e, de modo geral, que tudo daria certo. Morar na cidade era uma contínua relação sexual, tão completa que aquilo que ele e sua mulher faziam na cama à noite parecia um aperto de mão. Morar na cidade era prosaico, sensual, inebriante. E à noite, a cidade era dele e ele era da cidade, e dormiam juntos como os mortos, ou como as pedras da plantação. Lá não existia vida, mas a lenta morte dos dias. E, quando o mal se instalou na cidade, o fato pareceu quase programado e natural. Era quase como se a cidade soubesse que o mal chegaria e a forma que assumiria.

A cidade tinha seus segredos, e sabia guardá-los. Os moradores não conheciam todos. Sabiam que a mulher do velho Albie Crane fugira com um viajante de Nova York — ou achavam que sabiam. Mas Albie rachara o crânio dela depois que o viajante a abandonara, prendera um bloco de cimento nos pés do cadáver e o derrubou no velho poço, e vinte anos depois Albie morreu serenamente enquanto dormia, assim como seu filho Joe morrerá mais tarde nesta história, e quem sabe um dia um garoto passará pelo poço escondido por trepadeiras e afastará a tampa desgastada pelo tempo e verá o velho esqueleto no fundo de pedra, o colar dado pelo viajante ainda pendurado, coberto de musgo, sobre a caixa torácica.

Sabiam que Hubie Marsten matara a mulher, mas não sabiam o que a obrigara a fazer antes, ou o que aconteceu entre eles naquela cozinha assombrada pelo sol momentos antes de ele atirar na cabeça dela, enquanto o opressor cheiro de madressilvas os envolvia com a doçura doentia de uma câmara mortuária. Não sabiam que ela implorara por aquele tiro.

Algumas velhas da cidade — Mabel Werts, Glynis Mayberry, Audrey Hersey — lembravam-se que Larry McLeod encontrara papéis carbonizados na lareira, mas não sabiam que eram os restos da correspondência de 12 anos entre Hubie Marsten e um pitoresco nobre austríaco chamado Breichen, nem que essa correspondência começara através de um singular livreiro de Boston, que tivera uma morte horrorosa em 1933, nem que Hubie queimara cada uma das cartas antes de se enforcar. Jogou-as no fogo uma a uma, e as chamas escureceram o papel cor de creme e a elegante e fina caligrafia. Não sabiam que ele sorria nesse momento, assim como Larry Crockett sorri ao pensar nos fabulosos títulos de propriedade guardados em seu cofre no banco de Portland.

Sabiam que Coretta Simons, a viúva do velho Jumpin’ Simons, agonizava lentamente devido a um câncer de intestino, mas ninguém sabia que mais de 30 mil dólares em dinheiro estavam escondidos atrás do cafona papel de parede da sala, resultado de uma apólice de seguro que ela recebeu, mas nunca investiu. E dos quais se esquecera completamente em suas horas finais.

Sabiam que um incêndio queimara metade da cidade em setembro de 1951, mas não sabiam que fora provocado, e que o garoto que o provocou foi o orador na formatura da turma de 1953 e que ganhou 100 mil dólares em Wall Street. E, mesmo que soubessem, não entenderiam a compulsão que o levara a esse ato nem o remorso que o devorou durante os vinte anos seguintes, até que uma embolia cerebral o matou aos 46 anos.

Não sabiam que o reverendo John Groggins acordava à meia-noite com horríveis pesadelos ainda vividos em sua cabeça careca — sonhos em que pregava para as meninas do Curso Noturno nu em pêlo, e elas se abriam para ele;

nem que Floyd Tibbits perambulou durante toda a sexta-feira num transe doentio, sentindo o sol castigar sua pele estranhamente pálida, lembrando-se vagamente de ter ido à casa de Ann Norton, esquecendo-se totalmente da agressão contra Ben Mears, mas recebendo com gratidão o frescor do pôr-do-sol, que trazia a expectativa de algo bom e formidável;

nem que Hall Griffen escondia no fundo do armário seis revistas pornográficas que usava para se masturbar sempre que podia;

nem que George Middler tinha uma mala cheia de combinações, sutiãs, meias e calcinhas de seda, e que às vezes fechava as venezianas de seu apartamento sobre a loja de ferragens, trancava bem a porta e se postava em frente ao espelho do quarto, até que começava a ofegar, caía de joelhos e se masturbava;

nem que Carl Foreman tentara gritar e não conseguiu quando Mike Ryerson começou a se mexer sobre a mesa de metal na sala sob o necrotério, mas o grito se congelou em sua garganta quando o defunto abriu os olhos e sentou;

nem que Randy McDougall, aos dez meses, nem sequer resistiu quando Danny Glick entrou pela janela do quarto, tirou-o do berço e enterrou os dentes no pescoço ainda roxo devido aos golpes da mãe.

Esses eram os segredos da cidade. Alguns serão conhecidos um dia, outros nunca serão revela­dos. A cidade guardava a todos com suprema indiferença.

A cidade zelava mais pelas obras do demônio do que pelas obras divinas ou humanas. Conhecia a escuridão. E a escuridão lhe bastava.

2

Sandy McDougall sabia que algo estava errado, mesmo antes de levantar, mas não sabia o quê. O outro lado da cama estava vazio — era o dia de folga de Roy, e ele fora pescar com uns amigos. Voltaria por volta do meio-dia. Nada estava queimando e ela não sentia nenhuma dor. Então, o que podia estar errado?

O sol. O sol estava errado.

Já estava alto e projetava sobre o papel de parede a sombra da árvore logo ao lado da janela. Mas Randy sempre a acordava antes de o sol subir e lançar a sombra da árvore na parede...

Assustada, ela olhou para o relógio sobre a cômoda. Eram 9hl0.

O medo fechou sua garganta.

— Randy? — ela gritou, a camisola inflando enquanto ela corria pelo curto corredor do trailer. — Randy, querido...

O quarto do bebê estava banhado pela luz que entrava pela única e pequena janela sobre o berço... que estava aberta. Mas ela a fechara quando fora dormir. Sempre a fechava.

O berço estava vazio.

— Randy — ela sussurrou.

E então o viu.

O pequeno corpo, ainda com o macacãozinho desbotado, fora atirado a um canto como um traste. Uma perna se erguia grotescamente, como um ponto de exclamação invertido.

Randy!

Ela caiu de joelhos ao lado do corpo, o rosto deformado pelo choque. Tomou a criança nos braços, sentindo a frieza da pele.

— Randy, meu benzinho. Acorde, Randy. Acorde.

As contusões haviam desaparecido. Sumiram da noite para o dia, e o rostinho estava incólume e perfeito. Estava corado. Pela primeira vez desde seu nascimento ela o achou lindo, e gritou diante daquela visão, um grito horrível e desamparado.

— Randy! Acorde! Randy! Randy!

Ela se levantou com o menino nos braços e correu pelo corredor, uma alça da camisola caindo do ombro. O cadeirão ainda estava na cozinha, a tampa salpicada com os restos do jantar da criança. Ela colocou Randy na cadeira, que estava no centro de uma poça de luz. A cabeça do menino caiu sobre o peito, e ele escorregou de lado lentamente até ficar alojado entre a tampa e um dos braços da cadeira.

— Randy? — disse ela, sorrindo, os olhos saltando das órbitas como bolas de gude azuis. Deu tapinhas no rosto dele. — Acorde, Randy. Vamos tomar café da manhã. Não está com fominha? Não, meu Deus, por favor...

Ela abriu um armário sobre o fogão e começou a remexer dentro dele, derrubando uma caixa de arroz instantâneo, uma lata de ravióli pronto, uma garrafa de óleo Wessel. A garrafa de óleo quebrou, espalhando o líquido viscoso pelo fogão e depois pelo chão. Ela encontrou um potinho de creme de chocolate Gerber e pegou uma colher de plástico do escorredor de louça.

— Olha, Randy. Você adora. Acorde pra comer o creme. É de chocolate, Randy. Chocolatinho gostoso. — O terror e a fúria a sacudiram. — Acorde! — ela gritou, atingindo com gotículas de saliva o rosto translúcido do menino. — Acorde! Acorde, pelo amor de Deus, seu merdinha! Acorde!

Ela tirou a tampa do pote e encheu a colher com o creme de chocolate. Sua mão, que já sabia a verdade, tremia tanto que derrubou quase todo o creme. Empurrou o que restara entre os pequenos lábios flácidos, e mais caiu sobre a tampa da cadeira. A colher bateu contra os dentes do menino.

— Randy! — suplicou ela. — Pare de enganar a mamãe.

Ela puxou o queixo do bebê com a outra mão e meteu o resto da calda em sua boca.

— Pronto — disse Sandy McDougall, abrindo um sorriso de louca esperança. Sentou na cadeira da cozinha, relaxando os músculos. Agora tudo daria certo. Ele teria certeza de que ela ainda o amava e pararia com aquela brincadeira cruel.

— Está bom? — murmurou ela. — O chocolatinho está bom, Randy? Dá um sorriso para a mamãe. Seja bonzinho e dá um sorriso para a mamãe.

Ela estendeu a mão trêmula e empurrou o canto da boca de Randy.

O chocolate caiu na bandeja — plop.

Ela começou a gritar.

3

Tony Glick acordou na manhã de sábado quando sua mulher, Marjorie, caiu na sala.

— Margie? — chamou ele, colocando os pés no chão. — Marge?

Depois de um longo intervalo, ela respondeu.

— Está tudo bem, Tony.

Ele sentou na beira da cama, olhando fixamente para os pés. Usava só as calças do pijama listrado, cujos cordões pendiam entre as pernas. Seu cabelo estava emaranhado. Seus dois filhos haviam herdado seu cabelo preto e espesso. Muita gente pensava que ele era judeu, mesmo com aquele cabelo mediterrâneo revelando suas origens. O nome de seu avô era Gliccucchi. Quando lhe disseram que sua vida seria mais fácil com um nome americano, curto e grosso, ele o mudou legalmente para Glick, sem saber que passava de uma minoria real para outra disfarçada. O corpo de Tony Glick era forte e moreno, torneado por músculos. Seu rosto tinha a expressão aturdida de alguém que levou um soco ao sair do bar.

Tirara uma licença do trabalho e não parara mais de dormir a semana toda. A dor passava quando dormia. Não tinha sonhos. Deitava-se às 19h30 e acordava às l0h00, e tirava um cochilo das l4h00 às 15h00. O tempo que transcorrera desde a cena que fizera no enterro de Danny e aquela ensolarada manhã de domingo parecia nebuloso e irreal. Os amigos lhes levavam comida — ensopa­dos, conservas, bolos, tortas. Margie dizia que não sabia o que fazer com tudo aquilo. Nenhum dos dois tinha fome. Na noite de quarta, quando ele tentou fazer amor com ela, ambos começaram a chorar.

Margie não parecia nada bem. Seu método de suportar a dor era limpar a casa de cima a baixo, com um zelo obsessivo que não a deixava pensar. A trilha sonora daqueles dias era o bater dos baldes de lata e o zumbido do aspirador de pó. O ar tinha o cheiro permanente de amoníaco e Lysol. Ela mandara todas as roupas e brinquedos, em caixotes bem-arrumados, para o Exército da Salvação e instituições de caridade. Quando ele levantara na quinta-feira de manhã, encontrara todos os caixotes enfileirados perto da porta da frente, cuidadosamente etiquetados. Ele nunca vira nada tão horrendo como aqueles caixotes mudos. Ela arrastara todos os tapetes para o quintal, pendurara-os nos varais e batera neles sem perdão. E até Tony, em sua exaustão, percebera como ela estava pálida desde terça ou quarta-feira. Até os lábios haviam perdido a cor natural, e ela ganhara olheiras escuras.

Esses pensamentos passaram por sua cabeça sem que ele os articulasse, e já estava a ponto de desabar de novo na cama quando ouviu a mulher mais uma vez. Dessa vez, ela não respondeu a seu chamado.

Ele levantou, foi até a sala e a viu deitada no chão, respirando lentamente, os olhos vidrados fixos no teto. Ela mudara os móveis da sala de lugar, e nada estava na posição habitual, dando ao ambiente um ar estranho e deslocado.

O estado de Marjorie piorara durante a noite, e seu aspecto era tão preocupante que o despertou de seu torpor como um banho de água fria. Ainda estava vestindo seu roupão, que se abrira revelando as pernas. Estavam brancas como mármore, tendo perdido todo o bronzeado das férias de verão. Suas mãos moviam-se como fantasmas. Abria a boca, como se não conseguisse respirar direito, e ele notou os dentes estranhamente proeminentes, mas não deu atenção. Podia ser o ângulo da luz.

— Margie? Meu bem...

Ela tentou responder, mas não conseguiu. Movido pelo medo, ele levantou para chamar o médico. Pegava o telefone quando ela disse, com dificuldade:

— Não... não...

Conseguira se sentar, e sua respiração laboriosa era audível na casa quieta e ensolarada.

— Ajude-me... a levantar... o sol está tão quente...

Ele correu para ela e a levantou, chocado com sua leveza. Estava leve como um punhado de gravetos.

— No sofá...

Ele a deitou no sofá, com as costas apoiadas no braço do móvel. Fora do feixe de luz que passava pela janela formando um quadrado no tapete, a respiração dela pareceu melhorar. Ela fechou os olhos, e mais uma vez a brancura dos dentes em contraste com os lábios o impressionou. Sentiu um impulso de beijá-la.

— Deixe-me chamar o médico — disse ele.

— Não, estou melhor. O sol estava... me queimando. Senti tontura, mas estou melhor agora.

— Tem certeza?

— Tenho.


— Está trabalhando demais, querida.

— Eu sei — disse ela, com olhos desatentos.

Ele passou as mãos pelos cabelos.

— Temos de reagir, Margie. Precisamos. Você está... — ele fez uma pausa, sem querer magoá-la.

— Estou horrível — disse ela. — Eu sei. Olhei no espelho do banheiro ontem, antes de dormir, e parecia que eu era transparente. Por um minuto, eu... — Ela esboçou um sorriso. — Achei que dava para ver a banheira atrás de mim. Parecia que eu estava sumindo, e o que restava estava... tão pálido...

— Vou chamar o Dr. Reardon.

Mas ela não o escutava.

— Tive um sonho maravilhoso nas últimas três ou quatro noites. Era tão real, Tony. Danny apareceu para mim no sonho. Disse: “Mamãe, estou tão feliz por estar em casa!” E depois ele disse...

— O quê? — perguntou ele delicadamente.

— Ele disse... que era meu bebê de novo. Meu filho queria meu peito de novo. Eu lhe dei e... tive uma sensação doce e dolorida ao mesmo tempo, como era quando os dentes dele estavam começando a nascer, e ele mordia... Que horror! Você deve estar achando que é conversa para um psiquiatra.

— Não — disse ele. — Não.

Ele ajoelhou ao lado da mulher, que abraçou seu pescoço e chorou baixinho. Tinha os braços frios.

— Por favor, não chame o médico, Tony. Vou repousar hoje.

— Está bem — cedeu ele, mas com preocupação.

— É um sonho tão lindo, Tony — disse ela, com o rosto contra o seu pescoço. Os movimentos de seus lábios, a dureza dos dentes por trás deles, tudo isso lhe pareceu extremamente sensual. Ele começou a ficar excitado. — Queria que o sonho voltasse esta noite.

— Talvez volte — disse ele, acariciando-lhe os cabelos. — Talvez volte.

4

Meu Deus, você está ótima — disse Ben.



De fato, em contraste com os anêmicos tons brancos e verdes do hospital, Susan Norton estava radiante. Usava uma blusa amarela com listras pretas verticais e uma minissaia de brim azul.

— Você também — disse ela, e atravessou o quarto em direção a ele.

Ben lhe deu um longo beijo, escorregando a mão até a curva do quadril dela.

— Ei — disse Susan, interrompendo o beijo. — Vão expulsar alguém por causa disso.

— Eu, não.

— Não, eu.

Eles se olharam.

— Eu te amo, Ben.

— Eu também te amo.

— Se eu pudesse, pulava na cama com você.

— Espere, vou puxar a manta.

— E o que vou dizer às enfermeiras?

— Que está me dando a comadre.

Ela sacudiu a cabeça, sorrindo, e puxou uma cadeira.

— Muita coisa tem acontecido na cidade, Ben.

Ele ficou sério.

— O quê?

Ela hesitou.

— Nem sei como lhe contar, ou em que acreditar. Estou confusa, no mínimo.

— Fale tudo e deixe que eu me viro.

— Qual é seu estado, Ben?

— Estou sarando. O médico de Matt, James Cody...

— Estou falando de sua mente. Até que ponto acredita nessa história de conde Drácula?

— Ah, bom. Matt te contou tudo?

— Matt está aqui no hospital. No andar de cima, na UTI.

— O quê? — Ele se apoiou nos cotovelos. — O que aconteceu com ele?

— Teve um infarto.

— Um infarto!

— O Dr. Cody disse que ele está estável. Classificaram seu estado como grave, mas isso é obrigatório nas primeiras 48 horas. Eu estava lá quando aconteceu.

— Conte-me tudo, Susan.

O prazer se esvaíra de seu rosto. Estava atento, concentrado, abatido. Entre as paredes brancas, os lençóis e o avental branco do hospital, ele mais uma vez pareceu a Susan um homem à beira de um precipício, segurando-se a uma corda frágil.

— Não respondeu à minha pergunta, Ben.

— Sobre o que achei da história de Matt?

— É.


— Deixe-me responder dizendo o que você acha. Acha que a Casa Marsten me perturbou a tal ponto que estou vendo fantasmas onde só existem sombras. Estou correto?

— Acho que sim, mas não havia pensado em termos tão... cruéis.

— Sei disso, Susan. Deixe-me descrever a progressão de meus pensamentos. Será bom para mim examiná-los. Vejo pela sua cara que algo também a impressionou muito. Estou certo?

— Está, mas não acredito. Não posso...

— Espere. Essa frase, “não posso”, bloqueia tudo. Era o que me atrapalhava. O tom categórico dessa frase. Não posso. Eu não podia acreditar em Matt, porque essas coisas não existem. Mas não conseguia encontrar um furo na história dele, por mais que tentasse. A conclusão mais óbvia era que ele enlouquecera de alguma forma, certo?

— Certo.


— Ele lhe pareceu louco?

— Não, não, mas...

— Pare — disse ele, levantando a mão. — Você está pensando em termos de não posso, não é?

— Acho que sim — disse ela.

— Ele também não me pareceu louco nem irracional. E nós dois sabemos que fantasias paranói­cas e manias de perseguição não aparecem da noite para o dia. Vão se desenvolvendo com o tempo. Já ouviu alguém dizer que Matt tinha um parafuso a menos? Já ouviu Matt dizer que alguém queria matá-lo? Ele já se envolveu em causas duvidosas ou fanáticas? Já mostrou interesse fora do comum por assuntos místicos, como sessões espíritas ou reencarnação? Já foi preso?

— Não — disse ela. — Não a todas as perguntas. Mas Ben... não queria dizer isso sobre Matt, mas algumas pessoas enlouquecem serenamente. Enlouquecem por dentro.

— Não concordo — disse ele. — Sempre há sinais. Às vezes não os percebemos na hora, só depois. Se você fizesse parte de um júri, acreditaria no testemunho de Matt em relação a um acidente de carro?

— Acreditaria.

— Acreditaria se ele lhe dissesse que viu um ladrão matar Mike Ryerson?

— Acho que sim.

— Mas não acredita no que ele lhe disse.

— Ben, não posso...

— Pronto, de novo essa frase. — Ele viu que ela protestaria, e ergueu a mão. — Não estou defendendo a versão dele, Susan. Só estou mostrando minha linha de raciocínio, certo?

— Certo, continue.

— Minha segunda hipótese era que alguém tivesse armado tudo isso para incriminá-lo.

— Isso também me ocorreu.

— Matt disse que não tem inimigos. Acredito nele.

— Todos têm inimigos.

— Mas há graus. Não esqueça o mais importante, um homem foi morto. Se alguém queria acabar com a vida de Matt, precisou matar Mike Ryerson para isso.

— Por quê?

— Porque toda essa confusão não faz sentido sem um corpo. Mas Matt disse que encontrou Mike totalmente por acaso. Ninguém o levou ao Dell’s na noite de quinta. Não recebeu telefonemas anôni­mos, bilhetes, nada. A coincidência do encontro já basta para descartar uma armadilha.

— O que resta em termos de explicações racionais?

— Que Matt sonhou que ouviu a janela se abrindo, a risada e o som de sucção. E Matt morreu de causas naturais, mas desconhecidas.

— Mas você também não acredita nisso.

— Não acredito que ele sonhou com a janela se abrindo. Estava aberta. E a tela externa estava no jardim. Eu notei e Parkins Gillespie também. E notei outra coisa. As telas da casa de Matt são do tipo que tem o trinco para fora, não para dentro. Não dá para tirá-las de dentro, a não ser com uma chave de fenda ou um formão. Mesmo assim, seria trabalhoso e deixaria marcas. Não vi nenhuma marca. E outra coisa: o chão do jardim é relativamente macio. Para tirar a tela do segundo andar, seria preciso uma escada, que deixaria marcas. Não vi nenhuma. É isso o que mais me incomoda. Uma tela no segundo andar tirada de fora e nenhuma marca de escada no chão.

Eles trocaram um olhar sombrio.

— Era o que eu estava raciocinando esta manhã — retomou ele. — E, quanto mais eu pensava, mais plausível se tornava a versão de Matt. Então, resolvi arriscar. Esqueci da frase não posso. Agora, conte-me o que aconteceu na casa dele ontem. Se explicar tudo que tem acontecido, ninguém ficará mais feliz do que eu.

— Não explica — disse ela, desanimada. — Apenas piora. Ele tinha acabado de me contar o que aconteceu com Mike Ryerson quando disse que tinha ouvido alguém no andar de cima, Estava apavorado, mas subiu. — Ela dobrou as mãos sobre o colo e as apertou com força, como se pudessem fugir. — Por alguns instantes, nada aconteceu. Depois Matt gritou algo, tipo que retirava o convite. Depois... não sei bem como...

— Continue. Não fique enrolando.

— Acho que alguém, outra pessoa, fez um som parecido com um silvo. Ouvi uma pancada, como se alguém tivesse caído. — Ela o olhou, desolada. — E então uma voz disse: Você dormirá o sono dos mortos, professor. Foi assim, palavra por palavra. E quando entrei mais tarde para pegar um cobertor para Matt, encontrei isto.

Ela tirou o anel do bolso da blusa e entregou a Ben. Ele o virou na direção da janela para que a luz iluminasse as iniciais.

— M.C.R. Mike Ryerson?

— Mike Corey Ryerson. Eu o deixei cair e me obriguei a pegá-lo de novo. Achei que você ou Matt gostariam de vê-lo. Pode ficar com ele, não quero de volta.

— Faz com que se sinta...

— Mal. Muito mal. — Ela ergueu a cabeça num gesto de desafio. — Mas tudo isso é anti-racional, Ben. Prefiro acreditar que Matt por algum motivo matou Mike e inventou toda essa história maluca de vampiros por motivos próprios. Pode ter armado a tela para que caísse. Deu uma de ventríloquo no quarto de hóspedes, deixou o anel de Mike à vista e...

— E provocou um infarto em si mesmo para ficar ainda mais realista — replicou Ben. — Ainda não desisti das explicações racionais, Susan. Estou torcendo, quase rezando, para que haja uma. Os monstros no cinema são divertidos porque sabemos que não estão soltos por aí. Concordo com você que a tela poderia ter sido armada. Bastaria uma corda e um gancho preso ao telhado. Mas continue­mos. Matt é um cara culto. Alguns venenos devem causar os sintomas que Mike teve. Talvez venenos indetectáveis. Mas essa hipótese é um pouco remota, porque Mike comeu tão pouco...

— Só Matt sabe disso — ela observou.

— Ele não mentiria, sabe que o legista não deixaria de examinar o estômago da vítima. E injetar o veneno deixaria marcas. Mas vamos supor que isso pudesse ser feito. E ele pode ter tomado algo para simular um ataque cardíaco. Mas que motivo teria?

Ela sacudiu a cabeça, perdida.

— Mesmo que exista um motivo misterioso, por que ele faria algo tão absurdo e inventaria uma história tão extravagante para encobrir o crime? Ellery Queen poderia encontrar uma explicação, mas a vida não é um livro de Queen.

— Mas essa outra explicação é uma loucura, Ben.

— Sim, como Hiroshima.

— Pare com isso! — ela exclamou de repente. — Não dê uma de intelectual, não combina com você! Estamos falando de histórias fantásticas, pesadelos, psicose, seja o que for que...

— Bobagem — disse Ben. — Faça as correlações. O mundo está despencando ao nosso redor e você está chocada com um punhado de vampiros.

— ’Salem’s Lot é minha cidade — disse ela, com teimosia. — Se alguma coisa está acontecendo aqui, tem a ver com a realidade, e não com especulações filosóficas.

— Concordo totalmente — disse ele, e levou a mão ao curativo na cabeça. — Seu ex-namorado tem um soco de direita bem real.

— Desculpe. Eu não conhecia esse lado de Floyd. Não entendo essa atitude.

— Onde ele está agora?

— Na cadeia da cidade. Parkins Gillespie disse para minha mãe que o entregaria à polícia do condado, ao delegado McCaslin. Mas resolveu esperar para ver se você daria queixa.

— Você se importaria?

— Nem um pouco — disse ela com firmeza. — Ele saiu da minha vida.

— Não vou dar queixa.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Mas quero falar com ele.

— Sobre nós?

— Quero saber por que ele me procurou usando um sobretudo, chapéu, óculos escuros... e luvas de borracha Playtex.

O quê?

— Bom — disse ele, olhando-a nos olhos. — O sol brilhava. Bem em cima dele. E acho que ele não estava gostando.

Eles se entreolharam em silêncio. Parecia não haver mais nada a dizer.

5

Quando Nolly levou a Floyd o café da manhã que trouxera do Excellent Café, encontrou-o dormindo profundamente. Nolly considerou uma maldade acordá-lo só para comer os dois ovos fritos e os seis pedaços de bacon gorduroso, e decidiu dar um fim na refeição ele mesmo em sua sala. E tomou o café também. Pauline Dickens fazia um café delicioso, ninguém podia negar. Mas quando levou o almoço de Floyd e o encontrou dormindo, ainda na mesma posição, ficou um pouco assustado. Colocou a bandeja no chão e bateu nas grades com uma colher.

— Ei, Floyd! Acorde! Trouxe o almoço!

Floyd não acordou, e Nolly tirou sua chave do bolso para abrir a porta do xadrez. Mas hesitou antes de inserir a chave. O episódio de A Morte Tem Seu Preço da semana anterior fora sobre um valentão que se fingira de doente para derrubar o carcereiro. Nolly nunca achara Floyd Tibbits um va­lentão, mas por outro lado fizera um belo estrago no escritor.

Ele hesitou, com a colher numa mão e a chave na outra, um homem grande cujas camisas brancas estavam sempre manchadas de suor nas axilas nos dias quentes. Pertencia à liga de jogadores de boliche e freqüentava bares nos fins de semana, tendo na carteira uma lista de inferninhos e motéis de Portland ao lado do calendário de bolso luterano. Era um homem simples, o típico bode expiatório, que demorava para reagir e se zangar. Além disso, não tinha muita agilidade mental. Ficou parado vários minutos sem saber o que fazer, chamando Floyd com a colher na mão, desejando que ele se mexesse, roncasse, fizesse algo. Estava justamente pensando em ligar para Parkins e pedir instruções quando o próprio Parkins apareceu na porta do escritório.

— O que você está fazendo, Nolly? Chamando os porcos?

O rapaz ficou vermelho.

— Floyd não se mexe. Acho que ele está... sei lá, doente.

— E você acha que bater nas grades com a colher vai fazer ele melhorar? — Parkins se aproximou e abriu a cela.

— Floyd? — Ele sacudiu Floyd pelo ombro. — Tudo bem com...

Floyd rolou da cama para o chão.

— Caramba — disse Nolly. — Ele está morto, não está?

Mas Parkins não ouviu. Olhava para o rosto estranhamente sereno de Floyd, e lentamente seu próprio rosto foi se enchendo de pavor.

— O que aconteceu, Park?

— Nada. É só que... vamos dar o fora daqui — E continuou, para si mesmo. — Não devia ter encostado nele.

Nolly olhou para o corpo de Floyd sentindo uma ponta de terror.

— Mexa-se — disse Parkins. — Temos de buscar o médico.

6

No meio da tarde, Franklin Boddin e Virgil Rathbun passaram pelo portão de tábuas no final da bifurcação da via Burn, três quilômetros depois do cemitério Harmony Hill. Estavam na picape Chevrolet ano 57 de Franklin, um veículo que já fora branco marfim no primeiro ano do segundo mandado de Eisenhower, mas que agora era cor de bosta misturada com vermelho. A picape estava cheia do que Franklin chamava de “tranqueiras”. Uma vez por mês, ele e Virgil levavam as “tranqueiras” para o depósito de lixo, sendo que a maior parte consistia em garrafas e latas de cerveja, barris de chope, garrafas de vinho e de vodca Popov.

— Fechado — disse Franklin, franzindo os olhos para ler a placa presa ao portão. — Mas que merda... — Deu um gole na cerveja encaixada entre suas pernas, perto da virilha, e enxugou a boca com o braço. — Hoje é sábado, não é?

— Claro que é — disse Virgil. Não tinha idéia se era sábado ou terça. Estava tão bêbado que não sabia nem que mês era.

— O depósito não fecha aos sábados, não é? — perguntou Franklin. Ele via três placas em vez de uma. Franziu os olhos de novo. As três placas diziam “Fechado”. A tinta vermelha só podia ser da lata que Dud Rogers guardava em sua cabana.

— Nunca fecha aos sábados — disse Virgil. Levantou sua garrafa de cerveja, errou a boca e derrubou o líquido no ombro esquerdo.

