A herculano



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HISTORIA DE PORTUGAL

Historia de Portugal

DESDE O COMEÇO DA MONARCHIA ATÉ O FIM DO REINADO DE AFFONSO in

A. HERCULANO

Sétima edição definitiva conforme com as edições da vida do auctor

DIRIGIDA POR

DAVID LOPES

Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Edição ornada \>v. gravuras k mappas iiistohicos

executados sobre docu.mextos autiienticos

imnAiso rj.v dikkcção dk

PEDRO DE AZEVEDO

(.'oTisereador do Archivo Nacional.

TOMO in (Livro II, 2.- parte, Livro in).

LIVRARIAS AILLAUD à BERTRAND

Paris-Lisboa.

LIVRARIA FRANCISCO ALVES Rio de Janeiro. — S. Paulo. — Bello Horizonte.

I9IO


«uámbu

LIVRO II


ua8-n85

2.

Continuação do reinado de Affonso I. — Tomada de Lisboa e outros logares. — Guerras civis entre os mussulmanos



— Tentativas repetidas contra Alcácer. — Conquistas no moderno Alemtejo. — Leão e Castella por morte de Affonso VII. — Allianças de família entre Affonso I, o conde de Barcelona e Fernando II de Leão. — O rei de Portugal desbaratado pelos almohades. — Tomada de Beja e Évora. — Invasão dos portugueses além do Guadiana. — Moura, Serpa e Alconchei submettidas. — Discórdias entre Affonso I e o rei de Leão,—-Destroço dos portugueses em Arganal. — Conquista do sul da Galliza.

— O rei de Portugal, prisioneiro dos leoneses em Badajoz, é posto em liberdade. — Providencias para a defensão do paiz. — Primeiro cerco de Santarém pelos almohades. Tréguas. — Casamento do príncipe herdeiro, o infante Sancho. — Invasão dos portugueses na Andalusia. Represálias. — O papa confirma o titulo de rei a Allbnso Henriques. — Continuação da guerra com os

, sarracenos. — A infanta D. Theresa desposada com o conde de Flandres. — O amir-al-muminin Yusuf Abu Yaeub invade pessoalmente Portugal. — Segundo cerco de Santarém e morte do amir. — Últimos dias de Affonso I. — Epílogo.

Desde a tomada de Santarém os pensamentos de Affonso I voltavam-se todos para a conquista de Lisboa; mas os mussulmanos deviam estar precatados, e, porventura, a consciência das poucas forças que tinha para tão grande empreza, íàzia-lhe considerar a tentativa como incerta e remota d).

in Sed si forte evenerit utin aliquo tempore mihi Deus sua pietate daret illam civilatem, quae dicitur Ulixbona : Doaç. aos templários, ubi supra.

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Os successos que nessa conjunctura occorriam na Europa fizeram com que se realisassem os seus desígnios com maior brevidade do que elle ousaria esperar. Daremos de taes successos uma idéa succinta, para que o leitor possa conhecer a causa do inesperado auxilio que o rei de Portugal então obteve para se apoderar de Lisboa, habilitando-se assim para proseguir as suas conquistas ao sul do Tejo.

A existência dos estados christãos na Syria tinha sido desde a primeira cruzada uma serie quasi não interrompida de combates, em que ora os conquistadores, ora os mussulmanos levavam a melhoria, sejcnque nem uns nem outros obtivessem vantagens permanentes e decisivas. A perda, porém, de Edessa (n44)> uma das cidades mais importantes daquelles estados, fez profunda impressão na Europa. Por mais de meio século não haviam cessado de partir para o oriente cavalleiros e peregrinos de ambição ou de fé viva, que iam buscar naquellas remotas partes melhor fortuna ou mais segura salvação ; mas estes continuados soccorros serviam apenas para preencher as fileiras dos defensores da cruz, diariamente rareadas pelo ferro sarraceno. Assim, o pensamento de uma nova cruzada para salvar das mãos dos infiéis os sanctos Jogares começou a crescer e a dilatar-se. Esta idéa achou um interprete ardente em Bernardo, abbade de Glaraval, talvez entre os seus contemporâneos o homem mais eminente por muitos dotes reunidos. A sua eloquência, a austeridade dos seus costumes, a sua actividade, a audácia com que media pela mesma escala os poderosos c os humildes para a reprehensão ou para o louvor tinham-lhe grangeado extrema popularidade e alta influencia nos negócios públicos, sobretudo nos que de algum

