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UFPB-PRG XII Encontro de Iniciação à Docência



2CCHLADLCVMT01

A AVALIAÇÃO ESTÉTICA NAS OBRAS INFANTO-JUVENIS

Bruna Belmont de Oliveira(1); Ana Cristina Marinho Lúcio(3)

Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes/Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas/

MONITORIA


RESUMO
Esse texto tem como objetivo abordar algumas questões presentes na avaliação estética da obra literária Infanto-Juvenil. Refletiremos sobre as delimitações do gênero literatura infantojuvenil(Cademartori, 1986); a efemeridade e a eternidade das obras (Resende, 2001), além de uma série de indagações sobre o que é um livro de qualidade (Oliveira, 2005). As discussões apresentadas no texto foram surgindo ao longo de uma experiência de leitura e análise de obras voltadas para o público infantil e juvenil que fazem parte do acervo da Sala de Leitura para Ensino Fundamental e Médio, da Biblioteca Central/UFPB.
Palavras-chave: Literatura infanto-juvenil, qualidade estética, leitura
INTRODUÇÃO
Este artigo tem por interesse abordar as questões presentes na avaliação estética da obra literária Infanto-Juvenil. Parafraseando Antonio Candido em “A literatura e a formação do homem” (1972), o texto literário é um dos maiores instrumentos capazes de atuar na formação dos indivíduos suprindo uma de suas necessidades mais elementares: a necessidade universal

da ficção. As criações ficcionais – desde as mais simples como o mito, a lenda, o provérbio e o

conto – estão organizadas em sua estrutura de maneira a atuar de modo subconsciente e inconsciente. Assim, nos tornam capazes de ordenar nossa própria mente e sentimentos, na medida em que dialogamos com o texto enquanto leitores. Num primeiro momento, abordaremos a importância da qualidade estética da obra, refletindo acerca da denominação do gênero – a partir do texto de Lígia Cademartori (O que é Literatura infantil); procurando entender o que faz a efemeridade e a eternidade das obras, bem como a sua importância na formação das crianças e jovens – com o texto de Vânia Resende sobre a relação entre literatura, afeto e memória (Ética, Estética e Afeto na literatura para crianças e jovens). A seguir, tentaremos estabelecer o que é um livro de qualidade – tomando por base algumas discussões presentes no livro O que é qualidade em literatura infantil e juvenil? Com a palavra, o escritor, organizado por Ieda de Oliveira. Será necessário o apontamento dos critérios que devem ser considerados na avaliação, para isso, dividimos este momento em Projeto Gráfico-Editorial e Qualidade do texto. Acreditamos que a discussão dessas questões é essencial para uma avaliação estética consciente das obras infanto-juvenis
1. A IMPORTÂNCIA DA QUALIDADE ESTÉTICA NA OBRA
Quando denominamos a literatura como infantil e juvenil, estamos nos referindo àquela literatura dirigida ao público de menor idade, porém, esse direcionamento não implica necessariamente o distanciamento do adulto. Muito pelo contrário, além de ser responsável por

construí-la e veiculá-la, está sujeito às mesmas condições existenciais das crianças e dos jovens. A criança, o adolescente e o adulto, quando vistos sob uma concepção de totalidade, coexistem. 1 A questão da separação por faixa-etária encontra-se inconsistente, pois que o que

define o alcance intelectual do indivíduo é a sua experiência de vida e não a sua idade. Consideramos um equívoco a mera facilitação da linguagem com o intuito de atender aos leitores infanto-juvenis. Segundo Ricardo Azevedo, não existe linguagem indicada pra essa ou aquela faixa de idade, o que existe são linguagens mais públicas e menos públicas:
Uma certa literatura culta ou erudita, por exemplo, pode ser dar ao luxo de abordar temas e visões do mundo solipsistas, originais, idiossincráticos ou recorrer a uma linguagem experimental, fragmentada e inventiva (...) Naturalmente não se trata de uma literatura “para adultos”, pois ela é inacessível à grande maioria deles. É, isto sim, uma literatura elitista, exclusivista, rebuscada, criada pra ser analisada e interpretada por poucos leitores, altamente especializados. De outro lado, temos uma heterogênea e diversificada literatura popular (...) aborda temas humanos amplos da vida concreta (...) os assuntos tendem a ser abordados através de um ponto de vista geral que privilegia as angústias e perplexidades relativas ao “nós” e não ao “eu”. 2 (OLIVEIRA, 2005, p. 39-40).
É a partir da abordagem dos temas humanos universais, organizados numa estrutura ficcional - seja ela o mito, o provérbio, o conto, o romance – que a literatura atua sistematizando a fantasia, nos tornando capazes de ordenar nossa própria mente e sentimentos, na medida em que dialogamos com o texto enquanto leitores (CANDIDO, 1972).

A Literatura tem papel fundamental na nossa formação e é na infância e adolescência – momentos em que vamos construindo a nossa identidade e formando nossos conceitos – que

ela deve estar presente nos interrogando, nos auxiliando, nos educando, ampliando o nosso conhecimento sobre o mundo e sobre nós mesmos. Bartolomeu Campos de Queirós usa citação de Abgar Renault quando se refere ao diálogo subjetivo que se dá entre a criança e a obra literária, possibilitando a construção no momento da leitura.

A criança, sendo um ser que constrói, depende de um material de boa qualidade para construir. O conto, sob qualquer das formas, é um material excelente para a sua criação e para a construção de si mesma (OLIVEIRA, p. 172).

1 Idéia presente no artigo de Vânia Resende: Literatura, Afeto e Memória. In: SERRA, Elizabeth D´Angelo. Ética, estética e afeto na literatura para crianças e jovens. São Paulo: Global, 2001. 2 AZEVEDO, Ricardo. Aspectos Instigantes da Literatura Infanto-Juvenil. In: OLIVEIRA, Ieda de (org.). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil? Com a palavra, o escritor. São Paulo: DCL, 2005.
Dessa forma, não se deve poupar à criança temas como o preconceito, a miséria, a morte, a solidão, com o intuito de evitar que ela encare esses conflitos, uma vez que não tenha maturidade suficiente. Esse pensamento age subestimando a capacidade de compreensão da

criança, pois, esta consegue alcançar tais conflitos, desde que lhes sejam apresentados de maneira natural. Temas que tratam da nossa contradição humana fazem parte da vida de todos

os indivíduos e não há razão para negá-los aos leitores infanto-juvenis. O grande desafio é conseguir unir numa obra infanto-juvenil a fantasia com a criatividade e a naturalidade – na

riqueza da forma e conteúdo. Segundo Ieda de Oliveira (2005), “A criança (...) tende a ter um universo menor que o do adulto que a produz, ‘com limitações de léxico, de sintaxe e de visão de mundo’, o que reduz a margem de manobra do autor, aumentando o seu desafio. 3” (destaque nosso). A autora chama por margem de manobra a exploração das liberdades oferecidas pelo contrato de comunicação e até a própria transgressão de suas cláusulas, com a consequente criação de um novo contrato. Vânia Resende (2001) procura estabelecer uma comparação entre as obras que possuem significado efêmero e as obras que atravessam os tempos. Aquelas preenchem uma finalidade temporária, pois, com o amadurecimento do leitor, tornam-se artisticamente insustentáveis, incorporadas apenas à sua memória afetiva. Já as obras eternas, por terem duradoura validade estética, ultrapassam os limites cronológicos e, independente do amadurecimento do leitor, são sempre redescobertas. Propiciar o contato das crianças com obras desta qualidade é um investimento de valor imensurável.


2. AVALIANDO AS OBRAS LITERÁRIAS INFANTO-JUVENIS
No momento da avaliação estética de um livro infanto-juvenil, deve-se atentar para cada detalhe que compõe a obra como um todo. Podemos dividir a avaliação em duas partes: primeiramente apontaremos os critérios a serem analisados no projeto gráfico-editorial para,em seguida, apontarmos os que envolvem a qualidade do texto.
2.1 Projeto gráfico-editorial

Neste espaço, levam-se em consideração as condições de leitura do texto tanto relativas à impressão - relação texto-imagem, escolha da fonte e corpo, espaçamento – e adequação do papel, como à presença de paratextos - orelha, capa, quarta-capa, encartes. Estes podem vir a enriquecer e estimular a leitura ao passo que nos oferecem informações 3 Em Ieda de Oliveira: Contrato de Comunicação. In: OLIVEIRA, Ieda de (org.). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil? Com a palavra, o escritor. São Paulo: DCL, 2005. preciosas, contextualizando a obra e o autor (em se tratando das biografias) no universo literário. Outro critério importante a ser avaliado, de grande significação na qualidade do livro, é a ilustração, seja ela desenho, colagem, pintura ou fotografia. Cabe aqui uma leitura mais ampla da ilustração o que nos faz antecipar a análise da qualidade do texto. As ilustrações presentes no livro devem dialogar com o texto, ampliando as suas possibilidades significativas, independente do grau de relação texto-imagem. Com relação ao texto poético, Ricardo Azevedo (2005) alerta para o fato de que “não resta outra saída ao ilustrador do que apelar para imagens subjetivas, metafóricas, poéticas, arbitrárias, fantasiosas, simbólicas, analógicas e ambíguas.”.

Ligia Cademartori comenta sobre os livros sem texto e o quanto eles são estimulantes e importantes para as crianças que ainda não decodificam o signo verbal: uma vez que a percepção visual é uma experiência com função ordenadora sobre as demais, a acreditarmos em Freud. Através da imagem visual, os livros sem texto estimulam o interesse ativo da mente em relação ao objeto. Recorrendo à percepção visual para chegar ao pensamento, os signos visuais, através de suas propriedades, induzem conceitos (...) é, portanto, uma etapa básica e importante do desenvolvimento que a leitura requer. (1986, P.52-53).
2.2 Qualidade do texto
Nessa parte avalia-se a qualidade literária do texto e a sua qualidade de interação com o leitor. Acreditamos que o ponto principal para a avaliação da qualidade estética da obra é a linguagem do texto e seus recursos narrativos ou poéticos com o uso de neologismos, jogo com as palavras, brincadeira com as idéias – tanto no texto narrativo como poético.

Vânia Resende faz uma breve referência quanto a este gênero:O jogo da linguagem operado pela poesia resulta em sutilezas e sensualidade mais palpável (...) concentram em menor espaço de expressão ritmos sonoros e outros, simbolizados e contidos nele, realizando-se, assim, a afinação da sonoridade lúdica com a tematização do essencial que afeta o íntimo do leitor. (2001, p. 93-94) Não só a linguagem, mas o tempo, o espaço, a voz da narrativa e os personagens, são elementos que devem ter existência harmônica dentro da narrativa, numa constante coerência que possibilita a verossimilhança interna na obra. Um dos critérios avaliativos se refere à questão dos estereótipos. Na busca do caráter moralizante com tom de ensinamento – de acordo com a visão pedagógica do mundo – encontramos, em muitas obras da LIJ, a representação dos discursos autoritários, na maioria das vezes, impregnados nas vozes dos personagens. Podemos constatar que muitos dos livros ainda mantêm esse caráter e, na tentativa de uma “preservação” de alguns valores, trazem consigo traços estereotipados. Para citar alguns exemplos: a representação da instituição familiar realizada, com cada membro da família exercendo seu papel; o pai, geralmente médico, engenheiro, é forte, bonito, está sempre arrumado para o trabalho e disposto a ajudar o filho; a mãe é jovem, bonita, meiga, arrumada, dona de casa, aparece cozinhando ou dando conta de algum afazer doméstico e está pronta para ajudar e acolher o filho; as pessoas “más” são sempre associadas ao afastamento físico (monstros, bruxas) e no caso de ladrões, vigaristas, além de não serem fisicamente agradáveis, nunca são representados por pessoas que tem poder aquisitivo; as mocinhas e os mocinhos são sempre bondosos e belos, sem imperfeições. Geralmente as princesas têm traços europeus, sendo sempre brancas, loiras, com olhos claros e rosto delicado (ABRAMOVICH, 1989). Quanto à qualidade de interação com o leitor, um aspecto positivo da obra é propiciar uma experiência significativa de leitura autônoma ou mediada, dependendo do grau de abertura do texto. Ligia Cademartori trata de alguns textos monológicos e de outros em que há um diálogo entre narrador e leitor: O entrecruzamento dessas duas vozes, juntamente a outras a que o texto pode dar espaço, não traria o caos, a dificuldade de compreensão, mas uma abertura para que muitas vozes se organizem – sufocando o discurso pedagógico persuasivo – e permitindo unidade na diversidade (...) o monólogo, ignorando o outro, não dá margem a questões, pretende-se uma

única resposta (...) Ao leitor, nenhum espaço que permita a interlocução, nenhuma margem a que, de modo diverso, interprete o que o narrador quer dizer. Este, buscando persuadir, monologa. (1986, p. 24, 25, 26.) Uma obra que seja positiva na interação com o leitor, o mobiliza fazendo com que dialogue com o texto e amplie as suas referências estéticas, culturais e éticas, contribuindo para a reflexão sobre a realidade, sobre si mesmo e sobre o outro.
4. CONCLUSÃO
Escrever um livro com o qual o público infanto-juvenil se identifique, requer muita responsabilidade, pois não é uma tarefa simples e deve atender a certas exigências. As relações emocionais suscitadas pelo contato das crianças e jovens com uma literatura de qualidade, servem de impulso para o desenvolvimento “arejado da mente, cuja percepção tenderá a apreender e a expressar-se equilibradamente, em consonância com o amadurecimento da consciência, que respaldará relações vigorosamente criativas e sensíveis da subjetividade com o mundo exterior ao longo da vida.” (RESENDE, 2001, p.86). Uma obra que emocione, surpreenda, encante, motive o leitor, apresentando um conjunto gráfico-editorial bem sucedido e um texto de boa qualidade, é um instrumento poderoso na formação das crianças e jovens. A LIJ pode ser lida em qualquer idade, o quemuda é o direcionamento ao público infanto-juvenil que inicia seu contato precioso com o mundo da leitura através dessas obras. Portanto, é de extrema importância que tais obras apresentem uma boa qualidade estética.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989.

CADEMARTORI, Lígia. O que é Literatura infantil. São Paulo: Brasiliense, 1986.

CANDIDO, Antonio. “A literatura e a formação do homem”. Ciência e Cultura, 24(9), p.803-9,

set. 1972.

OLIVEIRA, Ieda de (org.). O que é qualidade em literatura infantil e juvenil? Com a palavra, o



escritor. São Paulo: DCL, 2005.

RESENDE, Vânia Maria. Literatura, Afeto e Memória. In: SERRA, Elizabeth D´Angelo. Ética,



estética e afeto na literatura para crianças e jovens. São Paulo: Global, 2001.

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1) Bolsista, (2) Voluntário/colaborador, (3) Orientador/Coordenador, (4) Prof. colaborador, (5) Técnico colaborador.





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