A dimensão epistemológica do monitoramento on-line: para um estudo crítico das técnicas de pesquisa na internet 1



Baixar 1,08 Mb.
Página1/2
Encontro30.07.2018
Tamanho1,08 Mb.
  1   2

Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação


XXI Encontro Anual da Compós, Universidade Federal de Juiz de Fora, 12 a 15 de junho de 2012




  1. A dimensão epistemológica do monitoramento on-line:

  2. para um estudo crítico das técnicas de pesquisa na internet 1

Maria Immacolata Vassallo de Lopes2

Claudia Freire 3
Resumo: Aspectos epistemológicos vinculados a métodos, técnicas e ferramentas de monitoramento on-line da audiência de televisão no Brasil. O artigo apresenta uma reflexão sobre as ferramentas, métricas e monitoramento dos conteúdos gerados pelos usuários e fãs nas redes sociais acerca de ficções televisivas. São analisadas recentes publicações que propõem uma revisão crítica apontando principalmente a ausência de reflexão epistemológica acerca do uso de métodos que são oriundos de diferentes campos científicos. Defende-se a necessidade de incorporar o nível epistemológico dos procedimentos e dos instrumentos técnicos nos estudos de internet. A título de ilustração, analisa-se a aplicação de softwares sobre o conteúdo gerado por comunidades de fãs de três telenovelas brasileiras nas redes sociais.

Palavras-chave: crítica epistemológica, técnicas de pesquisa, monitoramento de

redes sociais, conteúdo gerado pelos usuários, estudo das métricas, estudos de

fãs.

      1. 1. Introdução: A revisão dos métodos da pesquisa on-line

O campo de estudos denominado Estudos de Internet ou Internet Studies (SILVER, 2004) propõe investigações acerca dos aspectos culturais, sociais e políticos envolvidos nos contextos histórico e econômico de uma sociedade que se comunica em rede. Desde meados dos anos 2000, o que há de mais característico no contexto de rede é a possibilidade de produção, organização e publicação de conteúdos por meio de formas socializantes da comunicação (CASTELLS, 2007, 2009), sobretudo nas redes sociais.

Essa forma de organização permeada pelas tecnologias da informação e comunicação, principalmente a internet, traz consigo potência de ação e de interação capaz de gerar intervenções descentralizadoras nos âmbitos da cultura, da informação, da economia, etc. De maneira que não é bastante afirmar que estamos em rede, mas que essa rede é geradora de conteúdo próprio, auto-organizadora e auto-selecionadora em um fluxo de comunicação de muitos para muitos.

Após mais de uma década de realização de pesquisas sobre estudos de internet, entramos em um período de revisão das práticas de pesquisa nesse campo. Recentes publicações estão propondo revisões principalmente devido à falta da reflexão crítica sobre métodos e ferramentas utilizados para pesquisar a internet.

No campo das humanidades, Bourdieu (1994,1999) é talvez o autor que mais destacou em sua obra a importância da reflexividade sobre os métodos utilizados na observação e coleta de dados nas pesquisas empíricas. Nossa adesão a uma concepção de epistemologia inscrita nas práticas de pesquisa levou-nos a defini-la como um nível ou instância metodológica presente em toda pesquisa 4. O frágil domínio metodológico nas pesquisas empíricas de Comunicação reflete-se imediatamente no descaso ou na ausência da crítica sobre as técnicas de pesquisa empregadas. A ilusão de que sejam epistemologicamente neutras tanto as técnicas como os procedimentos de coleta de dados leva facilmente aos automatismos com que são elaborados. Entretanto, não existe coleta de dados sem pressupostos teóricos, ou seja, na feliz expressão de Bourdieu , as técnicas são teorias em ato.

A medida e os instrumentos de medição e, de forma geral, todas as operações da prática da pesquisa, desde a elaboração dos questionários e a codificação até a análise estatística, constituem outras tantas teorias em ato, enquanto procedimentos de construção, conscientes ou inconscientes, dos fatos e das relações entre os mesmos (1999, p.53).


