A elite do poder financeiro



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A elite do poder financeiro


por John Bellamy Foster [*]
e Hannah Holleman
[**]


 

Você está me dizendo que o êxito do programa (econômico) e a minha reeleição dependem do Federal Reserve e de um bando de malditos negociantes de títulos?
– Presidente Bill Clinton [1]

Somente por duas vezes no ultimo século – depois do Pânico Bancário de 1907 e em seguida à Quebra do Mercado de Ações de 1929 – a fúria dirigida às elites financeiras dos EUA atingiu os níveis de hoje, na esteira da Grande Crise Financeira de 2007-2009. Uma pesquisa da revista Time em outubro de 2009 revelou que 71% do público acredita que devem ser impostos limites às compensações dos executivos de Wall Street; 67% querem que o governo force os executivos a pagar cortes nas empresas de Wall Street que receberam ajuda financeira federal; e 58% concordam que a Wall Street exerce demasiada influência sobre a política de recuperação econômica do governo. [2]

Em Janeiro de 2009, o presidente Obama capitalizou a crescente fúria contra os interesses financeiros chamando de "vergonhosos" os exorbitantes bônus bancários subsidiados com dinheiro dos contribuintes, e ameaçou com novas regulamentações. O jornalista Matt Taibbi abriu seu artigo de julho de 2009 na Rolling Stone com: "A primeira coisa que você precisa saber sobre a Goldman Sachs é que ela está em toda parte. O banco de investimentos mais poderoso do mundo é um grande polvo-vampiro que envolve a face da humanidade, drenando implacavelmente seu sangue para tudo que cheire a dinheiro". O ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Simon Johnson, publicou um artigo no número de maio de 2009 do Atlantic intitulado: "O Golpe Silencioso", criticando a tomada pela "oligarquia financeira americana" de posições estratégicas no governo federal, que dão "ao setor financeiro poder de veto a políticas públicas". [3]

A Comissão de Inquérito da Crise Financeira estabelecida por Washington em 2009 foi encarregada de examinar "as causas, internas ou globais, da atual crise financeira e econômica nos Estados Unidos". Seu presidente, Phil Angelides, compara sua tarefa à do inquérito Pecora na década de 30, que expôs os excessos especulativos e a conduta dolosa da Wall Street. As primeiras audiências em janeiro de 2010 tiveram início com os presidentes executivos de alguns dos maiores bancos dos EUA: Bank of América, JP Morgan Chase, Goldman Sachs e Morgan Stanley. [4]

Enquanto isso, o governo federal continuou seu programa de salvamento dos bancos através da canalização de milhões de milhões (trillions) de dólares para eles, através de fusões de capital, garantias para empréstimos, subsídios, compra de ativos tóxicos, etc. Esta é uma época de falências bancárias recordes, mas também de rápida concentração financeira, na medida em que as empresas já "grandes demais para falir" no ápice do sistema financeiro estão se tornando ainda maiores.

Tudo isso levanta a questão de uma elite emergente do poder financeiro. O poder dos interesses financeiros na sociedade estadunidense aumentou? A crescente influência de Wall Street afetou os próprios EUA? Como isso está conectado à presente crise? Argumentaremos que a financiarização do capitalismo dos EUA nas últimas quatro décadas foi acompanhada por uma guinada dramática e provavelmente duradoura na posição da classe capitalista, da qual uma crescente proporção agora deriva sua riqueza das finanças e não da produção. Essa predominância cada vez maior das finanças pode ser vista hoje nos corredores internos do poder estatal.