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modo se ligavam com a religião. Foi, pois, Bernardo quem principalmente pregou a cruzada. Na primavera de 1146 o rei de França, Luiz Vil, tomou a cruz vermelha das mãos do abbade de Claraval, e com elle a tomaram quasi todos os senhores e principaes cavalleiros franceses, além de muitas outras pessoas. Passando á Allemanha, Bernardo soube resolver Conrado in, na dieta de Spira, a associarse a este grande movimento militar. Os resultados da empreza foram, porém, fataes para os dous príncipes, que deixaram anniquilada na Ásia a flor dos seus exércitos, sem que vissem realisar-se alguma das brilhantes promessas do monge cisterciense, que, apesar da sua indisputável capacidade, levado do enthusiasmo, não soubera calcular as difíiculdades da tentativa (i).

Os cruzados de Allemanha e os de França, que os seguiram pouco depois, capitaneados tanto uns como outros pelos respectivos monarchas, tinhamse dirigido por Hungria e passado á Ásia atravessando o Bosphoro. Constava o exercito allemão principalmente de suabios, bavaros, franconios e lotharingios, bem como da gente do sudoeste de Allemanha (2). Certo numero, porém, de habitantes do Rheno inferior e da Frisia, que tinham sido movidos pelos discursos do clero para a guerra sancta, mais habituados á vida do mar que os povos do sertão, preferiram embarcar-se e irem unir-se com outros peregrinos em Inglaterra. As tropas teutonicas, em que entravam muitos lotharingios, junctas em Colónia passaram a Dartmouth, porto da Gran-Bretanha, onde se achava uma armada de

ir) Wilken, Geschichte der Kreuzzuge : [!. 3, ia. — Michaud, Hist. des Croisades, P. 3, L. 6.

(2) Píister, Geschichte der Teutschen. 2 B. S. 3õi.

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perto de duzentas velas destinada a transportar os cruzados das varias regiões marítimas de Flandres, de Inglaterra e ainda alguns da Aquitania (i). Eram os personagens principaes -daquella frota fundeada em Darmouth (2) o conde Arnulfo de Areschot, chefe dos aLlemães, e Christiano de Gistell, chefe dos flamengos, sendo a gente d'Inglaterra regida por quatro coudestaveis (3). As tropas que alli se ajunctaram subiam, talvez, a pouco mais de treze mil homens, pela maior parte de inferior condição, porquanto a nobreza d'AHemanha c de França se aggregara aos exércitos de Conrado in e de Luiz VII (4). Esta armada velejou para as costas de Hespanha, não tanto com o intuito de guerrear os sarracenos da Peninsula, como porque era aquella a rota que deviam seguir para entrarem no mediterrâneo e chegarem á Syria. Depois de uma

(1) V kal. man movit excrcitus á Colónia : Dodeehinus. — Exercitus, Colónia et aliis civitatibas liheni conflatus : Helmoldus. — Flandrigenae... Angli... Lotharingii : Arnulfus. — Exercitus ex Anglia, Flandria et Lolharingia : Rob. de Monte. — Variarum nationam gentes: Crucesignati Anglici Epistola. — Pars eorum máxima venerat ex Anglia : Henricus Huntingdonensis. — Castra Thciitonicoram eeterorumque diversis qui venerant provinciis... Angli viri, et reliquus Britaniae, Aquitaniaeqae populus : Indiculum Fundat. — Achar-se-hão no tim do volume, nota I, os títulos, edições e logares dos AA., que citamos só pelos seus nomes para evitar prolixidade e repetições.

(3) So laesset sich wohl dreistdas Derchimede des Dedekin und das Trédemunde des Arnulf deuten : Lappenberg, Geseli. von England, 2 15. S. 357.

(3) Crucesignati Anglici Epist.

(4) Venimus in portam Angliae Dereliimile, ubi erat comes Aresehot cum aoo fere navibusanglicis et flaudricis: Dodeehinus. — Cum de i[>sis essent tredecini millia : Iiob. de Monte. — Exereitus virorum non potentam nec alicui magno duce ennixi... huiniliter profeeti sunt... — Ilis pauperibus de quibus praediximus : H. Huntingdonensis.

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procella furiosa, que facilmente espalhou os pequenos baixéis da frota (1), esta, havendo buscado suecessivamente abrigo em dous ou três portos das costas de Asturias e Galliza, veio a final ajunctar-se na foz do Tambre (ria deNoya). Próximos do celebre sanctuario de Compostella, tão frequentado de peregrinos de toda a Europa, os cruzados dirigiram-se alli para celebrarem a festa de Pentecostes no templo do apostolo. Após esta romagem, embarcando de novo e correndo a costa para o sul, vieram entrar no Douro (2).

A 16 de junho de 1147 a armada surgiu diante do Porto e alli esperou onze dias pelo conde de Areschot e por Christiano de Gistell, que, levados pela força do temporal, se haviam separado do resto da frota e até esse tempo não a tinham podido alcançar (3). O bispo D. Pedro, que já tinha noticia da vinda daquella armada, recebera na véspera uma carta de AíFonso Ilenriques, na qual lhe dizia que, se os navios dos cruzados aportassem alli, tractassem aquella gente o melhor que fosse possível e que, se alcançasse ajustar com os seus chefes servirem-no na guerra, concluísse um accordo sobre isso, dando todas as seguranças necessárias e embarcando com elles para a foz do Tejo. Havia, com elfeito, dez dias que o rei, sabendo pela gente de cinco navios que, corridos do tempo, tinham arribado previamente ás costas de Portugal, da vinda da frota e que entraria no Douro, ajunctava forças

(1) Bardas lhes chama a Memória de S. Vicente. De feito, sendo treze mil os cruzados e perto de duzentas velas, cada uma não transportava mais de Go a 70 homens.

(1) ad Portugalim per alveum íluminis, qui Dorius dicitur, applicuimus ; Arnulfus. — Cf. Epistola Crucesignati Anglici.

(3) Crucesignati Anglici Epist.

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para marchar sobre Lisboa, resolvido a conceder aos cruzados quanto exigissem e coubesse nos seus

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i. — Sé de Lisboa.

recursos para se valer delles na conquista de tão importante cidade (i).

ir) Crucesignati Anglici Epist.

Como os cruzados eram de varias nações e tinham dillerentes chefes, o bispo congregou-os no cemitério do burgo episcopal, porque não cabiam na Sé, e ahi lhes dirigiu um discurso em latim, que os interpretes iam traduzindo nos diversos idiomas. Jispois jie os incitar pelo sentimento religioso a darem o sangue e a vida pela fé combatendo os saria.ce.nos da ííespanha, recorreu emfim ao meio não menos efficaz de lhes expor as vantagens que el-rei lhesi ..QÍTerecia*. A deliberação que se tomou a final foi acceitar a proposta e partir para Lisboa logo que o conde de Areschot e Christiano de Gistell chegassem, devendo entretanto vir o arcebispo de Braga ajunctar-se com o seu suífraganeo para acompanharem a expedição (i). EUectivamente, unida de novo toda a armada (a), seguiu a sua rota e subiu pelo Tejo no penúltimo dia do mês, depois de dous de trabalhosa viagem (3), emquanto Affonso I marchava por terra com as forças que poderá ajunctar para esta empreza, as quaes, conforme o testemunho de um historiador coevo, formavam um poderoso exercito (4).

(ij Crucesignati Angl. Epist.

(a) A memória de S. Vicente diz, que a frota entrada no Tejo era de iyo navios, que vinham a ser os quasi 200 (a Epist. Crueesignati Anglici iixa o numero de navios saídos de Dartmouth em i<)4) com que saíra de Inglaterra o conde de Areschot.

(3) Estas datas em que concordam Arnulfo e Dodechino, estão certas. A Paschoa em 11^7 caiu a ao de abril, e o Pentecostes a 8 de junho. Chegaram ao Porto oito dias depois, e portanto a 16. Demoraram-se ahi onze, e gastaram quasi dous em correr a costa desde o Douro até o Tejo, onde surgiram na véspera de S. Pedro '28), o que dá exactamente o cômputo leito por Arnulfo e por Dodechino.

(4) Rex quoque, terrestre accedens itinere, validum adduxit exercitum : Helmoldus.

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2. — Restos da muralha de Lisboa juncto de Saneia Luzia.



