12 Meses de Empreendedorismo



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12 Meses de Empreendedorismo

Empreendedorismo 2008/2009

ISCTE

Prof. Virginia Trigo












  1. Sim, também você pode fazer uma Empresa

E eis que, de repente, o empreendedorismo está na moda. As razões são boas: o empreendedorismo é o único recurso económico que não pode ser facilmente transferido e é, portanto, uma decisiva fonte de vantagem competitiva em indústrias onde a imitação, a saturação e as reduzidas barreiras de entrada eliminam com rapidez a rendibilidade dos mercados. Se os portugueses e as nossas empresas - grandes e pequenas - fossem mais empreendedores, poderíamos aumentar a produtividade nacional e competir de uma forma mais eficaz nos mercados internacionais, pensamos. Mas o que significa exactamente empreendedorismo e ser-se empreendedor? Muitos descrevem o conceito em termos de flexibilidade, inovação, dinamismo, risco, criatividade e orientação para o crescimento. Numa conferência sobre o tema, há alguns anos, depois de larga discussão adoptou-se a seguinte definição: "Empreendedorismo é o esforço empregue na criação de valor através do reconhecimento de oportunidades de negócio, da gestão do risco adequado à capitalização dessas oportunidades e da mobilização dos recursos humanos, financeiros e materiais necessários à sua concretização". Todos concordámos, com a sensação de que tínhamos acabado de produzir algo sem muito significado, amorfo, difuso, enredado e também que essa não seria a última vez. Ficou um ponto de interrogação a flutuar sobre cada palavra sem chegar a assentar no final da frase. Enquanto empreendedor tem algo de tangível porque se refere a uma pessoa, empreendedorismo é mais difícil de definir, pois é uma abstracção.

Criatividade e esforço

Em muitos aspectos, empreendedorismo é aquela parte da natureza humana que faz mover a terra à volta do seu eixo empurrando-a para uma órbita diferente e a sua interpretação pode tornar-se algo de muito pessoal: tal como sobre a beleza ou o amor, todos temos uma opinião sobre o assunto. Aparece frequentemente associado a algo de "bom" e, como é natural que os empreendedores, também entre nós, comecem a ser endeusados enquanto os novos heróis culturais, um exame crítico das suas características pode ser obscurecido por modas ou crenças colectivas, resultado de múltiplas e diversificadas interpretações.

A literatura mais popular identifica empreendedorismo com o simples estabelecimento e operação de uma empresa. Nem esta nem as outras explicações são suficientemente precisas para poderem ajudar quem deseja tornar-se empreendedor. Todos nós queremos ser mais inovadores, flexíveis e criativos, mas por cada empresa que realmente o é, existem dezenas ou centenas de outras que o não são ou que falharam tentando sê-lo. Como se conseguem operacionalizar noções de uma qualidade aveludada, luminosa, apetecível como inovação, flexibilidade ou criatividade? O que é que isso significa?

O nosso convite é o de, nesta coluna, uma vez por mês, ao longo de doze meses irmos analisando o empreendedorismo como um processo em que o esforço empreendedor se divide em etapas específicas que evoluem de uma forma lógica e, como tal, podem ser aprendidas, entendidas e rectificadas. Encarado como um processo, o empreendedorismo despe-se do seu carácter místico e ocasional, apenas ao alcance de alguns geneticamente afortunados, e torna-se num acontecimento gerível que todos podemos prosseguir. Os processos podem ser aplicados em qualquer contexto organizacional, desde empresas nascentes até organizações de há muito estabelecidas. Além disso, são sustentáveis, isto é, são contínuos e, por isso, o empreendedorismo pode tornar-se numa actividade normal da pessoa ou da organização, numa forma habitual de fazer as coisas.

Quem é o empreendedor?

Falaremos também do empreendedor, promotor do empreendedorismo e fascínio de muitos economistas desde o século XIX, a quem é reconhecido um papel determinante e único no desenvolvimento da economia, mas que é frequentemente descrito de uma forma vaga e imprecisa como se de um gambozino se tratasse, uma criatura que muitos afirmam ter visto, mas cujas características não conseguem descrever com clareza. São investigadores de outras áreas, designadamente da psicologia ou da sociologia que primeiro respondem à pergunta: quem é o empreendedor? Que atitudes e comportamentos o caracterizam? E, mais importante ainda, podem semelhantes qualidades ser aprendidas ou potencializadas? É esta a convicção subjacente a esta série de artigos: atitudes e comportamentos de tal modo que permitem identificar e capitalizar oportunidades transformando-as em maiores taxas de retorno para um dado investimento, e que podem ser aprendidos. São factores que "empurram" o empreendedor para actos de empreendedorismo, mas este é também atraído, "puxado" por uma promessa de sucesso. Que condições - políticas, legais, financeiras, logísticas, sociais, culturais, educativas... - existem na envolvente e atraem, estimulam ou, pelo contrário dissuadem, esterilizam o pensamento e a vontade do empreendedor? Qual a estrutura das compensações existentes numa dada economia e o que é que elas premeiam?

Como nós hoje o vemos, o empreendedorismo é frequentemente discutido como se tivesse sido inventado nos Estados Unidos, mas é na história da Europa que ao longo de muito mais séculos, podemos encontrar influências, numa variedade de aspectos, dos sucessos e fracassos de muitos empreendedores. Aqui e no resto da Europa a época do emprego para toda a vida, que dominou a lógica dos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial e moldou o modus operandi das nossas instituições, acabou. É algo de inevitável porque tem a ver com a forma como se organiza agora a nova economia. Porque não criarmos nós o nosso próprio emprego? E, se discordamos tanto da forma como são geridas as empresas onde trabalhamos porque não aproveitarmos a oportunidade para sermos nós a estabelecer uma gestão capaz de acrescentar maior valor para a sociedade e para nós próprios? O próximo artigo introduzirá uma nota positiva: a ideia de que também Você pode criar e manter uma empresa.


  1. O hábito de empreender: as dez etapas

"Está na altura de assumires a coragem de te governares a ti próprio", leu João Santos na parede da universidade onde à noite estudava. Profissional bancário dispensado numa das últimas restruturações do banco onde trabalhava e onde julgava ter um emprego seguro, para toda a vida, João Santos ficou a olhar para o graffiti, decerto escrito com outras intenções. Se João Santos fosse, por exemplo, americano, talvez se tivesse inspirado para tomar, ali mesmo, a resolução de começar a sua própria empresa. Teria ido para casa, a pensar, a contactar pessoas, a "vender" a todos a sua ideia. A mulher, os pais e os amigos teriam apoiado e eventualmente ter-se-iam oferecido para ajudar.

Assim, João Santos fez contas à vida e pensou com tristeza que não conseguia prever, nem mesmo com o curso, o dia em que voltaria a trabalhar. "Não temos recursos nem pessoais, nem nacionais, para continuar" pensou, reflectindo que os nossos problemas vão muito para além das flutuações transitórias dos ciclos económicos.

E, no entanto, essa alternativa lógica de criar o próprio emprego, esse espírito de poder-fazer, não é algo de inato, ao alcance de apenas alguns privilegiados: existe em cada um de nós, independentemente do sítio onde nascemos, e pode ser desenvolvido. Mais: o empreendedorismo é uma actividade democrática que pode ser exercida por pessoas de qualquer idade, com ou sem experiência anterior de emprego. Para passarmos das palavras aos actos, para que qualquer um de nós possa começar o seu próprio projecto ou empresa, a melhor forma é encararmos o empreendedorismo como um processo. Os processos permitem a subdivisão em etapas perfeitamente identificáveis e passíveis de serem aprendidas, podem ser geridos, são auto-sustentáveis e podem integrar-se na nossa forma normal de fazer as coisas.

São dez as etapas que transformam o empreendedorismo num hábito:



1. Identifique uma oportunidade para a criação de uma empresa ou para a implementação de um projecto. Existem inúmeras fontes de oportunidade na envolvente, a maioria delas explorando a mudança: quanto mais uma envolvente estiver em mudança, mais oportunidades existem para o empreendedor. Estar atento às oportunidades é um hábito que se adquire, uma curiosidade permanente, uma nova forma de encararmos o que nos rodeia: e se isto se fizesse desta maneira em vez daquela? O que é que falta aqui para que este serviço ou produto dê mais satisfação a quem o utiliza? Porque é que isto ou aquilo não existe? Quem vai necessitar do quê e quando?

2. Crie um bom conceito de negócio, ou seja o produto ou serviço que melhor capitaliza a oportunidade que detectou.

3. Certifique-se se de facto existe uma oportunidade e se o conceito de negócio que criou é o que melhor a capitaliza: existe mercado? Antes de criar juridicamente a sua empresa deve certificar-se de que irá ter um volume de negócios suficiente para a sustentar durante pelo menos um ano. Não lhe basta um único cliente mas muitos mais, para o caso de alguns falharem. Procure as provas e as certezas de que o mercado é portador e não apenas impressões de que ele está receptivo. Faça ajustamentos e certifique-se de novo.

4. Identifique os recursos de que necessita para iniciar e desenvolver o projecto e a forma de os adquirir. Pense em alugar, subcontratar, em contratos leasing, em pedir emprestado, em formar alianças. A preocupação do empreendedor é a oportunidade que ele quer, tem de, aproveitar, e não a posse dos activos que em determinado momento detém. Pense no grupo inicial, nas pessoas que o vão ajudar a desenvolver o seu projecto nos momentos cruciais do arranque e crescimento e depois em novos projectos. Sozinho Você nada pode fazer e, cada vez mais, o empreendedorismo diz respeito a grupos. Que qualidades devem ter essas pessoas? O que é que Você tem de fazer para que elas tenham condições para, de facto, o poderem ajudar?

5. Escolha uma marca. Registe-a. A marca é uma poderosa ferramenta de alavancagem, à volta da qual se constrói todo o modelo de negócio. Quando se fala em marca pensa-se nos valores que ela pode veicular e nos mercados a atingir. Vale a pena investir tempo e pedir ajuda na escolha da marca porque, além do mais, ela também pode facilitar a união do grupo de trabalho, inicial e futuro, através de um fenómeno de identificação colectiva. A marca é um instrumento de comunicação interno e externo.

6. Elabore as suas previsões financeiras para se certificar da rendibilidade do projecto. Preocupe-se sobretudo com os fluxos: de tesouraria, de clientes e de outros activos. Preveja necessidades de autofinanciamento para os primeiros anos de vida e faça corresponder os prazos de permanência dos capitais dentro da empresa a essas necessidades. O autofinanciamento é uma necessidade de longo prazo e deve ser suportado por capitais de longo prazo.

7. Redija o seu plano de negócios. O plano deve ser redigido pelo empreendedor e não por qualquer outra pessoa contratada: ninguém conhece o projecto melhor do que Você. A redacção do plano é um exercício de reflexão sobre as decisões tomadas e deve ter em mente vários públicos: potenciais investidores, colaboradores, parceiros e, claro, o próprio empreendedor a quem o plano servirá de orientação futura.

8. Implemente o seu projecto. Inicie a procura de colaboradores, de financiadores, de local para a instalação da empresa. Escolha o estatuto jurídico da futura empresa, inteire-se das formalidades a seguir e registe-a. Inicie a sua actividade. Ao fazê-lo, todos os seus passos vão ter reflexos no futuro, por exemplo, se quiser que a sua empresa tenha uma cultura de inovação constante e seja orientada para o crescimento é agora que essa cultura pode ser instituída. Se quiser instituir práticas de tratamento dos activos como fluxos dinâmicos (que têm em conta a variável tempo) e não como as presenças estáticas que nos ensinaram a calcular, é agora a altura de o fazer.

9. Faça a gestão da empresa. Quando a empresa entra em velocidade de cruzeiro, a gestão não se torna mais fácil. O entusiasmo que animou o empreendedor e a sua equipa à volta de um projecto nascente é difícil de manter no longo prazo. E, no entanto é necessário. O empreendedor vai necessitar de outras competências para manter a empresa viva, fervilhante de ideias, atenta ao mercado, mas deverá saber que esta tarefa lhe será muito facilitada se, desde o início, tiver instituído uma cultura organizacional e práticas favoráveis. Um verdadeiro código genético que há-de ditar o futuro da empresa.

10. Liquide o projecto. Ao iniciar um projecto o empreendedor deve ter uma ideia clara para entrar e outra para sair. Todos os projectos têm uma determinada duração nos moldes em que são executados e só a clara consciência deste facto permite ao empreendedor antecipar-se constantemente ao mercado.

Nos próximos artigos irão ser discutidas todas estas etapas. Em qualquer uma delas é possível falhar, mas a divisão do processo em etapas ajuda à identificação e correcção dos erros antes que seja demasiado tarde. O erro é a mais poderosa forma de aprendizagem e um grande aliado do empreendedor interessado em compreender as suas causas para fazer melhor no futuro.




  1. Oportunidades: Condições e mitos

Em chinês Você tem o caracter que representa crise e o caracter que representa mudança. Quando estes dois caracteres se juntam, formam a palavra oportunidade. Porque é que isso acontece? Porque é que quando a crise e a mudança se fundem Você tem uma oportunidade? Um economista responder-lhe-á que, nessas condições, existem desequilíbrios, leis que mudam, situações que se alteram, necessidades novas que se criam. Dir-lhe-á de seguida que empreendedor é aquele que aproveita e tira vantagem de semelhantes condições, quem abre portas onde outras se fecharam. Você interrogar-se-á então sobre o que é isso de oportunidade, que apesar de crises e mudanças, ou por causa delas, a todos aparece envolta numa aura positiva, num brilho palpável, por vezes tão óbvia que ninguém repara. Oportunidade é um conjunto de circunstâncias favoráveis que criam um vazio ou uma abertura correspondente a uma necessidade de mercado. Será que também nós poderemos identificar e aproveitar oportunidades? A resposta é positiva, com algumas condições que desfazem alguns mitos:

#1 - Só existe oportunidade se existir mercado. Ter um melhor produto, a um melhor preço, com melhores condições, nada significa se não houver mercado ou se este for demasiado pequeno, ou não estiver preparado para mudar, ou se a concorrência estiver demasiado entrincheirada.

#2 - Nós não podemos criar necessidades. Elas são criadas por um conjunto de circunstâncias favoráveis, a maior parte fora do nosso controlo. O que podemos é estar atentos a elas e capitalizá-las.

#3 - Uma ideia não é uma oportunidade embora no âmago de uma oportunidade exista sempre uma ideia. Ideia é o reconhecimento de que algo tem valor para um cliente: há muitas e são baratas. Oportunidade é uma ideia inserida numa necessidade duradoura de clientes e que Você pode satisfazer. Por isso, ela é uma oportunidade para si.

#4 - O que é oportunidade para uma pessoa pode não ser para outra. Ajusta-se, depende do empreendedor. Também não é exclusiva: se outros a vêem, Você vai ainda a tempo de aproveitá-la.

#5 - Um empreendedor empenhado detecta uma oportunidade onde outros nada vêem, ou vêem muito tarde, ou demasiado cedo. O empenho refere-se à procura activa, sistemática, consciente e persistente de oportunidades. Não se refere a algo de inato, privilégio apenas de alguns (poucos) afortunados.

#6 - Quantidade gera qualidade. Quanto mais oportunidades Você procurar mais ocasiões terá para que algumas se transformem em bons projectos ou negócios: suficientemente atractivos, duradouros, sempre criadores de valor.

#7 - As oportunidades representam desafios, uma forma diferente de pensar. Reconhecemo-las em contradições, incongruências, sinais dispersos na envolvente, lacunas e outros vazios, imperfeições, turbulência e caos. Sempre que experimentamos novas coisas ou que algo muda à nossa volta, surgem oportunidades.

#8 - Viva a sua vida, completa e plenamente como um empreendedor. Não olhe apenas o que o rodeia: veja. Quanto mais viajar para outros países e regiões mais oportunidades encontra. Muitas delas estão no que existe noutros sítios e ainda não chegou aqui. Veja, por exemplo, como noutros países, perder o emprego constitui uma oportunidade para muitos empreendedores. Oportunidade para tomarem conta da sua própria vida, fazerem enfim algo de seu. Investigação consistentemente efectuada comprova que, com frequência, a actividade empreendedora resulta de circunstâncias ou experiências negativas.

#9 - Para encontrar oportunidades Você tem de construir e manter uma extensa, diversificada e valiosa rede de relações. Com quanto mais pessoas falar mais possibilidades terá de encontrar oportunidades e de testar a validade das suas ideias. Comece a pesquisa de mercado por quem conhece. O que é que essas pessoas pensam da sua ideia? Estariam dispostas a utilizá-la? A pagar por ela? Com que frequência? O que é que ela acrescenta às suas vidas?

#10 - A tarefa de encontrar oportunidades é um processo continuo à qual Você tem de se dedicar numa perspectiva de longo prazo. Não se deixe desencorajar por dificuldades ou insucessos. Não deixe que outros o desencorajem, continue. À medida que for aprendendo e ganhando experiência irá sendo capaz de detectar e capitalizar mais e mais oportunidades.

#11 - Não espere que as oportunidades venham até si. Procure-as. Você observa um problema, constata uma necessidade e, a partir daí, constrói uma solução. Depois procure validá-la no mercado perguntando-se: Quem são os clientes? São em número suficiente para viabilizar a minha solução? Estão suficientemente insatisfeitos com as soluções actuais? Existem custos de mudança, canais de distribuição, restrições legais (agora ou em breve)? Quem são os concorrentes? Como actuam? Como chegam ao mercado? O produto ou serviço é fácil de entender ou de imitar? O mercado tem condições financeiras para o comprar agora ou em breve? A que preço? Durante quanto tempo? Qual o potencial de crescimento do mercado?

#12 - Prepare-se, procurando respostas para todas estas perguntas. Isso leva tempo e vai dar-lhe trabalho. Dinheiro e tempo são variáveis que trabalham em sentido inverso: Você pode torná-las complementares. Por exemplo, enquanto tiver mais tempo do que dinheiro, utilize o tempo e não o dinheiro. Não receie utilizá-lo. Quanto mais tempo investir na procura activa de oportunidades, maiores serão as suas probabilidades de êxito.

#13 - Não subestime a necessidade de encontrar colegas, amigos, um grupo a quem se associe. Uma coisa é encontrar oportunidades, outra é explorá-las o que requer mais preparação e a ajuda de outras pessoas.

Haverá ainda outras condições a cumprir, mitos para desfazer. Eu escolhi treze porque treze é um número mágico. Na procura e exploração de oportunidades, Você não deve, por exemplo, ter medo de correr riscos. Corremos riscos todos os dias ao sair de casa, ao atravessar uma rua. Qual é o risco para o empreendedor? Apenas, como em qualquer outra situação na vida, o risco de insucesso e, afinal, é com ele que podemos aprender. Façamos então um último exercício: imaginemo-nos no cimo de uma ribanceira vendo do lado de lá o mercado. É a nossa oportunidade para avançarmos, preenchermos esse vazio. Não vamos com certeza saltar, assim de uma vez, com o risco de nos despenharmos lá em baixo, ignorando a distância, a profundidade, as características do chão. Comecemos então por construir estacas sobre as quais irá passar uma ponte que nos há-de levar ao mercado, a nós e ao nosso produto ou serviço. A primeira estaca diz respeito à identificação e validação da nossa oportunidade, segundo as treze condições mágicas. O que é que nos pode acontecer se falharmos? Nada, um pequeno passo e voltamos atrás. De estaca em estaca, através do processo de empreendedorismo, poderemos chegar, com maior sucesso ao mercado. O que nos impede de avançar sobre esse futuro? Para mim, no nosso país, é algo de importante e tem um nome: atitude. Precisamos de uma nova e generalizada atitude e precisamos que essa atitude se traduza efectivamente num comportamento tal que generalize a actividade empreendedora dentro e fora das empresas. Mas, infelizmente, as palavras não mudam a realidade.

Não existe falta de oportunidades hoje em dia. De facto e porque as oportunidades empresariais surgem das mudanças tecnológicas e sociais elas talvez sejam hoje em maior número do que em qualquer outro período da história. Um livro clássico, sub-utilizado e sub-reconhecido, escrito por Peter Drucker em 1985 "Innovation and Entrepreneurship" dar-lhe-á algumas indicações de como e onde procurar oportunidades sugerindo até estratégias para a sua exploração. Pegando num provérbio de conveniência: "não vale a pena empurrar o rio, ele já corre sozinho", o melhor mesmo é observar o que se passa à sua volta, depois agir e depois prosperar.



  1. O empreendedorismo tem um segredo

«Estou convencido de que existe um mercado mundial para cerca de 5 computadores» Thomas Watson, Presidente da IBM, 1943

No último artigo avaliámos as condições em que as oportunidades se apresentam ao empreendedor e constatámos que uma ideia, por melhor que seja, pode não corresponder a uma oportunidade já que esta tem de estar inserida numa necessidade duradoura de clientes. Transformar uma ideia numa oportunidade realista requer que se defina a ideia inicial o mais precisamente possível: O que queremos vender? A quem queremos vender? Qual o valor que iremos acrescentar? Eis dois exemplos contrastantes da forma de encarar esta fase:

Um erro comum

Dois jovens engenheiros com experiência na área de instrumentos médicos decidiram iniciar uma empresa concebendo um aparelho inovador para detectar problemas de circulação de sangue em veias e artérias. Já há alguns anos que existem instrumentos deste tipo no mercado, mas este em particular seria de mais fácil utilização, mais barato e fiável o que permitiria a sua aquisição por consultórios e clínicas particulares. Os jovens engenheiros construíram um protótipo e testaram-no. O plano que tinham elaborado para conseguirem financiamento também fazia sentido: procurariam encontrar cerca de 20 médicos, cada um deles interessado em investir entre € 10.000 e € 20.000 no projecto. Mas como encontrá-los? Foi então que decidiram consultar um especialista que os ajudasse a encontrar investidores. Este surpreendeu-se com o facto dos jovens engenheiros jamais terem questionado potenciais compradores sobre as suas intenções de compra do produto. Para eles não haviam dúvidas de que, sendo este inovador e a seu ver útil, não teria problemas de implantação no mercado.

O especialista mostrou o catálogo da jovem empresa a um amigo cardiologista e pediu-lhe opinião. A reacção foi positiva: se o aparelho cumprisse o que prometia, seria um avanço notável. Foi então que o especialista fez a pergunta mais importante do ponto de vista do interesse do empreendedor: "Mas comprava-lo?" e a resposta foi: "Duvido". O cardiologista explicou que o tipo de doenças que a máquina testava eram relativamente raras, ele próprio não tinha mais do que quatro doentes por ano potenciais candidatos a semelhantes exames e, por isso, mesmo considerando idêntico número para os seus dois sócios e uma amortização ao longo de dois anos, os exames ficariam tão caros que os doentes continuariam a preferir os hospitais. O especialista quis ainda saber se haveria alguma especialidade médica que pudesse utilizar o equipamento de modo mais intenso. Quando a resposta foi não, apercebeu-se de que os jovens engenheiros tinham cometido um erro típico de muitos empreendedores: em vez de procurarem averiguar da existência de mercado, assumiram que este existia quando não teria sido difícil, nem demorado, terem tomado a iniciativa de fazer umas quantas perguntas aqui e ali. Em vez de gastarem tempo, dinheiro e energia no desenvolvimento do equipamento actual, poderiam, com idêntica tecnologia, ter-se dedicado à concepção de algo inserido numa necessidade duradoura (e compensadora) de clientes.



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