1ª. parte Fé e Política pós-Aparecida Reunião da Escola de Fé e Política padre Humberto Plummen



Baixar 59,73 Kb.
Encontro14.09.2018
Tamanho59,73 Kb.


. parte - Fé e Política pós-Aparecida

Reunião da Escola de Fé e Política padre Humberto Plummen

Nordeste II e ex-alunos do CEFEP



Dias 23 a 25 de setembro de 2011

Introdução

Para refletirmos sobre a questão Fé-Política pós-Aparecida, temos que nos colocar no contexto não só de Aparecida mas no contexto histórico, cultural e eclesial que tem possibilitado a Igreja a dar passos proféticos numa mística latino-americana.

Difícil fazermos um corte histórico rígido, mas seguramente vivemos ainda ares arejados do Concílio Vaticano II, evento significativo para a Igreja Católica no século passado, em que pesem contratempos, comemorando seu jubileu de ouro, em 2012..

Também celebramos, neste ano de 2011, outro jubileu importante: a encíclica Mater e Magistra (MM 1961), que foi seguida logo depois da Pacem in Terris (1963) que abriram portas e janelas para um novo momento da Igreja no social e conseguintemente nas relações da Igreja e da fé com a política, preparando as posições sociais da Igreja conciliar.

Vivemos, então, tempos de “xairós” (momento de Deus) para avivarmos nosso compromisso cristão - 50 anos do Vaticano II(2012), 50 anos da MM (2011).

A primavera eclesial do Vaticano II com os pressupostos das duas encíclicas sociais nos oferecem margem para visualizarmos a relação de fé e política que, em 1996, foi explicitada no texto da CF- Fraternidade e Política, com dois modos de articulação:

1º. Representado pelo paradigma tomista: onde a articulação se faz através da ética. A política seria um meio para o cristão exercer as exigências éticas de sua fé, os valores do Evangelho, para tornar o mundo melhor – uma espécie de caridade social – fazer o bem.

2º. Representado pelo paradigma Agostianiano, onde a articulação da fé e política se dá através da escatologia (realidades últimas da história). Aqui, a ação política visa construir no mundo estruturas sociais e econômicas mais justas (contra estruturas de pedado, na expressão de João Paulo II) que aproximem mais este mundo do Reino definitivo, ainda que de modo provisório e relativo. Os dois aspectos se completam e se complementam1.



Tempos de “xairos” – celebrações e renovação dos compromissos

1. – O Concílio Vaticano II no seu contexto continua nos interpelando
A Igreja em estado de Concílio procura colocar-se em dia com o mundo. Naturalmente, todos os seus trâmites - tanto na elaboração dos documentos como na mística da colegialidade - tentam ouvir o mundo, ouvir as experiências já em curso na Igreja neste campo. Como se trata de um Concílio Pastoral, tiveram um espaço privilegiado - a reflexão sobre a Igreja e sua relação com as outras Igrejas, sobre a Igreja e sua missão, sobre a Igreja e o diálogo com o mundo, o mundo dos pobres. Como colocar em prática, como formar os cristãos para assumir seus pressupostos?

Na própria caminhada conciliar aflorou com força, nos meandros do Concilio,um aspecto não previsto no esquema oficial; a questão da Igreja pobre / a Igreja dos pobres, isto é, a missão da Igreja diante do então chamado terceiro mundo e diante dos pobres do primeiro mundo. Experiências expressivas falaram alto - tanto do terceiro como do primeiro mundo tais como: os padres operários da França, os grupos de Emaus do Abbé Pierre, e muitas experiências entre nós, criando exigências novas e sobretudo novas perspectivas na relação Igreja-mundo dos pobres.

João XXIII tinha dito na abertura do evento: “A Igreja é de todos mas é sobretudo dos pobres”. O cardeal Lercaro, arcebispo de Bolonha, um dos grandes líderes do Concilio explicitou em público: “Se o Concílio não enfrentar a questão da Igreja e os pobres, não cumpriu sua missão”. Havia mesmo um grupo de padres conciliares que se encontrava, às sexta-feiras, no colégio belga, para refletir e tomar atitudes sobre o tema. Fazia parte do grupo o então cardeal de Milão – João Batista Montini, depois Paulo VI, o papa sucessor de João XXIII. Neste momento da transição no papado, o novo Papa prometeu ao grupo: terminado o Concílio lançaria uma carta encíclica, que se chamou Populorum Progressio – sobre o desenvolvimento dos povos, grande eixo eclesial para a Teologia na América Latina, depois conhecida como Teologia da Libertação, porque insistia no desenvolvimento do homem todo e de todos os homens. Daí, a necessidade premente de escolas de Fé e Política para a formação dos cristãos.

Este despertar do Concílio Vaticano II para sua missão no mundo, em diálogo com o mundo e o mundo dos pobres, tem seus precedentes no Ensino Social da Igreja.Nestes tempos de bodas de ouro, destacamos aspectos da encíclica do papa João XXIII a Mater et Magistra2.

Após apresentar a Igreja como Mãe e Mestra, o Papa aponta os trabalhadores e os leigos em geral como protagonistas da ação pela transformação das estruturas injustas na esfera econômica e social... Afirma que a construção de um mundo mais justo é tarefa de todas as pessoas e também das instituições civis nacionais e internacionais, dos estados e dos sindicatos...( MM n.103 e 156). Em termos econômicos e sociais, a novidade da MM foi trazer para o horizonte da questão social, até então praticamente identificado com a questão operária, os graves problemas do setor agrícola e dos trabalhadores do campo; o grito dos que passam fome; a dificuldade do acesso à terra para os que nela trabalham; os desequilíbrios entre a agricultura, a industria e os serviços; e ainda as injustas disparidades entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, vistas como grave ameaça à paz mundial...
2. - O Concílio Vaticano II na América Latina

Tanto o resultado do Vaticano II como as experiências da nossa Igreja levadas ao evento, inclusive a aplicação da DSI, são os pilares para a dinâmica evangelizadora nas últimas décadas, legitimadas pelas Conferências Episcopais da América Latina.

O Vaticano II na América Latina começou com a conferência em Medellin/Colombia, em 1968, que teve a audácia de se intitular: “A Igreja na atual transformação da América Latina, á luz do Concílio”. Foi seguida das conferências em Puebla (México), Sto. Domingo (República Dominica), Aparecida (Brasil)3. Nem tudo tem sido rosas, no entanto.

Na preparação das celebrações dos 50 anos do Concilio, vem sendo chamada a atenção que as mudanças culturais após 68 foram tão profundas que condicionaram a aplicação do Vaticano II a partir daí.

Estes condicionamentos nós os sentimos bem claros no nosso quotidiano.

Padre Comblin, os descreve com maestria na última REB, julho, 20114. Vejamo-las:

a) a crítica radical a todas as instituições estabelecidas e a todos os sistemas de autoridade; b) a contestação ao sistema de compreensão da verdade (a subjetividade crescente querendo que tudo seja discutido e rediscutido); c) a explosão do papel da mulher na sociedade; d) o consumismo desenfreado; e) o capitalismo descontrolado – sem leis...

Claro que tudo isto criou e cria impasses para a Igreja da A.L, porque são focos de tensões e de conflitos para a evangelização, provocando muitas vezes recuos.


3.- Aparecida tenta recuperar ganhos de Medellín com um projeto específico
A 5ª. Conferência L.A, em Aparecida (2007), retoma a consciência continental e o apelo forte de uma Igreja em Estado permanente de missão. Em síntese:5

Aparecida em seus desafios parte da necessidade da atitude de uma permanente conversão pastoral (365), de uma pastoral social estruturada, orgânica e integral (401); de um assumir os novos rostos da pobreza, à luz da opção pelos pobres (402); de uma renovada pastoral urbana (518); de uma renovação eclesial (367): renovar a paróquia (173); criar comunidades eclesiais de base (372); do protagonismo das mulheres na evangelização (458); de uma ação pastoral planejada (372)...

