A circulação do Pensamento Sociológico das décadas de 1950 e 1960 no Cinema Brasileiro



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A Circulação do Pensamento Sociológico das décadas de 1950 e 1960 no Cinema Brasileiro

Alexandro Dantas Trindade

UFPR
Resumo

Este texto tem o objetivo de investigar a circulação das idéias sociológicas, produzidas em diversas instâncias de produção acadêmica, entre os protagonistas da crítica e do pensamento de cinema no Brasil, entre as décadas de 1950 e 1960. Momento crucial da produção reflexiva em torno dos dilemas das transformações sociais, econômicas e políticas pelas quais o país passava, o contexto assinalado foi palco da emergência de diversas expressões culturais, artísticas e intelectuais, através das quais revelava-se a disputa em torno do sentido dos processos de mudança em curso. O presente trabalho tem por meta analisar alguns discursos protagonizados por representantes da crítica cinematográfica, particularmente através de artigos de Alex Viany e Paulo Emílio Salles Gomes, em torno da representação do “moderno”, tanto na sociedade como no cinema de que era sua expressão.


Resumo Expandido

Este texto tem por objetivo analisar a circulação das idéias oriundas do debate sociológico entre cineastas e críticos de cinema, ao longo das décadas de 1950 e 1960. Em linhas gerais, busco analisar como o debate em torno das transformações caracterizadas pelo processo de industrialização, urbanização e, sobretudo, emergência de novas forças sociais em curso naquele contexto, foram traduzidas nas reflexões empenhadas em constituir um movimento cultural que representasse o “Brasil moderno”, particularmente entre os intelectuais ligados ao chamado “pensamento cinematográfico”.

Uma questão chave deste trabalho refere-se à tensão existente entre a produção cinematográfica brasileira e as diversas “teorias” de cinema. Na medida em que vários cineastas foram igualmente geradores de imagens e teóricos das mesmas, a sugestão de “modelos de dramaturgias cinematográficas” inscritas em roteiros, muitas vezes jamais filmados (Avellar, 2005), podem ser indícios emblemáticos das disputas em torno do sentido dos processos de mudança social em curso no contexto das décadas de 50 e 60.

Num de seus textos-síntese, Octavio Ianni problematiza, em relação a uma de nossas singularidades, o fato do país se pensar de forma contínua e periódica, particularmente de forma sistemática “no contexto de conjunturas críticas ou a partir de dilemas e perspectivas que se criam quando ocorrem rupturas históricas” (Ianni, 2004, p. 41). O que leva a sociedade nacional, ou alguns de seus setores mais atingidos pelas rupturas, a analisar o curso dos acontecimentos, suas raízes próximas e remotas, suas tendências prováveis no futuro, produzindo em profusão explicações, interpretações ou teses que se multiplicam, sucedem e polemizam entre si. A cada tentativa de desvendamento de si, novas tentativas de reinventar a nação. É sobretudo no âmbito “não inocente” da cultura que muitas vezes recoloca-se o debate sobre a questão nacional. “A nação é real e imaginária”, oferece-se como uma longa narrativa feita a muitas vozes, “harmônicas e dissonantes, dialogando e polemizando, em diferentes entonações” (Idem, p. 176), daí a impressão do Brasil ser um país “em busca de uma fisionomia” (Idem, p. 188).

Considerando o potencial heurístico que tais conjunturas críticas ou rupturas históricas revelam, pode-se dizer que a década de 1950 foi particularmente emblemática, representando um momento de inflexão na qual se explicitaram as tensões entre a vigência de formas tidas pelos coevos como “arcaicas” e as ainda incertas perspectivas de modernização das relações sociais. Como afirma Botelho ao comparar o período acima com outro momento histórico fundamental, qual seja, a década de 1920 – momento em que a controvérsia pautava-se pela disputa quanto ao sentido da “identidade brasileira” –, a intelligentsia dos anos 50 adotava também, ao lado do “ideal de constituição e consolidação de uma nação política e culturalmente autônoma” (2008, p. 19), um paradigma que expressava a normativa de uma sociedade calcada sob bases universalistas, tornando explícita a percepção da desigualdade e a cisão da sociedade em grupos, classes e instituições associadas à ampliação do capitalismo. Tal diagnóstico foi radicalmente assumido pelo pensamento sociológico paulista, cuja resposta às indagações sobre as razões e efeitos do atraso rechaçava a visão “dualista” mais comum, isto é, a qual atribuía ao processo de mudança a superação do retardo (Bastos, 2002, p. 186). Todavia, a imagem de um futuro moderno foi compartilhada, com tonalidades as mais diversas – resultado dos caminhos teóricos e metodológicos distintos –, pelo amplo conjunto do pensamento sociológico brasileiro de meados do século 20, em que pese as concepções desenvolvimentistas amplamente difundidas para além da sociologia acadêmica.

Pretendemos, portanto, investigar em que medida a imagem de uma “sociedade em movimento”, bem como as tensões em torno da definição de seu sentido, foram traduzidos para a linguagem da crítica cinematográfica, ou do “pensamento de cinema” no Brasil. Mais especificamente, percorreremos o caminho desta crítica a partir de alguns autores representativos do debate em torno das perspectivas de modernização em curso na sociedade e sua tradução em produções fílmicas que representassem aquele processo. No caso, lidaremos com as interpretações de Paulo Emílio Salles Gomes e de Alex Viany, embora não deixemos de considerar outros nomes de importância para a crítica cinematográfica do período, tais como Ely Azeredo, Moniz Vianna, Salvyano Cavalcanti de Paiva, B. J. Duarte, Almeida Salles, P. F. Gastal, Walter da Silveira, Cyro Siqueira e Jacques do Prado Brandão, Jean-Claude Bernadet, dentre outros. Por mais que muitos de seus protagonistas reivindicassem uma autonomia da crítica frente às demais esferas sociais e políticas, tal esforço por autonomia não implicava um afastamento do compromisso com o processo civilizador no Brasil (Botelho, 2008, p.16).



Para tal análise, é imprescindível levarmos em conta o quanto as manifestações artísticas de vanguarda (Ridenti, 2000 e 2010), o amadurecimento de movimentos literários, artísticos e musicais e a reflexão crítica em torno destes foram veiculados pela configuração de uma indústria de bens culturais, tendo a imprensa papel de destaque (Abreu, apud Botelho, 2008).

Para tal finalidade, analisamos um conjunto de artigos publicados na Revista Filme Cultura, no Suplemento Literário do Jornal O Estado de São Paulo, e no acervo documental do crítico Alex Viany. Tais veículos foram peça-chave na configuração do debate em torno do caráter estético da produção cinematográfica brasileira, debate este pautado pela controvérsia quanto ao sentido a ser impresso em relação ao ideal de “Brasil moderno” das décadas de 1950 e 1960.



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