Lisboa já então era cidade importante. A sua situação, hoje grandemente accommodada para ser um dos principaes empórios do commercio do mundo, se os erros dos homens ou os seus maus fados lh'o consentissem, não era nesse tempo_naenos própria pAraj3entro_d8La4LveKa£l^Ç/?Ji1;MES-á9LID.&X§s O£eanp_e^mediterriineo e, principalmente, para o tracto entre a Mauritania o a Europa. A bondade do porio,_ajbrandura do clima, os ricos produetos do terrHoxija cirçuinvizinho deviam tè-la engrandecido po.r muitos,modos. Assentada á beira do rio e protegida pelo castello ou kassba (alcáçova) que se erguia na sua extremidade ao norte, esta bella cidade, como lhe chama Edrisi, eataya,_cingida_ilÊ_ muros de admirável estruetura, não o sendo menos as altas torres do.eminente, castello, que pareciam , invencíveis para forças, humanas. Unia das cousas mais notáveis delia eram as suas thermasou banhos sempre tépidos, tanto no estio como no inverno, e que naquella epocha ficavam situados no centro da povoação (i). Era esta opulentissima pelo tracto e mercancia dos portos d'Europa e d'África, e nella abundavam tanto o ouro e a prata como os artefactos e géneros mais preciosos que o luxo pôde desejar ou a necessidade exigir. Já então o vinho, o sal e as fruetas constituíam os principaes produetos dos seus arredores. Calculava-se officialmente a sua população, depois que os habitantes de Santarém,

(ii Cette belle ville s'étend le longdu fleuve, est ceinte de murs, et est protégée par un chãteau-fort Au centve de Ia ville est une souroe d'eau, cliande en ete comnie en hiver : Edrisi jVers. de Jaubert). Vol. a, p. 20. Quae oivitas.... mirabilis struetura tam murorum quam turrm n super montem humanis viribus insuperabihs fundata est. Arnulfus.

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expulsos d'alli pela conquista, tinham vindo acolher-se a Lisboa, em i54:ooo homens afora mulheres e creanças, calculo na verdade exaggeradissimo apesar daquelle inesperado augmento, mas que, ainda assim, indica ser esta cidade naquella epocha uma das mais populosas d'Hcspanha. Tudo o que era gente principal de Almada, de Palmella e de Cintra residia em Lisboa, e aqui se encontravam negociantes de todos os portos d'África e da Peninsula. Ás razões de ordem económica pelas quaes affluia a esta cidade tão extraordinário numero de pessoas aceresciam outras, segundo corria, de ordem moral, talvez as mais fortes, para essa singular accumulação de habitantes. Era a soltura dos costumes, a liberdade levada ao grau de licença. Cada qual dava a lei a si próprio : nenhuma religião havia, e os homens mais depravados do mundo vinham mergulhar-se nessa sentina de corrupção, onde púllulavam á vontade os mais asquerosos vicios, e as paixões mais ruins podiam francamente saciar-se (i).

O âmbito da cidade era o actual castello, defendido por um muro circular torreado, de cujo exterior partiam lateralmente duas muralhas que fazendo volta por nascente e poente se iam encontrar na orla do Tejo, exactamente á beira da agua. A área intermédia devia abranger os actuaes bairros d'Alíama e Ribeira Velha; espaço que mal comprehenderiamos como podesse conter população avultada, se uma testemunha ocular da conquista de Lisboa não nos subministrasse os meios de explicar, ao menos até certo ponto, esse facto. Os edifícios eram por tal modo apinhados que, excep-

(ij Grucesignati Anglici Epist.

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tuando os bazares ou mercados, seria difíicil achar uma rua ou passagem que tivesse mais de oito pés de largo. Além disso, em todo o circuito dos muros (i) e contíguos a estes havia uma espécie de vastos subúrbios, cujo accesso era talhado a pique, e por tal modo difíícultoso de entrar que cada um podia considerar-se como um castello ou baluarte (2).

No mesmo dia em que a frota fundeou em frente da povoação os cruzados desembarcaram em grande numero e travaram escaramuça com os sarracenos, escaramuça que terminou por se recolherem estes á cidade e os cruzados aos seus navios, ficando apenas acampados em certa eminência uns trinta a quarenta delles. Apenas, porém, amanheceu o dia de S. Pedro, tudo saltou em terra. Tinha já chegado com o seu exercito o rei de Portugal, e os dous prelados de Braga e do Porto foram immediatamente buscá-lo. A presença de Allbnso Henriques produziu grande tumulto entre os cruzados : todos queriam falar-lhe. Pediu-lhes o príncipe que lhe indicassem quaes eram os seus chefes e, depois de elogiar o aspecto guerreiro do campo e o zelo religioso que congregou alli tantos homens valorosos, declarou que, embora empobrecido pela incessante lueta em que andava com os infiéis, subministraria aos reeem-vindos quanto os próprios recursos lhe permittissem dar-lhes; mas que era necessário que nomeassem algumas pessoas com quem se debatessem as promessas que lhes mandara fazer, a fim de ser depois submettido o accordo á approvação de todos. Esta proposta, feita a gente collecticia e de desvairadas origens, esteve a ponto de dar aso a

(1) Circumquaque suburbiis. Ibid. (nj Id. Ibid.