O trust do dinheiro

A fúria com a existência de um "trust do dinheiro" regendo a economia estadunidense atingiu vastas proporções no final do século dezenove e início do século vinte. Este foi um tempo no qual os banqueiros de investimento fizeram o parto dos gigantes industriais, inaugurando a nova era do capital monopolista. Em troca, os bancos de investimento obtiveram o que o economista marxista austríaco Rudolf Hiferding, em sua grande obra O Capital Financeiro (1910) chamou de "o lucro do promotor". [5] Hiferding e o economista e sociólogo radical Thorstein Veblen nos Estados Unidos foram os dois maiores teóricos da ascensão da nova era do capital monopolista e do controle financeiro. Veblen declarou que "os banqueiros de investimento coletivamente são a comunidade custodiadora da propriedade absenteísta em geral, toda a equipe encarregada de procurar negócios... [A]s casas bancárias que se engajaram neste empreendimento se prepararam para um controle acionário efetivo das corporações cujos negócios financeiros elas administram". [6] Na fusão prototípica do período, a criação em 1901 da U.S. Steel Corporation, o sindicato de corretores que o J.P.Morgan & Co. reuniu para lançar as ações no mercado, recebeu uma participação de 1,3 milhões e mais de US$ 60 milhões em comissões das quais o J.P.Morgan & Co. receberam US$ 12 milhões. [7]

O Pânico Bancário de 1907, durante o qual o próprio J.P. Morgan interveio na ausência de um banco central que estabilizasse o setor financeiro, levou à criação em 1913 do Sistema de Reserva Federal (Federal Reserve System), projetado para dar liquidez aos bancos durante uma crise. Mas isso levou também a acusações, primeiro formuladas em 1911 pelo congressista Charles A. Lindberg (pai do famoso aviador), de um "cartel do dinheiro" no domínio das finanças e da indústria dos EUA. Woodrow Wilson, então governador de New Jersey, declarou: "O maior monopólio deste país é o monopólio do dinheiro".

Em 1912, uma investigação destinada a descobrir a verdade por trás da questão do trust do dinheiro foi lançada pela Comissão da Câmara sobre Bancos e Moeda, presidida por Arsene Pujo, da Louisiana. A Comissão Pujo descobriu que 22% do total dos recursos bancários da nação estavam concentrados em bancos e companhias de custódia baseadas na Cidade de Nova Iorque. Ela publicou informações mostrando os canais do controle e propriedade financeiros, focando especialmente o extenso império financeiro-industrial do J.P.Morgan, enfatizando as cadeias imbricadas de gestão através das quais esse controle era exercido. Ela detalhou o que via como um "grupo interno" associado ao trio formado por Morgan no J.P.Morgan & Co., George F.Baker no First National Bank, e James Stillman no National City Bank, assim como em vários outros bancos e empresas que eles controlavam. Coletivamente, o grupo interno manteve 300 diretorias em mais de cem corporações. A Comissão Pujo denunciou que não era investimento, mas controle sobre as finanças e a indústria dos EUA, o objetivo da extensa rede de propriedade e direção. Ela concluiu que havia uma "identidade e comunhão de interesses estabelecidos e bem definidos entre alguns líderes financeiros, criada e mantida através de propriedade acionária, gestão interligada, sociedade e transações em contas conjuntas, e outras formas de domínio sobre bancos, companhias e custódia, ferrovias e corporações industriais e de serviço público, que resultaram numa concentração grande e rapidamente crescente do controle de dinheiro e crédito nas mãos desses poucos".

Apesar de que afinal a Comissão Pujo teve pouco efeito no Congresso, levantou preocupações com o trust financeiro e o papel dos bancos de investimento. A acusação mais cáustica baseada nessas revelações foi feita por Louis Brandeis em O dinheiro dos outros (1913), onde escreveu: "O elemento dominante em nossa oligarquia financeira é o banqueiro de investimentos. Bancos associados, companhias de custódia e companhias de seguro de vida são suas ferramentas... O desenvolvimento de nossa oligarquia financeira seguiu... diretrizes com as quais a história do despotismo político nos familiarizou: usurpação, por meio de intrusão gradativa ao invés de atos violentos, concentração, sutil e frequentemente escondida por muito tempo, de funções distintas... Foi por processos como estes que César Augusto tornou-se o dono de Roma". [8]

O crash do Mercado de Ações de 1929 e a Grande Depressão levaram novamente a investigações sobre a questão do trust monetário. Em seu discurso inaugural, Franklin Roosevelt afirmou que "os cambistas fugiram de seus tronos no templo de nossa civilização. Devemos agora devolver este templo à antiga verdade". Em 1932 a Comissão do Senado sobre Bancos e Moeda iniciou uma investigação de dois anos sobre os mercados de títulos e sobre o sistema financeiro como um todo, conhecida como inquéritos Pecora, com base no nome do último conselheiro-chefe da comissão, o dinâmico Ferdinand Pecora. Como fez a Comissão Pujo, a investigação Pecora apontou as atividades especulativas dos bancos de investimentos associados aos principais bancos. Também destacou as diretorias interligadas que formavam uma complexa teia cujo centro era um punhado de interesses financeiros, dos quais J.P.Morgan & Co. e Drexel & Co. são especialmente significativos. A investigação Pecora descobriu que o país está sendo colocado "sob controle dos financistas". Essas audiências conduziram diretamente à fundação da Comissão de Títulos e Câmbio e à aprovação no Congresso, dentro de um ano, da Lei Glass-Steagal, que estabeleceu, entre outras coisas, a separação de atividades de banco comercial e de investimento. O sentimento popular à época foi talvez melhor resumido pelo deputado Charles Truaux, de Ohio, que declarou, com relação à Lei de Títulos de Câmbio de 1934, "Sou favorável a esta lei, porque ela fará alguma coisa com o maldito bando de chantagistas e vampiros que sempre sugaram o sangue da humanidade". [9]



A era dos bancos tediosos

O período que se seguiu à Grande Depressão, até a década de 70, foi chamado por Paul Krugman de "a era dos bancos tediosos". "A indústria bancária que emergiu daquele colapso [nos anos 30] foi estritamente regulada, muito menos colorida do que havia sido antes da Depressão, e muito menos lucrativa para aqueles que a geriam. A atividade bancária tornou-se chata, um pouco porque os bancos eram muito conservadores. A dívida habitacional, que tinha caído abruptamente em termos de percentual sobre o PIB durante a Depressão e a Segunda Guerra Mundial, permaneceu muito inferior aos níveis de antes de 1930". [10] Nos anos 60, o poder relativo do setor financeiro no capitalismo estadunidense declinou. Os bancos de investimento, que tinham sido tão importantes no seu apogeu nas décadas iniciais do século XX, decaíram em poder e influência.



A regulação das finanças associada à Glass-Steagall e à Lei de Títulos e Câmbio é freqüentemente creditada pela era do "banco tedioso". Entretanto, na realidade, a relativa estabilidade financeira desses anos, e o afastamento do controle financeiro exercido pelos bancos, tem muito mais a ver com o crescimento maciço das gigantescas corporações industriais, no que foi chamado de "a era dourada" da expansão do capitalismo pós-Segunda Guerra Mundial. Essas corporações gigantescas produziram enormes superávites econômicos e puderam bancar sua expansão, na maior parte, com base em suas próprias finanças internas. John Kenneth Galbraith afirmou em Capitalismo Americano (1952): "Enquanto os bancos, como símbolo do poder econômico, eram eclipsados, seu lugar foi tomado pela corporação industrial gigante". [11] Entretanto, seria mais acurado dizer que o que emergiu depois da década de 20 foi a "combinação", sob o capitalismo monopolista, do capital financeiro e industrial, como sugerido tanto por Lênin quanto por Veblen. [12]

A era da financiarização [13]

As últimas décadas, desde os anos 70, e especialmente desde os anos 80, têm visto a rápida financiarização da economia estadunidense e do capitalismo global em geral, na medida em que o centro de gravidade do sistema tem se deslocado da produção para as finanças. Apesar de ter havido crises financeiras periódicas, começando com a falência da Pennsylvania Central Railroad em 1970, o estado tem intervido em cada crise como o prestamista de última instância, e procurado apoiar o sistema financeiro. O resultado por décadas tem sido o crescimento maciço de um sistema financeiro no qual a cobrança forçada das dívidas nunca ocorreu de fato, levando a crises financeiras maiores e a intervenções estatais mais agressivas. Uma indicação do fracasso em erradicar forçosamente as dívidas, apesar das repetidas crises de crédito, e do resultante crescimento da pirâmide financeira, é o aumento sem precedentes históricos da participação dos lucros financeiros (isto é, os lucros de corporações financeiras), que subiu de 17% do total de lucros corporativos domésticos em 1960 para um máximo de 44% em 2002. Apesar de que a parcela de lucros financeiros caiu em 27% até 2007, à beira da Grande Crise Financeira de 2007-2009 (em parte devido a ganhos nos lucros industriais nesse período), permaneceu estável à medida em que a crise se aprofundava, e recuperou-se nos primeiros três trimestres de 2009 até 31%, bem acima de seu nível de antes da crise – graças à ajuda federal (e devido ao fato de que os lucros industriais continuaram atolados na recessão)

