A alegria na escola



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Encontro09.07.2018
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A ALEGRIA NA ESCOLA
1. Alegria e alegrias culturais
Para circunscrever o tema da alegria ousaria apoiar-me em Spinoza: "a alegria é a passagem de uma perfeição menor a uma perfeição maior".

E entrevejo assim coisas que me tocam diretamente: ali onde há alegria, há um passo à frente, crescimento da personalidade no seu conjunto. Cm sucesso foi atingido e a alegria é tanto maior quanto o sucesso é mais válido.

Por oposição, de um lado, à tristeza, na qual o indivíduo é obrigado a restringir-se, reduzir-se, economizar-se. Por oposição também ao prazer: satisfação de tal desejo, alegria parcial e não central; momentos descontínuos de prazer, como o encanto de se sentir, em tal instante, bem na sua pele. E uma vez que estou no século XVII, retomarei em Descartes a distinção entre alegria e prazer: "(Nao é) sempre quando se está mais alegre que se tem o espírito mais satisfeito; bem ao contrário, as grandes alegrias são comumente melancólicas e sérias, e apenas as alegrias medíocres e passageiras são acompanhadas do riso".

Na alegria, é a totalidade da pessoa que progride - e, em relação à totalidade da vida: sentir, compreender, força de agir,



A cultura da satisfação - Quero afirmar que há cultura da satisfação, ou melhor, que há culturas capazes de dar satisfação. Isso significa que a caminhada em direção à verdade, à apreensão do real, dá mais satisfação, abre mais esperança que permanecer na incoerência, no aproximativo, no indeciso.

Isso significa também que a satisfação da cultura pode e deve culminar em ação que mude alguma coisa no mundo, participe às forças que mudam alga no mundo.

Em suma, a alegria da cultura como que fortalecendo a confiança em mm mesmo, a confiança na vida; amar mais o mundo, apreendê-lo como mais estimulante, mais acolhedor.

Quem ousa falar de satisfação? - Mas evocar a satisfação lança-me numa encruzilhada de dificuldades; inicialmente quanto à satisfação mesmo: ousar afirmar a satisfarão, que somos capazes de ter satisfação, que podemos pretender a satisfação: ousarei dizer que o mundo de hoje é favorável à satisfação, e que não devemos renunciar a ela, abdicá-la.

A destreza na escala universal, catástrofes, insucessos, esperanças decepcionadas; em mm mesmo, dor de envelhecer, minhas longas meditações de culpa e de fraqueza; ao meu redor, a extrema dificuldade de comunicar-me com os que me são mais caros, talvez justamente porque me sejam queridos. E quero dizer que há lugar para a satisfarão. Mais precisamente, quero indicar a cultura como satisfação, como um dos meios de conquistar a satisfação.

Será que a cultura não provoca antes inquietude, dilaceramento que satisfação? Será que realmente são os mais cultos que são os mais felizes? Nao seria, ao contrário, os "simples" que vivem os prazeres simples?

O escândalo da satisfação - E mesmo se houvesse satisfação na cultura, essa satisfação não seria um escândalo? As obras de cultura elaborada de que espero ter satisfação não são obras populares; na verdade, ouvir Mozart separa-me da massa de meus contemporâneos - e faço parte então de pequenos grupos de "elite" dos quais sei bem que seus projetos de ação batem muito raramente com os meus.

Escândalo por eu querer ser feliz, no momento em que tantos sofrem; esta famosa satisfação nao e ela atingida em detrimento dos outros, tomada sobre o direito de viver dos outros? E desde então meu conforto, mas também esses refinamentos de concertos, diante de todos os que têm fome... Sou solidário, sou cúmplice pelo menos por minhas aceitações e meus silêncios de um mundo que condena milhões a infelicidade. Vou tentar ser feliz entre os oprimidos ou estou condenado a ignorar a alegria, e por muito, muito tempo?



Mas também a eficácia da satisfação - Devo portanto procurar ao mesmo tempo uma cultura que não termine em tristeza, em decepção e que possa ao menos esperar estabelecer comunicação com as massas, e por ai mesmo cooperar com sua ação. Uma satisfação comum de comunicação, comunitária.

É precisamente para não esquecer a infelicidade dos outros, para ter a força para participar das lutas, que tenho necessidade da satisfação, que vou esforçar-me para atingir a satisfação. Satisfações bem intensas para me fazer sentir que vale a pena viver, satisfações da cultura que me farão sentir o possível desabrochar do homem, o escândalo de sua sorte atual, um apelo à harmonia, uma exigência de harmonia, e a satisfação de persuadir-me de que sou capaz de juntar-me a esses esforços.

Que posso oferecer a meus colegas se eu não soube construir para mm algo que já é preciso chamar de satisfação? Na procura desvairada do prazer, Gide percebeu-o bem: "Há na terra tais imensidões de miséria, de infortúnio... que o homem feliz não pode pensar em sua felicidade sem sentir vergonha dela. E, no entanto, nada pode pela felicidade outrem, aquele que nao sabe ser feliz ele próprio''.

E mesmo o valor progressista da satisfação - Os homens não são felizes, absolutamente tão felizes como poderiam ser - e é bem por isso que este mundo, esta sociedade devem ser transformados: os que têm muita confiança nos homens, muita esperança na possibilidade de serem felizes, só eles podem tomar parte nos avanços revolucionários; não será isto o mesmo que dizer que eles se aproximam desde agora de um certo tipo de satisfação? Quando Engels grita "o direito da vocação a felicidade", nunca nos preocuparmos com as classes oprimidas: escravos, servos, proletários, não faz sentir a importância revolucionária que se coloca em relação ao problema da alegria - e para todos?

Os momentos de queda - A satisfação, a satisfação cultural, sonho que ela constitua a armação da minha vida, mas não posso ter esperança de me manter continuamente neste nível; haverá passagens com vazio, quedas e provavelmente também muitos esforços para reconquistar q domínio de si mesmo, contra as tentações de deixar ir, deixar cair, de resignar-se a colher um pouco do prazer e dos abandonos consentidos.

Satisfação dolorosa - Esta satisfação cultural comporta a luta para que maior É uma alegria sempre incerta a ser mantida a muque, perdida, dissimulada no desalento, e, apesar de tudo, de novo, ela é um fim para o qual nos dirigimos.

Satisfação dolorosa, trágica, da qual a angústia nunca está ausente, nada que se assemelhe menos à calma uniforme, à banalidade da calma.

Estamos à procura de... nunca possuidores estáveis, nem assegurados pela satisfação. Minhas satisfaç8es, pude experimentá-las antes da Revolução, mas não fora do movimento que vai em direção à Revolução. Refletindo sobre minhas satisfações, percebi que elas queriam ser progressistas.
2. Uma escola não "totalitária"
A riqueza da vida dos jovens é sua variedade, sua diversidade e a multiplicidade dos tipos de alegrias. Os jovens vivem pelo menos em quatro ambientes: a família, a escola, a vida quotidiana com os colegas e as colegas e a formação fora da escola: ela mesma pode se desenrolar nas atividades seja organizadas (a saber esportes dirigidos, animações, cursos mais ou menos assegurados) seja escolhidas de modo esporádico: jogar um jogo, ler determinado livro, ver determinado filme, fazer pequenos reparos, etc.

Cada ambiente tem sua riqueza específica, seus tipos de exigências, seus modos de progresso; penso que é essencial que nenhum se deixe invadir pelos outros, que nenhum queira absorver tudo, englobar tudo; nem estender seu domínio a outros nem anularem-se em outros. Cada um deve oferecer ao jovem suas possibilidades diferenciadas - e assim complementares.

Sempre se diz que não é preciso cortar a criança em rodelas de salsicha, que ela é caracterizada pela unidade de sua pessoa. Mas a abundância desta unidade está em participar, de modo diferente, em setores de vida diferentes. Aliás o melhor modo de aproveitar uma salsicha é ainda assim cortá-la.

Em particular toda educação não pode, não deve ser feita na escola, pela escola. A escola imprime sua marca particular sobre uma parte da vida e da cultura do jovem: ela se dá como tarefa o encontro com o genial - e o máximo de sua ambição é que quer

este encontro para todos.

Há muitos outros momentos da vida em que nao temos tais objetivos, em que partimos simplesmente de novos gostos, de nosso desejo; podemos então também encontrar o genial, lançarmo-nos no museu de Louvre, na maioria das vezes não pretenderemos ir tão longe, há muitas possibilidades para que nao se vá tão longe - e assim está muito bem. Do mesmo modo nao temos necessidades da obrigação, recusamos a obrigação.

A escola, minha escola tem como objetivo extrair alegria do obrigatório. O que justifica que se vá à escola (evidentemente fora da preparação para o futuro, mas é preciso lembrar que, por hipótese, estou proibido de evocá-lo?) é que ela suscita uma alegria específica: a alegria da cultura elaborada, o confronto com o mais bem-sucedido; o que exige condições particulares do sistemático: o que pode ser fácil, dai o recurso necessário ao obrigatório. O problema Todo é que os alunos sentem efetivamente a instituição como dirigida para a alegria - e uma alegria que quase não se poderia atingir de outra maneira.

Eu gostaria de uma escola que tivesse a audácia, que corresse o risco de assumir sua especificidade, jogar totalmente a carta de sua especificidade. Uma das causas do mal-estar atual parece-me ser que a escola quer beber em todos os copos: ensinar o sistemático, mas também deleitar-se com o disperso, com o acaso dos encontros; recorrer ao obrigatório, mas ela tenta dissimulá-lo sob aparências de livre escolha. Em particular a escola, freqüentemente ciosa dos sucessos da animação, cobiça suas fórmulas mais suaves, mais agradáveis - mas ela é na verdade obrigada a constatar que inadequadas para ensinar álgebra ou para chegar até Mozart.



Direi até que isso não me parece um elogio concedido à escola que os alunos chegam a confundir a classe com a recreação, o jogo com o trabalho, que eles queiram prolongar a classe como uma recreação, retornar à escola como a um lazer; pois realmente é à escola que eles retornam? Temo que a escola tenha abandonado seu próprio papel - reconhecendo-se precisamente que tem certos momentos, para certos alunos pode ser indicado introduzir elementos de brincadeira, momentos de distração, com a condição de que não se esqueça que estes são estimulantes intermediários, destinados a ser temporários.
SNYDERS, Georges. A alegria na escola. São Paulo, Manole, 1988.

In GADOTTI, Moacir. História da Idéias Pedagógicas. São Paulo, Ática, 1993





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