A educação no Brasil no período joanino



Baixar 59,08 Kb.
Encontro18.08.2017
Tamanho59,08 Kb.



A educação no Brasil no período joanino
Edivaldo M. Boaventura*
Resumo
Com a vinda da família real para o Brasil teve início a educação superior pública pelo ensino médico, na Bahia e no Rio de Janeiro e pelo ensino militar. Foram igualmente criadas as Academias de Marinha e Militar e depois a Academia de Belas Artes. Prosseguiram as aulas régias de primeiras letras, de gramática latina e aulas maiores de matemática, agricultura e química. Museu, jardins botânicos, bibliotecas públicas deram suporte cultural às atividades de ensino.

Expulsão dos jesuítas e desorganização do sistema de ensino
Com a desorganização do sistema de ensino pela expulsão dos jesuítas, a educação colonial veio a tomar novos rumos com a vinda da família real portuguesa. Tão logo chegou ao Brasil, na sua passagem pela Bahia, o Príncipe Regente abriu os portos às nações amigas e criou o curso de Medicina e Cirurgia junto ao Real Hospital Militar. Seguem-se os eventos: chegada em 22 de janeiro, abertura dos portos em 28 de janeiro e criação do curso médico em 18 de fevereiro de 1808.

A ação realizadora atingiu os setores da economia, da política, da agricultura com destaque para o ensino. Cursos foram criados em área diversas que até então não existiam. Com o curso médico, iniciou-se um período novo para o ensino superior público, pois até então só havia o ensino religioso. A propósito, Luiz Antônio Cunha (1986, p. 67) ao analisar o ensino superior no Império (1822 a 1889), observou que em 1808 emergia o Estado Nacional e houve necessidade de se mudar o ensino superior que vinha do período colonial. Criaram-se “cursos e academias destinados a formar burocratas para o Estado e especialistas na produção de bens simbólicos, como subproduto, formar profissionais liberais.“ Cursos que preparavam os funcionário públicos com as Academias Militar e de Marinha e cursos de medicina, cirurgia, matemática, agricultura e outros. Observa Cunha (p.76) que o núcleo do ensino superior nasceu com D. João VI e edificou-se o que se tem até os nossos dias: “O ensino superior atual nasceu, assim, junto com o Estado Nacional, gerado por ele e para cumprir, predominantemente, as funções próprias deste”. Introduziram-se modificações, com D. João VI passamos à secularização com ensino público. Em Portugal, até a época de Pombal, e no Brasil, até a vinda da corte, o ensino era público e religioso. (CUNHA, 1986, p.79).

Do ensino médico do tempo do regente D. João, depois com o ensino jurídico já no Brasil independente, originou-se o ensino superior por ordem de faculdades. Os principais tipos de ensino foram o médico, seguidos do militar e profissional, das aulas e cursos isolados e das instituições culturais.
Ensino médico na Bahia e no Rio de Janeiro
Parte da esquadra que trazia o Príncipe Regente aportou em Salvador da Bahia em 22 de janeiro de 1808. Oliveira Lima (1945, p. 250) afirmou que: “A transladação da corte rasgou logo novos horizontes ao ensino. Fundou-se no Real Hospital Militar da Bahia uma aula de cirurgia e outra no Hospital Militar do Rio [...]” Deve-se ao pernambucano Dr. José Corrêa Picanço a iniciativa da criação do ensino médico, no Brasil. Depois dos estudos em Lisboa, foi para Paris completar a sua formação em medicina, regressando a Portugal foi nomeado professor de anatomia e cirurgia na Universidade de Coimbra. Alcançou o posto de primeiro cirurgião da casa real e cirurgião-mor de todo o reino. É nessa dupla condição que acompanhou o Príncipe na viagem ao Brasil e sugeriu a criação do curso de cirurgia na passagem pela Bahia. Essa é a origem do Aviso de 18 de fevereiro de 1808, que cria o curso de cirurgia e de medicina:
O Príncipe regente anuindo à proposta que lhe fez o doutor José Corrêa Picanço, cirurgião-mor e do seu Conselho, sobre a necessidade que havia de uma escola de cirurgia no Hospital Real desta cidade (Bahia), para instrução dos que se destinam ao exercício desta arte, tem cometido ao sobredito cirurgião-mor a escolha dos professores, que não só ensinam a cirurgia propriamente, mas a anatomia, bem essencial dela, e a arte obstetrícia tão útil como necessária. O que participo a V. Exa. Por ordem do mesmo Senhor, para que assim o tenha entendido e contribua para tudo o que fez promover este importante estabelecimento Deus guarde a V. Exa.
Até então só existiam uns poucos médicos nas principais cidades do litoral. Havia, sim, práticos, curandeiros, barbeiros e sangradores ignorantes de anatomia e patologia. O boticário aviava receitas em velhos formulários de mais de século. Eram pouquíssimos os formados em medicina, por exemplo, a Capitania de São Paulo, em 1808, contava somente com dois diplomados no exercício de médico.