Hoje em dia é comum que economistas apresentem a Grande Crise Financeira como apenas mais um, ainda que mais severo, caso de crise financeira, parte de um ciclo financeiro recorrente sob o capitalismo. [14] Todavia, ainda que tenha havido muitos outros períodos de manias e pânicos financeiros no último século – sendo o mais famoso os proverbiais "loucos anos 20", que levaram à Quebra do Mercado de Ações em 1929 – a guinada popular de hoje na direção de maiores lucros financeiros, que já dura décadas, não tem precedentes históricos. [15] Isso representa uma inversão da economia capitalista – à qual Paul Sweezy se referiu em 1997 como "a financiarização do processo de acumulação do capital". Em períodos anteriores do desenvolvimento capitalista, bolhas financeiras ocorriam nos picos dos ciclos de negócios, refletindo o que Marx chamou de "pletora de capital monetário" no auge da especulação imediatamente precedente a uma quebra. Hoje, entretanto, as bolhas financeiras são vistas mais apropriadamente como manifestações de um processo secular de financiarização, alimentando-se mais da estagnação que da prosperidade. As expansões especulativas servem para estimular temporariamente a economia de base, mas levam inevitavelmente ao aumento da instabilidade financeira. [16]

O sistema financeiro foi, assim, transformado historicamente numa economia de cassino, a partir da década de 70, como resposta ao reaparecimento das tendências de estagnação na produção – e acelerando-se a cada década que se seguiu. Após o marco histórico da Quebra do Mercado de Ações de 1987, alguns dos que tinham acompanhado a explosão financeira desde o início dos anos 70 (e mesmo antes disso), tal como Hyman Minsky e Paul Sweezy, argumentaram que o sistema tinha sido submetido a uma mudança radical, refletindo o que Minsky apelidou de "capitalismo de gestão monetária" e que Sweezy chamou de "o triunfo do capital financeiro". Mais recentemente, essa nova fase foi denominada "capital financeiro monopolista". [17]

À medida em que a financiarização prosseguiu, formas cada vez mais exóticas de inovação financeira (toda espécie de futuros, opções, derivativos, swaps) apareceram, junto com o crescimento de todo um sistema bancário oculto, fora dos balanços dos bancos. A revogação da Glass-Steagall em 1999, apesar de não ter sido em si mesma um grande evento histórico, simbolizou a dimensão total da desregulamentação que tinha então sido feita generalizadamente. O sistema tornou-se cada vez mais complexo, opaco e ingovernável. Surgiu uma nova era de conglomerados financeiros, ao mesmo tempo em que tinha início em 2007 a Grande Crise Financeira.

Na perseguição pública ao trust monetário no início do século XX, a ênfase nunca esteve na concentração total da propriedade nas finanças, já que o sistema bancário era menos concentrado que a maioria das indústrias. Ao invés disso, foi colocada ênfase nas diretorias interligadas e nas várias práticas de empréstimos que envolviam "reciprocidade", através das quais se achava que o controle efetivo era exercido pelo cartel monetário centrado em alguns poucos bancos poderosos. De acordo com o estudo "Grupos de Interesse na Economia Americana", elaborado por Paul Sweezy para a agência do New Deal, a Comissão de Recursos Nacionais (publicada no seu relatório de 1939, A estrutura da Economia Americana), os cinqüenta maiores bancos nos EUA em 31 de dezembro de 1936 detinham 47,9% da média de depósitos em todos os bancos comerciais em 1936. Isso permaneceu inalterado (pelo menos aparentemente) até 1990, quando as cinqüenta maiores holdings bancárias nos EUA detinham 48% de todos os depósitos nacionais. [18]

Todavia, o final da década de 80 e o início da década do 90 foram geralmente considerados como um período de crise para os bancos dos EUA, o que foi em parte atribuído ao fato de que os bancos comerciais estadunidenses não eram mais considerados grandes o bastante para competir eficientemente. Isso pode ser visto de forma dramática no peso decrescente dos bancos dos EUA relativamente aos bancos de outros países capitalistas avançados. Em 1970, os bancos comerciais dos EUA superavam em tamanho (medido por depósito) os principais bancos europeus e japoneses. Neste ano, os três maiores bancos do mundo eram o BankAmerica, o Citicorp e o Chase Manhattan, todos baseados nos Estados Unidos. No total, os Estados Unidos respondiam por oito dos 20 maiores bancos do mundo. Em 1986, o maior banco do mundo era japonês, e apenas três bancos estadunidenteses permaneciam entre os 20 maiores. Em termos de capitalização do valor de mercado, os bancos dos EUA estavam ainda em pior situação. O Citicorp caiu em 1986 para o 29º lugar na classificação, internacionalmente, enquanto o BankAmerica saiu fora da lista dos 50 maiores. [19]

Se os bancos dos EUA estivessem sendo expulsos por competidores estrangeiros que estivessem crescendo muito mais depressa, refletindo economias de escala nos bancos, eles teriam também sido afetados por uma alteração de rumo acelerado no longo prazo, na era da financiarização, para longe da atividade bancária e na direção de outras formas de intermediação financeira, dando aos bancos uma participação menor no mercado total. Em 1950 os ativos dos bancos comerciais representavam mais da metade do total de onze tipos principais de intermediários financeiros (bancos comerciais, companhias de seguro de vida, fundos de pensão privados, associações de poupança e empréstimo, bancos de poupança e consórcios de crédito). Em 1990 isso tinha se reduzido a 32%. Apesar da retirada dos bancos da intermediação financeira poder ter sido superestimada por esses números, que não levaram em conta as atividades não contabilizadas dos bancos, o crescente deslocamento dos bancos comerciais dos EUA na era da financiarização tornou-se uma grande preocupação. [20]

Tudo isso significou um crescente enfraquecimento da atividade bancária, com os bancos cada vez mais encorajados a "patinar no gelo fino", como Harry Magdoff e Sweezy disseram na década de 70, com base nos baixos níveis de capitalização. Isso também levou ao aumento de falências e fusões bancárias de 1990 a 2007, o que alimentou a concentração e a centralização, à medida em que os bancos buscaram economias de escala e a condição de "grande demais para falir" dentro da economia (a presumida garantia de ajuda do governo federal num evento de crise). No total, os EUA viram cerca de 11.500 bancos se fundirem entre 1980 e 2005, numa média de cerca de 440 fusões ao ano. Além disso, o tamanho das empresas fundidas elevou-se a passos de gigante. Em janeiro de 2004 o J.P.Morgan Chase decidiu comprar o Bank One, formando uma holding bancária com US$ 1,4 milhão de milhões em ativos (atrás, na época, apenas do Citigroup, com ativos de US$ 1,6 milhão de milhões). [21]

A concentração financeira se acelerou ainda mais em decorrência da Grande Crise Financeira que começou em 2007. Números record de falências bancárias, e as maiores empresas, as principais beneficiárias da ajuda governamental, procuraram segurança no aumento de tamanho, esperando manter seu status de "grande demais para falir". Dos quinze maiores bancos comerciais dos EUA em 1991 (Citicorp, BankAmerica, Chase Manhattan, J.P. Morgan, Security Pacific, Chemical Banking Corp, NCNB, Manufacturers Hanover, Bankers Trust, Wells Fargo, First Interstate, First Chicago, Fleet/Norstar, PNC Financial, and First Union – com ativos totais de US$ 1,153 milhão de milhões), somente cinco (Citigroup, Bank of America, JPMorgan Chase, Wells Fargo, and PNC Financial—com ativos totais de U$ 8,913 milhão de milhões) sobreviveram como entidades independentes até o final de 2008. Os bancos de investimento da Wall Street sofreram as maiores transformações. Em 1988, as empresas líderes na oferta de dívida corporativa, títulos baseados em hipotecas, direitos de propriedade e obrigações municipais eram Goldman Sachs, Merrill Lynch, Salomon Brothers, First Boston, Morgan Stanley, Shearson Lehman Brothers, Drexel Burnham Lambert, Prudential-Bache, and Bear Stearns. No final de 2008, apenas duas dessas nove permaneceram independentes: o Goldman Sachs e o Morgan Stanley, ambos transformados em holdings bancárias, de forma a abrigá-las sob o guarda-chuva da ajuda do governo federal.

Na verdade, o nível global da concentração financeira é muito maior que o que pode ser visto olhando-se apenas os grandes bancos, já que o que surgiu nos últimos anos são conglomerados financeiros, centralizados em bancos e seguradoras, e engajados num amplo espectro de transações financeiras que dominam a economia estadunidense, inclusive compromissos extra-balanço patrimonial. Os dez maiores conglomerados financeiros dos EUA em 2008 detinham mais de 60% dos ativos financeiros do país, em comparação com apenas 10% em 1990, criando as condições para um oligopólio financeiro. O J.P.Morgan Chase agora detém US$ 1 de cada US$ 10 de depósitos bancários no país. O mesmo com o Bank of América e o Wells Fargo. Esses três bancos, mais o Citigroup, agora emitem quase uma de cada duas hipotecas, e respondem por dois de cada três cartões de crédito. Como diz Mark Zandi, economista-chefe da Moody's Economy: "O oligopólio se fortaleceu". [22]



A financiarização da classe capitalista

Qual tem sido o efeito da financiarização, tal como descrito acima, sobre a composição da classe capitalista e as relações na sociedade estadunidense? Os melhores dados empíricos disponíveis para averiguar as mudanças na distribuição de riqueza na classe capitalista têm sido compilados anualmente desde o início da década de 80 pela revista Forbes, acessável no chamado "400 da Forbes", ou seja, os 400 americanos mais ricos. Apesar dos 400 da Forbes em 2007 responderem apenas por cerca de 2,4% da riqueza privada total e 7% da riqueza dos 1% de americanos mais ricos, sua participação na riqueza (de US$ 1,54 milhão de milhões) não foi absolutamente insignificante, quase se igualando à riqueza da metade inferior da população estadunidense, ou cerca de 150 milhões de pessoas (de US$ 1,6 milhão de milhões). Além disso, os 400 da Forbes, como super-elite da classe capitalista, podem ser visto como representantes da "vanguarda", portanto da direção principal, da classe capitalista dominante. [23]

Os dados dos 400 da Forbes incluem informações sobre a fonte primária de riqueza, por setor industrial, de cada indivíduo. Com base nesses dados, é portanto possível averiguar as áreas ascendentes e descendentes de riqueza nos porfolios dos americanos mais ricos. Uma tentativa pioneira feita em 1990 por James Petras e Christian Davenport de usar esses dados para examinar a mudança na composição da riqueza dos americanos mais ricos, durante 1983-1988, concluiu:

Os dados dos 400 da Forbes mostram que os capitalistas especuladores tornaram-se cada vez mais predominantes na classe dominante dos EUA, deslocando capitalistas industriais e petrolíferos... Além disso, a base especulativa do capitalismo dos EUA traz maior risco de instabilidade. Os maiores ganhadores nos anos recentes têm sido os setores financeiro e imobiliário – e a recessão iminente pode exacerbar sua fraqueza e derrubá-los junto com os principais setores industriais aos quais eles estão ligados. [24]

Há agora um quarto de século de dados disponíveis na série dos 400 da Forbes, o que nos permite examinar a alteração na composição da riqueza numa base de muito mais longo prazo, e ao longo do estágio crítico da financialização da economia estadunidense. Analisando a série da Forbes, usamos os dados históricos reconstruídos por Peter W. Bernstein e Annalyn Swan, que, com consultoria da equipe de pesquisadores dos 400 da Forbes, e utilizando os arquivos de dados da revista, vieram a publicar em 2007 "Todo o dinheiro do mundo: Como os 400 da Forbes ganham – e gastam – suas fortunas". Complementamos isso com a última pesquisa dos mesmos autores, usando os dados da Forbes, publicados em 8 de outubro de 2007, publicado pela própria Forbes.