A desafiante proposta de Aparecida traz ainda muitos outros desafios:

- como conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático como nos pede a Gaudium et Spes.

- Como formar missionários/as para atender ao hoje da missão, considerando a pedagogia de Jesus, integrando a “semente (a Palavra de Deus), o semeador (os discípulos missionários) e o terreno adubado para fazer prosperar a semente (condição para que a semente produza fruto)”. Daí a necessidade de formar cristãos missionários para atuar na política em toda sua dimensão como “sublime exercício da caridade”.

- Urgência de uma metodologia para aplicar a preocupação de Aparecida: ”A conversão pastoral das nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de conservação para uma pastoral decididamente missionária” (370).

Cabe aqui a pergunta - o que está significando, como mística prática, o compromisso solene feito em Aparecida em 2007: ”Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio. Hoje queremos ratificar e potencializar a ação preferencial pelos pobres feita nas Conferências anteriores. Que seja preferencial implica que deva atravessar todas as estruturas e prioridades pastorais. A Igreja latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos?” (396).

Este Projeto de Aparecida é ambicioso, sobretudo porque traz a tona temas da maior importância para a renovação da Igreja hoje, desafio às escolas de Fé e Política.

Dom Demétrio Valentini faz um apanhado das principais intuições de Aparecida6 como sonhos de Dom Helder. Explicita:


  1. O próprio tema de Aparecida: discípulos e missionários de Jesus Cristo;

  2. A Igreja a serviço da vida – “para que em Cristo nossos povos tenham vida”;

  3. A retomada da identidade própria da Igreja da A.L. (DA 9);

  4. Retomada da renovação eclesial iniciada pelo Concilio Vaticano II (DA 100);

  5. A reafirmação da opção preferencial pelos pobres (DA 391-398);

6. Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) – (178-179);

  1. A recuperação do método Ver, Julgar e Agir (19);

  2. A igreja toda em estado de missão (551).

4. - Aparecida e as Diretrizes da ação evangelizadora da Igreja no Brasil

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, a cada quatro anos, são um apelo à renovação da evangelização: como agir melhor, como aprofundarmos nossas atitudes no compromisso evangélico, como buscarmos luzes na noite da complexidade do mundo em que vivemos no nosso país. As novas Diretrizes têm despertado entusiasmo em muitas Igrejas locais – qual uma nova aurora que desperta. O mundo e a Igreja no Brasil de hoje têm necessidade deste entusiasmo para um novo vigor.

Um poema de Dom Helder nos motiva a despertar para esta busca contínua de fidelidade às novas auroras que surgem (Do programa matinal na Rádio Olinda):

“Tão escuro ainda!

E as horas se arrastando...

Não haverá perigo

De a Noite emendar com a Noite?

Galos todos, que despertais a Aurora, cantai!

Mais alto ainda!

É terrível! Quando a própria Madrugada

Não desperta e não nos desperta!”
Ganhos significativos das últimas Diretrizes (2011-2015)



  1. As eleições da direção da CNBB conseguiram eleger uma boa diretoria; o novo secretário geral quer valorizar muito as Diretrizes, valorizando o planejamento pastoral.

  2. Vejamos alguns ganhos no conteúdo das atuais Diretrizes:

- insiste em que vivemos em mudança de época;

- que colocar a Igreja em estado de missão(missão no campo da política);

- o texto é leve e claro na busca de unidade pastoral.;

- a Centralidade de Jesus Cristo.;

- a Luz da Palavra de Deus, nas pegadas do último Sínodo sobre a Bíblia;

- Retorno ao Planejamento Pastoral e ao método – Ver, julgar e agir.


Destaco dois textos fundamentais para o nosso objetivo na relação fé-política:

“Contemplando os diversos rostos de sofredores, desta Terra de Santa Cruz, especialmente, os “novos rostos dos pobres” o discípulo missionário enxerga, em cada um, o rosto de seu Senhor: chagado, destroçado, flagelado (Is 52,13ss). Seu amor por Jesus Cristo e Cristo Crucificado (1Cor 1,23-25) leva-o a buscar o Mestre em meio às situações de morte (cf. Mt 25,31-46). Leva-o a não aceitar tais situações de morte, sejam elas quais forem, envolvendo-se na preservação da vida. O discípulo missionário não se cala (...) diante da vida sem alimentação, casa, terra, trabalho, educação, saúde, lazer, liberdade, esperança e fé. Torna-se, deste modo, alguém que sonha e se compromete com um mundo onde seja, efetivamente, reconhecido o direito a nascer, crescer, constituir família, seguir a vocação, crer e manifestar sua fé, num mundo onde o perdão seja a regra; a reconciliação, meta de todos; a tolerância e respeito, condição de felicidade; a gratuidade, vitória sobre a ambição. O discípulo missionário reconhece que seu sonho por vida eterna leva-o a ser, já nesta vida, parceiro da vida e vida em plenitude. Daí “ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres”, “implícita à fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”. e que deverá “atravessar todas as suas estruturas e prioridades pastorais” manifestando-se “em opções e gestos concretos”.(n.69)


...” Importante campo de ação, hoje, é educar para a preservação da natureza e o cuidado com a ecologia humana, através de atitudes que respeitem a biodiversidade e de ações que zelem pelo meio-ambiente. Entre essas ações, destaca-se a preservação da água, patrimônio da humanidade, evitando sua privatização, do solo e do ar. O esforço por maior crescimento econômico deve ser orientado para o desenvolvimento sustentável. Incentive-se cada vez mais a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, promovendo-se formação permanente e ações concretas. Incentive-se a participação, ativa e consciente, nos Conselhos de Direitos. Quer promovendo, quer se unindo a outras iniciativas, incentive-se a participação em campanhas e outras iniciativas que busquem efetivar, com gestos concretos, a convivência pacífica, em meio a uma sociedade marcada por violência, que banaliza a vida. Sobretudo no mundo de hoje, com a crise da democracia representativa, cresce a importância e, portanto, a necessidade da colaboração da Igreja, no fortalecimento da sociedade civil, na participação em iniciativas de controle social, bem como no serviço em prol da unidade e fraternidade dos povos, especialmente da América Latina e do Caribe, como sinal efetivo de paz e reconciliação” (n. 112-115).

Desafios às Escolas de Fé e Política após as últimas Diretrizes
É certo que as Diretrizes fizeram uma leitura sólida das mudanças culturais da realidade brasileira nos últimos anos. Precisamos complementar a conjuntura apresentada com a sensibilidade para as novas questões sociais e deficiências com busca de solução. Só assim, oferecemos nossa contribuição para a Igreja realizar sua missão profética.

Poderíamos também ter presente os condicionamentos internos da Igreja – tensões eclesiológicas, centralismo eclesiástico, tentação de internalização da sua ação, acomodação.

Como complemento, confiram trechos da entrevista com a professora Maria Sarah da Silva Telles, da PUC-Rio, concedida por e-mail à IHU On-Line7.

A  questão social relegada aos mínimos sociais -  (Do IHU, 12/09/2011)

IHU On-Line – Qual a sua avaliação de programas sociais do governo como SUAS (Sistema Único de Assistência Social), Bolsa Família e Brasil sem Miséria?

Maria Sarah da Silva Telles – Sobre o SUAS, trata-se da regulamentação de uma exigência da Constituição de 1988, criando o Sistema Único de Assistência Social, que é de responsabilidade do Estado. Trata-se de um grande avanço, mais uma conquista da Constituição Federal de 1988, que tardiamente é regulamentada: o direito de todas e todos que necessitem de assistência, um direito de cidadania.

Quanto ao Bolsa Família, programa do governo Lula que unificou e ampliou as políticas sociais para os miseráveis, trata-se de uma política focalizada que tem algumas restrições, se comparada com as políticas universalistas. Trata-se também de mínimos sociais – como a Assistência Social – para aqueles e aquelas que não possuem condições mínimas para a sobrevivência: renda de até 140 reais por pessoa/mês, o que dá menos de 5 (cinco) reais por dia. Quando a pessoa/criança/adolescente/idoso ultrapassa este limite, o benefício é suspenso. Estamos falando de valores muito baixos: quem, por exemplo, dispõe de 6 (seis) reais por dia, já não tem direito ao benefício.

Quanto ao Brasil sem Miséria, resultado da constatação da permanência de uma enorme miséria no Brasil, pretende ampliar o Programa Bolsa Família e incluir outros investimentos que já existem ou existiram, como o acesso aos serviços (eletricidade, saneamento, água) e a inclusão produtiva, com a qualificação profissional e talvez a obrigatoriedade do trabalho voluntário.

IHU On-Line – Recentemente foi divulgado que o Brasil tem mais de 16 milhões de pessoas em extrema pobreza. Por que o país, apesar de se desenvolver, ainda continua registrando grande número de pessoas que vivem na miséria?

Maria Sarah da Silva Telles – Aqui, talvez, esteja o nó da questão social: apesar de quase oito anos do Programa Bolsa Família, temos a constatação pelo Censo de 2010 de uma enorme miséria, ou pessoas que vivem em extrema pobreza. A resposta é simples, mas o diagnóstico ou a solução é complexa, pois remete ao enfrentamento do tipo de desenvolvimento que estamos implementando, bem como da política econômica em curso: tudo converge para o aumento da riqueza do capital financeiro, tudo se dirige para a geração de lucros astronômicos, como “jamais antes neste país” conhecemos.

Mas a questão social fica relegada aos mínimos sociais, à ajuda para evitar o colapso social, para que os pobres não se revoltem, permaneçam confiantes de que os governos estão atentos às suas demandas. Será que, de fato, estão? Se estivessem, o Brasil seria muito mais justo, com muito mais cidadania para todos e todas (...)



IHU On-Line – O governo criou este ano o Bolsa Verde, componente do programa Brasil sem Miséria que tem como objetivo estimular a proteção ao meio ambiente. De que forma o programa pode melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem no meio rural?

Maria Sarah da Silva Telles – Trata-se de mais um programa pontual, que pode gerar alguma melhoria, mas não vai resolver a situação do pobre no campo. A consciência ambiental é crucial, tem de ser uma prioridade para toda a sociedade. Mais uma vez estamos condicionando o acesso a uma ajuda mínima a certas condicionalidades que acabam por impedir que todos tenham acesso ao benefício: trata-se de um direito de todo cidadão brasileiro.

Conclusão – nós chamados/as a ser missionários/as no mundo da política

Aparecida e as Diretrizes da Igreja no Brasil insistem em colocar a Igreja em estado de missão. Para levarmos isto à prática temos que descobrir modelos missionários como sinais de esperança para o mundo de hoje, conscientes de que os testemunhos falam mais que as palavras, como nos dizia o papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi. Para muita gente o único contato com a Palavra de Deus é o testemunho de cristãos como palavra viva e eficaz.

Este testemunho de cristão na política deve ter presente os paradigmas tomistas (busca da ética e d a caridade social) e os paradigmas agostinianos (estruturas de pecado a superar na perspectiva do Reino de Deus) como vimos no início da exposição, considerando a política como campo privilegiado para a missão.

Termino apresentando um modelo de missionário para os nossos dias – Dom Helder Câmara, descrito pelo padre Comblin:

...”Depois de 1968 ele foi o bispo católico mais conhecido no mundo, mais vezes mencionado nos jornais ou nas revistas e mais vezes mostrado na TV do Primeiro Mundo. As próprias agressões do governo brasileiro e das classes dirigentes do Brasil serviram para torná-lo mais famoso. Se a primeira qualidade de um missionário é estar presente e ativo no mundo, dom Helder era missionário. Teve oportunidade de falar em muitos ambientes alheios à Igreja católica. Sempre aproveitou para propor a doutrina social da Igreja, tão desconhecida no mundo e tantas vezes deformada por tantos católicos.

Pelo seu testemunho soube dar uma imagem atrativa e simpática do cristianismo a muitas pessoas que não o conheciam ou tinham dele uma visão deformada. Ele mostrou o rosto de uma Igreja comprometida com a dignidade humana e com a libertação dos pobres e dos oprimidos. Foi o autor de uma aproximação de muitas pessoas ou organizações dedicadas à libertação dos povos dominados, com a Igreja. Graças a ele muitos setores anticlericais descobriram que a Igreja era tão comprometida, ou mais comprometida do que eles com a libertação dos pobres. Pois, ele era para muitos a apresentação pública da Igreja. Fora da Igreja não se sabia quantas resistências ele encontrava entre os católicos, começando pela hierarquia. É verdade que para o governo brasileiro e para as classes dominantes ele era considerado um subversivo, um anti-patriota, um traidor, um “comunista”. Porém essas acusações eram um bom sinal. Se ele era atacado pelas forças que oprimiam o povo pela violência das estruturas e das armas, era bom sinal. Assim sempre aconteceu com os profetas. Até certo ponto essas acusações penetravam nas mentes do povo, mas fora do país elas eram reconhecidas como sinal de autenticidade. Na sua diocese o povo, que o conhecia, sempre lhe foi fiel apesar da propaganda contrária da mídia. Os verdadeiros cristãos alegravam-se porque graças a ele e a outros que seguiam o mesmo caminho, a Igreja estava voltando às origens, desligada dos poderosos, fiel à verdade e com coragem para enfrentar a perseguição. A atitude corajosa dele dava a muitos cristãos mais ânimo, mais entusiasmo, mais capacidade de enfrentar os desafios do mundo. Animar os fiéis é também uma missão do profeta e do missionário. O exemplo de dom Helder despertou e estimulou muitos outros”

(Cf. Jose Comblin, - Dom Helder, Missionário).

Padre Ernanne Pinheiro

Secretário executivo do CEFEP




1 Texto, base da CF-1996, números 143 a 146

2 Cf. há excelente material publicado pela Revista do Instituto Humanitas (IHU), da Universidade Unisinos/ RS, com o título “MATER ET MAGISTRA, 50 ANOS: OS DESAFIOS DO ENSINO SOCIAL DA IGREJA DE HOJE”, n.360, de 09.05.2011.

3 A primeira Conferência foi no Rio de Janeiro, em 1955, por ocasião da fundação do CELAM

4 José Comblin, in memoriam, artigo Vaticano II - cinqüenta anos depois, REB, julho de 2011, pg. 629-641.

5 No livro do padre Agenor Brighenti – “A desafiante proposta de Aparecida” – Paulinas, 2007 - há uma síntese fotográfica do documento, com as Implicações para que esta proposta chegue a bom termo.


6 Palestra proferida por ocasião da homenagem da Caritas Nordeste a Dom Helder Câmara, nos cem anos de seu nascimento, em 2009.

7 Maria Sarah da Silva Telles é socióloga, professora e pesquisadora, atualmente na direção do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio. Doutora em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ, é mestre em Sociologia pela Université de Toulouse II, onde também obteve o diploma de Maitrîse em Sociologia, e graduada em Ciências Sociais pela PUC-Rio. Íntegra a rede dos assesores do CEFEP e esposa do nosso professor Ivo Lesbaupin.





©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal