1974 – 2002 : Bebeto Alves, e o mundo todo em si



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1974 – 2002 : Bebeto Alves, e o mundo todo em si
texto de Arthur de Faria
Bebeto nasceu Luís Alberto Nunes Alves, dia quatro de novembro de 1954, em Uruguaiana. Aos 13 anos já era um lobisomem juvenil, uivando pra lua e tocando rock nos bailinhos animados pel´Os Zumbis. Que, darks avant la lettre, só se vestiam de preto. E foi bem: aos 14 já era o crooner do repertório em inglês do Hi-Fi, principal conjunto de bailes da região. Bebeto podia ter feito a vida a partir dali, passando a vida no lamê, cantando Only You pelos clubes caixeirais da fronteira, e descansando na fazenda de criação de charolês. Mas estávamos em 1970. E, ao menos nos extremos suis, o sonho ainda tava longe de acabar. Azar que o guri tinha só 16 anos. Pé na estrada e Porto Alegre na mira.

Em 1974, ao completar duas décadas de vida, Bebeto funda na capital o lendário Utopia. O grupo tinha ele, mais o violão de Ronald Frota e o violino de Ricardo Frota. Os irmãos, garotos de ainda menos que 20 anos, se uniram ao amigo mais velho para burilar um rock-folk-gaudério-progressivo que soa moderno até hoje (Ricardo foi para os Estados Unidos nos anos 80, se formou em música, e passou a trabalhar com musicalização de crianças, invenção de instrumentos e esporádicas experiências musicais em projetos musicais não-convencionais. Ronald largou a música). O Utopia era uma das pontas de uma fusão entre gauderismo e psicodelia que se esboçava numa cena parida pouco antes por Carlinhos Hartlieb. E que tinha seu braço mais pop no sucesso crescente dos Almôndegas. Todos compartilhando a crença ainda muitíssimo recente de que, sim, dava pra ser roqueiro e até progressivo, sem perder de vista que se nasceu em Uruguaiana, Pelotas, Porto Alegre...


Bons instrumentistas cercando um bom cantor, o Utopia rapidamente vira cult. E passa a tocar em tudo que é oportunidade, fazendo o circuito mais bacana da época: shows universitários. Uma performance impactante nas Rodas de Som promovidas em 1975 pelo mesmo Carlinhos no Teatro de Arena. Música gravada no estúdio da Rádio Continental AM pra tocar no programa do Mister Lee. Shows lotados na capital e no interior. Sucesso batendo à porta e...

...o grupo acaba.

 

Causa Mortis, segundo o Bebeto: consumo de alucinógenos, churrasco, fandango, trago e muié. Mais ou menos nessa ordem. E, claro, por uma necessidade de fazer outras coisas que fossem dar nisso que eu tento fazer hasta hoy.

 

Enfim: o rapaz de míseros 22 anos já sentia que tinha muito mais pra mostrar. Retomando suas raízes fronteiriças a partir do fundamental LP coletivo Paralelo 30 (1978) ele ainda tenta uma versão revista e ampliada do Utopia, com nove integrantes! Mas não dá pé. Como ainda faria muitas vezes ao longo da vida, naquele momento precisava botar o pé na estrada. As coisas estavam no mundo, minha nêga, e ele queria aprender. Vai pra São Paulo, depois pro Rio. E é sediado na Cidade (em termos) Maravilhosa que lança, pela CBS, seu primeiro disco solo: Bebeto Alves.



 

O ano era 1981, o mesmo em que Vitor Ramil e Nelson Coelho de Castro lançavam também seus trabalhos de estréia. O LP vai bem no sul, mas logo vira artigo de colecionador, gerando uma seita que Bebeto batizaria informalmente de viúvos do primeiro disco. Nacionalmente, não acontece. Afinal, o produtor que bancara a história toda – Carlinhos Sion – mal acabara o disco, se desentendera com a gravadora. E aí a divulgação, que já tava fraca, foi definitivamente esquecida.

 

No Rio Grande, o LP caiu como uma bomba. Não era nada comum artista gaúcho ter um trabalho com aquele nível de resolução formal, tão bem-acabado e com um som tão bom (naquele momento, haviam ele e o LP do Vitor). Na base, a segurança dos instrumentistas da banda gaúcha Bixo da Seda, segurando uma pegada rocker, mas com uma insuspeita sofisticação. Em cima dela, belos arranjos de orquestra. Um luxo. Além disso, as músicas. Uma das quais vira quase automaticamente o hino extra-oficial de toda uma geração de gaúchos que, naquele momento, tentava a vida pelos centros do País. Um épico meio zamba, meio rock, chamado De Um Bando, cujo estribilho era uma frase-síntese: Somos um bando e muitos outros.



 

A canção vira hit na Bandeirantes FM de Porto Alegre e começa a apontar para uma novo formato de composição gaúcha. Um passo à frente dos Almôndegas, e retomando, com uma cara mais moderna, as fusões utópicas de uma década antes. O mesmo se dava em outros sucessos do disco, como a bela milonga Santana do Uruguay (com letra de Luís de Miranda) ou a debochada rancheira-pop Kraft!... Mesmo (com letra de Paulo Klein). Esta chega a participar do festival televisivo MPB Shell 81 e gera até um clipe, com a citada casinha na Restinga (bairro popular da capital gaúcha) habitada pelo casal formado por Bebeto e Suzana Saldanha, numa hilária performance.

E se o primeiro disco tinha os roqueiros do Bixo tocando zambas, o segundo - gravado ao vivo em Porto Alegre no ano seguinte - não deixaria por menos. Pôs os virtuoses rapazes jazz-funk do grupo instrumental Cheiro de Vida a encararem uma milonga. O LP se chama Notícia Urgente e é lançado pela Warner. Outro sucesso local, novamente uma rancheira-pop: Notícia Urgente. A todas essas, Bebeto seguia como contava na canção:

 

Compadre, saudade


Tou aqui no Rio

Tá fazendo frio

Acabou meu charque, meu fumo de rolo

Meus cobres, meus réis,

Me mande os papéis de votar

 

Nesse exato momento a música mais tocada no Brasil era Tô Que Tô, gemida pela Simone. Pois quem tinha composto aquilo? A dupla Kleiton & Kledir. Que vinha de dois excelentes discos que foram sucesso de público e crítica. Estava na moda de então (e não só no Rio Grande do Sul) o gauchismo light e um tantinho for export dos irmãos Ramil. Mesmos Ramis que tinham acabado de gravar 433, uma bela canção de Bebeto falando da linha de ônibus que ia da Vila Isabel lá pro fim do Leblon. E que era talvez a melhor coisa do terceiro disco dos K&K que saía naquele momento. Pois então. É nesse momento dos mais propícios que o cara, firme na Warner, dá sua primeira guinada. Lança um compacto com a ultra-pop Quando Eu Chegar (aquela do Galeão-Salgado Filho...). Gravada seguindo à risca a mais ortodoxa cartilha pop de sonoridade de 1983, a canção estoura no ano seguinte. Com tudo o que tinha direito um pretendente a pop star desses primeiros anos 80: Chacrinha, Xuxa, Flávio Cavalcanti... Com a bola cheia, Bebeto, empolgadíssimo, apresenta pra gravadora o projeto de um disco todo assim, pop! E os caras... negam!! Tavam com outros planos pra ele. Uma coisa meio Fábio Jr., sabe, meio romântico, mil coisas. Arrã. Bebeto, sendo Bebeto, só podia fazer o que fez: apertou o eject.



 

Só que aí a Som Livre compra inteirinha a idéia do disco rejeitado – inclusive com o mesmo produtor, Sérgio Carvalho. E vêm o LP Novo País, lançado em 85 e gravado com um super time que incluía metade da então popularíssima A Cor do Som. Um disco pop a mais não poder, tremendamente bem realizado. Mas, sabe lá Deus porque, quem não apareceu foi o sucesso que se poderia prever tão facilmente pelo compacto do ano anterior. E lá vai nosso nem tão jovem rapaz de 32 anos, puto da cara, tentar a vida nos Estados Unidos. Numa absoluta coincidência, enquanto em Porto Alegre a banda new wave Urubu Rei cantava Nega, Vamo pra Boston, Bebeto vai pra mesma cidade. E não era nem pra ser músico. Queria era encarar a vida, ver o mundo, chutar lata, jogar Boston no ventilador.

 

Encarou de pintura de parede a entrega de pizza. Mas, entre uma muzzarella, um rodo e uma calabresa, compõe furiosamente. Em ambos os sentidos do termo furiosamente. Agüenta menos tempo do que imaginava e, sete meses depois, tá de volta não só ao Brasil, como a Porto Alegre. Resolve então resumir toda essa função gravando um novo disco. Novamente ao vivo, no então badaladíssimo bar Porto de Elis, é registrado um de seus melhores trabalhos: Pegadas.



 

Nas pegadas das minhas botas trago as ruas de Porto Alegre


Na cidade dos meus versos o sonho dos meus amigos

 

O ano era 87 e o LP, lançado pela Continental, vende boas 20 mil cópias. Nele, estréia a banda que irá acompanhar Bebeto por um bom tempo: Fernando Corona nos teclados cheios de frases espertas, Everton Pires no mais sólido dos baixos, e o possuído Bebeto Mohr quebrando todas na bateria. Bebeto Alves tinha de novo uma banda, uma casa, uma cidade. E já que lá tá, que lá teje. Investindo no sonho dos seus amigos, é um dos fundadores da Coompôr – a Cooperativa dos Músicos de Porto Alegre. Que, entre erros e acertos, passa a agregar parte importante dos artistas gaúchos de MPB das mais variadas gerações, funcionando como um celeiro de shows e projetos, nos quais Bebeto é uma das cabeças mais pulsantes.



 

Na cidade dos seus versos, passa a gravar discos pop, cada vez mais eletrônicos. Uns mais datados, outros menos, mas sempre em parceria com Corona. Entre eles, Milonga de Paus, de 90, é o que melhor sintetiza sua poética verborrágica em tratamentos musicais quase minimalistas. Como na ousada faixa-título, que expande os horizontes da milonga por oceanos nunca dantes navegados. Mixando vanguarda eletrônica e as possíveis raízes mouras do ritmo, no canto melismático de Bebeto:


 

Ai, ai, ai, ai, que se sente


Uma sofreguidão

Ver a linha do horizonte

Sumir na palma da mão

 


Pentes semeiam morosos cabelos tão negros, paisagens de Portinari, janelas de tanta cor acalmam os pensamentos

Os dias se incendeiam em azuis de dor, tão cegas sem duração, onde mulheres tatuaram meu corpo em luas de sedução

E vão de tudo aí, se lê, vê de tudo um pouco

E de tudo, todos já viram, e assim continua tudo exatamente igual, que nem mal não faz.

Ás de ouro, por baixo do pano, propina (flor de especial, de primeira), tás louco, que estória sovina, Ladrão!, Retruco! Quero vale quatro!

E nunca mais, nunca mais, dizia eu e o corvo...

Mas de novo pus um ovo, uma milonga de paus dentro do coração.

 

Passa a trabalhar com publicidade, e ataca de produtor de discos que vão do primeiro trabalho de reggae no Estado até um projeto de dance gaudério (em pleno 93!). E aí, em 94, encontra o compositor regionalista Mauro Moraes, de quem vai se tornar o intérprete ideal, numa insuspeitada parceria, em que ambos saem ganhando. Mauro têm finalmente ressaltadas as nuances de suas composições, normalmente patroladas pela falta de sutileza dos intérpretes que até então a elas se dedicavam. E Bebeto reencontra, nas arejadas milongas e chamamés de Mauro, suas raízes mais profundas - que cavocam no mais fundo de sua alma uruguaianense, e de lá trazem um nego véio bagualudo que nem ele suspeitava que ali ainda habitasse.



 

São três discos, um dos quais não menos que espetacular: Mandando Lenha, de 97, todo recortado de silêncios, por onde se costuram a voz de Bebeto, o violão selvagem do argentino Lúcio Yanel (o mestre do prodígio Yamandú Costa) e o inabalável baixo acústico de Clóvis Boca Freire. Mais do que ligado à tradição, o disco é imerso nela. E consegue uma força telúrica tão impressionante que é um pecado não ter corrido o mundo através de alguma gravadora de World Music. Pelo contrário: recebeu um lançamento paroquial, pela regionalista USA Discos, que não teve a menor noção do que tinha em mãos (se bem que o que esperar de uma gravadora regionalista que se chama... USA Discos ??!!).

Nesse momento, Bebeto já tinha um punhado de hits, reconhecíveis em qualquer canto do Rio Grande do Sul, tocados à exaustão nas mais variadas rádios. E alguns deles jamais lançados em disco. Como a demolidora Mais Uma Canção Popular - feita em parceria com Corona -, que ironiza a sina do compositor popular em se querer fazer ouvir num cenário tão imbecilizante como é o da FM. Usando para isso, subversivamente, todos os clichês desse mesmo cenário (note o jogo entre a fim e afim):

 

Mais uma canção, onde tudo é desatenção,



Tamanha dispersão onde o meu coração vaga

 

Não quero mais falar sozinho em meio à multidão



Quero o vento batendo em meu rosto

E você me pedindo perdão por mais essa canção

 

Mais uma canção eu fiz por você não saber nada



Mais uma canção, sim, por você não estar a fim

E, em vão, mais uma canção, um sim

Por você não estar afim

E então, mais uma canção

 

No final da década, a necessidade gregária de Bebeto ainda o aproxima de Totonho Villeroy, Gelson Oliveira e Nelson Coelho de Castro no projeto Juntos, que até o começo do milênio seguinte renderia dois discos e shows em Buenos Aires, Montevidéu e no festival de Sanary-sur-Mer, na França. E é justamente numa edição do festival da Côte D´Azur que ele começa a quebrar um jejum de sete anos sem um disco de carreira – triste sina de tantos cantautores gaúchos nos anos 90. Bebeto lança ali seu derradeiro projeto para o século XX. Uma síntese de sua passagem musical pelo mundo, chamada Bebeto Alves y La Milonga Nova. A tal milonga era uma nova proposta de tratamento para o ritmo, fundindo sua pulsação quase mântrica a batucadas brasileiras, com um certo rock’n’roll cutucando por baixo.



 

O lance amadurece no festival Brasil 2000, em Viena. E, logo em seguida, sai em CD, pelo selo gaúcho Antídoto. Que, só pra não fugir à regra das relações entre Bebeto e suas gravadoras, não faz nada pelo trabalho. Mais uma vez, uma pena. Estava ali uma síntese possível. Mas é bem verdade que também não ajudou em nada o fato de que, mal saiu o disco, Bebeto aceitou assumir a direção do Instituto Estadual de Música, na gestão petista do governador Olívio Dutra. Como em tudo que faz, pôs ali, inteira, sua ira santa, usando toda a energia possível para semear projetos como o Roda Som - que incluía shows em palcos móveis por todas as cidades do Estado, programa de TV e de rádio. De lá só saiu com o fim do mandato de Olívio. E aí estávamos na virada de 2002. Virada que pega Bebeto às vésperas de ser avô, e ainda um pouco assombrado com o fato de ter uma filha que havia virado musa e sex-simbol nacional – a atriz Mel Lisboa, revelada na minissérie global A Presença de Anita. Mas nada ocultava uma urgência: Bebeto era novamente um homem faminto de bola. Cheio de músicas novas, mais uma vez se preparando para um novo trabalho, sentia que alguma coisa havia mudado para sempre. As vésperas dos 50 anos, descobria, feliz, que tinha finalmente saído da adolescência. E que o homem velho, já dizia o cara aquele, é inequivocamente o Rei dos Animais. O que ele iria fazer com isso, nem ele sabia.

 

Arthur de Faria, inverno de 2002



 

P.S (de Nelson Coelho de Castro):



Um pano rápido: Em 78, convido o Bebeto como guitarrista para o show Milagrezinho... naquele chão do (Teatro de) Arena ele ficava em pé num corner com o instrumento... colocando frases roqueiras, com distorção e outros sei-lá-quê-pedais, nas melodias, um barato! Um dia, num dos ensaios, mostrei para ele a música Sertório. Ele disse: - Magrão, isso é um reggae . E eu: - Régui! O que é um régui??

O novo, para mim, sempre esteve com Bebeto. O Bebeto é parabólico. Uma vez falei isso para ele. Ele disse: - Uruguaiana. Ela é cosmopolita. Marinheiros cariocas, contrabando, povo árabe, turco, castelhanos, bugres, fronteira, alguém chegando, alguém partindo - mais pampa e o caralho.

Nas poucas e boas andanças que tivemos pelo planeta, ficava admirado por seu nenhum estranhamento, pasmar ou fobia para com as urbes d´além mar. E isto está na pele da sua música e no texto dele. Dos meus coevos, ele é o mais artista. Faz teatro, cinema, rádio e televisão sem nenhum embaraço. É do ramo.



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