A escritora argentina Beatriz Sarlo, no capítulo dois "O sonho acordado", do seu livro cenas da vida pos-moderna, aborda a questão da imagem desde o zapping, a televisão interativa



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Encontro14.11.2017
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Resenha do capítulo dois: O sonho acordado e capítulo três: Culturas populares velhas e novas, “do livro “CENAS DA VIDA PÓS-MODERNA: INTELECTUAIS, ARTE E VIDEOCULTURA NA ARGENTINA,” de Beatriz Sarlo.

Rafaela dos Santos Rigo1


CAPÍTULO DOIS: O SONHO ACORDADO
Em seu livro CENAS DA VIDA POS-MODERNA, no capítulo dois "O sonho acordado", a escritora argentina Beatriz Sarlo2 aborda a questão da imagem desde o zapping (mudanças rápidas de um canal para outro, por meio de controle remoto, e que, geralmente, são feitas para evitar os intervalos comerciais), a televisão interativa, os programas "ao vivo" até a dimensão política presente no veículo televisivo. Ela afirma que só há uma maneira de aprender a ver televisão: vendo-a. E não se pode deixar de reconhecer que esse aprendizado é barato, antielitista e nivelador.

O zapping demonstra que a montagem caseira conhece uma única autoridade: o desejo à frente da mão que faz pulsar o controle remoto. (SARLO,1991, pag. 59). O uso estrutural do zapping está em transmitir ao espectador o poder de cortar, montar e embaralhar imagens incompletas, produzidas pelas mais diversas câmaras e nos mais variados lugares.

Beatriz Sarlo (1997, pag. 63) diz que na televisão a repetição é uma máquina de produzir uma suave felicidade, na qual a desordem semântica, ideológica ou experiencial do mundo encontra um reordenamento final e remansos de restauração parcial da ordem. Malena Contreta3 (1996) afirma que “vários fenômenos da mídia constroem-se sobre uma matriz basicamente binária.”

O termo televisibilidade pode ser entendido como a construção de um certo estilo-padrão de se fazer televisão, uma determinada maneira de usar gestos e palavras, é o fluido que dá consistência à televisão e assegura um reconhecimento imediato por parte de seu público (SARLO, 1991, pag. 67), fazendo com que o telespectador reconheça aquilo que está sendo mostrado, isto significa que ele possa reconhecer aquilo efetivamente como televisão.

A autora nos diz que diante da aridez de um mundo desencantado a televisão traz uma fantasia sob medida para a vida cotidiana (SARLO, 1991, pag. 83), e que os programas ao vivo proporcionam aos telespectadores, não a idéia de que seja apenas semelhante à verdade, mas de que a vida está ali.

Concorda-se com Sarlo quando ela não se ilude com a idéia de que a partilha de aparelhos de televisão resulta no ato de estabelecer novos laços entre os indivíduos. Para a autora esta representação da família não tem conformidade com o real, pois se sabe do enfraquecimento das relações familiares na atualidade. Sabe-se que a televisão necessita de uma sociedade com laços fracos para que ocorra um mimetismo entre a televisão e telespectador.

Outro ponto a destacar é que a televisão nos quer do seu lado ao contrário do cinema que precisa do escuro, da distância, do silêncio e da atenção. A televisão não requer nenhuma dessas condições (SARLO, 1991, pag. 91). Dentro dessa visão podemos asseverar que a auto reflexividade na literatura é um sinal de distância e que na televisão é um sinal de aproximação. Gerando assim um sentimento de cumplicidade entre o público e a televisão e fazendo-os ver que o discurso televisivo não vive da distância e sim de mitos cotidianos que penetram na cultura diariamente, levando aos telespectadores uma diversidade de dramas, piadas e clichês.

Contudo vê-se saídas para a construção de uma televisão de boa qualidade, mesmo com os executivos dos meios de comunicação de massa e agências publicitária fazendo leis para pregar a maneira de se fazer televisão. Como exemplo, cita-se aqui, os programas feitos por canais como Discovery Channel, National Geografy, History Channel, Canal Futura, entre outros, que não seguem tal e qual as leis e formas que são propostas pelos donos da mídia. Devemos levar em conta que a televisão é um instrumento utilizado de acordo com os interesses dos que a detém, assim como todos os outros meios de comunicação atendem os interesses de seus detentores.


CAPÍTULO TRÊS: CULTURAS POPULARES VELHAS E NOVAS.


Neste capítulo, "Culturas populares, velhas e novas", a pesquisadora mostra um discurso um tanto politizando onde aponta as alternativas para a preservação e acesso às expressões culturais populares, onde papel da economia não é tão predominante. Ao falar de “hibridização”, “mestiçagem” e “reciclagem” como termos-chave para observar as culturas urbanas na contemporaneidade ela interage com autores da contemporaneidade como Hall (1997) e Dussel (2002), quando ressalta o poder, a velocidade e o uso desenfreado de imagens que embotam a nossa capacidade de reter conteúdos. (SARLO, 1991, pag.101).

As chamadas culturas populares: artefatos que não existem em estado puro. (SARLO, 1991, pag.101). Vive-se atualmente numa sociedade em que o papel da escola encontra-se fragilizado e a cultura letrada já não hierarquiza as culturas. É prioridade que a escola possa utilizar de modo eficaz as habilidades que seus alunos obtiveram em outros espaços, seja através dos videogames ou dos conteúdos proporcionados pela mídia.

Sendo assim, são colocados à escola novos desafios que perfazem a necessidade de se construir uma educação para a diversidade, o educador deverá promover o entendimento com os diferentes e o ambiente escolar deverá ser o local de convivência. Penso que a cultura juvenil é uma dimensão dinâmica das culturas populares e não populares (SARLO, 1991, pag.107). Mesmo quando a juventude demonstra fina capacidade de diferenciar matizes, a cultura juvenil tende a ser universal e de fato, atravessa as barreiras entre classes e nações.

Os valores liberados num processo de transformação das identidades populares ficaram soltos e suas fisionomias já tinham sido desbastadas pelos processos de modernização (SARLO, 1991, pag. 104 ). O que percebemos é que a cultura da mídia converte todos a membros de uma sociedade eletrônica , que se intitula imaginariamente como a sociedade dos iguais. Ao interrogar-se sobre o lugar da arte na cultura globalizada contemporânea, Beatriz Sarlo nos indica uma possível solução, focando no desenvolvimento de condições para a livre manifestação dos diferentes níveis de cultura da sociedade apostando numa forte escolaridade e amplas possibilidades de opção de diferentes ofertas audiovisuais que concorram com a repetida oferta dos meios capitalistas, tão iguais a si próprios quanto às mercadorias que produzem. Como vimos, tudo é sujeito de ser visto e estudado como documento condutor de um determinado sentido cultural.

Concordamos com afirmativa da autora quando ela diz que a escola não estava preparada para o advento da cultura audiovisual. Nem os programas, nem as burocracias educacionais foram modificadas com velocidade comparável à das transformações ocorridas nos últimos trinta anos (SARLO, 1991, pag. 113), pois a deficiência de equipamento técnico nas escolas é imensa e a mutação cultural que se processa exige constante especialização por parte dos educadores.

Não se trata apenas de utilizar a qualquer custo as tecnologias e sim, ao exercício do dever que cabe à escola que é preparar cidadãos para a "leitura" e "escrita" dos elementos que constituem a linguagem audiovisual, não só numa perspectiva técnica, como também em seu aspecto ético de divulgação de mensagens. É preciso educar para uma interação crítica com a mídia audiovisual, onde se desmistifique e se relativize sua estética ilusionistas (Pinto, 1996) 4.

Desejam-se criar condições para a livre manifestação dos diferentes níveis culturais de uma sociedade, a primeira dessas condições deve ser o acesso democrático aos armazéns onde estão guardadas as ferramentas; forte escolaridade e amplas possibilidades de opção de diferentes ofertas audiovisuais que concorram com a repetida oferta dos meios capitalistas (SARLO, 1991, pag. 121) , então o que está em jogo são as condições em que se dá a mescla ou hibridização cultural.

E para finalizar devemos dizer que a cultura não pode mais ser interpretada como um acréscimo de saberes ou processo estético, intelectual ou espiritual. A cultura precisa ser vista e entendida levando-se em conta a imensa expansão de tudo que está ligado a ela, e o papel essencial que a mesma possui em todos os aspectos da vida social.




1 RAFAELA DOS SANTOS RIGO, acadêmica do 5º semestre de Relações Públicas - UNISC.

2 Escritora Argentina, autora do livro “Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e videocultura na Argentina”, Rio de Janeiro, UFRJ, 1991. p 53-122.

3 Autora do livro “O mito na mídia: a presença de conteúdos arcaicos nos meios de comunicação.” Editora Annablume, 1996.

4 Mônica Rodrigues Dias Pinto é autora da obra “Escola e Linguagens Contemporâneas: um desafio.” Rio de Janeiro: Mimeo, 1996.




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