As mudanças na estrutura da riqueza dos 400 da Forbes ao longo de um período de vinte e cinco anos, de 1982 a 2007 (em percentuais para os anos selecionados) é mostrado no Gráfico 2. (Os números de 1982, diferentemente dos outros anos, não incluíram a categoria retalho, que não foi originariamente isolada como área de riqueza, devido à sua pequena representação nos 400 da Forbes no início da década de 80. Conseqüentemente, o retalho entra em "Outros"). Em 1982, o petróleo e o gás eram a fonte primária de riqueza para 22,8% dos 400 da Forbes, com manufatura em segundo com 15,3%. Finanças, em contraste, era o setor primário de riqueza apenas para 9%, com finanças e mercado imobiliário juntos (ambos incluídos no FIRE, ou finanças, seguros e imóveis, em inglês Finance, Insurance e Real State) representando 24%. Somente uma década mais tarde, em 1992, todavia, as finanças ultrapassaram todas as outras áreas, representando a fonte primária de riqueza para 17% dos 400 da Forbes, enquanto finanças mais mercado imobiliário constituíam 25%. Petróleo e gás, enquanto isso, encolheram para 8,8%. As manufaturas, em 14,8%, conseguiram manter sua participação geral, apesar de estarem agora ultrapassadas pelas finanças, assim como pelo florescente setor de media, entretenimento e comunicações, que subiu para 15,5%.



Em 2007, no início da Grande Crise Financeira, o percentual dos 400 da Forbes que derivavam sua principal fonte de riqueza das finanças subiu para 27,3%, enquanto as finanças e os imóveis juntos chegaram a 34%, com mais de um terço dos 400 americanos mais ricos agora tendo sua riqueza principalmente derivada do FIRE. O competidor mais próximo nesta época – a tecnologia – respondia por cerca de 10,8% da riqueza dos 400 da Forbes. A manufatura tinha desabado para 9,5%, apesar de agora exceder ligeiramente a media/entretenimento/comunicações (9,3%). A alteração neste quarto de século foi enorme. Em 1982, a manufatura havia excedido as finanças como fonte de riqueza por 6 pontos percentuais. Em 2007, as posições foram revertidas, com as finanças excedendo a manufatura por 18 pontos percentuais, enquanto as finanças mais imóveis excediam a manufatura em 25 pontos. [25]

O que podemos chamar de "financiarização da classe capitalista" neste período é refletido não apenas no crescimento dos lucros financeiros como percentual do total de lucros corporativos, e na mudança das fontes primárias de riqueza dos americanos mais ricos das finanças para o Mercado imobiliário, mas também no aumento da compensação dos executivos do setor financeiro, relativamente a outros setores da economia. Como Simon Johnson notou, "De 1948 a 1982, a compensação média no setor financeiro variou entre 99% e 108% da média de todas as indústrias privadas nacionais. Em 1983, disparou, alcançando 181% em 2007". Em 1988, os dez mais da nação em compensação a executivos não incluíam nenhum presidente executivo. Em 2000, as finanças respondiam pelos dois maiores. Em 2007, incluíam quatro dos cinco maiores. [26]

Relativamente tanto a lucros quanto a compensações a executivos, havia portanto uma enorme viragem na direção das finanças, com a riqueza do último degrau da classe capitalista crescentemente vindo do setor financeiro. O rei das finanças, Warren Buffett, ainda mais que o rei da tecnologia, Bill Gates, é quem melhor exemplifica a nova fase do capital financeiro monopolista.



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