A atividade voluntária



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A atividade voluntária
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Art. I. A  vontade
§ 1. Natureza da vontade
A vontade é o princípio mais alto da atividade humana. Ela se opõe ao instinto, como uma atividade refletida se opõe a uma atividade inconsciente e fatal. Por ela, o homem se torna verdadeiramente "pai de seus atos".
Podemos defini-la como a faculdade de perseguir o  bem, conhecido pela razão. A vontade é, então:
1. Um princípio de atividade inteligente, enquanto conhece o fim a que tende os meios de atingi-lo e as conseqüências que dele resultarão.
2. Um princípio de atividade livre, capaz de se determinar a si mesma, e por si mesma, pela escolha que faz entre os diferentes bens que a razão lhe propõe.
3. Um princípio de atividade ordenada ao bem, que é, pois, o objeto próprio da vontade. O homem não pode querer outra coisa senão o bem: em relação a este objeto, a vontade não é livre; e tudo o que perseguimos, não pode ser perseguido senão sob o aspecto do bem. [...]
§ 2. Análise do voluntário
1. As três fases do ato voluntário. — Passa-se com o ato de vontade o mesmo que com o ato de memória: parece ser simples, quando é composto. Podem-se distinguir três fases em um ato voluntário. Estas fases nem sempre são fáceis de determinar: em certos atos quase instantâneos, fundem-se de alguma forma uns nos outros. Mas desde que se trate, por exemplo, de uma decisão grave a tomar, então os diferentes momentos do ato voluntário aparecem claramente distintos. São estes: a deliberação, a decisão e a execução.
a) A deliberação. É um momento de indecisão e de hesitação, durante o qual o espírito examina, em seus diversos aspectos, o problema a resolver, considera as alternativas que se apresentam, e as razões pró e contra de cada uma delas, para, enfim, concluir: "Tal é a decisão que devo tomar". A decisão não é tomada, ainda, apesar disto: muitas vezes mesmo, certas vontades fracas ficam neste julgamento preparatório, sem se resolverem a passar à decisão verdadeira.
b) A decisão. Reduz-se, inteiramente, ao seu "eu quero", que encerra definitivamente a deliberação, à escolha de um dos termos da alternativa levada em conta na deliberação, de tal forma que os outros sejam eliminados no mesmo ato.
c) A execução. Consiste em realizar a escolha e o "eu quero" da decisão. Esta fase é, de certa maneira, exterior ao ato voluntário, porque pode faltar (por exemplo, no caso em que a realização é impossível) sem que sua ausência em nada venha influir no ato voluntário. Este fica então concentrado formalmente na decisão.
2. Parte da vontade nas diferentes fases.
a) Na deliberação. Colocadas ante uma alternativa, as tendências se voltam instintivamente para um dos termos, em detrimento dos outros. Por isso deve a vontade intervir para manter o equilíbrio, que permitirá à reflexão agir com toda independência. Os impulsivos carecem dessa vontade de inibição, cujo papel é impor um freio ao ímpeto das tendências instintivas.
A vontade intervém, então, nesta fase, para substituir a atenção espontânea que certas alternativas apresentam em detrimento de outras, pela atenção refletida, que conduz metodicamente o exame, sem se deixar desviar de seu objeto.
b) Na decisão. Aqui, como vimos, tudo retorna à vontade. É ainda necessário que exista decisão verdadeira: freqüentemente, só existe aparência de decisão, e é isto o que se produz cada vez que um termo da alternativa é eleito pelo simples jogo do automatismo psicológico. Então, de todos os motivos que se apresentam, prevalece o mais forte, sem que tenhamos contribuído por um ato verdadeiramente refletido e consciente na escolha, que suspende a indeterminação primeira.
Para que exista volição, é, portanto, necessário que   um ato positivo e refletido ponha fim à deliberação.
c) Na execução. A vontade não tem que intervir neste caso senão para pôr em movimento as faculdades executivas e mantê-las em atividade. Ela deve, muitas vezes, renovar a decisão inicial e repudiar todo retorno ofensivo das tendências instintivas que a lançavam, inicialmente, em sentido contrário.
§ 3. As doenças da vontade
Uma vontade sã e forte exige que, na deliberação, fiquemos senhores de nós mesmos, que sejamos capazes de tomar um partido e de executar o que resolvêramos. A falta da reflexão, a falta de decisão, a falta de energia na execução constituem deficiências da vontade. Quando essas deficiências se acentuam, tornam-se verdadeiras doenças, que os psicólogos chamam de abulias ou ausência de vontade. Podemos, por isso, distinguir uma patologia da deliberação, uma patologia da decisão, uma patologia da execução.
1. Patologia da deliberação.
a) Abulia dos impulsivos. É o caso daqueles nos quais a vontade não chega a tornar possível a deliberação: sofrem passivamente seus impulsos, e pode-se dizer mesmo que não agem, mas são forçados a agir.
b) Abulia dos intelectuais. É o caso daqueles que deliberam indefinidamente, sem jamais passar à decisão: levantam, sem cessar, os mesmos problemas, e não conseguem resolver-se, concluir a discussão. Neles a deliberação jamais chega a termo.
2. Patologia da volição.
Alguns, ao contrário, são capazes de concluir a deliberação e formular um juízo prático. Mas a passagem ao ato de decisão lhes é impossível: ficam na constatação do que devem fazer, sem se decidir a querer fazê-lo. Ou então esperam que as circunstâncias decidam por eles: é a abulia dos veleidosos.
3. Patologia da execução.
a) Abulia dos fracos. É o caso daqueles que decidem, e por vezes mesmo energicamente, mas abandonam a execução; não cessam de retomar sua decisão, e a retomam com tanto mais força quanto menos executam. Se começam a agir, cedem à primeira dificuldade, e por vezes desejam e provocam essa dificuldade que os dispensará de ir ao fim de seu desejo.
b) Abulia dos obsedados. É o caso daqueles que sofrem a ação de uma idéia fixa. Pode-se, desde que esta doença seja de forma benigna, considerar os obsedados como voluntariosos. Mas, muito ao contrário, a vontade neles está ausente, porque a vontade consiste em ser senhor de sua escolha, quer dizer, em definitivo, senhor de si, enquanto que os obsedados são comandados e dirigidos por sua idéia fixa.
c) A obstinação. Este caso pode ser comparado ao da obsessão: os obstinados são aqueles a que ninguém pode fazer desaferrar-se de suas idéias ou de seus caprichos. Esta é uma espécie de obsessão. E a obstinação manifesta muito mais a impotência da vontade do que uma verdadeira vontade: provém da exaltação malsã dos instintos de afirmação de si e contradição de outrem e são estes instintos que dominam o obstinado, quando a vontade é que os deveria dominar.
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Fonte

JOLIVET, Régis. A atividade voluntária. Disponível em: . Acesso em: 21 jan. 2008.







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