— Fechado — repetiu Franklin com crescente irritação. — Aquele filho-da-mãe deve estar atrás de mulher, isso sim. Ele vai ver. — Ele colocou a primeira marcha e apertou o acelerador. A cerveja transbordou da garrafa e molhou suas calças.

— Pé na tábua, Franklin! — gritou Virgil, e soltou um arroto gigantesco quando a picape arrombou o portão, derrubando-o sobre o acostamento entulhado de latas. Franklin trocou para a segunda e subiu a estrada esburacada. A picape se sacudia ruidosamente sobre as molas gastas. Garrafas caíram da traseira e se espatifaram no chão. Gaivotas alçaram vôo gritando.

Trezentos metros depois do portão, a via Burns terminava em uma ampla clareira, que era o depósito em si. O bosque cerrado de carvalhos e bordos se abria revelando uma grande área plana de terra vermelha, que fora sulcada pelo uso constante da velha escavadeira, agora estacionada ao lado da cabana de Dud. Depois da área plana ficava a cascalheira onde o lixo era depositado. O entulho, cintilante com suas garrafas e latas de alumínio, amontoava-se em dunas gigantescas.

— Maldito corcunda imprestável, parece que ele não queimou lixo a semana toda — disse Franklin. Meteu os dois pés no breque, que afundou até o piso com um grito mecânico. Depois de alguns segundos, a picape parou. — Deve estar de ressaca, isso sim.

— E Dud nem é de beber muito — observou Virgil, jogando a garrafa vazia pela janela e tirando outra do saco marrom no chão. Abriu-a no trinco da porta, e o líquido espumante transbordou sobre sua mão.

— Todos os Corcundas bebem — disse Franklin com ar sábio. Cuspiu pela janela, descobriu que estava fechada e passou a manga da camisa no vidro riscado e embaçado. — Vamos procurar ele. Pode valer alguma coisa.

Ele deu ré com a picape fazendo uma grande trajetória circular e parou com a traseira virada para a última pilha de lixo. Quando desligou a ignição, o silêncio subitamente pesou sobre eles. Era completo, com a exceção dos gritos inquietos das gaivotas.

— Como tudo está quieto! — murmurou Virgil.

Eles desceram da picape e foram até a traseira. Franklin soltou as travas da tampa, que desceu com um estrondo. As gaivotas que se alimentavam do outro lado do depósito levantaram vôo numa ruidosa nuvem.

Os dois subiram na carroceria sem dizer palavra e começaram a descarregar o lixo. Sacos plásticos verdes voavam pelo ar e se abriam ao cair. Era uma tarefa habitual para eles. Ambos eram uma parte da cidade que os turistas raramente viam, ou queriam ver — primeiro, porque a cidade os ignorava, tacitamente. E segundo, porque haviam criado uma coloração protetora própria. Um morador que visse a picape de Franklin na estrada esquecia-a assim que sumia do espelho retrovisor. Se avistasse a cabana deles, com a chaminé de lata lançando uma fina fumaça no céu, ignorava-a. Se encontrasse Virgil saindo de uma loja em Cumberland com uma garrafa de vodca barata num saco marrom, cumprimentava-o sem saber direito quem era — o rosto era familiar, mas o nome não vinha à mente. Derek Boddin, pai de Richie (imperador deposto da escola elementar da rua Stanley), era irmão de Franklin, mas praticamente se esquecera que ele ainda vivia na cidade. Passara do estágio de ovelha negra para o de uma sombra.

Depois de esvaziar a picape, Franklin chutou uma última lata — clink! — e suspendeu as calças verdes de trabalho.

— Vamos visitar o Dud — disse ele.

Quando desceram da carroceria, Virgil tropeçou num dos próprios cadarços de couro cru e caiu sentado no chão.

— Que droga de cadarço — murmurou indistintamente.

Eles se aproximaram da cabana de Dud. A porta estava fechada.

— Dud! — berrou Franklin. — Ei, Dud Rogers! — Ele socou a porta, e toda a cabana tremeu. O fecho de ilhós da porta se rompeu, dando passagem. A cabana estava vazia, mas emanava um cheiro adocicado e nauseante. Eles se entreolharam com uma careta, justo eles, veteranos de bares e seus cheiros insalubres. Franklin pensou em picles guardados num pote durante muitos anos, até o líquido ficar branco.

— Filho-da-mãe — disse Virgil. — Fede mais que gangrena.

Mas a cabana estava impecavelmente limpa. A segunda camisa de Dud estava pendurada num cabide sobre a cama, a cadeira lascada fora encostada à mesa da cozinha e a cama em si estava arrumada em estilo militar. A lata de tinta vermelha, com gotas recentes nas laterais, estava sobre um jornal dobrado atrás da porta.

— Vou vomitar se a gente não sair daqui — disse Virgil, com o rosto esverdeado.

Franklin, também enjoado, recuou e fechou a porta.

Lançaram um olhar ao depósito de lixo, deserto e estéril como as montanhas da lua.

— Ele não está por aqui — Franklin disse. — Deve estar escondido no mato.

— Frank?

— O quê? — retrucou Franklin, irritado.

— A porta estava trancada por dentro. Se ele não está lá, como foi que saiu?

Alarmado, Franklin se virou e olhou para a cabana. Pela janela, ele ia dizer, mas desistiu. A janela não passava de um quadrado recortado na lona e fechado com plástico impermeável. Não era grande bastante para que Dud passasse por ela, ainda mais com a corcunda.

— Deixe para lá — disse Franklin, mal-humorado. — Se ele não quer dividir com a gente, dane-se. Vamos embora.

Enquanto voltavam para a picape, Franklin sentiu algo atravessar a membrana protetora da embriaguez — algo de que não lembraria mais tarde, nem desejaria lembrar: uma sensação arrepiante, de que algo lá estava terrivelmente errado. Era como se o depósito tivesse um coração, que pulsava com lenta e terrível vitalidade. De repente, ele desejou sumir dali o quanto antes.

— Onde estão os ratos? — disse Virgil de repente.

Não havia nenhum à vista. Apenas gaivotas. Franklin tentou se lembrar se alguma vez levara o lixo para o depósito e não vira ratos. Não se lembrou de nenhuma. Era muito esquisito.

— Ele deve ter espalhado veneno, não é, Frank?

— Vamos logo — disse Frank. — Vamos embora desta droga de lugar.

7

Depois do jantar, o médico deixou Ben subir e visitar Matt Burke. Foi uma visita curta, pois Matt dormia. Mas o balão de oxigênio fora removido, e a enfermeira-chefe disse a Ben que provavelmente Matt despertaria na manhã seguinte e poderia receber visitas breves.

Ben achou o rosto dele cansado e cruelmente envelhecido, pela primeira vez o rosto de um velho. Imóvel, com a pele flácida do pescoço acima do avental hospitalar, ele parecia vulnerável e indefeso. Se for tudo verdade, pensou Ben, os médicos não estão fazendo nada para ajudá-lo. Se for tudo verdade, estamos na cidadela da descrença, onde os pesadelos são eliminados com bisturis e quimioterapia, ao invés de estacas, bíblias e cabeças de alho. Eles confiam em seus aparelhos, injeções e clisteres cheios de solução de bário. Se a muralha da razão tiver um furo, eles não sabem nem querem saber.

Ele se aproximou da cama e virou a cabeça de Matt delicadamente. Não havia marcas no pescoço. A pele estava intacta.

Ele hesitou, depois foi até o armário e o abriu. Lá estavam as roupas de Matt e, pendurado num gancho, o crucifixo que ele usava quando Susan o visitou. Sua corrente filigranada brilhava suavemente à luz branda do quarto.

Ben o pegou e o pendurou no pescoço de Matt.

— Ei, o que você está fazendo?

Uma enfermeira entrara com um jarro d’água e uma comadre decorosamente coberta com uma toalha.

— Estou colocando o crucifixo no pescoço dele.

— Ele é católico?

— Agora, é — respondeu Ben em tom sombrio.

8

Já era noite quando alguém bateu de mansinho na porta de trás da casa dos Sawyer, na via Deep Cut. Bonnie Sawyer, com um sorrisinho nos lábios, foi atender. Usava um avental curto amarrado na cintura, salto alto e mais nada.

Quando ela abriu a porta, Corey Bryant arregalou os olhos e deixou cair o queixo.

— Mas... — disse ele. — Mas... Bonnie...

— Qual é o problema, Corey? — Ela apoiou a mão na maçaneta, empinando os seios nus. Ao mesmo tempo, cruzou os pés, modelando as pernas para ele.

— Cruzes, Bonnie, e se fosse...

— O homem da companhia telefônica? — disse ela, com um risinho. Pegou a mão dele e a levou ao seio direito. — Quer ler meu medidor?

Com um gemido de exasperação, ele a puxou contra si e agarrou suas nádegas nuas, amassando ruidosamente o avental engomado.

— Puxa — disse ela, roçando-se nele. — Você vai testar meu fone, Sr. técnico? Estou esperando um telefonema importante...

Ele a levantou do chão e chutou a porta atrás de si. Não precisou que ela lhe mostrasse o caminho do quarto.

— Você tem certeza de que ele não vai chegar?

Os olhos dela brilharam na escuridão.

— De quem está falando, Sr. técnico? Do meu maridinho? Ele está em Burlington, Vermont.

Ele a deitou de viés na cama, com as pernas para fora.

— Acenda a luz — disse ela, com a voz lenta e arrastada. — Quero ver o que vai fazer.

Ele acendeu o abajur e olhou para Bonnie. O avental fora puxado para o lado. Seus olhos estavam lânguidos e quentes, as pupilas grandes e brilhantes.

— Tire esta coisa — disse ele, apontando para o avental.

— Tire você — disse ela. — Sei que entende de nós e fios, Sr. técnico.

Ele se inclinou para obedecer à ordem. Ela sempre fazia com que ele se sentisse como um garoto sedento bebendo da fonte pela primeira vez, e suas mãos sempre tremiam na presença dela, como se aquele corpo transmitisse uma corrente elétrica para a atmosfera ao redor. Ela nunca deixava sua mente por completo. Estava alojada lá dentro como uma ferida na boca, que a língua não consegue deixar de visitar e testar. Ela até passeava por seus sonhos com sua pele dourada, perversamente sedutora. Tinha uma imaginação infinita.

— Não, de joelhos — disse ela. — Ajoelhe-se para mim.

Corey se ajoelhou desajeitadamente e rastejou até Bonnie, estendendo a mão para o laço do avental. Ela colocou os pés, calçados com saltos altos, sobre os ombros do rapaz. Ele se inclinou e beijou a parte interna da coxa dela, sentindo a carne firme e morna.

— Isso mesmo, Corey. Continue subindo, continue....

— Mas que beleza...

Bonnie Sawyer gritou.

Corey Bryant olhou para cima, piscando em sua confusão.

Reggie Sawyer estava encostado na porta do quarto. Trazia uma espingarda casualmente apoiada no antebraço, os canos apontando para o chão.

Corey sentiu um jorro quente quando sua bexiga se soltou.

— Então, é verdade — admirou-se Reggie, sorrindo. Entrou no quarto. — Ora, vejam só. Preciso pagar uma caixa de Budweiser para aquele bebum do Mickey Sylvester. Caramba...

Bonnie recuperou a voz primeiro. — Ouça, Reggie. Não é o que você está pensando. Ele invadiu a casa, parecendo um louco, e ele...

— Cale a boca, vagabunda. — Ele ainda sorria. Era um sorriso cordial. Ele era enorme. Ainda usava o mesmo terno cinzento de quando ela lhe dera um beijo de adeus duas horas antes.

— Ouça — disse Corey debilmente, sentindo a boca cheia de saliva. — Por favor, não me mate. Eu sei que eu mereço, mas não vai querer acabar na cadeia por causa disso. Pode me bater, mas por favor, não...

— Levante-se, Perry Mason — disse Reggie Sawyer, ainda com seu sorriso cordial. — Seu zíper está aberto.

— Ouça, Sr. Sawyer...

— Ora, pode me chamar de Reggie. Somos amigos do peito. Tenho até ficado com seus restos, não é?

Reggie, não é o que você está pensando. Ele me estuprou...

Reggie olhou para Bonnie com seu sorriso cordial e bondoso.

— Se disser mais uma palavra, vou enfiar isto na sua bunda e lhe dar um presentinho especial.

Bonnie começou a gemer. Seu rosto ficara da cor de iogurte natural.

— Sr. Sawyer... Reggie...

— Seu sobrenome é Bryant, não? O nome de seu pai é Pete Bryant, não é?

Corey assentiu com gestos frenéticos.

— Isso mesmo, isso mesmo. Ouça...

— Eu lhe vendia querosene número dois quando era motorista de Jim Webber — disse Reggie, com um sorriso de boas lembranças. — Isso foi quatro ou cinco anos antes de eu conhecer esta vagabunda. Seu pai sabe que está aqui?

— Não, ele ficaria arrasado. Pode me bater, senhor, eu mereço, mas se me matar, meu pai vai morrer de desgosto, e o senhor será responsável por duas...

— É, aposto que ele não sabe. Vamos até a sala um pouco. Precisamos discutir isso. Venha. — Ele sorriu gentilmente para Corey, mostrando que não lhe faria mal, e depois se voltou para Bonnie, que o olhava com olhos arregalados. — Não saia daqui, mulher, ou nunca saberá como acaba a novela. Venha, Bryant. — Ele fez um gesto com a espingarda em direção à porta.

Corey andou até a sala adiante de Reggie, arrastando os pés. Suas pernas haviam virado borracha. Um ponto entre suas espáduas coçava loucamente. É aí que ele vai apontar, pensou ele. Será que vou viver bastante para ver minhas tripas na parede?...

— Vire-se — mandou Reggie.

Corey se virou. Começou a chorar. Não queria, mas não conseguia evitar. E tanto fazia se chorasse ou não. Já molhara as calças mesmo.

A espingarda já não estava apoiada casualmente sobre o braço de Reggie. Os canos duplos apontavam diretamente para o rosto de Corey. Seus círculos negros pareciam se alargar como poços sem Rindo.

— Você sabe o que andou fazendo? — perguntou Reggie. — O sorriso desaparecera. Sua expressão era muito grave.

Corey não respondeu. Era uma pergunta estúpida. Mas continuou tremendo e chorando.

— Você dormiu com a mulher de outro, Corey. É esse o seu nome?

Corey fez que sim, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Sabe o que acontece com gente que faz isso quando é pega em flagrante?

Corey fez que sim.

— Segure o cano da espingarda, Corey. Bem de leve. Coloquei três cartuchos nela. Finja... finja que está segurando os peitos da minha mulher.

Corey estendeu a mão trêmula e a colocou sobre o cano da espingarda. Sentiu o metal frio contra sua pele quente. Um gemido longo e doloroso saiu de sua garganta. Não havia mais o que dizer. Nem súplicas a fazer.

— Ponha na sua boca, Corey. Os dois canos. Isso... calma. Pronto, está vendo? Cabe na sua boca. E você entende bem disso, não é?

Corey não podia abrir mais os maxilares. Os canos da espingarda chegavam quase ao seu palato, e seu estômago se contraía em ânsias de terror. Sentia o aço oleoso contra os dentes.

— Feche os olhos, Corey.

Corey continuou a olhar para ele, com olhos imensos e líquidos como poças.

O sorriso bondoso voltou aos lábios de Reggie.

— Feche esses olhinhos azuis, Corey.

Corey os fechou.

Seu esfíncter cedeu — ele só se apercebeu vagamente do fato.

Reggie puxou os dois gatilhos. Os cães da arma fizeram um duplo clique nas câmaras vazias.

Corey caiu no chão desmaiado.

Reggie olhou para ele por um momento, sorrindo bondosamente, e depois virou a espingarda para baixo. Dirigiu-se ao quarto.

— Aqui vou eu, Bonnie, queira ou não.

Bonnie Sawyer começou a gritar.

9

Corey Bryant cambaleava pela via Deep Cut, onde estacionara o caminhão da companhia telefônica. Cheirava mal. Seus olhos estavam injetados e vítreos. Um grande galo crescera em sua cabeça depois que caíra no chão desmaiado. Arrastava as botas lentamente pelo acostamento. Tentava se concentrar apenas no som que elas faziam e em mais nada, para não pensar na súbita e total ruína de sua vida. Eram 20hl5.

Reggie Sawyer ainda sorria gentilmente quando empurrou Corey para fora da casa. Os soluços uniformes e dilacerantes de Bonnie vinham do quarto, pontuando as palavras dele: “Agora seja um bom menino e vá embora. Pegue seu caminhão e volte para a cidade. Um ônibus chega de Lewiston e sai para Boston às 21h45. De lá você pode pegar um ônibus para qualquer lugar do país. O ônibus sai da Spencer’s. É melhor pegá-lo, porque, se eu botar os olhos outra vez em você, eu te mato. Ela vai ficar boa. Vai ter que usar calças e blusas de mangas compridas durante umas semanas, mas não deixei marcas no rosto. Saia logo de ’salem’s Lot, antes de se limpar e começar a achar que é um homem de novo.”

E lá estava ele, andando naquela rua, prestes a fazer o que Reggie Sawyer lhe dissera. Podia ir de Boston... para qualquer lugar. Tinha pouco mais de mil dólares no banco. Sua mãe sempre dizia que ele era muito econômico. Podia sobreviver com o dinheiro até arranjar um emprego e começar a longa tarefa de esquecer aquela noite — o gosto do cano da espingarda, o cheiro da própria merda amontoada nas calças.

— Olá, Sr Bryant.

Corey sufocou um grito e olhou para a escuridão, sem ver nada de início. O vento sacudia as árvores, projetando sombras dançantes sobre o asfalto. De repente ele distinguiu uma sombra mais sólida, ao lado do muro de pedra entre a estrada e o pasto de Carl Smith. A sombra parecia ser de um homem, mas havia algo... algo...

— Quem é você?

— Um amigo muito observador, Sr. Bryant.

O vulto se mexeu e se destacou das sombras. À luz pálida, Corey viu um homem de meia-idade, com bigode preto e olhos fundos e brilhantes.

— Você foi maltratado, Sr. Bryant.

— Como sabe da minha vida?

— Eu sei muito. É minha obrigação saber. Cigarro?

— Obrigado. — Corey aceitou o cigarro com gratidão e o meteu entre os lábios. O estranho acendeu um fósforo, e, ao brilho da chama, Corey viu que ele tinha maçãs do rosto altas e eslavas, testa branca e ossuda, cabelos pretos penteados para trás. A chama se apagou e Corey tragou a fumaça áspera. Era um cigarro gringo, mas qualquer cigarro estava bom. Começou a se sentir um pouco mais calmo.

— Quem é você? — perguntou de novo.

O estranho deu uma risada surpreendentemente larga e robusta, que foi levada pela brisa como a fumaça do cigarro de Corey.

— Nomes! — exclamou ele. — Como os americanos são obcecados por nomes! Sou Bill Smith, compre meu carro! Coma tal produto! Veja tal programa de televisão! Meu nome é Barlow, se isso o tranqüiliza. — E ele soltou outra gargalhada, os olhos cintilando. Corey sentiu um sorriso repuxar seus lábios, e mal pôde acreditar. Seus problemas pareciam distantes e triviais em comparação ao humor sarcástico daqueles olhos escuros.

— Você é estrangeiro, não é? — perguntou Corey.

— Sou de muitos lugares, mas para mim este país... esta cidade... parece cheia de estrangeiros. Entendeu? Hein? — Ele deu outra gargalhada exuberante, e dessa vez Corey não se conteve e o acompanhou. O riso escapava de sua garganta quase com histeria.

— Sim, estrangeiros — continuou o outro. — Mas belos, sedutores, sangüíneos, explodindo de vitalidade. Você sabia como são belas as pessoas de seu país e de sua cidade, Sr. Bryant?

Corey apenas riu, um pouco constrangido. Mas não tirou os olhos do rosto do estranho. Ele o extasiava.

— O povo deste país não sabe o que é passar fome e necessidade. Há duas gerações que não conhecem nada parecido, e, mesmo quando conheceram, era apenas um eco distante. Acham que sabem o que é tristeza, mas é a tristeza de uma criança que derrubou o sorvete na grama. Mas elas não têm nenhuma... como é a palavra em sua língua... contenção. Derramam o sangue umas das outras com grande vigor. Você não concorda? Não vê?

— Vejo — disse Corey. E, de fato, dentro dos olhos do estranho ele via muitas coisas, todas maravilhosas.

— Este país é um fascinante paradoxo. Em outras terras, quando um homem come até se fartar dia após dia, esse homem fica sonolento, preguiçoso. Mas, aqui, parece que quanto mais vocês têm, mais agressivos ficam. Como o Sr. Sawyer. Tem tanto e se recusa a dar algumas migalhas de sua mesa. Como uma criança numa festa, que empurra outra, mesmo não conseguindo comer mais. Não é mesmo?

— É — disse Corey. Os olhos de Barlow eram tão grandes, tão compreensivos. Era tudo uma questão de...

— É tudo uma questão de perspectiva, não é?

— Isso! — exclamou Corey. O homem encontrara a palavra exata, perfeita. O cigarro caiu de sua mão sem que ele notasse.

— Eu poderia ter ignorado uma cidade rústica como esta — continuou o estranho, pensativo. — Poderia ter escolhido uma das grandes e fervilhantes cidades de seu país. Bah! — Ele se endireitou subitamente, e seus olhos faiscaram. — O que sei sobre cidades? Seria atropelado por uma carruagem ao atravessar a rua! Sufocaria com o ar fétido! Entraria em contato com diletantes sofisticados, com intenções... como vocês dizem?... hostis em relação a mim. Como um pobre rústico como eu poderia enfrentar o refinamento vazio de uma grande cidade... mesmo sendo americana? Não e não! Eu cuspo nas grandes cidades deste país!

— Isso mesmo... — murmurou Corey.

— Então vim para cá, para uma cidade que foi mencionada para mim por um homem brilhante, um antigo morador, que lamentavelmente faleceu. As pessoas daqui ainda são saudáveis e vitais, ainda cheias da agressão e da cegueira tão necessárias para... não existe palavra em sua língua para isso. Pokol; vurderlak; eyalik. Está entendendo?

— Estou — murmurou Corey.

— As pessoas não se separaram da vitalidade que flui da mãe-terra com uma carapaça de concreto e cimento. Têm as mãos mergulhadas nas águas da vida. Extraíram a vida da terra, íntegra e pulsante! Não é verdade?

— É, sim!

O estranho deu uma gargalhada bondosa e apoiou a mão no ombro de Corey.

— Você é um bom rapaz. Bom e forte. Não deve querer deixar esta cidade tão perfeita, não é?

— Não... — murmurou Corey, mas ficou em dúvida. O medo retomava. Mas não tinha importân­cia. Aquele homem não deixaria que nada de mau lhe acontecesse.

— E não sairá. Nunca mais.

Corey tremia, preso ao chão, quando Barlow inclinou a cabeça em direção a ele.

— E há de se vingar daqueles que se fartam deixando outros à míngua.

Corey Bryant mergulhou num grande rio de esquecimento, e esse rio era o tempo, e suas águas eram vermelhas.

10

Eram nove da noite. O filme de sábado passava na televisão do hospital quando o telefone ao lado da cama de Ben tocou. Era Susan, com a voz descontrolada.

— Ben, Floyd Tibbits morreu ontem à noite, na cela. O Dr. Cody disse que foi anemia aguda. Mas eu conhecia Floyd! Ele tinha pressão alta. Por isso o exército não o aceitou.

— Calma — disse Ben, soerguendo-se na cama.

— E tem mais. Um bebê de dez meses morreu. A família dele morava na Curva. A mãe, a Sra. McDougall, foi levada amarrada.

— Sabe como o bebê morreu?

— Minha mãe disse que a Sra. Evans ouviu Sandra McDougall gritando, foi até lá e chamou o velho Dr. Plowman. O médico não disse nada, mas a Sra. Evans contou para minha mãe que não tinha nada de errado com o bebê... só que estava morto.

— E os dois malucos da cidade, Matt e eu, estamos fora de ação — disse Ben, quase consigo mesmo. — Parece que foi planejado.

— E tem mais.

— O quê?


— Carl Foreman está desaparecido. Assim como o corpo de Mike Ryerson.

— Então é isso mesmo — ele se ouviu dizendo. — Tem de ser isso. Saio daqui amanhã.

— Eles já vão deixar você sair?

— Ninguém vai poder dizer nada — disse ele, distraidamente. Sua cabeça já estava em outro lugar. — Você tem um crucifixo?

— Eu? — perguntou ela, achando graça. — Não. Que pergunta...

— Não estou brincando, Susan. Nunca falei tão sério. Tem algum lugar onde possa conseguir um a essa hora?

— Bom, Marie Boddin deve ter um. Posso ir...

— Não, não saia. Fique dentro de casa. Faça um você mesma, nem que tenha de colar dois pedaços de pau. Deixe ao lado da cama.

— Ben, ainda não acredito nisso. Pode ser algum louco, que acha que é um vampiro, mas...

— Acredite no que quiser, mas faça a cruz.

— Mas...

— Você vai fazer? Mesmo que seja só para me agradar?

Ela hesitou um pouco.

— Vou, Ben.

— Pode vir ao hospital amanhã lá pelas nove?

— Claro.


— Ótimo, assim colocaremos Matt a par da situação juntos. Depois vamos conversar com o Dr. James Cody.

— Ele vai achar que você é louco, Ben. Você sabe disso, não é?

— Acho que sei. Mas tudo fica mais real à noite, não é?

— É — disse ela, baixinho. — E como...

Por algum motivo ele pensou em Miranda, em como ela morrera: a moto entrando no trecho molhado, derrapando, o grito dela, o pânico brutal que ele sentiu, o caminhão se precipitando velozmente em direção a eles.

— Susan?


— Sim.

— Cuide-se bem. Por favor.

Em seguida, ele colocou o telefone no gancho e olhou para a tevê, sem ver a comédia com Doris Day e Rock Hudson que começara a passar. Sentia-se nu, vulnerável. Não tinha nenhuma cruz. Voltou os olhos para a janela, que mostrava apenas a escuridão da noite. O medo das trevas, antigo e infantil, começou a dominá-lo, e ele olhou para a televisão, onde Doris Day dava um banho de espuma num cachorro felpudo.

11

O necrotério de Portland era um lugar frio e antisséptico, totalmente reves­tido de azulejos verdes. O piso e as paredes eram de um verde-escuro, e o teto era de um tom mais claro. Portas quadradas que pareciam grandes armários de rodoviária se estendiam pelas paredes. Lâmpadas tubulares de néon lançavam uma luz clara e neutra sobre o ambiente. Não era uma decoração muito vibrante, mas a clientela nunca reclamara.

Às 21h45 daquela noite de sábado, dois funcionários empurravam numa maca o corpo de um jovem homossexual que fora baleado num bar no centro da cidade. Era o primeiro corpo que recebiam naquela noite. Os acidentes fatais na rodovia geralmente aconteciam entre uma e três da manhã.

Buddy Bascomb interrompeu uma piada sobre um francês e olhou, boquiaberto, para a fileira de armários que iam de M a Z. Dois deles estavam abertos.

Ele e Bob Greenberg deixaram o recém-chegado e correram até os armários. Buddy conferiu a etiqueta na primeira porta, enquanto Bob se aproximava da outra.

Tibbets, Floyd Martin

Sexo: M

Entrada: 4/10/75



Data da autópsia: 5/10/75

Declarante: J. M. Cody, médico.

Ele puxou a alça interior, e a laje correu sobre roldanas silenciosas.

Vazia.


— Ei! — gritou Greenberg. — Esta merda está vazia! Quem teve a idéia infeliz de...

— Fiquei na recepção o tempo todo — disse Buddy. — Ninguém passou por mim. Tenho certeza. Deve ter acontecido no turno de Carty. Qual o nome desse aí?

— McDougall, Randal Fratus. O que significa “b”?

— Bebê — disse Buddy, lentamente. — Minha nossa, acho que estamos numa fria.

12

Algo o acordara.

Ele continuou deitado no escuro, olhando para o teto.

Um barulho. Mas a casa estava silenciosa.

Mais uma vez. Alguém arranhava a janela.

Mark Petrie virou-se na cama, olhou pela janela e viu Danny Glick, olhando-o fixamente do outro lado do vidro, pálido como a morte, os olhos vermelhos e brutais. Uma substância escura manchava seus lábios e queixo, e, quando viu que Mark o olhava, ele sorriu e mostrou dentes horrivelmente longos e afiados.

— Deixe-me entrar — a voz sussurrou, sem que Mark soubesse se as palavras haviam chegado até ele ou só existiam em sua mente.

Percebeu que estava apavorado — o corpo o avisara antes de sua mente. Nunca sentira tanto medo, nem quando não agüentava mais nadar voltando da bóia na praia Popham e achou que fosse se afogar. Sua mente, ainda de uma criança, fez uma avaliação precisa da situação em poucos segundos. Corria risco, e não só de vida.

— Deixe-me entrar, Mark. Quero brincar com você.

A medonha entidade não tinha nada em que se apoiar. A janela do quarto ficava no segundo andar e não tinha nenhuma saliência. Mas estava suspensa no espaço... ou se agarrava às telhas como um inseto nefasto.

— Mark... eu finalmente cheguei. Por favor, deixe-me entrar.



É claro. Eles só entram se forem convidados. Lera nas revistas de monstros, as mesmas que sua mãe achava que lhe fariam mal.

Levantou da cama e quase caiu. Percebeu que “medo” era uma palavra muito branda. Nem “terror” era capaz de expressar o que sentia. O rosto pálido do outro lado da janela tentou sorrir, mas já não se lembrava como, depois de tanto tempo na escuridão. Mark viu apenas um esgar trêmulo, uma máscara trágica e sangrenta.

No entanto, quando olhava para os olhos dele, não era tão ruim. Não sentia mais tanto medo, e via que tinha apenas de abrir a janela e dizer: “Entre, Danny.” E depois não sentiria mais nenhum medo, porque estaria próximo de Danny e de todos eles, e dele. Estaria...



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