A escola prazerosa, democrática e competente



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Secretaria Municipal de Educação

Conselho Municipal de Educação

Ato do Conselho

Indicação n.º 05/2008


A ESCOLA DEMOCRÁTICA, COMPETENTE E PRAZEROSA.

A estrada da educação

é longa e sinuosa.

Ensinamos sim!

Mas aprendemos muito.

Aprendemos a cada dia,

a cada aula

que a aprendizagem

se dá no esforço conjunto,

na vontade,

na solidariedade,

no repensar de nossos esforços,

no repensar de nossas ações,

e nas lutas que travamos,

nas quais muitas vezes sofremos,

mas das quais jamais hesitamos,

pois temos de quem cuidar

temos por quem lutar:

nossos alunos,

que são mais que a essência:

a própria beleza do verbo ensinar !!!
Prof. Roberto Antunes

Escola Municipal Ceará



Conselheiro do Conselho Municipal de Educação até agosto/2008

Introdução

Nesta Indicação abordamos um tema que tem estado presente em diferentes reuniões pedagógicas, cursos e eventos educacionais. As estatísticas vêm mostrando, anualmente, que, apesar dos esforços despendidos pelas diversas esferas, ainda há muito a fazer para que todos os nossos alunos apresentem bom desempenho em suas avaliações.

Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), divulgado pela imprensa em maio deste ano(2008) aponta que, em 2005, apenas 53,8% dos alunos brasileiros, que cursaram o ensino fundamental, conseguiram completar os nove anos de escolarização. Como agravante, verifica-se que, se comparado com os mesmo indicadores de 1999, há um decréscimo nos índices estatísticos, já que, naquele ano, o índice foi de 61,1%. A análise comprovou que o baixo desempenho se origina, principalmente, da evasão e da repetência e colocam o Brasil abaixo da maioria dos países da América Latina.

Tais estatísticas revelam que os brasileiros têm acesso à escola, porém ficam mais tempo do que o esperado para concluir seus estudos básicos ou se evadem, deixando para trás a experiência escolar e levando marcas de fracasso na sua história de vida.

Um dos caminhos apontados para a transformação deste contexto e já alcançado por muitas escolas é a elaboração e implementação de um projeto político-pedagógico que promova a construção de uma escola de qualidade, proporcionando aos alunos a oportunidade de uma aprendizagem significativa. Neste sentido, fizemos uma releitura do pensamento de vários teóricos da educação e buscamos um caminho para a construção de uma escola democrática, competente e prazerosa.

No primeiro semestre de 2008, foi realizado um estudo, no qual entrevistamos alunos de diferentes níveis de escolaridade com o objetivo de saber o que eles entendem por uma escola prazerosa e o que deveria ser feito para que os espaços escolares proporcionassem aprendizagens e formação para a cidadania.

O que é uma escola democrática?

Há escolas que são gaiolas.

Há escolas que são asas.

Escolas-gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo.

Engaiolados são os pássaros sob controle. Seu dono pode levá-los aonde quiser. Deixaram de ser pássaros, pois, a essência dos pássaros é o vôo. Escolas-asas não amam os pássaros engaiolados, amam os pássaros em vôo. Ensinar o vôo não podem, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo pode ser encorajado.” (ALVES, Rubem. 2002, p.29)

Hoje, início do século XXI, a palavra democracia se transformou em uma espécie de patrimônio global da humanidade e a escola de todos que a reivindicam, muitas vezes é considerada como solução para os problemas da atualidade.

Não podemos negar que a democracia é, na sua essência, o governo do povo. Não podemos também deixar de atestar uma realidade: que o significado da palavra está tão desgastado que, muitas vezes, questionamos o futuro não só da escola, como de toda a humanidade.

Não há dúvidas da importância de que todo cidadão detém o direito de participar das decisões coletivas. A grande questão da atualidade é perceber em que medida e como a Escola se faz democrática e contribui para a conquista da qualidade do ensino em nosso país.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9394/96), na perspectiva de construção de uma Escola Democrática, aponta para os Sistemas de Ensino uma proposta de formulação de política educacional descentralizada, participativa e com um espaço para o acompanhamento e controle de suas ações.

Na história de nosso país, a Igreja Católica impôs a educação jesuística, cujo ensino se baseava na rígida disciplina intelectual e física. A Reforma Pombalina, apesar de seus críticos, quebrou essa concepção centralista de fazer educação.

Comênio, no século XVII, em seu livro Didática Magna, já previa um ensino que respeitasse a capacidade e o interesse do aluno, “sem severidade”.

John Dewey, no início do século XX, pregava a democracia no espaço escolar. A democracia ganhou expressividade, por ser a ordem política que permite o maior desenvolvimento dos indivíduos, através do diálogo e participação, no papel de decisão do destino do grupo a que pertence. Dewey defendia a democracia não só no campo institucional, isto é, da política de educação emanada de um governo, mas também no interior das escolas.

Reflexão e ação devem estar ligadas, são parte de um todo individual”. ‘Dewey acreditava que só a inteligência dá ao homem a capacidade de modificar o ambiente a seu redor’. (Teixeira, Anísio: 1964, p.63)

No Brasil as idéias preconizadas por Dewey inspiraram o movimento da Escola Nova, valorizando a atividade prática e a democracia como importantes elementos de uma educação transformadora. O principal mentor das mudanças de paradigmas da educação democrática, no século XX, foi Anísio Teixeira, pioneiro na implementação de escolas públicas de todos os níveis, que refletiam o seu objetivo de oferecer educação gratuita, laica e de qualidade para todos.

A criação e a articulação dos principais movimentos sociais foram interessantes e promissoras nas últimas décadas. Esses movimentos se voltaram para as mais diversificadas questões, desde as demandas econômicas até a luta política no sentido mais amplo.

Em nome de uma escola mais aberta ao diálogo, reivindica-se a participação da família, até então posta em segundo plano, da igreja, do empresariado, das entidades organizadas da sociedade civil, enfim, do povo, como forma de garantir a melhoria da qualidade de ensino.

Então perguntamos: quem é essa comunidade que é chamada a participar? Que valor os membros da comunidade local atribuem à escola? Que redes de movimentos sociais e culturais se organizam e se constituem na localidade e como esses segmentos se integram com a escola? Que espaços sócio-culturais são esses? Por que eles incorporam maiores potencialidades agregadoras de interesse? Que interesses são esses? Como eles se relacionam com a produção, a sistematização e a difusão do conhecimento? Qual o papel das mídias na divulgação e transmissão do conhecimento? E o mundo digital? Como acompanhar e monitorar as ações das redes de informações? Qual o seu papel na construção de uma escola de qualidade? Como a escolha de diretores e seu colegiado constituem espaços abertos de discussão de questões que emergem do cotidiano escolar? Esses e outros questionamentos estão no cerne da discussão de uma escola democrática, competente e prazerosa nos dias de hoje.

A construção de uma sociedade democrática em nosso país foi alvo de lutas e conquistas na virada da década de 1970 para 1980, do século XX, quando da abertura política. O retorno de exilados políticos, a reforma partidária, mesmo que ainda tímida e as eleições para presidente, foram aspectos contemplados na perspectiva de novos tempos no início dos anos 1980.

A escola não pode ficar inerte e aquém desse movimento que começou a surgir dentro do espaço escolar com a necessidade de cada vez mais cobrar a participação da comunidade na tarefa educativa. A sociedade passa a clamar com intenso vigor por uma nova postura de escola face a seus problemas concretos que necessitam ser discutidos.

Democracia não é só uma forma de governo, é acima de tudo um modo de vida, o resultado do pensamento partilhado e participativo de todos os cidadãos. Conseqüentemente, a escola no século XXI assume compromissos de avançar etapas no desenvolvimento de um trabalho pedagógico de qualidade e, concomitantemente, de uma gestão eficiente e eficaz.

O Projeto Político-Pedagógico, o Regimento Interno, o PDE-Escola, os recursos financeiros repassados para a escola, os conselhos escolares existentes e outros caminhos a serem percorridos pelo conjunto da educação em nosso país, devem permear o pensamento e o trabalho de todos os educadores na conquista de uma escola competente, democrática e prazerosa.

O que é uma escola competente?

Partimos do princípio de que uma escola competente é aquela que, no que se refere ao conhecimento, aprendizagem e cidadania, atende o mais plenamente possível às expectativas e desejos de toda a comunidade escolar. Entre esses, o desejo básico é de que o aluno aprenda. No entanto, esta é uma questão complexa, com várias formas de ser compreendida e analisada. Vejamos uma delas:

O desejo é o paradoxo com o qual se confronta a criança, a quem é repetido: “Eu te ordeno a desejar aprender”. Presa assim em uma rede de demandas, veremos porque se torna impossível para ela, sustentar o seu desejo de conhecimento e como ela chega mesmo a anulá-lo.” (CORDIÉ: 1996, p.23)

Crianças são alvo de demandas por constituírem o próprio objeto de desejo dos pais e professores. Os pais desejam que a criança aprenda, que seja bem sucedida, educada e comprometida com esse desejo, o qual é transferido aos filhos em forma de “comando”. Esses pais “ordenam” que seus desejos sejam satisfeitos por seus filhos, como uma obrigação: “Você tem de ser assim ...”, “Você tem de fazer isso ...”, “Você tem de querer aquilo ...”.

Para Lacan (1986), essa sobrecarga de demanda ao sujeito vem “esmagar” o seu desejo, seja ele qual for. No que se refere ao estudo, é imposto o desejo de aprender, de construir o conhecimento. A criança recebe as demandas e percebe que deve responder às expectativas dos pais, dos professores e da sociedade de modo geral. “O sucesso é exatamente este objeto de satisfação que ela deve proporcionar aos pais.”(p.17) De imediato, a criança poderá até atender a estas expectativas de maneira dócil, como se o seu desejo se confundisse com aqueles desejos externos”. Todavia, cedo ou tarde, ela será confrontada com o seu próprio desejo e no campo da aprendizagem, pode advir deste conflito o chamado “fracasso escolar”. Além da demanda dos pais, há mesmo uma pressão social que gera enorme angústia no sujeito em processo de constituição do conhecimento. Assim, o julgamento de valor impetrado à criança pode gerar a sensação de que não é amada:

Se sou mal-sucedido ---------------------------------------- Sou mau filho?

Se sou mau filho --------------------------------------------- Não sou amado?

Se não sou amado -------------------------------------------- Não me desejam mais?

Se não me desejam ------------------------------------------- Não tenho mais desejos?

Se não tenho desejos ----------------------------------------- Não aprendo nada?

Se não aprendo nada ------------------------------------------ Sou mal-sucedido.

Vê-se que o jogo associativo que a criança faz em relação à correspondência entre demanda e desejo, revela suas impressões e sentimentos que são gerados acerca das expectativas criadas sobre ela e que não são respondidas. Assim, sem o desejo de aprender, compromete-se o processo de construção do conhecimento, dificulta-se a aprendizagem e surge o grande “vilão do ensino: o fracasso escolar.

A escola competente vai atuar no sentido de minimizar a existência deste conflito. Ainda segundo Lacan (CORDIÉ. 1996 p.25), a curiosidade, o prazer da descoberta e a aquisição do conhecimento fazem parte da própria dinâmica da vida. Alguns aspectos se tornam importantes no sentido de favorecer este processo, tais como:

- o modo como os ensinantes conseguem reconhecer e querer a criança como aprendente;

- a oferta de um espaço saudável, onde o perguntar seja valorizado e o optar seja possível;

- a facilitação de vínculos solidários com outros sujeitos da mesma idade.

Como promover, de fato, a aprendizagem na escola competente?

O primordial é o ensino do professor. É fundamental que sua prática pedagógica dê ênfase a todo um trajeto que proporcione o aprendizado, por meio de um ensino significativo para este aluno. O professor deve fazer o aluno perceber que este aprendizado se dá cotidianamente, num processo contínuo. Ele deve buscar novos parâmetros e saber que é responsável por promover o desenvolvimento das habilidades e competências de cada aluno. A aprendizagem deve estar liberta das “amarras” castradoras de posturas que aprisionam o saber, impedindo-o de se libertar. A escola deve criar a motivação, tornar sua prática atraente, despertando o interesse e o desejo de aprender do aluno.

Esta mudança não deve ser apenas da escola, mas também dos sistemas de ensino. A escola competente do século XXI deve levar em consideração, diferentes saberes, experiências e propostas pedagógicas para consolidar uma educação voltada para a diversidade e a inclusão social.

Wallon já pregava, no começo do século XX, que a escola devia proporcionar formação integral (intelectual, afetiva e social) aos alunos, o que provocou uma revolução no ensino. Na época, a memorização era a base da construção do conhecimento na educação e Wallon foi o primeiro a levar em conta não só o corpo da criança, mas também suas emoções. Ele desenvolveu suas idéias a partir de quatro elementos básicos, que se comunicam o tempo todo: afetividade, movimento, inteligência e formação do eu como pessoa. Para Wallon, a construção de valores simbólicos era um caminho favorecedor, prazeroso e satisfatório para o conhecimento, e reprovar era sinônimo de expulsar, excluir e negar a possibilidade deste conhecimento. Numa escola competente, a exclusão não pode existir. Um século depois, suas questões continuam atuais.

Um outro aspecto importante, na atualidade, é o processo de avaliação. A avaliação do desenvolvimento e do aprendizado dos alunos deve estar em sintonia com a prática pedagógica do professor, seu planejamento e o desenvolvimento deste em consonância com Projeto Político Pedagógico da escola e com o Núcleo Curricular Básico Multieducação (que norteia as ações pedagógicas da SME desde 1996), atento à legislação vigente:

... o processo de avaliação abrange, pois, todas as facetas do ato de educar, entendendo-se por avaliação um processo mais amplo do que a simples aferição dos conhecimentos constituídos pelos alunos em um determinado momento de sua trajetória escolar.” (MULTIEDUCAÇÃO: 1996, p.385)



O que é uma escola prazerosa?

Quando procuramos nos dicionários a palavra prazerosa, vemos que seu significado é alegre, jovial, que dá prazer. Prazer é descrito como sentimento ou sensação agradável, júbilo, contentamento, alegria, divertimento, agrado. Então, o que é uma escola prazerosa?

Para responder a esta pergunta, optamos por entrevistar estudantes de diferentes etapas de ensino, para saber como conceituam uma escola prazerosa. Ouvimos alunos de ensino fundamental, de ensino médio e de ensino superior. Perguntamos também se eles conhecem alguma escola prazerosa e a opinião deles sobre as características desta escola.

Em uma experiência vivida em uma escola municipal, os alunos do 2º e 3º Ciclos de Formação foram levados a pensar sobre o que entendem a respeito de uma escola prazerosa e assim se manifestaram:

Escola prazerosa é aquela que faz a gente não ter vontade de voltar para casa e aprender sempre mais, com professores legais.”

( W.R.S – período final do 2º ciclo)

Nesta escola todos se respeitariam. Todos conservariam a escola e teriam muitas atividades além das aulas normais. Os professores seriam muito criativos.”

( R.J.S.M. – período intermediário do 3º ciclo)

Uma escola prazerosa seria aquela que tivesse muitas atividades de leitura, grupos de estudo e debates em todas as matérias. Deveria também ter bastante passeios e filmes educativos. Minha escola é prazerosa quando isso acontece.”

( L.S.S.S. – período intermediário do 3º ciclo)

Num debate realizado em sala de aula, sobre os rumos da educação no século XXI, os alunos, numa escola de Ensino Médio, modalidade Normal, apontaram para várias reflexões sobre uma escola competente, democrática e prazerosa.

Todos os participantes foram unânimes em qualificar o espaço escolar, o tempo para as diversas aprendizagens, para a proposta pedagógica e a participação da comunidade no monitoramento e controle dos resultados. Transcrevemos, a seguir, algumas considerações pertinentes sobre a escola prazerosa:

...é a escola que realmente ensina. Ela não tem limites para enfrentar as dificuldades de seus alunos”. (C. P. A. F.)

...é aquela que faz o aluno ser responsável e traz a vida e o cotidiano para serem discutidos nos seus diversos espaços e momentos”. (P. H.)

...é a escola que não tem a sala de aula como o seu único espaço para o fazer e aprender. Ela é múltipla em espaços e atividades.” (A. S. C.)



No Ensino Superior, ouvimos dois grupos de estudantes: uma turma de 25 alunos de quinto período de um curso de Pedagogia e um grupo de 20 alunos de pós-graduação em Gestão Escolar.

Os futuros pedagogos colocaram várias definições sobre o que entendem por uma escola prazerosa e associaram o conceito à idéia de um espaço onde todos se sentem bem, onde há integração entre professores, alunos e funcionários, um espaço aberto para o diálogo, para um trabalho em equipe, independente da estrutura física ou das condições salariais. Todos têm participação, ouvem e são ouvidos, sem padrões impostos, porém comprometidos com a aprendizagem e a aquisição do conhecimento.

Alguns alunos foram bastante enfáticos em suas colocações:

Caracterizo a escola prazerosa como sendo aquela que traz satisfação, contentamento, que se preocupa com o indivíduo e com o coletivo e não mede esforços para que o conhecimento - produto final da escola - seja transmitido como um fator libertador”.(L.B.S.G.).

A minha opinião é que a escola prazerosa é aquela em que o aluno tem a oportunidade de se expressar de forma original, podendo ser e demonstrar a sua opinião e as suas dúvidas sem receios, sem bloqueios. (...) Prazer, na minha opinião significa aliar direitos e deveres, liberdade e compromisso, descontração e seriedade, brincadeira e trabalho. Se uma escola alcança essa equanimidade, de fato, ela é uma escola prazerosa”.(M.F.)

Quando lhes foi perguntado se conheciam alguma escola prazerosa, houve sete respondentes que afirmaram não ter ainda vivenciado, nem conhecido nenhuma escola que pudesse ser considerada prazerosa. Já os demais citaram escolas em que estudaram ou escolas em que estão estagiando como espaços de alegria e prazer, associados à responsabilidade com a aquisição e a troca de conhecimentos por todos os que delas participam.

As pesquisas sobre a importância do prazer na aprendizagem na turma de pós-graduação foram semelhantes às realizadas pelos alunos de graduação.

Todos os vinte alunos que responderam aos questionamentos consideraram que uma escola prazerosa é de fundamental importância para a aprendizagem:

“Com certeza, um ambiente acolhedor e prazeroso é fundamental para o sucesso de qualquer espaço que deseje lidar com seres humanos.”

(E.S.S.)


“Em um ambiente prazeroso, todos se sentem bem e se dedicam com mais amor às atividades que lhes são atribuídas, e, como conseqüência de um trabalho desenvolvido com amor, se obtêm resultados de qualidade.”

(G.F.C.)



Paulo Freire e suas idéias sobre a escola amorosa e prazerosa

As discussões sobre uma escola prazerosa nos trazem a lembrança de Paulo Freire, nosso renomado educador, de referência mundial pela sua luta incessante pela educação de todos, pela convivência amorosa entre educadores e educandos, pela defesa do diálogo como a grande estratégia de democratização e a defesa que fazia da “boniteza” do processo de aprender e ensinar.

Paulo Freire firmou-se como um educador progressista, com uma filosofia da educação absolutamente renovadora. Para ele, a educação teria que se fundamentar na consciência da realidade, da cotidianidade vivida pelos educandos, sem se reduzir a um simples conhecer de letras, palavras e frases. Afirmava também que só se faria um trabalho educativo para a democracia, se o processo ensino-aprendizagem não fosse sobre - verticalmente - ou para - assistencialmente - o homem, mas com os educandos e com a realidade. A defesa incessante de uma educação que estimulasse a colaboração, a decisão, a participação e a responsabilidade social e política foi o marco de toda a sua obra.

Freire nos ensinou que, em nossa prática, devemos partir das experiências dos alunos, respeitando o concreto deles e o cotidiano de limitações dos educandos. Ele afirmava ser inadiável a erradicação da relação professor-aluno de caráter narrativo, em que somente um fala – o professor – e os demais – os alunos – escutam discursos vazios, descomprometidos com a realidade social. É o que ele denominou de “educação bancária”, onde o professor deposita seus conhecimentos nas mentes “vazias” dos educandos. O professor sabe tudo. O aluno, nada. Ele é o sujeito, os discípulos, o objeto. Segundo ele, através do diálogo do educador com os educandos e dos educandos entre si e de todos com as realidades naturais e culturais da comunidade, a educação caminhará para a formação de cidadãos que poderão participar da construção de uma vida coletiva mais prazerosa para todos.

A "pedagogia bancária" não considera os conhecimentos e a cultura dos estudantes. Segundo Freire, respeitando-se a linguagem, a cultura e a história de vida dos educandos pode-se levá-los a tomar consciência da realidade que os cerca, discutindo-a criticamente. Conteúdos curriculares, portanto, jamais poderão ser desvinculados da vida, do cotidiano da comunidade escolar e devem ser construídos e compartilhados de forma dinâmica, para que alcem vôos para além do conhecimento apropriado pelo espaço de convivência de suas realidades sociais.

Os professores são, portanto, segundo Paulo Freire, profissionais da pedagogia da autonomia, da pedagogia da esperança. A partir da leitura de mundo de cada educando, através das trocas efetivadas, dos diálogos, constroem-se novos conhecimentos sobre leitura, escrita, cálculo. Parte-se do senso comum para o saber científico num continuum de respeito ao conhecimento que o aluno traz, por meio de uma metodologia que desperte o prazer tanto para os alunos, como para os professores.
“Evidentemente (...), o educador não pode furtar-se, em determinados momentos, de informar. E não pode na medida mesmo em que conhecer não é adivinhar. O fundamental, porém, é que a informação seja sempre precedida e associada à problematização do objeto em torno de cujo conhecimento ele dá a esta ou aquela informação. Desta forma, se alcança uma síntese entre o conhecimento do educando e do educador, síntese que se faz através do diálogo.” (FREIRE: 1975, p.54)
Freire considerava fundamental valorizar a atividade docente como um ato de amorosidade. Educação e atividade docente não se fazem isoladamente. Organizar-se, reivindicar condições de trabalho, estudar, aperfeiçoar-se, refletir sobre a docência também ajudam a manter sadia a amorosidade. A escola para ser democrática e competente tem que ser um espaço de alegria, diálogo e prazer. É preciso estar vigilante e não permitir o enfraquecimento da esperança.
Assim sendo, o projeto político-pedagógico das escolas da rede pública municipal de ensino da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em consonância com o Núcleo Curricular Básico Multieducação será o guia para que os professores planejem um ensino significativo e propiciem a constituição dos conhecimentos e valores pelos alunos, tendo como horizonte um projeto político de sociedade justa e igualitária.
Como tornar uma escola prazerosa, democrática e competente

Quando refletimos sobre a construção de uma escola democrática, competente e prazerosa, devemos levar em conta a importância de uma gestão democrática que propicie a participação, não só de todo o corpo docente, mas também de toda a comunidade escolar, nos diferentes níveis de decisão. É preciso que ninguém se esqueça de que quando uma escola apresenta altos índices de evasão e de não-aprendizagem dos alunos, é a confirmação de que ela não está cumprindo sua finalidade social.

“Uma escola democrática tem que viver em seu interior a democracia, com a participação de todos que nela trabalham (professores, alunos, funcionários, equipe técnico-pedagógica) e que dela se beneficiam (comunidade em torno da escola) na sua construção. O projeto político-pedagógico se constitui em processo democrático de decisões, no qual a escola, enquanto grupo, delineia sua própria identidade, e se identifica com a comunidade escolar em que se insere. O trabalho democrático no interior da escola dá voz ao aluno, aos pais, aos seus trabalhadores; permite a todos participar de sua construção, de se perceber em cada ação nela encaminhada, de se ver em cada pedacinho da escola. E sendo fruto de construção coletiva, a ação pedagógica se constitui em uma ação competente, responsável, mais agradável aos que nela estão envolvidos.” (MULTIEDUCAÇÂO, 2008)

Nas entrevistas que fizemos com os estudantes nas diversas etapas de ensino, pudemos ouvir de vários deles “lições” de como a escola que queremos – democrática, competente e prazerosa – deve agir para estar permanentemente em processo de atendimento integral aos alunos que nela se encontram no dia a dia, demonstrando prazer em freqüentá-la, repensando continuamente suas estratégias e seus métodos pedagógicos, e também para atender às expectativas da comunidade que confia em seu trabalho social pela construção da cidadania plena.

Algumas afirmativas desses estudantes podem ser aqui analisadas, para que percebamos como a visão de uma escola democrática, competente e prazerosa está presente no pensamento dos jovens.

No mesmo debate realizado na Escola de Ensino Médio, Modalidade Normal, foram colocadas em discussão características de uma Escola Democrática e novas considerações foram registradas:

“...escola democrática é aquela que prepara para a vida, para o exercício da cidadania com respeito às diferenças dos alunos.” (M. B. F.)

“...escola democrática é aquela que tem o diálogo como prática em todas as suas ações, abrangendo a parte administrativa e a pedagógica.” (R. S.)

“...escola democrática respeita as individualidades dos alunos. A comunidade escolar participa de suas decisões e seus caminhos.” (F. A.)

Os estudantes de graduação, futuros pedagogos, acenaram com algumas questões que são coerentes com as teorias que lhes estão sendo transmitidas na faculdade. As respostas foram muito expressivas e refletem a visão que está sendo elaborada em nossos cursos de formação docente.

“É preciso que a escola busque envolver todos os professores e alunos em um projeto político-pedagógico que permita a abertura de diálogo e troca de experiências, que realize reuniões dinâmicas, organize grupos de estudo, seminários e cursos sobre temas de interesse dos alunos, dos professores, da comunidade”.(D. P.)

“A escola precisa ter consciência de que seres humanos não são programáveis como os computadores e que, se em determinado momento, algo não sair como está previsto nos documentos, deve-se entender primeiro o contexto, para que haja um juízo de valor justo e coerente”.(M. F.)

“Numa escola prazerosa, o profissional ‘veste a camisa’ do que faz e busca sempre saídas para solucionar os problemas, trabalha com bom humor, gostando do que faz, disposto a considerar o que ouve, sempre estimulando os alunos, trazendo novidades e mostrando o melhor caminho para que eles sejam bem sucedidos”.(V. M.)

Os estudantes de pós-graduação responderam de maneira semelhante:

“Uma escola em que o aluno tenha vontade de estar, se sinta bem, veja sentido em lá permanecer, se sinta motivado e tenha prazer em voltar todos os dias.”

(R.S.)

“Uma escola acolhedora, organizada, limpa, com pessoas bem humoradas, determinadas e competentes. Uma escola preocupada com seus alunos e antenada com o mundo exterior. Uma escola que promova o conhecimento de qualidade para todos (inclusiva).”



(E.S.S.)

“Aquela que proporciona a todos os envolvidos, satisfação.”

(Anônimo)

Por tudo o que ouvimos de nossos alunos e pelas reflexões que fizemos, vimos que não se pode ter dúvidas de que ...

....brincando se aprende,

e ao aprender brincando,

nada se esquece

mas, quando não se brinca,

até o saber envelhece ....

Prof. Roberto Antunes

Escola Municipal Ceará

Conselheiro do Conselho Municipal de Educação até agosto/2008

Considerações finais

A profª. Silvia Vergara assegura que:

"somos um todo integrado de natureza física, intelectual, emocional e espiritual, o qual está presente e manifesto durante todo o tempo, independente das reduções voluntárias ou involuntárias que se tente fazer, e do fato de estarmos atuando em nossa vida profissional ou pessoal que, de resto, só podem ser separadas pela nossa visão fragmentada”.(Vergara, Sílvia. 1993. p.26)
Nessa perspectiva, não há mais processos dicotômicos e dissociações, mas a concepção da inteireza do homem. Não há mais a dicotomia entre o cognitivo e o afetivo, o biológico e o intelectual, o físico e o psíquico, mas o todo de cada ser humano em formação.

Por outro lado, Rubem Alves afirma que:

“a mente só guarda e opera conhecimento de dois tipos: (1) os conhecimentos que dão prazer e (2) os conhecimentos instrumentais, que podem ser usados como ferramentas. (...) O esquecimento é uma operação da inteligência que se recusa a carregar o inútil e o que não dá prazer. A inteligência deseja viajar com leveza...(ALVES. Rubem. op.cit. p.19).
No entanto, expressões como prazer, alegria, amor, paixão, afetividade são consideradas, por muitos educadores, pieguismo, sentimentalismo e que expressões como essas não se coadunam com a instituição chamada escola.

Revisitando a literatura pedagógica, é possível perceber que a busca por uma escola que produza alegria e prazer, em que a afetividade se constitui em aspecto relevante no processo de aprendizagem, não é recente:

- Pestalozzi (1746-1827) encontra no amor o caminho para a auto-educação;

- Vygotsky (1896-1934) enfatiza, em seus estudos, a importância da memória afetiva e da interação;

- Freinet (1896-1966) sedimentou seu fazer pedagógico numa relação de confiança e respeito, baseada em forte afetividade;

- Wallon (1879-1962) dedicou-se aos estudos das emoções em crianças, estruturando suas pesquisas em quatro princípios básicos, sendo um deles, a afetividade.

- Snyders (ano) , no seu livro "Alunos felizes", discute, exatamente, a importância da alegria no fazer pedagógico da escola. Paulo Freire, que faz o prefácio do livro, afirma que:
"A alegria na escola fortalece e estimula a alegria de viver (...) que esta é uma afirmação grávida de seriedade mas, ao mesmo tempo, de esperança. E não há esperança sem alegria."
“Os Quatro Pilares da Educação para o século XXI”, elaborado por Jacques Delors, sob a chancela da Unesco, ratifica a importância da dimensão humana no processo educativo, quando coloca como um dos pilares o “aprender a ser”.

No desdobramento dessas considerações, cabe reconhecer que o aluno necessita de uma escola que seja múltipla, diferenciada e prazerosa, repleta de novidades e significados.

É papel da escola do século XXI aliar prazer e conhecimento.

Como conclusão destas reflexões, queremos socializar, com todos os nossos colegas, o poema escrito por Paulo Freire que retrata seu pensamento sobre a escola democrática, competente e prazerosa.



A Escola
Escola é...

O lugar onde se faz amigos.

Não se trata só de prédios, salas, quadros,

programas, horários, conceitos...

Escola é, sobretudo, gente,

gente que trabalha, que estuda,

que se alegra, se conhece, se estima.

O diretor é gente.

O coordenador é gente, o professor é gente,

o aluno é gente,

cada funcionário é gente.

E a escola será cada vez melhor

na medida em que cada um

se comporte como colega, amigo, irmão.

Nada de uma “ilha cercada de gente por todos os lados.”

Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir

que não tem amizade a ninguém.

Nada de ser como o tijolo que forma a parede,

indiferente, frio, só...

Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,

é também criar laços de amizade,

é criar ambiente de camaradagem,

é conviver, é se “amarrar” nela!

Ora, é lógico...

Numa escola assim vai ser fácil

estudar, trabalhar, crescer,

fazer amigos, educar-se...

Ser feliz.


Poesia do educador Paulo Freire, disponível no site do Instituto Paulo Freire (www.paulofreire.org)

BIBLIOGRAFIA
ALVES, Rubem. Estórias de quem gosta de ensinar. São Paulo. Editora Papirus. 8ª edição. 2003

____________ Por uma educação romântica. Portugal. Papirus. 2002.

CORDIÉ, Anny . Os Atrasados não existem: psicanálise de crianças com fracasso escolar. Porto Alegre. Artmed. 1996. 

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo. Cortez. 1975.

LACAN , Jacques . O seminário VI - o desejo e sua interpretação. São Paulo. Zahar.1986.

MULTIEDUCAÇÃO. Núcleo curricular básico. Rio de Janeiro. SME. 1996.

SNYDERS, Georges. Alunos Felizes. São Paulo. Editora Paz e Terra, 2001.

TEIXEIRA, Anísio. A pedagogia de Dewey. Melhoramentos. 1964.

VERGARA, Sílvia e DURVAL, Em busca de uma visão de totalidade. São Paulo. Revista de Administração de Empresas. Nov./Dez. 1993.
 

Conselheiros da Câmara de políticas sociais integradas à educação

Bertha de Borja Reis do Valle

José Omar Duarte Ventura

KÁTIA REGINA BATISTA BORGES

mARCELO pEREIRA

MARCOS SILVA OZÓRIO

Maria de Nazareth Machado de Barros Vasconcellos

ROBERTO ANUNCIAÇÃO ANTUNES (Conselheiro até agosto/2008)

Sergio de Almeida Bruni

Sérgio Sodré Peçanha



Conclusão do plenário


Esta Indicação foi aprovada pelos presentes na sessão Plenária Pública do dia 25 de novembro de 2008.


Sonia Maria Corrêa Mograbi – Presidente

bertha de borja reis do valle

José Omar Duarte Ventura

KATIA REGINA BATISTA BORGES

LEILA DE MACEDO VARELA BLANCO

LENY CORREA DATRINO

Luiz Eduardo cortez diniz rocha lima

MARCELO PEREIRA

MARCOS SILVA OZÓRIO

Maria de Nazareth Machado de Barros Vasconcellos

Mariza Lomba Pinguelli Rosa

ROBERTO GUARDA MARTINS







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