A hora do Vampiro



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A HORA DO VAMPIRO



OBJETIVA



Tradução de Thelma Médici Nóbrega



OBJETIVA

© 1975 by Stephen King

Tradução publicada mediante acordo com The Doubleday Brodway Publishing Group,

divisão da Random House, Inc.

Título original

’Salem’s Lot

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA OBJETIVA LTDA,

rua Cosme Velho, 103

Rio de Janeiro - RJ - CEP 22241-090

Tel.: (21) 2556-7824 - Fax: (21) 2556-3322

www.objetiva.com.br

Agradecemos especialmente aos abaixo relacionados pela permissão para incluir material protegido por Copyright neste livro:
Primeira estrofe de “The Return of the Exile” e um haicai do livro Poems, de George Seferis. Tradução para o inglês © Rex Warner 1960. Publicado pela Little, Brown and Company associada a Atlantic Monthly Press e Bodley Head, Ltd.
“The Emperor of Ice Cream”, Copyright 1923 e renovado em 1951 por Wallace Stevens. Reimpresso de The Collected Poems of Wallace Stevens, mediante permissão de Alfred A. Knopf, Inc., e Faber & Faber, Ltd.
Trecho de The Haunting of Hill House, de Shirley Jackson. Copyright © 1959 by Shirley Jackson. Reimpresso mediante permissão da Viking Press, Inc., e Brandt and Brandt.
Um verso da letra “North Country Blues”, de Bob Dylan. Copyright © 1963 by M. Whitmark & Sons. Todos os direitos reservados. Utilizada mediante permissão da Warner Bros. Music.
Capa

Pós-Imagem Design


Revisão

Elaine Bayma

Rita Godoy
Editoração Eletrônica

Abreu’s System Ltda.

K52p

King, Stephen



A hora do vampiro / Stephen King, tradução de Thelma Médici Nóbrega. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2004
270p. ISBN 85-7302-634-0

Tradução de: ’Salem’s Lot


1. Literatura americana - Romance. I. Título

CDD 813



Para Naomi Rachel King

...promessas mantidas”.

Sumário

Prólogo

PARTE I: A Casa Marsten

PARTE II: O Rei do Sorvete

PARTE III: A Cidade Deserta


Epílogo

Nota do Autor

Ninguém escreve um romance longo sozinho, e eu gostaria de roubar um instante do seu tempo para agradecer a algumas pessoas que me ajudaram neste: G. Everett McCutcheon, da Hampden Academy, por suas sugestões práticas e encorajamento; Dr. John Pearson, de Old Town, Maine, médico do distrito de Penobscot e membro emérito da mais ilustre especialidade médica, a clínica geral; padre Renald Hallee, da Igreja Católica de St. John, em Bangor, Maine. E, é claro, a minha mulher, cuja crítica foi tão dura e resoluta como sempre.

Embora as cidades nas cercanias de ’salem’s Lot sejam muito reais, a própria ’salem’s Lot existe tão-somente na imaginação do autor, e quaisquer semelhanças entre as pessoas que lá vivem e pessoas que vivem no mundo real é mera coincidência e não é proposital.

S.K.

Prólogo


Velho amigo, o que procuras?

Após tantos anos fora, voltas

Com imagens que cultivaste

Sob céus estrangeiros

Distante de tua própria terra.

GEORGE SEFERIS


1

Quase todos achavam que o homem e o menino fossem pai e filho.

Eles haviam cruzado o país seguindo um errante trajeto em direção ao sudoeste num velho sedan Citroën, mantendo-se quase todo o tempo em estradas secundárias, interrompendo e seguindo viagem. Pararam em três lugares pelo caminho antes de chegarem ao destino final: primeiro em Rhode Island, onde o homem alto de cabelo preto arranjara emprego numa fábrica de tecidos. Depois em Youngstown, Ohio, onde ele trabalhara durante três meses numa linha de montagem de tratores. E, finalmente, numa cidadezinha da Califórnia próxima à fronteira mexicana, onde trabalhou como frentista e mecânico de carros estrangeiros com um grau de sucesso que, para ele, era surpreendente e gratificante.

Onde quer que parassem, ele comprava um jornal do Maine chamado Press-Herald de Portland e o lia em busca de notícias concernentes a uma cidadezinha no sul do estado chamada Jerusalem’s Lot e a área ao redor. Tais notícias apareciam de tempos em tempos.

Ele escrevera o esboço de um romance em hotéis de beira de estrada antes de chegarem a Central Falls, Rhode Island, onde o enviou a seu agente. Ele fora um romancista de sucesso moderado um milhão de anos antes, quando a escuridão ainda não se apossara de sua vida. O agente levou o esboço para seu último editor, que expressou um interesse polido, mas nenhuma disposição de ceder adiantamentos monetários.

“Por favor” e “obrigado”, ele disse ao menino enquanto rasgava a carta do agente, ainda eram de graça. Disse-o sem muita amargura, e deu continuidade ao livro mesmo assim.

O menino não falava muito. Seu rosto guardava uma perpétua expressão aflita, e seus olhos eram escuros — como se estivessem sempre a sondar um lúgubre horizonte interior. Nas lanchonetes e postos de gasolina em que paravam pelo caminho, ele era educado e nada mais. Parecia não querer perder o homem de vista, e aparentava nervosismo até mesmo quando ele o deixava para ir ao banheiro. Recusava-se a falar sobre a cidade de Jerusalem’s Lot, embora o homem tentasse abordar o assunto de tempos em tempos, e não olhava para os jornais de Portland que o homem às vezes deixava deliberadamente a seu alcance.

Quando o livro foi escrito, eles moravam numa casinha de praia perto da estrada, e ambos nadavam bastante no oceano Pacífico. Era mais quente que o Atlântico e mais amistoso. Não despertava lembranças. O menino começou a ficar muito moreno.

Embora vivessem bem, fizessem três boas refeições por dia e tivessem um teto seguro, o homem começara a se sentir deprimido e a duvidar da vida que levavam. Ele dava aulas ao menino, e parecia que não ficava atrás da educação formal (o menino era esperto e amigo dos livros, como o homem alto também fora), mas não achava que obliterar ’salem’s Lot estivesse fazendo bem ao menino. Algumas noites, ele gritava durante o sono e atirava os cobertores no chão.

Uma carta chegou de Nova York. O agente do homem alto disse que a editora Random House oferecia um adiantamento de 12 mil dólares e que era quase certo que um clube do livro o aceitaria. Estava bem assim?

Estava.


O homem deixou o emprego no posto de gasolina, e ele e o menino cruzaram a fronteira.
2

Los Zapatos, que significa “os sapatos” (um nome que agradou imensamente ao homem) era um pequeno vilarejo próximo ao mar, desprezado pelos turistas. Não havia estradas boas, nem vista para o oceano (para isso, era preciso viajar oito quilômetros para o oeste), nem atrações históricas. Além disso, a cantina local era infestada de baratas e a única puta era uma avó de cinqüenta anos.

Ao deixarem os Estados Unidos para trás, uma calma quase sobrenatural tomou conta da vida deles. Poucos aviões passavam no céu, não havia rodovias expressas e ninguém tinha um cortador de grama elétrico (nem queria ter) em centenas de quilômetros. Eles tinham um rádio, mas até aquele barulho era desprovido de sentido. Os noticiários eram todos em espanhol, que o menino começava a entender, mas que permanecia — e sempre permaneceria — uma algaravia para o homem. A música parecia se limitar à ópera. Algumas noites, conseguiam pegar uma estação de música pop de Monterey, animada pelo frenético DJ Wolfman Jack, mas entrava e saía de sintonia. O único motor ao alcance do ouvido era um antigo e pitoresco Rototiller de um fazendeiro da região. Dependendo do vento, seu barulho irregular e soluçante se tomava fracamente audível, como um espírito inquieto. Eles puxavam água do poço manualmente.

Uma ou duas vezes por mês (nem sempre juntos) eles assistiam à missa na igrejinha da cidade. Nenhum dos dois entendia a cerimônia, mas iam assim mesmo. O homem às vezes cochilava no calor sufocante, ao som dos ritmos constantes e familiares e das vozes que lhes davam expressão. Um domingo o menino foi até a frágil varanda dos fundos, onde o homem escrevia um novo romance, e lhe disse que conversara com o padre sobre entrar para a igreja. O homem assentiu e perguntou se seu espanhol lhe permitia receber lições. O menino disse que achava que não haveria problema.

O homem viajava 65 quilômetros semanalmente para comprar o jornal de Portland, Maine, sempre datado de uma semana e às vezes amarelado pela urina de algum cachorro. Duas semanas depois que o menino lhe contara suas intenções, ele encontrou uma reportagem sobre ’salem’s Lot e uma cidade de Vermont chamada Momson. O nome do homem alto era mencionado ao longo da matéria.

Ele deixou o jornal à vista sem muita esperança de que o menino o lesse. O artigo o deixou perturbado por vários motivos. Ao que parecia, nada ainda acabara em ’salem’s Lot.

O menino o procurou um dia depois com o jornal aberto na mão, expondo a manchete: “Cidade-Fantasma no Maine?”

— Estou com medo — disse ele.

— Eu também — o homem alto respondeu.

3

Cidade-fantasma no Maine?



John Lewis

Editor de Reportagem do Press-Herald



Jerusalem’s Lote — Jerusalem’s Lot é uma cidadezinha ao leste de Cumberland e a 30 quilômetros ao norte de Portland. Não é a primeira cidade da história americana a sumir do mapa, e provavelmente não será a última, mas é uma das mais estranhas. Cidades-fantasma são comuns no sudoeste americano, onde comunidades nasceram quase da noite para o dia em torno de ricos filões de ouro e prata e depois desapareceram quase tão rapidamente quando os veios minerais se esgotaram, deixando lojas, hotéis e tabernas vazios, apodrecendo em silêncio.

Na Nova Inglaterra, o único outro caso além do misterioso esvaziamento de Jerusalem’s Lot, ou ’salem’s Lot, como preferem os moradores, parece ser o de uma cidadezinha em Vermont chamada Morrison. Durante o verão de 1923, Morrison aparentemente sumiu do mapa, assim como os seus 312 residentes. As casas e poucos prédios comerciais no centro da cidade continuam de pé, mas desde aquele verão há 52 anos, estão desertos. Em alguns casos os móveis foram levados, mas quase todas as casas permaneceram mobilia­das, como se no meio do dia um vento poderoso tivesse arrastado as pessoas. Numa casa, a mesa fora posta para o jantar, no centro um arranjo de flores murchas. Noutra, as cobertas haviam sido afastadas caprichosa­mente no quarto por alguém que se preparava para dormir. No armazém da cidade, um rolo de tecido de algodão fora encontrado sobre o balcão, e o preço, um dólar e 22 centavos, fora marcado na caixa registradora. Os investigadores acharam quase 50 dólares em caixa, intocados.

As pessoas da região gostam de divertir os turistas com a história, insinuando que a cidade é assombrada, o que explica o fato de nunca mais ter sido habitada. Um motivo mais plausível é que Momson fica numa região remota do Estado, longe de qualquer estrada importante. Nada existe lá que não possa ser reproduzido em centenas de outras cidades — exceto, é claro, o mistério do extraordi­nário sumiço de sua população.

Um caso muito semelhante é o de Jerusalem’s Lot.

No censo de 1970, ’salem’s Lot tinha 1.319 habitantes — exatamente 67 a mais do que no censo anterior, de dez anos antes. Era uma cidadezinha próspera e confortável, chamada carinhosamente de Lot pelos antigos moradores, onde jamais acontecia nada digno de nota. O único assunto que as pessoas de idade, que se reuniam no parque e ao redor do aquecedor do Mercado Agrícola de Crossen, tinham para discutir era o incêndio de 1951, quando o descuido de alguém ao jogar um fósforo aceso provocara um dos maiores incêndios florestais na história do estado.

Para quem queria saborear a aposentadoria numa cidadezinha rural, onde cada um cuidava de sua vida e o maior evento da semana podia ser o Chá da Associação de Senhoras, a cidade de Lot era uma boa escolha. Demograficamente, o censo de 1970 mostrou um quadro que tanto os sociólogos rurais quanto os antigos residentes de qualquer cidadezinha de Maine conheciam muito bem — muitas pessoas de idade, bastante gente pobre e muitos jovens que deixam a região com o diploma debaixo do braço, para nunca mais voltar.

Mas, há pouco mais de um ano, algo fora do comum começou a acontecer em Jerusalem’s Lot. As pessoas começaram a sumir. A maior parte delas, naturalmente, não desapareceu no sentido literal da palavra. O ex-chefe de polícia de Lot, Parkins Gillespie, mora com a irmã em Kittery. Charles James, dono do posto de gasolina em frente à farmácia, agora dirige uma oficina em Cumberland, uma cidade vizinha. Pauline Dickens mudou-se para Los Angeles e Rhoda Curless trabalha na Missão de São Mateus, em Portland. A lista dos falsos desaparecidos poderia se estender indefinidamente.

O que mais intriga nessas pessoas “encontradas” é a unânime recusa — ou incapacidade — de falar sobre Jerusalem’s Lot e o que aconteceu lá, se é que algo aconteceu. Parkins Gillespie simplesmen­te olhou para este repórter, acendeu um cigarro e disse: “Eu decidi ir embora, só isso.” Charles James afirma que foi obrigado a partir porque seu negócio se deteriorou com a cidade. Pauline Dickens, que trabalhara como garçonete no Excellent Café durante anos, não respondeu à carta enviada por este repórter. E a senhorita Curless se recusa a falar sobre ’salem’s Lot.

Alguns dos desaparecimentos podem ser explicados por suposições fundamentadas e um pouco de pesquisa. Lawrence Crockett, um corretor imobiliário, desapareceu com a mulher e a filha deixando vários empreendimentos comerciais e transações imobiliárias questionáveis, inclusive uma especulação com um terreno em Portland onde o shopping center de Portland está hoje em construção. O casal Royce McDougall, também entre os desaparecidos, perdera o filho pequeno no começo do ano, e não havia muito que os prendesse à cidade. Podem estar em qualquer lugar. Outros se encaixam na mesma categoria. “Mandamos investigadores atrás de muitos moradores de Jerusalem’s Lot”, disse Peter McFee, o chefe da polícia estadual. “Mas essa não é a única cidade do Maine onde as pessoas sumiram de uma hora para outra. Royce McDougall, por exemplo, devia para um banco e duas financeiras... na minha opinião, ele não passava de um caloteiro que quis se dar bem. Um dia desses, ele usará um dos cartões de crédito que tem na carteira e os credores vão cair em cima dele. Nos Estados Unidos, pessoas desaparecidas são a coisa mais comum do mundo. Vivemos numa sociedade comandada pelo automóvel. As pessoas fazem as trouxas e se mudam a cada dois ou três anos. Às vezes esquecem de deixar o endereço novo. Principalmente os pilantras.”

Mas, apesar do espírito prático do capitão McFee, perguntas continuam sem respostas em Jerusalem’s Lot. Henry Petrie desapareceu, assim como a mulher e o filho, e o Sr. Petrie, executivo de uma empresa de seguros consultiva, não tem exatamente o perfil de um caloteiro. O coveiro, o bibliotecário e a esteticista da cidade também estão no arquivo morto do correio. A lista é de uma extensão inquietante.

Nas cidades vizinhas, os boatos, que são a origem das lendas, já começaram. Comenta-se que ’salem’s Lot é mal-assombrada. Luzes coloridas já foram vistas sobre as linhas de transmissão de força que cruzam a cidade, e se alguém sugerir que os habitantes de Lot foram levados por OVNIs, ninguém achará graça. Já se comenta sobre uma “seita secreta” de jovens que praticavam a missa negra na cidade e teriam atraído a ira de Deus sobre essa homônima da cidade mais sagrada da Terra Santa. Outros, menos propensos ao sobrenatural, lembram-se dos jovens que “desapareceram” na região de Houston, Texas, há cerca de três anos, e foram descobertos em horrendas valas comuns.

Uma visita a ’salem’s Lot faz com que esses boatos pareçam menos fantasiosos. Não restou nenhum negócio aberto. O último a se render foi a Drogaria Spencer, que fechou as portas em janeiro. A Loja Agrícola Crossen, a casa de ferragens, a loja de móveis Barlow e Straker, o Excellent Café e até o Paço Municipal foram fechados. A nova escola primária está vazia, assim como o colégio que pertence ao distrito que reúne três municípios, construído em 1967. Os móveis e os livros da escola foram levados para instalações improvisadas em Cumberland à espera de um referendo nas outras cidades do distrito escolar, mas parece que nenhuma criança de ’salem’s Lot comparecerá quando o novo ano escolar começar. Não existem mais crianças — apenas lojas e estabelecimentos abandonados, casas desertas, gramados crescidos, ruas vazias e estradas secundárias.

Entre outros moradores que a polícia estadual gostaria de localizar ou pelo menos saber infor­mações a respeito estão John Groggins, pastor da Igreja Metodista de Jerusalem’s Lot; Donald Callahan, padre da paróquia de St. Andrew; Mabel Werts, uma viúva que participava ativamente de atividades sociais e religiosas; Lester e Harriet Durham, um casal que trabalhava na fábrica de tecidos Gates; Eva Miller, dona de uma pensão...

4

Dois meses depois que o artigo saiu no jornal, o menino foi aceito pela igreja. Confessou pela primeira vez. E confessou tudo.

5

O padre do vilarejo era um velho com cabelos brancos e rosto marcado por uma teia de rugas. Sob a testa curtida pelo sol, seus olhos examinavam o mundo com surpreendente vivacidade. Eram olhos azuis, irlandeses. Quando o homem alto chegou a sua casa, ele bebia chá na varanda. Um homem de terno formal estava de pé a seu lado. Seu cabelo, dividido ao meio com brilhantina, fazia lembrar retratos da década de 1890

O homem disse com rigidez:

— Sou Jesus de la rey Muñoz. O padre Gracon me pediu para ser seu intérprete, já que não sabe inglês. Ele prestou um grande serviço a minha família, que não posso mencionar. Da mesma forma, não revelarei nada do que ele deseja discutir com o senhor. Está de acordo?

— Estou. — Ele apertou a mão de Muñoz e depois a de Gracon. Este respondeu em espanhol e sorriu. Só lhe restavam cinco dentes, mas o sorriso era luminoso e alegre. Ele disse: — Aceita uma xícara de chá? É chá verde, muito refrescante.

— Com prazer.

Depois da troca de cortesias, o padre disse:

— O menino não é seu filho.

— Não.


— Ele fez uma estranha confissão. Para dizer a verdade, nunca ouvi uma confissão mais estranha em todos os meus anos de sacerdócio.

— Não estou surpreso.

— Ele chorou — disse o padre Gracon, sorvendo o chá. — Foi um pranto fundo e terrível. Veio das profundezas de sua alma. Devo fazer a pergunta que essa confissão despertou em meu coração?

— Não — disse o homem com voz inalterável. — Ele disse a verdade.

Gracon assentiu com a cabeça mesmo antes de Muñoz traduzir, e seu rosto assumiu uma expressão grave. Inclinou-se com as mãos unidas entre os joelhos e falou por muito tempo. Muñoz ouviu com atenção, o rosto cautelosamente inexpressivo. Quando o padre terminou, Muñoz disse:

— Ele disse que o mundo está cheio de coisas estranhas. Há quarenta anos, um lavrador de El Graniones lhe trouxe um lagarto que gritava como se fosse uma mulher. Viu um homem com os estigmas da paixão de Cristo, cujas mãos e pés sangraram na Sexta-feira Santa. Disse que esse é um caso terrível e sinistro. Grave para você e para o menino. Principalmente para o menino. Ele está sendo consumido. Diz que...

Gracon falou algo, brevemente.

— Perguntou se você compreende o que fez nessa Nova Jerusalém.

— Jerusalem’s Lot — disse o homem alto. — Sim, compreendo.

Gracon falou de novo.

— Ele perguntou o que pretende fazer a respeito.

O homem alto balançou a cabeça muito lentamente.

— Eu não sei.

Gracon falou de novo.

— Ele disse que rezará por vocês.

6

Uma semana depois, ele acordou de um pesadelo, suando, e chamou o menino.

— Vou voltar — disse ele.

O menino empalideceu, apesar da tez bronzeada.

— Você vem comigo? — o homem perguntou.

— Você me ama?

— Claro. Claro que sim...

O menino começou a chorar e o homem alto o abraçou.

7

Mesmo assim, o sono não lhe vinha. Rostos espreitavam na escuridão, indistin­tos, como numa tempestade de neve, e quando o vento empurrou um galho de uma árvore contra o telhado, ele deu um salto.

Jerusalem’s Lot.

Ele fechou os olhos, cobriu-os com o braço, e tudo começou a voltar. Quase podia ver o peso de papel feito de vidro, do tipo que cria uma pequena nevasca quando o balançamos.

’Salem’s Lot...

PARTE I

A CASA MARSTEN



Nenhum organismo vivo é capaz de manter a sanidade durante um longo tempo em condições de absoluta realidade; até mesmo cotovias e gafa­nhotos sonham, segundo alguns. A Casa da Coli­na, que perdera a sanidade, encostava-se sozinha aos montes, abrigando a escuridão; ficara assim oitenta anos, e podia ficar mais oitenta. Dentro dela, as paredes continuavam eretas, os tijolos encaixados, os chãos firmes, as portas sensata­mente fechadas. O silêncio repousava imper­turbável sobre a pedra e a madeira de Casa da Colina, e o que por lá andasse, andava só.

SHIRLEY JACKSON



A Assombração da Casa da Colina

Capítulo Um

BEN (I)

1

Quando passou por Portland, seguindo ao norte pela estrada, Ben Mears começou a sentir um agradável frio na barriga. Era 5 de setembro de 1975, e o verão fazia sua última e grande festa. As árvores explodiam de tanto verde, o céu era de um azul suave e inebriante, e logo depois da divisa municipal de Falmouth, ele viu dois meninos andando por uma rua paralela à via expressa, com varas de pescar sobre os ombros como carabinas.



Ele passou para a pista direita, baixou a velocidade ao mínimo permitido e começou a buscar alguma coisa que despertasse lembranças. Não viu nada a princípio, e tentou se precaver contra uma decepção quase certa. Você tinha só sete anos. Vinte e cinco anos já passaram debaixo da ponte. Os lugares mudam. Como as pessoas.

Naquele tempo, a rodovia 295, de quatro pistas, ainda não fora construída. Quem queria ir de Lot a Portland precisava pegar a Rota 12 até Falmouth e depois continuar pela estrada número 1. O tempo passara.



Pare com isso, merda.

Mas era difícil parar. Era difícil parar quando...

Uma grande moto BSA com guidões levantados passou zunindo por ele, um garoto de camiseta dirigindo, uma garota de jaqueta vermelha e imensos óculos de sol espelhados na garupa. Eles o ultrapassaram muito bruscamente, e ele se assustou, enfiando o pé no breque e tocando a buzina com as duas mãos. A BSA acelerou, soltando fumaça azul pelo escapamento, e a menina virou-se para lhe mostrar o dedo médio.

Ele retomou a velocidade anterior, desejando um cigarro. Suas mãos tremiam levemente. A BSA quase sumira de vista, avançando veloz. Adolescentes. Malditos adolescentes. Lembranças começaram a assediá-lo, de origem mais recente. Ele as repeliu. Não subia numa motocicleta há dois anos. E nunca mais subiria.

Uma mancha vermelha à esquerda passou de relance, e quando olhou para ver o que era, ele sentiu uma onda de prazer e reconhecimento. Um grande celeiro vermelho se erguia sobre um monte no fim de um campo ascendente, coberto de capim e trevos, um celeiro com cúpula pintada de branco — mesmo àquela distância, ele podia ver o sol brilhando sobre o cata-vento. Continuava no lugar de sempre. Parecia exatamente igual. Talvez tudo desse certo, afinal. E então as árvores o ocultaram.

Quando a estrada entrou em Cumberland, mais e mais coisas lhe pareceram familiares. Passou sobre o rio Royal, onde pescara trutas e lúcios quando menino. Teve uma visão breve e oscilante de Cumberland Village através das árvores. À distância, viu a torre de água de Cumberland, com seus grandes dizeres pintados na lateral: “Proteja o Verde do Maine”. Tia Cindy sempre dizia que alguém devia escrever “Traga dinheiro” debaixo da frase.

A emoção cresceu e começou a se acelerar enquanto ele procurava a placa. Ela surgiu oito quilômetros depois, seu verde fosforescente reluzindo na distância.
Rota 12 Jerusalem’s Lot

Cumberland Distrito de Cumberland


Uma súbita melancolia o assaltou, extinguindo seu bom humor como a areia extingue o fogo. Ele estava sujeito a esses acessos desde que (sua mente tentou dizer o nome de Miranda, mas ele não deixou) aquilo acontecera. Estava acostumado a combatê-los, mas aquele o dominou com uma força selvagem e inquietante.

O que pretendia, voltando a uma cidade onde vivera durante quatro anos de sua infância, em busca de algo irremediavelmente perdido? Que magia ele esperava resgatar refazendo caminhos que percorrera quando menino e que provavelmente haviam sido asfaltados, aplainados, desmatados e cobertos com latas de cerveja deixadas por turistas? A magia se fora, tanto a branca quanto a negra. Tudo fora para o espaço naquela noite quando a motocicleta perdera o controle, e o caminhão amarelo de mudança aproximou-se veloz, crescendo no campo de visão, e o grito de sua mulher, Miranda, foi interrompido de modo súbito e final quando...

A entrada apareceu à direita, e por um momento ele pensou em passar direto e continuar até Chamberlain ou Lewiston, parar para almoçar e depois fazer o caminho de volta. Mas de volta para onde? Para casa? Que piada. Se ele tinha algum lar, era aquele. Mesmo que tivesse existido durante apenas quatro anos, era seu.

Ele deu sinal, diminuiu a velocidade do Citroën e subiu a rampa. Quase no alto, quando a rampa se unia à Rota 12 (que passava a se chamar avenida Jointner perto da cidade), ele olhou em direção ao horizonte. O que viu o fez afundar o pé no breque com toda a força. O Citroën parou bruscamente.

As árvores, pinheiros e abetos em sua maioria, erguiam-se em curvas suaves em direção ao leste, parecendo quase se colar ao céu no limite da visão. De lá a cidade não era visível. Apenas as árvores, e na distância, onde elas roçavam o céu, o telhado triangular e pontiagudo da Casa Marsten.

Ele o contemplou, fascinado. Emoções contraditórias cruzaram seu rosto com rapidez caleidoscópica.

— Continua lá — murmurou ele. — Santo Deus.

Ele olhou para os braços — arrepios os percorriam de cima a baixo.

2

Deliberadamente, ele contornou a cidade, cruzando Cumberland e en­trando em ’salem’s Lot pelo lado oeste, através da estrada Burns. Ficou surpreso ao ver quão pouco o cenário havia mudado. Havia algumas casas novas de que não se lembrava, uma taverna chamada Dell’s logo depois do limite municipal e duas pedreiras recém-abertas. Boa parte das árvores havia sido derrubada, mas a velha placa de estanho que indicava o caminho para o depósito de lixo ainda estava lá. A estrada continuava sem pavimentação, cheia de buracos e desníveis, e ele conseguiu ver o monte do Pátio do Colégio através da fresta nas árvores onde os postes da Central Elétrica do Maine se estendiam do noroeste para o sudeste. A fazenda Griffin continuava lá, embora o celeiro tivesse sido aumentado. Ele se perguntou se eles ainda engarrafavam e vendiam o leite que produziam. O logotipo era uma vaca sorridente debaixo da marca “Leite Saudável da Fazenda Griffin!”. Ele sorriu. Quantas vezes não tomara aquele leite junto com cereais na casa da tia Cindy.

Ele virou à esquerda na estrada Brooks, passou pelos portões de ferro forjado e o baixo muro de pedra que cercava o Cemitério Harmony Hill, desceu a íngreme ladeira e começou a subir a colina adiante, conhecida como monte Marsten.

No alto, as árvores rareavam dos dois lados da estrada. À direita, era possível ver a cidade de cima — a primeira visão que Ben tinha dela. À esquerda, erguia-se a Casa Marsten. Ele parou o carro e saiu.

Estava exatamente igual. Nada havia mudado. Era como se ele a tivesse visto ainda no dia anterior.

O gramado do jardim crescia alto e selvagem, obscurecendo os velhos ladrilhos, deslocados pela ação do gelo, que levavam à varanda. Grilos cantavam na grama, e ele viu gafanhotos saltando em erráticas parábolas.

