A colaboração científica como problema: estratégias de investigação da relação entre Durkheim e Mauss



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A colaboração científica como problema:

estratégias de investigação da relação entre Durkheim e Mauss
Avanço de investigação em curso

GT29 – Teoria social contemporânea


Romulo Lelis

Universidade de São Paulo (USP), Brasil


Resumo: Para Durkheim, a constituição da Sociologia como disciplina científica demanda um trabalho coletivo, que requer, além do recrutamento de especialistas, o mapeamento do território da Sociologia e a definição de um quadro de pressupostos e conceitos suficientemente gerais e maleáveis para orientar as pesquisas. Nesse sentido, a expressão “escola durkheimiana” designa não só a referência histórica ao grupo de pesquisadores reunidos por Durkheim em torno do Année sociologique, mas, fundamentalmente, o empenho desses pesquisadores em um projeto intelectual comum. Reconhecendo a desconsideração da dimensão coletiva da tradição durkheimiana e, principalmente, a ausência de um quadro interpretativo para analisar os vínculos entre os pressupostos gerais que caracterizam a colaboração entre os pesquisadores e as teorias específicas que estes produziram, a proposta desta pesquisa em curso é investigar a colaboração entre Durkheim e Mauss dentro do quadro geral de divisão do trabalho da escola durkheimiana.
Palavras-chave: Émile Durkheim; Marcel Mauss; escola durkheimiana, colaboração científica.
Introdução

A plena constituição da Sociologia como disciplina científica teve em Émile Durkheim um articulador chave, cujas posições permanecem pertinentes quando se trata de refletir sobre a dispersão e fragmentação do conhecimento sociológico. Encontramos em Durkheim uma defesa explícita da ciência como trabalho coletivo e cooperativo, defesa que se sustenta não só pela necessidade do acúmulo de descobertas oferecidas à verificação comum, mas também por meio da formação de um grupo de especialistas de diversas áreas que estejam em contato permanente. A “escola durkheimiana”, tema desta pesquisa, é a expressão comumente utilizada para designar esse grupo de pesquisadores reunidos em torno do Année sociologique1. Concebido e dirigido por Durkheim, o periódico foi fundado em 1898 e contou inicialmente com a colaboração de Marcel Mauss, Henri Hubert, Paul Fauconnet, François Simiand, Célestin Bouglé, Emmanuel Lévy, Gaston Richard, Paul Lapie, Dominique Parodi, Henri Muffang e Albert Milhaud. Ao todo, cerca de 45 pesquisadores participaram de algum dos 12 volumes do Année publicados sob a direção de Durkheim. O objetivo da revista era reunir e resenhar o material das áreas específicas, tais como direito, moral, religião e economia, além de publicar contribuições originais que pretendiam exemplificar a abordagem propriamente sociológica desses temas. Assim, a constituição da Sociologia como uma disciplina científica envolveria um trabalho coletivo que requer, além do recrutamento de especialistas, o mapeamento do território da Sociologia e a definição de um quadro de pressupostos e conceitos suficientemente maleáveis e gerais para ganhar o assentimento desses pesquisadores. Falar em “escola”, portanto, envolve não só a referência histórica a um grupo de pesquisadores que trabalharam juntos em determinado momento, mas, fundamentalmente, o empenho destes em um projeto comum.

Nesse âmbito, a pesquisa justifica-se por duas razões. A primeira diz respeito à desconsideração da dimensão coletiva da obra e da proposta de Durkheim: em geral, as interpretações consagradas restringem-se à análise de suas quatro obras monográficas individuais2, negligenciando mais de 15 anos de trabalho em sua maior obra coletiva – o Année. Nesse sentido, a maior e mais minuciosa referência sobre a sociologia da religião de Durkheim, Durkheim's sociology of religion: themes and theories de William Pickering ([1984] 2009), omite a contribuição de Mauss e Hubert para a elaboração de As formas elementares da vida religiosa (cf. Strenski, 1985, p. 394-395)3. A segunda razão é a relativa escassez de estudos sobre a escola durkheimiana: mais especificamente, ao déficit de ferramentas conceituais que permitam identificar e analisar os elementos que conferem unidade a um corpo de autores ou pesquisas no interior da Sociologia (Massella, 2009, p. 69). Tal escassez não se refere, portanto, à falta de tentativas de sistematização das teorias sociológicas dos membros da escola, ou mesmo de dados relativos às circunstâncias históricas e institucionais que sustentaram e garantiram a emergência da equipe do Année; mas, antes, à ausência de um quadro interpretativo para entender os vínculos entre os pressupostos gerais que caracterizam a colaboração entre os pesquisadores e as teorias específicas que estes produziram, concebendo-os dentro de um projeto coletivo de colaboração científica.
A colaboração científica como problema

