A família de Zacarias e Isabel



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A família de Zacarias e Isabel

Lucas 1

Como era uma família judia no ano zero? A família israelita desta época era patriarcal. Tudo se entendia pelo ponto de vista do pai. Até a palavra utilizada para designar a família significa “a casa do pai”. Nessa família o marido era o senhor (baal) da mulher e dos filhos. Esse fato torna interessante a menção de Isabel no nosso texto, que não fica apenas em um “João Batista, filho de Zacarias”. Além do aspecto patriarcal, outro fator de coesão da família, como veremos adiante, era sua orientação no culto a Deus, voltado para o templo em Jerusalém. Desde o séc. VII AC o templo era o único lugar onde se ofereciam sacrifícios e se recolhiam os dízimos e ofertas. Três vezes ao ano, nas festas da Páscoa, do Pentecostes e na dos Tabernáculos as famílias israelitas iam a Jerusalém, com esse objetivo.

O fim do casamento era primordialmente a procriação. Segundo Flávio Josefo, escritor judeu do primeiro século, em seu livro Contra Apion, “a Lei só conhece uma união natural com a mulher e somente com o fim de procriar”, fazendo uma comparação com o homossexualismo muito comum entre os gregos, e com o propósito maior de uma união, que não era por prazer, mas para procriar. Por isso todo nascimento era considerado uma benção, mas o nascimento de um menino era o mais festejado. Ele garantiria a perpetuação do nome da família e a preservação do patrimônio. As filhas não eram tão festejadas, e os dias de “purificação” após o parto de um menino eram quarenta, mas após o de uma menina eram oitenta, quase como que um castigo.

Uma família sem filhos era uma família triste, meio que esquecida por Deus. E era assim que o casal Zacarias e Isabel se sentia. E por isso se voltaram ao Senhor em oração. Na realidade, Zacarias poderia ter repudiado a esposa, e casado com outra para ter filhos. Já não havia a alternativa da época de Abraão, de gerar descendentes com a serva da esposa (se Isabel tivesse uma serva).

A narrativa de Lucas não menciona Abraão e Sara, mas a associação é clara, de um casal idoso, com a mulher em pós-menopausa, recebendo como graça de Deus um filho, que no caso de Abraão e Sara foi Isaac. Foi uma manifestação da graça de Deus nos primórdios de Israel, pois Isaac foi pai de Jacó, que também foi chamado de Israel, que deu seu nome a todo o povo.

E se o nascimento de João Batista, o filho de Zacarias e Isabel, nos remete aos primórdios da história de Israel, também estabelece um contraste marcante com o nascimento do Senhor Jesus, a “novidade” de Deus. Não foi, no caso de Jesus, o nascimento de um filho de pais idosos, desesperados por um herdeiro, mas sim uma virgem concebendo. Foi uma surpresa total para ela quando o anjo, a semelhança do comunicado da concepção de João Batista a Zacarias, comunicou-lhe que estava grávida por ação direta de Deus.

João Batista foi muito desejado pelos pais, que deveriam ter planos próprios, mas o Senhor tinha outros planos para ele. É certo que se o Senhor houvesse ouvido as orações de Zacarias e Isabel, e João Batista nascido sem outros comemorativos, é provável que ele fosse apenas mais um filho único, de pais idosos, supervalorizado, de quem os pais não iriam querer separar-se, esperando nele um cuidador de sua velhice.

Não foi o que aconteceu. Por intervenção de Deus, Zacarias ficou mudo, e a gravidez de Isabel causou grande impressão nela, a ponto de não sair a público por cinco meses. E assim João Batista foi criado para cumprir sua missão. Isso tudo foi necessário mesmo sendo esse casal, ao que tudo indica, um casal exemplar, como evidencia o v. 6.

Uma família judia exemplar no ano zero apresentava aspectos interessantes. Para começar, amor era entendido mais como comprometimento do que como sentimento, contrastando com o que se acha hoje em dia. E sendo assim, era possível casar sem amor (e às vezes até sem conhecer o outro), e desenvolver o amor no decorrer do casamento. Isso difere do que se tem por certo hoje em dia, que um casal casa apaixonado um pelo outro, mas sendo a paixão um sentimento de prazo fixo, o cônjuge acha que o amor acabou no decorrer do casamento, e o casamento termina em divorcio. E diz que casamento “é bom enquanto durar...” Como um autor, Walter Trobisch diz, em seu livro “Amei uma Jovem”, os orientais “põem sopa fria em fogo brando, e vagarosamente ela vai aquecendo, e nós colocamos sopa quente em um prato frio, que vagarosamente vai esfriando”. Ou como o ditado espanhol contemporâneo, refletindo a realidade de grande parte dos casais modernos, de que “o casamento é um ano de fogo, seguido de trinta anos de cinzas...”.

Na realidade, o judeu entendia a si mesmo como o povo de Deus, isto é, como o povo com quem Deus havia feito um pacto. E o casamento era visto assim: um pacto. (Prov. 2:17 ilustra o assunto). Isso levou a comparação, freqüente, do noivo com Deus, e da noiva com Israel. E ao entendimento de que um era separado dos demais para o outro, no sentido de consagrado um ao outro. E esse pacto era permanente, não havendo espaço para revisões. Isso valia, e valeu, para um casal exemplar, como Zacarias e Isabel, mas pela “dureza dos corações”, houve alterações tanto no pacto com Deus (não da parte Dele), como nos pactos de casamentos judeus. O divórcio era permitido no primeiro século. E não só o divorcio, como a poligamia, que também infringia um dos pontos principais desse pacto de casamento, que era a exclusividade. Assim como Deus era para ser reconhecido como único Deus, os esposos eram exclusividade um do outro. Não tenham outro Deus ecoava como “não tenham outra esposa (o)...”.

A palavra empenhada era tida como uma promessa. Não havia necessidade de mais nada. O contraste com a atitude contemporânea é marcante. Hoje em dia é comum “mudar de opinião”, ou dizer “eu não o amo mais”, e sair do casamento.

Não que as coisas não mudam com o tempo. A situação de Zacarias e Isabel com certeza mudou muito desde que casaram, até chegarem a constituir um casal idoso sem filhos. Assim como o pacto de Deus com Abraão não terminou ali, mas foi renovado com Isaac, com Jacó, depois com Noé, e com Moisés, o pacto do casamento deveria ser renovado periodicamente, adaptando-se as novas situações e mantendo seu conteúdo. Hoje vemos com clareza a necessidade da renovação do pacto do casamento. De tempo em tempo os casais deveriam ser chamados à consciência sobre a necessidade de renovar seus votos, para trabalharem juntos, honestamente e diligentemente, na manutenção do casamento, que vai mudando com o tempo.

Devemos ressaltar que não era o caso apenas da vontade e determinação do casal. Uma família judia começava em um casamento baseado no yihus, que grosso modo significa “pedigree”, “antecedentes familiares”. E foi por isso que Lucas mencionou no v. 5 que Zacarias pertencia ao grupo sacerdotal de Abias, e que Isabel era descendente de Arão. Esse cuidado era observado pelo shadkhan, o “casamenteiro”, que negociava os casamentos, procurando fatores objetivos para isso. As qualidades pessoais, a reputação na comunidade e os antecedentes familiares eram levados em conta, e o casamento se realizava às vezes sem os noivos se conhecerem. Mas, se o shadkhan fosse bom, o casal teria uma base muito boa para construir o casamento e progredir no amor.

Outro pilar do casamento no primeiro século era a religião. Os noivos jejuavam no dia do casamento, até após a cerimônia, e oravam antes da cerimônia, que era apenas religiosa. A abordagem era sempre construtiva e preventiva. E a preparação adequada envolvia as orações dos pais também. E esperava-se que o casal cumprisse suas obrigações religiosas, se não juntos, pelo menos solidariamente.

O apoio da comunidade era outro fator de grande importância para a manutenção dos casamentos. O casamento não era considerado um evento privado. Era um evento comunitário, e prosseguia sendo assim em certo aspecto. A palavra família em hebraico é mishpahah, que mais ou menos literalmente é “a casa do pai”, que mais propriamente significa “clã”. E implicava na solidariedade familiar, e por extensão, comunitária. Essa atitude evitava um sentimento de desânimo, que com freqüência aliena casais, e conduz ao conflito familiar ou comunitário. As doenças, os problemas financeiros, os desajustes, os inesperados, tudo recebia apoio de fora, material, emocional e espiritual.

Mas, sem dúvida, se esperava que os cônjuges cuidassem um do outro. A segunda parte da cerimônia do casamento era chamada nissuin, que no hebraico moderno é a palavra para ´casamento`, mas cujo significado antigo, original, era carregar, levantar, suportar. Trás consigo o conceito de que é necessário apoiar, validar, agüentar o cônjuge. Mais ou menos o oposto do dia a dia de um casal mediano de hoje.

Depois de casados, para serem considerados irrepreensíveis perante o Senhor, como o foram Zacarias e Isabel, além de manterem o casamento, esperava-se que mantivessem alguns valores em casa:

Hoje se diz que a casa é o castelo de uma família. Para uma família na Judéia, no primeiro século, deveria ser mais seu templo. Não para competir com o Templo em Jerusalém, mas para oração, para o estudo (da Torá, principalmente), e para servir as necessidades da comunidade (e por isso referida como a casa da assembléia). A paz em casa era outro valor estimado. Shalom bayit (casa pacífica) era um ensino rabínico, e o Salmo 34:14 deveria ser lido ou recitado regularmente nas casas.

Outro aspecto da vida familiar muito valorizado era a hospitalidade. Era, talvez, a função principal, na sociedade, de um lar judeu. Inclusive é uma das exortações que o Apóstolo Paulo faz aos Romanos (Rom. 12:13). O que Paulo está fazendo é validar um costume que vinha da remota antiguidade dos judeus (Lev. 19:34), para os cristãos do primeiro século. Também valorizado era o trabalho manual, do que o próprio apóstolo é exemplo, pois ele valorizava sua capacidade de construtor de tendas.



Certamente conseguir tudo isso não era e não é fácil. Mas a Bíblia dá testemunho que Zacarias e Isabel conseguiram, e foram os pais daquele que foi considerado o maior de todos os profetas, o que preparou os caminhos para a vinda do Senhor.

Apenas como sugestão, poderíamos procurar em uma locadora o filme, lançado nos anos 70, chamado “O violinista no telhado”, em inglês “Fiddler on the Roof”. Esse filme mostra as agruras de uma família judia, na Rússia czarista, antes da primeira guerra mundial. Lá veremos exemplos de amor crescendo após o casamento, respeito ao trabalho manual, a observância do sábado, o ensino em casa, o respeito aos pais, o apoio da comunidade, entre outras coisas. É interessante. À essa família do filme faltou o encontro com o Senhor Jesus, descrito no nosso texto por ocasião do encontro de Maria com Izabel.



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