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baldar-se a expedição. O debate sobre ella, protraindo durante a manhan, renovou-se de tarde com mais violência, e tanto mais que os flamengos, movidos talvez por secretos meneios, manifestavam já o intento de estar por tudo e de ficarem ao serviço do rei de Portugal em qualquer eventualidade. Combatiam outros a acceitação do pacto proposto, distinguindo-se entre os insolVridos os dous irmãos Willielm e Radulpb, que, segundo parece, eram chefes de piratas normandos (i), aos quaes se associavam, além de outros, muitos cruzados d'Inglaterra que haviam tomado parte na malsuccedida tentativa feita cinco a seis annos antes contra Lisboa (2). Fundavam-se os dous piratas e os seus sequazes nas grandes vantagens que poderiam tirar das depredações nas costas de Hespanha, na maior brevidade com que chegariam á Terra-sancta e, sobretudo, na deslealdade com que, segundo diziam, procedera Ailbnso Henriques da outra vez em que recorrera ao seu auxilio. Wilhelm declarou que com oito ou dez navios que quizesscm seguir a sua fortuna partiria sem detença. O maior numero, porém, isto é, os alleinães, os flamengos, a maioria dos ingleses e os escoceses mostravam-se resolvidos a proseguir no encetado empenho, ficando só contumazes os normandos e as gentes de Bristol e do Hampshire. Os allemães e flamengos partiram logo para o lado oriental da cidade, onde acamparam,

(1) Wilelmus Vitulus adhuc spirans ininarum cedisque pyraticae et Radulíus ft-ater ejus: Ibid. — Vituli eram uma espécie de homens de mar (V. Ducange e Carpentier). Da narrativa do cruzado inglês e sobretudo do discurso de Herveu de Glanville se vê que eram principalmente os normandos que se oppunham ao accordo, com a idéa de piratear nas costas d'Hespanha.

(2) V. T. II, p. 186.

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fundeando os seus navios também daquelle lado, emquanto os cruzados d'Inglaterra procuravam reduzir a concórdia os dissidentes. A final, á força de razões, de supplicas e até de lagrymas, Herveu de Glanville, condestavel da gente de Sullblk e Norfolk, alcançou dobrar o animo feroz de Wilhelm e aquietar os seus partidários, sob condição, todavia, de não lhes faltarem victualhas e de lhes ser pago soldo pelo rei ou pelos outros cruzados, na falta do que nem mais um dia se demorariam. Pacificado deste modo tudo, a gente das diversas nações nomeou cada qual seu commissario para, junctos, tractarem com os delegados régios de assentar as condições definitivas do accordo. Foram estas que, tomada Lisboa, os bens dos inimigos pertenceriam exclusivamente aos cruzados; que os resgates de vidas ollerecidos por quaesquer prisioneiros seria também para elles, ficando esses prisioneiros captivos do rei; que os mesmos cruzados reteriam em seu poder a almedina, se fossem elles que a tomassem, até a saquearem completamente, entregando-a só depois disso a Aflbnso Henriques; que debaixo da inspecção deste se repartiriam os prédios da cidade e as propriedades rústicas aos que ficassem em Portugal, continuando a viver aqui com as liberdades, foros, usos e costumes dos seus respectivos paizes e reconhecendo só o dominio eminente da coroa; que, finalmente, assim os que intervinham naquella arriscada empreza como os seus herdeiros e successores gosariam da immunidade de portagens e peagens para os seus navios e mercadorias em todos os portos de Portugal. De uma e da outra parte nomearam-se para se darem em reféns do convénio vinte indivíduos notáveis (1).

(1) Na carta do cruzado inglês, de que vamos extrahindo

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Confirmando este accordo, Allbnso I jurou que não levantaria campo senão por motivo de enfermidade mortal, ou sendo os seus estados invadidos pelo inimigo, e que não inventaria em caso nenhum tal pretexto para faltar ao pacto jurado. Esta promessa solemne, que de certo não foi espontânea, parece indicar que a anterior tentativa contra Lisboa se mallograra pela retirada das tropas de Affonso Henriques, que antes quizera adiar a reducção da cidade, do que submetter-se ás condições impostas pelos seus alliados, condições, talvez, ainda mais duras do que estas que finalmente se resolvia a

acceitar.

Antes de assentar arraiaes e de começar as operações do assedio os sitiadores entenderam ser conveniente propor uma capitulação vantajosa aos cercados, a qual, não sendo provavelmente acceita, até certo ponto legitimaria os horrores que eram consequência forçosa de ser a cidade tomada á escala vista. Os dous prelados de.Braga e do Porto com alguns dos capitães estrangeiros foram enviados como parlamentarios. Reconhecidos por taes ao aproximarem-se dos muros, não tardaram a apparecer no adarve o kayid da cidade, o bispo mosarabe (i), e os magistrados civis. Dadas mutuas tréguas para que de parte a parte podessem desaf_ fogadamente explicar-se, o arcebispo de Braga encetou a discussão com uvn longo, mas pouco concludente discurso, em que as ameaças mitigadas

principalmente esta particularisada narrativa, vem escripto textualmente o convénio.

(i) ipso civitatis alcaie super muram cum episcopo et primiciis civitatis stantibus (Id. Ibid.). Este bispo que vinha com o kayid e com os magistrados de Lisboa não podia ser senão o bispo da população mosarabe, o qual, como adiante veremos, foi morto pelos conquistadores.

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pela brandura da linguagem mal suppriam a mingua de boas razões. Propunha que entregassem o alcassar e as outras fortificações aos sitiadores, feito o que a propriedade, honra e vida dos habitantes seriam respeitadas e mantidas. O accordo pouco antes jurado entre Aílbnso Ie os seus alliados habilita o leitor para appreciar a lealdade das promessas do arcebispo. A resposta, porém, dos cercados, foi franca e altiva. Não reconheciam de modo algum o direito que o metropolita invocava, nem estavam resolvidos a abandonar Lisboa ou a acceitarem o jugo estranho sem expei^mentarem a sorte das armas. Resignavam-se de antemão aos decretos da fatalidade. Sabiam por experiência própria que nem sempre as tentativas daquella ordem eram coroadas de bom resultado. « Fazei o que poderdes, concluíam elles; nós faremos o que for da divina

vontade. »

O bispo do Porto irritado, segundo parece, pela linguagem dos chefes sarracenos replicou-lhes com aspereza, porém mais laconicamente do que o seu collega : « Dizeis que as nossas tentativas contra Lisboa têem falhado ; veremos se falha esta. Allàstando-nos dos vossos muros, não vos saúdo : não me saudareis também ». Tal foi o epiphonema com que terminou o bellicoso prelado.

com a volta dos parlamentarios desvaneceram-se todas as idéas de capitulação, se é que alguém as concebera. Aflònso I com as suas tropas escolheu por estancia o monte ao norte da cidade, que hoje chamamos da Graça. A esquerda dos arraiaes dos cruzados ingleses e normandos, acampados ao occidente, distava apenas quinhentos passos da ala direita dos portugueses, ao passo que a ala esquerda destes se dilatava para o lado dos allemães e flamengos ao oriente. Na manhan seguinte, emquanto

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se trocavam os reféns, conforme o accordo da véspera, os fundibularios ingleses provocavam as primeiras hostilidades, despedindo pedras para o subúrbio que lhes ficava fronteiro, com o intuito de irritar os sarracenos e fazê-los sair ao campo. Obtiveram-no. Como, porém, os cruzados se começassem a armar para os repellir, fcyram-se os mouros acolhendo ao subúrbio, ao passo que os inimigos lhes iam picando a retaguarda. Não estavam os defensores de Lisboa em situação de arriscarem batalhas campaes. Diz-se que, apesar da densa população da cidade, não tinham mais de quinze mil homens armados, que por turmas faziam o serviço das torres e muros. Ao mesmo tempo o exercito dos sitiadores devia subir de vinte cinco a trinta' mil homens (i). Bastantes para resistirem detrás dos seus parapeitos, não o eram os sarracenos para resistir sem vantagem de posição a gente não só mais numerosa, mas também mais afleita ao tracto das armas.



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