A função Materna na disposição à Neurose Obsessiva



Baixar 25,23 Kb.
Encontro13.07.2018
Tamanho25,23 Kb.


Uma possível ética do olhar1

Miriam A. Nogueira Lima2


A pulsão escópica tem importância significativa na teoria psicanalítica. Em 1915, Freud dedicou ao par antitético contemplação-exibição grande parte de seu estudo sobre as vicissitudes da pulsão em geral e descreveu desde as vozes ativa, reflexiva e passiva, os três tempos do olhar – "olhar, olhar-se, ser olhado" (Freud, 1973:2046).

Lacan, ao desenvolver suas formulações sobre o olhar em 1964, lembra: "Não dizemos ao paciente a toda ocasião – Ora, ora, com que cara você está! ou – O primeiro botão de seu colete está desabotoado. [...] Assim mesmo, não é por nada que a análise não se faz face a face." (Lacan, 1979:78).

Em um seminário proferido em 1987, J-D. Nasio buscou desenvolver no campo da metapsicologia o "conceito freudiano de percepção endopsíquica", uma percepção existente entre os sistemas psíquicos, inclusive dentro do próprio sistema psíquico, "uma relação autoperceptiva de um inconsciente que olha para o inconsciente” (Nasio, 1995:113).

Tendo como referência as questões estabelecidas, proponho algumas notas sobre o olhar do psicanalista enquanto uma questão ética, além da metapsicologia e, também, além da técnica que aboliu o cruzar de olhares entre analista e analisante, o face a face no setting psicanalítico.

Conceito fundamental do sistema de pensamento de Lacan, o “Estádio do espelho” se vale do ver e do olhar para dar conta da instância do eu e sua função. Sabe-se da distinção existente entre eu e sujeito, que não são a mesma coisa, e também da importância da função do eu na compreensão do conceito de sujeito, nos caminhos que levam à construção desse conceito.

Sabe-se também que o eu tem uma função imaginária e que o imaginário é outro conceito de extrema importância porque compõe, juntamente com o Simbólico e o Real, a tríade RSI, que Lacan propõe enlaçar borromeanamente. Essa forma específica de entrelaçamento torna impossível a separação de um deles sem que o conjunto todo se desenlace.

Também é sabido que em termos de construção da teoria, Lacan iniciou trabalhando o imaginário primeiramente, depois o simbólico e por fim o real, não havendo, entretanto, possibilidade de um deles ser mais ou menos importante que o outro. Aliás, não há um sem os outros, nos indica e garante a lógica de amarração do nó borromeano.

O que tem a ver a dimensão imaginária com o olhar? Eu diria que tem tudo a ver, assim como têm tudo a ver com o olhar as outras duas dimensões, a simbólica e a real. Podemos dizer que no imaginário do humano há um furo real em cima do qual se acopla o simbólico. O imaginário é faltoso, há nele um falta, algo sempre falta. A natureza dessa falta é antes de tudo real, falta primeira e derradeira, que está lá desde sempre e para sempre: "Falta real é aquilo que o vivo perde, de sua parte de vivo, ao se reproduzir pela via sexuada", diz Lacan no Seminário 11... "outra falta vem recobrir essa, a falta simbólica, isto é, o fato de o sujeito depender do significante que está primeiramente no campo do Outro." (Lacan, 1979:195).

A partir desses significantes o humano se constitui enquanto falante, isto é, enquanto um (ser) de linguagem. Constituição simbólica que se processa de "fora" para "dentro" através de uma identificação. Isto se passa primeiramente por meio da identificação imaginária, ou seja, a identificação com a imagem. Entretanto, tal constituição é regida pela lógica ternária – RSI – no vigor e com o concurso dos três registros, ainda que a primeira identificação seja com a imagem. Sem que se perca de vista a vigência dos três registros, o que vai se produzir no primeiro momento – narcísico primário – é a identificação especular. A partir daí cria-se a matriz identificatória original, uma espécie de arcabouço, inaugurada no estádio do espelho.

O eu será para sempre marcado por essa alienação primordial, isto é, por sua constituição desde o Outro através dos vários outros, próximos, familiares e ao alcance da visão, mesmo que o indivíduo não a possua fisiologicamente. Isto porque o estádio do espelho estabelece um reconhecimento de si a partir do outro em quem um se vê e se reconhece. Narciso frente ao espelho d’água, num reconhecimento de si fora de si, fica de tal modo apaixonado pela imagem fora dele refletida que ali mesmo encontra a própria morte. Esta é a dimensão mortífera do narcisismo.

O que nos constitui ao mesmo tempo nos destitui da possibilidade de sermos diferentes, independentes e separados, ou seja, distintos do que nos constitui. Indistinto daquilo em que se vê e se reconhece, diz o poeta "Je est un autre" (Rimbaud). Lacan toma a frase emprestada dizendo: "os poetas, que não sabem o que dizem, como é bem sabido, sempre dizem, no entanto, as coisas antes dos outros” (Lacan, 1985:14).

Que o “eu é um outro”, encontramos em nossa língua um Mário de Sá-Carneiro afirmando: ... "Onde existo que não existo em mim [...] Eu não sou eu nem sou o outro/Sou qualquer coisa de intermédio". E uma genial Clarice Lispector:
"O que é que eu sou? Sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? Tenho? Mas quem é esse que tem? Quem é que fala por mim? Tenho um corpo e um espírito? Eu sou eu? É exatamente isto, você é um eu, responde-me o mundo terrivelmente. E fico horrorizado. [...] Deram-me um nome e me alienaram de mim. [...] Eu não comecei comigo ao nascer [...] Ou melhor, nada se começa. É isso: só quando o homem toma conhecimento através do seu rude olhar é que lhe parece um começo..."