A bibliografia sobre a escola durkheimiana apresenta duas tendências gerais para enquadrar a relação entre os membros do Année sociologique. A primeira tende a reforçar a hierarquia e a dominação exercida por Durkheim sobre os demais pesquisadores, caracterizada pela relação mestre-discípulo: o mestre produz o método e as teorias, cabendo aos discípulos se limitarem a aplicar esse arcabouço nos temas específicos (Clark, [1968] 1990 e 1973; Nandan, 1977 e 1980). A segunda tendência reforça as diferenças entre Durkheim e os demais membros do Année, notadamente de Mauss, construindo por meio de metáforas uma imagem oposta e, no limite, de ruptura deste com a proposta de Durkheim (Caillé, 1998; Karsenti, 1994, 1996, 1997 e 1998; Lévi-Strauss, 1945 e 1950; Marcel, 2001; Martins, 2005; Martins; Guerra, 2013; Tarot, 1999). Nesses termos, as duas tendências reiteram, por razões distintas, o diagnóstico da inexistência de uma colaboração científica entre pesquisadores da escola durkheimiana: ou os membros do Année apenas reproduzem o corpus teórico de Durkheim, ou são independentes e até avessos à sua proposta.

Diante desse quadro, alinhamo-nos com as pesquisas de Besnard (1979 e 1983) que demonstram a inconsistência das duas tendências apresentadas: por um lado, nunca houve a pretensão de formar uma escola de pensamento no sentido estrito, o que é atestado pelas correspondências que relatam as divergências teóricas e metodológicas que os membros do Année sempre mantiveram entre eles; por outro lado, sempre houve um acordo mínimo a respeito da aplicação do método científico à analise dos fenômenos sociais e, principalmente, um consenso em torno de uma produção científica cooperativa, mais profissional e, portanto, menos amadora, individualista e proselitista. Nesse sentido, tomando por referência a relação mais complexa e significativa da escola, isto é, aquela entre Durkheim e Mauss, Besnard (2003) estabelece o Année como fio condutor para avaliar essa colaboração, o símbolo máximo da divisão de tarefas e da cooperação intelectual da escola durkheimiana. Contra as glosas produzidas para interpretar essa relação e com Besnard, propomos compreender a colaboração entre Durkheim e Mauss dentro do quadro mais geral de divisão do trabalho da escola durkheimiana.

Tomando como referência a posição de Tiryakian ([1978] 2009) sobre o sentido da colaboração científica entre os durkheimianos, este afirma que os jovens sociólogos do Année não somente foram influenciados por Durkheim, mas também lhe proporcionaram um retorno intelectual relevante para o desenvolvimento de sua análise sociológica. Para Tiryakian, as relações entre os membros da escola durkheimiana baseavam-se na igualdade de condições exteriores e no mérito, o que permitiria a influência recíproca entre Durkheim e os demais membros do grupo. Além disso, se Besnard privilegia reconstruir os dados pessoais, históricos e institucionais da relação entre os membros da escola, o mínimo necessário para qualquer investigação sobre o problema, Tiryakian tentou avançar na elaboração de ferramentas conceituais, como a de programa de pesquisa, para compreender a relação entre as teorias produzidas pelos autores da escola durkheimiana. Tal necessidade de empreendimento teórico-conceitual é reafirmada por Massella (2009), que propõe estudar a colaboração científica entre os autores por meio dos programas de pesquisa, analisando a continuidade ou descontinuidade que haveria entre as obras dos durkheimianos em cada programa de pesquisa específico estabelecido no Année, tais como direito, moral, economia e religião.

Assim, ao avaliarmos o quadro bibliográfico e explicitarmos o esquema geral que dá sentido à nossa proposta, definimos nosso problema de investigação como a colaboração entre Durkheim e Mauss. Tal colaboração foi levada a cabo na realização do Année, no qual Mauss era o responsável pela seção de sociologie religieuse e Durkheim o editor da revista.
Estratégias de investigação de uma colaboração científica

Após delimitarmos nosso problema de investigação, é preciso circunscrever o objeto em que esse problema pode ser investigado da maneira mais precisa possível. Reconhecendo a escassez de pesquisas que avaliam os vínculos entre as teorias dos autores e, mais especificamente, as continuidades e descontinuidades que haveria entre os trabalhos de Durkheim e Mauss, selecionamos o conjunto de trabalhos publicados pelos dois autores a respeito dos fenômenos religiosos, o qual designaremos daqui em diante por “programa de pesquisa em sociologie religieuse. Interessa-nos, portanto, investigar a colaboração entre Durkheim e Mauss acerca da abordagem sociológica dos fenômenos religiosos. Considerando nosso problema de pesquisa e o respectivo objeto tal qual o definimos, apresentamos duas hipóteses mais gerais a serem verificadas no decurso da investigação:




  • 1ª hipótese: a transformação da teoria da religião de Durkheim pela influência de Mauss. Durkheim manteve uma teoria sobre o fenômeno religioso até 1899, expressa em seu artigo “De la définition des phénomènes religieux”. Essa teoria define o fenômeno religioso como crenças e práticas exteriores obrigatórias que constrangem as consciências individuais. Tal concepção, excessivamente formal, é criticada por Mauss justamente por perder de vista a relação entre a forma exterior do fenômeno e o conteúdo que o distingue dos demais fatos sociais. A partir dessa crítica, Durkheim (1912) apresenta outra teoria da religião, baseada em crenças e práticas sagradas, expressa em As formas elementares da vida religiosa.




  • 2ª hipótese: a construção de Mauss de uma teoria da ação social incorporada por Durkheim. Desde seu ensaio sobre a natureza e a função do sacrifício (Mauss; Hubert, 1899), Mauss enuncia os vínculos entre ato e crença, rito e mito e, portanto, entre a ação e o sentido da ação religiosa. Além de ter se tornado a grande contribuição para a pesquisa dos fenômenos religiosos, presente também em As formas elementares da vida religiosa de Durkheim (1912), a ação ritual extrapola o domínio específico dos fenômenos religiosos para alcançar o nível de uma teoria da ação social, na acepção clássica do termo.

As hipóteses elaboradas remetem ao problema mais geral de como investigar a colaboração científica entre Durkheim e Mauss. Com efeito, a pergunta que se impõe quando observamos as hipóteses elaboradas é a seguinte: se o problema de pesquisa é a colaboração entre Durkheim e Mauss, por que as duas hipóteses estão centradas em investigar a influência que Mauss pode ter exercido em Durkheim? Ora, se a colaboração científica pressupõe equidade e divisão do trabalho na cooperação entre pesquisadores, é razoável supor uma mútua influência em uma colaboração. No caso da escola durkheimiana, se está implícito que os pesquisadores aderiram à proposta geral de Durkheim, isto é, que foram influenciados por ele, o que cabe investigar, portanto, é se o contrário também é verdadeiro, se os trabalhos dos pesquisadores da equipe do Année tiveram impacto na teoria social de Durkheim. Portanto, por meio do teste das hipóteses que pretendem estabelecer a influência da produção de Mauss na teoria social de Durkheim, teremos condições de auferir em que medida houve colaboração entre Durkheim e Mauss no âmbito da escola durkheimiana.


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1 Além de escola durkheimiana, outros termos são utilizados para designar Durkheim e seus colaboradores do Année, tais como: “escola sociológica francesa”, “equipe do Année sociologique”, “sociologia durkheimiana” e “os durkheimianos”.

2 São elas, respectivamente: Da divisão do trabalho social (1893), As regras do método sociológico (1895), O suicídio (1897) e As formas elementares da vida religiosa (1912).

3 Nunca é demais lembrar que Mauss e Hubert não só eram os editores da seção de sociologie religieuse do Année, como tinham muito mais experiência e proximidade com o tema da religião primitiva que Durkheim. À exceção somente o pioneiro artigo de François-Andre Isambert sobre a elaboração da noção de sagrado na escola durkheimiana (cf. Isambert, 1976). Apesar da referida omissão, Pickering voltou-se para a investigação comparada das sociologias da religião de Durheim e Mauss em artigo recente (cf. Pickering, 2012).





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