A despedida da Carolina



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A despedida da Carolina

Autor: Daniel Fiuza


04/062001


Era uma Tarde quente do mês de novembro de 1968, eu atravessava a pé a Praça José de Alencar. Logo que passei em frente ao teatro que tem o mesmo nome da praça, vi o tumulto na faculdade de odontologia, que era vizinha. Correria de estudantes, gritos, bombas de gás lacrimogêneo, um tumulto generalizado. Nunca tinha visto tantos policiais juntos, Uns montados em cavalos e outros a pés, mas todos muitos bem armados e com cassetetes enormes, coletes a prova de balas e vários cães. Um arsenal de guerra para lutar contra indefesos estudantes. Tentei sair fora da multidão, mas não deu tempo. Todos vieram correndo na minha direção, fui carregado pela turba. Apavorado tive que correr junto. Nesse momento uma bomba de efeito moral, tipo gás lacrimogêneo, caiu bem próxima de mim, senti náuseas, vomitei e meus olhos arderam e lagrimejaram. Lembro que entrei num prédio na Rua 24 de maio, que tinha um corredor tipo galeria, esse corredor dava para outra rua lateral. Várias pessoas também entraram nesse prédio, mas ninguém conseguiu sair, o prédio estava cercado. No meio de toda aquela gente Uma figura feminina me chamou atenção; uma bela jovem de cabelos longos encaracolados, um par de grandes olhos azuis, um narizinho delicado e arrebitado, num rosto de traços bem definidos. Fazia cinco anos que não via Carolina, a última vez que a vi, ela era quase uma criança, tinha um rostinho sapeca com bastantes características de criança, quase adolescente. Ainda tinha na lembrança nossa última noite juntos. Depois ela foi para o rio de janeiro. A família dela se mudou, a tia Odete também. Perdi completamente o contato com ela. O que nunca perdi foi o carinho que sentia por aquela menina, Uma pessoa que foi muito especial para mim. Ao me ver, Carolina tinha Um semblante cansado, quase triste. Mas de repente, abriu um grande sorriso, mostrando sua Linda arcada dentaria de dentes brancos e perfeitos; Carolina tinha um dos mais belos sorrisos que Conheci. – Danny é você? Ela perguntou. – Carol, que maravilhosa surpresa te encontrar! Respondi. Me contendo de felicidade. Os policiais finalmente desfizeram o cerco e foram embora. Com o caminho Livre sem perigo, todos puderam sair sem problema. Eu e Carolina tomamos um ônibus com destino à praia do futuro, naquela época, era uma praia quase deserta nos dias de semana. Durante o trajeto do ônibus, a gente quase não se falou, Carolina apenas pegou minha mão e deitou sua cabeça no meu ombro, como se quisesse curti aquele momento mágico. Carolina me contou que se envolveu com o seu professor de química. E foi através dele que ela passou a militância, me contou também que chegou a engravidar, mas devido à vida atribulada que levava, Acabou por perder o neném. Lágrimas rolavam na face dela. Ela me falou ainda que o homem que a colocou nessa vida, também já tinha morrido, ele foi capturado pelas forças armadas e nunca mais foi visto. Carolina estava triste, tinha o rosto envelhecido. Não queria falar de política, nem do movimento, nada... Só queria curtir aquele momento. O dia já tinha ido embora, a escuridão tomou conta da vida, a praia havia sumido, só se escutava o barulho da maré quebrando na areia. Não sei quanto tempo ficamos abraçados e calados. Ela quebrou o doce encanto daquele momento. – Quero ser amada por você, aqui na praia. – Eu também quero te amar. Falei baixinho, como se alguém pudesse nos escutar. Eu e Carolina passamos aquela noite toda na praia, nos amando, sentindo o vento frio da noite acariciar nossos corpos nus. Mais nada, Nem ninguém perturbou aquele encontro. Acordamos sujos de areia e fomos tomar banho no mar. O dia estava clareando e os pescadores começavam a passar. Esperamos o primeiro ônibus para a cidade e o pegamos. Fizemos um pequeno lanche num bar e depois saímos caminhando de mãos dadas. De repente estávamos no mesmo lugar em que nos encontramos, ou seja, na Praça José de Alencar. Carolina olhou para mim e disse: - Por favor, me esqueça! Nunca mais me procure. – Quero te vê de novo. Falei. – É melhor não, você corre perigo. - Se me pegarem junto com você, eles nem vão querer saber se é ou não do movimento, eles prendem os dois. Carolina havia me dito que já era fichada no rio de janeiro, e provavelmente eles já deveriam saber que ela estava em fortaleza. Pediu encarecidamente para que eu a esquecesse, se um dia, quem sabe! Ela Sobrevivesse a tudo isso, e o país voltasse à normalidade, ela mesma me procuraria. Carolina Me deu um longo beijo de despedida, e me disse: - Sempre te amei, vou te amar para sempre. E saiu rápido, sem olhar pra trás. O sol já estava bem alto quando chegue a casa, naquela época eu morava sozinho em Fortaleza. Estava louco para tomar um banho e tirar toda aquela areia e sal. Quando estava me enxugando é que me dei conta que estava a quase vinte e quatro horas fora, Sem dar nenhuma satisfação a firma em que eu trabalhava. Três meses haviam se passado daquele encontro, nunca mais tinha tido notícias de Carolina. Estava eu tomando um lanche, numa lanchonete perto de onde eu trabalhava, quando entrou Delano, meu velho amigo de infância, irmão de Carolina. Depois das devidas recordações serem contadas, veio a inevitável pergunta: – Você tem notícias da Carolina? Perguntei.
–Então você não sabe? Ele disse.
–Não sabe o que? Indaguei aflito.
–Ela foi presa... Ninguém mais sabe do paradeiro dela.
Depois daquele encontro, nunca mais eu soube notícias da Carolina. Para a sua família ela estava morta. Mesmo porque; eles nem gostavam de falar no assunto. Muito antes de desaparecer, Carolina já estava morta para eles.



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