Essas percepções dos poetas falam da alienação fundamental e constitutiva do eu, isto é, de sua exterioridade. Característica da instância euóica, a ela se segue o cortejo amor, ódio, rivalidade, ciúme, dependência etc. herdeiros daquele momento "fulgurante" e "jubilatório" do encontro especular.

Segundo o francês Paul Virilio, teórico da modernidade e da tecnologia da comunicação, autor de Guerra pura, Guerra e cinema e mais recentemente Máquina de visão, toda guerra é a organização de uma percepção, a antecipação de um olhar e o de que se trata é de organizar a percepção, viver o tempo real. A propósito da guerra das imagens, na televisão, por exemplo, ele recomenda uma ética do espectador, uma consciência crítica do que se vê, pois é perceptível a mídia do ódio. Mas, como existe também a mídia do amor e uma verdadeira guerra dos sexos, vale que se diga que todas elas são guerras do imaginário, guerras do ver.

Sabe-se que Charcot – é Freud quem nos diz no Necrológio por ocasião da morte do mestre (Freud, 1973:31) – era muito mais artista do que pensador. Um "visual" que encontrava no ver, sobretudo em ver coisas novas, a expressão de um gozo maior. A observação era seu método para a descoberta de algo novo. Assim, não apenas observava suas pacientes histéricas, mas as exibia fisicamente aos seus alunos. Freud foi um deles que, entretanto, ao entrar em cena mudou-a radicalmente, de saída, com a abstenção do ver para valorizar o olhar. O fato é que quando passou da sugestão hipnótica e articulou o método da associação livre que, aliás, lhe fora sugerido pelas próprias pacientes histéricas, e quando passou a escutá-las, fechando-se em seu gabinete com elas. Recusou o cara a cara da hipnose do período pré-psicanalítico, hoje tão apropriado aos talk-shows de televisão, e retirando-se da cena, abriu mão do ver para valorizar o olhar.

De volta à minha questão, como primeiro ponto indico a vertente da metapsicologia tomando como gancho a pesquisa de Nasio que nesse âmbito aborda a percepção endopsíquica, percepção que se passa entre os sistemas do aparelho psíquico e que dá origem, inclusive, à própria metapsicologia, aos mitos e até aos delírios, no dizer de Freud citado pelo autor.

Como segundo ponto, indico a vertente situada no domínio da técnica freudiana, do dispositivo inaugurado por Freud ao abandonar a hipnose e o face a face, criando um novo setting, o analítico.

E aponto uma terceira vertente, propondo que se trata de uma questão ética. No mais além de um simples conforto – pois ele mesmo afirmara não se sentir bem ao ficar de frente com o paciente, que isso se tornava cada vez mais desconfortável, sobretudo depois que se iniciou sua doença –, com essa mudança Freud inclinou-se para um outro lugar, um lugar ético.

Refiro-me a ética do desejo, não apenas do desejo do cientista, do pesquisador, mas principalmente do desejo do analista. Privilegiando no encontro clínico o olhar inconsciente, olhar simbólico, ao sair do imaginário do ver, Freud deu primazia à escuta do saber inconsciente, saber em seu estado nascente, o saber que funda a psicanálise.

Na clínica, o que é que nos dá a fórmula do que dizer ou fazer? O conhecimento da teoria e da técnica que está se processando em algum lugar de nossa mente, de que forma resulta no entendimento do que está sendo falado naquele que convoca nossa escuta? Sobretudo quando se trata de uma emergência do inconsciente que em suas formações nos tira o tapete, assusta e surpreende, desbancando o saber consciente?

Então, algo se esclarece se mostra e ilumina – o inconsciente percebe o inconsciente e indica o gesto, a palavra, o ato. O que vai produzir uma intervenção, uma interpretação, inclusive o silêncio, se passa de inconsciente para inconsciente. É uma questão de transmissão, é a teoria da comunicação inconsciente de que falava Freud em suas recomendações aos praticantes. Utilizando-se da metáfora do emissor e do receptor de um aparelho de comunicação, ele descreveu:


"Tal como o receptor transforma de novo em ondas sonoras as oscilações elétricas provocadas pelas ondas sonoras emitidas, assim também o psiquismo inconsciente do analista está capacitado para reconstruir, com os produtos do inconsciente que lhe são comunicados, este inconsciente mesmo que determinou as ocorrências do paciente” (Freud, 1973:1657).

Tudo isso passa pela identificação, pela transmissão, pela transferência. Esta em sua acepção primordial mais pura é deslocamento, transposição, pois em psicanálise o saber de que se trata é o saber inconsciente. Por isso não existe "trabalhar a transferência", mas se trabalha em transferência e a interpretação só pode ser interpretação transferencial.

Este é o olhar psicanalítico, é a esse olhar que me refiro. E esta é a ética desse olhar.

ReferênciaS bibliográficaS:
Freud, S. Obras Completas, Madrid, Biblioteca Nueva, 1973.
Lacan, J. O Seminário, livro 2, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.

_______ O Seminário, livro 11, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979.


Nasio, J.-D. O olhar em psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995.

1 Palestra no Corpo Freudiano, Rio de Janeiro, 1995. O texto foi revisto e modificado em maio de 1999, resultando nesta versão.

2 Psicanalista, membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil/RJ. E-mail: manglima@gmail.com.





©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal