A família frente à criança cega



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Encontro13.07.2018
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Palavra Final

A Família frente à criança cega: Como entender esta relação?

Maria da Glória de Souza Almeida

Ao longo do processo da evolução humana, as relações interpessoais e sociais despertam interesse de estudiosos de diferentes campos do conhecimento.

O homem é forjado a partir da conjugação de inúmeros fatores que o tornam um "elemento superior" frente à natureza e aos demais seres existentes. No decurso do tempo e da investigação científica, constata-se que a HUMANIDADE só se revela e sedimenta no contato social.

As relações humanas convertem-se no marco inicial de grupos que têm de uma forma peculiar objetivos, necessidades e anseios parelhos.

O homem é um ser gregário, assim, pessoas unem-se somando experiências, espelhando diferenças, repartindo possibilidades, construindo rumos, disseminando práticas, criando hábitos, armazenando saberes, buscando mudanças.

A sociedade formou-se, desde as mais remotas épocas, tendo por fundamento pequenos núcleos, as famílias, que estabelecem regras comportamentais e acumulam uma bagagem de valores éticos, morais, religiosos e mesmo materiais.

Depreende-se, pois, que a família, como primeiro grupo social a que o indivíduo pertence, exerce um papel de cunho formador. Sua personalidade, os princípios estruturais do seu caráter, seu comportamento afetivo alicerçam-se nos modelos exibidos por seus pares e vivenciados por ele desde o nascimento.

Neste início de milênio, onde a complexidade indica uma nova ordem vigente em todos os níveis, a sociedade adquire múltiplos perfis: paradigmas desgastam-se e rapidamente outros tomam a dianteira da história com a velocidade vertiginosa da tecnologia que invade as últimas décadas do século XX.

A família reflete a mutação dos preceitos básicos que a regiam no passado. O desenho desta instituição altera-se de acordo com os valores intrínsecos dos membros que a compõem. Entretanto, não se pode prescindir dela. O homem nasce no regaço de um conjunto de pessoas que lhe transmite uma herança de vida, um legado cultural (não importa se pobre ou rico), um feixe de características próprias que o fazem um ser único no mundo.

Eis a preponderante atuação desse grupo social na formação e no desenvolvimento do ser humano.

Modifica-se a configuração da família (estrutura externa), porém a essência mais pura transcende os limites de modismos impostos pela massificação de atitudes e de desejos.

Toda criança necessita de apoio familiar. Quando nos deparamos então com as circunstâncias adversas que geralmente cercam um criança deficiente visual, seja cega ou de baixa visão, verificamos que a ação da família junto a ela é de fundamental importância.

Nas etapas evolutivas do homem, a qualidade do seu crescimento global, mede-se pelo volume de oportunidades e estímulos que lhe é oferecido. Neste caso, a desvantagem entre uma criança privada da visão, ainda que parcialmente, e outra vidente, faz-se clara e precisa ser encarada com realismo e coragem.

A aquisição de capacidades e de conhecimentos, na maioria das vezes, tão natural e previsível para uma criança que enxerga, transforma-se às vezes numa caminhada com mais obstáculos para uma criança, quando cega.

Os pais devem ser alertados para ficarem atentos à realidade que têm de enfrentar. A tomada dessa consciência é difícil, no entanto o problema existe e reclama uma solução.

O nascimento de um bebê sempre suscita grandes expectativas. A gravidez guarda em si um símbolo de renovação; é um ser que se forma e que chega como um signo de recriação do ciclo da vida.

Ao nascer uma criança que foge aos padrões estabelecidos como normais, o choque é inevitável. As idealizações desfazem-se e surgem o inconformismo e a negação.

Comiseração ou amor? Frustração ou esperança? Rejeição ou entendimento? Conformismo ou aceitação?

Tais questões exigem uma análise lúcida e sem subterfúgios.

No conflito desses sentimentos, firma-se o relacionamento entre a criança deficiente e a família. Aquele membro que chega ao grupo quebra a ordem natural das coisas.

Como agir com ele? O que fazer com ele?

Pais, avós, irmãos, tios formam o universo onde a criança vai desenvolver-se e construir sua identidade. Nos primeiros tempos é difícil o entendimento daquela situação inesperada. O que se pode observar é que, mesmo nas famílias em que a deficiência visual pode vir a ocorrer por uma questão de hereditariedade ou gravidez de risco, as reações, espantosas que sejam, não são muito diferentes.

Assim, faz-se imperativa a orientação segura e competente aos que estarão à frente da educação desta criança. A má condução e os equívocos desastrosos no período evolutivo de uma criança cega ou de baixa visão trarão danos, muitas vezes, irreversíveis a ela.

Por isso, educadores, psicólogos, terapeutas de modo geral, escolas, precisam aparelhar-se para darem o suporte psicológico e técnico de que as famílias necessitam.

É preciso que entendamos a problemática da família. Mostrar-lhe caminhos, saídas, possibilidades fica a cargo dos profissionais envolvidos na problemática da criança deficiente.

Quando família e educadores olharem esta criança, despindo-a pura e simplesmente da deficiência que carrega, percebendo-a como um ser em estágio de crescimento, incentivando-a a crer em si mesma impelindo-a a extinguir estigmas, impulsionando-a a procurar a alegria, encorajando-a a viver, poderemos reformular a visão que temos a seu respeito.

Não devemos amesquinhar um ser por considerá-lo "diferente".

Não devemos apequenar um ser por julgá-lo "incapaz".

Não devemos ignorar um ser por imaginá-lo "menor".

Se substituirmos o preconceito pelo amor, a resignação pela força de luta, a frustração pela suplantação de limites, teremos cumprido nossa tarefa.

A sociedade contemporânea é utilitária e altamente competitiva. Dentro deste contexto, educar uma criança deficiente demanda preparo e discernimento. Mais uma vez, pais e educadores deverão juntar-se para que possam trabalhar pelo surgimento de um indivíduo melhor, inteiro na potencialidade que tem, independente, cônscio do espaço que pode conquistar, fortalecido para lutar contra o descrédito, disposto a vencer desafios.

Conclui-se, portanto, que a relação da família ante uma criança deficiente passa por várias crises e estados emocionais: perplexidade, dor, autopiedade, revolta, sentimento de culpa, sensação de impotência.

O amor mal direcionado simbolizado pela superproteção é tão danoso quanto o abandono refletido pela rejeição. Muitas vezes, os pais tendem a compensar a deficiência sem se aperceberem de que deficiência não se compensa, enfrenta-se.

Todavia, se houver ajuda, se alguém apontar um caminho, se houver capacidade de superação, a adversidade converter-se-á em sucesso.



Pensemos criticamente sobre o assunto e reflitamos:

A deficiência traz obstáculos e não impõe impedimentos irremediáveis.
Maria da Glória de Souza Almeida é professora de Língua Portuguesa do Instituto Benjamin Constant (IBC), membro da Comissão Brasileira do Braille e, atualmente é Chefe de gabinete do IBC.



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