Ao designar por metodologia, como acontece frequentemente, o que não passa de decálogos de preceitos técnicos ou práticas automatizadas, escamoteia-se a questão metodológica propriamente dita que é a escolha entre as técnicas de pesquisa (quantitativas, qualitativas, combinações) com referência à significação epistemológica que elas carregam. Entendidas as técnicas como instrumentos neutros, naturalizados, facilmente intercambiáveis, a reflexividade sobre elas é débil exatamente por envolverem operações técnicas, isto é, supostamente “não valorativas”.

Como não podia deixar de acontecer, a necessidade de reflexão epistemológica sobre métodos e técnicas reproduz-se no campo dos estudos de internet. Poucos são os textos sobre o estado da questão, entre os quais destacamos os de Jones (1999) e de Markham e Baym (2009), onde são relatados casos bem sucedidos de métodos de pesquisa de audiência incorporados aos estudos de internet. Chama atenção nessas duas coletâneas tanto os relatos das diferentes estratégias de combinação de métodos qualitativos e quantitativos, e das análises de dados on-line e off-line, quanto da variedade dos paradigmas disciplinares envolvidos nas pesquisas como comunicação, engenharia, antropologia, estudos culturais, psicologia, economia política, análise do discurso e estudos de linguagem. Como contribuições particulares à metodologia da pesquisa de internet estão os trabalhos de Hine (2005, 2009), Lopes (2011), Herring (2001). Warschauer e Grimes (2008), Fragoso, Recuero e Amaral (2011), Recuero (2009) e Campanella (2010).

Nos últimos anos, em conjunto com a academia (ou para além dela), houve um notável desenvolvimento de inúmeras técnicas pelo mercado e por fundações de software livre. A questão epistemológica embutida na construção e uso de métodos e sua influência na percepção e visualização dos objetos de estudo on-line, tem estado permanentemente latente, porém bastante ignorada.

A proposta do presente trabalho é contribuir aos estudos de temática epistemológica-metodológica sobre a pesquisa on-line propondo uma reflexão crítica focada sobre as próprias ferramentas utilizadas na construção da Análise de Redes Sociais (ARS). São elas que permitem observar conteúdos on-line que passam a ser vistos como “trabalho de texto” dos usuários ou fãs, no nosso caso de telenovelas, além de utilizar bancos de dados, sites, links e plataformas (BOOTH, 2010).


2. Estudos de recepção on-line e estudos de fãs
Estudos acadêmicos de recepção da televisão estão progressivamente migrando para a investigação focada na participação, isto é, nas práticas e processos de envolvimento interativo com as novas mídias a fim de gerar análises acerca do "Conteúdo Gerado pelo Usuário" (CGU).5 A criatividade dos fãs e suas formas de interatividade constituem outros focos das pesquisas.

Entre nós, ainda temos necessidade de esclarecer e de aprofundar as categorias empíricas e teóricas de fan (traduzida por fã) e de fandom (traduzida por “comunidade de fãs”). Além de estarem quase ausentes na pesquisa de comunicação brasileira, temos que dialogar criticamente com os abundantes estudos internacionais sobre fãs, muito diversificados teórica e metodologicamente.

Bielby, Harrington e Bielby (1999, p. 35) fornecem uma definição conceitual bastante sucinta de "fã": " ‘Ver’ televisão é um comportamento relativamente privado. Ser um 'fã', no entanto, é participar de uma série de atividades que se estendem para além do ato privado de ver e reflete um maior envolvimento emocional reforçado com a narrativa da televisão”. Talvez algumas das atividades mais amplas e comuns das pessoas envolvidas em comunidades de fãs sejam as que combinam um diversificado e entusiasmado consumo de textos oficiais e de spin-offs com as suas próprias práticas criativas e interpretativas.

O conjunto dos estudos acadêmicos denominados Digital Fandom ou On-line Fandom, está inserido dentro do campo dos Estudos de Internet e de Novas Mídias(Internet Studies e New Media Studies) e tem examinado o fenômeno dos fãs on-line desde o início dos anos 2000. O diferencial do campo está no ponto de vista da observação através do qual pesquisadores passaram progressivamente a compreender os fãs pelo seu trabalho e pelo engajamento com objetos on-line como uma comunidade coletiva e não como indivíduos que compõem uma audiência. A identificação desses dois mecanismos, a prática e a adesão, é importante, pois caracteriza, ao mesmo tempo, o ambiente e as possibilidades em que o “culto” e a interação dos fãs acontece. Outra característica relevante é a forma como os fãs organizam e auto-selecionam seus conteúdos favoritos, discutindo sobre os objetos de mídia existentes ao mesmo tempo em que criam conteúdo adicional sobre esses objetos. Ao realizar esse movimento, os fãs não apenas revisam a programação favorita, mas remixam, e reimaginam o que poderia ter acontecido . É o que mostram, entre outros, os trabalhos de Livingstone (2004), Lessig (2008), Shirky (2008, 2010) e Booth (2010).

Os estudos acerca das comunidades de fãs de programas televisivos geralmente têm tido como objeto programas específicos ou determinados gêneros de televisão tais como telenovelas, séries, soap operas, ficção científica, como os de Tulloch e Jenkins (1995), Costello e Moore (2007); Baym et. al. (2007), Baym; Ledbetter (2008), Andrejevic (2008) e Campanella (2010).

Ao longo dos anos, os estudos de fãs desenvolveram-se focalizando vários aspectos e dimensões do fenômeno fandom. Alguns deles privilegiam a performance dos fãs e as ações de uns para com os outros, a exemplo de Lancaster (2001), enquanto outros têm como foco a interação entre a tecnologia e a prática das comunidades como Baym (2000). Jenkins (2008) e Hills (2002) preocuparam-se com as formas de criação de conteúdo dos fãs, os tipos de participação e de compartilhamento do conhecimento. Com destaque ao de Booth (2010) para quem observar os fãs não é considerá-los como algo novo, mas considerar suas interações do ponto de vista cultural e tecnológico, envolvendo novas formas de experimentar a subjetividade:

Fãs influenciam e são influenciados pela tecnologia não apenas como ferramentas, mas também como mecanismos necessários e catalisadores que propiciam novas maneiras de experimentar a subjetividade na vida cultural. Fãs são tecnologicamente alfabetizados e libertam a experiência da audiência através do conhecimento autoconsciente sobre tecnologia e mediação não apenas para criar, alterar, apropriar, aliciar, ou escrever, mas também para compartilhar, para experimentar em conjunto e fazerem-se vivos como comunidade. Fãs reescrevem não apenas os objetos de mídia existentes, mas também o estado dos estudos de mídia em si. (BOOTH, 2010, p. 39).
Também Scolari (2008) considera que o movimento de tecnicidade cognitiva e criativa dos novos narradores/receptores é menos assunto de aparatos que de operadores perceptivos e destrezas discursivas. Suas interpretações têm a capacidade de produzir textos transmidiáticos, "pois sua recepção produz uma infinita semiose social ao colocar em circulação os mais diferentes sentidos produzidos por seus narradores/receptores." (LOPES et al., 2009, p. 399).

O ponto crucial para o pesquisador das culturas de fãs on-line não é encontrar os locais de pesquisa (sites, comunidades no Facebook, seguidores no Twitter, canais no YouTube), mas desenvolver métodos cujo desafio é o de abarcar as numerosas e potenciais características típicas que podem ser decodificadas como expressões ou práticas culturais, oferecendo assim entendimentos únicos acerca de valores, normas, opiniões e expectativas e desejos para certos grupos de pessoas.



3. Problemáticas metodológicas na pesquisa de Conteúdo Gerado por Usuários

Uma primeira problemática metodológica posta por esse tipo de pesquisa é definir o que o conteúdo é em si. Diversificado, apresenta-se nas conversações em rede não apenas na forma textual, podendo incluir formas gráficas (desenhos, fotografias, gráficos, imagens, imagens trabalhadas), sonoras (músicas, remix, filmes caseiros com trilhas sonoras), e os mais diferentes suportes como vídeos, conversas, documentos (links, notícias comentadas, documentos para download), fotografias, fórmulas, expressões, dados de natureza geográfica, entre outros. Essa problemática, de origem semântica por envolver a própria natureza do conteúdo, tem obrigado muitos pesquisadores a definir o tipo de objeto a ser abordado em suas pesquisas sobre as redes sociais, enquadrando-o primeiramente através da figura da plataforma em que se apresenta na comunidade ou rede social. Dito de outra maneira, a definição inicial a partir da plataforma, obriga o pesquisador a registrar a ocorrência de diferentes qualidades semânticas do conteúdo publicado pelos usuários, sem contudo, adentrar na especificidade das literacias dos fãs, considerando apenas a quantidade de conteúdos no geral.

Uma segunda problemática metodológica das pesquisas de CGU é o Monitoramento de Redes Sociais ou Social Media Monitoring. O SMM é um método de observação quantitativa, de monitoramento de conteúdos gerados por usuários no Facebook, Twitter, YouTube, blogs e sites, que coleta conteúdos espontâneos dos usuários sobre os objetos da internet como marcas, produtos, serviços, temas, etc. Esse tipo de monitoramento é muito utilizado por empresas e instituições a fim de conhecer o que as pessoas estão dizendo e as opiniões em relação a marcas nas redes sociais. Geralmente, a coleta de dados e sua análise é feita automaticamente por meio de softwares que aceitam filtros com frases ou palavras-chave. Após a coleta dos dados, o software elabora relatórios automáticos quantitativos e qualitativos a partir de julgamentos de valor inerentes às palavras utilizadas pelos usuários. Esse tipo de métrica alia a técnica de análise de conteúdo de mensagens apresentada Bardin (2009), agrupando categorias comuns emergentes na conversação on-line e têm resolvido, de certa forma e com alguma velocidade, o tratamento de grande quantidade de dados coletados a respeito de determinada tag, assunto, tema e até mesmo perfis de usuários.

Em certas pesquisas quantitativas e qualitativas como as desenvolvidas por Krempel (2010), privilegia-se a denominada Análise de Redes Sociais (Social Networking Analysis) a partir da visualização de sistemas complexos, nos quais a descoberta de dados e temas publicados nas redes sociais permite realizar um mapeamento de temas e usuários ou “nós” através do qual pode se observar o que a rede fala sobre determinado assunto e como se expressa. Denúncias ou reclamações, elogios sobre uma marca, análise das necessidades do consumidor, análise do concorrente, identificação de influenciadores e defensores da marca e identificação do perfil do consumidor. As ferramentas mencionadas são usadas por agências de publicidade, bem como órgãos públicos para monitorar o conteúdo gerado na internet pelos usuários de produtos, serviços, marcas, personalidades e consumidores de maneira geral.



Por outro lado, há críticas sobre o monitoramento quantitativo de sites de redes sociais como as feitas por Branthwaite e Patterson (2011) quanto a: 1) controle e padronização das buscas para qualquer tipo de termo de pesquisa; 2) poucas similaridades entre os resultados positivos e negativos das classificações de mensagens quantitativas; 3) imprecisão da amostra e suas limitações. O esquema proposto pelos autores, e reproduzido abaixo, sugere a combinação de técnicas quantitativas (survey e monitoramento) e qualitativas (focus groups e semiótica) para a obtenção de resultados mais confiáveis acerca do conteúdo monitorado. Os autores chamam atenção para as características epistemológicas intrínsecas a essas ferramentas e os resultados das análises por elas oferecidos e enfatizam os benefícios de se combinar métodos quantitativos e análises qualitativas para testar os resultados obtidos por meio do monitoramento.





  1   2


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal