1 Transporte na cidade: uma análise socioeconômica do conceito de mobilidade urbana e dos indicadores da demanda de transporte urbano



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Transporte na cidade: uma análise socioeconômica do conceito de deslocamento urbano e dos impactos dos meios de transporte público urbano



Autor: Koffi Djima Amouzou

Koffi Djima Amouzou, mestre em Administração Pública e Empresarial pela EBAPE/FGV, doutorando em Engenharia de Transporte pela COPPE/UFRJ, é membro pesquisador da RESET/COPPETEC Rede de Estudos em Sócio-Economia de Transporte da Fundação COPPETEC e membro do IRFTD (Internacional Forum for Rural Transport and Development), ONG internacional do Banco Mundial. Professor e Coordenador de projetos de Iniciação Cientifica do curso de administração da UNESA Campus Madureira. e-mail: djima@uol.com.br


Resumo:

Com o avanço da tecnologia de informação sob a forma de teleserviço, teletrabalho, teleconferência telepresença etc., está acabando com a noção de “espaço-tempo”, tornando a cidade na sua forma original de “cidade compacta”, os cidadãos continuam majoritariamente sentindo a necessidade de deslocar-se. Assim, o presente estudo exploratório constitui uma contribuição para a compreensão dos aspectos sociais, culturais e econômicos do deslocamento urbano, possibilitando examinar os impactos que têm os meios de transporte público urbano sobre a qualidade de vida dos cidadãos. As conclusões obtidas indicam que, o transporte aparece como conseqüência deplorável do crescimento da cidade como também, instrumento de distribuição espacial/temporal das atividades, funções e serviços que a constituem.



Palavras-Chaves: cidade - sociedade - deslocamento urbano espaço-tempo, socioeconomia de transporte, unidades de vizinhança (UV), qualidade de vida.

Introdução

Observando a mobilidade humana, podemos concluir que existem duas visões fundamentais do fenômeno de deslocamento quotidiano. A primeira é a da felicidade, cada vez mais rara, baseada no cumprimento da democracia, na criatividade social, cultural e econômica. A segunda é a visão pessimista que faz da cidade um lugar de poluição, de exclusão e de mal-estar social.


O transporte urbano, cuja concepção está inseparavelmente ligada à da cidade, está exposto também a duas características distintas. O automóvel, instrumento de liberdade, “está acusado de todos os pecados urbanos” (Amar Georges, 1998): poluente, individualista e devorador de espaço, torna-se o símbolo de embolia e de egoísmo urbano. O transporte coletivo, que deveria estar fora deste tipo de acusação, é suspeito de provocar a dissociação e a extensão espacial da cidade, de promover distâncias geográficas e sociais sem oferecer eqüidade e qualidade de vida.
A irregularidade da maior parte das concepções da cidade está na maneira como tratam da ligação “cidade - transporte” ou da significação do “transporte na cidade”. Segundo o urbanista francês Amar Georges, é porque não se pensa a cidade como sendo “um sistema de movimento” onde é difícil tratar de problemas de deslocamento urbano.
Partindo da concepção da cidade como um “sistema de movimento”, este trabalho pretende abordar, a partir de um estudo exploratório, os aspectos sociais, culturais e econômicos do deslocamento quotidiano, possibilitando examinar os impactos dos meios de deslocamento urbano de massa sobre a qualidade de vida dos cidadãos.

Concepções teóricas da mobilidade (deslocamento) e de transporte urbano

Durante muito tempo, a cidade foi considerada um conjunto de atividades econômicas localizadas no espaço e o transporte, um elemento ativo de sua extensão. Residências, indústrias, comércio, escolas, hospitais e pontos de lazer são dispostos em forma de plano geográfico. Assim, o transporte aparece tanto como conseqüência deplorável quanto como condição inevitável do crescimento da cidade e distribuição espacial das atividades, funções e serviços que a constituem. Desta forma, está claro a existência de uma interação entre mobilidade humana e transporte urbano. Assim, desenvolveremos, nessa parte, a teoria da “mobilidade” e de transporte urbano, possibilitando analisar as diferentes percepções do conceito de movimento ou deslocamento quotidiano em uma cidade.



A percepção fenomenológica da mobilidade urbana

Partindo da definição mais simples da fenomenologia segundo o filósofo francês Merleau-Ponty, a qual consiste no “estudo das essências e dos problemas – essência da percepção, essência da consciência por exemplo” que permitem distinguir o “sujeito” do “objeto” e apontar as conseqüências de um fato, iremos analisar as “essências da mobilidade” a partir da consciência do “sujeito móvel”.

De fato, podemos considerar a fenomenologia da mobilidade como uma descrição do contato do homem “sujeito móvel” com seu próprio movimento no espaço e no tempo. Portanto, será considerado nessa percepção a causalidade do dinamismo e das transformações do movimento para dar um sentido socioeconômico e filosófico à mobilidade.

Visão socioeconômica da mobilidade urbana


Segundo o francês Pierre Lassave, especialista em questões urbanas, o conhecimento das práticas e dos significados do deslocamento no espaço e seus determinantes constituem, sem dúvida, o eixo mais visível e o mais durável de pesquisa em socioeconomia de transporte. Os problemas encontrados neste campo giram, essencialmente, em torno de uma única idéia central: a da mobilidade. Ela constitui um objeto específico e consubstancial ao campo dos transportes.
Assim, grandes pesquisadores da socioeconomia de transporte perceberam quatro fenômenos fundamentais da mobilidade ligados aos conceitos de espaço e tempo:


  • Em uma visão marxista, a mobilidade é interpretada como um instrumento de mobilização da mão-de-obra. Esta percepção foi encontrada nos estudos realizados sobre a cidade de Dunquerque, na França;

  • Segundo a Escola Escandinava de Geografia, a mobilidade é percebida como um instrumento de realização de um programa de atividades localizadas no espaço e no tempo;

  • Sob o ponto de vista econômico, a mobilidade é percebida em termos de modo de vida e de divisão social do espaço;

  • Os sociólogos possuem uma visão psicológica ou psicanalítica da mobilidade, a qual determina o comportamento e o sentimento do indivíduo submetido ao deslocamento.

Visão filosófica da mobilidade urbana

Filosoficamente analisando, a mobilidade constitui um conceito produtivo que integra o móvel e o imóvel, o movimento e o repouso ou a tranqüilidade do espírito. Esta observação do filosofo Deleuze coloca em questão duas dimensões opostas: o “movimento” e a “tranqüilidade”. Considere também o acontecimento de um fato de “produção”.

Sendo assim, a mobilidade transforma-se em produção. Ela não envolve mais somente o conceito temporal ou espacial, mas também o de produtividade ou de produção. A mobilidade chega então a questão de “criação de valor” para todos os níveis: material, físico, político, cultural, econômico e outros.

Este aspecto da mobilidade como um dinamismo de produção, nasceu de uma concepção americana do progresso, que reside na motorização, que permite o crescimento do potencial das atividades dos indivíduos.

Na Europa, especialmente na Suíça, França, Inglaterra e Alemanha, o tema da mobilidade tomou um lugar importante nos programas nacionais de pesquisas sobre “cidade e transporte” por meio de estudos relativos ao tratamento dos custos sociais da mobilidade e da não mobilidade. Sob este prisma, é permitida então uma articulação entre a oferta e a demanda de transporte.

Visão política do termo transporte


Durante uma análise cientifica sobre o transporte, o pesquisador precisa tomar consciência do fato de que as instituições da área de transporte só podem perceber os resultados simples, não por falta de capacidade intelectual de analisá-los, mas por estarem na obrigação de traduzir estes resultados em termos políticos. Outrossim, uma transformação dos resultados impõe uma simplificação considerável da realidade.

De outro lado, é preciso lembrar que na área de transporte o modo de introdução de dados estatísticos na cena política não é anedótico porque alguns são simplesmente esquecidos ou interpretados no sentido doloso. Quando os eleitos lêem que a porção de carro no mercado é de 95%, este dado vai reforçar a potência de carro na sua percepção e quando um relatório de pesquisa revela que uma modalidade é forte, esta informação torná-la muito mais forte ainda e quando se diz que ela é fraca, ela se torna muito mais fraca. (Alain Bierber, 1998).


Indicadores de demanda de transporte urbano


A partir da análise anterior, podemos concluir que a teoria de transporte e da mobilidade urbana envolve, principalmente, os conceitos de espaço e tempo, que são fatores constitutivos da vida social e das relações humanas de uma cidade.

A mobilidade espacial destaca mais do que um modo de uso dos espaços, um deslocamento de atividade à atividade, de origem à destinação. Ela assinala as hierarquias sociais, os reconhecimentos, as convivências identitárias que dão força e poder ao espaço urbano. Ela revela as modalidades de inscrição do conjunto das populações no espaço urbano. Nesta inscrição estão ameaçadas as ordens e hierarquias sociais estabelecidas.

O estudo de transporte urbano que envolve a mobilidade urbana, nos convida a uma antropologia do movimento que precisa tomar conta simultaneamente de três níveis de relações espaço-tempo características da mobilidade: os deslocamentos de proximidade, expressão dos ritmos sociais do quotidiano e incentivos permanentes do vínculo social específico; as mudanças de casa: no interior do espaço de acolhimento ou de recepção, no tempo de uma existência, e a extensão das vizinhanças e de fidelidade identitária.

Esta antropologia do movimento conduz-nos a rever os conceitos que a teoria de transporte e de mobilidade urbana envolve com os indicadores da demanda de transporte.




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