2 literatura de cordel: percurso histórico



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A LITERATURA DE CORDEL COMO FONTE INFORMACIONAL1

Sale Mário Gaudêncio – Bacharel em Biblioteconomia UFRN – Bibliotecário da Pastoral de Jovens – Parnamirim – RN – email salleh_mario@yahoo.com.br


– Eliane Ferreira da Silva – Doutora em Educação /UFRN, Profª Departamento de Biblioteconomia / UFRN –email abílio_silva@uol.com.br

Antonia de Freitas Neta – Mestre em Biblioteconomia/UFPB- Profª Departamento de Biblioteconomia / UFRN –email antonianeta@yahoo.com.br

Maria do Socorro de Azevedo Borba - Mestre em Biblioteconomia/ PUCCAMP/SP – Profª Departamento Biblioteconomia – UFRN - – email sosborba@yahoo.com.br

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN


Centro de Ciências Sociais Aplicadas – CCSA

Departamento de Biblioteconomia – Curso de Biblioteconomia

Campus Universitário Lagoa Nova

CEP 59072-970 Natal - RN – Brasil/ (84) 3215 3515/ 3215 3516


RESUMO



Apresenta uma caracterização geral da literatura popular objetivando analisar o nível de importância que vem sendo dada à literatura de cordel como fonte informacional no Rio Grande do Norte. Enfoca sua trajetória da Europa até o Brasil, levando em conta seu fortalecimento no nordeste brasileiro. Descreve o cordel a partir de um cenário que trata das décadas de ouro (1920-1950), do cordel e sua forma de classificar, de sua influência nas belas artes e do cordel no atual cenário potiguar. Mostra o que seja fonte de informação e a partir dessa ótica, o cordel como fonte de informação e o papel bibliotecário neste processo. Discorre sobre os procedimentos metodológicos trabalhados através uma discussão em torno de como fôra trabalhada a pesquisa, seu universo, seus atores, instrumentos (pesquisa bibliográfica, eletrônica e realização de entrevista focalizada) e seus procedimentos. Trabalha a análise dos dados a partir da relação cordel e cordelista e cordel e biblioteca. Com os dados, pôde fazer uma analise qualitativa dos resultados e identificar a atual situação do cordel no estado potiguar. Conclui apontando um parecer, as perspectivas e faz recomendações para a literatura de cordel no RN.

Descritores: Literatura de Cordel. Fonte de Informação. Cultura Popular.
1 INTRODUÇÃO

Historicamente, o nordeste brasileiro tem se mostrado como um “berçário” das mais variadas riquezas culturais existentes em sua região, e dentro desse contexto está a literatura de cordel, que a partir da expansão européia no Brasil torna-se uma manifestação artístico-cultural de extrema significância para o povo brasileiro. A literatura de cordel é de suma relevância para a sociedade brasileira, podendo permear questões no âmbito econômico, social, religioso, histórico e científico. Pensando nisso e atraído pelo que é postulado na ementa da disciplina Organização e Tratamento de Materiais Especiais (OTME), em virtude do que dizia respeito a literatura de cordel como material especial e da avaliação, foi percebida a necessidade e a motivação de realizar uma pesquisa em torno da literatura de cordel tendo como foco principal, Identificar sua importância social-informacional e que conseqüentemente podesse contribuir para a produção acadêmica. Tem como objetivo geral: analisar o nível de importância que vem sendo dada à literatura de cordel como fonte informacional no estado do Rio Grande do Norte e como objetivos específicos: Analisar o cordel, desde sua chegada no Brasil até os dias atuais, percebendo sua importância no nordeste e RN; Construir uma proposta do que seja fonte de informação, levando em conta o cordel e o papel do bibliotecário nesse contexto; Fazer análise dos dados em torno de cordelistas e instituições que lidam com cordel; Realizar parecer e fazer recomendações, dando “norte” para ações práticas.

2 LITERATURA DE CORDEL

Entende-se por literatura de cordel, como sendo uma manifestação


artístico-cultural da cultura popular que registra a história e a trajetória de um povo, assim como, caracteriza-se por uma ação poética que dá vida à sociedade. É de fato, uma das mais ricas particularidades da cultura brasileira e mundial. Segundo Viana (2005)1, “a poesia popular impressa, denominada literatura de cordel, é uma das mais legítimas expressões culturais do povo nordestino”. Cascudo (2001, p. 331) reitera dizendo que a também chamada literatura popular é “[...] tipicamente impressa, não exclui a passagem à oralidade. É veiculada por meio de folhetos que abordam os mais variados assuntos.

A partir de Leandro Gomes de Barros, no final do século do século XIX, o cordel toma corpo, constrói um espaço de representação e de ampliação das manifestações populares. De acordo com Abreu (1999, p. 75) “embora não fossem cantadores, [...] Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista2, são pioneiros na impressão de folhetos. Ainda no século XIX, fora da serra do Teixeira, outros também cantavam e incorporaram-se à tradição3”. O cordel se enraíza no nordeste brasileiro em função de diversos aspectos, respectivamente: A questão étnica, que é de grande relevância desde a mais tenra idade da devida colonização brasileira; a falta de acesso conhecimento produzido, deixado apenas para os senhores de engenho, os coronéis, políticos e seus familiares; de haver neste nordeste, marcado pela seca, um ambiente basicamente ruralista, onde a forma e maneira de produzir, passavam diretamente por uma cultura de subsistência humana e por que havia neste espaço situações marcadas por um forte messianismo4, um patriarquismo ortoxo, as peripécias do cangaço, do assistencialismo político, em especial com a indústria da seca. Desta maneira, o cordel não só, torna-se um grande instrumento de apoio e de grito para a cultura popular brasileira, mas, é visto como o refúgio, o aporte, o complemento para uma vida sofrida de mãos calejadas pela “lida” camponesa.

Em virtude deste cenário, Abreu (1999), coloca que, entre o final do século XIX e os anos 20, a literatura de folhetos consolida-se: definem-se as características gráficas, o processo de composição, edição e comercialização e constitui-se um público para essa literatura. Nada nesse processo parece lembrar a literatura de cordel portuguesa. Aqui, havia autores que viviam de compor e vender versos; os autores e parcela significativa do público pertenciam às camadas populares; os folhetos guardavam fortes vínculos com a tradição oral, no interior da qual criaram sua maneira de fazer versos; boa parte dos folhetos tematizavam o cotidiano nordestino; os poetas eram proprietários de sua obra, podendo vendê-la a editores, que por sua vez também eram autores de folhetos.

2.1 O CORDEL E SUA FORMA DE CLASSIFICAR

Objetivando facilitar o uso, o manuseio e fortalecer sua concepção estrutural/organizacional, grandes personalidades da cultura popular também têm contribuído para a construção de modelos de classificação. Um exemplo disso é a concepção de Ariano Suassuna e Cavalcanti Proença, dois dos maiores pesquisadores e escritores da contemporaneidade no campo da literatura de cordel. Eles não são os únicos que escrevem sobre classificação cordelistica, porém, é acreditado segundo vários teóricos, que esta forma de classificar condensa e sistematiza várias outras já propostas.

São inúmeras as possibilidades de utilizar as produções poéticas no contexto das classificações, em especial desta. Leandro Gomes de Barros, a partir desta proposição classificatória consegue se inserir em praticamente todas as possíveis formas.


2.2 A INFLUÊNCIA DO CORDEL NAS BELAS ARTES


Na literatura dita elaborada, já através dos teatros de Gil Vicente, são visíveis expressões do cotidiano popular, assim como em partes da obra Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes. Localmente se tem vários trabalhos inspirados na literatura popular, como o Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, Macunaíma de Mário de Andrade, Jeca Tatuzinho de Monteiro Lobato, Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto entre outros. No cinema, filmes que retratam a tônica do cangaço, o paisagismo sertanejo e o semblante popular são marcas nessa composição poética através das telas. Segundo Maxado (1980, p. 122) o cordel foi tema exclusivo no filme no “Nordeste, Cordel e Repente”, de Tânia Quaresma. Na música, são vários os estilos musicais que ao longo da história vem retratando os folhetos dentro das composições musicais. A exemplo disso, estão os estilos Regionalistas (Baião, Xaxado, Xote e Forró), a MPB e o Mangue Beat. Quanto as artes plásticas, elas se desnudaram para mostrar a face da cultura popular. Em muitos casos, o processo se deu pelas vias da chamada cultura elaborada ou erudita. As xilogravuras, expressões artísticas das capas de folhetos foram inspiradoras para vários pintores e expositores no Brasil.

Mesmo tendo passado por uma fase não muito confortável, iniciada na década de 1960 até o final do século passado, os cordéis e seus produtores tem encontrado forças para resistir aos múltiplos acontecimentos que surgem em torno da literatura de cordel. Mesmo assim, o cordel é no momento memória viva, desmontando inclusive uma vaga teoria de que a literatura popular “iria acabar um dia”. Os espaços mudaram, porém à vontade de trabalhar o elemento cordel tem, com o passar dos anos se intensificado. A cada dia novas pesquisas têm surgido, o público se diversifica e conseqüentemente a difusão da informação cordelistica tem se espalhado pelo Rio Grande do Norte, Nordeste e Brasil. A exemplo disso, estão as pesquisas que são desenvolvidas no âmbito da graduação e pós-graduação, através de grupos de estudo e pesquisa. O cordel é presença no meio popular e a cada dia tem se colocado em situação de destaque no contexto das construções científicas. Fortalecendo esta afirmação, Cardoso (apud FERREIRA 2003), mostra que “[...] essa temática já é presença marcante em vários congressos [...], fazendo da literatura popular um constante objeto de estudo científico”. Nesse contexto, evidencia-se também o trabalho das escolas, a figura dos cordelistas, dos grupos de estudos, da abertura de novos espaços para a comercialização, das oficinas de iniciação ao cordel, das iniciativas institucionais, do surgimento de tipografias (editoras) e do surgimento de novos poetas.



3 O CORDEL COMO FONTE DE INFORMAÇÃO

Desde os inscritos rupestres à eletrônica, passando pela oralidade, invenção da imprensa e explosão bibliográfica as sociedades participantes tem se mostrado como sujeitos contribuintes no dinamizar, criar e/ou melhorar fontes informacionais. Atualmente vem se dando conta que a informação é um instrumento estratégico de apoio às ciências e as tomadas de decisão. Dessa forma, segundo Galvão (2001, p. 182) “vários estudos [...] apontam a função informativa como uma das mais importantes desempenhadas pela literatura de cordel”. É visto que os folhetos são de fato uma fonte de informação real que de uma maneira ou outra tem incansavelmente contribuído para ajudar no processo de educação continuada, iniciação à instrução, por motivar a descoberta do lúdico e do imaginário junto às camadas populares em especial. Mas também à aquelas que usam do estruturalismo e da concepção do cordel para desenvolver pesquisas/ trabalhos. De acordo Galvão (2001, p. 184), o folheto também é, sobretudo, uma fonte de informação capaz de divertir. A habilidade do poeta em transformar a notícia em história, em narrativa, em fábula. Os folhetos têm proporcionado para as camadas populares e de interessados uma alternativa diferenciada e legítima de fazer com que estas fiquem por dentro dos fatos, de estarem alegres de terem forças para resistir às adversidades do seco nordeste brasileiro e/ou de preservar viva a memória dos folhetos.

O teor da informação a partir dos folhetos tem proporcionado abrir um leque de discussões, também em outros espaços, como da relação cordel com os meios de comunicação de massa e sua industria cultural. Galvão (2001, p. 183), coloca que “mesmo onde havia rádio, a literatura de cordel tinha um papel importante na divulgação de informações5”. Não muito diferente disso, o fato é que isso ocorre ainda hoje, ou seja, atualmente o cordel também tem se mostrado um “poço” rico de informações. É por isso que, mesmo com as influências e presença de agentes externos (rádio, televisão e internet), só os folhetos têm conseguido falar a língua, decodificar símbolos e signos de um mundo para este público bastante peculiar, o povo nordestino empobrecido ou os grupos sociais de interesse. Nem sempre os meios de comunicação de massa passam uma mensagem entendível aos olhos e ouvidos do povo sertanejo, do semi-árido brasileiro. Para os leitores /ouvintes dos folhetos, apenas será verdade a informação contida neles, caso contrário não valerá a pena dar atenção a outras, que por ventura possam surgir. Desta forma, Galvão (2001, p. 183) coloca que o sertanejo só acredita na notícia quando o folheto confirma. Essa também é a opinião de Luyten (1992 apud GALVÃO, 2001, p. 183), que afirma que “‘o homem do povo’ desconfia naturalmente das fontes oficiais de informação”.