O curso foi instituído no Real Hospital Militar da Bahia e outro similar foi também criado em idêntico hospital na cidade do Rio de Janeiro, precisamente com instalação da corte. Considerou-se a necessidade de formação de médicos militares em um tempo de guerra com Napoleão a bater-se em toda a Europa. Com a mesma motivação bélica foram criadas em seguida as academias militares.

Para o funcionamento dos cursos foram baixadas as instruções pelo cirurgião-mor Dr. Picanço (MOACYR, 1936, p. 33-34) a começar pela escolha dos professores para o ensino não somente da cirurgia e anatomia como também da arte obstetrícia. O professor deveria anotar a matrícula dos seus participantes. A língua francesa era uma das condições de freqüência. As aulas teóricas e práticas seriam ministradas no próprio Hospital Militar, em especial, em suas enfermarias. Determinavam-se o horário das preleções e os dias da semana para as argüições com freqüência obrigatória. O compêndio de cirurgia a ser seguido era o de M. de la Fay, utilizado na Europa, tido como o mais completo. O curso de cirurgia tinha a duração de quatro anos. Com tais instruções os cursos cresceram e foram se completando com mais disciplinas. Para Anatomia foi nomeado o professor Joaquim da Rocha Mazaren, que incluía ligações, portes e operações de cirurgias.

Para o Hospital Real Militar do Rio de Janeiro, foi designado para ensinar Anatomia o cirurgião-mor de Angola Joaquim José Marques. Visualizando a formação de novos professores, escolheram-se três dos melhores estudantes de cirurgia para fazer seus estudos na cidade de Edimburgo, na Escócia, e depois passarem para a Londres, ficando sob a inspeção do embaixador português.

O ensino recém criado passou a ser organizado segundo a direção do doutor Manoel Luiz Álvares de Azevedo, baiano de nascimento, cirurgião-mor do Exército e da Armada, formado em Coimbra, diretor do ensino médico no Brasil. Em 1815, o curso da Bahia completou-se à semelhança do existente na Corte. Para tanto agregou-se uma cadeira de Química regida pelo professor de Coimbra Sebastião Navarro de Andrade, juntando-se ao programa anterior que incluía Anatomia, Fisiologia, Farmacologia, Higiene, Patologia, Terapêutica, Operações e Obstetrícia (OLIVEIRA LIMA, 1954, p.252). Uma terceira escola de medicina foi prometida ao Maranhão por carta régia de 1815, mas nunca chegou a ser estabelecida.

Quanto ao currículo, os dois cursos de medicina passaram por uma organização conforme o plano do doutor Vicente Navarro de Andrade, estabelecendo as matérias do curso médico por ano de estudos: primeiro, Anatomia e Fisiologia; segundo, Patologia Geral, Terapêutica, Semiótica, Higiene; terceiro, explicação dos sistemas de História Natural, Botânica Médica, Farmácia; quarto, Patologia Médica Especial; quinto, Clínica, Medicina Legal, História de Medicina. Para complementar o curso médico, foram previstas operações cirúrgicas, arte obstetrícia e clínica interna, O plano do doutor Navarro de Andrade prescrevia uma sociedade médico-cirúrgica, no Rio de Janeiro. Outro plano foi apresentado ao ministro Conde da Barca pelo general Francisco Borja Garção Stokler, concebido por graus de ensino, mas não foi posto em prática.

O curso de cirurgia mudou-se do Hospital Militar para o hospital da Santa Casa de Misericórdia da Bahia.
Motivação bélica dos cursos instituídos
Na organização de 1815, reformou-se o curso médico do Rio de Janeiro e da Bahia ficando complementadas as disciplinas, quando se estabeleceu a cadeira de Farmácia. O curso foi sucessivamente reformado até adquirir a forma de Academia Médico-Cirúrgica, nas duas referidas cidades. No Rio de Janeiro, começou pela cadeira de Anatomia, no Hospital Militar, em 2 de abril de 1808, mas foi somente em 5 de novembro que se criou a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica (NISKIER, 1989, p.83-84).

O doutor José Lino Coutinho (SANTOS, 2005, p.154), herói da Independência e prestigiado médico do Imperador Dom Pedro I, idealizou a reforma do chamado Colégio Médico-Cirúrgico. As suas idéias foram levadas à Assembléia Geral e transformadas em lei no ano de 1832. Recebida a denominação de Faculdade de Medicina, tanto a da Bahia como a do Rio de Janeiro, a congregação teve mais autonomia. A Faculdade passou a contar com catorze cadeiras e a duração do curso alcançou seis anos. Lino Coutinho foi nomeado o seu primeiro diretor, na Bahia.

O curso criado pelo Príncipe Regente, em 1808, tornou-se faculdade, sofreu sucessivas reformas, no século XIX e no seguinte. Em 1946, a Faculdade de Medicina liderou o processo de criação da Universidade da Bahia (SANTOS, 2005, p.154).

A criação do ensino superior público de Medicina, ainda na Bahia e no Rio de Janeiro, foi uma das primeiras iniciativas do Príncipe Regente na área da educação. Seguiram-se a criação das Academias Militar e de Marinha, escolas primárias, aulas e cursos profissionais isolados. Percebe-se, claramente, a motivação militar na criação de cursos de cirurgia e medicina em hospitais militares em um período marcado pelas guerras napoleônicas.


O ensino militar e a Academia de Marinha
Conforme a mesma necessidade bélica do conturbado início do século XIX, pelas campanhas napoleônicas, especialmente pela guerra peninsular (MALAFAIA, 2007) objetivou-se dotar o Estado brasileiro de instituições indispensáveis ao ensino militar visando-se à segurança. Um segundo tipo de ensino vai receber atenção direta do Príncipe Regente é o militar.

Conforme determinação do ministro Conde de Linhares, o cuidado com a integração territorial criou uma Academia de Marinha semelhante àquela fundada em Lisboa. Em 1808, instalou-se a Academia de Marinha nas hospedarias do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, com todos os instrumentos, livros, máquinas, cartas e planos vindos da Academia de Lisboa. No ano seguinte, 1809, instalou-se o Observatório Astronômico para uso dos guardas-marinhas, informa Oliveira Lima (1945, p. 254). O currículo de estudos incluía conhecimentos de Matemática, Geometria e as disciplinas náuticas como: Desenho de Marinha e Rudimentos sobre Construção dos Navios, Navegação Teórica e Prática, Instrumentos de Tática Naval. Em 1812, declara-se obrigatório o exame de desenho para completar o curso na Academia de Marinha.

Antes da vinda do Príncipe Regente, o Rio de Janeiro dispunha apenas de uma aula de fortificação, no Arsenal de Guerra e uma aula para preparo dos soldados e oficiais de linha e milícias. Uma vez estabelecida a corte, D. João faz saber que: “tendo em consideração ao muito que interessa ao meu real serviço, ao bem do público, e à defesa e segurança de meus vastos domínios que se estabeleça no Brasil e na minha atual Corte e cidade do Rio de Janeiro, um Curso regular das ciências exatas e de observação, assim como de todas aquelas que são aplicações das mesmas aos estudos militares e práticos”. (MOACYR, 1936, p. 46)
A Real Academia Militar do Rio de Janeiro
Objetivou-se a formação de hábeis oficiais de artilharia, de engenharia, geógrafos e topógrafos com emprego administrativo nas minas, nos caminhos, portos, canais, pontes e calçadas, estabelecendo, dessa maneira, a Academia Real Militar. O curso foi dividido por anos, com previsão dos manuais e dos seus respectivos autores acrescida da cadeira de Química e de Língua Inglesa. A Academia Militar foi instalada no Largo de São Francisco de Paula, no Rio de Janeiro, no local onde se construía a Catedral da Sé, complementa Primitivo Moacyr (1936).

Os professores tinham os mesmos direitos e privilégios dos lentes da Universidade de Coimbra. Pelo que informou Oliveira Lima (1945, p.255) o ensino das matemáticas era muito exigido. A organização curricular previa, no primeiro ano, Álgebra, Análise Geométrica, Trigonometria Retilínea e Desenho de Figura; no segundo, Álgebra, Cálculo Diferencial e Integral e Geometria Descritiva; no terceiro, Mecânica, Hidráulica e Desenho de Paisagem; no quarto, Trigonometria Esférica, Ótica, Astronomia, Geodésia e Física; no quinto, Tática, Fortificação de Campanha, Química, Filosofia, Química e Desenho Militar; no sexto, entravam Ataque e Defesa das Praças e Mineralogia; no sétimo, Artilharia, Zoologia, Desenhos e Máquinas de Guerra e outras matérias. Tudo isso e mais os exercícios práticos, línguas francesa e inglesa e esgrima.

Em 1858, transformou-se em Escola Central e por fim, em 1874, em Escola Politécnica, tornando-se um dos núcleos de estudos de engenharia e de tecnologia do país no século XX. A Escola Politécnica foi integrada à Universidade do Brasil criada em 1920.
Aspectos do Ensino Profissional
Algumas iniciativas contemplaram o ensino profissional. Ainda na Bahia, por decreto de 23 de fevereiro de 1808, instituiu-se a cadeira de Ciência Econômica, a ser ministrada, no Rio de Janeiro, por José da Silva Lisboa, futuro Visconde de Cairu, seguidor do liberalismo clássico de Adam Smith e perito na disciplina econômica.

Em 1810, D. Marcus de Noronha e Brito, 8º Conde dos Arcos, governador da Capitania da Bahia, abriu em Salvador a Aula de Comércio, onde se formariam os guarda-livros e criou cadeiras de instrução pública no interior (NUNES. Apud MATTOS, 1962, p.46).

Uma preocupação maior induziu a criação do Curso de Agricultura na Bahia, que era a segunda cidade em importância, exportadora de açúcar, fumo e outros produtos coloniais pelo seu movimentado porto. O objetivo era aumentar a opulência e a prosperidade, utilizando-se a fertilidade do solo. A agricultura quando bem entendida e praticada era considerada como a primeira fonte de abundância e de riqueza nacional. O Conde dos Arcos estabeleceu o curso para instrução pública dos habitantes dessa capitania e que servisse de normas para as demais capitanias. O ato de criação do curso fez menção ao conhecimento que Domingos Borges de Barros havia adquirido na Universidade de Coimbra e nas suas longas viagens a ser nomeado para diretor do Jardim Botânico e professor de agricultura. O ato mencionou o cultivo de plantas indígenas, de que se possa tirar proveito, como plantas exóticas ou plantas já testadas como a cochonilha, o linho, o cânhamo, as amoreiras e as especiarias da Ásia. Uma ligação muito estreita estabeleceu-se entre o Curso de Agricultura e o Jardim Botânico na Bahia (MOACYR, 1936, v.1, p.52-57).

Na corte, instalou-se, igualmente, a cadeira de Botânica e Agricultura. Uma aula de Desenho foi também criada na Bahia, ainda na gestão do oitavo Conde dos Arcos, D. Marcus de Noronha e Brito (COSTA, 1997).



Aulas régias, música e ensino religioso
Primitivo Moacyr (1936) relacionou várias outras atividades de instrução no Império, fornecendo subsídios para a história da educação. Considere-se o provimento de cadeiras necessárias ”a bem do serviço e muito conveniente ao aumento e prosperidade da literatura e educação nacional, dar providências para o provimento dos professores, para as diversas cadeiras do ensino público que se acham estabelecidas” (1936, p.59). Prosseguiu o governo na criação das aulas régias, instituídas no tempo do Marquês de Pombal, com aumento dos pedidos de aulas de primeiras letras (CARDOSO, 2007, p.217).

Provida a cadeira de Geometria, mediante requerimento de um certo João Batista, foi ouvida a Mesa do Desembargo do Paço. A cadeira abrangia Aritmética, Álgebra e Trigonometria, considerando o ensino da Matemática o mais necessário a todas as classes de pessoas. Nas especificações, as matérias são distribuídas por ano, prevendo-se o uso das tábuas de Price. Previu-se o uso da língua francesa e inglesa como aquelas que entre as línguas vivas têm mais utilidade e uso. Dessa maneira, para aumento da prosperidade da instrução pública, criou-se na Corte uma cadeira de língua francesa e outra da língua inglesa, em 1809.

Para a Bahia foi uma Cadeira de Música, justificou-se conforme atestou o Conde dos Arcos, pela decadência a que chegou o seu ensino, tão cultivada pelos povos civilizados em todas as idades e tão necessária ao decoro e esplendor com que se deve celebrar o culto divino. Mas a carta do rei foi dirigida ao Conde da Palma, novo governador e capitão geral da Capitania da Bahia, que substituiu o conde dos Arcos somente chegando em 30 de março de 1818 (MOACYR, 1936, p.62).

Em 1817, criou-se a Cadeira de Química na Bahia: “que se ensinem os princípios práticos da química, e seus diferentes ramos e aplicados às artes e à farmácia” (MOACYR, 1932, p. 63). Regulada pelas instruções assinadas pelo Conde da Barca, sendo responsável pelo ensino o doutor Navarro de Andrade, nomeado lente, conservando as honras dos mestres da Universidade de Coimbra e pensão que recebeu pelo cofre da mesma Universidade. As instruções diziam como deveriam ser ensinada a teoria química e o uso de compêndio de sua escolha a serem aplicadas à essa interessante ciência às diferentes artes e ramos da indústria. Os alunos adquiririam a agilidade e perícia na prática das operações químicas tudo quanto fossem relativo à farmácia, agricultura, tinturaria, manufatura do açúcar e extração não somente das substâncias salinas, mas também dos óleos, betumes, resinas e gomas. O ensino de Química se ligava ao da Farmácia. Era a Química obrigatória aos que se destinavam à cirurgia, medicina e ao ofício de boticário. As instruções foram emitidas em 28 de janeiro de 1817 e assinadas pelo Conde da Barca.

Compreendeu-se a criação de escolas para a Bahia pela sua importância política e econômica como capitania e depois como província e pela eficiência da administração do Conde dos Arcos, conforme demonstrou Antonietta d’Aguiar Nunes (1997, 2003, 2004), no seu estudo sobre a sua política educacional: vinte e cinco cadeiras de primeiras letras, onze de gramática latina, algumas criadas e outras existentes, aulas maiores e autorização para abrir o Seminário Arquiepiscopal.

Em Recife, o bispo Azeredo Coutinho estruturou o ensino de Filosofia no seminário de estudos secundários e eclesiásticos. Um colégio de meninas foi estabelecido com legado do deão da Catedral. Quase um sistema de escolas primárias abriu-se em 1814 (OLIVEIRA LIMA, 1845, p.256-257). Dando continuidade à criação de aulas, Desenho e História foram destinadas à Vila Rica, juntamente com Filosofia e Retórica em Paracatu, em Minas Gerais informa Primitivo Moacyr (1936, p.67).


Educação e cultura
A Real Academia de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura Civil originou-se da tão discutida, hoje, missão artística francesa, conforme entendimentos mantidos pelo Conde da Barca e a França, por intermédio do Marquês de Marialva, embaixador em Paris.

Além de cursos e aulas, criou-se a Biblioteca Pública com os livros, instrumentos de Física e de Matemática que vieram de Lisboa, da biblioteca da Ajuda. Em 1811, o conde dos Arcos, por seu turno, instalou a Biblioteca Pública na Bahia.

Criou-se um Museu para propagação das ciências naturais. Para tanto, foi adquirido o gabinete de história natural do barão Oheim, com uma bela coleção mineralógica. O Museu ocupou a casa do José Rodrigues Pereira de Almeida, no Campo de Santana. Dele proveio o atual Museu Nacional. O Jardim Botânico foi instituído para as plantas exóticas e plantas do Brasil. A criação da Imprensa Régia possibilitou a impressão de livros didáticos, de moral, de filosofia aristotélica, obras poéticas e publicações de José Silva Lisboa, Observações comerciais e econômicas (1808), Memórias do Rio de Janeiro (1820), do monsenhor Pizardo (OLIVEIRA LIMA, 1945, p. 260).

A cidade do Rio de Janeiro, sede da Corte, recebeu a maior atenção com as academias militares, cadeiras de Botânica, Matemática e Música. O conjunto da obra educativa foi formado por academias, cursos e aulas régias, a exemplo da aula de Economia. Além do apoio na Biblioteca Pública, Museu, Jardim Botânico

Na síntese de Fernando de Azevedo (1964, p. 562) deixa claro as inovações:
Sobre as ruínas do velho sistema colonial, limitou-se D. João VI a criar escolas especiais, montadas com o fim de satisfazer o mais depressa possível e com menos despesas a tal ou qual necessidade do meio a que se transportou a corte portuguesa. Era preciso, antes de mais nada, prover à defesa militar da Colônia e formar para isso oficiais e engenheiros, civis e militares: duas escolas vieram atender a essa necessidade fundamental, criando-se em 1808 a Academia de Marinha e,em 1810, a Academia Real Militar, com oito anos de cursos. Eram necessários médicos e cirurgiões para o Exército e a Marinha: criaram-se então, em 1808, na Bahia, o curso de cirurgia que se instalou no Hospital Militar e, no Rio de Janeiro, os cursos de anatomia e cirurgia a que acrescentaram, em 1809, os de medicina, e que, ampliados em 1813, constituíram com os da Bahia, equiparados aos do Rio, as origens do ensino médico no Brasil.
No final de suas considerações sobre a emancipação intelectual promovida por D. João VI, Oliveira Lima (1945, p. 262) ponderou, criticamente, que: “Somente gorou o projeto de uma Universidade – projeto acariciado pelo Rei, que chegou a convidar José Bonifácio para diretor, mas não igualmente favorecido por todos os seus ministros [...]”. Interpreta como uma pertinaz oposição que receava desaparecer um dos fundamentos em que se assentava a superioridade da metrópole. Nesse mesmo sentido, foram os insistentes pedidos do Senado da Câmara de Salvador, a partir de 10 de outubro de 1809 com compromisso de manutenção de contribuintes para fundo de auxílio à Universidade (SILVA, 1956, p. 125-126). Nenhuma das duas iniciativas obteve êxito. A Universidade só veria um século depois, em 1920.
Referências
AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. 4. ed. ver. e ampl. São Paulo: Melhoramentos, 1964. Obras completas v. 13.

BOAVENTURA, Edivaldo M. Origem e formação do sistema estadual de educação superior da Bahia -1968-1991. Revista da Faeeba: Educação e Contemporaneidade. Salvador, v. 14, n. 24, p. 155-173, p. 155-173. jul./dez., 2005.

______. O Estado e a educação superior na Bahia. In: CONGRESSO DAS ACADEMIAS IBERO-AMERICANAS DE HISTÓRIA, 10, 2006, Lisboa.

CALMON, Pedro. O rei do Brasil: a vida de D. João VI. 2. ed. aum. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1943. Brasiliana

______. História do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,1963. v. 4, séculos 18 e 19.

______. História da civilização brasileira. Brasília: Senado Federal, 2002. Biblioteca Básica Brasileira.

CARDOSO, Tereza Fachada Levy. As bases da educação: as aulas régias, a Academia Militar, as aulas de Anatomia. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, a.168, n.436, p. 217- 240, jul./set. 2007.

COSTA, Marcus de Noronha da. A administração civil, política, militar e econômica do 8º. Conde dos Arcos na Bahia. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Salvador, n. 93, p. 91-137, jan./dez. 1997.

CUNHA, Luiz Antônio. A universidade temporã. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil São Paulo: Planeta, 2007.

LIMA, Oliveira. Dom João VI no Brasil, 1808-1821. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945.

MALAFAIA, Eurico Brandão de Ataíde. Antônio de Araújo de Azevedo, Conde da Barca, diplomata e estadista, 1787-1817. Braga: Arquivo Distrital de Braga/ Universidade do Minho, 2004

______. A guerra peninsular: da gênese ao seu termo – notas históricas. Braga: Arquivo Distrital de Braga/Universidade do Minho, 2007.

MOACYR, Primitivo. A instrução e o Império: subsídios para a história da educação do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1936. Brasiliana, série 5, n. 66.

NISKIER, Arnaldo. Educação brasileira: 500 anos de História, 1500-2000. São Paulo: Melhoramentos, 1989.

NUNES, Antonietta d’Aguiar. Educação na Bahia no século XX: algumas considerações. Salvador, Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, v. 93, p. 167, jan./dez. 1997.

______. O governo do 8º Conde dos Arcos (D. Marcos de Noronha e Brito) na Bahia (1810-1818) e sua política educacional (publicado no CD de Anais do VI Colóquio do Museu Pedagógico da UESB em Vitória da Conquista, realizado de 27 a 29 de novembro de 2006) e encaminhado para publicação na Revista da FACED/UFBA

______. A educação na Bahia durante os governos de D. Maria I e de D. João, seu filho (1777-1821), Aracaju, Revista do Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe, v. 7, p. 37-50, dez.2003.

______. A formação universitária na Bahia desde os tempos coloniais. Salvador, 2006. Inédito

PEDREIRA, Jorge; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: o clemente. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2006.

SILVA, Alberto. Raízes históricas da Universidade da Bahia. Salvador: Universidade da Bahia, 1956.

TAVARES, Luiz Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. São Paulo: UNESP, Salvador: Edufba, 2001.

VER HUELL, Quirijn Maurits Rudolph. Minha primeira viagem marítima: 1807-1810. Tradução de Jan Maurício van Holthe. Salvador: Edufba, 2007

WILCKEN, Patrick. Império à deriva: a corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821. Ed. 5. Porto: Civilização, 2006.



*. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia, docente da Universidade Salvador (Unifacs); Mestre e Ph.D. em Administração Educacional pela The Pennsylvania State University, Docente Livre e Doutor em Direito pela Ufba. Dentre suas últimas publicações encontram-se: Ufba – trajetória de uma universidade 1946-1996 (1999); Metodologia da Pesquisa: monografia, dissertação e tese (2004); O cordel da vida (2007). Endereço para correspondência: Rua Dr. José Carlos, 99, apto, 801, Ed. Parque das Mangueiras, Acupe de Brotas, 40290-030 Salvador-Bahia-Brasil. Site: www.edivaldo.pro.br E-mail: edivaldo@grupoatarde.com.br edivaldoboaventura@terra.com.br Telefone +55 071 3276.1242, 3356.4129




©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal