A bruxa de abril



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Encontro19.08.2017
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A bruxa de abril
Pelo ar, por sobre os vales, sob as estrelas, acima de um rio, um lago, uma estrada, Cecy voava. Invisível como ventos novos da primavera, fresca como o aroma dos cravos que se desprende dos campos no crepúsculo, ela voava. Planava em pombas macias como arminho, detinha-se em árvores e vivia nos botões de flores, espalhando-se em pétalas quando a brisa soprava. Pousava em uma rã verde, fria como hortelã, à beira de uma lagoa prateada. Trotava em um cão felpudo e latia para ouvir os ecos vindos de celeiros distantes. Vivia em folhas novas de grama, nascidas em abril, em líquidos mansos e claros que brotavam da terra úmida.

É primavera, Cecy pensou. Estarei em todos os seres vivos do mundo hoje à noite.



Habitava grilos afinados nas estradas de asfalto ou então, feita orvalho, acariciava um portão de ferro. Sua mente era rápida e maleável, voando invisível nos ventos de Illinois, nesta noite de sua vida em que tinha apenas dezessete anos.

— Quero me apaixonar — disse.

Ela havia dito a mesma coisa durante o jantar. Seus pais arregalaram os olhos e retesaram as costas nas cadeiras. Tinham-lhe dado um conselho: — Paciência. Lembre-se de que você é especial. Toda a nossa família é diferente e especial. Não podemos nos misturar ou casar com gente comum, ou perdemos nossos poderes mágicos. Você não iria querer perder seu poder de "viajar", não é? Então tome cuidado. Tome cuidado.

Mas em seu quarto, Cecy passou perfume no pescoço e se espreguiçou, trémula e ansiosa, na cama de dossel, enquanto a lua cor de leite se erguia sobre os campos, transformando os rios em creme e as estradas em platina.

— Ë verdade — suspirou. — Faço parte de uma família estranha. Dormimos de dia e à noite voamos ao vento, como negros papagaios de papel. Se quisermos, podemos dormir em forma de toupeiras todo o inverno, debaixo da terra quente. Posso viver em qualquer coisa: uma pedra, uma flor de açafrão ou um louva-a-deus. Posso deixar meu corpo ossudo para trás e enviar minha mente para longe, em busca de aventura. Já!

E o vento a arrastou, por sobre campos e pradarias.

Viu as luzes quentes das casas e das fazendas, brilhando na primavera com as cores do crepúsculo.

Se não posso amar, por ser especial e diferente, hei de amar através de outra pessoa, pensou.

Do lado de fora de uma casa de fazenda, na noite de primavera, uma moça morena, de dezenove anos no máximo, tirava água de um profundo poço de pedra. Estava cantando.

Cecy caiu — uma folha verde — no poço. Deixou-se ficar no musgo macio do poço, olhando para cima através da fria escuridão. Depois, penetrou em uma ameba flutuante e invisível. Depois em uma gota d'água! Finalmente, em um copo frio, sentiu-se levada aos lábios cálidos da moça. Houve um suave som noturno de água sendo bebida.

Cecy contemplou o mundo pelos olhos da moça.

Entrou na cabeça coberta de cabelos escuros e olhou através dos olhos brilhantes para as mãos que puxavam a corda grossa. Escutou através das conchas dos ouvidos o mundo dessa moça. Aspirou seu universo particular pelas narinas delicadas, sentiu aquele coração batendo, batendo. Sentiu a língua alheia movendo-se a cantar.

Será que ela sabe que estou aqui?, pensou Cecy.

A moça teve um sobressalto. Examinou a campina envolta na noite.

— Quem está aí? Nenhuma resposta.

— É só o vento — sussurrou Cecy.

— É só o vento — a moça riu de si mesma, mas teve um arrepio.

Era um bom corpo, o da moça. Tinha ossos delicados de marfim, esguios, cobertos de carnes arredondadas. O cérebro parecia uma rosa-chá suspensa na escuridão, e havia sabor de cidra em sua boca. Os lábios firmes cobriam dentes muito brancos, as sobrancelhas enquadravam o mundo em arcos perfeitos, e o cabelo fino e macio caía mansamente sobre a nuca branca. Os poros eram pequenos, formando uma trama cerrada. O nariz se erguia para a lua e as faces ardiam como pequenas fogueiras. O corpo fluía, levíssimo, de um gesto a outro, e parecia cantar o tempo todo para si mesmo. Estar nesse corpo, nessa cabeça, era como gozar o calor de uma lareira, viver no ronronar de um gato adormecido, bolir nas águas mornas dos riachos que corriam à noite para o mar.

Vou gostar daqui, pensou Cecy.

— O quê? — perguntou a moça, como se ouvisse nina voz.

— Qual é o seu nome? — perguntou Cecy com cautela.

— Ann Leary. — A moça teve um sobressalto. — Mas por que preciso dizer isto em voz alta?

— Ann, Ann — sussurrou Cecy. — Ann, você vai se apaixonar.

Como em resposta, ouviu-se um grande ruído vindo da estrada, um estrépito e o chiado de rodas no cascalho. Um homem alto chegou conduzindo uma charrete, segurando firmemente as rédeas com seus braços enormes, o sorriso brilhante através do pátio.

— Ann!

— É você, Tom?



— E quem mais poderia ser?

Saltando da charrete, ele amarrou as rédeas na cerca.

— Não falo com você! — Ann virou-se bruscamente, e o balde em suas mãos derramou um pouco da água.

— Não! — gritou Cecy.

Ann ficou gelada. Olhou para as colinas e para as primeiras estrelas da primavera. Olhou para o homem chamado Tom. Cecy fez com que deixasse cair o balde.

— Qlhe só o que você fez! Tom acorreu.

— Olhe só o que você me fez fazer!

Tom limpou os sapatos dela com o lenço, rindo.

— Vá embora! — Ann chutou suas mãos, mas ele tornou a rir, e, olhando para ele como se de muitos quilômetros de distância, Cecy contemplou o formato de sua cabeça, o tamanho do crânio, o relevo do nariz, o brilho dos olhos, a envergadura dos ombros, a força bruta das mãos, capazes de tamanha delicadeza com o lenço. Olhando de sua secreta clarabóia na cabeça adorável, Cecy puxou um fio de cobre oculto, como um ventríloquo, e a linda boca se abriu:

— Obrigada.

— Oh, quer dizer que você é realmente bem-educada? — O cheiro de couro e o cheiro de cavalo subiam das roupas e das mãos de Tom e atingiam as suaves narinas. Cecy, distante, distante, separada dali por campinas noturnas e campos floridos, estremeceu em sua cama como um sonho.

— Não, não para você! — gritou Ann.

— Calma, fale baixo — disse Cecy. Moveu os dedos de Ann, levando-os na direção da cabeça de Tom. Ann puxou-os de volta.

— Fiquei louca!

— Ficou sim — Tom concordou, sorrindo mas aturdido. — Quer dizer que você ia me tocar?

— Não sei. Por favor, vá embora! — Nas faces de Ann, brilhavam brasas vivas.

— E por que você não corre? Não a estou segurando. — Tom levantou-se. — Mudou de ideia? Você vai comigo ao baile de hoje à noite? É um baile especial, depois explico por quê.

— Não — disse Ann.



Vou! — gritou Cecy. — Nunca dancei. Quero dançar. Nunca usei um vestido longo e farfalhante. Quero ir. Quero dançar a noite inteira. Nunca soube qual é a sensação de estar numa mulher, dançando; meu pai e minha mãe não deixam. Cães, gatos, gafanhotos, folhas, já conheci tudo o que há no mundo, numa ocasião ou noutra, mas nunca uma mulher na primavera, nunca em uma noite como esta. Por favor, precisamos ir a esse baile!

Expandiu seus pensamentos, como os dedos da mão em uma luva nova.

— Vou — disse Ann Leary. — Eu vou. Não sei por quê, mas vou ao baile com você hoje à noite, Tom.

— Agora para dentro, depressa! — gritou Cecy. — Você precisa se lavar, avisar seus pais, aprontar seu vestido, passá-lo a ferro!

— Mamãe — disse Ann. — Mudei de ideia!

A charrete saiu galopando pelo caminho e a casa se encheu de vida: água fervendo para o banho, o fogão de carvão aquecendo o ferro para passar o vestido, a mãe pressurosa, com uma franja de grampos na boca. — O que houve com você, Ann? Você não gosta do Tom!

— É verdade. — Ann parou em meio ao frenesi. Mas é primavera, pensou Cecy.

— É primavera — disse Ann.

E a noite está ótima para se dançar, pensou Cecy.

— ...para dançar — murmurou Ann Leary.

Depois entrou na banheira, e o sabão envolveu os ombros brancos, pequenos ninhos de espuma sob os braços, a carne quente dos seios ondulando em suas mãos e Cecy movendo a boca, formando o sorriso, mantendo o corpo em movimento. Não pode haver nenhuma pausa, nenhuma hesitação, ou toda a pantomima corre o risco de desabar! Ann Leary deve ser mantida em ação, agitando-se, mexendo-se, lavar aqui, ensaboar ali, e agora sair da banheira! Esfregar-se com a toalha! Agora, perfume e pó-de-arroz!

— Você! — Ann surpreendeu-se no espelho, toda branco e rosada como lírios e cravos. — Quem é você hoje à noite?

— Sou uma moça de dezessete anos. — Cecy contemplou-a através de seus olhos violeta. — Você não pode me ver. Você sabe que estou aqui?

Ann Leary sacudiu a cabeça. — Na certa, meu corpo foi tomado por uma bruxa de abril.

— Você quase acertou, quase mesmo. — Cecy riu. — .Agora, vamos vesti-la.

O prazer de sentir boas roupas cobrindo o corpo! E então, alguém a chamou lá fora.

— Ann, Tom já voltou!

— Diga-lhe para esperar. — Ann sentou-se de repente. — Diga a ele que não vou mais ao baile.

— O quê? — disse a mãe, na porta.

Cecy, num relance, voltou a assumir o controle. Havia sido um relaxamento fatal, um descuido fatal deixar o corpo de Ann apenas por um instante. Ouvira o som distante dos cascos de cavalos e da charrete rodando através dos campos enluarados da primavera. Por um segundo, pensou: Vou encontrar Tom e pousar em sua cabeça para ver como é ser um rapaz de vinte e dois anos numa noite como esta. E partiu célere através de um campo de urzes, mas agora, como um pássaro engaiolado, voou de volta e bateu as asas, rodopiando dentro da cabeça de Ann.

— Ann!

— Diga a ele para ir embora!



— Ann! — Cecy se instalou e espalhou seus pensamentos.

Mas Ann havia tomado o freio nos dentes. — Não, eu o detesto!

Eu não devia ter saído, nem mesmo por um instante, repreendeu-se Cecy, e instilou sua mente nas mãos da moça, no coração, na cabeça, muito suavemente. Levante-se, pensou.

Ann levantou-se. Vista o casaco! Ann vestiu o casaco. Agora, em frente! Não! pensou Ann Leary. Em frente!

— Ann — disse a mãe —, não faça Tom esperar mais. Vá indo logo e deixe de bobagens. O que há com você?

— Nada, mamãe. Até logo. Vamos voltar tarde. Ann e Cecy correram juntas para a noite de primavera.

Uma sala cheia de pombos dançando mansamente, agitando suas penas silenciosas e compridas, uma sala cheia de pavões, uma sala cheia de olhos e luzes irisadas. E no centro do salão, rodando, rodando, rodando, Ann Leary dançava.

— Oh, está uma noite linda — disse Cecy.

— Que noite linda — disse Ann.

— Você está estranha — disse Tom.

A música os arrastava, à meia-luz, em rios de melodias; flutuavam, mergulhavam, afundavam, emergiam para respirar, arquejavam, agarravam-se um ao outro como afogados e deixavam-se levar novamente, girando, aos sussurros e suspiros, ao som de Beautiful Ohio.

Cecy cantarolava. Os lábios de Ann se entreabriram e a música fluiu.

— Sim, estou estranha — disse Cecy.

— Você não é a mesma.

— Não, não esta noite.

— Você não é a Ann Leary que eu conheço.

— Não, não mesmo, não mesmo — murmurou Cecy, distante, muito longe dali. — Não, não mesmo — disseram os lábios.

— Estou sentindo uma coisa engraçada — disse Tom.

— O quê?


— É algo com você. — Afastou-se um pouco dela, sem interromper a dança, olhando para seu rosto brilhante, à procura de alguma coisa. — São seus olhos — disse. — Não consigo entender.

— Você não está me vendo? — perguntou Cecy.

— Estou vendo uma parte de você, Ann, mas há uma outra parte que não está aqui. — Tom fê-la girar cuidadosamente, com uma expressão de desconfiança.

— É verdade.

— Por que você veio comigo?

— Eu não queria vir — disse Ann.

— Então por que veio?

— Alguma coisa me fez vir.

— O quê?

— Não sei! — A voz de Ann adquiriu um tom meio histérico.



Calma, calma — murmurou Cecy. — Calma, assim. Girando, girando.

Murmuraram, farfalharam e ondularam pela sala escura, impelidos aos rodopios pela música.

— Mas você veio ao baile — disse Tom.

— Vim — disse Cecy.

— Venha cá — disse Tom, e a conduziu suavemente, dançando, através de uma porta aberta, levando-a em silêncio para longe do salão, da música e das pessoas.

Subiram na charrete e sentaram-se lado a lado no banco.

— Ann — disse Tom, trêmulo, pegando suas mãos. — Ann.

Mas dizia esse nome como se não fosse o dela. Olhava o tempo todo para seu rosto pálido, e agora os olhos de Ann estavam novamente abertos. — Você sabe que eu era apaixonado por você — disse Tom.

— Sei.


— Mas você sempre foi caprichosa, e eu não queria me ferir.

— Fez muito bem, ainda somos muito jovens — disse Ann.

— Não... quero dizer, sinto muito — disse Cecy.

— O que é que você quer dizer? — Tom largou suas mãos e retesou-se no assento.

A noite estava quente, o cheiro de terra se espalhava em torno deles e as árvores novas roçavam folha contra folha, sacudindo-se e sussurrando.

— Não sei — disse Ann.

— Oh, mas eu sei — disse Cecy. — Você é alto, e é o homem mais bonito do inundo. A noite está linda, é uma noite de que vou me lembrar para sempre. — Estendeu a mão fria e alheia, encontrou a mão relutante do rapaz e a trouxe para junto de si, aquecendo-a e segurando-a com força.

— Mas hoje — disse Tom, piscando muito — você às vezes está perto, às vezes distante. Num momento, você está de um jeito, e no momento seguinte de outro. Eu só queria trazer você para esse baile por causa dos velhos tempos. Não queria mais nada. E aí, quando estávamos junto ao poço, senti que alguma coisa tinha mudado em você, mudado muito. Você estava diferente. Havia alguma coisa nova, suave, uma coisa... — procurou a palavra — não sei, não sei dizer. O seu jeito. Alguma coisa em sua voz. E agora eu sei que estou novamente apaixonado por você.

— Não — disse Cecy. — Por mim, por mim.

— E estou com medo de estar apaixonado por você, porque você vai me ferir novamente.

— Pode ser — disse Ann.

Não, não, hei de amá-lo com todo o coração, pensou Cecy. Ann, diga a ele, diga por mim. Diga que há de amá-lo com todo o coração.

Ann não disse uma palavra.

Tom se aproximou, em silêncio, e pegou seu queixo com os dedos. — Estou indo embora. Ofereceram-me um emprego a cem quilômetros daqui. Você vai sentir minha falta?

— Vou — disseram Ann e Cecy.

— Posso beijá-la para me despedir, então?



Pode — disse Cecy, antes que alguém mais pudesse falar.

Tom encostou seus lábios naquela boca estranha. Estava tremendo.

Ann ficou imóvel como uma estátua branca.



Ann! — disse Cecy. — Mexa os braços, abrace-o! Ela continuou imóvel como uma boneca de madeira ao luar.

Tom beijou novamente seus lábios.



Eu o amo de verdade — murmurou Cecy. — Estou aqui, sou eu que você viu nos olhos dela, sou eu, e eu o amo como ela nunca há de amar.

Tom se afastou. Sentia-se como se tivesse corrido uma grande distância. Sentou-se ao lado dela. — Não sei o que está acontecendo. Houve um momento, ali...

— O quê? — perguntou Cecy.

— Por um instante, achei... — Cobriu os olhos com as mãos. — Não tem importância. Quer ir para casa agora?

— Quero, por favor — disse Ann Leary.

Tom sacudiu frouxamente as rédeas, estalou a língua para o cavalo, e este começou a andar. Eles iam envoltos pelo ruído e pelo balanço da charrete na noite enluarada de primavera, ainda cedo, apenas onze horas, e os pastos brilhantes e campos perfumados de cravo deslizavam à sua passagem.

Então Cecy, olhando para os campos e os pastos, pensou que valeria a pena, valeria qualquer preço ficar com ele desta noite em diante. E ouviu de novo as vozes distantes de seus pais: "Tome cuidado. Você não quer perder seus poderes mágicos, casando-se com um simples mortal, não é? Tome cuidado. Você não iria gostar se isso acontecesse".

Quero, quero sim, pensou Cecy, desisto de tudo, aqui e agora, se ele me quiser. Eu não precisaria mais vagar pelas noites de primavera, não precisaria viver em pássaros e ca-chorros e gatos e raposas, bastaria apenas estar com ele. Só ele. Só ele.

A estrada corria por baixo da charrete com um murmúrio.

— Tom — disse Ann finalmente.

— O que é? — Ele contemplava friamente a estrada, o cavalo, as árvores, o céu, as estrelas.

— Se nos próximos anos você passar algum dia, em qualquer época, por Green Town, Illinois, a alguns quilômetros daqui, você me faria um favor?

— Pode ser.

— Você faria o favor de parar e visitar uma amiga minha? — disse Ann Leary aos arrancos, timidamente.

— Por quê?

— É uma grande amiga. Falei sobre você com ela. Eu vou lhe dar o endereço. Espere um pouco.



Quando a charrete parou em sua casa, pegou um lápis c uma folha de papel em sua bolsinha e escreveu à luz da lua, apoiando o papel no joelho. — Está aí. Você consegue ler?

Tom examinou o papel e assentiu, confuso.

— Cecy Elliot. Willow Street, número 12. Green Town, Illinois.

— Você irá visitá-la um dia? — perguntou Ann.

— Um dia — disse Tom.

— Jura?


— Mas o que isso tem a ver conosco? — perguntou Tom com raiva. — O que eu tenho a ver com nomes e papéis? — Amassou o papel, formando uma bolinha, e enfiou-o no bolso do casaco.

— Jure, por favor!... — suplicou Cecy.

... jure... — disse Ann.

Está bem, eu juro, mas agora me deixe em paz! — gritou Tom.

Estou cansada, pensou Cecy. Não posso ficar mais. Tenho que ir para casa. Estou ficando fraca. Só tenho forças para ficar algumas horas assim, fora, viajando na noite, viajando. Mas antes de ir embora...

... antes de ir... — disse Ann. Beijou Tom nos lábios.

— Quem o está beijando sou eu — disse Cecy.



Tom pôs as mãos nos ombros de Ann Leary e a olhou bem no fundo dos olhos. Não disse nada, mas seu rosto começou a relaxar muito lentamente, as rugas desapareceram, sua boca perdeu a expressão dura, e fitou novamente o fundo do rosto enluarado que tinha à sua frente.

Então, ajudou-a a descer da charrete e, sem dizer sequer boa-noite, partiu rápido pela estrada.

Cecy desprendeu-se.



Ann Leary, chorando alto, como que libertada da prisão, correu pelo caminho banhado de luar até a casa e bateu a porta.

Cecy ficou por ali apenas mais um pouco. Nos olhos de um grilo, contemplou o mundo noturno da primavera. Nos olhos de uma rã, pousou por um momento solitário às margens de uma lagoa. Nos olhos de uma ave noturna, do alto de um olmo que a lua clareava, viu a luz se apagando em duas casas de fazenda, uma aqui e outra a um quilômetro de distância. Pensou em si mesma e em sua família, em seu estranho poder e no fato de nenhum membro da família poder casar-se com qualquer pessoa deste vasto mundo que se estendia para além das colinas.



Tom? — Sua mente enfraquecida voou em uma ave noturna, por sob as árvores e por sobre os campos escuros de mostarda silvestre. — Você guardou o papel, Tom? Você irá aparecer algum dia, num ano qualquer, de repente, para me ver? Irá me reconhecer, então? Irá olhar meu rosto e recordar naquele momento onde foi que você me viu antes, sabendo que você me ama como eu o amo, de todo o coração e para todo o sempre?

Interrompeu-se no ar frio da noite, a um milhão de quilômetros das cidades e pessoas, acima de fazendas e continentes e rios e colinas. Chamou baixinho: — Tom?



Tom estava dormindo. Era noite alta; suas roupas estavam penduradas em cadeiras ou cuidadosamente dobradas ao pé da cama. E em uma das mãos, imóvel e pousada sobre o branco travesseiro, perto de sua cabeça, havia um pedacinho de papel. Lentamente, lentamente, uma fração de centímetro de cada vez, seus dedos fecharam-se sobre o papel, aportando com força. E Tom nem se moveu, nem reparou quando um melro, como uma aparição, bateu suavemente com as asas nos claros vidros enluarados da janela e depois, adejando em silêncio, partiu voando para o leste, por sobre a terra adormecida.



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