A casa em si dava para a cidade. Era imensa, vergada e angulosa. As janelas, fechadas com tábuas a esmo, davam-lhe o ar sinistro das casas antigas desabitadas há tempos. A pintura desbotara, criando uma aparência cinzenta e uniforme. Tempestades haviam arrancado várias telhas, e uma forte nevasca afundara o canto direito do telhado principal, dando-lhe um aspecto abatido, encurvado. Uma gasta placa proibindo a entrada fora pregada ao pilar do corrimão direito.

Ele sentiu um forte impulso de subir por aquele gramado crescido, passando pelos grilos e gafanhotos que saltariam sobre seus sapatos, subir até a varanda e espiar entre as tábuas, para vislumbrar o corredor ou a sala da frente. Talvez tentar abrir a porta da frente. Se estivesse destrancada, entrar.

Ele engoliu em seco e ergueu os olhos para a casa, quase hipnotizado. Ela o olhou de volta com indiferença idiótica.

Você atravessaria o corredor, sentindo o cheiro de argamassa úmida e papel de parede putrefato, ratos saracoteando dentro das paredes. Ainda haveria muitas tralhas espalhadas por ali, e você pegaria algo, um peso de papel, talvez, e o enfiaria no bolso. Depois, no fim do corredor, em vez de continuar até a cozinha, você viraria à esquerda e subiria as escadas, os pés triturando o reboco que caíra do teto ao longo dos anos. Eram 14 degraus, exatamente 14. Mas o último era menor, desproporcional, como se tivesse sido agregado para evitar o número fatídico. Ao chegar ao patamar da escada, você estaria diante do corredor e de uma porta fechada. E, se você atravessasse o corredor em direção a ela, observando-a se aproximar e crescer no campo de visão como se fora de si mesmo, poderia estender a mão e pousá-la na maçaneta de prata embaçada...

Ele se afastou da casa, um suspiro seco escapando dos lábios. Ainda não. Depois, talvez, mas ainda não. Por enquanto, bastava saber que tudo aquilo continuava lá. Esperando por ele. Apoiou as mãos no capô do carro e contemplou a cidade. Tentaria descobrir lá embaixo quem cuidava da Casa Marsten, e talvez a alugasse. A cozinha daria um bom escritório, e ele poderia acampar no salão da frente. Mas não se permitiria subir as escadas.

A não ser que fosse preciso.

Entrou no carro, deu partida e desceu o morro em direção a Jerusalem’s Lot.


Capítulo Dois

SUSAN (I)

1

Ele estava sentado num banco do parque quando notou que a garota o observava. Era uma garota muito bonita, com um lenço de seda amarrado sobre os cabelos loiro-claros. Lia um livro naquele momento, mas tinha a seu lado um caderno de desenho e o que parecia um lápis de carvão. Era terça-feira, 16 de setembro, o primeiro dia de aula, e o parque magicamente se esvaziara dos mais arruaceiros. Restavam apenas algumas mães com bebês de colo, alguns velhos sentados ao lado do memorial de guerra e aquela garota, sob a sombra irregular de um velho e retorcido elmo.

Ela levantou a cabeça e o viu. Uma expressão de surpresa cruzou seu rosto. Olhou para o livro, depois de novo para ele e começou a se levantar. Hesitou, mudou de idéia e voltou a sentar.

Ele se levantou e se aproximou dela, trazendo seu próprio livro, um faroeste de capa mole.

— Olá — disse ele, de modo afável. — Nós já nos conhecemos?

— Não — disse ela. — Ou melhor... você é Benjamin Mears, certo?

— Certo — confirmou ele, erguendo as sobrancelhas.

Ela riu com nervosismo, sem lançar mais que um olhar fugaz para o rosto dele, tentando ler o barômetro de suas intenções. Era óbvio que não estava acostumada a falar com estranhos no parque.

— Pensei que estivesse vendo um fantasma. — Ela mostrou o livro que tinha no colo. Ele viu de relance que as palavras “Biblioteca Pública de Jerusalem’s Lot” estavam carimbadas na espessa extensão entre as capas. Era Air Dance, seu segundo romance. Ela lhe mostrou a foto dele na contracapa, uma foto que já tinha quatro anos. O rosto parecia jovem e de uma seriedade assustadora — os olhos eram como diamantes negros.

— De circunstâncias tão triviais, dinastias podem nascer — ele disse, e embora fosse apenas uma brincadeira sem maior importância, a frase pairou pesada no ar, como uma profecia. Atrás deles, crianças pequenas brincavam alegremente na piscininha, e uma mãe dizia a Roddy para não empurrar a irmã forte demais. A irmã subiu alto no balanço assim mesmo, o vestido esvoaçando, almejando o céu. Era um momento que ele lembraria durante muitos anos, como uma pequena e especial fatia do bolo do tempo. Se nada se acende entre duas pessoas, instantes como aquele simplesmente submergem nas. ruínas indistintas do tempo.

Ela riu e lhe estendeu o livro.

— Você não quer autografá-lo?

— Um livro de biblioteca?

— Eu compro outro e coloco no lugar.

Ele achou uma lapiseira no bolso da malha, abriu o livro na folha de guarda e perguntou:

— Como você se chama?

— Susan Norton.

Ele escreveu rápido, sem pensar: Para Susan Norton, a garota mais bonita do parque. Afetuosa­mente, Ben Mears. E acrescentou a data sob a assinatura.

— Agora, vai ter que roubá-lo — disse ele, devolvendo-lhe o livro. — Infelizmente, Air Dance está esgotado.

— Vou pedir um exemplar para aqueles sebos de Nova York. — Ela hesitou, e dessa vez olhou nos olhos dele um pouco mais longamente. — O livro é excelente.

— Obrigado. Quando o pego da prateleira e o leio, acho estranho que tenha sido publicado.

— Você o pega sempre?

— Pego, mas estou tentando parar.

Ela abriu um sorriso largo, os dois riram e esse riso tornou tudo mais natural. Mais tarde, ele lembraria como tudo acontecera de modo fácil e direto. Não era sempre uma idéia incômoda. Evocava uma imagem do destino, mas não cego, e sim equipado com sensível visão 20 por 20 e disposto a triturar indefesos mortais entre as mós do universo para fazer um obscuro pão.

— Li Conway’s Daughter também. Adorei. Mas você deve ouvir isso o tempo todo.

— Quase não ouço — disse ele, sinceramente. Miranda também adorara, mas a maioria dos seus amigos do café ficara reticente e a maioria dos críticos o massacrara. Bom, assim era a crítica. Enredo estava fora de moda, masturbação era a nova tendência.

— Bom, eu adorei.

— Você já leu o novo?

Billy Said Keep Going? Ainda não. A Srta. Coogan, da padaria, falou que é bem picante.

— Imagine, é quase puritano — disse Ben. — A linguagem é forte, mas quando se escreve sobre rapazes rústicos do interior, não dá para... Ouça, posso lhe oferecer um milk-shake ou algo assim? Eu estava mesmo com vontade de tomar um.

Ela observou os olhos dele pela terceira vez. Depois sorriu, cordial.

— Claro, eu adoraria. O da Spencer’s é muito bom.

E foi assim que começou.

2

Aquela é a srta. coogan?



Ben fez a pergunta em voz baixa. Olhava para uma mulher alta e magra, que usava um avental vermelho de náilon sobre o uniforme branco. Seus cabelos, tingidos de azul, estavam penteados em sucessivas camadas de ondas.

— É, ela mesma. Tem um carrinho que leva à biblioteca toda quinta de noite. Preenche toneladas de pedidos de reserva e deixa a Srta. Starcher louca.

Estavam sentados em bancos de couro vermelho na sorveteria. Ele bebia um milk-shake de chocolate. O dela era de morango. A Spencer’s também servia de estação de ônibus da cidade. De onde estavam, eles viam, depois de um antiquado arco ornamentado, a sala de espera, onde um solitário rapaz de uniforme da Força Aérea aguardava com ar taciturno, os pés plantados ao lado da mala.

— Ele não parece feliz em ir para onde está indo, não é? — disse ela, seguindo o olhar dele.

— A licença acabou, imagino — disse Ben. Agora ela vai me perguntar se eu já prestei serviço militar.

Mas, em vez disso, ela disse:

— Um dia pegarei esse ônibus das dez e meia. Adeus, ’salem’s Lot. Acho que vou ficar tão melancólica quanto aquele rapaz.

— E ir para onde?

— Para Nova York, acho eu. E ver se eu finalmente me torno auto-suficiente.

— Mas o que há de errado com este lugar?

— Com Lot? Adoro aqui. Mas são meus pais, sabe. Eles vão me vigiar para sempre. É um saco. E Lot não tem muito a oferecer a uma pessoa em início de carreira. — Ela encolheu os ombros e abaixou a cabeça para sugar o canudo. Seu pescoço era bronzeado, lindamente torneado. Seu vestido estampado e colorido insinuava um belo talhe.

— Que tipo de trabalho está procurando?

Ela deu de ombros.

— Tenho bacharelado pela Universidade de Boston. Nem vale o papel em que foi impresso. Em Artes Plásticas e Inglês. A original dupla maluca. Posso concorrer para a categoria de idiota culta. Não tenho qualificação nem para decorar um escritório. Algumas colegas minhas do colegial já recebem belos salários como secretárias. Já eu, nunca fui além de Datilografia I.

— Nesse caso, o que lhe resta?

— Bom... talvez uma editora — disse ela, vagamente. — Ou alguma revista... algo em publicida­de, talvez. Lugares assim sempre precisam de alguém que saiba desenhar sob encomenda. Isso eu sei fazer. Tenho um portfolio.

— Já recebeu alguma oferta de trabalho? — ele perguntou.

— Não... não, mas...

— Ninguém vai a Nova York sem ofertas — disse ele. — Pode, acreditar em mim, vai gastar a sola do sapato.

Ela sorriu com desconforto.

— Você deve saber.

— Já vendeu seu trabalho na região?

— Ah, já. — Ela deu um riso abrupto. — Minha maior venda até agora foi para o Grupo Cinex. Eles abriram um novo cinema triplo em Portland e compraram 12 pinturas de uma vez para pendurar no saguão. Pagaram setecentos dólares. Deu para eu dar entrada no meu carrinho.

— É melhor você ficar num hotel em Nova York durante uma semana ou dez dias — disse ele. — E leve seu portfolio a todas as editoras e revistas. Marque hora com seis meses de antecedência, para que os editores e o pessoal de recursos humanos não tenham outros compromissos. Mas, pelo amor de Deus, não vá de mala e cuia para a cidade grande.

— E você? — perguntou ela, largando o canudo e dando uma colherada no sorvete. — O que faz na próspera cidade de Jerusalem’s Lot, Maine, população 1.300 habitantes?

Ele encolheu os ombros.

— Estou tentando escrever um romance.

Ela logo ficou acesa.

— Em Lot? Sobre o que é? Por que aqui? Você...

Ele a olhou gravemente.

— Está pingando.

— Está? É mesmo, desculpe. — Ela enxugou a base do copo com um guardanapo. — Não quis ser intrometida. Geralmente não sou tão expansiva.

— Não precisa se desculpar — disse ele. — Todo escritor gosta de falar de seus livros. Às vezes, quando estou na cama à noite, imagino que a Playboy está me entrevistando. Pura perda de tempo. Eles só entrevistam autores que fazem sucesso na universidade.

O rapaz da Força Aérea se levantou. Um ônibus da Greyhound se aproximava, os freios de ar resfolegando.

— Morei em ’salem’s Lot durante quatro anos quando criança. Lá na via Burns.

— Na via Burns? Não tem nada lá agora, fora o pântano e um pequeno cemitério, o Harmony Hill.

— Morei com minha tia Cindy. Cynthia Stowens. Meu pai morreu, e minha mãe passou por um... por um tipo de colapso nervoso. E me mandou ficar com a tia Cindy enquanto tentava se recuperar. A tia Cindy me colocou no ônibus de volta para minha mãe, que morava em Long Island, apenas um mês depois do grande incêndio. — Ele olhou para o próprio rosto no espelho da sorveteria. — Chorei no ônibus ao me separar da minha mãe e chorei no ônibus ao me separar da tia Cindy e de Jerusalem’s Lot.

— Nasci no ano do incêndio — disse Susan. — Foi a coisa mais importante que já aconteceu nessa droga de cidade, e eu dormi o tempo inteiro.

Ben riu.

— Sendo assim, você tem sete anos a mais do que pensei no parque.

— Sério? — Ela pareceu satisfeita. — Obrigada... acho. A casa da sua tia deve ter se incendiado.

— Sim — disse ele. — A minha lembrança daquela noite é uma das mais nítidas que tenho. Homens com mangueiras nas costas bateram na porta e disseram que tínhamos de sair. Foi muito emocionante. A tia Cindy andou pela casa, toda trêmula, recolhendo as coisas e as colocando no seu Hudson. Meu Deus, que noite...

— Ela tinha seguro?

— Não, mas a casa era alugada, e conseguimos colocar quase tudo de valor no carro, fora a televisão. Tentamos levantá-la, mas ela nem se mexeu do chão. Era uma Vídeo King, com tela de sete polegadas e lente de aumento sobre o tubo de imagem. Um horror para a vista. Mas a gente só pegava um canal mesmo, com muita música Country, relatórios agrícolas e Kitty the Klown.

— E você voltou para escrever um livro — admirou-se ela.

Ben não respondeu de imediato. A Srta. Coogan estava abrindo pacotes de cigarro e enchendo o mostruário ao lado da caixa registradora. O farmacêutico, Sr. Labree, zanzava atrás do balcão de remédios como um fantasma pálido. O rapaz da Força Aérea esperava ao lado da porta do ônibus que o motorista voltasse do banheiro.

— Isso mesmo — disse Ben. Ele se virou e a olhou, diretamente no rosto pela primeira vez. Ela tinha um rosto muito bonito, com cândidos olhos azuis e testa alta, clara, tostada pelo sol.

— Passou a infância nesta cidade? — perguntou.

— Passei.

Ele assentiu com um gesto de cabeça.

— Então, você entende. Fui criança em ’salem’s Lot e fiquei obcecado pela cidade. Quando voltei, quase passei direto sem entrar porque tinha medo de que tivesse mudado.

— As coisas não mudam aqui — disse ela. — Não muito.

— Eu brincava de cabo-de-guerra com os filhos dos Gardener lá no pântano. De pirata no lago Royal. De esconde-esconde no parque. Minha mãe e eu passamos por maus bocados depois que deixei a tia Cindy. Ela se matou quando eu tinha 14 anos, mas muito antes disso o pó mágico já tinha saído da minha pele. O que havia dele estava aqui. E continua aqui. A cidade não mudou muito. Olhar a avenida Jointner é como olhar através de uma fina placa de vidro, como as que tirávamos do alto do tanque da cidade em novembro, quebrando as bordas antes; é como olhar através disso para a infância. A imagem fica trêmula e nebulosa e em alguns pontos dissolve-se em nada, mas a maior parte continua lá.

Ele parou, espantado. Acabara de fazer um discurso.

— Você fala igual aos seus livros — disse ela em tom reverente.

Ele riu.


— Nunca disse nada assim antes. Não em voz alta.

— O que você fez depois que sua mãe... depois que ela morreu?

— Andei por aí — limitou-se a dizer ele. — Tome seu sorvete.

Ela tomou.

— Algumas coisas mudaram — disse ela, após um momento. — O Sr. Spencer morreu. Lembra-se dele?

— Claro. Toda quinta à noite a tia Cindy vinha para a cidade fazer compras na loja Crossen e me mandava vir tomar uma soda limonada aqui. Naquele tempo era de pressão, a autêntica soda Rochester. Ela me dava uma moeda de cinco centavos amarrada num lenço.

— Custava dez centavos no meu tempo. Você se lembra do que ele sempre costumava dizer?

Ben se inclinou para frente, dobrou a mão como se tivesse artrite e curvou um canto da boca num esgar paralítico.

— Sua bexiga — sussurrou ele. — Esses refrigerantes vão acabar com sua bexiga, rapaz.

A risada dela elevou-se no ar em direção ao ventilador que girava lentamente no teto. A Srta. Coogan levantou os olhos desconfiados.

— Perfeito! — exclamou ela. — Só que ele me chamava de mocinha.

Eles se entreolharam, deliciados.

— Escute, você quer ir ao cinema hoje à noite? — ele perguntou.

— Adoraria.

— Qual é o mais próximo?

Ela deu um risinho.

— O Cinex, em Portland, justamente. Cujo saguão foi decorado com as imortais pinturas de Susan Norton.

— Onde mais? De que tipo de filme você gosta?

— Dos emocionantes, com perseguição de carros.

— Está bem. Lembra-se do Nórdica? Ficava bem aqui, na cidade.

— Claro. Fechou em 1968. Quando eu estava no colégio, era lá que eu e minhas amigas íamos com os namorados. Jogávamos caixas de pipoca na tela quando o filme era ruim. — Ela riu. — E geralmente eram.

— Eles passavam aqueles velhos seriados da Republic — disse ele. — Rocket Man. The Return of Rocket Man. Crash Callahan and the Voodoo Death God

— Isso foi antes do meu tempo.

— O que aconteceu com o cinema?

— Hoje é a imobiliária de Larry Crockett. Foi o drive-in de Cumberland que acabou com ele, imagino. E a televisão.

Ficaram em silêncio um instante, cada um com seus pensamentos. O relógio da estação mostrava que eram 10h45.

— Ei, você lembra... — disseram em uníssono.

Eles se entreolharam e, dessa vez, a Srta. Coogan olhou para os dois quando explodiram em risos. Até o Sr. Labree olhou para eles.

Conversaram mais 15 minutos, até que Susan disse com relutância que tinha coisas a fazer, mas que, sim, estaria pronta às sete e meia. Quando se separaram, cada um se maravilhou com o encontro fácil e natural de suas vidas.

Ben caminhou pela avenida Jointner, parando na esquina da rua Brock para olhar casualmente para a Casa Marsten. Lembrou-se que o grande incêndio florestal de 1951 chegara quase até seu pátio antes que o vento mudasse.

Talvez devesse ter queimado, pensou ele. Talvez tivesse sido melhor.
3

Nolly Gardener saiu do paço municipal e sentou nos degraus ao lado de Parkins Gillespie, a tempo de ver Ben e Susan entrarem na Spencer’s juntos. Parkins fumava um Pall Mall e limpava as unhas amareladas com um canivete.

— Aquele é o tal do escritor? — perguntou Nolly.

— Era Susie Norton que estava com ele?

— Era.


— Interessante... — disse Nolly, apertando o cinto de couro. A estrela de vice-delegado brilhava com importância em seu peito. Ele a encomendara de uma revista policial; o município não fornecia distintivos aos próprios delegados. Parkins tinha uma, mas levava na carteira algo que Nolly nunca fora capaz de entender. É claro que todos em Lot sabiam que ele era o delegado, mas havia algo que se chamava tradição. Algo que se chamava responsabilidade. Quem era agente da lei precisava pensar em ambos. Nolly pensava em ambos com freqüência, embora só pudesse se dar ao luxo de ser vice-delegado em meio expediente.

O canivete de Parkins deslizou e cortou a cutícula de seu polegar.

— Merda — disse ele baixinho.

— Será que ele é um escritor de verdade, Park?

— Claro que é. Tem três livros dele aqui na nossa biblioteca.

— Histórias verdadeiras ou inventadas?

— Inventadas. — Parkins largou o canivete e suspirou.

— Floyd Tibbets não vai gostar que um cara fique de papo com sua mulher.

— Eles não são casados — retrucou Parkins. — E ela é maior de 18.

— Floyd não vai gostar.

— Estou pouco me lixando para Floyd — disse Parkins. Esmagou o cigarro no degrau, tirou uma caixa de pastilha do bolso, guardou o toco apagado dentro dela e voltou a guardá-la no bolso.

— Onde esse tal de escritor está morando?

— Na Eva — disse Parkins, examinando a cutícula ferida de perto. — Estava olhando a Casa Marsten outro dia, com uma expressão esquisita no rosto.

— Esquisita? Como assim?

— Esquisita, só isso. — Parkins tirou os cigarros do bolso. O sol em seu rosto era quente e gostoso. — Depois foi falar com Larry Crockett. Queria alugar a casa.

— A Casa Marsten?

— Pois é.

— Esse cara é louco?

— Talvez. — Parkins espantou uma mosca do joelho esquerdo e observou-a se afastar na manhã luminosa. — O velho Larry Crockett anda ocupado ultimamente. Ouvi dizer que vendeu a Lavanderia da Vila. Já faz algum tempo, na verdade.

— Como? Aquela lavanderia velha?

— Pois é.

— O que alguém pode querer colocar nela?

— Sei lá.

— Bom. — Nolly se levantou e deu outro apertão no cinto. — Acho que vou dar uma volta pela cidade.

— Faça isso — disse Parkins, e acendeu outro cigarro.

— Quer ir também?

— Não, acho que vou ficar sentado aqui um pouco.

— Então, até depois.

Nolly desceu os degraus, perguntando-se (não pela primeira vez) quando Parkins decidiria se aposentar, para que ele, Nolly, pudesse exercer a função em período integral. Como, em nome de Deus, ele iria combater o crime sentado na escadaria da Prefeitura?

Parkins observou-o partir com um certo alívio. Nolly era um bom rapaz, mas ansioso demais. Tirou o canivete do bolso, abriu-o e recomeçou a aparar as unhas.

4

Jerusalem’s Lot foi fundada em 1765 (duzentos anos depois, celebrou seu bicentenário com fogos de artifício e um desfile no parque; a fantasia de princesa índia da pequena Debbie Forester pegou fogo quando uma estrelinha caiu nela, e Parkins Gillespie teve de mandar seis sujeitos para a cadeia por se embriagarem em público), 55 anos antes de o Maine se tornar um estado graças ao Acordo do Missouri.

A cidade ganhou seu nome peculiar devido a uma circunstância bastante prosaica. Um dos primeiros residentes da região fora um austero e desajeitado fazendeiro chamado Charles Belknap Tanner. Era criador de porcos, e uma de suas enormes porcas se chamava Jerusalém. Um dia, Jerusalém escapou do chiqueiro na hora de comer e fugiu para a floresta próxima, onde se tornou brava e selvagem. Durante anos a fio, Tanner alertara as crianças para sair de sua propriedade inclinando-se sobre o portão e sussurrando em tom terrível e agourento: “Fiquem longe do lote da Jerusalém se não quiserem perder as tripas.” O aviso pegou, e o nome também. O fato não prova nada, a não ser que nos Estados Unidos até uma porca pode aspirar à imortalidade.

A rua principal, conhecida originalmente como rua Portland Post, mudou de nome em homena­gem a Elias Jointner em 1896. Jointner, membro da Câmara dos Deputados por seis anos (até sua morte, causada por sífilis, quando ele tinha 58 anos), era a única celebridade que a cidade podia ostentar — com a exceção de Jerusalém, a porca, e Pearl Ann Butts, que fugiu para Nova York em 1907 e virou uma vedete de Ziegfeld.

A rua Brock cruzava a avenida Jointner bem no centro e a ângulos retos, e a própria cidade era quase circular (embora um pouco plana ao leste, onde fazia fronteira com o serpenteante rio Royal). Num mapa, as duas ruas principais faziam com que a cidade se parecesse com uma mira telescópica.

O quadrante noroeste da mira era o norte de Jerusalém, a região mais arborizada da cidade. Era a parte alta, embora não parecesse muito alta a ninguém, exceto, talvez, a um habitante do Meio-Oeste. Os cansados e velhos morros, riscados por antigas estradas usadas por lenhadores, inclinavam-se gentilmente em direção à cidade, e a Casa Marsten ficava no último deles.

Boa parte do quadrante nordeste era campo aberto, coberto de feno, capim e alfafa. Era onde passava o rio Royal, um velho rio que desgastara suas margens quase até a base. Ele passava sob a pequena ponte de madeira da rua Brock e seguia para o norte em arcos planos e cintilantes até entrar no terreno próximo ao limite norte da cidade, onde granito sólido se escondia próximo ao solo fino. Lá ele formara penhascos de 15 metros ao longo de um milhão de anos. As crianças o chamavam de Salto do Bêbado, porque havia alguns anos Tommy Rathbun, o irmão beberrão de Virge Rathbun, despenca­ra de uma borda procurando um lugar para mijar. O Royal abastecia o Androscoggin, poluído pelas fábricas, mas ele mesmo nunca fora poluído. A única indústria que Lot já tivera fora uma serraria, mas fechara havia muito tempo. Nos meses de verão, era comum ver pescadores sobre a ponte da rua Brock. Eram raros os dias em que não conseguiam tirar do Royal tudo que podiam carregar.

O quadrante sudeste era o mais bonito. A terra se elevava de novo, mas não se viam as feias ruínas ou o solo crestado que são a herança de um incêndio. As terras de ambos os lados da rua Griffen pertenciam a Charles Griffen, o maior pecuarista ao sul de Machanic Falls. Do monte do Pátio do Colégio, via-se o enorme celeiro de Griffen, cujo telhado de alumínio brilhava ao sol como um monstruoso heliógrafo. Havia outras fazendas na região, e várias casas, que tinham sido compradas por executivos que trabalhavam em Portland ou Lewiston. Às vezes, no verão, podia-se subir ao topo do monte do Pátio do Colégio para sentir o aroma das queimadas e ver o pequenino carro do Corpo de Bombeiros Voluntários de ’salem’s Lot esperando para entrar em cena se algo saísse do controle. A população não esquecera as lições de 1951.

Foi na área sudoeste que os trailers se instalaram, com tudo que costuma acompanhá-los, como um cinturão de asteróides semi-rurais: carcaças de carros, pneus pendurados em cordas gastas, latas de cerveja jogadas no meio-fio, roupas rotas secando em varais improvisados, o forte odor de fossas abertas às , pressas. As casas na Curva estavam mais para barracos, mas reluzentes antenas de TV brotavam de quase todas, e a maioria das televisões dentro delas era em cores, compradas a crédito na Grant’s ou Sears. Os quintais dos casebres e trailers geralmente estavam cheios de crianças, brinquedos, camionetes, veículos para neve e motocicletas. Alguns cuidavam bem dos seus trailers, mas a maioria parecia achar que não valia a pena. O mato crescia à altura dos tornozelos. Perto do limite da cidade, onde a rua Brock virava a via Brock, ficava o Dell’s, onde uma banda de rock tocava às sextas e uma banda de música Country se apresentava aos sábados. O bar pegara fogo em 1971, mas fora reconstruído. Para os vaqueiros da região e suas namoradas, era o lugar certo para curtir uma cerveja ou uma briga.

A maioria das linhas telefônicas podia se conectar a mais duas, quatro ou seis linhas, e portanto os moradores sempre tinham de quem falar. Em cidades pequenas, o escândalo está sempre fervendo no fogão, como o feijão da tia Cindy. A Curva produzia a maior parte dos escândalos, mas de vez em quando alguém com um pouco mais de status contribuía com o caldo comunitário.

A cidade era governada por uma assembléia de eleitores. Cogitava-se desde 1965 a adoção do sistema de conselho municipal com audiências orçamentárias públicas bienais, mas a idéia não ganhou força. A cidade não crescia o bastante para tornar o antigo sistema realmente penoso, embora sua enfadonha e lenta democracia levasse alguns recém-chegados ao desespero. Havia três representantes municipais, o chefe de polícia, um inspetor para os pobres, um funcionário municipal (para registrar o carro era preciso ir até a via Taggart Stream e enfrentar dois cachorros bravos que corriam soltos no quintal) e o delegado escolar. O Corpo de Bombeiros Voluntários recebia uma verba simbólica de trezentos dólares por ano, mas era mais um clube para velhos pensionistas. Eles tinham sua dose de emoção durante a época das queimadas e passavam o resto do ano sentados ao redor do Reliable contando vantagem. Não havia Departamento de Obras Públicas porque não havia água, gás, energia elétrica ou saneamento público. Os postes de eletricidade atravessavam em diagonal a cidade de noroeste a sudeste, abrindo um enorme rasgo de 45 metros de largura na floresta. Um desses postes ficava perto da Casa Marsten, erguendo-se sobre ela como uma lúgubre sentinela.