Configurado estes espaços da leitura e edição de folhetos com a figura do poeta repórter6, o povo poderia acompanhar tudo que ocorresse em torno do mundo e da vida, mas com uma linguagem bastante peculiar. Havia maior credibilidade do povo com o poeta repórter do que em relação aos jornalistas de “canudo”, ou seja, os diplomados. E desta maneira, Suassuna (apud GALVÃO, 2001, p. 184) destaca que “na sua opinião, a dimensão propriamente literária e estética dos folhetos é, de fato, a mais importante”. Portanto, a partir destes elementos levantados, desde seu aparecimento até os dias atuais o cordel precisa continuar sendo visto como mais uma fonte real de informação para a sociedade.

3.1 O PAPEL BIBLIOTECÁRIO

Desde as mais simples até as mais avanças fontes informacionais o papel do bibliotecário é intenso, contínuo e extremamente importante. Do ponto de vista da organização do conhecimento produzido e da grande demanda de informações colocadas à disposição da humanidade o bibliotecário tem por característica controlar, filtrar e difundir um produto cada vez necessário para a subsistência humana, social e institucional, a informação. A idéia de construir uma sociedade mais justa, do ponto de vista, do acesso eqüitativo a informação, ou seja, da inclusão do indivíduo na sociedade da informação, passa necessariamente por criar condições capazes de contribuir para uma maior democratização da informação junto à sociedade atual. Este acesso, por conseguinte, não se dá apenas pelas vias das fontes tecnológicas de informação, mas por toda e qualquer iniciativa ou fonte que ajude no desenvolvimento da pessoa humana. É então nesse contexto que entra a intervenção das instituições e seus profissionais que lidam com informação. As bibliotecas e bibliotecários por exemplo, tem papel fundamental no democratizar o acesso a informação. Muitas bibliotecas, dentre seus acervos, estão hoje, pautando em suas tarefas trabalhar o cordel, e cada vez mais, contribuir para o enriquecimento pessoal do cliente, através do fortalecimento do trabalho lúdico (Ex. caso das peças teatrais que utilizam o acervo como fonte inspiradora), da valorização do imaginário (criando e recriando textos e histórias de ficção ou de cunho informativo), e do desnudamento institucional (melhorando de fato a relação instituição – público – comunidade). Sendo assim, e percebendo o poder “mutante” e de adaptação do profissional bibliotecário junto ao meio que ele está inserido, cabe então a ele se apropriar deste poço incessante de informação, conhecer e logo mais, difundir um produto informacional que mesmo alternativo pode ser diferenciado na vida e formação de muitos usuários da biblioteca, seja ela, pública, privada, escolar, universitária ou outras.



4 METODOLOGIA

As investigações foram prioritariamente trabalhadas na Biblioteca Central Zila Mamede-UFRN através de Bibliotecários 7 e de cordelistas potiguares Todos os pesquisados tem trabalhos desenvolvidos no campo da literatura de cordel.


5 ANÁLISE DOS DADOS8


Foi feita a partir dos resultados da entrevista de José Acaci e Zé Saldanha, ambos cordelistas. Portanto, o roteiro de entrevista girou em torno de sete questões.

Tabela 1 – Como tudo começou? O que motivou a escrever cordel?

Cordelista A9

Cordelista B10

  1. Inicialmente por Brincadeira;

  2. Pelo fato de ver cordéis de terceiros mal feitos (Métrica e Rima);

  3. Herança paterna

  1. Desde a meninice (Na escola todos tinham um cordel);

  2. De ver no cordel uma beleza diferente.

Visualiza-se que em ambos os casos os ambientes são de extrema importância para o fazer cordel e tornar-se cordelista. Pois enquanto o Cordelista A cresceu vivenciando a prática do cordel a partir de seu pai, o mestre Chico Ramalho, o segundo, Cordelista B tinha em seu espaço natural as condições propícias para o produzir cordéis. Os cenários/períodos que os fatos ocorreram foram diferentes, mais o fato de querer trabalhar com folhetos se dá na mesma intensidade e com isso a satisfação de produzir cordéis contribui não apenas para alimentar os anseios dos poetas, mas também engrandece e fortalece essa manifestação da cultura popular.

Tabela 2 – qual a importância do cordel para a sociedade contemporânea?

Cordelista A

Cordelista B

  1. De promover o cordel nas comunidades;

  2. O cordel está sendo utilizado no auxilio a educação formal.

a) O cordel está infiltrado por toda a literatura, por todas as ciências.

Nesta, é preciso analisar três aspectos diferentes, mas complementes. O cordelista A, diz que, o primeiro é o fator da promoção do cordel dentro das comunidades, o segundo de criar junto às escolas, redes de parcerias a fim de que cordel possa auxiliar o alunado na construção do conhecimento e da descoberta do lúdico, do artístico. Por fim, quando o cordelista B, fala que o cordel está infiltrado por toda a literatura, por todas as ciências, ele automaticamente, fortalece a importância dos folhetos não apenas para uma geração passada, mas também para uma população presente e futura. O cordel pode, segundo os cordelistas ampliar o leque de oportunidades quanto ao encontrar uma determinada informação, de forma clara especifica para um determinado público leitor, o cordel é uma alternativa diferenciada para a construção e disseminação do conhecimento.

Tabela 3 – Que dificuldades o cordelista enfrenta/ou?

Cordelista A

Cordelista B

Inicialmente:

  1. Pelo fato de estar na “batalha” há menos tempo que outros;

  2. De não haver experiência com edição de folhetos;

  3. Por não existir pessoas suficientes para produzir xilogravuras;

  4. A confecção tornou-se um tanto complicado.

  1. Com a chegada do rádio, TV e as telenovelas, houve um decréscimo significativo na propagação da literatura de cordel no Brasil (séc. XX);

  2. De não haver uma maior proteção dos Direitos Autorais;

  3. Poucas são as tipografias, ou seja, gráficas que querem imprimir folhetos11.

Na tabela 3, são evidenciadas duas situações um tanto diferente, porém importantes para entender os preâmbulos à vida cordelistica. O Cordelista A, ao falar de sua experiência inicial como poeta, deixa claro o quanto é trabalhoso iniciar um projeto como de um escritor e produtor de folhetos. Neste momento a relação direta e indireta com terceiros é muito importante para escrever os mesmos. É necessário construir espaços de interlocução e cooperação. Todavia, o Cordelista B, além de retomar a questão (produção), percebe-se que uma das grandes dificuldades enfrentadas, foi à necessidade de adaptar-se a chegada do rádio, TV e as telenovelas, assim como lidar com a ausência de proteção autoral e de políticas editoriais para editar folhetos.

Tabela 4 – Vale a pena produzir cordéis?

Cordelista A

Cordelista B

  1. Mesmo diante de eventuais dificuldades que possam surgir, vale a pena sim, produzir cordéis.




  1. Não compensa muito, contudo se produz por amor a arte popular;

  2. É melhor apreciado por “sulistas” do que por potiguares.

A partir desta tabela, percebe-se um choque de opiniões dos cordelistas, mesmo assim todos os aspectos são de extrema importância para esta análise com os poetas populares. Mesmo o cordelista A, falando o contrário do cordelista B, num aspecto eles são complementares, à vontade de escrever. Todavia, é importante fazer uma ressalva, ao responderem esta questão, olhar dado pelos escritores, é em relação ao retorno “financeiro”. Fato que não impede, o fazer cordel.

Tabela 5 – Como está a atual situação do cordel no estado?


Cordelista B

Atualmente melhorou bastante, pois os folhetos estão sendo lidos novamente por escolas e por universidades.

Ao cordelista fazer esta afirmativa, logo coloca em cheque a inverdade do cordel “acabar” como muitos assim o fazem e o chamam erroneamente de subliteratura. Sua colocação faz ver, que o cordel no Rio Grande do Norte está tão vivo como diversas outras manifestações culturais. Ao saber que o cordel hoje, está cada vez mais presente em escolas, é objeto de estudo de pesquisas em universidades, é instrumento de trabalho em instituições público/privado e que o povo tem buscado conhecer mais e mais o folheto, logo, é possível entender o quanto ele se fortaleceu, se espalhou e conseqüentemente tem se mostrado como uma fonte de informação das ricas que contribuem para engrandecimento dos mais variados atores sociais.

Tabela 6 – Qual é o sentimento/ recado ao produzir cordéis?


Cordelista B

  1. Os professores públicos/privados de ensino fundamental/médio estão cotidianamente necessitando e precisando de material para trabalhar em sala de aula;

  2. É preciso fazer um “negócio” mais avançado, algo que possa criar o hábito de escrita e leitura pelas vias do cordel, como: Cordel e Contos; Aprendendo a Fazer Cordel. Livros com um conteúdo mais denso;

  3. “Não deixe o cordel morrer!”.

Partindo da importância colocada na Tabela 5, e fortalecida pela Tabela 6, é visto que o poeta apresenta para a sociedade um cenário bastante desafiador, pois, agora além de escrever como antes, o cordelista deve criar junto às comunidades locais, estratégias capazes de propagar o cordel por áreas não conhecidas e intensificar trabalhos nas que são conhecidas. Fica evidente que três ações concretas podem ajudar neste processo. A primeira é fortalecer as oficinas (cordéis e xilogravuras), a segunda é aumentar o nível de produção de folhetos e livros que tratam do assunto literatura de cordel e é preciso “dar as mãos” e ampliar a rede de relacionamentos humanos e institucionais (produzindo pesquisa, gerando conhecimento e disseminando informação).

5.2 CORDEL X BIBLIOTECA: BIBLIOTECA CENTRAL ZILA MAMEDE (BCZM)12

A BCZM órgão central executivo, responsável pela administração, planejamento, coordenação e fiscalização das atividades do Sistema de Bibliotecas-SISBI da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A entrevista foi efetuada na instituição, ocorrida a partir da Seção de Coleções Especiais e da Direção da Biblioteca. Inicia com questionamento em torno de saber como tudo começou. O que motivou a biblioteca trabalhar a questão cordel. Logo a professora Medeiros (2005) coloca que “em 1980 o professor Diógenes da Cunha Lima, Reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte adquiriu um contingente de folhetos. Em 1998, sentindo a necessidade de sistematizar uma organização biblioteconômica, a instituição decide trabalhar na perspectiva de dar uma usabilidade maior quanto o acesso à coleção”. Anteriormente, professores através do projeto memória já tinham feito uma espécie de classificação prévia, trabalhada através dos “ciclos”. É justamente através destes trabalhos já efetivadas que a BCZM propõe não apenas facilitar o acesso dos produtos em suporte tradicional, mas também, em eletrônico. É a partir daí que surge a proposta do projeto “LitCord”. Este, tem como finalidade básica, disponibilizar através de CD-ROM e via WEB, todos os folhetos de cordéis existentes na unidade informacional.

Em virtude do fôra colocado, é possível dizer qual a importância do cordel para a sociedade contemporânea? Medeiros (2005) evidencia que hoje em dia “o cordel não seja visto apenas com foco a sua preservação e valorização, mas também, em relação a sua difusão no meio social”, onde diversos agentes estão diretamente inseridos no processo de disseminação informacional e do conhecimento produzido. De acordo com Medeiros (2005), três aspectos se tornaram significantes a este processo e aos procedimentos trabalhados, que foram à relação custo-benefício, a “ausência” de tecnologias de informação e o não identificar da temporalidade de alguns folhetos13 Nascimento e Medeiros (2005) colocam que “a instituição tem como público alvo alunos e pesquisadores”, mas os maiores usuários são os pesquisadores. Todavia, alguns acadêmicos infelizmente ainda não conhecem o que seja literatura de cordel14. Desta maneira, agora a questão é como se dá o processo de preservação e valorização do cordel. A partir das experiências das bibliotecárias, o processo se dá especialmente através do projeto LitCord, da organização do acervo e do compromisso de pessoal presente na biblioteca. O acervo tem uma periodicidade que varia entre 1911 e 1995. De acordo com Medeiros (2005) quantitativamente “o acervo em folhetos de cordéis chegam hoje a cerca de 3000 exemplares”.


6 CONSIDERAÇÕES E RECOMENDAÇÕES FINAIS


Conclui-se que a importância da literatura de cordel como fonte real de informação tem contribuído para o povo, desde sua chegada no Brasil até os dias atuais. É por isso, que os folhetos têm se apresentado como um espelho que reflete de maneira única o semblante de um povo, sua história, seus sofrimentos sociais, suas angústias, seus conflitos sociais, mas também, seus sonhos, desejos, seu imaginário. Visualizar que através do cordel as relações interpessoais são intensificadas, os conflitos de classes minimizam-se e conseqüentemente o fator humano é aflorado.

Na relação cordel e biblioteconomia, o profissional bibliotecário tem papel fundamental para o fortalecimento das discussões cordelistas no contexto das instituições informacionais. Ficou evidente que o campo da pesquisa e do trabalho lúdico-informacional-educacional é um grande nicho de mercado para este profissional. Várias instituições já têm se mostrado como propagadoras de iniciativas que tem procurado no bibliotecário um apoio para trabalhar a questão cordel. Com a monografia, felizmente foi possível ver que neste linear de século os folhetos são e serão mais do que nunca, uma fonte de informação alternativa que ajuda na transformação social, seja pelas vias dos versos lidos/cantados, pelas escolas que estudam, pelos pontos de venda que acreditam no produto, pelas publicações e/ou pesquisas efetuadas e por tantos outros. Tornou-se claro, no decorrer do que foi transcrito, que apesar dos altos e baixos vividos pelos cordelistas e suas produções, o folheto continua com a chama acessa, vivo, presente e a cada dia, mostrando que o fator memória, cotidianamente vem se vinculando a três outros qualificantes, que é da preservação, valorização e difusão do conhecimento. Ao passo que se constrói um espaço pensando nestes qualificantes, logo será possível ter no cordel um patrimônio imaterial humanidade, dinâmico e presente, jamais estático. Fica com o desenvolvimento e resultado deste trabalho, o sentimento de compromisso realizado, de orgulho por escrever sobre uma temática que esta diretamente arraigada no seio do povo potiguar, nordestino e brasileiro.

Contudo, em função desta monografia recomendações, como: Que o discente tenha a curiosidade de pesquisar, entender e/ou escrever sobre o assunto; Que mais instituições que lidam com informação, procurem também no cordel a possibilidade de encontrar saídas para o desenvolvimento da pessoa humana, pelas vias do lúdico, da informação e da educação continuada; Que os cordelistas possam produzir mais, focando o público escolar/universitário e possíveis novos poetas; E que seja ampliada uma rede de relacionamento entre pesquisadores, instituições e cordelistas.

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1 Apresentada no XIV Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias, Salvador – BA, período de 22 a 27 de outubro de 2006.

1 Artigo recuperado na internet, a partir de: VIANA, Arievaldo. Acorda cordel na sala de aula. Mossoró, RN: O Mossoroense, 2005. Disponível em:

pagina=Artigos&ida=2>. Acesso em: 18 de out. de 2005.



2 Precursores dos folhetos de cordéis.

3 Inácio da Catingueira, Manoel Cabaceira, Manoel Caetano, José Galdino da Silva Duda, Neco Martins, Manoel Carneiro, Preto Limão, João Benedito e João Melchiades.

4 Caso de Antônio Conselheiro

5 Em si tratando do período que compreende entre as décadas de 30 e 50.

6 Homem, jornalista popular que tem como finalidade, dar suporte informacional ao povo.

7 Maria do Socorro Nascimento é chefe da seção de coleções especiais (BCZM/UFRN) e Rildeci Medeiros é diretora (BCZM/UFRN) e professora do departamento de biblioteconomia da UFRN.

8 As maiorias das informações contidas no corpo do capítulo e em suas citações deram-se através de entrevistas concedidas num período de 16 a 29 de outubro de 2005, nas cidades de Natal e Parnamirim e por aplicação de questionários na WEB.

9 Trata-se de José Acaci Rodriguez (Acaci).

10 Trata-se de José Saldanha Menezes Sobrinho (Zé Saldanha).

11 Segundo o entrevistado elas dizem “que dá muito trabalho”.

12 As entrevistas realizadas com as bibliotecárias ocorreram em dias diferentes. Contudo, as informações apresentadas são frutos de sistematização dos trabalhos efetivados. No que diz respeito a apresentação da biblioteca, missão, compromissos institucionais e configuração de sua estrutura (o que possui), todas as informações retiradas na integra do site: www.bczm.ufrn.br/conteudo/bczm/abiblioteca.php em 24 de novembro de 2005.

13 Não identificado, infelizmente não se pode disponibilizar o documento no todo (caso da WEB).

14 Caso Identificado em uma visita programada a BCZM. Onde, ao olhar para um folheto de cordel dizia nunca ter visto um trabalho uma fonte informacional como aquela.





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