Tudo que ’salem’s Lot sabia de guerras, incêndios e crises no governo era graças a Walter Cronkite na televisão. Ah, o filho dos Potter morrera no Vietnã e o filho de Claude Bowie voltara com um pé mecânico — pisara numa mina terrestre —, mas arrumou trabalho no correio ajudando Kenny Danles, e portanto tudo acabou bem. Os jovens estavam deixando os cabelos crescer e não faziam mais cortes comportados como os pais, mas ninguém ligava mais. Quando aboliram o uniforme do Colégio da cidade, Aggie Corliss escreveu uma carta ao Ledger de Cumberland, mas ela escrevia para o jornal semanalmente havia anos, sobre os malefícios da bebida e as maravilhas de receber Jesus Cristo no coração como nosso salvador.

Alguns jovens usavam drogas. O filho de Horace Kilby, Frank, compareceu diante do juiz Hooker em agosto e recebeu uma multa de cinqüenta dólares (o juiz deixou-o pagar a multa com o que ganhava entregando jornal), mas o álcool era um problema mais grave. Bandos de jovens se enfiavam no Dell’s desde que o limite de idade diminuiu para 18 anos. Voltavam a toda velocidade para casa como se quisessem arrancar o asfalto do chão, e às vezes alguém acabava morrendo. Como quando Billy Smith bateu numa árvore na estrada Deep Cut a 140 quilômetros por hora, matando a si mesmo e a namorada, LaVerne Dube.

Mas, fora isso, o conhecimento que Lot tinha das mazelas do país era acadêmico. Lá o tempo seguia outro ritmo. Nada de muito ruim podia acontecer numa cidadezinha tão aprazível. Não lá.

5

Ann Norton passava roupa quando a filha entrou de supetão com um saco de compras, mostrou-lhe um livro com um rapaz de rosto fino na sobrecapa e começou a tagarelar.

— Calma — disse ela. — Abaixe a televisão e me conte.

Susan interrompeu Peter Marshall, que distribuía milhares de dólares num programa de auditório, e contou a sua mãe como conhecera Ben Mears. A Sra. Norton assentia com calma e benevolência enquanto a história era despejada, apesar das luzes de alerta que sempre se acendiam quando Susan falava de um novo menino — homens, agora, pensou ela, embora fosse difícil imaginar que Susie já tivesse idade para isso. Mas as luzes se acenderam com um pouco mais de força na­quele dia.

— Que emocionante — disse ela, e colocou outra camisa do marido na tábua de passar.

— Ele foi muito legal — disse Susan. — Muito natural.

— Ai, meus pés — disse a Sra. Norton. Apoiou o ferro na tábua, que deu um assobio mal-humorado, e sentou-se na cadeira de balanço ao lado da janela panorâmica. Tirou um Parliament do maço sobre a mesa de centro e o acendeu.

— Tem certeza de que ele é uma boa pessoa, Susie?

Ela sorriu, meio na defensiva.

— Claro que tenho. Ele parece... ah, sei lá. Um professor de faculdade ou algo assim.

— Dizem que o Mad Bomber* parecia um jardineiro — disse a Sra. Norton, com ar pensativo.


* George Meterky, o Mad Bomber, aterrorizou a cidade de Nova York por 16 anos, de 1940 a 1956, deixando inúmeros pacotes com bombas em lugares públicos (N. do E.)

— Papo-furado — disse Susan alegremente. Era um epíteto que sempre irritava sua mãe.

— Deixe-me ver o livro — disse ela, estendendo a mão.

Susan lhe deu o livro, lembrando-se de repente da cena de estupro homossexual na prisão.

Air Dance — Ann Norton disse sonhadoramente, e começou a folhear as páginas a esmo. Susan esperou, resignada. Sua mãe o inspecionaria do começo ao fim, como sempre.

As janelas estavam levantadas, e uma preguiçosa brisa matutina ondulava as cortinas amarelas da cozinha — que a mãe insistia de chamar de “copa”, como se eles pertencessem à fina flor da sociedade. Era uma casa boa, de tijolos sólidos, um pouco difícil de aquecer no inverno, mas fresca como uma gruta no verão. Ficava sobre uma suave inclinação no extremo da rua Brock, e, da janela panorâmica onde a Sra. Norton estava sentada, via-se toda a cidade. A vista era agradável, e no inverno chegava a ser espetacular, com longos e cintilantes panoramas de neve ininterrupta e prédios diminutos à distância, lançando retângulos de luz amarela sobre os campos nevados.

— Acho que li uma resenha sobre este livro no jornal de Portland. Não era muito boa.

— Eu gosto — Susan disse com firmeza. — E gosto dele.

— Talvez Floyd também goste dele — observou a Sra. Norton casualmente. — Você devia apresentá-los.

Susan sentiu uma pontada de raiva, o que a consternou. Pensara que ela e a mãe já haviam superado a última das tempestades adolescentes e até mesmo os resquícios dela, mas lá estavam novamente. Retomaram a antiga disputa entre sua identidade e as experiências e crenças da mãe como quem retoma um velho tricô.

— Já conversamos sobre Floyd, mãe. Você sabe que não temos nada sério.

— O jornal também disse que tem cenas de prisão bastante chocantes. Rapazes dormindo com rapazes...

— Pelo amor de Deus, mãe. — Susan pegou um cigarro da mãe.

— Não precisa praguejar — disse a Sra. Norton, inabalável. Devolveu o livro à filha e bateu a longa cinza de seu cigarro num cinzeiro de cerâmica em forma de peixe. Fora presente de uma de suas amigas da Associação de Senhoras, e sempre causara uma vaga irritação em Susan. Havia algo de obsceno em bater as cinzas na boca de uma perca.

— Vou guardar as compras — disse Susan, levantando.

A Sra. Norton prosseguiu, tranqüilamente.

— Eu só quis dizer que, se você e Floyd Tibbits vão se casar...

A irritação transbordou e se converteu na velha e exaltada fúria.

— Posso saber de onde você tirou essa idéia? Alguma vez eu lhe falei isso?

— Eu presumi...

— Pois presumiu errado — disse ela, com mais ardor do que sinceridade. Mas ela vinha esfriando em relação a Floyd gradativamente nas últimas semanas.

— Presumi que quando uma moça sai com um rapaz durante um ano e meio — sua mãe continuou, com calma implacável —, o namoro já foi além do estágio de dar as mãos.

— Floyd e eu somos mais do que amigos — concordou Susan. Vamos ver o que ela concluí disso.

Uma conversa muda pairou entre elas.



Você está dormindo com Floyd?

Não é da sua conta.

O que esse Ben Mears significa para você?

Não é da sua conta.

Você vai se apaixonar por ele e fazer alguma bobagem?

Não é da sua conta.

Eu te amo, Susie. Seu pai e eu te amamos.

E para aquilo não havia resposta. Nunca havia. Por isso Nova York — ou qualquer outro lugar — era essencial. No final, ela sempre esbarrava nas barricadas silenciosas do amor dos pais, como paredes acolchoadas. A verdade do amor deles tornava impossível prosseguir a discussão de modo racional e esvaziava de sentido o que havia sido dito antes.

— Muito bem — disse a Sra. Norton. Apagou o cigarro na boca do peixe e o colocou de bruços.

— Vou subir — disse Susan.

— Está bem. Posso ler o livro quando terminar?

— Se você quiser.

— Gostaria de conhecê-lo — disse ela.

Susan encolheu os ombros.

— Vai chegar tarde hoje?

— Não sei.

— O que digo a Floyd se ele ligar?

A raiva se apoderou dela de novo.

— Diga o que quiser. — Fez uma pausa. — É o que dirá de qualquer jeito.

— Susan!


Ela subiu as escadas sem olhar para trás.

A Sra. Norton permaneceu onde estava, olhando através da janela para a cidade, mas sem vê-la. No andar de cima, ouvia os passos de Susan e o ruído de seu cavalete sendo aberto.

Ela levantou e voltou ao ferro de passar. Quando achou que Susan já estava totalmente imersa no trabalho (embora não permitisse que essa idéia ocupasse mais que um canto de sua consciência), ela foi ao telefone na copa e ligou para Mabel Werts. Durante a conversa, comentou casualmente que Susie lhe contara que um escritor famoso estava na cidade, e Mabel fungou e disse, bom, você deve estar falando daquele homem que escreveu Conway’s Daughter, e a Sra. Norton disse, esse mesmo, e Mabel disse que aquilo não era literatura, mas um manual sexual, pura e simplesmente. A Sra. Norton perguntou se ele estava num hotel ou...

Na verdade, ele estava no centro, na casa da Eva, a única pensão da cidade. A Sra. Norton sentiu uma onda de alívio. Eva Miller era uma viúva honesta, que não toleraria nenhuma indecência. Suas normas em relação a mulheres nos quartos eram breves e objetivas. Se fosse mãe ou irmã, tudo bem. Caso contrário, tinha de esperar na cozinha. E a regra era inegociável.

A Sra. Norton desligou 15 minutos depois, tendo camuflado seu principal objetivo com a conversa fiada.

Susan, pensou ela, voltando para o ferro de passar. Ah, Susan, eu só quero o melhor para você. Será que você não percebe?

6

Eles voltavam de Portland pela 295, e não era nada tarde — passava um pouco das 11. O limite de velocidade da estrada quando saía da periferia de Portland era de 90 quilômetros por hora, e ele dirigia bem. Os faróis do Citroën cortavam a escuridão de modo contínuo.

Ambos haviam gostado do filme, mas com cautela, como pessoas que tateiam os limites uma da outra. A pergunta da mãe lhe ocorreu então, e ela disse:

— Onde você está hospedado? Alugou algum quarto?

— Estou num cubículo no terceiro andar da Pensão da Eva, na rua da Ferrovia.

— Que horror! Deve fazer 40 graus centígrados lá.

— Gosto do calor — disse ele. — Trabalho bem no calor. Tiro a camisa, ligo o rádio e bebo um galão de cerveja. Tenho escrito dez páginas por dia, inéditas. Além disso, tem uns velhos moradores interessantes lá. E quando finalmente saio para a varanda e sinto a brisa... é o paraíso.

— Mas, mesmo assim... — insistiu ela.

— Pensei em alugar a Casa Marsten — disse ele, em tom casual. — Cheguei até a indagar a respeito. Mas foi vendida.

— A Casa Marsten! — Ela sorriu. — Você deve ter confundido o lugar.

— Não. Ela fica naquele primeiro morro a noroeste da cidade. Na via Brooks.

— Foi vendida? Mas quem seria o louco...

— Pensei a mesma coisa. De vez em quando me acusam de ter um parafuso a menos, mas até mesmo eu só pensei em alugá-la. O corretor não quis me dizer. Parece que é um segredo sinistro e insondável.

— Pode ser que alguém de outro estado queira transformar a casa num hotel de verão — disse ela. — Seja quem for, é louco. Restaurar um casarão é uma coisa, e eu adoraria tentar, mas aquele está além de qualquer restauração. Já era um mausoléu quando eu era criança. Mas por que você ia querer ficar lá?

— Você chegou a entrar lá?

— Não, mas espiei pela janela para provar que tinha coragem. Você entrou?

— Entrei, uma vez.

— É de dar medo, não?

Eles ficaram em silêncio, cada um pensando na Casa Marsten. Mas essa recordação não tinha a nostalgia branda das outras. O escândalo e a violência associados à casa haviam ocorrido antes de nascerem, mas cidades pequenas têm memória longa, e passam seus horrores ritualmente de uma geração para outra.

A história de Hubert Marsten e sua mulher, Birdie, era a mancha da cidade, ou o que mais se aproximava disso. Hubie fora o presidente de uma grande companhia de transportes da Nova Inglaterra nos anos 1920 — uma companhia que, segundo as más línguas, conseguira seus maiores lucros depois da meia-noite, contrabandeando uísque canadense para Massachusetts.

Ele e a mulher se mudaram para ’salem’s Lot em 1928, donos de uma fortuna, mas perderam boa parte dela (ninguém sabia exatamente quanto, nem mesmo Mabel Werts) na quebra da bolsa de valores de 1929.

Nos dez anos entre a queda da bolsa e a ascensão de Hitler, Marsten e a mulher viveram como ermitãos. A única ocasião em que eram vistos era nas tardes de quarta, quando iam à cidade fazer compras. Larry McLeod, que era o carteiro naquela época, relatou que Marsten assinava quatro jornais diários, The Saturday Evening Post, The New Yorker e uma revista de ficção científica chamada Amazing Stories. Também recebia um cheque uma vez por mês da companhia de transportes, que era sediada em Fall River, Massachusetts. Larry disse que conseguia ver que era um cheque dobrando o envelope e espiando pelo espaço para o endereço.

Foi Larry que os encontrou no verão de 1939. Jornais e revistas haviam se acumulado durante cinco dias na caixa de correio até não caber mais nada. Larry atravessou a passarela com a intenção de deixar a correspondência entre a porta de tela e a porta principal.

Era agosto, o auge do verão e dos dias quentes, e a grama do jardim, verde e viçosa, chegava quase ao joelho. As madressilvas cresciam selvagens nas treliças do lado direito da casa, e gordas abelhas zuniam indolentemente em torno das flores, muito brancas e fragrantes. Naquele tempo, a casa ainda impressionava pela beleza, apesar da grama alta, e de modo geral todos concordavam que Hubie construíra a casa mais bonita de ’salem’s Lot antes de ficar de miolo mole.

Quando estava no meio da passarela, segundo a história que era contada em tom lúgubre a cada nova integrante da Associação de Senhoras, Larry sentiu um cheiro ruim, de carne estragada. Bateu na porta da frente, mas ninguém atendeu. Olhou pela porta, mas não conseguiu ver nada na densa obscuridade. Contornou a casa até os fundos em vez de entrar, o que foi sua sorte. O cheiro estava pior atrás. Larry tentou abrir a porta dos fundos, viu que estava destrancada e entrou na cozinha. Birdie Marsten estava estendida num canto, as pernas enviesadas, os pés descalços. Metade de sua cabeça fora destruída por um tiro à queima-roupa de uma arma calibre 36.

(“Moscas”, Audrey Hersey sempre dizia nessa hora, falando com calma autoridade. “Larry disse que a cozinha estava cheia de moscas. Zumbindo pela cozinha, pousando no..., você sabe, e voando de novo. Moscas.”)

Larry McLeod deu meia-volta e foi direto para a cidade. Buscou Norris Varney, que era o delegado na época, e três ou quatro dos desocupados que ficavam na loja Crossen — o pai de Milt ainda era o gerente naquela época. O irmão mais velho de Audrey, Jackson, era um deles. Voltaram para o morro no Chevrolet de Norris e no carro do correio de Larry.

Nenhum morador da cidade estivera na casa antes, e lhes pareceu a sétima maravilha do mundo. Depois que a poeira baixou, o jornal Telegram, de Portland, escreveu uma matéria sobre o caso. A casa de Hubert Marsten era um ninho de ratos, um amontoado confuso e atordoante de trastes, com passagens estreitas e espiraladas entre montes de jornais e revistas amarelados e pilhas de livros mofados e volumosos. A coleção completa de Dickens, Scott e Mariatt foram levados para a Biblioteca Pública de ’salem’s Lot pela antecessora de Loretta Starcher e continuavam nas prateleiras.

Jackson Hersey apanhou um Saturday Evening Post, começou a folheá-lo e não acreditou em seus olhos. Uma nota de um dólar fora colada com fita adesiva a cada página.

Norris Varney descobriu como Larry tivera sorte ao entrar pela porta dos fundos. A arma do crime havia sido amarrada a uma cadeira com o cano apontando direto para a porta da frente, mirando a altura do peito. A arma estava engatilhada, e um fio amarrado ao gatilho se estendia pelo corredor até a maçaneta.

(“E a arma estava carregada”, dizia Audrey nessa hora. “Um puxão e Larry McLeod teria ido direto para o paraíso.”)

Encontraram outras armadilhas, menos letais. Um pacote de jornais de vinte quilos fora pendu­rado sobre a porta da sala de jantar. Um dos espelhos da escada para o segundo andar fora empurrado, o que podia ter causado um tornozelo quebrado. Logo ficou claro que Hubie Marsten não só tivera miolo mole como fora um completo lunático.

Encontraram-no no quarto ao final do corredor do andar de cima, pendurado a uma viga.

(Susan e suas amiguinhas haviam sofrido deliciosas torturas com as histórias que ouviam dos mais velhos. Amy Rawcliffe tinha uma casa de bonecas no quintal, onde elas se trancavam no escuro, assustando umas às outras com histórias sobre a Casa Marsten, que fora eternizada com um nome próprio mesmo antes de Hitler invadir a Polônia, e as enfeitando com todos os detalhes arrepiantes que eram capazes de conceber. Mesmo hoje, 18 anos depois, apenas lembrar da Casa Marsten agia como um feitiço, evocando as imagens dolorosamente claras das meninas encolhidas na casa de bonecas de Amy, de mãos dadas, e de Amy dizendo em tom fantasmagórico: “O rosto dele estava inchado, a língua estava preta e saltada para fora, moscas rastejavam sobre ela. Minha mãe contou para a Sra. Werts”.)

— ...assustador.

— Como? Desculpe. — Ela voltou para o presente com um sobressalto. Ben saía da estrada e entrava na rampa de acesso a ’salem’s Lot.

— Eu disse que era um lugarzinho assustador.

— Conte como foi quando você entrou lá.

Ele deu uma risada triste e ligou os faróis altos. O asfalto de duas pistas passava por uma alameda de pinheiros e abetos, deserta.

— Começou com uma brincadeira de criança. Talvez não tenha sido mais do que isso. Não esqueça que era 1951, e as crianças tinham de fazer algo no lugar de cheirar cola de avião em sacos de papel, o que ainda não tinha sido inventado. Eu brincava bastante com os meninos da Curva, a maioria já deve ter se mudado daqui... o sul de ’salem’s Lot ainda é chamado de Curva?

— É.


— Eu brincava com Davie Barclay, Charles James, que as crianças chamavam de Sonny, Harold Rauberson, Floyd Tibbits...

— Floyd? — ela perguntou, espantada.

— É, você conhece?

— A gente namorava — disse ela, e, com medo que sua voz tivesse soado estranha, apressou-se a acrescentar. — Sonny James também continua por aqui. É gerente do posto de gasolina na avenida Jointner. Harold Rauberson morreu. De leucemia.

— Eram todos mais velhos do que eu, um ou dois anos. Tinham um clube. Era muito seleto. Só Piratas Sangrentos, com no mínimo três referências, podiam se candidatar. — Ele quis que soasse leve, mas uma ponta de amargura se escondia em suas palavras. — Mas fui persistente. A coisa no mundo que eu mais queria era ser um Pirata Sangrento... naquele verão, pelo menos.

— Eles finalmente cederam e me disseram que eu poderia entrar se passasse pela iniciação, que Davie inventou na hora. Todos iríamos para a Casa Marsten e eu teria de entrar e trazer algo de dentro. Como troféu de guerra. — Ele riu, mas sua boca estava seca.

— E o que aconteceu?

— Entrei por uma janela. A casa ainda estava cheia de tranqueiras, mesmo depois de 12 anos. Os jornais devem ter sido tirados durante a guerra, mas o resto continuava lá. Tinha uma mesa no corredor da frente com uma daquelas cúpulas de neve sobre ela, você sabe, não? Tem uma casinha dentro, e quando balançamos, cai neve. Coloquei-a no meu bolso, mas não saí. Queria provar que era corajoso. E subi até o quarto onde ele se enforcou.

— Meu Deus — disse ela.

— Abra o porta-luvas e pegue um cigarro para mim, por favor. Estou tentando parar, mas preciso de um para acabar a história.

Ela pegou um cigarro e apertou o isqueiro do painel.

— A casa fedia. Você não imagina o quanto. Mofo, estofados apodrecidos e um tipo de odor rançoso como de manteiga passada. E coisas vivas: ratos, marmotas ou outro animal que havia feito ninhos nas paredes ou hibernado no porão. Um cheiro amarelo, molhado.

— Subi as escadas. Era um menino de nove anos, morrendo de medo. A casa estalava e afundava ao meu redor, e eu ouvia coisas fugindo de mim do outro lado do reboco. Tinha a impressão de ouvir passos atrás de mim. Tinha medo de virar e ver Hubie Marsten me seguindo, com um laço de enforcado na mão e a cara toda preta.

Ele agarrava o volante com força. A leveza sumira de sua voz. A intensidade de suas recordações a assustava um pouco. Seu rosto, à luz do painel de instrumentos, tinha os longos sulcos de um homem que percorria um país odiado, que não conseguia abandonar.

— No alto das escadas, reuni toda minha coragem e corri pelo corredor até aquele quarto. Meu plano era entrar, pegar qualquer coisa e sumir de lá. A porta no final do corredor estava fechada. Eu a via se aproximando e notei que as dobradiças tinham afundado e a parte inferior encostava na base. Vi a maçaneta, prateada e um pouco embaçada pelo uso. Quando puxei a porta, a parte de baixo gemeu como um lamento de mulher. Se eu estivesse normal, acho que teria saído correndo nessa hora. mas eu estava cheio de adrenalina, e agarrei a maçaneta com as duas mãos e a puxei com toda força. A porta se escancarou. E lá estava Hubie, pendurado na viga, a silhueta recortada contra a luz da janela.

— Ben, pare... — disse ela, com nervosismo.

— Não, estou dizendo a verdade — insistiu ele. — A verdade que o menino de nove anos viu e que o homem recorda 24 anos depois. Hubie estava pendurado lá, e seu rosto não estava preto. Estava verde. Os olhos estavam inchados e fechados. Suas mãos estavam lívidas... medonhas, e então ele abriu os olhos.

Ben deu um enorme trago no cigarro e o jogou pela janela, na escuridão.

— Dei um grito que deve ter sido ouvido a quilômetros de distância. E saí correndo. Caí pelas escadas, levantei e saí correndo pela porta da frente e pela estrada. Os meninos me esperavam a uns quinhentos metros da casa. Foi quando notei que ainda estava com a cúpula de neve na mão. E ainda a tenho.

— Você não acha mesmo que viu Hubert Marsten, não é, Ben? — Na distância, ela viu a luz amarela que indicava o centro da cidade e sentiu alívio.

Ele demorou um momento para responder.

— Não sei — disse ele, com dificuldade e relutância, como se tivesse preferido dizer não e encerrar o assunto. — Provavelmente eu estava tão nervoso que tive uma alucinação. Por outro lado, pode haver alguma verdade na crença de que as casas absorvem as emoções vividas nelas, que contêm um tipo de... carga elétrica. Talvez certas personalidades, como a de um menino cheio de imaginação, possam agir como catalisadores dessa carga, fazendo com que produza uma manifestação ativa... de algo. Não estou falando de fantasmas, exatamente. Estou falando de uma televisão psíquica em três dimensões. Talvez até algo vivo. Um monstro, se você preferir.

Ela pegou um cigarro dele e o acendeu.

— Só sei que dormi com a luz acesa durante semanas depois disso, e sonhei que abria aquela porta em vários momentos ao longo da vida. Principalmente quando estou sob tensão.

— Isso é terrível.

— Não, não é — disse ele. — Não muito, de qualquer jeito. Todos temos nossos pesadelos. — Ele apontou com o polegar as casas silenciosas e adormecidas que passavam por eles na avenida Jointner. — Fico surpreso que as tábuas dessas casas não gritem com as coisas horríveis que acontecem nos sonhos. — Ele fez uma pausa. — Quer ir até a pensão da Eva e conversar um pouco na varanda? Não posso convidá-la para entrar, regras da casa, mas tenho umas cocas na geladeira e um Bacardi no quarto, se quiser tomar um drinque.

— Gostaria muito.

Ele virou na rua da Ferrovia, desligou os faróis e entrou no pequeno estacionamento de terra da pensão. A varanda de trás era pintada de branco com frisos vermelhos, e suas três cadeiras de vime estavam viradas para o rio Royal. O rio estava deslumbrante. A lua tardia de verão, quase cheia, brilhava entre as árvores da margem e pintava um caminho prateado na água. Com a cidade silenciosa, ela ouvia o som espumante da água se precipitando pelos canais da represa.

— Sente-se. Já volto.

Ele entrou, fechando a porta de mansinho ao passar, e Susan sentou numa das cadeiras de balanço.

Ela gostava dele, apesar de seu jeito estranho. Não acreditava em amor à primeira vista, mas acreditava que o desejo instantâneo (chamado pelo nome mais inocente de “atração”) ocorria com freqüência. No entanto, ele não era o tipo de homem capaz de inspirar passagens arrebatadas num diário secreto. Era magro demais para sua altura, um pouco pálido. Tinha um rosto introspectivo e livresco, e seus olhos raramente revelavam o curso de seus pensamentos. Tudo isso coroado por uma densa cabeleira preta que parecia alinhada com os dedos, em vez de penteada.

E aquela história...

Nem Conway’s Daughter nem Air Dance indicavam uma mentalidade tão mórbida. O primeiro era sobre a filha de um pastor, que entra para a contracultura e faz uma longa e errante viagem de carona pelo país. O segundo era a história de Frank Buzzey, um prisioneiro fugitivo que começa vida nova como mecânico de carro em outro estado, até ser recapturado. Ambos eram livros cheios de vida e energia, e a sombra oscilante de Hubie Marsten, refletida nos olhos de um menino, não parecia pairar sobre eles.

Levada por esse pensamento, ela desviou os olhos do rio para o lado esquerdo da varanda, onde o último monte diante da cidade ocultava as estrelas.

— Tome — disse ele. — Espero que esteja bom.

— Olhe a Casa Marsten — disse ela.

Ele olhou. Havia uma luz acesa lá em cima.

7

Já passava da meia-noite, e os copos estavam vazios. A lua quase sumira de vista. Eles haviam conversado sobre assuntos leves, quando ela disse, depois de uma pausa.

— Gosto de você, Ben. Muito.

— Também gosto de você. E estou surpreso... Não, não quis dizer isso. Lembra daquele comentário bobo que fiz no parque? É que tudo isso parece tão fortuito.

— Quero ver você de novo, se você quiser.

— Eu quero.

— Mas vá devagar. Lembre-se de que sou apenas uma moça do interior.

Ele sorriu.

— Isso é tão hollywoodiano. Mas no bom sentido. Devo beijar você agora?

— Sim — disse ela, seriamente. — Agora vem essa parte.

Ele estava sentado na cadeira de balanço ao lado dela e, sem interromper o lento movimento para frente e para trás, ele se inclinou e pousou os lábios sobre os dela, mas não tentou alcançar sua língua ou tocar seu corpo. Os lábios dele eram firmes com a pressão dos dentes retos, e ela sentiu um leve sabor-aroma de mm e tabaco.

Ela também começou a balançar, e o movimento tornou o beijo diferente. Aumentava e diminuía de intensidade, firme e depois leve. Ela pensou: “Ele está sentindo meu gosto.” A idéia despertou uma secreta excitação em seu íntimo, e ela interrompeu o beijo antes de ir longe demais.

— Uau — disse ele.

— Você quer jantar na minha casa amanhã? — perguntou ela. — Meus pais adorariam te conhecer. — No prazer e na serenidade daquele momento, ela decidiu dar uma sopa para sua mãe.

— Comida caseira?

— Mais caseira impossível.

— Eu adoraria. Tenho vivido à base de comida congelada desde que mudei para cá.

— Às seis horas? Jantamos cedo na roça.

— Está ótimo. E, falando em casa, é melhor eu te levar. Vamos.

Eles não conversaram no caminho de volta até ela ver a luz brilhando no alto do monte, que sua mãe sempre deixava acesa quando ela saía.

— Quem será que está lá em cima? — ela perguntou, olhando para a Casa Marsten.

— O novo dono, provavelmente — disse ele, em tom neutro.

— Não parecia luz elétrica — refletiu ela. — Era amarela e fraca demais. Um lampião a querosene, talvez.

— Ainda não devem ter tido a chance de ligar a eletricidade.

— Talvez. Mas qualquer um com o mínimo de prudência teria ligado para a companhia elétrica antes de se mudar.

Ele não respondeu. Eles haviam chegado à entrada da casa dela.

— Ben — ela disse de repente. — Seu novo livro é sobre a Casa Marsten?

Ele riu e a beijou na ponta do nariz.

— Já está tarde.

Ela sorriu para ele.

— Não quis ser xereta.

— Tudo bem. Mas talvez outra hora... à luz do dia.

— Está bem.

— É melhor entrar, menina. Às seis amanhã?

Ela olhou para o relógio.

— Às seis hoje.

— Boa-noite, Susan.

— Boa-noite.

Ela saiu e correu com leveza até a porta lateral, onde se virou e acenou enquanto ele se afastava. Antes de entrar, acrescentou creme de leite à lista do leiteiro. Com batatas assadas, daria um toque de classe ao jantar.

Ela se demorou mais um minuto antes de entrar, olhando a Casa Marsten.

8

Em seu quarto caixa-de-fósforo, ele se despiu com a luz apagada e deitou na cama nu. Ela era uma boa moça, a primeira desde que Miranda morrera. Ele esperava não tentar transformá-la em uma nova Miranda — seria doloroso para ele e terrivelmente injusto com ela.

Ele deitou e deixou seu pensamento vagar. Um pouco antes de o sono chegar, ele se apoiou no cotovelo, olhou além da sombra quadrada de sua máquina de escrever e da fina pilha de originais, pela janela. Ele pedira aquele quarto a Eva Miller após olhar muitos outros, porque dava diretamente para a Casa Marsten.

A luz continuava acesa.

Naquela noite ele teve o velho sonho pela primeira vez desde que chegara a Jerusalem’s Lot. Não o tivera com tanta nitidez desde os terríveis dias que se seguiram à morte de Miranda no acidente de motocicleta. A travessia do corredor, o horrível gemido da porta ao abrir, o vulto pendurado abrindo subitamente os medonhos olhos inchados, ele se virando para a porta com a lentidão pegajosa dos sonhos...

E a encontrando trancada.
Capítulo Três

A CIDADE (I)

1

A cidade não tardava a despertar — as tarefas não esperavam. Ainda com o sol sob a linha do horizonte e a escuridão sobre a terra, as atividades já se iniciavam.

2

4h00.



Os filhos dos Griffen — Hal, de 18 anos, e Jack, de 14 — e os dois ajudantes haviam começado a ordenhar as vacas. O celeiro caiado brilhava de tão limpo. No centro, entre as passarelas impecáveis que davam para as baias dos dois lados, estendia-se um bebedouro de cimento. Hal ligou a água apertando um botão e abrindo uma válvula. A bomba elétrica que puxava água de um dos dois poços artesianos que abasteciam o local começou a funcionar com um murmúrio constante. Era um rapaz rude, taciturno, especialmente mal-humorado naquele dia. Havia tido uma briga com o pai na noite anterior. Hal queria parar de estudar. Odiava a escola. Odiava a chatice, a exigência de que ficasse parado por longos períodos de 55 minutos. E odiava todas as matérias, com a exceção de Marcenaria e Artes Gráficas. Inglês era irritante, história era uma estupidez, matemática era incompreensível. E não serviam para nada, aquilo era o pior. As vacas não se importavam se você falasse errado, não ligavam para quem era o comandante do maldito exército do Potomac durante a maldita Guerra Civil, e, quanto à matemática, seu próprio pai não conseguia somar dois quintos e uma metade nem com uma arma na cabeça. Por isso tinha um contador. Era um coitado. Fizera faculdade e ainda trabalhava para uma besta como o seu pai. E seu pai mesmo lhe dissera muitas vezes que estudar não era o segredo para ter um negócio de sucesso (e a pecuária era um negócio como qualquer outro), conhecer as pessoas era o segredo. Era mestre em falar bobagens sobre as maravilhas da educação, justo ele que parara na sexta série. Nunca lia nada além da Reader’s Digest, e a fazenda lucrava 16 mil dólares por ano. Conheça as pessoas. Aperte as mãos delas e pergunte pelas esposas pelo primeiro nome. Bom, Hal conhecia as pessoas. Havia dois tipos: as que se deixavam manipular e as que não se deixavam. As primeiras excediam em número as últimas numa proporção de dez a um.

Infelizmente, seu pai pertencia à segunda categoria.

Olhou por cima do ombro para Jack, que lenta e sonhadoramente tirava feno de um fardo e o colocava nas primeiras quatro baias. Lá estava o rato de biblioteca, o queridinho do papai. O merdinha.

— Vamos! — gritou. — Ponha logo esse feno.

Ele abriu os armários e tirou a primeira das quatro máquinas de ordenhar. Arrastou-a pelo corredor, franzindo a testa com fúria sobre a brilhante superfície de aço inoxidável.

Escola. Maldita e insuportável escola.

Os nove meses seguintes se estendiam diante dele como uma interminável tumba.

3

4h30.



Os frutos da ordenha do dia anterior haviam sido processados e voltavam para Lot, dessa vez em caixas de papelão e não em latas de aço galvanizado, com o rótulo colorido dos Laticínios Slewfoot Hill. O pai de Charles Griffen vendera seu próprio leite, mas aquilo não era mais viável. Os conglome­rados haviam devorado os últimos independentes.

O leiteiro da Slewfoot Hill na parte oeste de Salem, Irwin Purinton, começava seu trajeto pela rua Brock (conhecida na cidade como via Brock ou Aquela Maldita Buraqueira). Depois passava pelo centro da cidade e saía de novo dela pela via Brooks.

Win fizera 6l anos em agosto, e pela primeira vez sua aposentadoria parecia real e possível. Sua mulher, uma megera odiosa chamada Elsie, morrera no outono de 1973 (partir antes fora a única atenção que ela tivera com ele em 27 anos de casamento), e quando se aposentasse, ele pegaria o cachorro, um mestiço de cocker chamado Doc, e mudaria para Pemaquid Point. Planejava dormir até as nove todos os dias e nunca mais ver um nascer do sol.

Ele parou em frente à casa dos Norton e encheu seu cesto de metal com a entrega da família: suco de laranja, dois litros de leite, uma dúzia de ovos. Ao sair da perua, sentiu uma pontada no joelho, mas fraca. O dia seria bom.

Ele viu um acréscimo na encomenda habitual da Sra. Norton, escrito com a letra redonda e cultivada de Susan: “Por favor, deixe um creme de leite pequeno, Win. Obrigada.”

Purinton voltou à perua para buscar o creme, pensando que seria um daqueles dias em que todo mundo quer algo especial. Creme de leite! Provou o negócio uma vez e sentiu vontade de vomitar.

O céu começava a clarear no leste e, nos campos que se estendiam até a cidade, o denso orvalho brilhava como uma fortuna em diamantes.

4

5hl5.



Eva Miller já estava de pé há vinte minutos, usando um gasto vestido caseiro e frouxos chinelos cor-de-rosa. Preparava seu café da manhã — quatro ovos mexidos, oito fatias de bacon, uma porção de batatas fritas. Reforçava esse humilde repasto com duas torradas com geléia, um copo de suco de laranja e duas xícaras de café com creme para terminar. Era uma mulher grande, embora não exatamen­te gorda. Sempre trabalhara demais em sua pensão para chegar a ser gorda. Seu corpo tinha curvas heróicas, rabelaisianas. Vê-la em ação diante do fogão elétrico de oito bocas era como ver os movimen­tos agitados da maré ou a migração de dunas.

Ela gostava de fazer a refeição matinal em total solidão, planejando as tarefas do dia. E havia muito a fazer — quarta-feira era o dia de trocar as roupas de cama. Ela estava com nove pensionistas, contando o novo, o Sr. Mears. A casa tinha três andares e 17 quartos, e era preciso lavar os pisos, esfregar as escadas, encerar o corrimão e virar o tapete na sala comunitária. Pediria que Weasel Craig a ajudasse, se ele não estivesse curando uma bebedeira.

A porta de trás abriu no momento em que ela sentou à mesa.

— Oi, Win. Como vai?

— Mais ou menos. O joelho está incomodando um pouco.

— Que pena. Quer deixar mais um litro de leite e quatro litros daquela limonada?

— Claro — disse ele, resignado. — Eu sabia que o dia seria assim.

Ela atacou os ovos, ignorando o comentário. Win Puriton sempre encontrava motivo para se queixar. E no entanto, era para ser o homem mais feliz do mundo desde que aquela bruxa com quem ele se juntara caiu da escada do porão e quebrou o pescoço.

Às 5h45, quando ela terminava a segunda xícara de café e fumava um Chesterfield, o Press-Herald foi jogado na parede da casa e caiu nas roseiras. Era a terceira vez naquela semana; o filho dos Kilby tinha dado para isso. Entregar jornais devia estar fazendo mal para sua cabeça. Ela deixaria o jornal lá por enquanto. A primeira luz da manhã, fino e precioso ouro, entrava, oblíqua, pelas janelas. Era a melhor hora do dia, e ela não perturbaria sua paz por nada.

Seus pensionistas podiam usar o fogão e a geladeira — estava incluído no aluguel, como a troca da roupa de cama — e em breve a paz seria interrompida quando Grover Verrill e Mickey Sylvester descessem para engolir o cereal com leite antes de partirem para a fábrica de tecidos em Gate Falls, onde trabalhavam.

Como se seus pensamentos tivessem evocado esse momento, a descarga do banheiro no segun­do andar foi acionada e Eva ouviu as pesadas botas de trabalho de Sylvester nas escadas.

Ela se levantou pesadamente e foi resgatar o jornal.

5

6h05.


O choro miúdo do bebê penetrou o sono superficial de Sandy McDougall, e ela levantou para ver o filho com os olhos ainda turvos e fechados. Bateu a canela na mesa-de-cabeceira e exclamou:

— Caca!


O bebê, ouvindo-a, chorou mais alto.

— Cale a boca! — gritou ela. — Já estou indo!

Ela cruzou o estreito corredor do trailer até a cozinha, uma moça esguia que perdia a pouca e marginal beleza que um dia tivera. Tirou a mamadeira de Randy da geladeira, pensou em esquentá-la, mas mudou de idéia. Se você quer tanto, meu chapa, tome gelada mesmo.

Ela foi para o quarto do menino e o olhou com frieza. Tinha dez meses, mas era doentio e choroso. Engatinhava há apenas um mês. Talvez tivesse pólio ou algo assim. E agora tinha algo em suas mãos, e na parede também. Ela avançou, pensando o que ele andara aprontando, minha Nossa Senhora.

Ela tinha 17 anos, e havia completado um ano de casamento em julho. Quando se casara com Royce McDougall, grávida de seis meses e parecendo o dirigível da Goodyear, o casamento lhe parecera uma bênção, como dissera o padre Callahan — uma saída de emergência. Agora parecia apenas um monte de caca.

E era exatamente isso, ela notou com desespero, que Randy espalhara nas mãos, na parede e nos cabelos.

Ela ficou parada, olhando-o estupidamente, segurando a mamadeira gelada.

Fora por isso que ela desistira do colégio, dos amigos, da esperança de se tornar modelo. Por aquele trailer decrépito escondido na Curva, a fórmica já descolando em tiras dos balcões, por um marido que trabalhava o dia todo na fábrica e saía de noite para beber e jogar pôquer com os amigos vagabundos do posto de gasolina. Por um filho que se parecia com seu inútil pai e espalhava caca por toda parte.

Ele chorava a plenos pulmões.

Cale a boca!— ela gritou de repente, e atirou a mamadeira de plástico no menino, atingin­do-o na testa. Ele caiu de costas no berço, berrando e agitando os braços. Um círculo vermelho brotou logo abaixo da linha dos cabelos, e ela sentiu na garganta um horrível misto de satisfação, piedade e ódio. Arrancou-o do berço como se fosse um pedaço de trapo.

Cale a boca! Cale a boca! Cale a boca!— Deu-lhe dois murros antes de conseguir se controlar e os gritos de dor de Randy se tornarem altos demais. Ele jazia no berço, ofegante, o rosto arroxeado.

— Desculpe — murmurou ela. — Ai, meu Deus do céu. Desculpe. Você está bem, Randy? Espere, mamãe vai te limpar.

Quando ela voltou com um pano úmido, os olhos de Randy haviam inchado e perdiam a cor. Mas aceitou a mamadeira e, quando ela começou a limpar seu rosto com o pano, ele lhe abriu um sorriso sem dentes.

Direi a Roy que ele caiu da mesa de trocar, pensou ela. Ele vai acreditar. Meu Deus, ele tem que acreditar.

6

6h45.


A maioria da população operária de ’salem’s Lot estava a caminho do trabalho. Mike Ryerson era um dos poucos que trabalhava na cidade. No relatório anual do município, ele aparecia como zelador das áreas verdes, mas na verdade era responsável pelos três cemitérios da cidade. No verão, era quase um trabalho em período integral. Mas, mesmo no inverno, não era bolinho, como alguns, entre eles o presunçoso George Middler da loja de ferragens, pareciam pensar. Ele trabalhava meio-período para Carl Foreman, o agente funerário da cidade, e a maioria dos velhos batia as botas no inverno.

Ele seguia para a via Burns em sua camionete, levando podadeiras, um aparador movido a bateria, uma caixa de flâmulas, um pé-de-cabra para levantar lápides tombadas, uma lata com dez galões de gasolina e dois cortadores de grama Briggs & Stratton.

Ele cortaria a grama do cemitério Harmony Hill naquela manhã, e faria os consertos necessários nas lápides e no muro de pedra. À tarde, ele cruzaria a cidade até o cemitério do monte do Pátio do Colégio, onde professores às vezes iam estudar as lápides, devido a uma extinta colônia de Shakers que haviam enterrado seus mortos lá. Mas Harmony Hill era seu preferido entre os três. Não era tão velho como o cemitério do monte do Pátio do Colégio, mas era agradável e sombreado. Esperava um dia ser enterrado lá também — dali a uns cem anos, mais ou menos.

Ele tinha 27 anos, e fizera três anos de faculdade ao longo de uma carreira bastante diversificada. Esperava voltar um dia e terminar o curso. Era bonitão e, com seu jeito aberto e agradável, não tinha a menor dificuldade em conhecer mulheres nas noites de sábado no Dell’s ou em Portland. Algumas ficavam desiludidas com seu emprego, coisa que Mike sinceramente não entendia. Era um trabalho agradável, sem patrões o vigiando o tempo todo, e era ao ar livre, sob o céu azul. E daí se ele às vezes abria algumas covas ou dirigia o carro funerário de Carl Foreman? Alguém tinha de fazer isso. Na cabeça dele, a única coisa mais natural do que a morte era o sexo.

Cantarolando, ele virou na rua Burns e engatou segunda marcha para subir o morro. A poeira seca crescia atrás dele. Entre a vegetação sufocada pelo calor ao longo da estrada, ele via os troncos esqueléticos das árvores queimadas no grande incêndio de 1951, como velhos ossos em decomposição. Ele sabia que lá se escondiam armadilhas mortais, onde os mais descuidados podiam quebrar a perna. Mesmo passados 25 anos, as cicatrizes do grande incêndio permaneciam. Bom, era assim mesmo. Em plena vida, a morte nos cercava.

O cemitério ficava no alto do morro, e Mike embicou na entrada para carros, pronto para sair e abrir o portão... e brecou a camionete bruscamente.

O corpo de um cão fora pendurado de cabeça para baixo no portão de ferro forjado, e seu sangue enlameava a terra embaixo.

Mike saiu da camionete e correu para o cachorro. Tirou as luvas de trabalho dos bolsos traseiros e levantou a cabeça do animal, que cedeu com horrível flacidez, e ele viu os olhos vazios e vidrados de Doc, o vira-lata de Win Purinton. O cão fora espetado num dos altos espigões do portão, como um pedaço de carne num gancho de metal. Moscas, lentas no frescor da manhã, já rastejavam preguiçosa­mente sobre a carcaça.

Mike puxou o corpo do animal com dificuldade até arrancá-lo, nauseado pelos sons molhados que acompanharam seus movimentos. Vandalismo em cemitérios não era novidade para ele, principal­mente na época do Halloween, mas ainda faltava um mês e meio para a festa, e ele nunca vira nada parecido antes. Geralmente eles se contentavam em derrubar algumas lápides, pichar algumas obsceni­dades ou pendurar um esqueleto de papel no portão. Mas, se aquela carnificina fora obra de moleques, que bando de canalhas... Win ia ficar arrasado.

Ele ficou pensando se levava o cachorro logo para a cidade e o mostrava a Parkins Gillespie, mas concluiu que não valia a pena. Era melhor levar o pobre Doc de volta quando fosse almoçar — não que ele fosse ter muito apetite naquele dia.

Ele destrancou o portão e olhou para as luvas, cobertas de sangue. Teria de limpar as barras de ferro do portão, e não daria mais para ir ao monte do Pátio do Colégio naquela tarde. Ele entrou e estacionou, sem cantarolar. O prazer se esvaíra do dia.

7

8h00.



Os lentos ônibus escolares faziam seus trajetos de costume, apanhando crianças que esperavam em frente de casa segurando as lancheiras e fazendo travessuras. Charlie Rhodes era um dos motoristas, e seu trajeto cobria a rua Taggart Stream, no leste de ’salem, e a metade superior da avenida Jointner.

As crianças que andavam no ônibus de Charlie eram as mais bem-educadas da cidade — de todo o distrito escolar, aliás. Ninguém gritava, nem fazia traquinagens, nem puxava rabos-de-cavalo no ônibus 6. Ou ficavam quietinhas e comportadas ou andavam os três quilômetros até a escola primária da rua Stanley e se explicavam na secretaria.

Sabia o que achavam dele, e imaginava perfeitamente do que o chamavam pelas costas. Mas não importava. Ele não admitiria nenhuma peraltice nem porcarias no seu ônibus. Essa parte eles podiam guardar para os molengas dos professores.

O diretor da escola tivera a audácia de lhe perguntar se não agira “impulsivamente” quando suspendeu o filho dos Durham por três dias só por falar alto demais. Charlie se limitou a encará-lo, até que o diretor, um pirralho formado há apenas quatro anos, desviou os olhos. O responsável pela frota de ônibus escolares do Distrito Escolar 21, David Felsen, era um velho amigo seu — haviam lutado juntos na Coréia. Eles se entendiam. Entendiam o que acontecia no país. Sabiam que o menino que “apenas falara alto demais” no ônibus escolar em 1958 era o mesmo que mijara na bandeira em 1968.

Ele deu uma olhadela no amplo espelho retrovisor e viu Mary Kate Griegson passando um bilhete a seu amiguinho, Brent Tenney. Amiguinho... Agora as crianças começavam com a sacanagem já na sexta série.

Ele parou o ônibus, ligando o pisca-pisca. Mary Kate e Brent levantaram os olhos, amedrontados.

— Vocês têm muito o que conversar? — perguntou para o espelho. — Então, podem ir começando.

Abriu as portas dobráveis e esperou que os dois dessem o fora de seu ônibus.

8

9h00.


Weasel Craig rolou para fora da cama — literalmente. O sol que entrava pela sua janela no segundo andar era ofuscante. Sua cabeça latejava. No andar de cima o tal do escritor já estava martelando as teclas. Santo Deus, era preciso ser muito maluco para ficar naquele tec-tec-tec, dia após dia.

Ele levantou e procurou o calendário em sua blusa para ver se era o dia de pegar o cheque de seguro desemprego. Não. Ainda era quarta-feira.

A ressaca não estava tão forte como outras vezes. Ele ficara no Dell’s até fechar, à uma, mas levara apenas dois dólares e não conseguira filar muita cerveja depois de gastá-los. Estou perdendo minha lábia, pensou, esfregando o rosto.

Ele vestiu a camiseta térmica que sempre usava, fosse inverno ou verão, as calças verdes de trabalho, e depois abriu o armário e pegou o café da manhã — uma garrafa de cerveja quente para tomar no quarto e uma caixa de aveia doada pelo governo para comer lá embaixo. Ele odiava aveia, mas prometera à viúva que a ajudaria a virar o tapete, e ela devia ter planejado outras tarefas para ele.

Ele não se importava, não muito, mas era um declínio em relação ao tempo em que dormira com Eva Miller. O marido dela morrera num acidente na serraria em 1959, o que foi até engraçado, se é que dá para achar engraçado um acidente horrível como aquele. Naquele tempo, a serraria empregava sessenta ou setenta homens, e Ralph Miller estava cotado para a presidência da serraria.

O que acontecera com ele foi meio engraçado porque Ralph Miller não encostava numa máquina desde 1952, sete anos antes, quando fora promovido de capataz para administrador. Era gratidão empresarial, sem dúvida, e Weasel supunha que Ralph fizera por merecer. Quando o grande incêndio saíra dos pântanos e tomara a avenida Jointner impulsionado por um vento leste de 50 quilômetros por hora, todos pensavam que era o fim da serraria. Os corpos de bombeiros de seis cidades vizinhas tinham que tentar salvar a cidade, e não podiam gastar tempo nem homens com a Serraria de Jerusalem’s Lot. Ralph Miller organizou todos os operários do segundo turno e formou uma brigada de incêndio. Sob sua direção, eles molharam o teto e fizeram o que todos os bombeiros reunidos não haviam conseguido fazer a oeste da avenida Jointner — criaram uma barreira que deteve o fogo e o desviou para o sul, onde foi totalmente contido.

Sete anos depois, ele caiu numa trituradora enquanto conversava com alguns executivos de uma companhia de Massachusetts. Ele lhes mostrava as instalações, tentando convencê-los a comprar ações. Mas escorregou numa poça d’água e, por azar, caiu dentro da trituradora diante dos olhos deles. Obviamente qualquer possibilidade de um negócio foi para o brejo junto com Ralph Miller. A serraria que ele salvara em 1951 fechou para sempre em fevereiro de 1960.

Weasel olhou para o espelho salpicado de água e penteou os cabelos brancos, ainda revoltos e sexy aos 67 anos. Era a única parte dele que o álcool parecia conservar. Depois vestiu a camisa de trabalho cáqui, pegou a caixa de aveia e desceu.

E lá estava ele, quase 16 anos depois que tudo acontecera, trabalhando como um reles zelador para uma mulher com quem já deitara — uma mulher que ele ainda achava tremendamente atraente.

A viúva caiu em cima de Weasel como um abutre assim que ele entrou na cozinha ensolarada.

— Escute, será que você pode encerar o corrimão da frente depois de tomar café, Weasel? Você tem tempo? — Eles conservavam a delicada ficção de que ele fazia aquilo como favores, e não para pagar os 14 dólares por semana do aluguel do quarto.

— Claro, Eva.

— E o tapete da sala da frente...

— Precisa ser virado. Eu lembro.

— Como está sua cabeça hoje? — ela fez a pergunta de modo prático, evitando demonstrar qualquer sentimento de piedade, mas ele o percebeu assim mesmo.

— Está boa — disse, meio ofendido, fervendo água para o mingau de aveia.

— Você chegou tarde. Por isso estou perguntando.

— Está de olho em mim, não é? — Ele ergueu a sobrancelha com malícia e se alegrou ao ver que ela ainda era capaz de corar como uma colegial, mesmo que tivessem parado com gracinhas há quase nove anos.

— Ora, Ed...

Ela era a única que ainda o chamava assim. Para o resto dos habitantes de Lot ele era apenas o Weasel. Mas tudo bem. Eles podiam chamá-lo do que bem quisessem. O urso o pegara, com certeza.

— Deixe para lá — disse ele, bruscamente. — Acordei do lado errado da cama.

— Caiu dela, pelo barulho. — Eva falou mais rapidamente do que pretendera, mas Weasel apenas resmungou. Ele cozinhou e comeu o odioso mingau de aveia e saiu com a lata de cera para móveis e os trapos sem olhar para trás.

No andar de cima, o tec-tec da máquina de escrever continuava. Vinnie Upshaw, cujo quarto ficava em frente ao do escritor, disse que ele começava todas as manhãs às nove, parava ao meio-dia, recomeçava às três, parava às seis, começava de novo às nove e prosseguia sem parar até a meia-noite. Weasel não conseguia imaginar como alguém podia ter tantas palavras na cabeça.

No entanto, ele parecia um sujeito decente, e podia render algumas cervejas no Dell’s uma noite daquelas. Ouvira dizer que escritores bebiam como condenados.

Ele começou a lustrar o corrimão metodicamente, e seus pensamentos voltaram para a viúva. Ela transformara a casa numa pensão com o seguro de vida do marido, e se saíra muito bem. E por que não? Ela trabalhava como uma mula. Mas devia ter se acostumado a deitar todas as noites com o marido, e, depois que a dor passara, a necessidade continuara. Meu Deus, como ela mostrara gosto pela coisa!

Naquele tempo, em 1961 e 62, as pessoas ainda o chamavam de Ed e não de Weasel, e ele ainda controlava a garrafa, e não o contrário. Tinha um bom emprego na B&M, e uma noite, em janeiro de 1962, acontecera.

Ele parou um pouco de lustrar a maçaneta e olhou, pensativo, pela estreita janelinha do patamar do segundo andar. Por ela entravam os últimos raios dourados e risonhos do verão, desafiando o frio outono e o rigoroso inverno que viriam depois.

Naquela noite, tanto ela como ele se quiseram, e depois, deitados na escuridão do quarto, ela começara a chorar e lhe dissera que haviam feito algo errado. Ele lhe dissera que fora certo, sem saber se fora certo ou não e sem se importar, e o vento norte uivara e gritara em torno do telhado, e o quarto dela era quente e seguro, e eles acabaram dormindo juntos, como talheres numa gaveta.

Ah, meu Menino Jesus, o tempo era como um rio, e ele se perguntou se o tal escritor sabia disso.

Voltou a lustrar o corrimão, com movimentos longos e impetuosos.

9

l0h00.


Era hora do recreio na escola primária da rua Stanley, o mais novo e imponente prédio escolar de Lot. Era uma construção baixa e vítrea, com quatro salas de aula, que o distrito escolar ainda estava pagando — tão luminosa, nova e moderna como a escola da rua Brock era velha e escura.

Richie Boddin, o valentão da escola (com muito orgulho) saiu para o pátio majestosamente, procurando pelo menino novo, um espertinho que sabia todas as respostas de matemática. Nenhum menino novo podia ir entrando na sua escola sem antes saber quem mandava lá. Principalmente um quatro-olhos puxa-saco e maricas como aquele.

Richie tinha 11 anos e pesava 70 quilos. Durante toda a vida, sua mãe chamara a atenção de todos para como seu filho era um menino enorme. E ele sabia que era grande. Às vezes lhe pare­cia sentir o chão tremer sob seus pés quando andava. E, quando crescesse, fumaria Camel, igualzinho a seu pai.

As crianças da quarta e quinta séries morriam de medo dele, e os menorezinhos o viam como um totem da escola. Quando ele passasse para a sétima série e fosse para a escola da rua Brock, o panteão deles perderia o demônio. Tudo isso o enchia de satisfação.

E lá estava o pequeno Petrie, esperando ser escolhido para um dos times de futebol.

— Ei! — gritou Richie.

Todos olharam, exceto Petrie. Cada par de olhos parecia vidrado e cada par de olhos revelou alívio quando viu que os de Richie não se fixavam neles.

— Ei, você, quatro-olhos!

Mark Petrie virou-se e olhou para Richie. Seus óculos de aros de aço faiscaram no sol da manhã. Tinha a altura de Richie, sendo, portanto, mais alto do que os outros meninos da classe, mas era esguio e seu rosto parecia indefeso e letrado.

— Você falou comigo?

— “Você falou comigo?” — imitou Richie, em falsete. — Você parece uma bichinha falando, quatro-olhos. Sabia?

— Não, não sabia — disse Mark Petrie.

Richie deu um passo adiante.

— Aposto que você gosta de chupar, sabia, quatro-olhos? Aposto que você gosta de fazer chupeta.

— É mesmo? — Seu tom educado era enfurecedor.

— É, ouvi dizer que você gosta. E não só às quintas. Você não vive sem. É todo dia.

As crianças se aproximavam aos poucos para ver Richie massacrar o menino novo. A Srta. Holcomb, que supervisionava o pátio aquela semana, estava na frente, vigiando os pequenos nos balanços e gangorras.

— Qual é a sua? — Mark Petrie perguntou. Ele olhava para Richie como se tivesse descoberto um interessante besouro.

— “Qual é a sua?” — Richie imitou em falsete. — Não é da sua conta. Só ouvi dizer que você é uma bicha louca, só isso.

— Sério? — Mark perguntou, ainda educado. — E eu ouvi dizer que você é um cretino burro e desengonçado.

Silêncio total. Os outros meninos ficaram boquiabertos (mas interessados; era a primeira vez que viam alguém assinar sua própria sentença de morte). Richie, pego de surpresa, ficou tão atônito como os outros.

Mark tirou os óculos e os entregou ao menino a seu lado.

— Segure, por favor.

O menino os pegou e olhou para Mark em silêncio reverente.

Richie atacou. Foi um golpe lento e pesado, sem um pingo de graça ou sutileza. O chão tremeu sob seus pés. Ele estava cheio de confiança e de vontade de bater e quebrar. Armou o soco direitinho, de modo a acertar o quatro-olhos bem na boca e fazer seus dentes voarem como teclas de piano. Prepare-se para o dentista, florzinha. Lã vou eu.

Mark Petrie abaixou-se e desviou a tempo de fazer o soco passar por cima de sua cabeça. Richie se desequilibrou com a força de seu próprio golpe, e Mark só precisou estender o pé. Richie Boddin desabou no chão com um grunhido. A platéia de crianças fez “Aaah”.

Mark sabia muito bem que se o grandalhão recuperasse a vantagem, ele seria espancado. Era ágil, mas a agilidade não adiantava muito numa briga de colégio. Se fosse uma briga de rua, aquela seria a hora de correr, deixar o lento adversário para trás e depois virar e lhe mostrar a língua. Mas não estava na rua nem na cidade grande, e ele sabia que se não derrotasse aquele brutamontes cretino naquela hora, a perseguição não teria fim.

Esses pensamentos passaram por sua cabeça numa fração de segundo.

E ele saltou sobre as costas de Richie Boddin.

Richie grunhiu. A platéia fez “Aaah” de novo. Mark agarrou o braço de Richie, sobre a manga da camisa para que ele não escorregasse e se soltasse, e o torceu sobre suas costas. O grandalhão gritou de dor.

— Peça penico — disse Mark.

A resposta de Richie teria agradado a um marinheiro de vinte anos.

Mark puxou o braço de Richie até as omoplatas e ele gritou de novo. Estava cheio de indigna­ção, medo e perplexidade. Aquilo nunca lhe acontecera antes. Não podia estar acontecendo agora. Nenhum florzinha quatro-olhos podia estar sentado nas suas costas, torcendo seu braço e o obrigando a gritar diante de seus súditos.

— Peça penico — repetiu Mark.

Richie se ergueu penosamente sobre os joelhos. Mark apertou seus próprios joelhos ao redor do outro menino, como se montasse um cavalo a pêlo. Ambos estavam cobertos de poeira, mas p estado de Richie era bem mais lastimável. Seu rosto estava vermelho e tenso, seus olhos saltavam para fora e tinha um arranhão na bochecha.

Richie tentou derrubar Mark por cima dos ombros, mas o menino puxou seu braço para cima de novo. E dessa vez Richie não gritou — urrou.

— Peça penico, ou vou acabar quebrando seu braço.

A camisa de Richie escapara de dentro das calças. Sua barriga estava quente e arranhada. Ele começou a soluçar e a sacudir os ombros, tentando se libertar. Mas o detestável quatro-olhos continua­va em cima dele. Sentia o braço gelado, o ombro pegando fogo.

— Sai de cima de mim, seu filho-de-uma-puta! Você não briga limpo!

Uma explosão de dor.

— Peça penico.

— Não!


Ele perdeu o equilíbrio e caiu de cara na poeira. A dor em seu braço era paralisante. Ele comia poeira. Entrava terra em seus olhos. Ele agitava as pernas, impotente. Esquecera que era enorme. Esquecera que a terra tremia sob seus pés. Esquecera que fumaria Camel, igualzinho a seu pai, quando crescesse.

— Penico! Penico! Penico! — Richie gritou. Poderia gritar penico durante horas, dias, para libertar o braço.

— Diga, sou um cretino feio e burro.

— Sou um cretino feio e burro! — gritou Richie, com a boca contra o chão.

— Está bem.

Mark Petrie saiu de cima de Richie e, enquanto este se levantava, andou até uma distância segura. Suas coxas doíam de tanto que as havia apertado. Torcia para que Richie não tivesse mais forças para brigar. Caso contrário, seria esmagado.

Richie levantou. Olhou ao redor. Todos desviaram os olhos. Deram-lhe as costas e voltaram para aquilo que faziam antes. O miserável do Glick estava ao lado do florzinha, olhando-o como se fosse um deus.

Richie mal podia acreditar na rapidez com que a ruína se abatera sobre ele. Seu rosto estava coberto de poeira, com a exceção dos sulcos abertos por suas lágrimas de raiva e vergonha. Pensou em se lançar contra Mark Petrie, mas o vexame e o medo, imensos agora, não permitiram. Não ainda. Seu braço latejava como um dente cariado. Filho-de-uma-puta. Quando eu colocar as mãos em você...

Mas não naquele dia. Ele se virou, e quando se afastou, o chão não tremeu nem um pouco. Olhou pra baixo para não precisar olhar para ninguém.

Alguma menina soltou um riso — um som agudo e escarnecedor que se espalhou com cruel nitidez no ar da manhã.

Ele não levantou os olhos para ver quem era.

10

11h15



O Depósito de Lixo de Jerusalem’s Lot havia sido uma simples cascalheira até o solo argiloso ter aparecido e gerado lucros em 1945. Ficava no fim de um desvio que saía da estrada Burns três quilômetros depois do cemitério Harmony Hill.

Dud Rogers ouvia o distante resfolegar do cortador de grama de Mike Ryerson mais à frente. Mas aquele som logo seria abafado pelo crepitar das chamas.

Dud era o zelador do depósito desde 1956, e sua renomeação a cada ano na reunião de eleitores era rotineira e unânime. Ele morava num limpo galpão de encerado, com uma placa dizendo “Zelador” pendurada na porta inclinada. Conseguira arrancar um aquecedor portátil dos mesquinhos membros do conselho municipal três anos antes, e deixara seu apartamento na cidade para sempre.

Além de corcunda, sua cabeça se inclinava num ângulo peculiar, como se Deus tivesse lhe dado um último e atrevido puxão antes de colocá-lo no mundo. Seus braços, que pendiam de modo simiesco quase até os joelhos, eram espantosamente fortes. Fora preciso quatro homens para colocar o velho cofre da loja de ferragens no caminhão e levá-lo até o depósito quando o estabelecimento fora reformado. Os pneus do caminhão haviam afundado consideravelmente quando recebeu a carga. Mas Dud Rogers o tirara da carroceria sozinho, tendões se projetando do pescoço, veias inchando na testa, antebraços e bíceps como cabos azuis. E o empurrara para o fundo do depósito sozinho.

Dud gostava do depósito. Gostava de expulsar as crianças que iam até lá quebrar garrafas, gostava de dirigir o trânsito para o local onde estava sendo depositado o lixo em determinado dia. Gostava de remexer no lixo, que era seu privilégio como zelador. Supunha que riam dele, andando pelas montanhas de entulho com botas altas e impermeáveis e luvas de couro, a pistola no coldre, um saco sobre os ombros, o canivete na mão. Que rissem. Lá ele encontrava fios de cobre e às vezes motores inteiros com o revestimento de cobre intacto, e o metal alcançava um bom preço em Portland. Encontrava cômodas, cadeiras e sofás semidestruídos, que consertava e vendia para antiquários na Rota 1. Dud enganava os lojistas e estes, por sua vez, enganavam os turistas, o que provava como o mundo sabia dar suas voltas. Dois anos antes, ele encontrara uma antiga cama com detalhes em espiral, mas com o estrado quebrado, e a vendera para uma bicha de Wells por duzentos dólares. O veado entrara em êxtase, achando que fosse uma autêntica cama da Nova Inglaterra, sem desconfiar que Dud lixara cuidadosamente a inscrição Made in Grand Rapids de trás da cabeceira.

Nos fundos do depósito ficavam os carros velhos — Buicks, Fords, Chevrolets, tinha de tudo. Os donos os jogavam fora desprezando peças em ótimo estado. Os radiadores eram os melhores, mas um bom carburador de quatro canos rendia sete dólares depois de mergulhado em gasolina. Sem falar nas correias de ventilador, lanternas traseiras, capas de distribuidor, pára-brisas, volantes e tapetes.

Sim, o depósito era legal. Uma mistura de Disneylândia e Shangri-lá. Mas o melhor não era nem o dinheiro, guardado na caixa preta enterrada debaixo de sua poltrona.

O melhor eram as fogueiras — e os ratos.

Dud incendiava parte do depósito nas manhãs de domingo e quarta e nas tardes de segunda e sexta. As fogueiras noturnas eram as mais bonitas. Ele adorava o brilho rosado e fosco que escapava dos plásticos verdes de detritos, dos jornais e das caixas. Mas as fogueiras matinais eram melhores em termos de ratos.

Agora ele estava na poltrona, observando o fogo se expandir e começar a manchar o ar com sua viscosa fumaça preta, espantando as gaivotas. Segurava a pistola calibre 22 frouxamente e esperava a saída dos ratos.

Quando eles vinham, era em batalhões. Eram grandes, de um cinza sujo e olhos cor-de-rosa. Pequenas pulgas e carrapatos saltitavam em seu couro. Arrastavam as caudas como grossos fios rosados. Dud adorava atirar nos ratos.

— Você comprou uma bela carga de balas, Dud — George Middler, da loja de ferragens, dizia com sua voz pegajosa, empurrando as caixas de Remingtons para ele. — A prefeitura paga?

Era uma velha piada. Alguns anos antes, Dud fizera uma ordem de compra de dois mil cartuchos calibre 22 de ponta oca, e Bill Norton fechara a cara e o mandara às favas.

— Escute, George — dizia Dud —, você sabe que só estou prestando um serviço público.

Veja aquele gordão, mancando com a pata traseira. Aquele era George Middler. Tinha algo na boca que parecia um pedaço de fígado de galinha.

— Lá vai, George. Esta é para você — disse Dud, e apertou o gatilho. A explosão do 22 era curta e discreta, mas o rato rolou duas vezes e parou, se contorcendo. Balas de ponta oca, essas eram as melhores. Um dia ele compraria uma .45 ou uma .357 Magnum de diâmetro grande para ver o que fariam com aqueles viadinhos.

A próxima era aquela putinha da Ruthie Crockett, que não usava sutiã para ir à escola e vivia cutucando os amigos e dando risinhos quando ele passava. Bang. Tchauzinho, Ruthie.

Os ratos corriam loucamente para se proteger no outro lado do depósito, mas, antes que escapassem, Dud acertara seis deles — uma boa safra matinal. Se ele chegasse perto, veria os carrapatos fugindo dos corpos que esfriavam como... ora, como ratos fugindo de um navio afundando.

Ele achava aquele passatempo incrivelmente divertido, e atirou para trás a cabeça enviesada, recostou a corcunda e deu longas gargalhadas enquanto o fogo crepitava entre os detritos com ávidos dedos alaranjados.

A vida era mesmo uma festa.

11

12h00.


O apito da cidade soou ao meio-dia com alarde, anunciando a hora do almoço para as três escolas e inaugurando a tarde. Lawrence Crockett, o segundo membro do conselho de Lot e proprietá­rio da Imobiliária Southern Maine, largou o livro que estava lendo (As Escravas Sexuais de Satã) e acertou o relógio pelo apito. Foi até a porta e pendurou a placa “Volto à uma hora” na maçaneta. Sua rotina era sempre a mesma. Andava até o Excellent Café, comia dois cheeseburguers, tomava uma xícara de café e contemplava as pernas de Pauline enquanto fumava um William Penn.

Balançou a maçaneta para ver se a tranca fechara e seguiu para a avenida Jointner. Parou na esquina e olhou para a Casa Marsten. Havia um carro na entrada. Mal podia discerni-lo, brilhando na distância. A visão lhe causou um aperto no peito. Ele vendera a Casa Marsten e a extinta Lavanderia da Vila num só pacote havia mais de um ano. Fora o negócio mais estranho de sua vida, e olha que ele já fizera negócios bem esquisitos. O dono do carro era, com toda a certeza, um homem chamado Straker. R. T. Straker, de quem ele recebera uma correspondência naquela manhã mesmo.

Ele chegara ao escritório de Crockett numa ensolarada tarde de julho havia mais de um ano. Saiu do carro e ficou um instante na calçada antes de entrar. Era alto e vestia um sóbrio terno de três peças, apesar do calor. Era careca como uma bola de bilhar, e igualmente imune ao suor. Suas sobrancelhas eram um risco negro, e sob elas as órbitas dos olhos pareciam buracos escuros abertos em seu rosto angular com uma broca. Tinha consigo uma fina pasta preta. Larry estava sozinho no escritório. Sua secretária, uma moça de Falmouth com o mais belo par de peitos do mundo, trabalhava para um advogado de Gates Fall na parte da tarde.

O careca sentou-se na cadeira reservada ao cliente, pousou a pasta no colo e encarou Larry Crockett. Era impossível decifrar a expressão de seus olhos, e aquilo incomodou Larry. Gostava de conseguir ler as intenções das pessoas antes mesmo que elas abrissem a boca. Aquele homem não olhara as fotos das propriedades locais exibidas no mural, não estendera a mão e se apresentara — nem sequer dissera olá.

— Como posso servi-lo? — perguntou Larry.

— Fui incumbido de comprar uma residência e um estabelecimento comercial em sua aprazível cidade — disse o careca. Falava com uma voz plana e monótona que fazia lembrar as informações meteorológicas da companhia telefônica.

— Ora, com prazer — disse Larry. — Temos várias excelentes propriedades que talvez...

— Não é preciso — disse o careca, levantando a mão. Larry notou, fascinado, que os dedos dele eram incrivelmente longos, o dedo médio parecia ter mais de dez centímetros. — O estabelecimento comercial fica uma quadra depois do Paço Municipal, de frente ao parque.

— Pois não, podemos fazer negócio. Era uma lavanderia, mas faliu o ano passado. Pode ficar um imóvel muito bom se o senhor...

— A residência — interrompeu-o o careca — é a que os moradores chamam de Casa Marsten. Larry tinha experiência o bastante no ramo para disfarçar sua surpresa e perplexidade.

— É mesmo?

— É. Meu nome é Straker. Richard Throckett Straker. Todos os papéis estarão no meu nome.

— Está bem — disse Larry. O homem falava sério, não havia dúvida. — Meus clientes estão pedindo 14 mil pela Casa Marsten, mas acho que aceitam um pouco menos. Quanto à velha lavanderia...

— Nada feito. Fui autorizado a pagar um dólar.

— Um...? — Larry inclinou a cabeça para frente como se não tivesse ouvido direito.

— Sim. Um momento, por favor.

Os longos dedos de Straker abriram os fechos da pasta e tiraram vários papéis contidos numa pasta azul transparente.

Larry Crockett olhou-o, franzindo a testa.

— Leia, por favor. Assim pouparemos tempo.

Larry abriu a pasta plástica e olhou para a primeira folha com o ar de um homem que faz a vontade de um louco. Seus olhos foram de um lado para o outro por algum tempo, mas depois se fixaram em algo.

Straker esboçou um sorriso. Tirou do bolso do terno uma cigarreira dourada e pegou um cigarro. Bateu-o na mesa e o acendeu com um fósforo. O aroma forte do tabaco turco espalhou-se pela sala, movido pelo ventilador.

Fez-se um silêncio de dez minutos no escritório, interrompido apenas pelo murmúrio do venti­lador e pelo barulho surdo do tráfego na rua. Straker fumou o cigarro até o toco, esmagou as cinzas incandescentes e acendeu outro.

Larry levantou os olhos, o rosto pálido e abalado.

— Só pode ser uma piada. Quem o mandou? John Kelly?

— Não conheço nenhum John Kelly. E não sou de piadas.

— Esses papéis... documento de cessão... título de propriedade... Santo Deus, não sabe que aquele terreno vale um milhão e meio de dólares?

— Não o subestime — disse Straker com frieza. — Vale quatro milhões. E logo valerá mais, quando o shopping for construído.

— O que você quer? — perguntou Larry, com voz rouca.

— Já disse o que quero. Meu sócio e eu planejamos abrir um negócio na cidade. E morar na Casa Marsten.

— Que tipo de negócio? Assassinato e Companhia?

Straker abriu um sorriso frio.

— Uma loja de móveis perfeitamente normal. Com uma linha de antigüidades especiais para colecionadores. Meu sócio é especialista nessa área.

— Merda — disse Larry asperamente. — A Casa Marsten vocês podem levar por oito milhões e meio, a loja, por 16. Seu sócio deve saber disso. E os dois devem saber que esta cidade não vai sustentar uma loja chique de móveis e antigüidades.

— Meu parceiro é muito versado em todos os assuntos que lhe interessam — disse Straker. — Sabe que a cidade fica numa estrada usada por turistas e veranistas. É com essas pessoas que esperamos fazer o grosso dos nossos negócios. Mas isso não lhe diz respeito. Viu se os papéis estão em ordem?

Larry tamborilou na mesa com a pasta azul.

— Parece que estão. Mas você não vai me passar a perna, não importa o que diz querer.

— Não, claro que não. — A voz de Straker estava carregada de polido desdém. — O senhor tem um advogado em Boston, creio eu. Um tal de Francis Walsh.

— Como sabe disso? — vociferou Larry.

— Não importa. Mostre-lhe os papéis. Ele confirmará que são válidos. O terreno onde o shopping center será construído passará a ser seu sob três condições.

— Ah — disse Larry, aliviado. — Condições... — Ele recostou na cadeira e tirou um William Penn da charuteira de cerâmica que tinha sobre a mesa. Acendeu um fósforo na sola do sapato e deu uma baforada. — Agora estamos chegando a algum lugar. Pode falar.

— Primeiro. O senhor me venderá a Casa Marsten e o estabelecimento comercial por um dólar. Seu cliente, no que diz respeito à casa, é uma corporação imobiliária em Bangor. O estabelecimento comercial pertence agora a um banco de Portland. Creio que as duas partes concordarão se o senhor pagar a diferença ao preço mais baixo possível. Fora sua comissão, é claro.

— Onde conseguiu essas informações?

— Isso não lhe diz respeito, Sr. Crockett. Segunda condição. O senhor não dirá nada sobre nossa transação. Nada. Se o assunto vier à tona, o senhor só sabe o que eu lhe disse: somos dois sócios que vão abrir um negócio destinado a turistas e veranistas. Isso é muito importante.

— Não sou fofoqueiro.

— Seja como for, quero enfatizar a importância dessa condição. Chegará um dia, Sr. Crockett, em que desejará contar a alguém sobre o negócio maravilhoso que fez hoje. Se contar, vou descobrir. E vou arruiná-lo. Entendeu?

— Você parece um personagem de um suspense barato — disse Larry. Parecia sereno, mas sentia um secreto tremor de medo. Ele dissera “vou arruiná-lo” como quem diz “boa-tarde”, e esse tom trivial deu à ameaça um sabor de verdade. E como aquele palhaço sabia de Frank Walsh? Nem sua mulher sabia de Frank Walsh.

— Entendeu, Sr. Crockett?

— Entendi — disse Larry. — Estou acostumado a não mostrar as cartas.

Straker abriu o mesmo sorriso tênue.

— Claro. Por isso estou negociando com você.

— A terceira condição?

— A casa precisará de certas reformas.

— É um modo gentil de dizer — disse Larry secamente.

— Meu sócio pretende se encarregar disso pessoalmente. Mas o senhor será seu agente. De vez em quando, faremos pedidos. De vez em quando, precisarei dos serviços dos homens que costuma empregar para levar certas coisas até a casa ou até a loja. Não falará a ninguém desses serviços. Entendeu?

— Sim, entendi. Mas o senhor não é dessas bandas, não é?

— Isso tem alguma pertinência? — perguntou Straker erguendo as sobrancelhas.

— Claro que tem. Não estamos em Boston ou Nova York. Não adianta só eu ficar de bico calado. As pessoas vão comentar. Por exemplo, tem uma velha xereta na rua da Ferrovia, Mabel Werts, que passa o dia com um binóculo...

— Não estou interessado nos moradores. Meu sócio não está interessado nos moradores. Eles sempre comentam. São iguais aos pássaros sobre os fios telefônicos. Logo nos aceitarão.

Larry deu de ombros.

— A festa é sua.

— Exato — concordou Straker. — O senhor pagará por todos os serviços e guardará todas as contas e faturas. E será reembolsado. Concorda?

Larry estava, como dissera a Straker, acostumado a não mostrar as cartas, e tinha fama de ser um dos melhores jogadores de pôquer de Cumberland. Embora tivesse mantido uma fachada calma durante toda a conversa, ele queimava por dentro. O negócio que aquele louco lhe oferecia era do tipo que só aparecia uma vez na vida, quando aparecia. Talvez o patrão dele fosse um daqueles bilionários loucos e reclusos que...

— Sr. Crockett. Estou esperando.

— Eu também tenho duas condições — disse Larry.

— Sim? — Straker mostrou um interesse educado.

Ele agitou a pasta azul.

— Primeiro, esses papéis têm que estar corretos.

— É claro.

— Segundo, se pretendem fazer algo ilegal lá em cima, não quero ficar sabendo. Estou me referindo a...

Mas foi interrompido. Straker jogou a cabeça para trás e deu uma risada singularmente fria e sem emoção.

— Eu disse algo engraçado? — perguntou Larry, sem sombra de sorriso.

— Ah... claro que não, Sr. Crockett. Perdoe minha explosão. Achei seu comentário engraçado por razões próprias. O que ia dizendo?

— Sobre as reformas. Não vou lhe arranjar nada que me cause encrencas. Se está planejando fabricar bebida ilegal, LSD ou explosivos para algum grupo hippie radical, você que se arranje.

— Concordo — disse Straker. — O sorriso sumira de seu rosto. — Negócio fechado?

Com uma estranha relutância, Larry disse:

— Se estes papéis estiverem certos, acho que faremos negócio. Embora pareça que você fez toda a negociação e eu fiquei com todo o dinheiro.

— Hoje é segunda — disse Straker. — Posso passar na quinta à tarde?

— É melhor vir na sexta.

— Muito bem. — Ele levantou. — Bom-dia, Sr. Crockett.

Os papéis estavam corretos. O advogado de Larry disse que o terreno onde o shopping center de Portland seria construído fora comprado por um grupo chamado Imobiliária Continental, uma compa­nhia falsa com escritórios no prédio Chemical Bank, em Nova York. Não havia nada neles além de alguns arquivos vazios e muita poeira.

Straker voltara naquela sexta e Larry assinou a escritura do terreno. Mas o fez com um gosto amargo na boca. Ele abandonara sua própria máxima pela primeira vez na vida: nunca cuspa no prato que comeu. E, embora a recompensa fosse alta, ele percebeu, quando Straker guardou os documentos de posse da Casa Marsten e da antiga Lavanderia Village na pasta, que acabara de se colocar nas mãos daquele homem. E do seu sócio, o ausente Sr. Barlow.

O mês de agosto passara, e o verão se tornara outono, e o outono, inverno, e ele começara a sentir um indefinível sentimento de alívio. Na primavera, ele já quase esquecera o negócio que fizera para conseguir os papéis que agora jaziam em seu cofre em Portland.

E então as coisas começaram a acontecer.

Aquele escritor, Mears, procurou-o havia uma semana e meia perguntando se a Casa Marsten estava para alugar, e o olhara de um modo estranho quando lhe disse que fora vendida.

No dia anterior, encontrara um longo tubo em sua caixa de correio e uma carta de Straker. Um bilhete, na verdade, dizendo: ‘‘Por favor, prenda o cartaz que está recebendo na vitrine da loja. R. T. Straker.” O cartaz em si era bastante comum, e mais discreto que a maioria. Dizia apenas: “Abriremos em uma semana. Barlow & Straker. Móveis finos e antigüidades. Venha nos conhecer.” Ele chamou Royal Snow para colocá-lo imediatamente.

E agora havia um carro na entrada da Casa Marsten. Ele ainda a olhava quando alguém disse a seu lado:

— Está dormindo em pé, Larry?

Ele deu um salto e deu com Parkins Gillespie, ao seu lado, acendendo um Pall Mall.

— Não — disse ele, com um sorriso nervoso. — Estava só pensando.

Parkins olhou para a Casa Marsten, onde o sol fazia brilhar o cromo e o metal do carro, e depois para a velha lavanderia com o novo cartaz na vitrine.

— E você não é o único. É sempre bom receber gente nova na cidade. Você os conheceu, não é?

— Um deles, o ano passado.

— O Sr. Barlow ou o Sr. Straker?

— O Sr. Straker.

— Ele lhe pareceu um bom sujeito?

— Não deu para saber — disse Larry, com vontade de molhar os lábios. Mas não o fez. — Só falamos sobre negócios. Ele me pareceu decente.

— Ótimo. Venha, vou andar com você até o Excellent.

Cruzaram a rua, enquanto Lawrence Crockett pensava em pactos com o diabo.

12

13h00.


Susan Norton entrou no Salão de Beleza da Babs, sorriu para Babs Griffen (a irmã mais velha de Hal e Jack) e disse:

— Ainda bem que deu para você me atender, assim, em cima da hora.

— Não tem problema no meio da semana — disse Babs, ligando o ventilador. — Nossa, o tempo está fechando. Vai chover de tarde.

Susan olhou para o céu, de um azul imaculado.

— Você acha?

— Ahã. Como você quer, meu bem?

— Natural — disse Susan, pensando em Ben Mears. — Como se eu nunca tivesse vindo aqui.

— É o que todas dizem — suspirou Babs, aproximando-se de Susan.

O suspiro exalou um aroma de chiclete tutti frutti, e Babs perguntou se Susan tinha visto que iam abrir uma nova loja de móveis na antiga Lavanderia Village. Estava com jeito de ser cara, mas seria ótimo se eles tivessem um lampião com vela para combinar com o que ela tinha no apartamento, e por falar nisso, sair de casa e morar na cidade fora a melhor coisa que ela já fizera na vida, e o verão não estava uma delícia? Pena que tinha de acabar.

13

15h00.



Bonnie Sawyer estava deitada na grande cama de casal em sua casa na rua Deep Cut. Era uma casa normal, com alicerce e porão, e não um trailer ordinário. Seu marido, Reg, ganhava bem como mecânico na oficina de Jim Smith, em Buxton.

Estava nua, exceto por uma fina calcinha azul, e olhava com impaciência para o relógio na mesa-de-cabeceira: 15h02 — onde estaria ele?

Como se seus pensamentos o tivessem chamado, a porta do quarto abriu uma fresta, e Corey Bryant espiou para dentro.

— Posso entrar? — sussurrou. Corey tinha só 22 anos, trabalhava para a companhia telefônica há dois, e um caso com uma mulher casada, especialmente com um mulherão como Bonnie Sawyer, que fora Miss Cumberland em 1973, fazia com que se sentisse fraco, nervoso e excitado.

Bonnie sorriu para ele com seus lindos dentes restaurados.

— Se não pudesse, querido, você estaria com um buraco no peito tão grande que daria para ver televisão atrás.

Ele entrou na ponta dos pés, o cinto de ferramentas de guarda-fios balançando de modo ridículo.

Bonnie deu risada e abriu os braços.

— Gosto de você, Corey. Você é uma graça.

Os olhos de Corey deram com a mancha escura sob o justo náilon azul, e ele começou a se sentir mais excitado do que nervoso. Esqueceu-se do passo cauteloso e caiu nos braços dela, e, quando se uniram, uma cigarra começou a cantar em algum lugar no bosque.

14

l6h00.


Ben Mears afastou-se da escrivaninha, tendo terminado o trabalho da tarde. Havia renunciado a sua caminhada no parque para que pudesse ir jantar na casa dos Norton com a consciência tranqüila, e escrevera quase o dia todo sem descanso.

Ele se ergueu e se espreguiçou, ouvindo o estalo de sua coluna. Seu tronco estava molhado de suor. Foi até o armário na cabeceira da cama, pegou uma toalha limpa e foi tomar um banho antes que os outros moradores chegassem do trabalho e atravancassem o banheiro.

Jogou a toalha sobre o ombro, virou-se para a porta e depois voltou-se para a janela, onde algo chamara sua atenção. Não na cidade, que cochilava no calor da tarde sob um céu de um azul intenso típico da Nova Inglaterra em dias de verão.

De onde estava, seu olhar se estendia sobre os prédios baixos da avenida Jointner, de telhados planos e asfaltados, e sobre o parque onde as crianças, agora livres da escola, brincavam, andavam de bicicleta ou faziam arruaça, até a região noroeste da cidade, onde a rua Brock desaparecia atrás do flanco do primeiro morro florestado. Seus olhos seguiram com naturalidade até o intervalo na floresta onde a via Burns e a via Brooks se cruzavam formando um T — e até onde a Casa Marsten se erguia, contemplando a cidade.

De lá, parecia uma miniatura, reduzida ao tamanho de uma casa de bonecas. E ele a preferia assim. Daquele tamanho, ela podia ser confrontada. Bastava levantar a mão diante do rosto para eliminá-la.

Havia um carro na entrada da casa.

Ele ficou parado, com a toalha sobre o ombro, olhando para a casa, sentindo dentro de si uma ponta de terror que não tentou analisar. Duas das persianas caídas haviam sido trocadas, dando à casa um ar cego e sigiloso que ela não possuíra antes.

Seus lábios se moveram silenciosamente, como se formassem palavras que ninguém — nem ele mesmo — podia entender.

15

17h00.


Matthew Burke saiu da escola, levando a valise na mão esquerda, e cruzou o estacionamento vazio até seu velho Chevy Biscayne, que continuava com os pneus para neve do ano anterior.

Tinha 63 anos — faltavam dois para a aposentadoria compulsória — e ainda mantinha um grande número de aulas de inglês e de atividades extracurriculares. A atividade do outono era a peça escolar, e ele acabara de realizar os testes para uma farsa em três atos chamada O Problema de Charley. Havia aparecido a costumeira multidão de casos perdidos, talvez uma dúzia de candidatos passáveis, capazes pelo menos de memorizar suas falas (e depois dizê-las em tom trêmulo e monótono), e três garotos que mostraram algum talento. Ele os escalaria na sexta e começaria a marcação de cenas na semana seguinte. Ensaiariam até 30 de outubro, o dia da peça. Segundo a teoria de Matt, uma peça escolar devia ser como um prato de sopa de letrinhas Campbell: sem sabor, mas não totalmente repulsiva. Os parentes iriam adorar. O crítico de teatro do Ledger de Cumberland entraria em êxtase polissilábico, como era pago para fazer com qualquer peça local. A protagonista (Ruthie Crockett naquele ano, provavelmente) cairia de amores por algum membro do elenco e possivelmente perderia a virgindade depois da festa de estréia. E então ele voltaria para as discussões do Clube de Debates.

Aos 63 anos, Matt Burke ainda gostava de ensinar. Era péssimo como disciplinador, e por isso perdera todas as chances que um dia tivera de conseguir um cargo administrativo (tinha um jeito sonhador demais para ser eficaz como vice-diretor), mas sua falta de disciplina nunca o detivera. Ele lera os sonetos de Shakespeare em classes frias e barulhentas, entre aviõezinhos e bolinhas de papel, sentara sobre tachas e as afastara distraidamente enquanto dizia aos alunos para abrirem o livro de gramática na página 457, abrira gavetas para apanhar composições e descobrira grilos, sapos e uma vez até uma cobra preta de dois metros.

Ele percorrera de cima a baixo a língua inglesa como um solitário e estranhamente complacente Antigo Marinheiro, de Coleridge: primeiro período, Steinbeck; segundo período, Chaucer; terceiro período, sentença tópica, e a função do gerúndio um pouco antes do almoço. Seus dedos eram permanentemente manchados de giz em vez de nicotina, mas ainda assim era o resíduo de uma substância que vicia.

As crianças não o veneravam nem amavam — ele não era um Sr. Chips mofando num recanto rústico da América, esperando que Ross Hunter o descobrisse, mas muitos de seus alunos o respeita­vam, e alguns poucos aprendiam com ele que a dedicação, por mais excêntrica ou humilde, podia ser algo notável. Ele gostava de seu trabalho.

Ele entrou no carro, pisou fundo demais no acelerador e afogou o motor, esperou e começou de novo. Ligou o rádio numa estação de rock-and-roll de Portland e aumentou o volume quase até o ponto de distorção do alto-falante. Achava o rock uma música admirável. Saiu de ré de sua vaga no estacionamento, o carro morreu e ele voltou a dar partida.

Morava numa casinha na via Taggart Stream e recebia pouquíssimas visitas. Nunca havia se casado e não tinha parentes, fora um irmão que trabalhava numa refinaria de petróleo no Texas e nunca escrevia. Ele não sentia muita falta desses vínculos. Era um homem solitário, mas a solidão de modo algum o amargurara.

Ele parou na luz de alerta no cruzamento da avenida Jointner e da rua Brock e virou em direção a sua casa. As sombras se alongavam agora, e a luz ganhava uma coloração curiosamente cálida e dourada, como uma cena do impressionismo francês. Ele olhou de relance para a esquerda, viu a Casa Marsten e olhou de novo.

— As venezianas — disse ele em voz alta, contra o ritmo pulsante da música. — As venezianas foram recolocadas.

Olhou no espelho retrovisor e viu um carro parado na entrada da casa. Ele dava aulas em ’salem’s Lot desde 1952, e nunca vira um carro estacionado naquela entrada.

— Será que alguém está morando lá? — perguntou a si mesmo enquanto seguia em frente.

16

18h00.



O pai de Susan, Bill Norton, o primeiro membro do conselho municipal de Lot, ficou surpreso ao perceber que gostara de Ben Mears. E muito. Bill era um homem grande e robusto, de cabelos pretos, e que passara dos cinqüenta anos sem engordar. Trocara a escola pela Marinha no último ano do colegial, com a permissão do pai, e lutara pelo seu futuro a partir de então, conseguindo o diploma de segundo grau aos 24 anos por meio de um teste de nivelamento. Não se tornara um tipo antiintelectual e truculento, como outros trabalhadores quando não obtêm o nível de escolaridade de que são capazes, por obra do destino ou deles mesmos, mas não tinha paciência com os “intelectualóides”, que era seu epíteto para os rapazes cabeludos e de olhar mole que Susan trazia às vezes da escola. O cabelo e as roupas deles não o incomodavam, e sim o fato de que nenhum parecia ter intenções sérias. Não simpatizava, como sua mulher, com Floyd Tibbits, o rapaz com quem Susie saía desde que se formara, mas também não antipatizava. Floyd tinha um bom emprego de nível executivo no Falmouth Grant’s, e Bill Norton o considerava moderadamente sério. E era um rapaz da cidade. Mas aquele Mears também era, de certa maneira.

— Por favor, não o atormente com essa história de intelectualóide — disse Susan, levantando quando a campainha tocou. Usava um vestido de verão verde-claro, e prendera os cabelos “naturalmen­te penteados” para trás com uma fita de algodão verde.

Bill deu risada.

— Isso depende da cara dele, querida. Não vou envergonhá-la. Nunca envergonho, não é?

Ela lhe dirigiu um sorriso nervoso e foi abrir a porta.

O homem que voltou com ela era magricela e de aspecto ágil, dono de traços finos e espessos cabelos pretos que pareciam recém-lavados apesar da oleosidade natural. Bill aprovou suas roupas — jeans azul-claros, muito novos, e uma camisa branca arregaçada até os cotovelos.

— Ben, estes são meus pais, Bill e Ann Norton. Mãe, pai, Ben Mears.

— Oi, é um prazer conhecê-los.

Ele sorriu para a Sra. Norton com uma ponta de reserva, e ela disse:

— Olá, Sr. Mears. É a primeira vez que conhecemos um escritor de verdade. Susan ficou muito empolgada.

— Não se preocupem, não costumo citar passagens dos meus livros. — Ele sorriu de novo.

— Olá — disse Bill, e se levantou. Ele batalhara pela posição que ocupava no sindicato da zona portuária, e seu aperto de mão era firme e forte. Mas a mão de Mears não era mole nem frágil, como a daqueles “intelectualóides” de fundo de quintal, o que lhe agradou. E passou para a segunda fase do teste.

— Quer uma cerveja? Tem umas geladas lá atrás. — Ele fez um gesto em direção à churrasquei­ra, que ele mesmo construíra. Os intelectualóides geralmente diziam não. A maioria fumava maconha, e não podia desperdiçar sua preciosa consciência bebendo.

— Cara, eu adoraria uma cerveja — disse Ben, sorrindo francamente. — Duas ou três, até.

Bill deu sua risada estrondosa.

— Certo, você é dos meus. Vamos lá.

Ao som desse riso, uma estranha comunicação se deu entre as duas mulheres, que eram muito parecidas. A testa de Ann Norton se franziu, enquanto a de Susan se distendeu — o peso da preocupa­ção fora transferido como que por telepatia.

Ben seguiu Bill até o quintal. Havia um isopor de gelo sobre um banco, cheio de latas de Pabst. Bill puxou uma lata e a jogou para Ben, que a pegou com uma mão só, mas de leve, para não estourar.

— Gostoso aqui — disse Ben, olhando para a churrasqueira. Era uma construção baixa de tijolos, que emitia ondas trêmulas de calor.

— Fui eu que a construí — disse Bill. — Espero que preste.

Ben deu um longo gole e arrotou — outro ponto a seu favor.

— Susie gostou muito de você — disse Norton.

— Ela é uma ótima moça.

— E sensata — acrescentou Norton, dando um arroto pensativo. — Disse que você escreveu três livros. E os publicou também.

— É verdade.

— Foram bem?

— O primeiro foi — disse Ben, e parou por aí. Bill Norton assentiu com a cabeça, aprovando um homem que tinha o bom senso de não sair contando os detalhes da sua vida.

— Você me dá uma mãozinha com os hambúrgueres e os cachorros-quentes?

— Claro.

— É preciso cortar as salsichas para tirar o líquido de dentro, sabia?

— Sabia. — Ele simulou cortes diagonais no ar com o dedo indicador, e abriu um sorriso. Os cortes nas salsichas impediam que formassem bolhas.

— Estou vendo que você é dessas bandas — disse Bill Norton. — Muito bem. Pegue aquele saco de carvão enquanto eu busco a carne. Traga a cerveja.

— Ninguém me separa dela.

Bill hesitou antes de entrar e ergueu a sobrancelha para Ben Mears.

— Você é um sujeito sério? — perguntou.

Ben abriu um sorriso um pouco amargo.

— Isso eu sou.

— Ótimo — disse Bill, e entrou.

Babs Griffen errara ao prever chuva, e o churrasco correu bem. A brisa suave uniu-se à fumaça da churrasqueira para espantar os mosquitos de final de verão. As mulheres levaram os pratos de papel e condimentos e depois voltaram para beber cerveja e dar risada enquanto Bill, que conhecia as traiçoeiras correntes de vento, ganhou de Ben de 21 a 6 numa partida de badminton. Ben recusou uma segunda partida com pesar, apontando para o relógio.

— Estou com um livro no forno — disse ele. — E preciso escrever mais seis páginas. Se beber demais, amanhã não vou conseguir nem ler o que escrevi.

Susan o acompanhou até o portão — ele viera andando da cidade. Bill apagou o fogo com ar pensativo. Ele dissera que era sério, e Bill estava disposto a acreditar. Não chegara contando histórias para impressionar, mas um homem que trabalhava depois do jantar tinha grandes chances de deixar seu nome marcado em alguma página da história.

Ann Norton, no entanto, não se deixou conquistar.

17

19h00.


Floyd Tibbits entrou no estacionamento de pedra britada do Dell’s pouco depois de Delbert Markey, o dono e bartender, acender o novo luminoso cor-de-rosa do bar, que dizia DELL’S em grandes letras, com um copo alto no lugar do apóstrofo.

No céu, a luz do dia era afastada por um anoitecer púrpura, e logo a névoa começaria a se formar nas áreas mais baixas. Os clientes habituais começariam a aparecer dentro de uma hora.

— Oi, Floyd — disse Dell, tirando uma Michelob do refrigerador. — Como foi seu dia?

— Razoável. A cerveja está com uma cara boa.

Era um homem alto com barba loira e bem-aparada, que vestia calças de malha e uma jaqueta esporte — seu uniforme para trabalhar na Grant’s. Era o segundo encarregado do crédito, e gostava do emprego de um modo indiferente que podia se tornar tédio a qualquer momento. Sentia que estava perdendo tempo, mas a sensação não era de todo desagradável. E ele tinha Suze, uma boa moça. Ela logo mudaria de idéia quanto ao casamento, e então ele precisaria fazer algo da vida.

Ele deixou uma nota de um dólar no balcão, encheu o copo de cerveja, bebeu-o avidamente e o encheu novamente. Além dele, o único cliente do bar era um rapaz de macacão da companhia telefônica — o filho dos Bryant, pensou Floyd. Bebia cerveja em uma mesa enquanto ouvia uma melancólica canção de amor no jukebox.

— E então, quais são as novidades? — perguntou, já sabendo a resposta. Nunca havia novidades. Algum garoto podia ter aparecido bêbado na escola, mas nada mais.

— Bom, mataram o cachorro do seu tio. Isso é uma novidade. Floyd parou com o copo a caminho da boca.

— O quê? Doc, o cachorro do tio Win?

— Isso mesmo.

— Foi atropelado?

— Pelo jeito, não. Mike Ryerson o encontrou. Foi cortar a grama do cemitério Harmony Hill e encontrou Doc pendurado nas lanças do portão, todo furado.

— Puta merda! — exclamou Floyd, atônito.

Dell assentiu gravemente, satisfeito com a impressão que causara. Ele tinha outra notícia quente que circulava pela cidade — a namorada de Floyd fora vista com aquele escritor que estava na pensão da Eva. Mas ele que descobrisse sozinho.

— Ryerson levou o corpo para Parkins Gillespie — continuou. — Ele achou que o cachorro já estava morto e uns moleques o penduraram de brincadeira.

— Gillespie não sabe nem em que ano a gente está.

— Pode ser. Mas vou lhe dizer o que eu acho. — Dell se apoiou nos grossos antebraços. — Acho que foram moleques, sim. Tenho certeza. Mas pode ser um pouco mais do que uma simples brincadeira. Dê uma olhada nisto. — Ele tirou um jornal debaixo do balcão e o abriu sobre ele.

Floyd o apanhou. A manchete dizia: adoradores de satã profanam igreja na Flórida. Passou os olhos pelo artigo. Dizia que uns garotos tinham invadido uma igreja católica em Clewiston, uma cidade da Flórida, depois da meia-noite e realizado ritos profanos. O altar fora violado, obsceni­dades haviam sido rabiscadas nos bancos, nos confessionários e na pia de água benta, e manchas de sangue haviam sido encontradas nos degraus que levavam à nave. Segundo a análise do laboratório, parte do sangue era animal (podia ser de cabra), mas a maioria era humano. O chefe de polícia de Clewiston admitiu que não tinha nenhuma pista do caso.

Floyd largou o jornal.

— Adoradores do demônio em Lot? Ora, Dell. Você está com minhocas na cabeça.

— A garotada está enlouquecendo — insistiu Dell. — Você vai ver. Daqui a pouco, vão fazer sacrifícios humanos no pasto do Griffen. Quer mais uma?

— Não, obrigado — disse Floyd, descendo do banco. — Vou ver como o tio Win está passando. Ele adorava aquele cachorro.

— Mande lembranças — disse Dell, guardando o jornal debaixo do balcão para exibi-lo a outros clientes. — Fiquei muito chateado com a notícia.

Floyd parou a caminho da porta e disse, como que para si mesmo:

— Penduraram ele nas barras, é? Meu Deus, como eu queria pegar os safados que fizeram isso.

— Adoradores do demônio — disse Dell. — Eu não ficaria nem um pouco surpreso. Não sei o que está dando nas pessoas ultimamente.

Floyd saiu. O filho dos Bryant colocou outra moeda no jukebox, e Dick Curless começou a cantar “Bury the Bottle with me”.

18

19h30.



— Não chegue tarde — Marjorie Glick disse ao filho mais velho, Danny. — Amanhã tem aula. E quero seu irmão na cama às nove e quinze.

Danny arrastou os pés.

— Não sei por que eu tenho que levar ele.

— Não precisa — disse Marjorie com ameaçadora amabilidade. — Você pode ficar em casa, se quiser.

Virou-se para a pia, onde limpava um peixe, e Ralphie pôs a língua para fora. Danny brandiu o punho para ele, mas seu irmãozinho nojento se limitou a sorrir.

— A gente não demora — murmurou ao sair da cozinha, seguido pelo irmão.

— Às nove.

— Está bem, está bem.

Na sala, Tony Glick estava sentado diante da TV com os pés para cima, assistindo ao jogo dos Red Sox contra os Yankees.

— Aonde vocês vão, meninos?

— Na casa daquele menino novo — disse Danny. — Mark Petrie.

— É — disse Ralphie. — Vamos ver seu... trenzinho.

Danny lançou um olhar sinistro para o irmão, mas o pai não notou nem a pausa nem a ênfase. Doug Griffen acabara de bater a bola.

— Voltem cedo — disse ele, distraído.

Quando saíram, o céu ainda guardava resquícios do dia. Enquanto cruzavam o quintal, Danny disse:

— Eu devia te dar uma surra, peste.

— Se você me bater — disse Ralphie, com presunção — eu conto por que você quer ir lá.

— Sua praga — disse Danny, desanimado.

No fim do quintal bem-aparado, uma trilha descia o monte e dava no bosque. A casa dos Glick ficava na rua Brock, e a de Mark Petrie, no sul da avenida Jointner. O atalho economizava bastante tempo para meninos de 12 e nove anos que se equilibravam com facilidade sobre as pedras do riacho Crockett. Folhas e ramos de pinheiro estalavam sob os pés deles. Em algum lugar na floresta, um pássaro cantou, e grilos chiavam em torno deles.

Danny cometera o erro de contar ao irmão que Mark Petrie tinha a coleção completa dos monstros plásticos Aurora — o lobisomem, a múmia, Drácula, Frankenstein, o cientista louco e até a Câmara de Horrores. A mãe deles não gostava dessas coisas, achava que faziam mal para a cabeça, e Ralphie logo passara para a chantagem. Ele era gosmento mesmo.

— Você é gosmento, sabia? — disse Danny.

— Eu sei — disse Ralphie com orgulho. — O que é “gosmento”?

— É gente verde e grudenta, que nem ranho.

— Vá pro inferno — Ralphie disse.

Eles andavam pela margem do riacho Crockett, que corria preguiçosamente sobre o leito de cascalho, mantendo um tom perolado na superfície. Dois quilômetros ao leste, ele se unia ao córrego Taggart, que por sua vez desaguava no rio Royal.

Danny começou a atravessar o riacho pelas pedras, apertando os olhos na penumbra para ver onde pisava.

— Vou te empurrar! — gritou Ralphie alegremente atrás dele. — Cuidado, Danny, eu vou te empurrar!

— E eu vou te empurrar na areia movediça, bobão. — disse Danny.

Chegaram à outra margem.

— Não tem areia movediça por aqui — zombou Ralphie, chegando perto do irmão por precaução.

— Não? — disse Danny em tom sinistro. — Um menino morreu na areia movediça não faz muitos anos. Ouvi aqueles velhos que ficam na loja comentando.

— É mesmo? — perguntou Ralphie, arregalando os olhos.

— É. Ele afundou gritando, sua boca encheu de areia e foi o fim dele. Ahhhhhhh!

— Vamos — disse Ralphie, inquieto. Já estava quase totalmente escuro no bosque, e sombras se moviam. — Vamos sair daqui.

Eles subiram a outra margem, escorregando de vez em quando nas folhas de pinheiro. O menino de quem Danny ouvira falar na loja era Jerry Kingfield, de dez anos. Se ele afundara na areia movediça gritando, ninguém o ouvira. Ele simplesmente desaparecera nos pântanos seis anos antes enquanto pescava. Alguns achavam que fora a areia movediça; outros, que um pervertido o matara. Havia pervertidos por toda parte.

— Dizem que o fantasma dele ainda assombra este bosque — disse Danny em tom solene, sem contar ao irmãozinho que os pântanos ficavam a cinco quilômetros ao sul.

— Pare, Danny — pediu Ralphie. — Não fale isso aqui no escuro.

As árvores rangiam ao redor deles. O pássaro noturno parara de cantar. Um galho estalou atrás deles, furtivamente. A luz do dia sumira quase totalmente do céu.

— De vez em quando — continuou Danny —, quando algum menininho chato sai no escuro, ele salta das árvores, com a cara toda gosmenta e coberta de areia...

— Danny, pare...

Danny ouviu um terror verdadeiro na voz do irmão, e parou. Quase assustara a si mesmo. As árvores escuras e volumosas os cercavam, balançando lentamente à brisa noturna, roçando umas nas outras e rangendo.

Outro galho estalou ao lado deles.

Danny subitamente desejou que tivessem pego a estrada.

Outro galho estalou.

— Danny, estou com medo — Ralphie sussurrou.

— Não seja bobo — disse Danny. — Venha.

Eles recomeçaram a andar. As folhas crepitavam sob os pés deles. Danny tentou se convencer de que não ouvira galho nenhum estalando. Não ouvira nada a não ser eles mesmos. O sangue latejava em suas têmporas. Suas mãos estavam frias. Conte os passos, disse a si mesmo. Vamos chegar à avenida Jointner daqui a duzentos passos. E na volta pegaremos a estrada, para que esse chorão não fique com medo... Daqui a um minuto vamos ver as luzes da rua e nos sentir idiotas, mas vai ser gostoso se sentir idiota, então conte os passos. Um... dois... três...

Ralphie soltou um grito.

Estou vendo! Estou vendo o fantasma! Estou vendo!

O terror, como ferro quente, penetrou o peito de Danny. Fios elétricos pareciam subir por suas pernas. Ele queria virar e correr, mas Ralphie o agarrava.

— Onde? — ele sussurrou, esquecendo que ele inventara o fantasma. — Onde? — Olhou para a floresta, com medo do que pudesse ver, mas viu somente a escuridão.

— Não está mais aí, mas eu vi. Eu vi olhos. Ai, Dannee... — ele chorava.

— Não tem fantasma nenhum, seu bobo. Vamos.

Danny segurou a mão do irmão e eles começaram a andar. Parecia que suas pernas haviam virado borracha. Seus joelhos tremiam. Ralphie se apertava contra ele, quase o tirando da trilha.

— Ele está nos vigiando — Ralphie sussurrou.

— Ouça, não vou...

— Não, é verdade, Danny. Você não está sentindo?

Danny parou. E, como acontece com crianças, ele sentiu algo e percebeu que não estavam sozinhos. Um pesado silêncio caíra sobre a floresta, mas era um silêncio maligno. Sombras, movidas pelo vento, arrastavam-se ao redor deles.

E Danny sentiu um cheiro brutal, mas não com o nariz.

Fantasmas não existiam, mas existiam pervertidos. Vinham em carros pretos e te ofereciam doce ou ficavam nas esquinas ou... ou te seguiam na floresta...

E então...

E então eles...

— Corra — ele disse bruscamente.

Mas Ralphie tremia a seu lado, paralisado de medo. Agarrava sua mão com a força de uma tenaz. Seus olhos estavam fixos na mata, e começaram a se arregalar.

— Danny...

Um galho estalou.

Danny virou-se e olhou na mesma direção que o irmão.

E a escuridão se fechou sobre eles.

19

21h00.


Mabel Werts era uma mulher imensa de gorda. Completara 74 anos, e suas pernas ficavam cada vez menos confiáveis. Era a depositária da história e das fofocas da cidade, e sua memória abarcava cinco décadas de necrologia, adultério, roubos e insanidade. Era uma fofoqueira, mas não deliberadamente cruel (embora aqueles que ela manchara com suas histórias pudessem discordar). Simplesmente vivia na e para a cidade. De certo modo, ela era a cidade, uma viúva gorda que agora pouco saía e que passava quase o tempo todo na janela, usando uma camisola de seda que parecia um balão, os cabelos brancos amarelados arrumados numa coroa de tranças grossas, o telefone na mão direita e os potentes binóculos japoneses na mão esquerda. A combinação dos dois, e tempo de sobra para usá-los, fazia dela uma aranha benevolente, sentada no centro de uma rede de comunicações que se estendia da Curva ao leste de ’salem.

Ela vinha observando a Casa Marsten por falta de coisa melhor para olhar quando as venezianas do lado esquerdo da varanda se abriram, deixando escapar uma luminosidade dourada que não se parecia nada com luz elétrica. Ela teve um vislumbre do que podia ser a cabeça e os ombros de um homem recortados contra a luz, o que lhe causou uma emoção estranha.

Não vira mais nenhum movimento na casa.

Ela pensou: Que tipo de pessoas eram aquelas que só abriam a janela quando ninguém podia dar uma olhada decente nelas?

Tirou os óculos e pegou o telefone. Duas vozes — ela logo as identificou como as de Harriet Durham e Glynis Mayberry — falavam sobre o cachorro de Irwin Purinton, encontrado por Mike Ryerson.

Ela ficou em silêncio, respirando pela boca, sem dar o menor sinal de sua presença na linha.

20

23h59.


O dia se aproximava do fim. As casas dormiam na escuridão. No centro da cidade, luzes na loja de ferragens, na Casa Funerária Foreman e no Excellent Café lançavam uma fraca luminosidade sobre a calçada. Alguns continuavam acordados — George Boyer, que acabara de entrar em casa depois de trabalhar das três às onze no Gates Mill, Win Purinton, que jogava paciência e pensava em Doc, cuja morte o abalara bem mais do que a da mulher — mas a maioria dormia o sono dos justos e trabalhadores.

No cemitério Harmony Hill, um vulto sombrio aguardava silenciosamente no interior dos portões a extinção do dia. Quando falou, sua voz era macia e cultivada.

— Pai, conceda-me seus favores. Senhor das Moscas, conceda-me seus favores. Eu lhe trago carne pútrida e malcheirosa. Ofereço esse sacrifício por seus favores e o trago com a mão esquerda. Dê-me um sinal neste terreno, consagrado em seu nome. Espero um sinal para iniciar sua obra.

A voz se calou. Um vento se elevou, suave, trazendo consigo o sussurro de galhos e folhas e um cheiro de carniça do depósito adiante.

Não se ouviu mais nada, fora o som da brisa. O vulto permaneceu silencioso e pensativo por um instante. Depois se inclinou e se ergueu com uma criança em seus braços.

— Trouxe-lhe isto. E o indizível se fez.


Capítulo Quatro

DANNY GLICK E OUTROS

1

Danny e Ralphie Glick saíram para visitar Mark Petrie com ordem de voltar às nove horas. Quando às dez horas eles ainda não haviam voltado, Marjorie Glick ligou para os Petrie. Não, disse a Sra. Petrie, os meninos não estavam lá. Não tinham estado. Era melhor o marido dela falar com Henry. A Sra. Glick passou o telefone para o marido, sentindo o medo gelar suas veias.

Os homens discutiram o caso. Sim, os meninos tinham ido pela trilha na mata. Não, o riacho estava baixo àquela época do ano, principalmente com o bom tempo que fazia. A água batia no tornozelo. Henry sugeriu partir do seu lado da trilha com uma lanterna de alta potência e que o Sr. Glick partisse do lado dele. Talvez os meninos tivessem encontrado uma toca de marmota ou se escondido para fumar cigarros. Tony concordou e pediu desculpas ao Sr. Petrie pelo incômodo. O Sr. Petrie disse que não era incômodo algum. Tony desligou e tentou tranqüilizar a mulher, que estava assustada. Decidiu mentalmente que nenhum dos filhos conseguiria sentar durante uma semana depois que os encontrasse.

Mas, antes mesmo de Tony alcançar a trilha depois do quintal, Danny saiu tropeçando da mata e desabou ao lado da churrasqueira. Estava aturdido e falava mole, respondendo às perguntas de modo penoso e desconexo. Tinha grama nas mangas e folhas outonais no cabelo.

Contou ao pai que ele e Ralphie haviam descido a trilha que cruzava a mata, atravessado o riacho Crockett pelas pedras e chegado à outra margem sem nenhum problema. Então Ralphie come­çou a falar de um fantasma no mato (não disse que fora ele quem colocara a idéia na cabeça do irmão) e disse que tinha visto um rosto. Danny começou a ficar com medo. Não acreditava em fantasmas e nem nessas criancices de bicho-papão, mas pensou ter ouvido algo na escuridão.

O que eles fizeram então?

Danny achava que tinham voltado a andar, de mãos dadas. Não tinha certeza. Ralphie choramin­gava por causa do fantasma. Danny mandou-o ficar quieto, porque logo conseguiriam ver as luzes da avenida Jointner. Faltavam só duzentos passos, talvez menos. Então, uma coisa ruim aconteceu.

Como? Que coisa ruim?

Danny não sabia.

Eles discutiram com ele, insistiram, repreenderam-no. Danny apenas balançava a cabeça de modo lento e confuso. Sim, ele sabia que precisava lembrar, mas não conseguia. Sinceramente, não conseguia. Não, ele não lembrava de ter tropeçado em nada. Só que... estava tudo escuro. Muito escuro. E depois disso só lembrava de ter acordado na trilha sozinho. Ralphie desaparecera.

Parkins Gillespie disse que não adiantava mandar homens para a mata naquela noite. Havia muitos locais traiçoeiros. Provavelmente o menino tinha apenas se desviado da trilha. Ele, Nolly Gardener, Tony Glick e Henry Petrie percorreram de cima a baixo a trilha e as encostas das ruas South Jointner e Brock, chamando com alto-falantes a pilha.

Logo cedo na manhã seguinte, a polícia estadual e a municipal de Cumberland deram início a uma busca na floresta. Como não achassem nada, ampliaram a busca. Procuraram durante quatro dias, e o Sr. e a Sra. Glick percorreram a mata e os campos, desviando-se das armadilhas deixadas pelo antigo incêndio, chamando o nome do filho com esperança dilacerante.

Como não encontrassem nada, o córrego Taggart e o rio Royal foram dragados. Mas nada apareceu.

Na manhã do quinto dia, Marjorie Glick acordou o marido às quatro horas, trêmula e descontro­lada. Danny havia desmaiado no corredor, aparentemente enquanto ia ao banheiro. Uma ambulância o levou ao Hospital Geral do Maine. O diagnóstico preliminar foi de choque emocional intenso e retardado.

O Dr. Gorby, o médico encarregado, chamou o Sr. Glick de lado.

— Seu filho já teve ataques de asma?

O Sr. Glick, piscando rapidamente, balançou a cabeça. Envelhecera dez anos em menos de uma semana.

— Algum antecedente de febre reumática?

— Danny? Não... nunca.

— Ele fez exame epidérmico de tuberculose este ano?

— Tuberculose? Meu filho tem tuberculose?

— Sr. Glick, só estamos tentando descobrir...

— Marge! Margie, venha aqui!

Marjorie Click levantou e atravessou lentamente o corredor. Tinha o rosto pálido, os cabelos penteados de qualquer jeito. Parecia uma mulher em meio a um intenso ataque de enxaqueca,

— Danny fez exame de tuberculose na escola este ano?

— Fez — disse ela estupidamente. — No começo das aulas. Não houve reação.

— Ele tosse à noite? — perguntou Gorby.

— Não.

— Queixa-se de dores no peito ou nas juntas?



— Não.

— Sente dor ao urinar?

— Não.

— Teve algum sangramento anormal? Sangra pelo nariz, apresenta sangue nas fezes ou uma quantidade anormal de arranhões ou contusões?



— Não.

Gorby sorriu e assentiu com a cabeça.

— Gostaríamos que ele ficasse para fazer alguns exames.

— Claro — disse Tony. — Tenho plano de saúde.

— As reações dele estão muito lentas — disse o médico. — Vamos fazer alguns raios X, exame de medula, contagem de glóbulos brancos...

Os olhos de Marjorie Glick foram se arregalando lentamente.

— Danny está com leucemia? — sussurrou.

— Sra. Glick, por enquanto...

Mas ela já desmaiara.

2

Ben Mears foi um dos voluntários que revistaram as matas de ’salem’s Lot em busca de Ralphie Glick, mas nada conseguira além de carrapatos nas barras das calças e uma forte febre do feno causada pelas plantas de fim de verão.

No terceiro dia da busca, ele entrou na cozinha da pensão planejando comer uma lata de ravióli e tirar um cochilo na cama antes de começar a escrever. Encontrou Susan Norton ocupada diante do fogão, preparando um tipo de ensopado de forno. Os homens que haviam acabado de chegar do trabalho estavam em volta da mesa, fingindo conversar, devorando-a com os olhos. Ela usava uma camisa xadrez desbotada amarrada na cintura e um short de veludo desfiado. Eva Miller passava roupa numa salinha ao lado da cozinha.

— Ei, o que você está fazendo aqui? — perguntou ele.

— Estou preparando algo decente para você comer antes que vire uma sombra — disse ela, e Eva deu uma risada estrondosa por trás da parede. Ben sentiu as orelhas arderem.

— Ela cozinha muito bem — disse Weasel. — Eu sei, estava olhando.

— Olhou tanto que só faltava os olhos caírem da cara — disse Grover Verrill, com uma gargalhada.

Susan cobriu a forma, colocou-a no forno e os dois foram esperar na varanda de trás. O sol baixava, vermelho e inflamado.

— Acharam alguma coisa?

— Não, nada. — Ele tirou um maço amassado do bolso da camisa e acendeu um cigarro.

— Parece que você tomou um banho de colônia de pinho — disse ela.

— E até parece que adiantou. — Ele esticou o braço e mostrou várias picadas de inseto e arranhões. — Mosquitos desgraçados, malditos arbustos de espinhos.

— O que acha que aconteceu com ele, Ben?

— Só Deus sabe. — Ele exalou fumaça. — Alguém pode ter chegado por trás do irmão mais velho, batido na cabeça dele com algo pesado e raptado o menino.

— Você acha que ele está morto?

Ben olhou-a para ver se esperava franqueza ou falsas esperanças. Entrelaçou os dedos aos dela.

— Sim, acho que ele está morto. Ainda não temos provas definitivas, mas acho que sim.

Ela balançou a cabeça lentamente.

— Espero que você esteja errado. Minha mãe e outras senhoras foram visitar a Sra. Glick. Ela está fora de si e o marido também. E o outro filho fica andando de um lado para outro como um fantasma.

— Hum-hum — disse Ben. Olhava para a Casa Marsten, sem prestar muita atenção. As vene­zianas estavam fechadas, mas abririam mais tarde. Depois que estivesse escuro. As venezianas se abriam no escuro. Ele sentiu um arrepio diante dessa idéia, quase encantatória.

— ...noite?

— Hã? Desculpe. — Ele se virou para ela.

— Eu disse que meu pai o convidou para ir lá em casa amanhã à noite. Você pode?

— Você vai estar lá?

— Claro — disse ela.

— Ótimo, vou sim.

Ele queria olhar para ela. Estava linda à luz do crepúsculo. Mas seus olhos eram atraídos para a Casa Marsten como que por um ímã.

— Ela te atrai, não é? — disse ela, lendo seus pensamentos, até mesmo a metáfora, de modo quase sobrenatural.

— É verdade.

— Ben, sobre o que é o novo livro?

— Ainda não — disse ele. — Eu lhe direi assim que puder. A idéia tem que... se desenvolver ainda.

Ela queria dizer eu te amo naquele exato instante, com a espontaneidade com que as palavras haviam emergido em sua mente, mas mordeu os lábios. Não queria dizê-las enquanto ele estivesse olhando... lá para cima.

— Vou ver o ensopado — disse ela, levantando.

Quando ela se afastou, ele fumava e olhava para a Casa Marsten.

3

Lawrence Crockett estava em seu escritório na manhã do dia 22, fingindo ler a correspondência enquanto espiava os peitos da secretária, quando o telefone tocou. Ele estivera pensando em sua carreira em ’salem’s Lot, sobre o carrinho que brilhava na entrada da Casa Marsten, sobre pactos com o demônio.

Mesmo antes de a transação com Straker ser consumada (que palavra, ele pensou, e seus olhos subiram pela blusa da secretária), Lawrence Crockett era, sem dúvida, o homem mais rico de ’salem’s Lot e um dos mais ricos do condado de Cumberland, embora nada em sua pessoa ou em seu escritório o indicasse. O escritório era velho, empoeirado, iluminado por dois lustres redondos e cheios de moscas. A escrivaninha antiga, de tampo corrediço, estava abarrotada de papéis, canetas e correspon­dência. De um lado via-se um pote de cola e de outro um peso de papel quadrado com fotos de sua família em cada uma das superfícies. Um aquário cheio de fósforos se equilibrava perigosamente sobre uma pilha de livros contábeis, e um rótulo na frente dizia: “Para nossos amigos apagados.” Exceto por três arquivos de aço à prova de fogo e a mesa da secretária no pequeno anexo, não havia móveis.

Mas havia fotos.

Viam-se instantâneos e fotografias por toda parte, presos com tachas ou fita adesiva em todas as superfícies disponíveis. Algumas eram novíssimas fotos Polaroid, outras eram tiradas com máquinas Kodak, outras ainda eram amareladas imagens em preto e branco, algumas batidas havia 15 anos. Sob cada uma, havia uma legenda datilografada, Linda Casa de Campo. Seis quartos. Ou Casa no alto do monte. Via do córrego Taggart, $32.0000, ocasião!, ou Viva como um nobre. Casa de fazenda com dez cômodos, via Burns. O aspecto era de uma firma obscura e pouco confiável, e fora assim até 1957, quando Larry Crockett, até então visto pela elite de Jerusalem’s Lot como um incompetente, decidiu que os trailers eram o futuro. Naquele tempo, as pessoas achavam que os trailers eram apenas charmosas caixas prateadas que você prendia na traseira do carro quando ia ao Parque Nacional de Yellowstone para tirar foto da mulher e dos filhos em frente ao Old Faithful. Naqueles tempos, quase ninguém — nem mesmo os próprios fabricantes de trailers — previa que as charmosas caixas prateadas seriam substituídas por carros de acampamento, que se ajustavam à traseira das camionetes ou até eram auto-suficientes e motorizados.

Mas Larry não precisara saber disso tudo. Sendo um visionário de terceira divisão, ele simples­mente foi até a prefeitura (naquele tempo ele não era membro do conselho municipal; naquele tempo, não teria sido eleito nem mesmo funcionário da carrocinha) e pesquisou as leis de zoneamento de Jerusalem’s Lot. Eram extremamente satisfatórias. Nas entrelinhas, ele vislumbrou milhares de dólares. A lei proibia a manutenção de uma zona pública de despejo ou a existência de mais de três carros abandonados no quintal, a não ser com a obtenção de uma licença de ferro-velho, e sanitários externos — um nome fresco para “casinha” —, a não ser que fossem aprovados pelo supervisor de saúde municipal. E mais nada.

Larry hipotecara tudo que tinha, fez empréstimos e comprou três trailers. E não eram charmosas caixas prateadas, mas monstros longos, luxuosos, descomunais, com revestimento de madeira plástica e banheiros de fórmica. Comprou lotes de meio hectare para cada um na Curva, onde a terra era barata, instalara-os sobre alicerces baratos e passou a tentar vendê-los. Conseguiu depois de três meses, vencendo a resistência das pessoas que achavam estranho morar numa casa que parecia um vagão de trem, e lucrou quase dez mil dólares. A onda do futuro chegara a ’salem’s Lot, e Larry Crockett estava na sua crista.

No dia em que R. T. Straker entrara em seu escritório, Crockett já tinha acumulado quase dois milhões de dólares, especulando terras em muitas cidades vizinhas (mas não em Lot; “não cuspa no prato em que come”, era o lema de Lawrence Crockett), com base na crença de que a indústria dos trailers cresceria como uma epidemia. Cresceu mesmo, e o dinheiro começou a chover.

Em 1965, Larry Crockett se tornou o sócio passivo de um construtor chamado Romeo Poulin, que construía um grande supermercado em Auburn. Poulin era hábil em se desviar da burocracia, e com seu conhecimento prático e o talento de Larry para números, eles ganharam 750 mil dólares cada e tiveram de declarar apenas um terço da bolada para o governo. Foi tudo extremamente satisfatório, e se o teto do supermercado estava cheio de goteiras, bom, era a vida.

Entre 1966 e 1968, Larry comprou o controle da maioria das ações de três empresas de trailers do Maine, recorrendo a todos os embustes para despistar o pessoal da receita. A Romeo Poulin, descreveu o processo como entrar no túnel de amor com a mulher A, transar com a mulher B no vagão de trás e terminar de mãos dadas com a mulher A do outro lado do túnel. Ele acabou comprando trailers para si mesmo, e esses negócios incestuosos eram tão lucrativos que quase davam medo.

Pactos com o demônio, pensou Larry, mexendo nos papéis. Quando lidamos com ele, as notas vencem em enxofre.

Os compradores dos trailers eram proletários, de classe média baixa, que não podiam dar entrada numa casa mais convencional, ou pessoas de idade tentando esticar a pensão. A idéia de uma casa de seis cômodos novinha em folha funcionava com essa gente. Para os idosos, havia outra vantagem, que os outros haviam ignorado, mas não o astuto Larry: os trailers tinham um só andar e não era preciso subir escadas.

O financiamento também era fácil. Uma entrada de quinhentos dólares geralmente bastava para começar o negócio. E nos tempos de financiamento predatório dos anos 1960, o fato de os outros 9.500 serem financiados a juros de 24% não parecia uma arapuca àquelas pessoas necessitadas de um teto.

E como choveu dinheiro!

O próprio Crockett mudara muito pouco, mesmo depois de brincar de vender a alma ao sinistro Sr. Straker. Nenhum decorador efeminado fora modernizar seu escritório. Ainda não trocara o ventilador elétrico por ar-condicionado. Andava com os mesmos ternos gastos ou paletós berrantes. Fumava os mesmos charutos baratos e ainda passava no Dell’s nas noites de sábado para tomar umas cervejas e jogar um bilhar com os amigos. Continuou controlando os negócios imobiliários da cidade, o que rendeu dois frutos: primeiro, a eleição como membro do conselho municipal; segundo, uma situação confortável com a receita, já que as operações visíveis de cada ano não chegavam a entrar na faixa de pagamento de imposto. Além da Casa Marsten, ele vendera mais de três dezenas de outras mansões decrépitas na região. Alguns negócios foram muito lucrativos, mas Larry não os forçou. O dinheiro, afinal de contas, chovia.

Dinheiro demais, talvez. Era possível alguém passar a perna em si mesmo. Entrar no túnel com a mulher A, transar com a mulher B, sair de mãos dadas com a mulher A, e no fim levar uma surra das duas. Straker dissera que entraria em contato, mas já haviam se passado 14 meses. E se...

Foi então que o telefone tocou.

4

Sr. Crockett disse a voz conhecida e monótona.



— É Straker, não?

— Eu mesmo.

— Estava pensando em você nesse instante. Acho que sou médium.

— Muito espirituoso, Sr. Crockett. Preciso de um favor.

— Foi o que pensei.

— Providencie um caminhão, por favor. Um caminhão grande, talvez de aluguel. Mande-o às docas de Portland hoje às 19 horas em ponto. À plataforma da alfândega. Dois carregadores serão suficientes.

— Certo.

Larry puxou um bloco de notas e rabiscou: H. Peters, R. Snow, caminhão de mudança do Henry, seis horas no máximo. Não parou para pensar como achava importante seguir as ordens de Straker ao pé da letra.

— Há 12 caixas a serem transportadas. Todas menos uma vão para a loja. A outra é um armário extremamente valioso, um Hepplewhite. Os carregadores o reconhecerão pelo tamanho. Esse vai para a casa. Ficou claro?

— Ficou.


— Os homens devem levá-lo ao porão. Diga-lhes para entrarem pelo tabique abaixo das janelas da cozinha. Ficou claro?

— Ficou. Agora, esse armário...

— Outro favor. Providencie cinco cadeados Yale bem fortes. Conhece a marca Yale?

— Quem não conhece? O que...

— Peça para os homens trancarem a porta traseira da loja ao saírem. Na casa, devem deixar as chaves dos cinco cadeados sobre a mesa do porão. Quando saírem da casa, deverão trancar com os cadeados a porta do tabique, as portas da frente e de trás e o galpão-garagem. Ficou claro?

— Ficou.


— Obrigado, Sr. Crockett. Siga todas as instruções cuidadosamente. Até logo.

— Espere...

Mas ele desligara.

5

Eram 19h02 quando o grande caminhão laranja e branco, com os dizeres “Cami­nhão do Henry” estampados nas laterais e na traseira, parou em frente ao barracão de aço corrugado no final da plataforma da alfândega, nas docas de Portland. A maré virava, agitando as gaivotas, que rodopiavam e gritavam contra o pôr-do-sol vermelho.

— Nossa, não tem ninguém aqui — disse Royal Snow, dando o último gole numa Pepsi e jogando a lata no chão da cabine. — Vamos ser presos por roubo.

— Tem alguém, sim — disse Royal. — Um policial.

Não era exatamente um policial, e sim um vigia noturno, que acendeu a lanterna na direção deles.

— Um de vocês é Lawrence Crewcut?

— Crockett — corrigiu Royal. — Viemos da parte dele para transportar umas caixas.

— Certo — disse o vigia. — Vamos para o escritório. Precisam assinar uma nota fiscal. — Fez um sinal para Peters, que estava ao volante. — Dê ré até aquelas portas com a luz acesa. Está vendo?

— Estou — ele deu ré com o caminhão.

Royal Snow entrou com o vigia no escritório, onde uma cafeteira borbulhava. O relógio acima do calendário de mulher pelada marcava 19h04. O vigia mexeu nuns papéis sobre a mesa e pegou uma prancheta.

— Assine aqui. Royal assinou.

— Tome cuidado quando entrar lá. Acenda a luz porque está cheio de ratos.

— Não tem rato que não tenha medo disto — disse Royal, mostrando a pesada bota de trabalho.

— São ratos das docas, filho — disse o vigia secamente. — Já puseram para correr homens maiores que você.

Royal saiu e andou até a porta do depósito. O vigia ficou na porta do barracão, observando-o.

— Cuidado — Royal disse a Peters. — O tio disse que tem ratos.

— Tá. — E ele riu consigo mesmo. — “Larry Crewcut”...

Royal achou o interruptor de luz na parede e a acendeu. Algo na atmosfera pesada, que cheirava a sal, madeira podre e mofo, tirava a vontade de rir. Além dos ratos...

As caixas estavam empilhadas no meio do depósito. Como não havia nada além delas, pareciam portentosas. A caixa com o armário, mais alta do que as outras, estava no centro, e era a única que não tinha escrito “Barlow e Straker, avenida Jointner, 27, Jer. Lot, Maine”.

— Até que está fácil — disse Royal. Consultou sua cópia da nota fiscal e contou as caixas. — Estão todas aí.

— Tem ratos mesmo — disse Hank. — Está ouvindo?

— É, odeio esses desgraçados.

Os dois ficaram em silêncio por um instante, ouvindo os guinchos e os movimentos rápidos que vinham das sombras.

— Bom — disse Royal. — Vamos colocar a grandona primeiro para não ficar no caminho quando chegarmos à loja.

— Certo.

Aproximaram-se da caixa, e Royal tirou o canivete do bolso. Com um gesto rápido, abriu o envelope marrom da nota fiscal colado com fita adesiva na lateral.

— Ei — disse Hank —, a gente não devia...

— Precisamos ter certeza de que pegamos a entrega certa. Se errarmos, Larry vai acabar com a nossa raça. — Ele puxou a nota fiscal e a leu.

— O que diz aí? — perguntou Hank.

— Heroína — Royal respondeu, com ar sério. — Cem quilos. E duas mil revistas pornográficas suecas, trezentas camisinhas francesas...

— Me dá aqui. — Hank pegou a nota. — É um armário, como Larry falou. De Londres, Inglaterra, para Portland, Maine. Camisinha francesa uma ova. Guarde isso.

Royal guardou.

— Tem algo engraçado aqui — disse ele.

— Tem, você. Estou morrendo de rir.

— Não, sério. Não estou vendo nenhum carimbo da alfândega. Nem na caixa, nem no envelope, nem na nota fiscal. Não tem carimbo.

— Eles devem usar aquela tinta que só aparece debaixo de uma luz negra especial.

— Não era assim quando eu trabalhava nas docas. Precisa ver, eles botavam uns noventa carimbos na carga. Não dava para pegar uma caixa sem ficar todo azul.

— Sério? Interessante. Mas minha mulher dorme cedo, e eu estava querendo tirar o atraso hoje.

— Vamos dar uma olhadinha dentro?

— Nada disso. Vamos, pegue.

Royal deu de ombros. Quando pegaram a caixa, algo pesado mudou de posição. A caixa era um inferno de carregar. Pelo peso, devia ser mesmo daqueles armários grandes e chiques.

Grunhindo, eles avançaram penosamente até o caminhão e largaram a caixa sobre o elevador hidráulico com exclamações simultâneas de alívio. Royal esperou enquanto Hank operava o elevador. Quando o nivelou com a carroceria, eles subiram e empurraram o armário para dentro.

Havia algo estranho naquela caixa, pensou Royal. E não era só a falta de carimbos. Algo indefinível. Observou-a até que Hank descesse do caminhão.

— Vamos pegar o resto — disse ele.

As outras caixas tinham carimbos da alfândega, exceto três, que haviam partido de locais nos próprios Estados Unidos. À medida que colocavam cada caixa no caminhão, Royal ticava a nota fiscal e a rubricava. Empilharam todas as caixas cujo destino era a nova loja perto da porta do caminhão, longe do armário.

— Agora, me diga quem vai comprar todas essas tralhas? — perguntou Royal quando termina­ram. — Uma cadeira de balanço polonesa, um relógio de parede alemão, uma roda de fiar... Minha nossa, devem custar uma fortuna.

— Turistas — disse Hank, com ar sábio. — Os turistas compram de tudo. Esse pessoal de Boston e Nova York é capaz de comprar merda de vaca se vier num saco antigo.

— E não estou gostando daquela caixa — continuou Royal. — Isso de não ter carimbo da alfândega é muito esquisito.

— Bom, vamos levar logo.

Voltaram para ’salem’s Lot em silêncio, Hank pisando fundo no acelerador. Queria acabar logo com aquele serviço. Como Royal dissera, era muito estranho.

Ele deu a volta até os fundos da nova loja. A porta estava destrancada, como Larry dissera. Royal acionou o interruptor de luz logo na entrada, em vão.

— Ótimo... — resmungou. — Vamos ter que descarregar toda essa porcaria no escuro. Ei, você não está sentindo um cheiro esquisito?

Hank farejou o ar. Sim, havia um cheiro desagradável, mas ele não sabia dizer exatamente qual. Era seco e queimava as narinas, como algo há muito apodrecido.

— É que esse lugar está fechado há muito tempo — disse ele, passeando a lanterna pelo cômodo longo e vazio. — Precisa de uma boa arejada.

— Ou de um bom fogo — disse Royal. Ele não estava gostando daquilo. Algo naquele lugar lhe dava arrepios. — Vamos. E não precisamos nos matar.

Descarregaram as caixas o mais rápido possível, colocando cada uma no chão com cuidado. Meia hora depois, Royal fechou a porta da loja com um suspiro de alívio e a trancou com um dos cadeados novos.

— Metade já foi — disse.

— A metade fácil — retrucou Hank. Olhou para a Casa Marsten, escura e toda fechada naquela noite. — Não estou gostando de ter de subir lá, e não tenho medo de dizer. Se existe uma casa mal-assombrada no mundo, é essa. Esses caras devem ser loucos, mudando para lá. Deve ser um casal de viados.

— Tipo aqueles decoradores — concordou Royal. — Devem querer transformar a casa numa atração turística. É bom para os negócios.

— Bom, já que a gente tem de ir, vamos logo.

Lançaram um último olhar para a caixa que continha o armário e Hank bateu a porta com força. Sentou atrás do volante e os dois subiram a avenida Jointner até a rua Brooks. Um minuto depois, a Casa Marsten assomava diante deles, escura e terrível, e Royal sentiu a primeira onda de verdadeiro medo insinuar-se em seu estômago.

— Credo, que lugar assustador — murmurou Hank. — Quem ia querer morar lá?

— Não sei. Está vendo alguma luz acesa atrás das venezianas?

— Não.


A casa parecia se curvar em direção a eles, como se os aguardasse. Hank aproximou-se da entrada e deu a volta até os fundos da casa. Nenhum dos dois quis ver o que a luz trêmula dos faróis revelava na grama espessa do quintal. Hank sentiu o medo gelar seu coração como não sentira nem no Vietnã, ele que passara a maior parte do tempo apavorado lá. Mas era um medo racional. Medo de pisar numa armadilha química e ver o pé inchando como um balão verde, medo de que um garoto cujo nome não dava nem para pronunciar estourasse seus miolos com um rifle russo, medo de pegar um comandante alucinado que mandasse você dizimar um vilarejo onde os vietcongs haviam estado uma semana antes. Mas o medo que ele sentia agora era infantil, nebuloso. Sem ponto de referência. Uma casa era uma casa — tábuas, dobradiças, pregos e soleiras. Não havia nenhuma razão para achar que cada estalido da madeira fosse causado por emanações malignas. Era pura estupidez. Fantasmas? Ele não acreditava em fantasmas. Muito menos depois do Vietnã.

Hank só conseguiu engatar a ré na segunda tentativa, e o caminhão sacolejante avançou até o tabique que levava ao porão. As portas enferrujadas estavam abertas e, à luz avermelhada das lanternas traseiras, os degraus de pedra pareciam levar ao inferno.

— Cara, não estou achando isso nada legal — disse Hank. Tentou sorrir, mas saiu uma careta.

— Nem eu.

Eles se olharam à luz pálida do painel, sentindo o medo pesar. Mas não eram mais crianças, e não podiam voltar antes da hora devido a um medo irracional. Que explicação dariam em plena luz do dia? Precisavam terminar o trabalho.

Hank desligou o motor, e eles se aproximaram da traseira do caminhão. Royal subiu, soltou a tranca e abriu a porta de correr.

A caixa esperava, ainda coberta de serragem, pesada e muda.

— Eu não quero levar esse troço lá para dentro! — Hank Peters exclamou, com uma voz que era quase um soluço.

— Vamos acabar logo com isso — disse Royal.

Arrastaram a caixa até o elevador e a baixaram ouvindo o assobio do ar que escapava. Quando chegou à altura da cintura, Hank soltou a alavanca e eles a agarraram.

— Devagar — grunhiu Royal, recuando em direção aos degraus. — Devagar e sempre...

À luz vermelha das lanternas traseiras, seu rosto estava contraído, as veias salientes, como um homem à beira de um infarto.

Ele desceu os degraus de costas, um de cada vez, sentindo o peso da caixa esmagar seu peito como uma laje de pedra. Era pesada, pensaria ele mais tarde, mas nem tanto. Ele e Hank já haviam transportado cargas maiores para Larry Crockett, mas havia algo na atmosfera daquele lugar que drenava as forças.

Os degraus eram lisos e viscosos, e ele quase perdeu o equilíbrio duas vezes, gritando com desespero:

— Cuidado, pelo amor de Deus!

Finalmente eles chegaram. O teto do porão era baixo, e eles tiveram de carregar a caixa curvados como velhas.

— Vamos deixar aqui — Hank disse, ofegante. — Não está dando mais.

Eles deixaram a caixa no chão com um baque surdo e se afastaram. Entreolharam-se e viram que o medo havia se transformado em quase terror por obra de uma secreta alquimia. O porão pareceu se encher subitamente de ruídos sussurrantes. Ratos, talvez, ou algo que era insuportável até de pensar.

De repente, eles saíram correndo, Hank primeiro e Royal logo atrás. Voaram pelos degraus do porão, e Royal bateu com força a porta do tabique sem olhar para trás.

Entraram na cabine do caminhão, e Hank deu partida e engatou a primeira. Royal agarrou seu braço, e na escuridão sua cara parecia ser só olhos, grandes e fixos.

— Hank, a gente não colocou os cadeados.

Os dois olharam para o embrulho com os cadeados no painel do caminhão, amarrado com um arame plástico. Hank apalpou o bolso da jaqueta e tirou uma argola com cinco novas chaves Yale, uma para o cadeado da loja, quatro para a casa. Todos estavam cuidadosamente rotulados.

— Ai, não — disse ele. — Olha, e se a gente voltasse amanhã bem cedo e...

Royal tirou a lanterna, encaixada debaixo do painel.

— Não dá — disse ele. — E você sabe disso.

Saíram da cabine, sentindo a fresca brisa noturna nas testas suadas.

— Cuide da porta de trás — disse Royal. — Eu cuido da porta da frente e do galpão.

Eles se separaram. Hank foi até a porta de trás, o coração batendo forte no peito. Com mãos trêmulas, passou o cadeado pelo ferrolho. Tão perto da casa, o cheiro de madeira velha e deteriorada era palpável. As histórias sobre Hubie Marsten, que eles contavam entre risos na infância, começaram a voltar, assim como a cançãozinha com que assustavam as meninas: Cuidado, cuidado, cuidado! Hubie vai te pegar se você não... tomar... cuidado!

— Hank?

Ele se sobressaltou, deixando cair o outro cadeado. Abaixou para pegá-lo.



— Você não devia chegar de fininho e assustar os outros assim. Conseguiu...

— Consegui. Agora, quem vai voltar para o porão e deixar o chaveiro na mesa?

— Sei lá — disse Hank Peters. — Sei lá.

— Vamos tirar cara ou coroa?

— É, acho melhor.

Royal pegou uma moeda.

— Escolha quando eu jogar. — E jogou-a.

— Cara.


Royal pegou a moeda, bateu-a no antebraço e mostrou. Dera coroa.

— Ai, meu Deus — disse Hank, desolado, mas pegou o chaveiro e a lanterna e voltou a abrir a porta do tabique.

Obrigou as pernas a descerem os degraus, e, depois de passar pela saliência do teto, iluminou com a lanterna o porão, que fazia uma curva em L uns dez metros adiante e acabava Deus sabia onde. A luz da lanterna encontrou a mesa, coberta com uma toalha xadrez empoeirada. Havia um rato sobre ela, enorme, que não se moveu quando a luz o atingiu. Gordo e acocorado, parecia quase sorrir.

Ele passou pela caixa, em direção à mesa.

— Passa, rato!

O rato saltou e correu em direção à curva adiante. A mão de Hank tremia agora, fazendo o facho da lanterna oscilar de um lugar a outro, revelando um barril empoeirado, depois uma cômoda antiga, depois uma pilha de jornais velhos, depois...

Ele voltou o feixe de luz sobre os jornais e prendeu a respiração ao avistar algo do lado esquerdo...

Uma camisa... era uma camisa? Enrolada como um trapo. Algo atrás parecia jeans. E algo que parecia...

Ouviu um estalo atrás dele.

Em pânico, Hank atirou as chaves de qualquer jeito sobre a mesa e saiu correndo. Ao passar pela caixa, viu o que produzira o barulho. Uma das tiras de alumínio se soltara, e apontava para o teto baixo como um dedo.

Ele subiu os degraus aos trambolhões, bateu a porta do tabique (seu corpo inteiro estava coberto de arrepios; ele só perceberia mais tarde), prendeu o cadeado no ferrolho e correu para o caminhão. Sua respiração era curta e ofegante como a de um cão ferido. Ouviu vagamente Royal lhe perguntar o que havia acontecido, engatou a marcha e saiu a toda, dando a volta na casa sobre duas rodas, comendo a terra macia. Só desacelerou quando estavam na rua Brooks, em direção ao escritório de Lawrence Crockett. Foi então que começou a tremer com tanta força que quase precisou parar.

— O que tinha lá embaixo? — perguntou Royal. — O que você viu?

— Nada — disse Hank Peters, e a palavra saiu entrecortada, pois seus dentes batiam. — Não vi nada e nunca mais quero voltar a ver.

6

Larry Crockett se preparava para fechar o escritório e ir para casa quando ouviu uma batida mecânica na porta e viu Hank Peters entrar. Ainda parecia assustado.

— Esqueceu algo, Hank? — Larry perguntou.

Quando Hank e Royal haviam voltado da Casa Marsten, com cara de quem havia levado um belo chute no saco, ele dera a cada um mais dez dólares e duas caixas de uísque Black Label, insinuando que seria melhor que ninguém ficasse sabendo sobre a excursão daquela noite.

— Preciso lhe dizer, Larry — disse Hank. — Preciso, não tem outro jeito.

— Claro, Hank. — Larry abriu a última gaveta da escrivaninha, tirou uma garrafa de Johnnie Walker e serviu uma dose para cada um. — O que aconteceu?

Hank deu um gole, fez uma careta e o engoliu.

— Quando levei as chaves até o porão, eu vi umas coisas. Pareciam roupas. Uma camisa, acho, e calças jeans. E um tênis. Acho que era um tênis, Larry.

Larry encolheu os ombros e sorriu.

— E daí? — Parecia que um grande bloco de gelo oprimia seu peito.

— O filhinho dos Glick estava usando jeans. Foi o que eu li no Ledger. Jeans, uma camisa vermelha e tênis. Larry, e se...

Larry continuou sorrindo. Um sorriso congelado.

Hank deu um gole convulsivo.

— E se os sujeitos que compraram a Casa Marsten e a loja pegaram o menino?

Pronto. Estava dito. Hank engoliu o resto do líquido ardente.

— Você não viu um corpo também? — perguntou Larry, sorrindo.

— Não. Não, mas...

— Esse caso é para a polícia — disse Larry. Voltou a encher o copo de Hank, sem tremer a mão, fria e firme como uma pedra num rio congelado. — Eu o levaria agora mesmo para falar com Parkins. Mas sabe como é... — Ele balançou a cabeça. — Esse tipo de coisa pode dar muita encrenca. Como você e aquela garçonete do Dell’s. Jackie é o nome dela, não?

— Do que você está falando? — O rosto dele ficou branco como cera.

— E com certeza eles descobririam que você foi dispensado do exército por razões pouco nobres. Mas cumpra seu dever, Hank. Faça o que achar melhor.

— Não vi corpo nenhum — sussurrou Hank.

— Ainda bem — disse Larry, sorrindo. — E acho que não viu nenhuma roupa também. Talvez fossem só... trapos.

— Trapos — repetiu Hank, estupidamente.

— Claro. Sabe como são essas casas velhas. Cheias de tranqueiras. Você deve ter visto uma camisa velha ou um pano que virou trapo de limpeza.

— Deve ser — disse Hank, e esvaziou o copo pela segunda vez. — Você tem um jeito bom de ver as coisas, Larry.

Crockett tirou a carteira do bolso, abriu-a e colocou cinco notas de dez dólares sobre a mesa.

— O que é isso?

— Esqueci de lhe pagar por aquele serviço da semana passada. Você tem de me lembrar, Hank. Sabe como sou esquecido.

— Mas você...

— Por exemplo — interrompeu Larry, sorrindo. — Você pode me contar uma coisa um dia e eu não lembraria de nada no dia seguinte. Não é terrível?

— É — murmurou Hank. Com mãos trêmulas, pegou as notas e as meteu no bolso do casaco de brim, como se não suportasse segurá-las. Levantou-se com tanta pressa e mau jeito que quase derrubou a cadeira.

— Preciso ir, Larry. Eu... eu não... Preciso ir.

— Leve a garrafa — ofereceu Larry, mas Hank já saía pela porta.

Larry voltou a sentar. Serviu-se de outra dose. Suas mãos continuavam firmes. Não fechou o escritório. Tomou mais uma dose, e mais outra. Pensou sobre pactos com o diabo. E finalmente o telefone tocou. Ele o atendeu. Ninguém disse nada do outro lado da linha.

— Já cuidei de tudo — disse Larry Crockett.

Ninguém disse nada. Ele desligou e colocou outra dose no copo.

7

Hank Peters acordou na madrugada seguinte de um pesadelo em que ratos gigantes saíam de uma cova aberta, que continha o corpo esverdeado e apodrecido de Hubie Marsten, com uma corda gasta ao redor do pescoço. Apoiou-se sobre os cotovelos, ofegante, o torso nu coberto de suor viscoso, e quando sua mulher tocou seu braço, soltou um grito.

8

O armazém de Milt Crossen ficava numa esquina do cruzamento da avenida Jointner com a rua da Ferrovia. Era o ponto de encontro dos velhos da cidade, quando chovia e o parque ficava inabitável. Nos longos invernos, eles eram parte constante do cenário.

Quando Straker chegou em seu Packard ano 39 — ou era 40? — caía apenas uma garoa. Milt e Pat Middler debatiam se a filha de Freddy Overlock, Judy, fugira de casa em 1957 ou 1958. Concorda­vam que ela fugira com o vendedor de saladeiras de Yarmouth, e que ele não valia o prato em que comia, nem ela, mas era o único consenso.

Mas todos se calaram quando Straker entrou.

Ele olhou para eles — Milt e Pat Middler, Joe Crane, Vinnie Upshaw e Clyde Corliss — e sorriu com frieza.

— Boa-tarde, cavalheiros.

Milt Crossen levantou, amarrando o avental na cintura quase que com recato,

— Pois não?

— Bom-dia — disse Straker. — Queira me servir alguns cortes de carne, por favor.

Ele comprou um rosbife, uma dúzia de costelas de primeira, carne para hambúrguer e dois quilos de fígado de vitela. Além disso, adquiriu alguns produtos secos — farinha, açúcar, feijão — e vários filões de pão.

A compra se deu no mais profundo silêncio. Os habitués da loja, em torno do grande fogão Pearl Kineo que o pai de Milt convertera em aquecedor, fumavam, olhavam para o céu e observavam o forasteiro de soslaio.

Quando Milt acabou de guardar as compras numa grande caixa de papelão, Straker pagou com dinheiro vivo — uma nota de vinte e outra de dez. Ele pegou a caixa, colocou-a debaixo do braço e abriu aquele sorriso rígido e frio para eles.

— Tenham um bom-dia, cavalheiros — disse ele, e saiu.

Joe Crane colocou um pouco de fumo Planter’s no cachimbo. Clyde Corliss se reclinou e cuspiu um misto de catarro e tabaco no balde amassado ao lado do fogão. Vinnie Upshaw tirou sua máquina de fazer cigarros do bolso do colete, espalhou uma fileira de tabaco e inseriu o papel com os dedos inchados pela artrite.

Observaram enquanto o forasteiro colocava a caixa no porta-malas. Todos sabiam que a caixa devia pesar 15 quilos com todas aquelas compras, e viram quando ele saíra com ela debaixo do braço como se fosse um travesseiro de penas. Ele entrou no carro e seguiu pela avenida Jointner. O carro subiu o monte, virou à esquerda na via Brooks, sumiu de vista e reapareceu atrás do biombo de árvores momentos depois, parecendo um brinquedo na distância. Entrou no jardim da Casa Marsten e desapareceu.

— Sujeito esquisito — disse Vinnie. Meteu o cigarro na boca, removeu alguns fios de tabaco da ponta e tirou um fósforo de cozinha do bolso do colete.

— Deve ser um dos donos da loja — Joe Crane disse.

— E da Casa Marsten também — concordou Vinnie. Clyde Corliss peidou.

Pat Middler cutucou um calo na palma da mão esquerda com grande interesse.

Cinco minutos se passaram.

— Será que eles vão vender bem? — Clyde perguntou a ninguém em particular.

— Talvez — respondeu Vinnie. — Pode ser que o negócio deslanche no verão. Não dá para saber hoje em dia.

Um murmúrio de aprovação, quase um suspiro.

— Sujeito forte — disse Joe.

— É — disse Vinnie. — Com um Packard 39, sem um sinal de ferragem.

— Era 40 — disse Clyde.

— O Packard 40 não tinha estribo — disse Vinnie. — Era 39.

— Aí que você se engana — disse Clyde.

Cinco minutos se passaram. Milt examinava a nota de vinte’ que Straker lhe dera.

— O dinheiro é falso, Milt? — perguntou Pat. — Aquele sujeito lhe deu dinheiro falso?

— Não, mas olhe. — Milt estendeu a nota e todos a olharam com interesse. Era bem maior do que as notas comuns.

Pat a examinou contra a luz e a virou do outro lado.

— É uma nota de vinte da série E, não é, Milt?

— É — disse Milt. — Pararam de fazer essas notas há 45 ou cinqüenta anos. Pode valer um bom dinheiro na loja de moedas antigas de Portland.

Pat passou a nota pelo grupo e cada um a examinou, segurando-a de perto ou de longe, dependendo do defeito na visão. Joe Crane a devolveu, e Milt a guardou sob a gaveta do caixa, junto com cheques pessoais e cupons.

— Esquisitão mesmo aquele sujeito — ponderou Clyde.

— É mesmo — disse Vinnie. — Mas era um Packard 39. Meu irmão Vic tinha um. Foi o primeiro carro dele. Comprou usado em 1944. Um dia ele deixou escapar o óleo e queimou os pistões.

— Acho que era 40 — disse Clyde —, porque lembro de um sujeito que trocava palha dos móveis perto do Alfred. Ele ia até a casa da gente de carro, e...

E a discussão prosseguiu, avançando mais no silêncio do que nas falas, como uma partida de xadrez jogada pelo correio. E o dia parecia imóvel e eterno para eles, e Vinnie Upshaw começou a enrolar outro cigarro com a lentidão mansa da artrite.

9

Ben escrevia quando bateram na porta, e ele marcou onde parara antes de levantar para abri-la. Passava um pouco das três do dia 24 de setembro, uma quarta-feira. A chuva dera fim aos planos de continuar a procurar Ralphie Glick, e era consenso que a busca terminara. O menino desaparecera. Para sempre.

Abriu a porta e deu com Parkins Gillespie, fumando um cigarro. Ele trazia um livro de capa mole, e Ben viu que era a edição da editora Bantam de Conway’s Daughter.

— Entre, delegado — disse ele. — Está chovendo aí fora.

— É, um pouco — disse Parkins, entrando. — Setembro é o mês da gripe. Sempre saio de galocha. Tem gente que acha graça, mas não pego uma gripe desde a batalha de St.-Lô, em 1944.

— Deixe seu casaco em cima da cama. Desculpe, mas não posso lhe oferecer um café.

— Não quero molhar sua cama — Parkins disse, e bateu a cinza no cesto de papéis. — E acabei de tomar o café da Pauline, lá no Excellent.

— Posso ser de alguma ajuda?

— Minha mulher leu este livro seu. — Ele mostrou o exemplar. — Soube que você estava na cidade, mas, como é muito tímida, quis que eu lhe pedisse um autógrafo ou algo assim.

Ben pegou o livro.

— Pelo que Weasel Craig disse, sua mulher morreu há 14 ou 15 anos.

— É mesmo? — Parkins não parecia nem um pouco surpreso. — Esse Weasel gosta de falar. Um dia desses vai acabar tropeçando na língua.

Ben não disse nada.

— Mas você podia autografar o livro para mim?

— Com prazer. — Ele pegou uma caneta sobre a mesa, abriu o livro na folha de rosto (“A vida em estado cru!” — jornal Plain Dealer, de Cleveland), e escreveu: Ao delegado Gillespie, com estima, Ben Mears, 24/9/75. E o devolveu.

— Muito obrigado — disse Parkins, sem ler o que Ben escrevera. Inclinou-se e apagou o cigarro na lateral do cesto de papéis. — É meu primeiro livro autografado.

— Você veio aqui para me interrogar, não é? — Ben perguntou, sorrindo.

— Você é bem esperto — disse Parkins. — Mas, já que tocou no assunto, gostaria de fazer umas perguntinhas. Esperei Nolly sair de perto. É um bom rapaz, mas também gosta de falar. É uma fofoca que não acaba mais.

— O que gostaria de saber?

— Primeiro, onde você estava na noite de quarta-feira.

— A noite em que Ralphie Glick desapareceu?

— Essa mesmo.

— Sou um suspeito, delegado?

— Não, imagine. Não tenho suspeitos. Um caso desse está fora do meu departamento. Meu negócio é multar gente por excesso de velocidade ou expulsar garotos do parque antes de começarem a fazer arruaça. Estou só xeretando.

— E se eu não quiser lhe dizer?

Parkins deu de ombros e pegou os cigarros.

— Aí é com você, filho.

— Jantei na casa de Susan Norton. Joguei badminton com o pai dela.

— E aposto que ele ganhou. Sempre ganha de Nolly. Nolly vive dizendo como queria ganhar de Bill Norton pelo menos uma vez. A que horas você saiu?

Ben riu, mas sem achar muita graça.

— Você vai direto ao assunto, não?

— Sabe — disse Parkins —, se eu fosse um daqueles detetives de Nova York que a gente vê na tevê, era capaz de pensar que você tem algo a esconder, do jeito que foge das perguntas.

— Não tenho nada a esconder — disse Ben. — Só estou cansado de as pessoas me acharem um forasteiro, apontarem para mim na rua, me tratarem mal na biblioteca. Agora você vem como quem não quer nada, tentando descobrir se estou com o corpo de Ralphie Glick no armário.

— Não é isso que eu acho. Não mesmo. — Ele olhou para Ben por cima do cigarro, os olhos subitamente duros. — Estou só tentando riscar você da minha lista. Se eu achasse que você tivesse alguma coisa a ver com a história, já estaria no xadrez.

— Tudo bem — disse Ben. — Saí da casa dos Norton por volta das sete e quinze. Dei um passeio até o monte do Pátio do Colégio. Quando ficou escuro demais para enxergar, voltei para cá, escrevi durante umas duas horas e fui dormir.

— Que horas chegou aqui?

— Umas oito e quinze, acho.

— É, isso não te inocenta tão bem como eu gostaria. Viu alguém?

— Não, ninguém.

Parkins resmungou qualquer coisa e andou até a máquina de escrever.

— Sobre o que está escrevendo?

— Não é da sua conta — disse Ben, agora com rispidez. — Agradeceria se ficasse longe do meu trabalho. A não ser que tenha um mandado de busca, é claro.

— Você é bastante sensível, para alguém que escreve livros para serem lidos.

— Depois de passar por três redações, revisão da editora, prova de paquê, tipo final e impres­são. Farei questão de lhe enviar quatro exemplares. E autografados. Por enquanto, estão na categoria de documentos particulares.

Parkins sorriu e se afastou.

— Tudo bem. Duvido muito que seja uma confissão assinada mesmo. Ben retribuiu o sorriso.

— Mark Twain disse que um romance era uma confissão de todos os crimes por um homem que nunca cometeu nenhum.

Parkins exalou fumaça e andou para a porta.

— Não vou mais molhar seu tapete, Sr. Mears. Muito obrigado pela atenção. E, só para constar, acho que você nunca nem viu o menino. Mas é meu trabalho fazer essas perguntas por aí.

Ben assentiu com a cabeça.

— Entendi.

— E você sabe como são as coisas em ’salem’s Lot, ou Milbridge, ou Guilford, ou qualquer cidadezinha pequena. Só se deixa de ser forasteiro depois de morar vinte anos na cidade.

— Eu sei. Desculpe se fui grosseiro. Mas depois de procurar uma semana pelo menino e não encontrar nada... — Ben sacudiu a cabeça.

— É — disse Parkins. — Está sendo difícil demais para a mãe. Terrível. A gente se vê por aí.

— Certo — disse Ben.

— Não ficou chateado comigo?

— Não. — E depois de uma pausa. — Pode me dizer uma coisa?

— Fale.


— Onde conseguiu esse livro? De verdade.

Parkins Gillespie sorriu.

— Tem um sujeito em Cumberland que tem uma loja de móveis usados. Um sujeito meio fresco, chamado Gendron. Vende livros usados por dez centavos, e tinha cinco deste.

Ben jogou a cabeça para trás e soltou uma risada, e Parkins Gillespie saiu, sorrindo e fumando. Ben ficou na janela até que o delegado saísse e atravessasse a rua, desviando cuidadosamente das poças d’água com as galochas pretas.

10

Parkins parou um instante para olhar a vitrine da nova loja antes de bater na porta. Nos tempos da Lavanderia Village, tudo que se via lá naquele lugar era um monte de gordas de bobes colocando alvejante ou trocando dinheiro na máquina da parede, mascando chicletes como vacas mastigando palha. Mas um decorador de Portland passara todo o dia anterior lá, e parte daquele dia também, e o lugar estava com outra cara.

Uma plataforma fora erguida atrás da vitrine e coberta com um carpete áspero verde-claro. Dois focos de luz invisíveis haviam sido instalados, e lançavam uma luminosidade suave sobre três objetos que haviam sido dispostos na vitrine: um relógio, uma roda de fiar e uma antiquada cômoda de cerejeira. Havia um pequeno cavalete diante de cada peça, com uma discreta etiqueta de preço. Minha nossa, quem em seu juízo perfeito pagaria seiscentos dólares por uma roda de fiar quando uma máquina Singer custava 48,95 na Value House?

Suspirando, Parkins bateu na porta.

Ela se abriu no segundo seguinte, como se o novo morador estivesse espreitando atrás dela, esperando que ele batesse.

— Inspetor! — disse Straker, com um sorriso fino e polido. — Que gentileza sua nos visitar!

— É só delegado mesmo — disse Parkins. Acendeu um Pall Mall e entrou. — Parkins Gillespie. Prazer em conhecê-lo.

Ele estendeu a mão, que foi apertada gentilmente por outra que lhe pareceu extremamente forte e muito seca.

— Richard Throckett Straker — disse o careca.

— Foi o que imaginei — disse Parkins, olhando ao redor.

A loja toda fora acarpetada e estava sendo pintada. O cheiro de tinta fresca era gostoso, mas Parkins sentiu outro cheiro por trás, desagradável, indefinível. Voltou a atenção para Straker.

— O que posso fazer pelo senhor neste esplêndido dia? — perguntou Straker.

— Nada, nada. Só vim saber como vai. Sabe como é, dar as boas-vindas e lhe desejar boa sorte.

— É muita atenção da sua parte. Quer um café? Um cálice de xerez? Tenho ambos lá atrás.

— Não, obrigado, não vou demorar. O Sr. Barlow está?

— Está em Nova York, fazendo compras para a loja. Não deve voltar antes de dez de outubro.

— Vai abrir sem ele, então? — disse Parkins, pensando que, pelos preços que vira na vitrine, a loja não ficaria exatamente lotada de clientes. — Falando nisso, qual é o primeiro nome do Sr. Barlow?

Straker voltou a abrir seu sorriso, fino como lâmina.

— Está fazendo essa pergunta oficialmente... delegado?

— Não, só por curiosidade.

— O nome completo do meu sócio é Kurt Barlow. Já trabalhamos juntos em Londres e Hamburgo. Isto que vê aqui — ele fez um gesto abrangendo o ambiente — é nossa aposentadoria. Modesta, mas de bom gosto. Não esperamos mais do que ganhar a vida. No entanto, ambos gostamos de objetos antigos, finos, e esperamos criar uma boa reputação na região. Quem sabe até em toda a linda Nova Inglaterra. Acha que será possível, delegado Gillespie?

— Tudo é possível — disse Parkins, procurando um cinzeiro. Como não viu nenhum, bateu a cinza do cigarro no bolso do casaco. — Seja como for, desejo boa sorte a vocês dois. E diga ao Sr. Barlow, quando falar com ele, que passarei para conhecê-lo.

— Farei isso — disse Straker. — Ele gosta de companhia.

— Que bom — disse Gillespie. Quando chegou à porta, parou e se voltou. Straker olhava atentamente para ele. — A propósito, o que está achando do velho casarão?

— Precisa de muitas reformas — disse Straker. — Mas temos tempo.

— É o que parece — concordou Parkins. — Diga, por acaso apareceram uns piás por lá?

— Piás? — repetiu Straker, franzindo as sobrancelhas.

— Crianças — continuou Parkins, pacientemente. — Eles gostam de infernizar moradores novos. De atirar pedras ou tocar a campainha e sair correndo, esse tipo de coisa.

— Não, não vi criança nenhuma — disse Straker.

— Uma criança está desaparecida.

— É mesmo?

— É — disse Parkins, com seriedade. — É mesmo. Estamos achando que ele não voltará a aparecer. Não com vida.

— Que pena — disse Straker, em tom distante.

— Realmente. Se o senhor vir qualquer coisa...

— Comunicarei imediatamente à sua delegacia. — E ele voltou a abrir seu sorriso glacial.

— Ótimo — disse Parkins. Abriu a porta e olhou com resignação para a chuva pesada. — Diga ao Sr. Barlow que estou querendo conhecê-lo.

— Certamente, delegado Gillespie. Adieu.

Parkins olhou para trás, surpreso.

— Como é que é?

O sorriso de Straker se alargou.

Adieu, delegado Gillespie. É a conhecida palavra francesa para “adeus”.

— Ah, é? A gente aprende uma coisa nova a cada dia. Bom, tchau. — Ele saiu e fechou a porta. — Conhecida só para ele. — Seu cigarro estava ensopado. Ele o jogou fora.

Dentro da loja, Straker observou Parkins se afastar pela rua. Seu sorriso tinha desaparecido.

11

Parkins voltou a sua sala no Paço Municipal e chamou:

— Nolly? Você está aí, Nolly?

Ninguém respondeu. Parkins balançou a cabeça. Nolly era um bom rapaz, mas um pouco tapado. Ele tirou o casaco, desafivelou as galochas, sentou diante de sua mesa, procurou um número na lista telefônica de Portland e discou. Atenderam na primeira chamada.

— FBI, Portland. Agente Hanrahan.

— Aqui é Parkins Gillespie. Delegado da cidade de Jerusalem’s Lot. Um menino desapareceu aqui.

— Estou sabendo — respondeu Hanrahan. — Ralph Glick. Nove anos de idade, um metro e meio, cabelos pretos, olhos azuis. O que houve, um pedido de resgate?

— Não, nada disso. Queria só que verificassem uns nomes para mim.

Hanrahan murmurou afirmativamente.

— O primeiro é Benjamin Mears. M-E-A-R-S. Escritor. Escreveu um livro chamado Conway’s Daughter. Os outros dois estão associados. Kurt Barlow. B-A-R-L-O-W. O outro é...

— É Kurt com “c” ou “k”?

— Não sei.

— Certo, continue.

Parkins continuou, suando. Falar com verdadeiros agentes da lei sempre fazia com que se sentisse um bundão.

— O outro é Richard Throckett Straker. Throckett com dois “t” no final, e Straker do jeito que se fala. Esses dois trabalham com móveis e antigüidades. Acabaram de abrir uma loja aqui na cidade. Straker diz que Barlow está em Nova York, comprando mercadorias. E que os dois já trabalharam juntos em Londres e Hamburgo. E acho que é só isso.

— São suspeitos do crime?

— Por enquanto, não sei nem se foi um crime. Mas todos apareceram na cidade na mesma época.

— Acha que há alguma ligação entre esse Mears e os outros dois?

Parkins recostou na cadeira e olhou para a janela.

— Essa é uma das coisas que eu gostaria de descobrir.

12

Os fios de telefone produzem um murmúrio peculiar em dias claros e frescos, como se vibrassem com as fofocas transmitidas por eles. É um som que não se parece com nenhum outro — o solitário sussurro de vozes vagando no espaço. Os postes telefônicos são cinzentos e lascados, e as geadas do inverno lhes deram uma postura negligente e curvada. Não são sérios e militares, como os postes ancorados no concreto. Têm bases pretas de alcatrão quando ficam ao lado de estradas asfaltadas, e cobertas de poeira quando ladeiam estradas de terra. Antigas marcas de gancho apareciam na superfície, onde guarda-fios subiram para consertar algo em 1946, 1952 ou 1969. Pássaros — corvos, pardais, tordos, estorninhos — se empoleiram nos fios murmurantes, arqueados e silencio­sos, talvez ouvindo os estranhos sons humanos. Se ouvem, seus olhos não dão nenhuma indicação disso. A cidade tem um senso, não de história, mas de tempo, e os postes telefônicos parecem saber disso. Encostando a mão num deles, sentimos a vibração dos fios no interior da madeira, como almas aprisionadas lutando para sair.

“...e ele pagou com uma nota de vinte antiga, daquelas grandes, sabe, Mable? Clyde disse que não via uma daquelas desde a queda do Gates Bank and Trust em 1930. Ele estava...”

“...é, ele é um homem muito estranho, Ewie. Eu o vi com meus binóculos, circulando atrás da casa com um carrinho de mão. Será que ele está lá sozinho ou...”

“...Crockett pode saber, mas não quer abrir a boca. Sempre foi um...”

“...o escritor, hospedado na Eva. Será que Floyd Tibbits sabe que ele está...”

“...passa um tempo absurdo na biblioteca. Loretta Starcher disse que nunca viu alguém conhecer tantos...”

“...ela disse que ele se chama...”

“...isso, Straker. Sr. R. T. Straker. A mãe de Kenny Danle disse que passou pela loja nova no centro e que viu um autêntico armário DeBiers na vitrine, e custava oitocentos dólares. Você acredita? E eu disse...”

“...engraçado, é só ele chegar que o filho dos Glick...”

“...você acha...”

“...não, mas que é estranho, é. Por sinal, você ainda tem aquela receita de...”

Os postes murmuram. E murmuram. E murmuram.

13

23/9/75



NOME: Glick, Daniel Francis

ENDEREÇO: via Brock, n° 1, Jerusalem’s Lot, Maine 04270

IDADE: 12 SEXO: masculino RAÇA: branca

DATA DA INTERNAÇÃO: 22/9/75

RESPONSÁVEL: Anthony H. Glick (Pai)

SINTOMAS: Choque, perda de memória (parcial), náusea, perda de apetite, constipação, falta de energia.



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